Sábado, 29 de Outubro de 2016

Mall Walk - Funny Papers

Lançado ontem à boleia da Mount Saint Mountain, masterizado por John McBain e produzido e misturado por Monte Vallier nos estúdios Ruminator Audio em São Francisco, Funny Papers é o título do álbum de estreia dos MALL WALK. Refiro-me a um trio formado por Daniel Brown, Nicholas Clark e Rob I. Miller, oriunda da mesma São Francisco e com um cardápio sonoro impregnado com um manancial de efeitos e distorções alicerçadas em trinta anos de um indie rock feito com guitarras bastante inspiradas, algo que ficou já patente logo em outubro de 2014 com S/T, o EP da banda que de tempos em tempos ainda roda com insistência na redação deste blogue.

Os MALL WALK têm tudo aquilo que é preciso para serem uma banda importante do indie rock psicadélico atual. Têm no sol da Califórnia o refúgio perfeito para explorar um hipnotismo lisérgico, com uma forte dimensão espacial, que carateriza a sua música e, de facto, as dez canções de Funny Papers impressionam pela amplitude do trabalho de produção e a procura de uma textura sonora aberta, melódica e expansiva, dentro de um espetro sonoro onde aquela visceralidade algo sombria, típica do punk, costuma ditar cartas. Esta apenas aparente ambivalência está bem expressa na monumentalidade de Street Drugs and Cartoons, canção onde o próprio rock de cariz mais progressivo também está fortemente impresso, em especial na guitarra que conduz o refrão.

Na verdade, o habitual pendor algo lo fi que muitas vezes é percetivel na própria distorção das guitarras em bandas que apostam neste espetro sonoro relacionado com o indie rock mais cru e o punk rock é, neste trio, substituido por um elevado vigor do baixo e também pela chamada deste instrumento para a linha da frente na arquitetura sonora, que tem, frequentemente, as luzes da ribalta e um maior protagonismo, como se percebe, claramente, em Patches, mas também em Call AgainExhauster, três espetaculares tratados de punk rock aditivos, rugosos e viciantes. Mas a sensibilidade dos solos e riffs da guitarra que exibem linhas e timbres muito comuns no chamado garage rock, também não são descurados e em Sleeping In Shits, mas, principalmente, em Protection Spells acabam por ser aquele complemento perfeito que obriga a que seja justo afirmar que os MALL WALK são corajosos e abertos a um saudável experimentalismo. E essa busca de novos caminhos dentro do espetro sonoro que os baliza e que no caso de Sex Negative pisca o olho à psicadelia setentista, nunca inibe o trio de se manter conciso e direto na visceralidade controlada que quer exalar, enquanto prova elevada competência no modo como separa bem os diferentes sons e os mantêm isolados e em posição de destaque, durante o processo de construção dos diferentes puzzles que dão substância às canções.

Se as linhas de baixo sublimes referidas são exemplos da obediência à herança e ao traço contido nos genes dos MALL WALK, é evidente nas distorções das guitarras um posicionamento melódico direcionado para a busca de canções que causem um elevado efeito soporífero, mas que sejam também acessíveis e do agrado de um público abrangente. Death In Small Increments é o exemplo maior deste passo em frente, uma catarse psicadélica, assente numa bateria inspirada que nos faz dançar em loopings divagantes, uma canção onde os MALL WALK apostam todas as fichas numa explosão de cores e ritmos, que nos oferecem um ambiente simultaneamente denso e dançável, que é um verdadeiro compêndio de punk rock despido de exageros desnecessários, mas apoteótico.

Funny Papers sabe a muito pouco, tal é a hipnose instrumental que nos oferece, pensada para nos levar numa road trip pelo deserto com o sol quente na cabeça, à boleia da santa tríade do rock, uma viagem lisérgica através do tempo em completo transe e hipnose. Da psicadelia, ao garage rock, passando pelo shoegaze e agora também pelo chamado punk rock, são várias as vertentes e influências sonoras que podem descrever a sonoridade dos MALL WALK, que acabam de dar um passo bastante confiante, criativo e luminoso na sua já respeitável carreira. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:39
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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016

Noiserv - 00:00:00:00

Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na bagagem um compêndio de canções que fazem parte dos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless Almost Visible Orchestra, adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's Therehavendo, a partir de amanhã, mais um compêndio de canções para juntar a esta lista. Refiro-me a um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mesmo para o próprio autor, após uma fatalidade originada por um jogo de basquetebol no ocaso do último inverno e que limitando fisicamente Noiserv, devido à fratura de um pé, conduziu-o para a frente das teclas de um piano. Ficaram, assim, lançados os dados para este novo registo que é mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional, de um artista que nos trouxe uma nova forma de compôr e fazer música e que gosta de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera das suas canções e a realidade às vezes tão crua e que ele também sabe tão bem descrever.

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Descrito como a banda sonora para um filme que ainda não existe, mas que pode muito bem servir de mote para um nosso, desde que o queiramos, 00:00:00:00 é uma daquelas armadilhas em que todos nós gostaríamos de cair, caso apreciemos as sensações e o modo como certas canções comunicam connosco, fornecendo-nos inspiração para os filmes que na nossa mente podemos, com elas, produzir. E este é o atributo maior de um trabalho oposto do seu antecessor, que era feito de longos títulos e sonora e visualmente bastante colorido e diversificado, por ser instrumentalmente sustentado num arsenal de instrumentos das mais inusitadas proveniências, muitos deles autênticos brinquedos e porque graficamente também obedecia a essa premissa. 00:00:00:00 é absolutamente minimal, incrivelmente simples, estupendamente crú e, por isso, aberto e (de outro modo) desafiante no modo como nos convida a exercitarmos a tal apropriação acima referida. 

Assim, se Almost Visible Orchestra contava histórias, algumas delas inspiradas em eventos reais, fazendo-o de modo concreto e incrivelmente realista, agora Noiserv sobe um patamar acima no arrojo que coloca no modo como se quer relacionar com os seus seguidores, oferecendo-lhes o inesperado, algo que à primeira audição parece o oposto daquilo a que sempre os habituou. Mas o que ele realmente faz é, obedecendo à filosofia conceptual da sua carreira e, certamente, da sua personalidade, que sempre buscou, deliciosamente, a melancolia, os afetos, a emotividade, a saudável ingenuidade genuína e o louvor do bem e do encontro da felicidade concreta através da experimentação do bem comum, desafiar-nos a darmos-lhe as mãos e sermos nós também, através da audição deste disco, construtores e definidores deste ideário, imaginando as tramas e a mensagem subjacente a cada um destes oito temas, cujos títulos podem muito bem ser o numeral referente a cada um dos takes por nós idealizados.

É curioso constatar o acerto temporal em que 00:00:00:00 chega aos escaparates, fazendo-o em pleno outono tardio, dando-nos tempo para, vagarosamente, selecionarmos toda a trama, cenários e personagens, que depois desfilarão perante nós e perante quem comungue connosco todo o calor que, potencialmente, este alinhamento contém e que o inverno prestes a chegar certamente exigirá e agradecerá que seja vivido.

Confesso que já me apropriei de Sete, o meu número preferido, um doce e tocante instrumental, com um imenso travo a melancolia, perigoso e de lágrima fácil para todos aqueles que habitualmente divagam e exorcizam ao som de um lindíssimo piano, para primeira cena do meu filme. Convido-vos a fazerem o mesmo e a deixarem-se levar, sem reservas, por este universo bucólico bastante impressivo e sentimentalmente rico, que marca um regresso aos discos imperdível e claramente inspirado de um músico, intérprete e compositor único no nosso panorama musical. Lá no alto, sei que alguém já o faz. Espero que aprecies a sugestão...

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Três

Sete

Seis

Quinze

Onze

Vinte e Três

Catorze

Dezoito


autor stipe07 às 21:09
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016

Bruno Pernadas - Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them

Com ampla formação musical (Escola do Hot-Club de Portugal e Escola Superior de Música de Lisboa), Bruno Pernadas é um músico versátil. Autor, arranjador e guitarrista nos projetos Julie & the Carjackers, When We Left Paris e Suzie´s Velvet, guitarrista no Real Combo Lisbonense e improvisador rodado, Bruno tem também composto e tocado em vários projectos de artes performativas. How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge? foi o seu disco de estreia a solo, um extraordinário trabalho, composto e produzido pelo próprio em 2014 e que contou com a participação de vários músicos, entre os quais João Correia (Julie & the Carjackers, Tape Junk), Afonso Cabral (You Can’t Win, Charlie Brown), Francisca Cortesão (Minta & the Brook Trout, They’re Heading West) e Margarida Campelo (Julie & the Carjackers, Real Combo Lisbonense). Ano e meio depois dessa auspiciosa estreia, Bruno Pernadas está de regresso com Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them, à boleia da Pataca Discos.

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Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them é uma sequência da sonoridade apresentada em How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge? e que nos permitiu contactar com uma variedade imensa de instrumentos de cordas, metais e sopro, além da percurssão. Dos violinos às guitarras e ao violoncelo, passando pelo trombone, trompete e flauta, Bruno Pernadas presenteou-nos nesse alinhamento com um amplo panorama de descobertas sonoras, numa espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito da novidade, que agora se repete, em dez canções que foram gravadas nos Estúdios 15A, com a colaboração de João Correia, Nuno Lucas, Margarida Campelo, Afonso Cabral, Francisca Cortesão, Diogo Duque, Diana Mortágua, João Capinha e Raimundo Semedo.

Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them oferece-nos um delicioso caldeirão sonoro, onde as composições vestem a sua própria pele enquanto se dedicam, de corpo e alma, à hercúlea tarefa comunicativa que o autor designou para cada uma, individualmente. E fazem-no fervilhando de emoção, arrojo e astúcia, enquanto vêm potenciadas todas as suas qualidades, à medida que Pernadas polvilha o conteúdo das mesmas com alguns dos melhores tiques de variadíssimos géneros e subgéneros sonoros, cabendo, no desfile dos mesmos, liderados pelo jazz contemporâneo, indie rock, pop, folk, eletrónica, ritmos latinos e até alguns lampejos da música dita mais clássica e erudita.

Assim, o exercício que se coloca perante o ouvinte que se predispõe a saborear convenientemente o universo criado por those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them, deverá firmar-se, por exemplo, em Spaceway 70, na vontade de apreciar o modo como uma flauta ou um trompete cirandam em redor de um par de acordes da guitarra, como em Problem number 6 se equilibram com total desembaraço, flashes de samples, alguns sopros que gostam de jogar ao esconde esconde, uma guitarra em contínuo e inquieto frenesim e instrumentos percussivos a tresandar a samba por todos os poros, como na soul contemplativa de Valley in the ocean é dada total liberdade ao piano e às cordas para provocarem em nós uma agradável e viciante sensação de letargia e torpor, o modo como o trompete, o sintetizador e um efeito de guitarra quase surreal produzem um intenso travo oriental e exótico em Anywhere in spacetime, o devaneio cavernoso lo fi das teclas de Because it’s hard to develop that capacity on your own, o ménage a trois desavergonhado e feito cópula, à vez, entre trompete, piano e flauta em Galaxy, ou de perceber a teia intrincada de relações promíscuas que se estabelecem, constantemente, durante os mais de doze minutos de Ya ya breathe, entre as teclas do piano, as distorções da guitarra e os diferentes instrumentos percussivos que se escutam, enquanto o baixo, procura estabelecer alguma ordem e harmonizar um salutar caos, numa composição que sobrevive num terreno experimental e até psicadélico e onde a fronteira entre a heterogeneidade instrumental e melódica final e o (aparente) minimalismo inicial é geralmente indecifrável. Com esta atitude certa, constata-se, então, que those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them é um ponto de partida para muitas emoções agradáveis, por ser, curiosamente, o ponto de chegada de muitas porções de um mundo onde é possível sentir, sonoramente, diferentes cheiros e sabores, enquanto se aprecia composições de diferentes cores, intensidades e balanços, que desafiam e apuram todos os nossos sentidos.

Saboreando poemas escritos em inglês pelo autor do disco e por Rita Westwood, those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them coloca-nos à prova à medida que diante de nós escorre aquilo que o género humano tem de mais genuíno e seu, enquanto Pernadas disserta alegremente e claramente fascinado pelo lado mais luminoso, colorido e natural deste mundo, sobre uma heterogeneidade de sensações e aspetos físicos e naturais que o atraem e que, em contacto com a espécie humana, obriga todas as partes envolvidas a diferentes processos adaptativos, o que resultou numa multiplicidade de raças, experiências e estádios de desenvolvimento que hoje caraterizam a nossa cultura e a nossa essência e que estas dez canções também, à sua maneira, plasmam. E durante este exercício antropológico, o autor aproveita para estabelecer paralelismos com o amor e a teia intrincada de relações, sensoriais e neurológicas que esse sentimento provoca, quer individualmente, quer durante a sua materialização com outro(s), com canções do calibre das já descritas Problem number 6 ou Valley in the ocean a fazerem-nos crer que se há sentimento mais belo e capaz de nos transformar e fazer-nos ver com exatidão o mundo que nos rodeia é a vivência plena do amor. Espero que aprecies a sugestão…

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01. Poem (1)
02. Spaceway 70
03. Problem Number 6
04. Valley In The Ocean
05. Anywhere In Spacetime
06. Poem (2)
07. Because It's Hard To Develop That Capacity On Your Own
08. Galaxy
09. Ya Ya Breathe
10. Lachrymose


autor stipe07 às 18:00
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2016

The Flaming Lips – The Castle

The Flaming Lips - The Castle

Uma das bandas fundamentais e mais criativas do cenário musical indie e alternativo são, certamente, os norte americanos The Flaming Lips, de Oklahoma. Há quase três décadas que gravitam em torno de diferentes conceitos sonoros e diversas esferas musicais e em cada novo disco reinventam-se e quase que se transformam num novo projeto. Oczy Mlodly é o nome do próximo trabalho deste coletivo liderado pelo inimitável Wayne Coyne e será mais um capítulo de uma saga alimentada por histórias complexas (Yoshimi Battles the Pink Robots), sentimentos (The Soft Bulletin) e experimentações únicas (Zaireeka) e ruídos inimitáveis (The Terror).

A treze de janeiro de 2017 chegará aos escaparates essa nova coleção de canções dos The Flaming Lips, por intermédio da Warner, e The Castle é o primeiro avanço divulgado do álbum, uma extraordinário tratado de indie pop etérea e psicadélica, de natureza hermética, que aproxima este projeto da melhor fase da sua carreira, no ocaso do século passado e início deste. Confere...


autor stipe07 às 23:27
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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2016

Kings Of Leon - Walls

Os norte americanos Kings Of Leon, dos três irmãos Followill e do primo, estão de regresso aos discos com Walls, o sétimo disco da carreira deste quarteto que se estreou extamente há quase década e meia com o excelente Youth & Young Manhood, para mim ainda o melhor disco desta banda natural de Nashville, no Tennessee.

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Disco após disco os Kings Of Leon têm procurado nunca seguir um fio condutor homógeneo e bem definido, ou seja, Caleb e companhia, dentro do universo indie rock, já experimentaram de tudo um pouco para descobrir a fórmula perfeita que possa fazer deles uma das bandas mais importantes e influentes do mundo, musicalmente falando e sem olhar para a componente comercial. Assim, para quem, como eu, conhece com algum rigor a discografia dos Kings Of Leon é interessante escutar Walls e perceber que estamos na presença de um disco que, enquanto procura apontar novos caminhos mais reflexivos, faz uma espécie de súmula da carreira de uma banda que, na minha opinião, tem vindo a decrescer de qualidade disco após disco, ao mesmo tempo que, curiosamente, ganha maior relevância como banda de estádio. Mas isto é apenas uma mera questão de gosto pessoal e aceito perfeitamente que existam opiniões divergentes da minha. Agora, o que me parece unânime e fácil de aceitar por todos aqueles que, como eu, acompanham a carreira dos Kings Of Leon, é perceber que não há um fio condutor homógeneo e bem definido no cardápio musical do grupo, ou seja, Caleb e companhia, dentro do universo indie rock, já experimentaram de tudo um pouco para descobrir a fórmula perfeita que possa fazer deles uma das bandas mais importantes e influentes do mundo, musicalmente falando e sem olhar para a componente comercial.

Tendo em conta o excelente baixo e as guitarras de Waste A Moment, um dos grandes temas de Walls, e a imponência orquestral do edifício melódico que envolve esta canção com um refrão avassalador, percebe-se, desde logo, que, como já referi, nesta nova etapa foi dada primazia a uma faceta algo sonhadora e romântica, que se aplaude e que é também fruto de uma produção cuidada. E ao escutar-se o modo como em Reverend o baixo volta a ser preponderante na condução da canção e como em Around The World é permitido à guitarra e à bateria que fluam livremente, enquanto planam sobre o instrumento de três cordas, fica mais claro que, desafiando o que de melhor fizeram na carreira, os Kings Of Leon chegam a este sétimo disco sem usarem temas e sons reaproveitados, ou um simples verniz feito com arranjos em músicas já divulgadas, mas antes com a atitude corajosa de querem evitar ao máximo castrar a extraordinária capacidade criativa que o grupo demonstrou, nomeadamente no início da carreira, em Youth & Young Manhood e Aha Shake Heartbreak.

Até ao ocaso de Walls, no cerrar de punhos de Find Me, um monumental tratado de rock feito à medida de grandes e efusivas plateias, na encantadora tonalidade de Conversation Piece, ou na complacência do tema homónimo, desfila um alinhamento que se escuta com interessante fluidez e que prova, como referi, que se os The Strokes e os Yeah Yeah Yeahs, entre tropeços e acertos, piscaram o olho aos anos oitenta, se os Franz Ferdinand abraçaram o krautrock e os sintetizadores, se os Arctic Monkeys foram em busca da soul e do R&B, se os Bloc Party resolveu namorar com a eletrónica e até os Coldplay buscaram novos ares em Ghost Stories e A Head Full Of Dreams, estes Kings Of Leon não quiseram ficar atrás e têm aqui um disco que certamente os catapultará para uma posição de relevo no panorama musical alternativo, com um das bandas mais influentes do indie rock. Espero que aprecies a sugestão...

Kings Of Leon - Walls

01. Waste A Moment
02. Reverend
03. Around The World
04. Find Me
05. Over
06. Muchacho
07. Conversation Piece
08. Eyes On You
08. Wild
09. WALLS


autor stipe07 às 17:55
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Sábado, 22 de Outubro de 2016

Coloured Clocks – Test Flight

Uma das bandas mais profícuas e fundamentais do universo sonoro indie e alternativo australiano são os Coloured Clocks de James Wallace, um projeto oriundo de Melbourne, com já meia década de existência e seis lançamentos no cardápio e curioso pelo modo como disponibiliza a sua música, sempre com o formato digital disponível gratuitamente no bandcamp da banda. Mas estes Coloured Clocks merecem destaque principalmente pelo modo inteligente e eficaz como compôem canções. Falo de composições sonoras que, se por um lado não defraudam a herança identitária do ideário sonoro que instiga Wallace a compôr, por outro, mostram um autor e um projeto no auge de uma carreira sustentada por um indie progressivo e psicadélico, com fortes reminiscências do rock da década de setenta, mas sem pôr de lado o que de melhor se propôe atualmente, inspirado nesse universo musical.

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Já depois de no início deste ano terem chamado a atenção com Particle, estão de regresso ainda antes do ocaso de 2016, com Test Flight, mais doze excelentes temas, inseridos no espetro sonoro acima descrito, da autoria de uns Coloured Clocks que se estrearam nos lançamentos com o EP Where To Go, em julho de 2011, ao qual se seguiu Zoo, o disco de estreia, lançado em janeiro de 2012. No final de 2012 deram a conhecer mais um novo álbum, intitulado Nectarine e logo depois, em 2014, All Is Round, uma espécie de álbum interativo, que pedia para ser escutado na sequência que entendessemos, já que o início pode ser o fim ou o meio, ou seja, as canções circulavam livremente e isso só não era concreto porque estavam presas à realidade lógica da indispensável sequência numérica do disco.

Test Flight deve ser ouvido na íntegra atentamente e apreciado como um todo, apesar de saltar ao ouvido composições como a contemplativa e cósmica Everything's Right, a inebriante e divertida Lose That Girl, ou a sedutora Building A Star, canção que se aconchega nos nossos ouvidos e cola-se à pele com o amparo certo para que se expresse a melíflua melancolia que Wallace certamente quis que deslizasse dela, já que o mistério é, também, um elemento estruturante da filosofia sonora dos Coloured Clocks. A heterogeneidade rítmica de One Tomorrow Away também merece audição dedicada, devido ao modo almofadado como uma bateria em constante vaivém, a voz ecoante e um agregado de guitarras mágicas se manifestam com uma mestria instrumental vintage única. Depois Never Young também aposta em mudanças de ritmo e sobreposições com elementos sintéticos, numa toada mais diversificada, sendo um dos temas onde eletrónica e psicadelia se juntam de modo a descobrir novos sons, dentro de um espetro eminentemente pop.

Feito à medida de quem gosta de sonoridades cósmicas e psicadélicas mais ligeiras e sempre com um fundo de epicidade e emoção à flor da pele, Test Flight aposta numa receita simples mas tremendamente efica, onde reina uma estrutura melódica tradicional, riffs de guitarra luminosos, bem acompanhados pela bateria e por sintetizadores flutuantes e poderosos que nos conduzem a um universo lisérgico e tortuoso, mas cheio de cor, numa espécie de simbiose entre a pop e o experimentalismo. Escrito, produzido, gravado e misturado pelo próprio James Wallace, Test Flight contém uma aúrea resplandescente e romântica invulgares e espelha uma feliz revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico proposto há mais de quatro décadas por gigantes que se entregaram ao flutuar sonoro da lisergia. Espero que aprecies a sugestão...

Coloured Clocks - Test Flight

01. Everything’s Right
02. You Belong There
03. Never Be
04. Lose That Girl
05. Building A Star
06. What Has Happened
07. One Tomorrow Away
08. Never Young
09. If You’ve Lived Your Life
10. The Special Man
11. Saturday
12. Dreaming At Luna Park


autor stipe07 às 14:31
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Quarta-feira, 19 de Outubro de 2016

Field Music - Commontime

Lançado em fevereiro deste ano, Commontime é o sexto registo de originais dos britânicos Field Music, uma dupla oriunda de Sunderland e formada pelos irmãos Peter e David Brewis. Abrigados pelo insuspeito selo Memphis Industries, nestas catorze canções oferecem-nos um charmoso compêndio de pop hi-fi, colorido a neons fluorescentes e plumas de seda e repleto de influências orelhudas, que da eletrónica setentista ao rock da década seguinte, misturadas com alguns dos melhores detalhes da pop contemporânea, originam um disco amplo e luminoso e particularmente cativante, em termos melódicos e não só.

Sustentado por um ambiente musical polido e acessível, Commontime contém aquele som pop instantâneo, mas prodigioso no modo como se apresenta envolvido por um embrulho melódico animado por uma estética sonora livre de complicações e arranjos desnecessários e, por isso, passível de ser absorvido com detalhe e nitidez, sem colocar em causa aquela sensação de riqueza, esplendor e eleavada bitola qualitativa.

Já veteranos nestas andanças, os irmãos Brewis contam-nos aqui como é o quotidianos de ambos, pais recentemente, com familias estuturadas formadas e que, por isso, têm vidas ditas normais e comuns a tantos de nós. Sendo assim, é relativamente fácil identificarmo-nos com estas canções e em algumas delas nem falta aquele típico humor negro britânico, todas escritas com uma inteligência lírica rara. Assim, sem darmos por isso, estas canções são cativantes e, ao mesmo tempo, carinhosas no modo como nos transportam para os nossos primórdios tal é o manancial vintage instrumental e melódico que carregam, o que resulta numa bela amostra da melhor pop anglo americana que se faz atualmente, que tanto pisca o olho ao funk setentista em Don't You Want To Know What's Wrong? e How Should I Know If You've Changed? como à pop dita mais progressiva dos anos setenta e oitenta, com os Sparks ou os Genesis como referência fundamental de The Noisy Days Are Over, o grandioso tema que abre o álbum e de outros instantes pop perfeitos, nomeadamente Disappointed, But Not For You e I'm Glad, bons exemplos da mestria compositória destes Field Music.

Banda sonora de uma passerelle onde desfilamos as nossas vidas de queixo levantado e olhar altivo, certos que vivemos num mundo onte tudo está no lugar certo e nada nos acontece por acaso, Commontime parece algo suspenso no tempo, oferecendo-nos uma apresentação irrepreensível de como a música popular e dita de massas por também ser bem tocada e parecer inteligente, harmoniosa e particularmente tocante. Espero que aprecies a sugestão...

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01 The Noisy Days Are Over
02 Disappointed
03 But Not For You
04 I'm Glad
05 Don’t You Want To Know What's Wrong?
06 How Should I Know If You've Changed?
07 Trouble At The Lights
08 They Want You To Remember
09 It's A Good Thing
10 The Morning Is Waiting
11 Indeed It Is
12 That's Close Enough For Now
13 Same Name
14 Stay Awake


autor stipe07 às 21:42
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Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

Terrakota - Oxalá

Já chegou aos escaparates Oxalá, o novo registo de originais dos Terrakota, um coletivo sedeado na capital do antigo império, mas de setas apontadas para os quatro cantos de um planeta cada vez mais pequeno e global e culturalmente e etnicamente díspar. E se em pleno arranque do século XXI esta realidade apresenta-se como um facto incontornável, tal deve-se, sem sombra de dúvida, à coragem e à perseverança de um pequeno povo que há alguns séculos sulcou novos mares e descobriu outras culturas, saberes e tradições, que estes Terrakota plasmam, com notável vibração e autenticidade, neste Oxalá.

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Gravado nos estúdios dos próprios Terrakota e nos estúdios GroundZero e TooLate, Oxalá é uma edição completamente independente e conta com as participações de Vitorino, Mahesh Vinayakram, Selma Uamusse, Anastácia Carvalho e Florian Doucet entre outros. Este novo capítulo da discografia dos Terrakota tem como ponto de partida Lisboa, faz um pequeno e curioso desvio pelo coração do Alentejo na introdução do tema homónimo e depois, assume-se como ponto de chegada de muitas porções de um mundo onde é possível sentir, sonoramente, diferentes cheiros e sabores, enquanto se aprecia composições de diferentes cores, intensidades e balanços, que desafiam e apuram todos os nossos sentidos.

Saboreando poemas escritos em português, inglês e francês, Oxalá coloca-nos à prova à medida que diante de nós escorre aquilo que o género humano tem de mais genuíno e seu e disserta sobre o modo como diferentes territórios e porções de um planeta que foi beijado um dia pelo intrépido português, faculta uma heterogeneidade de sensações e obrigou aos nativos a diferentes processos adaptativos, o que resultou numa multiplicidade de raças, experiências e estádios de desenvolvimento que hoje caraterizam a nossa cultura e a nossa essência.

Não é assim tão ousado afirmar que a música dos Terrakota é um exercício antropológico, com tudo aquilo que de interessante e revelador tem, forçosamente, um documento sonoro que permite tal desiderato. Sendo o artwork do disco, da autoria de Alexandre Louza, logo à partida, revelador das reais intenções deste coletivo, é no gira giro do mundo que a humanidade se desvenda, como se pode escutar no tema que abre Oxalá, mas também na distância que separa a vibração do violão da cadência das congas e do treme terra em Entre O Céu E A Terra. E se enquanto passamos dessa Gira Giro a Jah Flow viajamos, num ápice, da Índia à Jamaica, já em Mexe Mexe e Bankster é numa ruela lamacenta mas cheia de cor de Luanda ou da Praia que aterramos, mesmo no ventre daquela África que tanto nos ofereceu ao longo de seis séculos de intercâmbios e histórias nem sempre pacíficas, mas ainda hoje marcantes e impressas num povo que vivendo à beira mar plantado deve ao continente negro, como referi acima, uma elevada quota parte do seu adn atual.

Disco feito demanda e oferenda de diferentes cheiros e emoções e, conforme se percebe em Entre o Céu E A Terra, um trabalho que também serve para nos explicitar como esta evolução tem um lado negro e nefasto, nele os Terrakota, como banda de intervenção que são, assumidamente, querem-nos fazer refletir nesse sofisma, algo audível, por exemplo, nesse tema quando se escuta Já Veio Expulso da Índia! Lá teve falha o seu plano. Depois de ir minar o Brasil, foi pegar o Jamaicano. Oxalá abre, por todas estas e tantas outras boas razões, um novo capítulo da vida de uns Terrakota renovados e com uma abrangência sonora ímpar no panorama musical nacional. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 22:57
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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2016

Kaiser Chiefs - Stay Together

Depois de há pouco mais de dois anos os britânicos Kaiser Chiefs terem editado Education, Education, Education & War, o quinto álbum da carreira, a banda liderada pelo carismático Ricky Wilson e que conta atualmente na sua formação também com Andrew White, Simon Rix, Nick Baines e Vijay Mistry, está de regresso, em 2016, com Stay Together, um novo registo de originais que viu a luz do dia a sete de outubro último, através da Caroline Records e que foi produzido por Brian Higgins (Girls Aloud, Pet Shop Boys, New Order) e misturado por Serban Ghenea (Rihanna, Beck, Taylor Swift, Justin Timberlake).

kaiser-chiefs

Depois da politica e do belicismo terem feito parte do ideário lírico de Education, Education, Education & War, o amor é o tema central na escrita e nas emoções que transbordam das onze canções de Stay Together. Mas há também, em 2016, uma inflexão sonora nos Kaiser Chiefs, que agora calcorreiam territórios sonoros mais próximos da pop, em deterimento do indie rock que popularizou este projeto, como se percebeu já há alguns meses quando foi divulgada Parachute, a primeira amostra conhecida do álbum. Assim, a pop sintetizada, assente numa mesca de teclados e guitarras com a habitual tonalidade grave e imponente da secção ritmíca deste quarteto e uma composição eminentemente polida e luminosa, é a grande força motriz de composições com o habitual acerto melódico e, por isso, contagiante e radiofónico, do grupo.

Canções do calibre de We Stay Together, uma canção onde o etéreo e o majestoso se confundem insistentemente nos efeitos, na batida e num esporádico falsete de Ricky Wilson, também em destaque na divertida High Society, a dançável Hole In My Soul, que contém alguns curiosos violinos que conferem à composição um indisfarçável charme, a caliente e sorridente Good Clean Fun, ou o já citado single Parachutes, assim como a belíssima e tocante balada Indoor Firework e a melodicamente feliz e inspirada alegoria rock oitocentista Why Do You Do It to Me?, são marcas impressivas deste novo ajuste conceptual dos Kaiser Chiefs e o modo interessante como conseguiram abrir novas portas, sem colocarem em causa o nível qualitativo da sua herança. Depois, a  batida de Press Rewind e a grandiosidade de Happen In A Heartbeat conseguirão, certamente, oferecer à banda e aos fãs excelentes momentos ao vivo, principalmente quando tal se verifique em grandes multidões.

Com o superior sentimentalismo de Still Waiting termina um alinhamento feliz porque além de ter aquele efeito de novidade que permite revitalizar a imagem do grupo e o sucesso do mesmo, abre aos Kaiser Chiefs, como já referi, novas portas que mesmo que não definam ao certo qual o trilho sonoro do futuro do grupo, servirão, pelo menos, para engrandecer e diversificar um histórico discográfico cada vez mais eficaz para que o percurso da banda seja sempre considerado bem sucedido. Espero que aprecies a sugestão...

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autor stipe07 às 17:32
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2016

Pixies – Head Carrier

Depois de em abril de 2014 ter chegado aos escaparates Indie Cindy, o primeiro disco dos Pixies de Black Francis em vinte e três anos, este projeto formado em 1986 e um nome fundamental para o desenvolvimento do indie rock alternativo, continua a alimentar este segundo fôlego na carreira, ainda sem Kim Deal e com uma nova baixista, Paz Lenchantin. E fá-lo, agora, com doze canções agregadas num novo trabalho, intitulado Head Carrier, que viu a luz do dia no ocaso de setembro último.

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Head Carrier é mais um passo em frente no propósito de Black Francis de apresentar ao público uns Pixies cada vez mais longe do som roqueiro e lo fi do passado, mas sem o renegar totalmente e alinhados com as tendências mais recentes do campo sonoro em que se movimentam, procurando, simultaneamente, aquela salutar contemporaneidade que todos os grupos de sucesso necessitam e precisam, independentemente da riqueza quantitativa e qualitativa da sua herança e também renovar a sua base de seguidores com um público mais jovem, sempre atento e ávido por boas novidades. 

Seja como for, e como de algum modo já referi, o adn dos Pixies não deixa de ser respeitado, mais que não seja pela filosofia melódica e instrumental subjacente ao arquétipo sonoro das canções, um respeito patente no rock cássico de Might As Well Be Gone, no punk de Be Esprit e no rockabilly de Plaster Of Paris . Portanto, não estando propriamente presente em Head Carrier a estética sonora novocentista em todo o seu esplendor, além dos exemplos já citados, canções do calibre da ruidosa Oona ou o riff de guitarra claramente radiofónico de Tenement Song, conseguem, salutarmente, estabelecer pontes e, de certo modo, oferecer novos desafios ao cardápio da banda ao mesmo tempo que não defraudam quem é mais devoto relativamente à história dos Pixies. Aliás, encontrar semelhanças e diferenças entre o clássico Where Is my Mind e All I Think About Now é um exercício particularmente curioso e recompensador.

Head Carrier pode ser, para muitos, apenas mais um sinal de vida de uma banda que insiste em esbracejar sem saber muito bem que rumo seguir e que duas décadas depois achou que poderia voltar a ser relevante já que, tendo em conta o estatuto que construiu, voltar a compôr não pode nunca aspirar a menos que isso, mas há aqui, ainda, acerto criativo, patente na generalidade das canções e que deve ser exaltado por encarnar a coragem do grupo para prosseguir, apesar de todo o historial recente. É um compêndio que demonstra que é capaz de haver ainda uma pequena réstia de esperança para os Pixies e que a opção por continuarem a respirar e a ecoar, se tiver sequência, poderá levá-los a ocupar novamente um lugar de relevo no universo do indie rock alternativo. Espero que aprecies a sugestão...

Pixies - Head Carrier

01. Head Carrier
02. Classic Masher
03. Baal’s Back
04. Might As Well Be Gone
05. Oona
06. Talent
07. Tenement Song
08. Bel Esprit
09. All I Think About Now
10. Um Chagga Lagga
11. Plaster Of Paris
12. All The Saints


autor stipe07 às 20:58
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Terça-feira, 11 de Outubro de 2016

White Lies - Friends

Tema que, de acordo com o baixista Charles Cave, é inspirado em comentários com trechos bíblicos colocados por um indivíduo no instagram, Take It Out On Me foi o primeiro avanço divulgado pelos britânicos White Lies para Friends, o novo registo de originais do trio, que viu a luz do dia a sete de outubro e uma canção certamente escolhido a dedo para entreabrir ao mundo um alinhamento de dez canções que têm a amizade como tema central e que firmam o grupo num lugar de destaque no universo sonoro ocupado pelo revivalismo do post punk e do indie rock. Além de Charles Cave, fazem parte dos White Lies Harry McVeigh e Jack Lawrence-Brown. Este grupo inglês de rock alternativo mantinha-se na penumbra desde 2013, quando apresentaram Big TV, um álbum conceptual que, através de um suposto ecrã mágico, teorizava sobre a nova vida de um casal que se mudava para uma grande cidade. Ess trabalho sucedeu a Ritual, álbum de 2011, tendo a estreia dos White Lies ocorrido em 2009 com o aclamado To Lose My Life.

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Gravado no estúdio de Bryan Ferry, em Londres, Friends impressiona pela exuberância melódica e por um vigor que traz diversos timbres de sintetizador que depois se entrelaçam com as guitarras e com uma bateria pulsante, não só no tema já referido e que abre o disco, mas também no modo como o baixo e a batida de Morning In LA se cruzam com um riff e um flash sintetizado ou, numa outra perspetiva, na alegoria pop oitocentista feita de imponência e de uma elevada dose de sentimentalismo em Is My Love Enough e Right Place, esta última uma enternecedora balada, capaz de arrebatar um estádio inteiro ou o coração mais escondido, lá no canto mais aconchegante do seu quarto. Estes são apenas alguns exemplos de uma receita que assenta em melodias simples mas aditivas, enriquecidas com vozes vigorosas cantadas com o habitual registo grave mas luminoso e que dá vida a letras que muitas vezes se socorrem da mesma métrica nas diferentes músicas.

Há em Friends e relativamente aos álbuns anteriores, algumas nuances que dão ao disco um cunho identitário muito próprio e que representam novos dados relativamente à sonoridade dos White Lies. Além do belíssimo e algo inedito piano de Don't Fall, este álbum aposta claramente num maior equilibrio entre os sintetizadores e teclados com timbres variados e o pulsar das guitarras, talvez em busca de uma toada que não olha apenas para o óbvio comercial mais radiofónico, mas também para uma acolhedora face menos sombria e mais melancólica, algures entre U2 e Depeche Mode. Um bom exemplo disso é Come On, um tema que traz diversos timbres de sintetizador que depois se entrelaçam com as guitarras e com uma bateria pulsante, quase de modo impercetível.

Sonoramente cada vez mais teatrais e até dramáticos, o que potencia, para o bem e para o mal, o seu estatuto, os White Lies dão ao mundo mais dez canções amplamente influenciadas por uma sonoridade já transversal a várias décadas, mas criam as suas próprias personagens que procuram resgatar algo de novo no post punk. Cada um destes temas não tem receio em se desdobrar num permanente conflito entre o vintage e o contemporâneo e mesmo tão embrenhado num som que já se firmou há trinta anos, Friends tem um refinamento muito próprio e bastante atual. Espero que aprecies a sugestão...

White Lies - Friends

01. Take It Out On Me
02. Morning In LA
03. Hold Back Your Love
04. Don’t Want To Feel It All
05. Is My Love Enough
06. Summer Didn’t Change A Thing
07. Swing
08. Come On
09. Right Place
10. Don’t Fall


autor stipe07 às 16:44
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Domingo, 9 de Outubro de 2016

Helado Negro - Private Energy

Helado Negro é um projeto que me é muito querido, liderado por Roberto Carlos Lange, um filho de emigrantes equatorianos, radicado nos Estados Unidos e que lançou há poucos dias Private Energy, o seu quinto longa duração, como é habitual através da Asthmatic Kitty. Falo de catorze belíssimas canções que são mais um momento marcante deste músico sedeado em Brooklyn, um disco onde Lange amplia as suas experimentações com samples e sons sintetizados de modo a replicar uma multiplicidade de referências sonoras. Uma das particularidades deste disco é contar, nas apresentações ao vivo de promoção deste registo, com o contributo visual e artístico do coletivo Tinsel Mammal, um grupo de dançarinos com vestes prateadas e que encarnam na perfeição o espírito muito particular e simbólico da música de Helado Negro.

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Sublime sapiência e uma incontida sensação de relaxamento e conforto apoderam-se imediatamente do ouvinte logo que os acordes de Calienta sussurram nos nossos ouvidos. Depois planamos com os samples dos sons tipicamente sul americanos que adornam os teclados e os sopros épicos de Tartamudo, com a batida sintética de Lengua Larga a alargar quer os nossos horizontes quer o diâmetro da nossa anca, possuída, sem dono e com vontade própria, não resistindo a acompanhar uma canção que fala muito de lábios e que sobe de intensidade e emoção, assim como a temperatura do nosso corpo.

É assim a música de Helado Negro, intensa, palpável e dominada por um pendor acústico e tipicamente latino, mas com a eletrónica em forma de dream pop de cariz lo fi e etéreo e que incluí também travos de hip hop, a ser cada vez mais um veículo privilegiado no processo de composição.

Disco fortemente conduzido por uma tendência urbana e contemporânea, mas onde também não falta, em Obra Dos, Tres, Cuatro e Cinco, aquele aspeto geográfico e ambiental tâo sul americano em que cidade e floresta tropical amiúde se fundem, em Private Energy Lange desabafa sobre experiências individuais que poderão indicar a presença de uma elevada vertente autobiográfica. Escuta-se o verso I Feel Invisible Without Your Wisdom em Transmission Listen, uma profunda canção sobre muitas das dicotomias subjacentes ao amor e no love can cut our knife in two em Runaround, o primeiro single divulgado do álbum, um tema com forte pendor temperamental e com um ambiente feito com cor, sonho e sensualidade e percebe-se esta filosofia de alguém positivamente obcecado pela evocação de memórias passadas e, principalmente, pela concretização sonora de sensações, estímulos,reacções e vivências cujo fato serve a qualquer comum mortal.

Ao quinto disco, cada vez mais confiante, inspirado e multifacetado, Lange continua a aventurar-se corajosamente na sua própria imaginação, construída entre o caribe que o viu nascer e a América de todos os sonhos. Nestas suas novas canções contorna, mais uma vez, todas as referências culturais que poderiam limitar o seu processo criativo para, isento de tais formalismos, não recear misturar tudo aquilo que ouviu, aprendeu e assimilou e que é, mais uma vez, sonoramente tão bem retratado, com enorme mestria e um evidente bom gosto, ao mesmo tempo que reflete com indisfarçável temperamento sobre si próprio, enquanto compila com música, história, cultura, saberes e tradições, num pacote sonoro cheio de groove e de paisagens sonoras que contam histórias que Helado Negro sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Espero que aprecies a sugestão...

Helado Negro - Private Energy

01. Calienta
02. Tartamudo
03. Obra Dos
04. Lengua Larga
05. Runaround
06. Young, Latin And Proud
07. Obra Tres
08. Transmission Listen
09. Persona Facil
10. Mi Mano
11. Obra Cuatro
12. It’s My Brown Skin
13. We Don’t Have Time For That
14. Obra Cinco


autor stipe07 às 22:25
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Sábado, 8 de Outubro de 2016

The Killers - Peace Of Mind

The Killers - Peace Of Mind

Há muito tempo que não gostava tanto de uma música nova dos The Killers. Provavelmente tal se deve ao facto de Peace Of Mind ter já dez anos. Esta nova canção do grupo, conduzida por guitarras marcantes e um extraordinário piano, ficou de fora do alinhamento de Sam's Town, o melhor disco da banda, alvo de reedição limitada brevemente e que além deste tema também incluirá um outro inédito intitulado Pet Shop Boys Stars Are Blazing Mix. Atualmente a banda trabalha com o produtor Jacknife Lee, no seu quinto álbum de estúdio. Confere...


autor stipe07 às 14:29
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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2016

You Can't Win, Charlie Brown - Marrow

Marrow é um vegetal parente da courgette, cultivado nas ilhas britânicas, na Holanda e na Nova Zelândia e agora também o título do novo registo de originais dos extraordinários You Can't Win, Charlie Brown de Afonso Cabral (voz, teclas, guitarra), Salvador Menezes (voz, guitarra, baixo), Tomás Sousa (bateria, voz), David Santos (teclas, voz), João Gil (teclas, baixo, guitarra, voz) e Luís Costa (guitarra). Gravado no HAUS, por Fábio Jevelim, Makoto Yagyu e Miguel Abelaira e misturado por Luís Nunes, também conhecido por Benjamim, colaborador de longa data dos You Can't Win, Charlie Brown, Marrow é um sentido conjunto de quadros sonoros pintados com belíssimos arranjos de cordas, sintetizadores capazes de fazer espevitar o espírito mais empedernido e imponentes doses eletrificadas de fuzz e distorção, que se saúdam amplamente, tudo adornado por uma secção vocal contagiante, que proporciona ao ouvinte uma assombrosa sensação de conforto e proximidade.

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Com tantas bandas e artistas a ditar cada vez mais novas tendências no indie rock, é refrescante encontrar por cá alguém que o faz de forma diferente e de modo profundo, intenso e poderosamente bem escrito, ainda por cima depois de os You Can't Win, Charlie Brown terem calcorreado territórios sonoros mais acústicos e introspetivos, em trabalhos anteriores. Assim, se a groove vibrante e profundamente orgânica de Above The Wall, o tema que abre Marrow, mal dá tempo para recuperar o fôlego, logo depois, canções como a solarenga e festiva Linger On, a rockeira e sumptuosa Pro Procrastinator e, num registo mais melancólico e introspetivo, a cadência lancinante de Mute, escancaram-nos um mundo inédito, cujos códigos e fechaduras só os You Can't Win, Charlie Brown conhecem, mas que anseiam por partilhar com todos nós. E tal só sucederá eficazmente se estivermos sedentos de sensações revigorantes e reflexivas, já que este coletivo socorre-se continuamente de imagens evocativas, que depois sustenta em melodias bastante virtuosas e cheias de cor, arrumadas com arranjos meticulosos e lúcidos e variações rítmicas e emotivas inesperadas, um caudal sonoro e lírico cuja filosofia subjacente prova a sensibilidade dos You Can't Win, Charlie Brown para expressarem pura e metaforicamente a fragilidade humana.

Até ao ocaso de Marrow continua a desfilar um rol imenso de sensações, vivências, confissões, avisos, ordens e conselhos, um glossário abrigado sonoramente em influências que tendo o rock experimental como génese, abastecem-se da psicadelia setentista, audível na intrincada Joined By The Head e na majestosa Bones, mas também da eletrónica dos anos oitenta, exemplarmente documentada na alegoria pop extravagante e irresistivelmente dancável de If I Know You, Like You Know I Do e ainda, aqui e ali, nos primórdios da surf pop, do jazz e da querida folk, imponente nas cordas iniciais e nos coros de In The Light There Is no Sun, canção que vai do recanto escuro mais seguro do nosso aconchego à nuvem de algodão com melhor vista que adorna o céu onde cabem todos os nossos sonhos.

Marrow escuta-se num ápice e não deixa ninguém indiferente! Mexe, espicaça, suscita um levantar de poeira que depois não se resolve de modo a que no fim assente pedra sobre pedra e exala uma curiosa sensação de sofreguidão, porque se quer ouvir sempre mais e mais e ficar ali, preso neste mundo dos You Can't Win, Charlie Brown, consistentes e esplendororos no modo como, música após música, conceptual e criativamente nos confortam e desassossegam com melodias maravilhosamente irresistiveis e onde é muito ténue a linha que separa o positivamente irascível do enigmaticamente ternurento. Espero que aprecies a sugestão...

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1 – Above The Wall

2 – Linger On

3 – Pro Procrastinator

4 – Mute

5 – If I Know You, Like You Know I Do

6 – In The Light There Is No Sun

7 – Joined By The Head

8 – Frida (La Blonde)

9 - Bones

 


autor stipe07 às 17:17
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Quarta-feira, 5 de Outubro de 2016

Ultimate Painting – Dusk

Editado a trinta de setembro por intermédio da Trouble In Mind Records, Dusk é o terceiro disco da carreira dos Ultimate Painting, uma dupla inglesa formada por Jack Cooper e James Hoare, habituais colaboradores dos Mazes e de Veronica Falls e que contou com a participação especial de Melissa Rigby na bateria, na gravação de um compêndio que sucede a um registo homónimo de estreia e ao muito aclamado álbum Green Lanes, editado o ano transato.

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Os Ultimate Painting assumem-se claramente como uma banda que aposta nos traços mais caraterísticos da indie pop, algo que ficou muito claro logo na estreia com Ultimate Painting. Em Green Lanes aprimorou-se a mistura com as guitarras e soou ainda melhor esta vontade da dupla em ser exímia na criação de melodias que transmitam sensações onde a nostalgia do nosso quotidiano se reveja. Assim, os Ultimate Paiting começam a distinguir-se pela qualidade que demonstram na criação de típicas canções de amor com um certo toque psicadélico, cobertas, neste caso, por uma aúrea de sensibilidade e fragilidade romântica indisfarçáveis. E a verdade é que temas como o excelente single Bills, uma canção emotivamente forte, conduzida por um baixo vincado e uma guitarra cheia de soul, o piano ternurento de Lead The Way ou a luminosidade melódica algo inebriante de Skippool Creek permitem-nos, com uma certa clareza, refletir sobre tão nobre sentimento e tudo aquilo que de bom tem para nos oferecer, enquanto percebemos os diferentes elementos sonoros que vão sendo adicionados e esculpindo as canções, com as guitarras, melodicamente sempre muito próximas da postura vocal e os arranjos sintéticos a sobressairem, não porque ficam na primeira fila daquilo que se escuta, mas porque suportam aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que a canção toma e nas sensações que transmite.

Em Dusk vai-se, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa espécie de indie-folk-surf-suburbano, feito por mestres de um estilo sonoro carregado de um intenso charme e que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um charme ainda maior pela peça em si que este disco representa. Neste disco, os Ultimate Paiting avançam em passo acelerado em direção à maturidade, de um modo extraordinariamente jovial, que seduz pela forma genuína e simples como retratam sonoramente eventos e relacionamentos de um quotidiano rotineiro. Espero que aprecies a sugestão...

Ultimate Painting - Dusk

01. Bills
02. Song For Brian Jones
03. A Portrait Of Jason
04. Lead The Way
05. Monday Morning, Somewhere Central
06. Who Is Your Next Target?
07. Skippool Creek
08. I’m Set Free
09. Silhouetted Shimmering
10. I Can’t Run Anymore


autor stipe07 às 19:25
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Terça-feira, 4 de Outubro de 2016

Warpaint - Heads Up

Theresa Wayman, Emily Kokal, Jenny Lee Lindberg e Stella Mozgawa estão de regresso com Heads Up, um título feliz para batizar aquele que é o terceiro disco das Warpaint, sucessor de um homónimo, lançado em 2014. Produzido por Jacob Bercovici, Heads Up viu a luz do dia a vinte e três de setembro à boleia da Rough Trade Records e nele estas quatro miúdas deixaram as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural e assumirem uma faceta mais polida e luminosa que o antecessor, para criar um álbum tipicamente rock, etéreo q.b. e esculpido com cordas ligadas à eletricidade e com uma identidade muito particular.

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Abastecidos pelos antecessores e com o conteúdo de ambos ainda a fazer mossa no nosso subconsciente, basta escutar o baixo e a bateria de Whiteout para se perceber que em Heads Up existe uma nova envolvência e um clima mais refinado e cuidado, sem que isso coloque em causa a habitual orgânica e aquele pulsar que faz destas Warpaint um dos melhores projetos sonoros indie contemporâneos.

Piscando também o olho ao funk e ao R&B em By Your Side e, num outro pólo, ao rock oitocentista revestido a neon e plumas em So Good e à eletrónica mais melancólica e ambiental em The Stall, torna-se claro que foi bem sucedida a incessante busca por algo diferente e inovador, com as Warpaint a chegarem ao terceiro álbum dando mais um passo em frente num projeto que nunca se acomodou a uma abordagem estilística estanque, apesar de manterem no seu epicentro sonoro uma intensa aúrea sexual, que as despe de um mistério tantas vezes artificial, mostrando, sem rodeios e mais uma vez, com ousadia, a verdadeira personalidade de um coletivo cada vez mais maduro e confiante.

Charme, luxúria e a sofisticação são adjetivos que descrevem na perfeição um alinhamento de onze canções intenso, experimental e com vida própria e independente, com Heads Up a agarrar-nos pelos colarinhos sem dó nem piedade e a sugar-nos para um universo pop feito com uma sonoridade tão preciosa e bela, como as autoras da mesma. Espero que aprecies a sugestão...

Warpaint - Heads Up

01. Whiteout
02. By Your Side
03. New Song
04. The Stall
05. So Good
06. Don’t Wanna
07. Don’t Let Go
08. Dre
09. Heads Up
10. Above Control
11. Today Dear


autor stipe07 às 23:03
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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2016

Bon Iver - A Million

Cinco anos após um excelente homónimo, já chegou aos escaparates e à boleia da Jagjaguwar, A Million, o novo compêndio de canções de Justin Vernon aka Bon Iver. São dez canções que resultam da necessidade instintiva deste extraordinário músico de criar e inovar, simultaneamente, sem ter a pressão de recuperar tempo perdido e assim apresentar ao mundo uma coleção de canções que apenas pecam por esta longa espera e por terem estado tanto tempo escondidas no âmago do seu autor.

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22 (OVER S∞∞N) e 10 d E A T h b R E a s T ⊠ ⊠ são dois temas que impressionam pelo ambiente introspetivo e reflexivo que encerram e transportam uma aparente ambiguidade sonora fortemente experimental, onde não se percebe muito bem onde termina e começa uma fronteira entre a folk e a pop mais experimental e a pura eletrónica, duas canções que não terão sido escolhidas ao acaso para abrirem o alinhamento de A Million, já que marcam uma nova rota estilística inédita no cardápio de Bon Iver, parecendo ter sido embaladas num casulo de seda, da autoria de um verdadeiro trovador soul claramente inspirado pelo ideário de Chet Faker e aquela espiritualidade negra que se escuta com invulgar fluidez.

Se os dois temas anteriormente referidos impressionam os seguidores e admiradores mais puristas deste músico, escuta-se o excelente trabalho vocal de 715 – CR∑∑KS e o modo como cresce a miríade de efeitos que replicam sons naturais na contemplativa 33 “GOD” e percebe-se que este não é um disco comum, mas um acontecimento cuja audição deveria estar ao alcance do mais comum dos mortais e fazer parte das suas obrigações diárias, como receita eficaz para a preservação da sua integridade sentimental e espiritual, duas das facetas que, conjugadas com a inteligência, nos distinguem a nós humanos, dos outros animais. Estas duas canções iniciais e a folk benevolente de 29 #Strafford APTS são também um excelente contributo para analisar a música de Bon Iver do ponto de vista da sua voz, um elemento fulcral da sua criação artística; Ela é em A Million um fio condutor das canções, seja através do seu habitual falsete, ou através de um registo sussurrante, ou ainda de uma performancevocal mais aberta e luminosa e que muitas vezes, casando com as cordas, contrasta com a natural frieza das batidas digitais, porque expondo-se à boleia de uma folk intimista e sedutora, esta não sobrevive isolada e ganha, ao terceiro álbum, uma dimensão superior ao abrigar-se num arsenal de sintetizadores que incorporam a densidade e a névoa sombria que a sua música agora exige e que em 8 (circle) ganha contornos superiores de magnificiência e majestosidade.

Esta abordagem mais maquinal e sintetizada de Bon Iver relativamente à música que cria é obra de alguém decididamente apostado em compôr música com bom gosto e diversidade e, de forma subtil, criar um ambiente muito próprio e único através da forma como o sustenta instrumentalmente, ao privilegiar também, no universo da folk, uma abordagem inédita. à luz desta nova concepção melódica e instrumental A Million vive de um certo cruzamento espetral e meditativo, um registo que espelha a elevada maturidade dos autor e a natural propensão do mesmo para conseguir, com mestria e excelência, manusear a eletrónica digitalmente, enquanto replica alguns dos melhores detalhes da folk contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

Bon Iver - 22, A Million

01. 22 (OVER S∞∞N)
02. 10 d E A T h b R E a s T ⚄ ⚄
03. 715 – CR∑∑KS
04. 33 “GOD”
95. 29 #Strafford APTS
06. 666 ʇ
07. 21 M◊◊N WATER
08. 8 (circle)
09. ____45_____
10. 00000 Million


autor stipe07 às 23:07
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