Sexta-feira, 30 de Setembro de 2016

Kishi Bashi – Sonderlust

Lançado no passado dia dezasseis, Sonderlust é o novo disco de Kishi Bashi, um multi-intrumentista de Athens, na Georgia e colaborador de nomes tão conhecidos como Regina Spektor e os Of Montreal e que se aventurou a solo em 2012 pela mão da Joyful Noise, com 151a, disco que era um enorme e generoso festim de alegria e descomprometimento, tal como acontece com este novo registo que viu a luz do dia por intermédio da mesma etiqueta.

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Kaoru Ishibashi é o verdadeiro nome de um artista de ascendência japonesa, que começou a chamar a atenção em 2011, com apresentações surpreendentes, onde cantava e tocava violino e acrescentava uma caixa de batidas e sintetizadores, agregando novos e diferentes elementos e fazendo incursões em diversas sonoridades. Conhecido pela sua profunda veia inventiva, Kishi Bashi aposta num micro género da pop, uma espécie de ramificação barroca ou orquestral desse género musical, uma variante que vive em função de violinos, de arranjos claramente pomposos e cheios de luz e de vozes cristalinas, com o falsete a ser uma opção óbvia e constante.

A folk orgânica do violino é mesmo o fio condutor principal das canções de Sonderlust e o grande suporte da luminosidade da um alinhamento delicioso no modo como agrega alguns dos pilares fundamentais da pop, com a explosão sónica que o arsenal instrumental eletrónico proporciona, principalmente quando a versatilidade e o bom gosto são elementos fundamentais e muito presentes. No entanto, além das cordas, os sopros, nomeadamente a flauta, também se chegam à frente, numa plataforma de sons e melodias exemplarmente elaboradas e artisticamente positivas e sedutoras. Canções como a épica e exuberante Hey Big Star, Statues In A Gallery ou Say Yeah são belos exemplos do modo exímio como Bashi pinta neles as suas cores prediletas de forma memorável e também influenciado pela música árabe e oriental.

Disco onde não faltam arranjos etéreos, gravações viradas do avesso e tiques de new age, Sonderlust irradia uma universalidade muito própria e tem momentos que fazem-nos sentir que estamos a degustar a própria música, como se cada garfada que damos numa determinada canção nos fizesse sentir todos os elementos de textura, cheiros e sabores da mesma. Apreciar estas dez composições oferece-nos a sensação de que os dias bons estão aqui para durar e que nada de mal pode acontecer enquanto se escuta todo este otimismo algo ingénuo e definitivamente extravagante, onde cabe o luxo, a grandiosidade e uma intemporal sensação de imunidade a tudo o que possa ser sombrio e perturbador. Espero que aprecies a sugestão...

Kishi Bashi - Sonderlust

01. m’lover
02. Hey Big Star
03. Say Yeah
04. Can’t Let Go, Juno
05. Ode To My Next Life
06. Who’d You Kill
07. Statues In A Gallery
08. Why Don’t You Answer Me
09. Flame On Flame (A Slow Dirge)
10. Honeybody


autor stipe07 às 22:33
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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2016

The Deltahorse - Transatlantic

Não é tarefa fácil escrever sobre um disco quando se faz parte dos créditos do mesmo e da lista de agradecimentos relativamente a todos aqueles que, de acordo com os autores, tornaram possível que o tomo de canções em questão ganhasse vida. Tal demanda é ainda mais complicada quando o álbum é um excelente tratado de indie rock e, dizendo-o com toda a naturalidade e sinceridade, o leitor não achar que tais elogios se devem apenas à referida menção. Mas a verdade é que Transatlantic, o disco de estreia dos The Deltahorse, editado à boleia da Slower Faster Music, é a prova audível de que estamos na presença de um novo grupo que se apresenta ao universo musical indie, como um projeto que prima pelo detalhe e pelo bom gosto e que merece garantidamente uma audição atenta.

Formados pelo cantor e compositor Vadim Zeberg, por Dana Colley, um saxofonista de Boston, nos Estados Unidos, que chegou a tocar esse instrumento com os Morphine e pelo berlinense Sash, os The Deltahorse têm no seu núcleo duro três músicos de diferentes proveniências e que, por incrível que pareça, nunca estiveram juntos no mesmo local, pelo menos até à data da edição de Transatlantic. A internet foi um veículo essencial no processo de composição melódica e na definição da arquitetura de dez canções perfeitas para uma noite diferente, plena de aventura e diversão, na melhor companhia possível ou, em alternativa, com disponibilidade para encontrar alguém diferente e especial, tal é o charme, a luxúria e a sofisticação do ambiente que as mesmas recriam.

Canções como a sedutora Street Walking, que aborda o modo infalível como uma bela mulher caminha na rua, a intimista Balcony TV que descreve um programa a dois bastante curioso ou Call It A Day, composição que nos oferece algumas sugestões credíveis para tornar um dia normal num marco nas nossas vidas, tenhamos nós coragem para nos deixarmos conduzir pelo lado mais obscuro da nossa mente, acentua uma espécie de concetualidade relacionada com uma viagem para um outro mundo onde não somos nós a espécie dominante e protagonista, mas antes observadores do modo como, se formos corajosos, podemos ter uma vida muito mais preenchida caso deixemos que os nossos maiores sonhos se materializem em concretos eventos e intensas emoções.A verdade é que a música dos The Deltahorse pode-nos salvar nesse mundo e fazer com que não nos sintamos isolados e perdidos, mas antes plenamente realizados e absortos por uma sensação de prazer única e intemporal.

Da eletrónica ao rock mais experimental, o som dos The Deltahorse oscila entre o sintético e o orgânico, enquanto choca com a energia da bateria e os arranjos fantásticos de um trompete convicto, podendo-se assistir a um salutar combate entre percussão, sopros, teclas e cordas, sempre a crescer de intensidade, como se estivessemos a descolar para uma viagem rumo ao tal mundo criado pela banda e definitivamente na rota certa para uma vida muito mais realizada e feliz. Espero que aprecies a sugestão...

Transatlantic

Call It A Day

Happy Heart (Can Go For Miles)

Easy Life

Summer Mode

These Are Your Friends

Broadcast

Balcony TV

Street Walking

Tonight

Cinematic


autor stipe07 às 22:17
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Terça-feira, 27 de Setembro de 2016

Grandaddy – Way We Won’t & Clear Your History

 

Grandaddy - Way We Won't

Dez anos após o clássico Just Like The Fambly Cat, os californianos Grandaddy de Jason Lytle acabam de partilhar Way We Won't e Clear Your History, duas novas canções que antecipam a chegada de um novo álbum, ainda sem nome e data de lançamento, mas que terá a chancela da 30th Century Records de Danger Mouse.

Notavelmente contemporâneas, estas duas canções não defraudam a herança progressiva e experimental do indie rock que abastece o cardápio de uns Grandaddy que, como se percebe nas guitarras e na bateria da primeira e nos efeitos e no piano da segunda, ainda possuem capacidade criativa suficiente para explorar profundamente um género sonoro com caraterísticas muito próprias, mas que possibilitam inúmeras abordagens e explorações. Confere o primeiro dos dois temas...


autor stipe07 às 17:08
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Domingo, 25 de Setembro de 2016

Hope Sandoval And The Warm Inventions – Let Me Get There

Hope Sandoval And The Warm Inventions - Let Me Get There

Uma das parcerias mais interessantes que começa a surgir na penumbra do universo sonoro indie intitula-se Hope Sandoval And The Warm Inventions e junta Hope Sandoval, icónica vocalista dos Mazzy Star e Colm Ó Cíosóig dos My Bloody Valentine. Há já um disco de estreia programado para este projeto, a ver a luz do dia lá para novembro e intitulado Until The Hunter e Let Me Get There é o mais recente single divulgado desse registo, uma canção que conta com a participação especial vocal de Kurt Vile e que nos oferece uma belíssima viagem lisérgica, patente na instrumentação que se deixa conduzir pelos trilhos sónicos de uma guitarra elétrica e pela complacência de uma bateria charmosa, tudo embrulhado numa letra de acordo com as propostas mais intimistas dos grupos de origem dos mentores deste projeto.

Until The Hunter irá ver a luz do dia a quatro de novembro, através da Tendril Tales, a editora de Hope Sandoval. Confere...


autor stipe07 às 23:29
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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

Still Corners – Dead Blue

Donos de uma pop leve e sonhadora, íntima da natureza etérea e onde os sintetizadores são reis, mas as guitarras eléctricas e acústicas também marcam forte presença, os londrinos Still Corners de Greg Hughes e Tessa Murray, estão de regresso com Dead Blue, o sucessor do excelente Strange Pleasures (2013) e que já tinha sido de algum modo antecipado no final do ano passado com o lançamento de Horses At Night, um tema que a dupla divulgou, produzido e misturado pelo próprio Greg Hughes.

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Lançado com o alto patrocínio da Wrecking Light Records, Dead Blue pisca o olho a alguns dos mais relevantes aspetos herdados da eletrónica dos anos oitenta, com uma forte aposta no romantismo, um sentimento muito marcado nos sintetizadores acolhedores que controlam desde logo Lost Boys, o tema inicial. A própria temática lírica desta canção obedece a essa permissa e depois, canções do calibre da vigorosa Currents, da sombria Down With Heaven And Hell e da encorajadora Downtown, apontando timidamente para ambientes dançantes, com uma estética final global algo etérea e intemporal, acabam, por definir todo o conteúdo de um álbum onde também se aprecia algumas porções eletrónicas mais excêntricas, nomeadamente na bateria sintetizada e nos efeitos dos teclados de Crooked Fingers, o que torna a audição de Dead Blue um exercício ainda mais complexo e recompensador para o ouvinte.

Dead Blue surpreende, até porque também experimenta, fazendo-o sem romper com uma declarada aproximação à música pop, o que transforma cada uma das canções do disco numa fusão feliz entre reflexão e introspeção, por um lado e letargia e prazer, por outro. Espero que parecies a sugestão...

Still Corners - Dead Blue

01. Lost Boys
02. Currents
03. Bad Country
04. Crooked Fingers
05. Skimming
06. Down With Heaven And Hell
07. Downtown
08. The Fixer
09. Dreamhorse
10. Night Walk
11. River’s Edge


autor stipe07 às 21:27
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2016

Cave Story - Body Of Work

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Pedro Zina (baixo), Ricardo Mendes (bateria) e Gonçalo Formiga (guitarra e voz) são os Cave Story, uma banda nascida nas Caldas da Rainha em 2013 e que deu o pontapé de saída numa carreira promissora com um conjunto de demos que chamou a atenção de vários promotores e festivais nacionais e internacionais como a FatCat Records e o Reverence Valada. Tendo visto a luz do dia no início de 2015, Spider Tracks foi o primeiro EP dos Cave Story, seis canções gravadas durante um ano e que ganharam vida descritas dentro dos abrangentes limites definidos por um post punk pop experimental, tendo-se seguido depois Garden Exit, um novo tomo de canções do trio, que solidificou e tipificou o som de um projeto sempre aberto e pronto para novas sonoridades, mas que confessa sentir-se mais confortável a explorar os recantos mais obscuros de uma relação que se deseja que não seja sempre pacífica entre a mágica tríade instrumental que compôe o arsenal de grande parte dos projetos inseridos nesta miríade sonora.

Será em outubro que irá chegar aos escaparates West, o longa duração de estreia dos Cave Story e Body Of Work, o primeiro avanço divulgado do disco, será a concretização plena desta desenvoltura rockeira, o epílogo do promissor percurso acima descrito e que confirma estarmos na presença de um nome essencial das várias lebres de uma nova geração de bandas nacionais que redescobriram, à chegada do novo século, o velho fulgor anguloso e elétrico do rock’n’roll. Confere...

 


autor stipe07 às 21:25
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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016

Space Daze – Down On The Ground EP

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Space Daze é o projeto a solo de Danny Rowland, guitarrista e compositor dos consagrados Seapony e Down On The Ground o novo compêndio de canções do músico, cinco canções que encontram nas cordas de uma viola um veículo privilegiado de transmissão dos sentimentos e emoções que impressionam, uma sensação curiosa e reconfortante, que transforma-se, em alguns instantes, numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia.

Down On The Ground é curto, mas incisivo no modo como replica uma dream pop luminosa, jovial e vibrante e que atira de modo certeiro ao puro experimentalismo, à medida que as cordas vão passeando por diferentes nuances sonoras, sempre com o denominador comum acima referido.

Se What Did You Say levita em redor de uma névoa lo fi com um ligeiro travo acústico à mistura, já Over e Go Wrong são duas peças sonoras eminentemente contemplativas, com quase dois pés na folk e que oferecem-nos uma espécie de monumentalidade comovente. Refiro-me a dois extraordinários tratados sonoros que resgatam e incendeiam o mais frio e empedrenido coração, enquanto plasmam, além do vasto espetro instrumental presente no EP, a capacidade que Danny possui para compôr peças sonoras melancólicas, com elevado sentido melódico e uma vincada estética pop. Depois, o esplendor de cor e delicadeza que exala das cordas de No Control, ou a distorção algo pueril da guitarra que conduz Brought Me Down, prendem-nos definitivamente a um projeto com um tempero muito próprio e um pulsar particularmente emotivo e rico em sentimento, eficaz na materialização concreta de melodias que vivem à sombra de uma herança natural claramente definida e que, na minha opinião, atingem à boleia deste músico um estado superior de consciência e profundidade.

Down On The Ground é a recriação clara de um músico que prova ser um compositor pop de topo, capaz de soar leve e arejado, enquanto plasma uma capacidade inata de conseguir fazer-nos sorrir sem razão aparente, com isenção de excesso e com um belíssimo acabamento açucarado. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:10
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Terça-feira, 20 de Setembro de 2016

VoirVoir - There Are No Goodbyes

April Smith, Josh Maskornick, Matt Juknevic, Matt Molchany e Felicia Vee, são os VoirVoir, uma banda norte-americana natural de Bethlehem, na Pensilvânia e que acaba de se estrear nos lançamentos discográficos com There Are No Goodbyes, através da insuspeita e espetacular editora, Fleeting Youth Records, uma etiqueta essencial para os amantes do rock e do punk, sedeada em Austin, no Texas.

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Com dez excelentes composições de indie rock rugoso e monumental, There Are No Goodbyes é um intenso compêndio de garage rockpós punk e rock clássico, uma fusão de estilos e géneros que, como se percebe logo no single I Wanna, é dominada por aquela sonoridade crua, rápida e típica que tomou conta do cenário lo fi inaugurado há mais de três décadas. Logo aí se percebe qual é a bitola sonora destes VoirVoir e o alinhamento, na verdade, não defrauda os apreciadores do género, com temas do calibre da incisiva His Last Sound ou da ruidosa e inconstante If Miles Were Years, só para citar dois exemplos, a serem conduzidos por guitarras que apontam em diferentes direções, um baixo que não receia tomar as rédeas do conteúdo melódico e rítmico e alguns efeitos e arranjos que ajudam a destacar a forma corajosa como, logo na estreia, estes VoirVoir não se coibem de tentar experimentar, sem perturbar a conturbada homogeneidade de um alinhamento que raramente deixa de ser fluído e acessível, apesar de numerosos e ricos momentos de especificidade rugosa que personificam uma garra e uma criatividade que deverá, em edições futuras, empurrar e alargar as barreiras deste projeto, para um nível mais elevado de projeção.

Disco que tem até em Down Together uma canção excelente para funcionar como um ombro amigo que ajuda a consolar algumas angústias e problemas, There Are No Goodbyes existe para nos mostrar a vida tal como ela realmente se apresenta diante de nós e para satisfazer uma raiva que, se muitas vezes transcende certos limites e resvala para uma obscuridade aparentemente imutável e definitiva, geralmente nunca perde aquela consciência que nos permite continuar a avançar e a fintar as adversidades, mesmo que existam nos dias de hoje, na sociedade ocidental, dita civilizada, alguns eventos politicos ou económicos, moralmente de difícil compreensão para o mais comum dos mortais. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:12
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Domingo, 18 de Setembro de 2016

The Pineapple Thief – Your Wilderness

Bruce Soord, Steve Kitch e Jon Sykes são os The Pineapple Thief, uma banda britânica natural de Sommerset, que está de regresso aos discos com Your Wilderness, oito canções que viram a luz do dia em agosto, por intermédio da Kscope. Este registo sucede a Magnolia, um álbum que o grupo lançou há cerca de dois anos e a All The Wars (2012), sendo já o décimo primeiro deste coletivo.

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Habituados a criar hinos sonoros inspirados nas diferentes manifestações que pode ter o amor e que costumam preencher o ideário lírico das suas canções, os The Pineapple Thief surgem em Your Wilderness a oferecer aos ouvintes mais uma prova de maturidade e acuidade sonora, ao mesmo tempo que conseguem renovar o arsenal de arranjos e tiques que compôem o seu cardápio. Logo no timbre da guitarra de In Exile é-nos oferecido um desses novos truques que os The Pineapple Thief ainda tinham guardado na manga, após dois excelentes trabalhos que encontram aqui um sucessor à altura.

Assim, além da receita habitual em que assenta o indie rock rugoso e fortemente épico deste projeto britânico, a sensibilidade acústica de No Man's Land e de Fend For Yourself, a penumbra que desce sobre os nossos ouvidos em Where We Stood e as teclas de That Shore, que aproximam a banda do trip-hop mais ambientalmostram, desde logo, que os The Pineapple Thief continuam a apostar na sua génese, mas também conseguem dar-nos instantes sonoros delicados, tudo isto graças à capacidade critiva da banda, mas também à presença, em algumas canções de uma vasta teia instrumental. O resultado final acaba por ser um excelente compêndio de rock alternativo, dominado por guitarras marcadas por compassos irregulares e distorções que se entrecuzam com uma vertente mais acústica, feita com delicados arranjos de cordas batidas do baixo, mas onde também não faltam nuances eletrónicas proporcionadas por sintetizadores e samplers, aspetos que nunca se sobrepôem, em demasiado, ao restante conteúdo sonoro. Esta receita é abrilhantada e sustentada por uma voz sempre imponente, o principal fio condutor das canções e que muitas vezes contrasta com a natureza algo sombria de algumas melodias.

Os The Pineapple Thief encontram as suas raízes no rock progressivo, mas também conseguem oferecer propostas abrangentes e podem ser incluídos naquele rol de bandas que gostam de experimentar e direcionar a sua música por diferentes caminhos a cada novo disco, procurando conquistar o seu espaço entre os grandes nomes desse rock progressivo atual. Espero que aprecies a sugestão...

The Pineapple Thief - Your Wilderness

01. In Exile
02. No Man’s Land
03. Tear You Up
04. That Shore
05. Take Your Shot
06. Fend For Yourself
07. The Final Thing On My Mind
08. Where We Stood


autor stipe07 às 18:42
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016

Local Natives – Sunlit Youth

À exceção de algumas remisturas e versões, os norte americanos Local Natives têm-se mantido na penumbra desde o excelente Hummingbird, o disco que esta banda natural de Los Angeles editou em 2013 e que fez da leveza instrumental, do sofrimento traduzido em versos e da formatação primorosa que brincava com a excelência das formas instrumentais, a sua imagem de marca.

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Mas agora, mais de três anos depois e à boleia da Loma Vista Recordings, este quinteto liderado por Taylor Rice está de regresso com Sunlit Youth, doze novas canções antecipadas já há alguns meses por Past Lives, tema que ampliava a habitual componente épica dos Local Natives, feita com texturas monumentais e arranjos deslumbrantes, sempre numa lógica de progressão, à medida que a canção avança e nunca perdendo de vista as melodias suaves e a dor, dois vectores essenciais do conceito sonoro deste grupo e que se estendem pelo restante alinhamento do álbum.

A sonoridade dos Local Natives sempre se manteve dentro de uma atmosfera bem delineada e de uma constante proximidade lírica e musical, algo bem patente logo em Gorilla Manor, o disco de estreia e uma obra que alicerçou definitivamente o rumo sonoro do grupo. Hummingbird concretizou tudo aquilo que tinha sido proposto três anos antes e Sunlit Youth, mantendo o grupo na rota delineada, acrescenta uma maior componente épica, feita com texturas monumentais e arranjos que parecem aproximar o grupo das propostas de Robin Pecknold (Fleet Foxes) e Win Butler (Arcade Fire) e fazer uma espécie de simbiose das mesmas, como se percebe logo na imensidão sonora de Villainy.

Em Sunlit Youth há coerência no alinhamento e cada tema parece introduzir e impulsionar o seguinte, numa lógica de progressão, mas nunca perdendo de vista as melodias suaves e a dor, dois vectores essenciais do conceito sonoro dos Local Natives. Dessa forma, enquanto Fountain Of Youth e Masters crescem de maneira a soterrar-nos com emanações sumptuosas e encaixes musicais sublimes, Dark Days e Jellyfish puxam o álbum para ambientes mais melancólicos e amenos. Existem ainda composições que lidam, em simultâneo, com esta duplicidade, caso de Coins, um tema que nos transporta até altos e baixos instrumentais, que atacam diretamente os nossos sentimentos.

E são estes sentimentos que suportam cada mínima fração instrumental e poética de Sunlit Youth, já que praticamente tudo aquilo que se ouve lida com aspectos dolorosos da vida a dois. A própria sobreposição de cantos e o modo com os músicos da banda vão-se revezando na voz e de maneira orquestral direcionam os próprios rumos marcados pelos instrumentos que tocam. Assim, as vozes servem como estímulo para o começo, o meio e o fim das canções e não são apenas um instrumento extra, mas uma das linhas que guiam e amarram o álbum do princípio ao fim.

Embora tenha a concorrência de um universo musical saturado de propostas, Sunlit Youth consegue posicionar os Local Natives num lugar de destaque, porque traz na constante proximidade entre as vozes e as melodias instrumentais, imensa emoção e carateriza-se por ser um registo que involuntariamente chama a atenção pela beleza e que, por isso, deve ser apreciado com cuidado e real atenção. Espero que aprecies a sugestão...

Local Natives - Sunlit Youth

01. Villainy
02. Past Lives
03. Dark Days
04. Fountain Of Youth
05. Masters
06. Jellyfish
07. Coins
08. Mother Emanuel
09. Ellie Alice
10. Psycho Lovers
11. Everything All At Once
12. Sea Of Years


autor stipe07 às 22:33
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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2016

Teenage Fanclub – Here

Vinte e seis anos depois do registo de estreia, os icónicos vereranos escoceses Teenage Fanclub quebram um hiato de seis anos e estão de regresso aos discos, mais efusivos e luminosos do que nunca, com Here, doze novas canções de um projeto simbolo do indie rock alternativo e que, de certa forma, ainda tem um lugar reservado, de pleno direito, no pedestal deste universo sonoro.

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Editado à boleia da Merge Records, Here mistura nostalgia e contemporaneidade, com afeto e melancolia, através de guitarras efusivas e com aquela dose equilibrada de eletrificação que permite alguns instantes de experimentalismo, sem colocar em causa o cariz fortemente radiofónico que sempre caracterizou os Teenage Fanclub. Aliás, I'm In Love e Thin Air são duas canções de airplay fácil e acessível e escolhidas a dedo para abrir o alinhamento de Here.

Depois desta abertura vibrante, as cordas de Hold On abrem a porta para uma sequência de vários temas em que é possível fazer uma pausa melancólica e introspetiva, sendo esta composição um convite direto à reflexão pessoal e ao desarme, mas nada triste e depressivo, já que a melodia é luminosa e implicitamente otimista. The Darkest Part Of The Night reforça esta sequência com um ambiente mais climático e quer esta canção quer I Have Nothing More to Say impressionam pela criatividade com que os diferentes arranjos vão surgindo à tona, evidenciando-se o cardápio de efeitos capazes de adornar o modo como no processo de composição dos Teenage Fanclub a guitarra é fulcral no modo como emociona e trai quem insiste em residir num universo algo sombrio e fortemente entalhado numa forte teia emocional amargurada.

Até ao ocaso de Here, na destreza entre o vigor e a delicadeza de The First Sight, a cândida leveza de Steady State e a sinceridade explicita de With You, somos confrontados com uns Teenage Funclub intocáveis no modo como preservam uma integridade sonora ímpar, com estes escoceses a oferecem-nos, em consciência, um meritório retorno, feito de melodias complexas e simples e letras românticas e densas, de uma banda que insiste em ser preponderante e firmar uma posição na classe daquelas que basicamente só melhoram com o tempo. Espero que aprecies a sugestão.

Teenage Fanclub - Here

01. I’m In Love
02. Thin Air
03. Hold On
04. The Darkest Part Of The Night
05. I Have Nothing More To Say
06. I Was Beautiful When I Was Alive
07. The First Sight
08. Live In The Moment
09. Steady State
10. It’s A Sign
11. With You
12. Connected To Life


autor stipe07 às 21:48
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Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

Allah-Las - Calico Review

Naturais de Los Angeles, os norte americanos Allah-Las são Miles, Pedrum, Spencer e Matt e têm um novo disco intitulado Calico Review, um trabalho lançado por intermédio da Mexican Summer no último dia nove de setembro e que sucede ao excelente Worship The Sun (2014) e a um homónimo, que foi o disco de estreia da banda, editado em 2012. Calico Review foi gravado no Valentine Recording Studio, um estúdio famoso em Los Angeles que estava encerrado desde finais da década de setenta, com o equipamento utilizado a ser, de acordo com a banda, semelhante ao que foi usado pelos The Beach Boys em Pet Sounds.

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Os Allah-Las estão atrasados ou adiantados quase meio século, depende da perspetiva que cada um possa ter acerca do conteúdo sonoro que replicam. Se na década de sessenta seriam certamente considerados como uma banda vanguardista e na linha da frente e um exemplo a seguir, na segunda década do século XXI conseguem exatamente os mesmos pressupostos porque, estando novamente o indie rock lo fi e de cariz mais psicotrópico na ordem do dia, são, na minha modesta opinião, um dos projetos que melhor replica o garage rock dos anos sessenta e a psicadelia da década seguinte.

Depois de terem impressionado com o búzio de Allah-Las e a abrangência vintage de Worship The Sun, estes californianos trazem o mesmo horizonte vasto de referências e as inspirações dos antecessores, mas de forma ainda mais abrangente e eficaz, levando-nos numa viagem que espelha fielmente o gosto que demonstram relativamente aos primórdios do rock e conseguindo apresentar, em simultâneo, algo inovador e diferente.

No momento de compôr e de selecionar o cardápio instrumental das canções a receita dos Allah-Las é muito simples mas tremendamente eficaz e aditiva, mesmo no sentido psicotrópico do termo. A embalagem muito fresca e luminosa, apimentada por um manto de fundo lo fi empoeirado, e rugoso mas pleno de soul, é assente numa guitarra vintage, que de Creedance Clearwater Revival a Velvet Underground, passando pelos Lynyrd Skynyrd, faz ainda alguns desvios pelo blues dos primórdios da carreira dos The Rolling Stones e pela irremediável crueza dos The Kinks.

Começa-se a escutar Strange Heat e cá vamos nós a caminho da praia ao som dos Allah-Las e de volta à pop etérea e luminosa dos anos sessenta para, pouco depois, na percussão vibrante exemplarmente cruzada com as cordas de um violão em Satisfied e nos acordes sujos de Famous Phone Figure, assim como no groove da guitarra e de uma voz que parece planar sobre It Could Be You e Autumn Dawn, os dois dos melhores temas do disco,ficarmos completamente absortos por este experimentalismo instrumental que se aproxima do blues marcado pela guitarra acústica, além dos metais e de alguns ruídos que assentam muito bem, num disco que até abraça a folk e o country sulista americano em Terra Ignota.

Place In The Sun, o ocaso de Calico Review, é uma feliz homenagem ao final do verão, uma canção com sabor a despedida do sol e do calor, através de uma balada que obedece à sonoridade pop dos anos sessenta e uma forma muito assertiva de encerrar um disco feito de referências bem estabelecidas e com uma arquitetura musical que garante aos Allah-Las a impressão firme da sua sonoridade típica e ainda permite terem margem de manobra para futuras experimentações. Ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva esta banda californiana, Calico Review conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências antigas. Espero que aprecies a sugestão...

Allah-Las - Calico Review

01. Strange Heat
02. Satisfied
03. Could Be You
04. High And Dry
05. Mausoleum
06. Roadside Memorial
07. Autumn Dawn
08. Famous Phone Figure
09. 200 South La Brea
10. Warmed Kippers
11. Terra Ignota
12. Place In The Sun


autor stipe07 às 17:56
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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016

Cold Cave – The Idea Of Love

Cold Cave - The Idea Of Love

O projeto Cold Cave, liderado por Wesley Eisold, está de regresso com The Idea Of Love, um lançamento em formato físico single de sete polegadas e digital, com duas canções, o tema homónimo e Rue The Day. Este género de edições parece ser, definitivamente, a filosofia de Wesley para a apresentação das canções dos Cold Cave, com o clássico formato álbum a ser, para o autor, uma realidade do passado. O músico natural de Los Angeles confessou recentemente que esse é um formato demasiado redutor e que pretende publicar música livremente e sem a obrigatoriadade de o fazer à sombra de um alinhamento longo e definido no tempo, mesmo tendo em conta a excelente aceitação dos discos Love Comes Close (2009) e Cherish the Light Years (2011).

Quanto a estas duas canções, a rápida e efervescente The Idea Of Love é um imponente concentrado lo fi, com a distorção da guitarra e um efeito sintetizado futurista e suportarem a voz manipulada de Eisold. Esta composição prova que as guitarras barulhentas e os sons melancólicos do início dos anos noventa, assim como todo o clima sentimental dessa época e as letras consistentes, que confortavam e destruiam o coração num mesmo verso, continuam, vinte anos depois, a fazer escola. Rue the Day já nos remete para um universo eletrónico mais experimental, uma belíssima caldeirada, feita com várias espécies sonoras, envolvida numa embalagem frenética, com uma atmosfera sombria e visceral.

Este lançamento dos Cold Cave é, em suma, uma miríade de sons que fluem livres de compromissos e com uma estética própria, apenas com o louvável intuito de nos fazerem regressar ao passado e entregar-nos composições caseiras e perfumadas pelo passado, a navegarem numa espécie de meio termo entre o rock clássico, a eletrónica, o shoegaze e a psicadelia.


autor stipe07 às 15:56
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Domingo, 11 de Setembro de 2016

Kings Of Leon - Waste A Moment

Kings Of Leon - Waste A Moment

Os irmãos Followill e restante trupe estão de regresso com Walls, um disco que vai ver a luz do dia a vinte e quatro de outubro e do qual já se conhece Waste A Moment, o primeiro avanço. Falo, obviamente, dos norte americanos Kings Of Leon, uma banda que se estreou extamente há quase década e meia com o excelente Youth & Young Manhood, para mim ainda o melhor disco desta banda natural de Nashville, no Tennessee.

Disco após disco os Kings Of Leon têm procurado nunca seguir um fio condutor homógeneo e bem definido, ou seja, Caleb e companhia, dentro do universo indie rock, já experimentaram de tudo um pouco para descobrir a fórmula perfeita que possa fazer deles uma das bandas mais importantes e influentes do mundo, musicalmente falando e sem olhar para a componente comercial. Tendo em conta as guitarras de Waste A Moment e a imponência orquestral do edifício melódico que envolve esta canção com um refrão avassalador, no próximo álbum será dada primazia a uma faceta algo sonhadora e romântica que se aplaude e que é também fruto de uma produção cuidada e que irá certamente agradar a todos os apreciadores do género. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 22:32
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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2016

Nick Cave And The Bad Seeds – Skeleton Tree

Décimo sexto registo de originais da carreira de Nick Cave, sempre acompanhado pelos fiéis The Bad Seeds, Skeleton Tree é um impressionante e comovente testemunho de um músico, a oferenda desinteressada de uma pessoa igual a todas as outras, mas que viveu recentemente a maior dor física e emocional que um ser humano pode vivenciar, a perca perda de um filho. No documentário One More Time With Feeling, que estreou há alguns dias em Veneza, Cave já se tinha debruçado sobre esse evento e sobre um luto que o tem obrigado a questionar-se ininterruptamente e sobre tudo, utilizando esse filme para fazer uma espécie de exorcização da dor, que agora continua em Skeleton Tree, chamando, no filme, de tempo elástico ao período da sua existência temporal após esse evento e toda a assimilação que é possível fazer do mesmo. Recordo que em julho de 2015 Arthur Cave, filho de Nick Cave, com quinze anos, morreu na sequência de uma queda acidental de um penhasco de dezoito metros, em Brighton, na Inglaterra.

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Apesar de este alinhamento já ter começado a ser alinhavado antes dessa tragédia, incluindo o esboço de alguns dos poemas, foi inapelável para o âmago de Cave o apelo para que adaptasse esse conteúdo inicial às novas circunstâncias. Assim, num registo que sonoramente acabou por apresentar tonalidades mais atmosféricas, com as cordas e o piano a assumirem o processo de composição melódica, sempre acompanhadas por uma bateria plena de soul, logo em Jesus Alone este autor que não gosta de holofotes e que abordem a sua vida pessoal, mas que neste último ano e meio, compreensivelmente, ofereceu-nos até mais do que o esperado dessas dimensões e sobre o modo como está a lidar com o acontecimento, talvez até para evitar abordagens inconvenientes da imprensa e esclarecê-la desde logo sobre aquilo que sente, expôe a revolta que sente com Deus e, de certo modo, também responsabiliza o divino pela dor, pelo trauma e pelo eco que ainda ressoa na sua existência e que, inevitavelmente, acompanhará o resto da sua vida.

Não é inédita na discografia de Nick Cave a menção a Deus e ao divino, assim como à própria morte. Em Skeleton Treen, não só no tema que abre o disco, mas também, por exemplo, em I Need You e Distant Sky, tema que conta com a participação especial de Else Trop, essa espiritualidade atinge uma dimensão inédita e uma profundidade que comove, instiga, questiona, e quase esclarece, porque contamina e alastra-se,tornando-se quase compreensível por todos aqueles que, felizmente, nunca sentiram tal dor. No entanto, a angustiante nuvem onde flutua Girl In Amber e Magneto, também incorporam todo um sentimento de amargura e mesmo de algum desprezo, mas numa perspetiva mais orgânica, terrena e até racional, sendo aquelas canções que, de algum modo, nos esclarecem que Cave está disposto a olhar em frente e a manter-se fiel à crença no amor como sentimento maior, mesmo sabendo que é inapagável, como já referi, o ideário que abastece Skeleton Tree.

É impossível escutar Skeleton Tree e não comungar as sensações que conduziram a estas oito canções, ampliadas por subtilezas instrumentais de raro requinte e intensidade e pela voz de Cave, mais grave e nasalada do que nunca e que parece não suspirar mas respirar ao nosso ouvido, com cruel nitidez e assombro. É como se ele não quisesse passar por tudo isto sozinho e fosse irresistível em si a necessidade de ter toda uma legião de ouvintes e seguidores não atrás de si, mas de mão dada consigo a ajudá-lo a apaziguar o inapaziguável. Espero que aprecies a sugestão...

Nick Cave And The Bad Seeds - Skeleton Tree

01. Jesus Alone
02. Rings Of Saturn
03. Girl In Amber
04. Magneto
05. Anthrocene
06. I Need You
07. Distant Sky
08. Skeleton Tree


autor stipe07 às 17:41
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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016

Wilco - Schmilco

Pouco mais de um ano após Star Wars, os míticos Wilco de Jeff Tweedy, estão de regresso aos discos com Schmilco, mais uma notável coleção de canções oferecida por esta banda de Chicago, que com o passar dos anos não abranda, parece não ser atingida pelas normais crises de writer's block e parecendo, claramente, ser cada vez mais criativa e refinada no modo como alia o seu adn às tendências mais contemporâneas da folk e do rock alternativo.

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Se Star Wars continha canções impregnadas com um excelente rock alternativo, onde abundavam composições ligados à corrente, efeitos indutores e guitarras cheias de fuzz, oferecendo ao ouvinte um clima marcadamente progressivo e rugoso, alicerçado num garage rock, ruidoso e monumental, Schmilco vira um pouco as agulhas para o experimentalismo folk, num disco conduzido por cordas mais acústicas e um minimalismo lo fi, aspectos que também não são estranhos ao percurso discográfico do projeto, mas que estavam um pouco alheados da sonoridade dos Wilco nos mais recentes trabalhos discográficos.

Schmilco contém uma atmosfera bucólica e encantatória, mas intrigante, sendo um álbum que à primeira audição poderá parecer algo uniforme e homogéneo, mas que, devidamente desconstruído, é diversificado, sem perder coerência e unidade. Assim, se Normal American Kids abre o alinhamento num universo mais recatado, através de uma folk intimista, nostálgica e contemplativa e que tem nas cordas da viola a principal arma de arremesso, mas onde também não falta um feito de fundo eletrificado indispensável para o clima sedutor e soturno do tema, já a bateria e o baixo da preguiçosa Lose e da intrigante Someone To Lose, aproximam os Wilco de uma psicadelia blues de superior filigrana, que se escuta com aquela intensidade que fisicamente não deixa a anca indiferente. Depois, temas como a encantadora If I Ever Was A Child ou a radiofónica We Aren't The World (Safety Girl) piscam o olho aquela pop sessentista luminosa e colorida, tipicamente Beach Boys, com o fuzz cru de Locator e a confessional Cry All Day a exalarem um balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso, mas sem nunca descurarem aquela particularidade fortemente melódica que costuma definir as composições do grupo.

Disco que se destaca pelo habitual entusiasmo lírico e por um prolífero e desafiante incómodo contínuo, que neste caso se saúda com inegável deleite, Schmilco mantém firme o traço de honestidade de uma banda que quer continuar a ser protagonista no universo sonoro em que se move. É um trabalho que desafia o nosso lado mais sombrio e os nossos maiores fantasmas, no convite que nos endereça à consciência do estado atual do nosso lado mais carnal e no desarme total que torna inerte o lado mais humano do nosso peito, nem sempre devidamente realista e racional. Com a temática das canções a expôr as habituais angústias da sociedade de hoje profundamente tecnológica e a dependência da contínua revolução que vivemos, Jeff Tweedy avisa-nos que não se pode deixar de vivenciar sentimentos e emoções reais, de preferência com a crueza e a profundidade simultaneamente vigorosas e profundas que merecem. Espero que aprecies a sugestão...

Wilco - Schmilco

01. Normal American Kids
02. If I Ever Was A Child
03. Cry All Day
04. Common Sense
05. Nope
06. Someone To Lose
07. Happiness
08. Quarters
09. Locator
10. Shrug And Destroy
11. We Aren’t The World (Safety Girl)
12. Just Say Goodbye


autor stipe07 às 12:37
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Quarta-feira, 7 de Setembro de 2016

R.E.M. - Radio Song (demo version)

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Em 2016 comemora-se o vigésimo quinto aniversário do lançamento de Out Of Time, um clássico da discografia dos norte americanos R.E.M. e o disco que lançou o grupo para o estrelato, tendo vendido milhões de cópias em todo o mundo, vencido vários prémios da indústria fonográfica, incluindo alguns Grammys e que contém no seu alinhamento clássicos do calibre de Losing My Religion, Shinny Happy People, Belong, Near Wild Heaven ou Radio Song.

Para comemorar a efeméride, já a dezoito de novembro irá chegar aos escaparates uma reedição de luxo de Out Of Time, com quatro capítulos; A gravação ao vivo de um concerto dos R.E.M. dessa época em Charleston, uma edição remasterizada do alinhamento, todos os vídeos das músicas do disco, com notas e apontamentos dos membros da banda e dos produtores Scott Litt e John Keane e, finalmente, as versões demo, todas elas acústicas, das onze canções. Uma delas é esta versão fantástica de Radio Song, o tema que abre o alinhamento de Out Of Time e que, comparando com o original, não conta com a presença do rapper KRS-One, mas conta com a maravilhosa melancolia intrigante do grupo e tem o baterista Bill Berry a cantar num dos versos da canção. Confere...


autor stipe07 às 14:05
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Booby Trap - Overloaded (single)

 

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Os aveirenses Booby Trap de Pedro Junqueiro, Pedro Azevedo, Carlos Ferreira e Hugo Lemos, já tem sucessor para Survival, o excelente disco que lançaram no final de 2013. Overloaded é o nome do novo registo de originais do quarteto e já é conhecido o single homónimo do álbum, pouco mais de três frenéticos e intensos minutos, uma verdadeira obra-prima de crossover thrash, um género musical que surgiu nos anos oitenta e que se define pela mistura entre o hardcore punk e o trash metal. Recordo que enquanto o trash metal nasceu quando parte da cena metal incorporou influências vindas do hardcore punk, o crossover thrash nasceu pelo caminho inverso, quando as bandas hardcore punk passaram a metalizar a sua música.

Man On The Moon aguarda com enorme expetativa o restante alinhamento de Overloaded e o regresso dos Booby Trap, grupo que, de acordo com a sua biografia oficial, nasceu em 1993 na cidade de Aveiro e marcou uma época com o seu som thrash metal/hardcore, apesar de misturar outras influencias como o rock ou punk, mas que ainda hoje, depois de uma espécie de recomeço já na segunda década deste milénio, é uma referência incontornável do género sonoro que replica, a nível nacional. Confere o single e o notável artwork de Overloaded...


autor stipe07 às 11:20
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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2016

Warhaus – We Fucked A Flame Into Being

Warhaus é o alterego artístico e projeto a solo de Maarten Devoldere, um dos líderes dos belgas Balthazar e que acaba de editar We Fucked A Flame Into Being, um alinhamento abrigado à sombra da PIAS América e sem a preocupação clara em seguir determinados cânones e regras pré-estabelecidas. A capa que Maarten veste nos Warhaus não é um outro caminho balizado pelo músico rumo ao estrelato e ao sucesso comercial, mas antes um marco de ruptura com o catálogo dos Bathazar, em dez canções que exalam uma elevada maturidade, quer melódica quer instrumental, um caso evidente de acerto criativo relevante no sempre profícuo cenário musical belga.

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We Fucked A Flame Into Being é um título particularmente feliz para um alinhamento que exala sensualidade e lascívia por por todos os poros. No timbre da percussão, no sussurro grave e sedutor da voz de Maarten  e no negrume crú e vintage de I'm Not Him sentimos logo todos os nossos poros inquietarem-se e quando as cordas se anunciam de modo insinuante ficamos desde logo rendidos a este diálogo de engate em que não são precisas muitas palavras ou um discuro demasiado elaborado para nos deixarmos possuir e enrolar por este disco.

Apreciar devidamente We Fucked A Flame Into Being é aceitar esta cópula necessariamente húmida, intensa, apaixonada e sentida entre música e ouvinte, numa relação de completa submissão da nossa parte a um rock clássico exemplarmente temperado por uma nostalgia blues, arrebatadora em The Good Lie, que num ambiente ora sombrio e nostálgico, ora explicitamente sexual, como sucede no vai e vem impiedoso de Against The Rich, encarna uma clara manifestação de diferentes pistas para quem busca numa relação não apenas a pureza sentimental, mas também aquelas sensações mais orgânicas e imediatas, que podendo ser emotivas ou amargas, sãos as que tantas vezes melhor nos mostram como é bom estar vivo e perceber que tudo em nós funciona e faz sentido.

A cereja no topo do bolo de We Fucked A Flame Into Being é, quanto a mim, Leave With Me, canção com uma vibração ímpar e que emerge com toques de grandiosidade nos sempre incautos caminhos do rock mais melancólico e minimal, mas merece também entrega total da nossa parte o fuzz da guitarra e o c'mon do refrão da mais soturna e exigente Memory, o ardor intimista das cordas e dos tambores de Wanda e o sentimentalismo minimalista de Bruxelles, uma ode de amor a uma cidade que vive um presente algo conturbado, mas que é um exemplo europeu de integração e de liberdade, também ao que o amor em todas as suas possíveis dimensões diz respeito, uma cidade onde não és julgado pela tua religião, orientação sexual ou condição social, mas apenas pelo modo como respeitas uma multiplicidade cultural e sociológica que deveria ser exemplo para tantas outras cidades e culturas da nossa contemporaneidade. 

O clima sonhador e etéreo de Time And Again, como que personifica aquele momento em que após longos e saborosos minutos de intenisdade física precisamos de deixar que o nosso corpo recupere de todo o torpor em que se encontra, no reconforto de um sono profundo, encerrando assim um alinhamento que explora não só o orgânico, mas também os recantos mais obscuros das relações, especialmente aquelas que se desejam que não sejam sempre pacíficas, criado por um músico com um charme inconfundível e sem paralelo no universo alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...

Warhaus - We Fucked A Flame Into Being

01. I’m Not Him
02. The Good Lie
03. Against The Rich
04. Leave With Me
05. Beaches
06. Machinery
07. Memory
08. Wanda
09. Bruxelles
10. Time And Again


autor stipe07 às 18:17
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Everything Everything – I Believe It Now

Everything Everything - I Believe It Now

Em estúdio a gravar o sucessor de Get To Heaven (2015), os britânicos Everything Everything de Jonathan Higgs, Jeremy Pritchard, Alex Robertshaw e Michael Spearman estão de regresso aos lançamentos com I Believe It Now, um single encomendado pelo canal desportivo BT Sport e que não se sabe se fará parte do alinhamento do quarto disco do quarteto, ainda sem data de lançamento prevista.

Piscando o olho, ao longo da carreira, a um vasto leque de influências que vão da dream pop ao rock progressivo, passando pela eletrónica, o R&B e o indie rock contemporâneo, os Everything Everything oferecem-nos nesta I Believe It Now um tratado de indie rock, feito com uma percussão vincada, um baixo pleno de groove, uma guitarra particularmente melódica e um registo vocal em falsete exemplarmente replicado por Higgs. Confere...


autor stipe07 às 16:03
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