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Joana Barra Vaz - A Demora

Quarta-feira, 11.05.16

Depois de Tanto Faz, o primeiro single divulgado de Mergulho Em Loba, o próximo disco de Joana Barra Vaz, que deverá ver a luz do dia lá para setembro, A Demora é o novo tema divulgado por esta cantora e compositora, ao mesmo tempo que nos é dado também a conhecer o vídeo, realizado em conjunto com Maria João Marques. 

A Demora é um lindíssimo tema, que se destaca pelo ambiente aconchegante e acolhedor proporcionado pela indulgência das cordas, cujos arranjos se passeiam exuberantemente em redor da melodia e de um registo vocal belo e envolvente. A canção foi gravada entre os Estudios Iá e na SMUP e conta com pré-produção e arranjos de David Pires, da própria Joana Barra Vaz e da banda F l u me, tendo sido produzido por Luís Nunes e pela autora. Confere...

 

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publicado por stipe07 às 22:40

Radiohead - A Moon Shaped Pool

Segunda-feira, 09.05.16

Depois de vários dias de suspense e que incluiram um apagão total de toda a atividade social da banda nas redes sociais e na internet, terminou finalmente a espera e já é possível ao comum dos mortais deslumbrar-se com A Moon Shaped Pool, o novo álbum da carreira dos Radiohead, verdadeiros Fab Five do novo milénio, não só porque estão criativamente sempre prontos a derrubar barreiras e a surpreender com o inesperado, mas também porque, disco após disco, acabam por estabelecer novos paradigmas e bitolas pelas quais se vão depois reger tantas bandas e projetos contemporâneos que devem o seu valor ao facto de terem este quinteto de Oxford na linha da frente das suas maiores influências.

Disco para já apenas lançado em formato digital, mas que terá direito a formato fisico lá para meados de junho, através da XL Recordings, A Moon Shaped Pool abre-se diante de nós com enorme deslumbre e vibração, à boleia de Burn The Witch, canção com uma dimensão sonora particularmente épica e orquestral, guiada por um cardápio de cordas bastante abrasivo e com o típico ambiente soturno que a banda tão bem recriou há quase uma década em In Rainbows e que liricamente também se situa num terreno muito confortável para Yorke, que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nú algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia.

A sociedade contemporânea e, principalmente, a evolução tecnológica que nem sempre respeita o ritmo biológico de um planeta que tem dificuldade em assimilar e adaptar-se ao modo como apenas uma espécie, possuindo o dom único da inteligência, coloca em causa todo um equilíbrio natural, é, então, um manancial para a escrita de Yorke. E neste A Moon Shaped Pool, a nave espacial que se despenha entre os efeitos inebriantes e a guitarra que se insinua em Decks Dark, a soul arrepiante das cordas que encoraja um homem que quer partir estrada fora guiado por um espírito maior em Desert Island Disk ou o passageiro que sai de um comboio num destino ao acaso hipnotizado pela gentileza das teclas e pelos violinos que se elevam ao alto em Glass Eyes, são apenas três exemplos do modo como metaforicamente, ou indo diretamente ao assunto, este incomparável poeta nos recorda como poderá ser drástico viver em permanentemente desafio com a natureza, sem ter em conta o nosso verdadeiro lugar e posição, no seio da mesma.

Deixando um pouco de lado o ideário lírico destas canções e olhando para a vertente sonora deste disco, uma das maiores curiosidades de A Moon Shaped Pool e, na minha opinião, um dos seus principais trunfos, é não ter o maior despudor em apresentar uns Radiohead conceptualmente situados, nesta fase da carreira, numa espécie de encruzilhada. A eletrónica é uma realidade muito presente no passado mais recente, quer da banda, quer do projeto a solo de Thom Yorke e, neste álbum, se por um lado podemos apreciar aquele bucolismo típico do grupo em Present Tense e no clima inquietante de Daydreaming, canção onde somos forçados a enfrentar o lado mais melancólico, etéreo e introspetivo dos Radiohead, conduzidos por um faustoso instante sonoro, onde sintetizadores e efeitos futuristas se cruzam, numa melodia cheia de humanidade e emoção, já Ful Stop, usando armas muito parecidas, mas acelerando a batida, abusando de alguns efeitos abrasivos e adicionando uma linha de guitarra ligeiramente aguda e uma bateria que parece rodar sobre si própria, acaba por mostrar uma outra faceta desta apenas aparente dúvida existencial em que vivem hoje os Radiohead. O próprio jogo que se estabelece entre a bateria, o baixo e a voz planante de Yorke, sobreposta por camadas e, mais tarde, a junção de um teclado sintetizado retro em Identikit, mais outro tema que aborda a propensão humana para a perca, é nova preciosa acha para a fogueira que ilumina a abrangência estilística do adn sonoro atual dos Radiohead. No fundo, esta espécie de dicotomia entre um lado mais orgânico e outro mais sintético, também expressa, inicialmente com luminosidade, frescura e cor na viola e nos efeitos borbulhantes de The Numbers e depois, ainda nessa música, no espiral quase incontrolada de cordas de violinos, sopros, metais e guitarras que dela se apoderam, acaba por atestar a segurança, o vigor e o modo ponderado e criativamente superior como este grupo britânico entra hoje em estúdio para compôr e criar um arquétipo sonoro que não tem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual.

Disco muito desejado por todos os seguidores e não só e que quebra um longo hiato de praticamente meia década, A Moon Shaped Pool é um lugar mágico para onde podemos canalizar muitos dos nossos maiores dilemas, porque tem um toque de lustro de forte pendor introspetivo, livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor, num disco que, no seu todo, contém uma atmosfera densa e pastosa, mas libertadora e esotérica. Acaba por ser um compêndio de canções que nos obriga a observar como é viver num mundo onde somos a espécie dominante e protagonista, mas também observadora de outros eventos e emoções, um trabalho experimentalista naquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas, como tão bem prova a fabulosa e surpreendente versão de True Love Waits, uma das mais bonitas canções que a banda compôs e que tocou ao vivo pela primeira vez já no longínquo ano de 1995. Espero que aprecies a sugestão...

Radiohead - A Moon Shaped Pool

01. Burn The Witch
02. Daydreaming
03. Decks Dark
04. Desert Island Disk
05. Ful Stop
06. Glass Eyes
07. Identikit
08. The Numbers
09. Present Tense
10. Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief
11. True Love Waits

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publicado por stipe07 às 00:02

Astronauts - End Cods

Domingo, 08.05.16

Astronauts é um projeto musical encabeçado pelo londrino Dan Carney e que se estreou em pleno 2014 com Hollow Ponds, a extraordinária primeira etapa da nova vida musical de um músico e compositor que fez carreira nos lendários Dark Captain, que se destacaram com o belíssimo Dead Legs & Alibis e que se dedicou a essas dez canções num período particularmente conturbado da sua vida pessoal. Hollow Ponds viu a luz do dia por intermédio da Lo Recordings e tem já, finalmente, sucessor. End Cods é o título do novo registo de originais de Astronauts, onze fabulosas canções que viram a luz do dia a seis de maio último, também à boleia da Lo Recordings e que nos oferecem uma filosofia sonora muito própria, onde intensidade sentimental e sobriedade instrumental se juntam, para permitir que, ao longo da sua audição, nos possamos sentir profundamente tocados por uma nobreza única, que arrebata e salpica com suores quentes todos os poros do nosso ser.

Astronauts é um nome feliz para um projeto que servindo-se de uma instrumentação orgânica bem real e terrena, ao ser tocada por Dan Carney, parece inspirar-se num universo exterior, sendo possível imaginar o autor a tocar devidamente equipado com um fato hermético que lhe permite transmitir uma simultaneamente implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica.

As cordas que conduzem a magnificiência melódica de Recondition e o clima intenso, implacável e imersivo de Civil Engineer, são uma solarenga porta entreaberta para este End Codes, que prossegue, penetrando pelos ouvidos e flutuando por todas as células do nosso corpo, encarnando uma simbiose única entre ouvinte e interlocutor, caso o primeiro tenha um coração limpo e aberto a deixar-se envolver por aquela causa maior que é o amor, o eixo principal da temática lírica destes temas abolutamente inebriantes.

A indulgente percussão que abraça uma rugosa melancolia em Dead Snare, os efeitos metálicos sibilantes, as cordas que se passeiam exuberantemente em redor da melodia e um registo vocal em falsete belissimamente acompanhado por coros envolventes, de You Can Turn It Off, canção que se abriga à sombra de uma folk etérea de superior calibre, reservada e contida na medida certa, mas inultrapassável no caudal de emoções que arrasta à sua passagem, são mais duas excelentes rampas de lançamento para acedermos à dimensão superior onde Astronauts nos senta e dois pilares na sensação qusse carnal de que este disco é, claramente, uma daquelas preciosidades que devemos guardar com carinho num cantinho especial do nosso coração.

End Codes é já um marco discográfico neste ano, concebido, idealizado e suspirado por um músico que merece, com inatacável evidência, que a pureza e altivez de sentimentos que reflete nas suas canções, tão doce e meiga na despedida que todos experimentamos uma vez na vida e que recordamos sem esforço em When It's Gone, sejam absorvidos, contemplados e experimentados fisicamente pelo maior número possível de ouvintes.

Dan Carney é um mestre da introspeção que todos precisamos de fazer periodicamente, aquela que resulta porque vai direita ao âmago, de punhos cerrados, com garra e fibra, sem falsos atalhos e cansativos clichês. Além de refletir sabiamente sobre o mundo moderno, Astronauts fá-lo materializando os melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, tornando-nos novamente cúmplices das suas angústias e incertezas, enquanto sobrepõe texturas, sopros e composições contemplativas, que criam uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades e um refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual. Espero que aprecies a sugestão...

Astronauts - End Codes

01. Recondition
02. Civil Engineer
03. Dead Snare
04. You Can Turn It Off
05. A Break In The Code, A Cork In The Stream
06. When It’s Gone
07. Split Screen
08. Hider
09. Breakout
10. Newest Line
11. Skeleton

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publicado por stipe07 às 14:23

Radiohead - Daydreaming

Sexta-feira, 06.05.16

Radiohead - Daydreaming

Depois de vários dias de suspense que incluiram um apagão total de toda a atividade social da banda nas redes sociais e na internet, os britânicos Radiohead divulgaram há alguns dias o primeiro tema do próximo registo de originais e logo sepercebeu que não iriam ficar por aí.

Depois de nos deliciarmos com Burn The Witch, o nome dessa canção, um tema com um vídeo soberbo realizado por Chris Hopewell e com uma dimensão sonora particularmente épica e orquestral, guiado por um cardápio de cordas bastante abrasivo e com o típico ambiente soturno que a banda tão bem recriou há quase uma década em In Rainbows, hoje chegou a vez de ficarmos a saber que o disco chega já domingo e de enfrentarmos o lado mais melancólico, etéreo e introspetivo dos Radiohead, conduzidos por Daydreaming, um faustoso instante sonoro, onde sintetizadores e efeitos futuristas se cruzam, numa melodia cheia de humanidade e emoção, dimensões exemplarmente explicitadas no fabuloso vídeo do tema, realizado por Paul Thomas Anderson. Confere...

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publicado por stipe07 às 21:51

The Loafing Heroes - The Baron in the Trees

Sexta-feira, 06.05.16

Com a tenda montada em Lisboa mas com músicos oriundos de diferentes países e proveniências, os The Loafing Heroes são um encontro internacional de ideias musicais de vários países liderado pelo vocalista e guitarrista Bartholomew Ryan (Irlanda), ao qual se juntam Giulia Gallina (Itália) na voz e concertina, João Tordo (Portugal) no contrabaixo, Judith Retzlik (Alemanha) no violino, xilofone e trompete, Jaime McGill (Estados Unidos) no clarinete baixo, e João Abreu (Portugal) na percussão. Hoje chegou aos escaparates The Baron in the Trees, o quinto registo de originais do cardápio do projeto, doze canções buriladas durante dois anos e que misturam lindos poemas com pop, folk, world music e até alguns detalhes típicos da música dita mais erudita e pitadas de blues e jazz, detalhes que se abastecem de uma voz sentida, dedilhares de cordas vibrantes e emotivos, sopros sublimes e a percussão, o contrabaixo e o violino a darem substância e cor às melodias.

A curiosa explicação para o nome deste projeto foi divulgada pelos próprios numa excelente entrevista que podes conferir logo após esta crítica e baseia-se nos loafing heroes de Milan Kundera, heróis errantes que têm direito a tal distinção por serem pessoas que vivem a vida com aparente vulgaridade, mas que vão-se fortalecendo e orientando a sua demanda terrena através de valores comuns e que entroncam no sentimento maior chamado amor.

Num disco abissal, produzido pelo berlinense Tad Klimp, canções como a meiga Loyal To Your Killer, a feminina Gypsy Waltz e a enleante e sedutora Gates Of Gloom, assim como a narrativa impressiva que conduz God's Spies ou a imensidão épica que exala de um espantoso edifício sonoro, simultanamente conciso e onírico, chamado Javali, que abriga um homem só, que ajudado por uma maravilhosa guitarra, murmura sobre o fim do amor, debruçam-se em histórias que podem ser apropriadas por todos nós, já que além desse sentimento maior, também abarcam o tema da perda e da regeneração constante do ser humano, conforme afirmam os próprios The Loafing Heroes, que não esquecem a escrita de nomes tão díspares como Calvino ou Pessoa como outros exemplos inspiradores.

Escutar The Baron In The Trees, um disco melodicamente bastante sedutor, é descobrir um magnífico psicotrópico mental verdadeiramente eficaz e aditivo, sem falsos pressupostos, intenso e genuíno. O seu alinhamento tem um valor natural e genuíno e não precisa de uma análise demasiado profunda para o percebermos, até porque um dos seus grandes atributos, enquanto disco, é não ser demasiado intrincado ou redundante no que concerne aos arranjos e ao arsenal instrumental de que se serve, algo que só demonstra a relevância destes The Loafing Heroes no universo nacional atual, um coletivo em constante mutação, que regressou em grande, com contemporaneidade, consistência e excelência. Espero que aprecies a sugestão...

O Outro Lado

Gypsy Waltz

Collapsing Star

Crossing Roads

Nightsongs

Loyal To Your Killer

Gates Of Gloom

Rag & Bone

Caitlin Maude

Soul

God's Spies

Javali

Antes de nos debruçarmos com algum cuidado no conteúdo de The Baron In The Trees, o vosso novo registo discográfico, começo com uma questão clichê… Como é que nasceu este projeto, já com vários discos em carteira, com músicos de diferentes origens e tão cosmopolita?

Não é o primeiro registo... a banda já tem cinco discos! A banda surgiu quando o vocalista e compositor principal, Bartholomew Ryan, estava na Dinamarca – juntou-se com outros músicos e formaram os Loafing Heroes, banda de inspiração errante, vagabunda, com variadíssimas formações até chegar à formação que tem hoje. Depois passou por Berlim e, finalmente, Lisboa, onde toca com uma italiana, um português, uma alemã, um inglês, uma americana...o projecto nasceu da vontade de fundir música com poesia e literatura, a inspiração vem de Milan Kundera, que fala dos “loafing heroes” de outrora, heróis que erram pela vida sem propósito aparente, assimilando tudo.

Com canções que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da folk, mas onde não faltam pitadas de blues e jazz e que se abastecem de uma voz sentida, dedilhares de cordas vibrantes e emotivos, sopros sublimes e a percussão, o contrabaixo e o violino a darem substância e cor às melodias, The Baron In The Trees é, na minha opinião, uma coleção de canções particularmente inspirada. Que tipo de anseios e expetativas criaram para este novo passo do vosso já notável percurso?

Algum anseio, alguma expectativa, mas quase nenhuma, isto é, sabemos que temos canções muito bonitas mas também sabemos que o mundo está “saturado” de informação, que há milhões de bandas por aí fora e que é difícil “quebrar” o mainstream e fazer música como nós fazemos – bonita, simples nas harmonias mas complexa nos arranjos, música que parece vir de outro tempo mas “aterra” em 2016 sem necessidade de ser cool, hip ou trendy. Por isso as expectativas não são de grandes sucessos nem de aplauso constante, mas de irmos encontrando aqueles que se identificam connosco neste caminho e de ir fazendo música que toque o coração das pessoas, inspirada pelos grandes prosadores e contadores que a humanidade conheceu – de Italo Calvino a Fernando Pessoa, tudo vai passando por aqui.

Olhando um pouco para a lírica das canções, predomina a escrita na primeira pessoa e, também por isso, parece-me ter havido uma opção pouco ficcional e quase autobiográfica, em vez da criação, na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais os The Loafing Heroes nunca teriam à partida de se comprometer. Acertei na mouche ou o meu tiro foi completamente ao lado?

Há elementos naturais e reais e outros ficcionados. As canções contam muitas histórias, quase todas elas relacionadas com o tema da perda e da regeneração constante do ser humano. O álbum anterior, Crossing the Threshold, apontava neste sentido: uma fronteira atravessada e um novo começo, no limiar de uma descoberta sobre o amor, os outros, o nosso destino no mundo. As histórias contadas vêm complementar estes temas abundantes na nossa música. Sim, há personagens – como o solitário em “Javali” que denuncia o fim do amor, ou a enigmática personagem feminina em Gypsy Waltz, que tenta seduzir um homem para o enfeitiçar; ou alguém perdido numa floresta, em “Soul”, acometido do vazio existencial e prestando atenção aos animais que encontra; mas todas estas histórias cabem na Grande História humana, a da procura de sentido.

Confesso que o que mais me agradou na audição de The Baron In The Trees foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma riqueza e uma exuberância ímpares. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, aquilo que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final, ou houve alterações de fundo ao longo do processo? Em que se inspiraram para criar as melodias?

As melodias foram sendo construídas ao longo de dois anos, dois anos e meio. O produtor, Tad Klimp, que veio de Berlim para fazer o disco, teve muita influência nesta riqueza e subtilieza do disco, que nos parece muito bonito mas sem ser excessivo – tudo está na conta certa. Foi isto em que pensámos inicialmente? Sim, sabíamos que tínhamos músicos tecnicamente excepcionais e outros músicos que, sem ser de excepção, têm uma sensibilidade muito própria para temas folk e indie, muito identificados com a banda. É uma mistura curiosa de instinto e técnica o que produz esta arte muito particular dos Loafing Heroes. Não somos uma banda normal nesse sentido – o que fazemos é raro porque mistura arte, técnica, literatura e orquestrações cuidadas, tudo dentro da estética folk que podia vir directamente do final dos anos 60.

Sempre senti uma enorme curiosidade em perceber como se processa a dinâmica no processo de criação melódica. Numa banda com vários elementos, geralmente há sempre uma espécie de regime ditatorial (no bom sentido), com um líder que domina a parte da escrita e, eventualmente, também da criação das melodias, podendo os restantes músicos intervir na escolha dos arranjos instrumentais. Como é a química nos The Loafing Heroes? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou um de vocês domina melhor essa componente?

Há um “elemento dominador”, o Bartholomew Ryan, que escreve a grande parte das canções e portanto vamos trabalhando a partir das estruturas que ele envia para todos os outros. Mas há canções que surgiram de ensaios, como “Javali”, por exemplo, que partiu de um riff de guitarra muito simples e foi construída a partir daí; ou Caitlin Maude, que a Giulia Gallina inventou ao piano e, no disco, surge sobre outra forma. Há um lado espontâneo, sim, cada vez mais, e menos “dependência” de um único criador, mas continua a ser um trabalho mais de laboratório do Bartholomew, por vezes, e um trabalho de banda, por outras.

Adoro a canção Javali, um longo tema que sabe a despedida, cheio de nuances e com uma guitarra que me encheu as medidas. E o grupo, tem um tema preferido em The Baron In The Trees?

Sim, todos concordamos que essa é a nossa preferida: Javali. Teve uma geração espontânea dentro do grupo e todos adoramos a canção. Representa este álbum na perfeição.

The Baron In The Trees foi produzido pela própria banda, com o apoio de Tad Klimp. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?

Depois do último álbum, que tinha sido de estúdio, decidimos que íamos gravar em casa – o produtor, Tad Klimp (um génio!) foi “marcado” com um ano de antecedência. E  a gravação foi muito bonita, tudo feito em casa com aparelhos vintage dos anos 70, microfones antigos, etc. Daí o som tão bonito do álbum.

Para terminar, em relação à apresentação e divulgação de The Baron In The Trees, onde podemos ver os The Loafing Heroes a tocar num futuro próximo?

Musicbox no dia 6 de Maio, FNAC Oeiras no dia 7 de Maio e NOS Alive no dia 8 de Julho!

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publicado por stipe07 às 21:24

Suuns – Hold/Still

Quinta-feira, 05.05.16

Num momento de enorme e justificada histeria coletiva devido ao novo álbum dos Radiohead, prestes a ver a luz do dia não se sabe bem quando, vindo de onde, como e com o quê, não deve passar em claro e despercebido aquele que poderia ser, para mim, o melhor lançamento discográfico desse grupo de Oxford depois de Kid A. Refiro-me a Hold/Still, um compêndio de onze canções com a chancela da Secretly Canadian e assinado pelo excelente projeto Suuns, um quarteto oriundo de Montreal, no Canadá. Os Suuns apareceram em 2007 pela mão do vocalista e guitarrista Ben Shemie e do baixista Joe Yarmush, aos quais se juntaram, pouco depois, o baterista Liam O'Neill e o teclista Max Henry. Estrearam-se nos álbuns em 2010 com Zeroes QC, três anos depois chegou o extraordinário Images Du Futur, um trabalho que lhes elevou o estatuto grandemente, trendo merecido enormes elogios, não só no Canadá, mas também nos Estados Unidos e na Europa, sendo este Hold/Still, o terceiro disco, a confirmação de estarmos na presença de um grupo especial e distinto no panorama indie e alternativo atual.

Fall, o primeiro tema do alinhamento de Hold/Still, coloca-nos bem no centro de um noise rock que não deixa de nos fazer recordar experimentações semelhantes ao que foi testado pelos Sonic Youth do início de carreira e logo depois, em Instrument, existe uma implícita dose de punk dance que enquanto nos aproxima de uma sonoridade algo amena e introspetiva, mostra-nos a abrangência destes Suuns e o modo quase impercetível como mesclam orgânico e sintético com propósitos bem definidos.

Na verdade, o que parece ser inicialmente apenas ruído, distorção e gritos desordenados, passa a debitar algo mais brando, com uma proposta de som muito mais voltada para um resultado atmosférico, definição que se amplia com evidência em UN-NO, canção onde o dedilhar e a distorção da guitarra oferece aquele toque experimental que nos faz crer, logo ao terceiro tema, que este é um disco colossal, do melhor que já ouvi este ano! E o pendor hipnótico, intenso e efervescente de Resistance e de Translate, assim como a rugosidade intensa e algo caótica de Brainwash, reforçam tal impressão com racionalidade objetiva, sobre um conjunto de canções com uma base sonora bastante peculiar e climática, uma proposta ora banhada por um doce toque de psicadelia a preto e branco, ora consumida por um teor ambiental denso e complexo. 

Com uma estrutura inicialmente lenta no decorrer das primeiras audições, o disco aos poucos revela uma variedade de texturas e transformações que parecem filtradas pelos atmosféricos ensinamentos da banda. É uma espécie de  psicadelia suja, que além da pafernália de sons sintetizados que contém, é banhada, ora por guitarras suaves, ora por loopings de distorção, numa união com uma certa tonalidade minimalista, que costura todas as canções do álbum, evitando excessos e onde tudo é moldado de maneira controlada, com acordes minuciosos e com a voz reduzida ao essencial, com todas as canções a soarem encadeadas, como se todo o disco fosse apenas uma única e extensa canção.

Assertivos e capazes de romper limites, os Suuns oferecem-nos, em Hold/Still, entre belíssimas sonorizações instáveis e pequenas subtilezas, um portento sonoro de invulgar magnificiência, com proporções incrivelmente épicas, um disco bem capaz de proporcionar um verdadeiro orgasmo volumoso e soporífero a quem se deixar enredar nesta armadilha emocionalmente desconcertante, feita com uma química interessante e num ambiente simultaneamente denso e dançável, despido de exageros desnecessários, mas que busca claramente a celebração e o apoteótico. Espero que aprecies a sugestão...

Suuns - Hold-Still

01. Fall
02. Instrument
03. UN-NO
04. Resistance
05. Mortise And Tenon
06. Translate
07. Brainwash
08. Careful
09. Paralyzer
10. Nobody Can Save Me Now
11. Infinity

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publicado por stipe07 às 20:56

Wussy – Forever Sounds

Quarta-feira, 04.05.16

Considerados por imensa crítica especializada como a melhor banda norte americana da atualidade, os Wussy andam por cá desde 2001 e acabam de regressar aos discos com Forever Sounds, o sexto registo de originais da carreira deste grupo oriundo de Cincinnati, no Ohio e formado por Chuck Cleaver, antigo líder dos Ass Ponys e Lisa Walker, Mark Messerly, Joe Klug e John Erhardt. Este tomo de dez canções viu a luz do dia à boleia da insuspeita Shake It Records, sendo já um marco discográfico do ano no panorama alternativo norte americano.

Intensos, rugosos e com um cardápio sonoro impregnado com um manancial de efeitos e distorções alicerçadas em trinta anos de um indie rock feito com guitarras bastante inspiradas, estes Wussy transportam já uma herança no seu cardápio que sempre buscou texturas sonoras abertas, melódicas e expansivas, mas onde o ruído e o pendor lo fi são também traves mestras da sua filosofia sonora. O magnífico reverb da guitarra de Donny’s Death Scene, a luminosidade melódica de Hello, I'm A Ghost, a comoção latente em Sidewalk Sale, ou  a grandiosidade do single Dropping Houses, composição que exibe linhas e timbres de cordas eletrificadas muito comuns no chamado garage rock, uma produção suja, um registo vocal cru e um ruído constante, são aspetos que nunca inibem os Wussy de se manterem concisos e diretos na visceralidade controlada que querem exalar e provam elevada competência no modo como, nos exemplos citados, separam bem os diferentes sons e os mantêm isolados e em posição de destaque, durante o processo de construção dos diferentes puzzles que lhes dão substância.

Muitas vezes torna-se demasiado dominante e percetivel a distorção das guitarras em bandas que apostam no espetro sonoro relacionado com o indie rock mais cru, mas no caso deste quinteto tal preponderância atinge uma bitola qualitativa elevada, além de não faltar uma porta aberta a um saudável experimentalismo. O modo exemplar como Forever Sounds amplifica estas impressões faz deste Wussy um nome a reter com urgência, impulsionados por um disco que é um espetacular tratado de indie punk rock aternativo, aditivo, rugoso e viciante. Confere...

Wussy - Forever Sounds

01. Dropping Houses
02. She’s Killed Hundreds
03. Donny’s Death Scene
04. Gone
05. Hello, I’m A Ghost
06. Hand Of God
07. Sidewalk Sale
08. Better Days
09. Majestic-12
10. My Parade

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publicado por stipe07 às 21:41

Radiohead - Burn The Witch

Terça-feira, 03.05.16

Depois de vários dias de suspense que incluiram um apagão total de toda a atividade social da banda nas redes sociais e na internet, os britânicos Radiohead acabam finalmente de divulgar o primeiro tema do próximo registo de originais. Burn The Witch é o nome da canção, um tema que já tem um vídeo soberbo realizado por Chris Hopewell e com uma dimensão sonora particularmente épica e orquestral, guiado por um cardápio de cordas bastante abrasivo e com o típico ambiente soturno que a banda tão bem recriou há quase uma década em In Rainbows.

Espera-se mais novidades dos Radiohead nos próximos dias, o disco pode mesmo chegar aos escaparates sem aviso prévio e de modo inédito e este blogue manter-se-à particularmente atento e tentará divulgar o mais rápido possível tudo aquilo que for acontecendo. Confere...

 

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publicado por stipe07 às 21:45

The Weatherman realiza concerto para macacos

Terça-feira, 03.05.16

A mostrar 1.pngA mostrar 1.pngNo próximo dia dezasseis de maio vai acontecer no jardim zoológico da Maia um concerto que terá tanto de inusitado como de imperdível. The Weatherman, o pseudónimo artístico criado em 2006 pelo multi-instrumentalista portuense Alexandre Monteiro e um projecto pop rock versátil e multifacetado, está de regresso aos discos com Eyeglasses for the Masses, um álbum editado a vinte e nove de Abril e que será alvo de crítica neste espaço muito em breve e vai tocar nesse espaço com um propósito muito especial.

(pic by Morsa)

Um dos singles de Eyeglasses for the Masses é Calling all Monkeys e, de acordo com o press release do evento, The Weatherman irá tocar para os macacos que vivem nesse espaço com a intenção declarada de chamar a atenção para os erros da Humanidade,(...) e apontar falhas à nossa demanda que perspectiva o mundo enquanto sítio melhor. Este evento será transmitido em directo no canal de Youtube do músico.

The Weatherman estreou-se nos lançamentos discográficos em 2006 com Cruisin’ Alaska, ao qual se sucedeu Jamboree Park at the Milky Way (2009), e um homónimo, em 2013, antes deste Eyeglasses for the Masses, um trabalho que nos remete para um universo pop e psicadélico, diversificado e versátil, onde reina a nostalgia dos anos sessenta e onde nomes como The Beatles ou Beach Boys são referências incontornáveis, além de algumas marcas identitárias da eletrónica atual.

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publicado por stipe07 às 14:03

Leapling - Suspended Animation (preview)

Segunda-feira, 02.05.16

Depois de no início de 2015 me terem espantado com o fabuloso Vacant Page, os nova iorquinos Leapling, um quarteto formado por Dan Arnes, Yoni David, R.J Gordon e Joey Postiglione e que plana em redor de permissas sonoras fortemente experimentais e onde tudo vale quando o objetivo é arregaçar as mangas e criar música sem ideias pré-concebidas, arquétipos rigorosos ou na clara obediência a uma determinada bitola que descreva uma sonoridade especifica, preparam-se para regressar aos lançamentos discográficos com Suspended Animation, um álbum que irá ver a luz do dia já a dez de junho, através da Exploding In Sound.

Hey Sister, Alabaster Snow e One Hit Wonder são os três temas já divulgados de Suspended Animation, um trabalho que deverá continuar a revelar extraordinários acordes de guitarra com um comovente objetivo melódico, como só estes Leapling nos sabem oferecer. Tal é, sem dúvida, o resultado de todas as experiências acumuladas por Dan Arnes, o líder do projeto, além, claro, das referências melódicas típicas do grupo, que da herança que os The Beach Boys, os The Kins e os The Smiths nos deixaram, parece também utilizar referências do próprio quotidiano para construir um panorama instrumental e lírico que pende ora para o rock experimental, ora para a indie pop adocicada e acessível.

Estes Leapling continuam a provar serem mestres no desenvolvimento de uma instrumentação radiante, reflexo da capacidade do grupo em apresentar um som duradouro e sempre próximo do ouvinte, experiência que deve repetir-se, portanto, no novo disco da banda, que será cuidadosamente dissecado por cá logo após o lançamento. Confere...

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publicado por stipe07 às 16:51


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