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Glass Animals – Life Itself

Domingo, 22.05.16

Glass Animals - Life Itself

Depois de Zaba (2014), o disco de estreia, os britânicos Glass Animals vão regressar brevemente aos discos com How To Be A Human Being e Life Itself é o primeiro avanço divulgado do álbum. Esta canção é rica em detalhes e contém um groove muito genuíno, com uma atmosfera dançante, onde encaixa indie popfolkhip-hop e electrónica, com noção de equilíbrio e um limbo perfeito, que nos faz descobrir a complexidade do tema à medida que o vamos ouvindo de forma viciante. Confere...

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publicado por stipe07 às 19:22

Quelle Dead Gazelle - Maus Lençois

Quinta-feira, 19.05.16

Miguel Abelaira e Pedro Ferreira são a dupla que encarna Quelle Dead Gazelle, um projeto artistíco de indie rock experimental, oriundo de Lisboa e que está de regresso aos discos com Maus Lençóis, oito canções produzidas pelos próprios e por Makoto Yagyu e Fábio Jevelim e que traduzem uma jornada sonora no espaço e no tempo, à procura da expressão melódica da natureza e dos sentimentos humanos, bem como a envolvência entre ambos e que se inspira fortemente na contemporaneidade de um país que vive há meia década assombrado por uma inquietante crise, que começou por ser económica mas que, hoje em dia, é também já uma profunda crise de valores, de ausência de rumo e de identidade, suportada de um povo que parece cada vez mais resignado a toda esta conjuntura e fatalidade.

Mesmo não parecendo presos por amarras ou balizas que enclausurem o arquétipo sonoro pelo qual se regem, o alargado espetro rítmico de uma bateria capaz de encarnar as diferentes personagens que ganham vida em cada uma destas canções e o timbre típico agudo e lo fi da guitarra, que se afirma, também, como uma verdadeira imagem de marca desta dupla, mostra que a bitola sonora destes Quelle Dead Gazelle andará sempre em redor do post rock com uma forte componente melódica, um aspeto essencial do adn do grupo, bem patente quer na toada mais étnica de Burundi ou no groove efusivo de Pedra Pomes, apenas dois exemplos de como, apesar da ausência da compoente lírica, é possível escutar Maus Lençóis e perceber que há aqui uma narrativa de diferentes tramas. É possível apreciar este álbum do mesmo modo que abrimos um livro e, de facto, contemplá-lo é quase como abrir várias áginas já que, realmente, percebe-se a existência dessa linha sonora contínua, onde tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração do projeto tivesse um motivo para se posicionar dessa forma.

Sejamos, ou não, apreciadores desta sonoridade mais crua, ríspida e claramente experimental, mas inspirada e sentida, não é possível escutar Maus Lençóis sem absorver a obra como um todo e entregar-se aos pequenos detalhes que preenchem o seu alinhamento é resultado da mais pura satisfação, como se os Quelle Dead Gazelle projetassem inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção, num resultado final que se assume como um álbum conceptual, que impressiona pela beleza utópica de composições que exploram ao máximo a relação sensorial humana, com um som psicadélico, barulhento e melódico que atiça todos os nossos sentidos, provoca em nós reações físicas que dificilmente conseguimos disfarçar e, contendo belíssimas texturas, que não se desviam do cariz fortemente experimental que faz parte da essência do grupo, trespassam sempre o nosso âmago, fechando-nos dentro de um mundo muito próprio, místico e grandioso, onde tudo flui de maneira hermética e acizentada, como convém a uma crise bem sucedida. Espero que aprecies a sugestão...

Maus Lençóis cover art

Sede

Pedra-Pomes

Vaca Fria

Abismo

Burundi

Costas Quentes

Chavalo Lusitano

Fala Baixo

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publicado por stipe07 às 22:07

Marvel Lima - Fever

Quinta-feira, 19.05.16

Depois de em 2014 terem surpreendido a mais atenta crítica nacional com Mi Vida, canção que seria o primeiro avanço para o disco de estreia, que parece que irá ver, finalmente, a luz do dia, lá para setembro, à boleia da editora pontiaq, os alentejanos Marvel Lima acabam de divulgar uma nova prova sonora, que comprova ser este um projeto a ter claramente em conta no panorama indie e alternativo nacional.

Esse sinal dado por este quinteto oriundo de Beja, intitula-se Fever, um tema que encontra a sua alma e pujança numa mistura de indie pop e indie rock com o punk e o post rock, sem descurar também alguns detalhes da eletrónica, um cocktail ampliado por uma elevada dose de emoção, arrojo e amplitude progressiva que, conforme indica o press release do lançamento, també conta com um forte tempêro mediterrâneo e uma assumida influência latina. Confere...

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publicado por stipe07 às 22:02

Oscar – Cut And Paste

Quarta-feira, 18.05.16

Oriundo de Londres, Oscar Scheller é Oscar, um dos nomes mais comentados no cenário indie pop britânico devido a Cut And Paste, o registo de estreia deste músico e compositor, editado no passado dia treze do corrente mês com a chancela da Wichita Recordings e com dez canções feitas para dançar, até à exaustão, no baile da esquina, regado com torneiras que nunca estão secas e onde os niveis de destilação corporal atingem o limite.

O rugoso punk rock de Sometimes, canção conduzida por um baixo musculado e uma guitarra inspirada, trespassada por efeitos estratosféricos, clarifica, desde logo, que Cut And Paste é um manifesto pop, senão para o mundo inteiro, pelo menos para os subúrbios de uma Londres sempre ávida de novidades e que muitas vezes coloca em determinadas bandas ou artistas expetativas que as mesmas depois, nem sempre conseguem acompanhar. Nele, quer seja abrigado pelo groove sedutor e cheio de pêlo na venta de Feel It Too ou pelo piscar de olhos a uma centelha punk em Daffodil Days, Oscar desafia as suas probabilidades, não se preocupa com aquilo que poderão esperar de si e apresenta a sua paleta sonora, que das raízes do rock britânico a alguns dos detalhes mais prementes da pop atual, conjuga sintetizadores, teclados e batidas, com guitarras, num aparente caos, que neste caso resulta plenamente, já que nos oferece um clima sonoro que abre os nossos ouvidos para algo inédito e que parece divertir imenso o autor. Mesmo quando Oscar arrisca por terrenos mais reflexivos, como sucede na redentora Good Things, ou na luminosa Beautiful Words, não existem motivos para duvidar da capacidade deste artista em utilizar a típica ironia britânica com elevada mestria, fazendo-o de modo assertivo e sem deturpar a essência de quem é feliz alimentando-se de riffs de guitarra vigorosos e da pujança de uma percussão que cresce à sombra de um punk dançante, permissas que clarificam um modus operandi diversificado, acessível e orelhudo.

Cut and Paste foi alvo de uma produção aberta e notoriamente inspirada e cimenta num nível qualitativamente elevado o espetro sonoro e a identidade de um projeto que não falseia o desejo de se tornar num referencial dos grandes autores que atualmente mantêm vivo o indie rock alternativo britânico. E aquela toada épica e grandiosa que esse indie local quase exige em determinados instantes, como se cada banda ou projeto tivessem que compor um hino glorioso à Rainha e ao Império para conquistar os corações mais inflamados do proletariado que tantas vezes gosta de se sentir orgulhosamente só, também está devidamente salvaguardado na vibe funk de Good Things. Espero que aprecies a sugestão..

Oscar - Cut And Paste

01. Sometimes
02. Be Good
03. Feel It Too
04. Good Things
05. Only Friend (Feat. Marika Hackman)
06. Breaking My Phone
07. Daffodil Days
08. Fifteen
09. Beautiful Words
10. Gone Forever

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publicado por stipe07 às 21:37

The Weatherman - Eyeglasses for the masses

Terça-feira, 17.05.16

Gravado nos estúdios Hertzcontrol em Caminha por Marco Lima, produzido pelo próprio e por e Alexandre Almeida, e misturado nos SoundHill Studios no Porto por João André, Eyeglasses For The Masses é o quarto e novo registo de originais de The Weatherman, o pseudónimo artístico criado em 2006 pelo multi-instrumentalista portuense Alexandre Monteiro e um projecto pop rock versátil e multifacetado, cujo universo pop e psicadélico nos remete para um mundo sonoro onde reina a nostalgia dos anos sessenta e onde nomes como os The Beatles, claramente audíveis na cândura de Now & Then, ou os Beach Boys, homenageados a preceito em Endless Expectations, são referências incontornáveis, além de algumas marcas identitárias da pop e da eletrónica atual.

Masterizado em Los Angeles pela mão do galardoado Brian Lucey (Artic Monkeys, Black Keys, The Shins, Beck, Sigur Ros, entre outros), Eyeglasses For The Masses assinala uma década de carreira de um músico que sempre demonstrou ser um inspirado e comovente escritor de canções e que, desta vez, quis, de acordo com o press release do lançamento, mover tudo e todos com o poder de uma grande canção. De facto, apoiado pela enorme mestria com que manipula, principalmente, as teclas de um piano, The Weatherman dá-nos a mão e convida-nos a penetrar sem hesitações num disco que faz de nós, inicialmente estranhos numa terra estranha, acabados de chegar ou prontos para partir, num alinhamento que funciona como um campo de sacos cheios de memórias onde a vida se refugia ou fica presa, quando o amor nos resolve pregar, mais uma vez, uma enorme partida.

Tal como esse amor, esta é uma viagem empolgante, onde tudo começa e acaba, instigados pela motivação de canções tão felizes como All The In Between e outras capazes de manipular a nossa mente fragilizada e entorpecida para o lado mais positivo da existência humana, algo que sucede intuitivamente a quem se deixar embrenhar pela monumentalidade instrumental de A Kind Of A Bliss, canção que nos oferece uma sensação de liberdade incomensurável, com o bónus de expirar do nosso âmago toda a cegueira, vertigem, ou abismo, que a solidão tantas vezes nos proporciona.

Parece-me que para quem recentemente ficou só e sente medo que essa fatalidade se prolongue no tempo, algo que nem sempre está nas nossas mãos evitar, este é um álbum que pode indicar pistas seguras para que tal não suceda e que nos pode mostrar o que há do outro lado do vidro que reflete a nossa existência, agora algo perdida. Se tantas vezes nos esquecemos que aquilo que é esta fragilidade que é visível, principalmente aos outros, pode ser apenas aparente, o grito de esperança que desembrulhamos em Unpack My Mind, mostra-nos que muitas vezes depende da nossa força interior o encontro, ou não, de uma nova felicidade, que tantas vezes, por conformismo ou pessimismo, julgamos inatingível.

Mesmo que o ideário global do autor, ao idealizar Eyeglasses For the Masses, não tenha tido esta premissa de busca e reencontro do lado mais positivo e colorido da existência e da felicidade, não há como resistir a esse forte apelo, algumas vezes bastante emotivo, em onze canções onde se cruzam pessoas e factos reais, que nos ensinam que há escolhas que dependem exclusivamente de nós e que nunca devemos condicionar o nosso acesso ao amor devido à nossa religião, estatuto social ou género. One Of These Days, tudo ficará novamente no sítio certo, nem que isso signifique a nossa vida precise de ser completamente virada do avesso. Espero que aprecies a sugestão...

At The In Between

To The Universe

A Kind Of Bliss

Now & Then

Eyeglasses For The Masses

Endless Expectations

Unpack My Mind

Ice II

One Of These Days

Good Dreaming

Call All Monkeys (bonus track)

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publicado por stipe07 às 21:22

The Stone Roses – All For One

Terça-feira, 17.05.16

The Stone Roses - All For One

Mais de duas décadas depois do aclamado Second Coming (1994), o segundo registo de originais da banda e que sucedeu ao aclamado The Stone Roses, o disco de estreia, lançado em 1989, os britânicos The Stone Roses resolveram dar um novo impulso à carreira. A ideia inicial seria organizar uma digressão de verão, mas os ensaios foram tão produtivos que parece certo um novo disco, a ser lançado muito em breve.

Enquanto o terceiro registo discográfico dos The Stone Roses não chega aos escaparates, All For One é o primeiro tema divulgado pelo grupo de Manchester, uma canção conduzida por guitarras incisivas e uma percurssão inebriante e que não defrauda minimamente o ilustre passado da banda de Ian Brown e John Squire. Confere...

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publicado por stipe07 às 13:49

Hooded Fang - Venus On Edge

Sexta-feira, 13.05.16

Chegou hoje aos escaparates à boleia da DAPS Records Venus On Edge, o muito aguardado quarto álbum dos canadianos Hooded Fang, uma banda natural de Toronto, formada por April Aliermo, Daniel Lee, D. Alex Meeks e Lane Halley e que do blues dos anos sessenta ao rock de garagem, são competentes na forma como abordam diferentes estilos e tendências dentro do universo sonoro mais experimental e alternativo.

De regresso à Daps Records, a etiqueta com a qual lançaram o homónimo de estreia em 2010,  que na altura impressionou a crítica mais atenta e onde também incubaram o sempre difícil, mas também bem sucedido, segundo álbum, intitulado Tosta Mista, este quarteto tem vindo a apresentar um som cada vez mais adulto e intrincado, com uma forte tonalidade urbana e típica dos subúrbios. O baixo e a guitarra abrasiva de Tunnel Vision e os desvios rítmicos percussivos dessa canção, clarificam, logo no começo do alinhamento, que este é um disco com uma forte componente instrumental, um trabalho exploratório que sem colocar definitivamente de lado a essência pop dos anos sessenta e setenta, que tem sempre acompanhado os Hooded Fang, pisca o olho a um universo ainda mais progressivo e sombrio.

Já convencidos e esclarecidos do que nos espera daí em diante, embrenhamo-nos corajosamente em Venus On Edge e, ainda sem sabermos que, lá mais para o ocaso, o solo do baixo de Vacant Light vai convencer definitivamente os mais cépticos acerca da excelência criativa destes Hooded Foang, a distorção aguda e o ritmo frenético do baixo impulsivo de Shadow e o devaneio fortememente etílico que transborda do andamento blues de Plastic Love, são bons exemplos de duas canções que poderiam estar esquecidas algures numa cassete legendada com uma banda lá do bairro, que apesar de nunca ter saído de um sala de ensaios que também servia de destilaria, tinha todo o potencial para poder chegar a um universo sempre ávido de sonoridades inéditas, como parece ser o caso destes Hooded Fang, prestes a conseguir posição de relevo na esfera indie internacional, se Venus On Edge lhe possibilitar o destaque que merecem.

A verdade é que, apesar de serem canadianos, Venus On Edge poderia ter sido gravado num velho saloon do oeste americano, cheio de cowboys a destilar whisky. O rock americano, com uma produção forte e notoriamente agressiva e progressiva, torna-se num verdadeiro cavalo de batalha na crueza lo fi e rugosa de Glass Shadows e no ambiente inquietante de Impressions, duas canções que são um verdadeiro caldeirão insinuante de ruído ordenado e feito com propósito e com todos os tiques do melhor punk rock que se pode escutar atualmente

Querem cantem sobre o amor no seu estado mais puro ou se debrucem sobre paragens de autocarros e como poderão ser um belo local para morrer, estes Hooded Fang são, definitivamente, mestres na manipulação do ruído sem colocar em causa propósitos melódicos e a necessária acessibilidade que lhes permita atingir uma base sustentada de ouvintes, nunca defraudando a essência de um projeto que, disco após disco, aperfeiçoa a abordagem experimental ao universo indie punk rock, através de um noise com uma base sonora bastante peculiar, ora banhada por um doce toque de psicadelia a preto e branco, ora consumida por um teor ambiental denso e complexo. Espero que aprecies a sugestão....

Hooded Fang - Venus On Edge

01. Tunnel Vision
02. Shallow
03. Plastic Love
04. Dead Battery
05. Glass Shadows
06. Impressions
07. Miscast
08. A Final Hello
09. Vacant Light
10. Venus

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publicado por stipe07 às 18:54

Local Natives - Past Lives

Sexta-feira, 13.05.16

Local Natives - Past Lives

À exceção de algumas remisturas e versões, os norte americanos Local Natives têm-se mantido na penumbra desde o excelente Hummingbird, o disco que esta banda natural de Los Angeles editou em 2013  e que fez da leveza instrumental, do sofrimento traduzido em versos e da formatação primorosa que brincava com a excelência das formas instrumentais, a sua imagem de marca.

Agora, mais de três anos depois, este quinteto liderado por Taylor Rice está de regresso com Past Lives, o primeiro avanço para aquele que será o terceiro registo de originais do grupo, ainda sem título e data de lançamento definida, mas que amplia a habitual componente épica dos Local Natives, feita com texturas monumentais e arranjos deslumbrantes, sempre numa lógica de progressão, à medida que a canção avança e nunca perdendo de vista as melodias suaves e a dor, dois vectores essenciais do conceito sonoro deste grupo. Confere...

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publicado por stipe07 às 18:48

Retimbrar - Voa Pé

Quinta-feira, 12.05.16

Um dos segredos mais bem guardados do panorama musical nacional e que, felizmente, parece estar a deixar de o ser, está sedeado no Porto e são os Retimbrar, um projeto que acaba de se estrear nos discos com Voa Pé, uma edição de autor, mas que conta com o apoio da Casa da Música, da Cultura Fnac e da Revolução d'Alegria Associação. Neste Voa Pé os Retimbrar são Afonso Passos, André Nunes, André Rodrigues, Andrés Tarabbia 'Pancho', António Serginho, Francisco 'Killo' Beirão, João Grilo, Miguel Arruda, Nuno Xandinho, Rita Sá, Rui Ferreira 'Caps', Rui Rodrigues, Sara Yasmine e Tiago Soares e participaram ainda, como convidados especiais, Alexandre Meirinhos, António Augusto Aguiar 'Togú', Catarina Valadas, Nicô Tricot e Renato Monteiro. A captação, produção, mistura e masterização do trabalho ficou a cargo do Nuno Mendes.

Mergulhar em Voa Pé é tomar contacto direto com aquela herança musical e cultural que todos nós recordamos e que nos habituámos a escutar da boca dos nossos ascendentes, fiéis depositários de uma ruralidade que também se manifestou sonoramente, décadas após décadas, neste jardim à beira mar plantado. E isso sucede porque Voa Pé é um disco que, servindo-se de originais, alguns samples e versões mais contemporâneas, foi incubado numa oficina sonora muito peculiar, onde cordas, sopros e percussão, foram, tema após tema, misturando-se livremente, dançando em conjunto e alternando o protagonismo, sem invejas ou falsos altruísmos, porque o propósito maior é comum e serve de igual modo à preservação da imensa e rica prole instrumental portuguesa.

Assim, se em Ao Alto são os bombos e os timbalões que tomam conta das rédeas, já em Deixai O Menino o baixo e a percurssão assumem-se sem receios, para em Trancanhola Crocodélica serem as típicas trancanholas a darem o pontapé de saída numa canção que nos oferece o melhor do charro, um ritmo espanhol muito tocado em Trás-os-Montes, ritmo esse que se prolonga para Memória, acompanhado por uma linha de cavaquinho, que depois recebe a companhia do piano, da flauta e da viola e do bandolim, para encerrar em grande estilo um alinhamento sonoro invulgar, mas particularmente belo.

Voa Pé é capaz de colocar nos colocar no meio da praça de uma aldeia em plena festa de verão, mas também no recanto mais confortável lá de casa, tal é o ecletismo desta música, passível de ser contemplada usando o sentido da audição e depois, o próprio olfato e a visão, já que esta é, na minha opinião música com cheiros e cores muito próprios e que nos consegue transportar para o tal universo que qualquer português facilmente reconhece. Comigo, esse efeito foi conseguido exemplarmente durante a audição do som da cancela, logo após M.F.P., um som que faz parte das memórias da minha infância, já que cresci junto à linha do norte e, há trinta anos atrás, as passagens de nível funcionavam com um guarda que fechava manualmente uma cancela e levantava uma bandeira enrolada à passagem do comboio, enquanto se escutava este sinal sonoro que me trouxe à memória recordações muito bonitas.

Voa Pé é já um marco na nossa discografia e um documento obrigatório para todos os amantes de música tradicional, e não só. Sendo intenso e efusivo, mas também bucólico e contemplativo, tem um valor natural e genuíno únicos, principalmente por ser um refúgio animado e entusiasmante para bonitas canções, plenas de alma e cor, algumas com raízes no passado, mas expressas com contemporaneidade, consistência e excelência. Confere a entrevista que os Retimbrar ofereceram ao blogue e espero que aprecies a sugestão...

Ao Alto

Voa Pé (cá fora)

Deixai O Menino (na rua)

Deixai O Menino

Ao Alto (continuação)

Corre Mundo

Voa Pé (cá dentro)

Trancanhola Crocodélica

M.F.P.

Memória

Colectivo musical do Porto, que se define não como uma banda, no sentido mais habitual do termo, mas como uma verdadeira oficina viva de criação sonora, os Retimbrar andam por cá desde 2008 a explorar ritmos, canções e instrumentos tradicionais portugueses, de modo a dar a conhecer a herança popular e cultural portuguesa. Como nasceu este projeto tão interessante e que, na minha opinião, merece a maior divulgação possível?

Este projecto nasceu de uma ideia do Pancho, percussionista nascido no Uruguay e radicado em Portugal há cerca de 25 anos. Ele sonhou juntar num grupo todos os instrumentos de percussão tradicionais portugueses, que até à data, segundo o que sabemos, não tinham tido oportunidade de 'conviver' juntos. Estamos a falar de instrumentos como o zaclitraque, as trancanholas, as tréculas e o brinquinho da Madeira, os chocalhos do gado alentejano, os triângulos (vulgo ferrinhos), etc. Para além dos tambores de rua, claro – caixa, timbalão e bombo. Por fim, o objectivo era sair à rua, tocar e contagiar.

Na vossa página oficial, afirmam que aquilo que fazem é música para todos! Na verdade, Voa Pé, o vosso fantástico novo disco, é um documento sonoro invulgar, mas particularmente belo, capaz de colocar o ouvinte no meio da praça de uma aldeia em plena festa de verão, mas também no recanto mais confortável lá de casa, tal é o ecletismo da vossa música, apesar de toda ela entroncar, de certo modo, na enorme riqueza da música popular e tradicional portuguesa. Na verdade, parece-me possível contemplar este disco usando o sentido da audição e depois, o próprio olfato e a visão, já que esta é, na minha opinião música com cheiros e cores muito próprios e que nos consegue transportar para o tal universo muito próprio, mas que qualquer português facilmente reconhece. Como surgiu a ideia de gravar um disco assim?

Antes de mais, obrigado por partilhares com tanta paixão a forma como ouviste o nosso disco. Gravar um disco assim, com esta selecção de músicas, foi o passo mais natural para nós. Decidimos incluir temas de percussão que nasceram para ser tocados na rua, mas também canções que fizemos para apresentar em concertos. Essa diversidade de ambientes e estados de espírito que referes é uma consequência natural da criação com um grupo muito grande e heterogéneo. E sim, também é uma preocupação nossa fazer “música para todos”, ou seja, procuramos profundidade artística e carga emocional, mas sempre tentando manter a simplicidade e a efectividade das músicas, para que realmente cheguem a todos. Embora elas contenham alguns elementos mais complexos, esperamos que sejam fáceis de ouvir e de se gostar.

Gravado em vários estúdios de gravação, nomeadamente no estúdio da Casa da Música, no Estúdio do Bandido, no Estúdio Sá da Bandeira, e na Sonoscopia, Voa Pé capta instantes sonoros únicos e, por isso, irrepetíveis. Como foi gravar e misturar um disco assim tão rico e heterogéneo, de modo a obter o tal efeito de certo modo cinematográfico que tentei descrever na questão anterior?

O grande arquitecto da captação e mistura dos instrumentos foi o nosso produtor, o Nuno Mendes. Ele fez um trabalho excepcional no que toca a transpôr para o disco as músicas, os timbres dos instrumentos, os momentos subtis assim como os mais fortes. O lado cinematográfico que referes foi explorado mais tarde, não fazia parte do plano inicial. Quando começámos a ouvir as primeiras misturas das músicas, elas soava-nos bem mas falta-lhes um espaço, um contexto. Ficava um pouco esquisito ouvir as músicas “sozinhas” no estúdio. Nesse sentido, começámos à procura de sons para criar ambientes e fomos colorindo cada música com várias gravações – da natureza, com animais, da cidade, com pessoas, transportes, ruídos.

Cresci junto à linha do norte, com quase trinta anos mudei-me mas, ainda antes disso, as passagens de nível com um guarda que fechava manualmente uma cancela e levantava uma bandeira enrolada à passagem do comboio, enquanto se escutava um sinal sonoro que captaram e reproduzem no álbum, foram encerrando ou sendo substituídas por túneis e viadutos. Há muitos anos que não escutava esse som, que me trouxe à memória recordações bonitas da minha infância. Onde captaram esse som e porque o colocaram no alinhamento de Voa Pé?

Esse som foi gravado no apeadeiro de Francelos, V. N. Gaia. Eu ando muitas vezes com um gravador a captar sons e nessa fase andava a ouvir tudo à minha volta na perspectiva de poder incluir no disco. Um dia estava a passar no apeadeiro e ouvi as cancelas, tive logo a certeza absoluta que este som iria entrar no álbum. A polirritmia das cancelas tem muito a ver com os ferrinhos que acabam de tocar momentos antes (na música M.F.P.). Além disso, todos os sons presentes -  as cancelas, a buzina, o comboio – remetem para a viagem, para a mudança, e estão presentes na memória de todos, ou pelo menos de muitos.

Pessoalmente, penso que Voa Pé tem tudo o que é necessário para, finalmente, o projeto Retimbrar ter o reconhecimento público que merece. Quais são as vossas expetativas para este vosso novo fôlego?

Esperamos poder continuar a levar a nossa música, a nossa alegria e a nossa energia positiva a todos com quem nos cruzarmos, como fizemos até aqui. Com o disco, esperamos que o número de pessoas a que chegamos continue a crescer! De resto, acho que não vale a pena criar grandes expectativas no que toca a sucesso comercial, é muito difícil vingar nesse campo. Sem dúvida que é um factor importante para um grupo se aguentar e continuar a produzir, mas sinceramente não alimentamos essa expectativa . 

Ouvir Voa Pé foi, para mim, um exercício muito agradável e reconfortante e que tenho intenção de repetir imensas vezes, confesso. Intrigante e melancólico, mas também festivo e luminoso, é realmente um documento que não tem apenas as cordas e a percussão como protagonistas maiores do processo melódico, com os outros sons captados a serem, também, parte integrante e de pleno direito das emoções que os diversos temas transmitem. De que modo é que algumas destas canções foram tomando forma? A base começa por ser uma melodia e depois adicionam samples, sons captados e a percussão, ou tudo começa daquilo que um determinado som que captaram vos suscita?

Não existe um método de composição exclusivo, mas devo salientar que todas as músicas foram compostas só com instrumentos acústicos (e vozes) e foram tocadas ao vivo antes de começarmos a gravação. Todos os sons “sonoplásticos” foram adicionados ao disco na fase da mistura. Quanto ao método de composição a arranjos, quase todas as ideias foram trazidas por alguém para o grupo num estado muito primário – seja um riff, uma melodia ou um ritmo. Em conjunto desenvolvemos as ideias até se tornarem músicas, e no caso de músicas que já vinham mais estruturadas, trabalhámos em conjunto mais a parte do arranjo.

Na verdade, parece-me haver aqui uma materialização feliz de uma espécie de levantamento histórico de alguns dos aspetos fundamentais do conteúdo histórico da nossa música de cariz mais tradicional, mas também não faltam instantes sonoros naturais subtis, muitos deles de origem humana, alguns audíveis de forma quase impercetível, outros parecendo deliberadamente sobrepostos de forma aparentemente anárquica, percebendo-se a sonoridade geral de Voa Pé exala uma sensação, quanto a mim, vincadamente experimental. Houve, desde o início do processo de gravação, uma rigidez no que concerne às opções que estavam definidas, nomeadamente o tipo de sons a captar e a misturar com as cordas, a percussão e as vozes, ou durante o processo houve abertura para modelar ideias à medida que o barro se foi moldando?

Houve muita abertura para se ir moldando o barro, talvez até demais! Essa foi uma das razões para termos demorado mais de 2 anos desde que começaram as gravações até o disco ser editado. Houve músicas que foram gravadas e que não entraram no alinhamento final, ora porque não estavam satisfatórias ora porque nos soavam “a mais” no meio das outras. Também houve músicas que não foram gravadas na primeira fase de gravações e que, um ano depois das outras estarem gravadas, decidimos incluir. É o caso das duas versões do Voa Pé, 'cá dentro' e 'cá fora'. Como já referi noutras questões anteriores, também a ideia de incluir sonoplastia só surgiu na fase de mistura. Muita coisa foi experimentada para chegarmos ao resultado final, fomos reagindo a estímulos e tentando satisfazer a nossa ambição de criar um disco especial.

Voa Pé conta com várias participações especiais de relevo. Foram escolhas pessoais vossas desde o início e as primeiras, ou após terem a raiz dos temas, estudaram as melhores opções?

Em primeiro lugar eram os timbres, os instrumentos que faziam falta à música. Depois pensámos nas melhores pessoas para gravar esses instrumentos. Nalguns casos os convidados tiveram um papel mais criativo, noutros nós já sabíamos o que queríamos que fosse tocado e os convidados contribuíram com a sua interpretação e expressão.

Quanto à divulgação do disco, onde é que os leitores de Man On The Moon podem ver os Retimbrar a tocar num futuro próximo?

Num futuro próximo os Retimbrar vão ter várias apresentações. Para já podemos anunciar que no dia 25 de Maio vamos estar no Cine-Teatro Garret na Póvoa de Varzim, no dia 27 no Festival Rádio Faneca em Ílhavo, 8 Julho das Noites da Nora em Serpa e 30 Julho no Festiva Folk Celta em Ponte da Barca. Antes disto tudo, vamos estar na Feira à Moda Antiga em Oliveira de Azeméis, onde vamos dirigir uma oficina de percussão aberta ao público e fazer uma arruada para tocar os nossos ritmos com toda a gente.

Após Voa Pé, já está definido o próximo passo na vossa carreira?

Ideias não faltam! Mas há que saber dar tempo ao tempo para não atrapalhar as coisas. Antes de mais, Voa Pé é um conceito e uma ideia que não se esgota neste disco e nos concertos que vamos dar este ano. Temos ainda muito para explorar dentro deste lema, seja a criar novas músicas ou a apresentar espectáculos e eventos. Para o futuro, temos o desejo de vir a gravar um disco com a participação de tocadores e grupos de música tradicional. Também queremos muito desenvolver o lado da escola Retimbrar. Queremos continuar o trabalho que já temos feito com crianças e jovens, mas de uma forma mais consistente e efectiva. Queremos mesmo transmitir e partilhar os nossos ritmos, e ajudar a desenvolver a cultura musical portuguesa.

Obrigado pela entrevista e pelo excelente disco!

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publicado por stipe07 às 18:00

The Kills – Heart Of A Dog

Quarta-feira, 11.05.16

The Kills - Heart Of A Dog

Os britânicos The Kills de Jamie Hince e Alison Mosshart parecem finalmente decididos a quebrar um hiato discográfico de praticamente meia década, já que o excelente Blood Pressures foi o último disco que a dupla lançou já no longínquo ano de 2011.

Gravado no outro lado do atlântico, em Los Angeles e nos estúdios Electric Lady, em Nova Iorque, Ash & Ice é o nome do novo álbum dos The Kills, um trabalho produzido pelo guitarrista Jamie Hince, com a preciosa ajuda do conceituado John O’Mahoney.

Depois de termos conferido há algumas semanas Doing It To Death, a primeira amostra divulgada de Ash & Ice, agora é a vez de escutarmos Heart Of A Dog, mais uma canção que mostra que o rugoso, crú e visceral punk rock dos The Kills mantém-se intocável, assim como o charme inconfundível de uma dupla única e sem paralelo no universo alternativo atual. Confere...

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publicado por stipe07 às 22:40







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