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Retimbrar - Voa Pé

Quinta-feira, 12.05.16

Um dos segredos mais bem guardados do panorama musical nacional e que, felizmente, parece estar a deixar de o ser, está sedeado no Porto e são os Retimbrar, um projeto que acaba de se estrear nos discos com Voa Pé, uma edição de autor, mas que conta com o apoio da Casa da Música, da Cultura Fnac e da Revolução d'Alegria Associação. Neste Voa Pé os Retimbrar são Afonso Passos, André Nunes, André Rodrigues, Andrés Tarabbia 'Pancho', António Serginho, Francisco 'Killo' Beirão, João Grilo, Miguel Arruda, Nuno Xandinho, Rita Sá, Rui Ferreira 'Caps', Rui Rodrigues, Sara Yasmine e Tiago Soares e participaram ainda, como convidados especiais, Alexandre Meirinhos, António Augusto Aguiar 'Togú', Catarina Valadas, Nicô Tricot e Renato Monteiro. A captação, produção, mistura e masterização do trabalho ficou a cargo do Nuno Mendes.

Mergulhar em Voa Pé é tomar contacto direto com aquela herança musical e cultural que todos nós recordamos e que nos habituámos a escutar da boca dos nossos ascendentes, fiéis depositários de uma ruralidade que também se manifestou sonoramente, décadas após décadas, neste jardim à beira mar plantado. E isso sucede porque Voa Pé é um disco que, servindo-se de originais, alguns samples e versões mais contemporâneas, foi incubado numa oficina sonora muito peculiar, onde cordas, sopros e percussão, foram, tema após tema, misturando-se livremente, dançando em conjunto e alternando o protagonismo, sem invejas ou falsos altruísmos, porque o propósito maior é comum e serve de igual modo à preservação da imensa e rica prole instrumental portuguesa.

Assim, se em Ao Alto são os bombos e os timbalões que tomam conta das rédeas, já em Deixai O Menino o baixo e a percurssão assumem-se sem receios, para em Trancanhola Crocodélica serem as típicas trancanholas a darem o pontapé de saída numa canção que nos oferece o melhor do charro, um ritmo espanhol muito tocado em Trás-os-Montes, ritmo esse que se prolonga para Memória, acompanhado por uma linha de cavaquinho, que depois recebe a companhia do piano, da flauta e da viola e do bandolim, para encerrar em grande estilo um alinhamento sonoro invulgar, mas particularmente belo.

Voa Pé é capaz de colocar nos colocar no meio da praça de uma aldeia em plena festa de verão, mas também no recanto mais confortável lá de casa, tal é o ecletismo desta música, passível de ser contemplada usando o sentido da audição e depois, o próprio olfato e a visão, já que esta é, na minha opinião música com cheiros e cores muito próprios e que nos consegue transportar para o tal universo que qualquer português facilmente reconhece. Comigo, esse efeito foi conseguido exemplarmente durante a audição do som da cancela, logo após M.F.P., um som que faz parte das memórias da minha infância, já que cresci junto à linha do norte e, há trinta anos atrás, as passagens de nível funcionavam com um guarda que fechava manualmente uma cancela e levantava uma bandeira enrolada à passagem do comboio, enquanto se escutava este sinal sonoro que me trouxe à memória recordações muito bonitas.

Voa Pé é já um marco na nossa discografia e um documento obrigatório para todos os amantes de música tradicional, e não só. Sendo intenso e efusivo, mas também bucólico e contemplativo, tem um valor natural e genuíno únicos, principalmente por ser um refúgio animado e entusiasmante para bonitas canções, plenas de alma e cor, algumas com raízes no passado, mas expressas com contemporaneidade, consistência e excelência. Confere a entrevista que os Retimbrar ofereceram ao blogue e espero que aprecies a sugestão...

Ao Alto

Voa Pé (cá fora)

Deixai O Menino (na rua)

Deixai O Menino

Ao Alto (continuação)

Corre Mundo

Voa Pé (cá dentro)

Trancanhola Crocodélica

M.F.P.

Memória

Colectivo musical do Porto, que se define não como uma banda, no sentido mais habitual do termo, mas como uma verdadeira oficina viva de criação sonora, os Retimbrar andam por cá desde 2008 a explorar ritmos, canções e instrumentos tradicionais portugueses, de modo a dar a conhecer a herança popular e cultural portuguesa. Como nasceu este projeto tão interessante e que, na minha opinião, merece a maior divulgação possível?

Este projecto nasceu de uma ideia do Pancho, percussionista nascido no Uruguay e radicado em Portugal há cerca de 25 anos. Ele sonhou juntar num grupo todos os instrumentos de percussão tradicionais portugueses, que até à data, segundo o que sabemos, não tinham tido oportunidade de 'conviver' juntos. Estamos a falar de instrumentos como o zaclitraque, as trancanholas, as tréculas e o brinquinho da Madeira, os chocalhos do gado alentejano, os triângulos (vulgo ferrinhos), etc. Para além dos tambores de rua, claro – caixa, timbalão e bombo. Por fim, o objectivo era sair à rua, tocar e contagiar.

Na vossa página oficial, afirmam que aquilo que fazem é música para todos! Na verdade, Voa Pé, o vosso fantástico novo disco, é um documento sonoro invulgar, mas particularmente belo, capaz de colocar o ouvinte no meio da praça de uma aldeia em plena festa de verão, mas também no recanto mais confortável lá de casa, tal é o ecletismo da vossa música, apesar de toda ela entroncar, de certo modo, na enorme riqueza da música popular e tradicional portuguesa. Na verdade, parece-me possível contemplar este disco usando o sentido da audição e depois, o próprio olfato e a visão, já que esta é, na minha opinião música com cheiros e cores muito próprios e que nos consegue transportar para o tal universo muito próprio, mas que qualquer português facilmente reconhece. Como surgiu a ideia de gravar um disco assim?

Antes de mais, obrigado por partilhares com tanta paixão a forma como ouviste o nosso disco. Gravar um disco assim, com esta selecção de músicas, foi o passo mais natural para nós. Decidimos incluir temas de percussão que nasceram para ser tocados na rua, mas também canções que fizemos para apresentar em concertos. Essa diversidade de ambientes e estados de espírito que referes é uma consequência natural da criação com um grupo muito grande e heterogéneo. E sim, também é uma preocupação nossa fazer “música para todos”, ou seja, procuramos profundidade artística e carga emocional, mas sempre tentando manter a simplicidade e a efectividade das músicas, para que realmente cheguem a todos. Embora elas contenham alguns elementos mais complexos, esperamos que sejam fáceis de ouvir e de se gostar.

Gravado em vários estúdios de gravação, nomeadamente no estúdio da Casa da Música, no Estúdio do Bandido, no Estúdio Sá da Bandeira, e na Sonoscopia, Voa Pé capta instantes sonoros únicos e, por isso, irrepetíveis. Como foi gravar e misturar um disco assim tão rico e heterogéneo, de modo a obter o tal efeito de certo modo cinematográfico que tentei descrever na questão anterior?

O grande arquitecto da captação e mistura dos instrumentos foi o nosso produtor, o Nuno Mendes. Ele fez um trabalho excepcional no que toca a transpôr para o disco as músicas, os timbres dos instrumentos, os momentos subtis assim como os mais fortes. O lado cinematográfico que referes foi explorado mais tarde, não fazia parte do plano inicial. Quando começámos a ouvir as primeiras misturas das músicas, elas soava-nos bem mas falta-lhes um espaço, um contexto. Ficava um pouco esquisito ouvir as músicas “sozinhas” no estúdio. Nesse sentido, começámos à procura de sons para criar ambientes e fomos colorindo cada música com várias gravações – da natureza, com animais, da cidade, com pessoas, transportes, ruídos.

Cresci junto à linha do norte, com quase trinta anos mudei-me mas, ainda antes disso, as passagens de nível com um guarda que fechava manualmente uma cancela e levantava uma bandeira enrolada à passagem do comboio, enquanto se escutava um sinal sonoro que captaram e reproduzem no álbum, foram encerrando ou sendo substituídas por túneis e viadutos. Há muitos anos que não escutava esse som, que me trouxe à memória recordações bonitas da minha infância. Onde captaram esse som e porque o colocaram no alinhamento de Voa Pé?

Esse som foi gravado no apeadeiro de Francelos, V. N. Gaia. Eu ando muitas vezes com um gravador a captar sons e nessa fase andava a ouvir tudo à minha volta na perspectiva de poder incluir no disco. Um dia estava a passar no apeadeiro e ouvi as cancelas, tive logo a certeza absoluta que este som iria entrar no álbum. A polirritmia das cancelas tem muito a ver com os ferrinhos que acabam de tocar momentos antes (na música M.F.P.). Além disso, todos os sons presentes -  as cancelas, a buzina, o comboio – remetem para a viagem, para a mudança, e estão presentes na memória de todos, ou pelo menos de muitos.

Pessoalmente, penso que Voa Pé tem tudo o que é necessário para, finalmente, o projeto Retimbrar ter o reconhecimento público que merece. Quais são as vossas expetativas para este vosso novo fôlego?

Esperamos poder continuar a levar a nossa música, a nossa alegria e a nossa energia positiva a todos com quem nos cruzarmos, como fizemos até aqui. Com o disco, esperamos que o número de pessoas a que chegamos continue a crescer! De resto, acho que não vale a pena criar grandes expectativas no que toca a sucesso comercial, é muito difícil vingar nesse campo. Sem dúvida que é um factor importante para um grupo se aguentar e continuar a produzir, mas sinceramente não alimentamos essa expectativa . 

Ouvir Voa Pé foi, para mim, um exercício muito agradável e reconfortante e que tenho intenção de repetir imensas vezes, confesso. Intrigante e melancólico, mas também festivo e luminoso, é realmente um documento que não tem apenas as cordas e a percussão como protagonistas maiores do processo melódico, com os outros sons captados a serem, também, parte integrante e de pleno direito das emoções que os diversos temas transmitem. De que modo é que algumas destas canções foram tomando forma? A base começa por ser uma melodia e depois adicionam samples, sons captados e a percussão, ou tudo começa daquilo que um determinado som que captaram vos suscita?

Não existe um método de composição exclusivo, mas devo salientar que todas as músicas foram compostas só com instrumentos acústicos (e vozes) e foram tocadas ao vivo antes de começarmos a gravação. Todos os sons “sonoplásticos” foram adicionados ao disco na fase da mistura. Quanto ao método de composição a arranjos, quase todas as ideias foram trazidas por alguém para o grupo num estado muito primário – seja um riff, uma melodia ou um ritmo. Em conjunto desenvolvemos as ideias até se tornarem músicas, e no caso de músicas que já vinham mais estruturadas, trabalhámos em conjunto mais a parte do arranjo.

Na verdade, parece-me haver aqui uma materialização feliz de uma espécie de levantamento histórico de alguns dos aspetos fundamentais do conteúdo histórico da nossa música de cariz mais tradicional, mas também não faltam instantes sonoros naturais subtis, muitos deles de origem humana, alguns audíveis de forma quase impercetível, outros parecendo deliberadamente sobrepostos de forma aparentemente anárquica, percebendo-se a sonoridade geral de Voa Pé exala uma sensação, quanto a mim, vincadamente experimental. Houve, desde o início do processo de gravação, uma rigidez no que concerne às opções que estavam definidas, nomeadamente o tipo de sons a captar e a misturar com as cordas, a percussão e as vozes, ou durante o processo houve abertura para modelar ideias à medida que o barro se foi moldando?

Houve muita abertura para se ir moldando o barro, talvez até demais! Essa foi uma das razões para termos demorado mais de 2 anos desde que começaram as gravações até o disco ser editado. Houve músicas que foram gravadas e que não entraram no alinhamento final, ora porque não estavam satisfatórias ora porque nos soavam “a mais” no meio das outras. Também houve músicas que não foram gravadas na primeira fase de gravações e que, um ano depois das outras estarem gravadas, decidimos incluir. É o caso das duas versões do Voa Pé, 'cá dentro' e 'cá fora'. Como já referi noutras questões anteriores, também a ideia de incluir sonoplastia só surgiu na fase de mistura. Muita coisa foi experimentada para chegarmos ao resultado final, fomos reagindo a estímulos e tentando satisfazer a nossa ambição de criar um disco especial.

Voa Pé conta com várias participações especiais de relevo. Foram escolhas pessoais vossas desde o início e as primeiras, ou após terem a raiz dos temas, estudaram as melhores opções?

Em primeiro lugar eram os timbres, os instrumentos que faziam falta à música. Depois pensámos nas melhores pessoas para gravar esses instrumentos. Nalguns casos os convidados tiveram um papel mais criativo, noutros nós já sabíamos o que queríamos que fosse tocado e os convidados contribuíram com a sua interpretação e expressão.

Quanto à divulgação do disco, onde é que os leitores de Man On The Moon podem ver os Retimbrar a tocar num futuro próximo?

Num futuro próximo os Retimbrar vão ter várias apresentações. Para já podemos anunciar que no dia 25 de Maio vamos estar no Cine-Teatro Garret na Póvoa de Varzim, no dia 27 no Festival Rádio Faneca em Ílhavo, 8 Julho das Noites da Nora em Serpa e 30 Julho no Festiva Folk Celta em Ponte da Barca. Antes disto tudo, vamos estar na Feira à Moda Antiga em Oliveira de Azeméis, onde vamos dirigir uma oficina de percussão aberta ao público e fazer uma arruada para tocar os nossos ritmos com toda a gente.

Após Voa Pé, já está definido o próximo passo na vossa carreira?

Ideias não faltam! Mas há que saber dar tempo ao tempo para não atrapalhar as coisas. Antes de mais, Voa Pé é um conceito e uma ideia que não se esgota neste disco e nos concertos que vamos dar este ano. Temos ainda muito para explorar dentro deste lema, seja a criar novas músicas ou a apresentar espectáculos e eventos. Para o futuro, temos o desejo de vir a gravar um disco com a participação de tocadores e grupos de música tradicional. Também queremos muito desenvolver o lado da escola Retimbrar. Queremos continuar o trabalho que já temos feito com crianças e jovens, mas de uma forma mais consistente e efectiva. Queremos mesmo transmitir e partilhar os nossos ritmos, e ajudar a desenvolver a cultura musical portuguesa.

Obrigado pela entrevista e pelo excelente disco!

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publicado por stipe07 às 18:00






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