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Radiohead - A Moon Shaped Pool

Segunda-feira, 09.05.16

Depois de vários dias de suspense e que incluiram um apagão total de toda a atividade social da banda nas redes sociais e na internet, terminou finalmente a espera e já é possível ao comum dos mortais deslumbrar-se com A Moon Shaped Pool, o novo álbum da carreira dos Radiohead, verdadeiros Fab Five do novo milénio, não só porque estão criativamente sempre prontos a derrubar barreiras e a surpreender com o inesperado, mas também porque, disco após disco, acabam por estabelecer novos paradigmas e bitolas pelas quais se vão depois reger tantas bandas e projetos contemporâneos que devem o seu valor ao facto de terem este quinteto de Oxford na linha da frente das suas maiores influências.

Disco para já apenas lançado em formato digital, mas que terá direito a formato fisico lá para meados de junho, através da XL Recordings, A Moon Shaped Pool abre-se diante de nós com enorme deslumbre e vibração, à boleia de Burn The Witch, canção com uma dimensão sonora particularmente épica e orquestral, guiada por um cardápio de cordas bastante abrasivo e com o típico ambiente soturno que a banda tão bem recriou há quase uma década em In Rainbows e que liricamente também se situa num terreno muito confortável para Yorke, que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nú algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia.

A sociedade contemporânea e, principalmente, a evolução tecnológica que nem sempre respeita o ritmo biológico de um planeta que tem dificuldade em assimilar e adaptar-se ao modo como apenas uma espécie, possuindo o dom único da inteligência, coloca em causa todo um equilíbrio natural, é, então, um manancial para a escrita de Yorke. E neste A Moon Shaped Pool, a nave espacial que se despenha entre os efeitos inebriantes e a guitarra que se insinua em Decks Dark, a soul arrepiante das cordas que encoraja um homem que quer partir estrada fora guiado por um espírito maior em Desert Island Disk ou o passageiro que sai de um comboio num destino ao acaso hipnotizado pela gentileza das teclas e pelos violinos que se elevam ao alto em Glass Eyes, são apenas três exemplos do modo como metaforicamente, ou indo diretamente ao assunto, este incomparável poeta nos recorda como poderá ser drástico viver em permanentemente desafio com a natureza, sem ter em conta o nosso verdadeiro lugar e posição, no seio da mesma.

Deixando um pouco de lado o ideário lírico destas canções e olhando para a vertente sonora deste disco, uma das maiores curiosidades de A Moon Shaped Pool e, na minha opinião, um dos seus principais trunfos, é não ter o maior despudor em apresentar uns Radiohead conceptualmente situados, nesta fase da carreira, numa espécie de encruzilhada. A eletrónica é uma realidade muito presente no passado mais recente, quer da banda, quer do projeto a solo de Thom Yorke e, neste álbum, se por um lado podemos apreciar aquele bucolismo típico do grupo em Present Tense e no clima inquietante de Daydreaming, canção onde somos forçados a enfrentar o lado mais melancólico, etéreo e introspetivo dos Radiohead, conduzidos por um faustoso instante sonoro, onde sintetizadores e efeitos futuristas se cruzam, numa melodia cheia de humanidade e emoção, já Ful Stop, usando armas muito parecidas, mas acelerando a batida, abusando de alguns efeitos abrasivos e adicionando uma linha de guitarra ligeiramente aguda e uma bateria que parece rodar sobre si própria, acaba por mostrar uma outra faceta desta apenas aparente dúvida existencial em que vivem hoje os Radiohead. O próprio jogo que se estabelece entre a bateria, o baixo e a voz planante de Yorke, sobreposta por camadas e, mais tarde, a junção de um teclado sintetizado retro em Identikit, mais outro tema que aborda a propensão humana para a perca, é nova preciosa acha para a fogueira que ilumina a abrangência estilística do adn sonoro atual dos Radiohead. No fundo, esta espécie de dicotomia entre um lado mais orgânico e outro mais sintético, também expressa, inicialmente com luminosidade, frescura e cor na viola e nos efeitos borbulhantes de The Numbers e depois, ainda nessa música, no espiral quase incontrolada de cordas de violinos, sopros, metais e guitarras que dela se apoderam, acaba por atestar a segurança, o vigor e o modo ponderado e criativamente superior como este grupo britânico entra hoje em estúdio para compôr e criar um arquétipo sonoro que não tem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual.

Disco muito desejado por todos os seguidores e não só e que quebra um longo hiato de praticamente meia década, A Moon Shaped Pool é um lugar mágico para onde podemos canalizar muitos dos nossos maiores dilemas, porque tem um toque de lustro de forte pendor introspetivo, livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor, num disco que, no seu todo, contém uma atmosfera densa e pastosa, mas libertadora e esotérica. Acaba por ser um compêndio de canções que nos obriga a observar como é viver num mundo onde somos a espécie dominante e protagonista, mas também observadora de outros eventos e emoções, um trabalho experimentalista naquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas, como tão bem prova a fabulosa e surpreendente versão de True Love Waits, uma das mais bonitas canções que a banda compôs e que tocou ao vivo pela primeira vez já no longínquo ano de 1995. Espero que aprecies a sugestão...

Radiohead - A Moon Shaped Pool

01. Burn The Witch
02. Daydreaming
03. Decks Dark
04. Desert Island Disk
05. Ful Stop
06. Glass Eyes
07. Identikit
08. The Numbers
09. Present Tense
10. Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief
11. True Love Waits

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publicado por stipe07 às 00:02






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