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Tiger Waves – Tippy Beach

Terça-feira, 19.01.16

Lançado no passado dia dezoito de janeiro e disponível para download no bandcamp da banda, com a possibilidade de doares um valor pelo mesmo, Tippy Beach é o novo compêndio de canções dos Tiger Waves, um projeto oriundo de Austin, no Texas, formado por James Marshall, cientista da NASA no Departamento de Física Teórica Cósmica, natural dessa cidade texana e Reid Comstock, estudante de filosofia oriental nascido em Chicago, ao qual se juntam, atualmente, Tyler Wharen e Joshua Kerl. Ainda sem se conhecerem pessoalmente,  os dois primeiros começaram por trocar música pela internet, depois passaram a sons, maquetas de ruídos, até resolverem juntar-se e compor juntos. Dessa parceria, na primavera de 2011 nasceram oficialmente os Tiger Waves, que se estrearam nos discos pouco depois com Only Good Bands Have Animal Names, álbum lançado em junho desse ano e que deu o pontapé de saída para um percurso discográfico já com alguns momentos relevantes e sonoramente reconfortantes.

As treze canções de Tippy Beach escutam-se com interessante deleite, já que parecem, antes de mais, resultado de um curioso empilhamento de camadas sonoras que começaram por ser pedaços isolados de música e, devido à mestria instrumental de James e Reid, foram sendo acomodadas como um puzzle onde tudo faz de repente o maior sentido quando agregado devidamente, ficando, assim, a parecer, cada vez mais, canções prontas, até atingirem um resultado final que da pop, ao surf rock, passando por alguma psicadelia, cruza a típica sonoridade de uns Beach Boys, apimentada por uma confessada obsessão por mestres do calibre de Phil Spector ou Syd Barrett, duas referências obrigatórias dos Tiger Waves.

A leveza melódica de canções como In Your Head ou o single homónimo e a vibração luminosa das cordas de Salida , o groove veraneante de Spectacle Of You e a cândura dos metais de Look Away, tema que parece ter sido composto propositadamente para um conto de fadas urbano contemporâneo, contrastam com o cariz mais sombrio da intrigante Down The Middle ou da contemplativa Third Term, mas o resultado global soa de modo bastante homogéneo, com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

Em suma, Tippy Beach sabe a uma indisfarçável urbanidade que nos oferece histórias banais que se cruzam numa esquina qualquer de uma cidade onde todos correm sem se perceber muito bem para onde, como ou porquê, apesar de haver um propósito bem definido no meio desse aparente caos, como demosntra a toada eminentemente tranquila e algo épica e sedutora deste alinhamento. Havendo belos instantes sonoros pop onde a instrumentação é colocada em camadas e a voz manipulada como uma espécie de eco, a atmosfera criada é bastante calma e contemplativa, bem à medida de um projeto que se aproxima claramente de algumas referências óbvias de finais do século passado. É um disco que comprova a rara capacidade destes Tiger Waves para manipularem instrumentalmente o sintético, sem descurar o orgânico, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, de modo a oferecer-nos texturas e atmosferas sonoras que, se deixarmos, inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...

Tiger Waves - Tippy Beach

01. Down The Middle
02. In Your Head
03. Spectacle Of You
04. Turns To Sky
05. Stay Inside
06. Salida
07. Sounds (Pt. 1)
08. In Retrograde
09. Look Away
10. Tippy Beach
11. I’m Not That Type Of Man
12. Third Term
13. Take Me Home

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publicado por stipe07 às 21:36

Indoor Voices - Auratic EP

Segunda-feira, 18.01.16

Depois de no final de 2011 terem editado Nevers e um ano depois um EP intitulado S/T, os Indoor Voices de Jonathan Relph, Owen Davies, Ryan Gassi, Craig Hopgood e Kate Rogers estão de regresso com Auratic, um novo EP com cinco canções, editado no passado dia quinze de janeiro através da Häxrummet Records e disponivel no bandcamp do projeto em formato digital e com a possiblidade de aquisição de um exemplar em cassete, cuja produção foi limitada a quarenta exemplares. Em Auratic, esta banda de Toronto, no Canadá, contou com a ajuda de Chris Stringer na mistura e de Jeff Elliot na produção de cinco temas que contaram também com as participações especiais de Mihira Lakshman nos violinos e Alisha Erao (Lush Agave e Alligator Indian), Maja Thunberg (Star Horse), Kate Rogers (IV e Kate Rogers Band), Jimena Torres (The Great Wilderness) e Sandra Vu (SISU e Dum Dum Girls) nas vozes.

É algures entre o épico e o lo fi que estes Indoor Voices se sentem confortáveis a dar à luz canções iluminadas por uma fragilidade incrivelmente sedutora, à medida que deixam as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural e assumirem uma faceta algo negra e obscura, para criar um cenário musical tipicamente rock, esculpido com cordas ligas à eletricidade, mas com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

Este desígnio é logo audível na imponência de See Wish e o clima etéreo de Atomic, assim como o modo como, nesta composição de forte cariz orquestral, deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, carregam uma sobriedade sentimental esplendorosa, é outro exemplo feliz do modo como nestes Indoor Voices é possível conferir leves pitadas de shoegaze e post rock, mas nada de muito barulhento ou demasiado experimental.

Na verdade, todos os temas de Auratic têm uma toada eminentemente tranquila e algo de épico e sedutor. Há uma sonoridade muito implícita em relação à eletrónica dos anos oitenta e para mim destacam-se os belos instantes sonoros pop onde a instrumentação é colocada em camadas e a voz manipulada como uma espécie de eco, criando uma atmosfera geral calma e contemplativa, que atinge um elevado pico de magnificiência em What Can I, o meu destaque maior do trabalho.

Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado, Auratic exala o contínuo processo de transformação de uns Indoor Voices que procuram sempre mostrar, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 18:07

Yuck – Hearts In Motion

Domingo, 17.01.16

Yuck - Hearts In Motion

Em 2016 os britânicos Yuck estão de regresso aos discos com Stranger Things, um álbum que será lançado a vinte e seis de fevereiro através da Mamé. Este será o terceiro disco dos Yuck do guitarrista Max Bloom, acompanhado por Mariko Doi, Jonny Rogoff e Ed Hayes e Hearts In Motion é o primeiro avanço divulgado, tema abastecido por aquele rock alternativo dominado pelas guitarras barulhentas e os sons melancólicos do início dos anos noventa, assim como todo o clima sentimental dessa época e as letras consistentes, que confortavam e destruiam o coração num mesmo verso. Confere...

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publicado por stipe07 às 16:15

Sans Parade – Artefacts

Sexta-feira, 15.01.16

Quase três anos após um extraordinário disco de estreia homónimo, os finlandeses Sans Parade regressaram aos álbuns na reta final de 2015 com Artefacts, sete canções que abrigadas pela insuspeita Solina Records nos oferecem um cardápio sem adjetivos suficientemente claros para que possamos definir com exatidão a sua qualidade sonora.

Formados em 2009 pelo músico, cantor e escritor Markus Perttula e pelo músico de house Jani Lehto, os Sans Parade rapidamente tornaram-se num trio quando o músico de jazz Pekka Tuppurainen se juntou à dupla. Hoje o grupo é ainda maior, com músicos que dominam diferentes géneros musicais e que, além dos já referidos, também tocam a folk. Assim, esta massiva junção de géneros e influências, naturalmente iria dar origem a um verdadeiro caldeirão sonoro, algo que se escuta em Artefacts, um disco impregnado com arranjos orquestrais lindíssimos e que começou a ser incubado quando a banda se encontrava a delinear o video de Coastal Town, um dos destaques do disco anterior. Fragmentos encontrados pela câmara de filmar de uma carta rasgada junto a uma ponte, provavelmente relacionada com o ocaso de uma relação amorosa e escrita por uma adolescente que terá sofrido a sua primeira desilusão amorosa, provocaram um click imediato na banda, tal era a profundidade e a autenticidade dos sentimentos plasmados no documento encontrado. 

Depois de destruirem esses fragmentos da carta através de um ritual verdadeiramente catártico, os Sans Parade arregaçaram as mangas e puseram mãos à obra, começando por olhar com particular atenção, para excertos da opera Einstein On The Beach, de Philip Glass, além da carta acima referida, que inspirou porfundamente, por exemplo, Letter Fragments Found On The Halinen Bridge, o tema que encerra Artefacts. Outros excertos de escrita utilizados nas canções foram frases incrustadas em mesas de madeira de restaurantes, inscrições em casas antigas, provérbios chineses e até linhas de programação informática. Todos estes fragmentos inspiraram a banda e deram um sentido a alguns eventos anteriores da mesma, nomeadamente em Chinese Wisdoms on the Road to Jiuzhaighou, que relata uma viagem do grupo à região chinesa de Sichuan, no outono de 2011, ou The Premises Of A Life That Could Have Been Yours, canção que se debruça nas memórias de infância relacionadas com o percurso escolar de alguns elementos do grupo. Já Hyperborea vê o ideário sa sua exuberância instrumental ser sustentado e inspirado pelo conteúdo de Kalevala, a epopeia nacional da Finlândia, escrita e compilada por Elias Lönnrot.

Sustentados pela habitual melancolia que só os grupos escandinavos sabem transmitir, já que este grupo tem, como referi, as suas raízes num ponto do globo artisticamente muito criativo e assenta a sua sonoridade numa mistura de indie pop e indie rock, com post rock e alguns elementos eletrónicos, os Sans Parade deixam aqui bem claro que fizeram mais um disco perfeito para quem tem necessidade de se afundar em sonoridades etéreas para ganhar um novo ânimo e assim deixar para trás as adversidades. O conteúdo orquestral de Chinese Wisdoms on the Road to Jiuzhaighou, um tema que expande os horizontes minimalistas quando, antes de cada refrão, eleva o volume dos instrumentos como um todo e origina uma explosão que nos faz levitar, é um excelente exemplo desta receita que exige que não deixemos escapar nenhum dos imensos detalhes sonoros, enquanto nos deixamos engolir pela voz cândida de Perttula, que soa, quase sempre, a uma perfeição avassaladora e onde custa identificar um momento menos inspirado.

Artefacts é uma espécie de súmula da amálgama de elementos e referências sonoras que inspiram os Sans Parade, o que confere ao disco uma ímpar catalogação, ao mesmo tempo que o seu conteúdo nos conduz para lugares calmos e distantes, que depois nos deixam marcas muito positivas e sintomas claros de deslumbramento. Espero que aprecies a sugestão...

Sans Parade - Artefacts

01. Fenland Tenebrae
02. Hyperborea
03. Chinese Wisdom On The Road To Jiuzhaigou
04. The Premises Of A Life That Could Have Been Yours
05. Farmer’s Tale For A Prepared Piano
06. Of November And Programming
07. Letter Fragments Found On The Halinen Bridge

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publicado por stipe07 às 20:36

Cervelet - Degradê

Quinta-feira, 14.01.16

Oriundos de  Jaboticabal, no estado de São Paulo, uma cidade de setenta mil habitantes, fundada por portugueses e onde prosperam cinco universidades, os brasileiros Cervelet são Guto Cornaccioni, Iuri Nogueira, Igor Nogueira, Tiko Previato e Vitor Marini, uma banda que diz misturar cerveja com música, poesia e liberdade e que, por isso, se considera a banda mais estranha da cidade!

Depois de ter editado na primavera de 2014 Canções de Passagem, o disco de estreia, este quinteto regressará em 2016 aos lançamentos discográficos com um EP e Degradê é o primeiro single divulgado do mesmo, uma canção sobre o amor, que viu a luz do dia ainda em 2015, a dezassete de dezembro e que assenta numa instrumentação radiante, que progride de forma interessante à medida que vão sendo adicionados os diversos arranjos que adornam as guitarras e a voz, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte. Confere...

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publicado por stipe07 às 21:04

Villagers – Where Have You Been All My Life?

Quarta-feira, 13.01.16

Os irlandeses Villagers são, neste momento, praticamente monopólio da mente criativa de Conor O'Brien e estão já na linha da frente do universo indie folk europeu, pelo modo criativo e carregado com o típico sotaque irlandês, como replicam o género, ainda por cima oriundos de um país com fortes raízes e tradições neste género musical. Com um trajeto musical bastante profícuo nos últimos anos, além de intenso e rico, acabaram por resolver agregar alguns dos temas mais significativos de Becoming a Jackal (2010), {Awayland} (2013) e Darling Arithmetic (2015), dando assim origem a Where Have You Been All My Life?, um álbum editado a oito de janeiro último, através da Domino Records e que nos oferece não apenas uma simples compilação de sucessos, mas uma narrativa muito pessoal e autobiográfica de um cantor e compositor extraordinário, que se debruça frequentemente sobre a temática da sexualidade e os desafios emocionais que a questão da sua homossexualidade lhe tem colocado nos anos mais recentes.

Com o apoio inestimável de Richard Woodcraft, um dos elementos fundamentais da retaguarda dos Radiohead e do engenheiro de som Ber Quinn, os Villagers assentaram arraiais nos estúdios RAK, em Londres e regravaram os doze temas do alinhamento de Where Have You Been All My Life?, adaptando os novos arranjos de modo a que fluissem como uma narrativa homogénea e linear, a exata sensação que a audição do álbum nos oferece.

Se temas como Set The Tigers Free ou Everything I Am Is Yours não defraudam a implacável herança folk que foi tipificando o som do Villagers, já o dedilhar de cordas de Darling Aritmethic e de The Souls Serene ou o baixo impulsivo de Memoir oferecem-nos um olhar mais vincado sobre o modo como Conor consegue entrelaçar letras e melodias e adicionar ainda belos arranjos, de forte teor sentimental, caraterísticas que fazem deste coletivo irlandês não só uma referência essencial e obrigatória no género, mas também um bom aconchego para alguns dos nossos instantes mais introspetivos e fisicamente intimistas.

Seja como for, o meu grande destaque deste trabalho acaba por ser, sem dúvida, até pela temática, Hot Scary Summer, uma canção onde o autor canta emotivamente sobre o fim do amor e o lado mais destrutivo desse sentimento (all the pretty young homophobes looking out for a fight); É nesta canção que Conor amplifica inteligentemente o modo como em Villagers fala de si e das suas experiências e esse ênfase, ampliado pela cândura do seu falsete, acaba por fazer com que se dispa totalmente, exalando uma vincada veia erótica.

Terminando com uma lindíssima versão de Wichita Lineman, um original de 1968 da autoria de Glen Campbell, já revisto por nomes importantes como os R.E.M., Where Have You Been All My Life? contém instantes sonoros de superior magnificiência, em que é possível sentirmos que estamos abraçados ao líder desta banda, a partilhar o mesmo espaço físico da mesma, completamente desprovidos de qualquer defesa, enquanto testemunhamos o modo como Conor se entrega a uma aritmética amorosa, onde está em causa não só o modo como gere a sua relação com o amor, mas também consigo mesmo e os seus próprios conflitos emocionais. Espero que aprecies a sugestão...

Villagers - Where Have You Been All My Life

01. Set The Tigers Free
02. Everything I Am Is Yours
03. My Lighthouse
04. Courage
05. That Day
06. The Soul Serene
07. Memoir
08. Hot Scary Summer
09. The Waves
10. Darling Arithmetic
11. So Nave
12. Wichita Lineman

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publicado por stipe07 às 20:51

Tindersticks – Were We Once Lovers?

Terça-feira, 12.01.16

Tindersticks - Were We Once Lovers

Os Tindersticks, uma das melhores bandas que surgiu na Inglaterra nos anos noventa e que trouxe para o rock independente e alternativo uma elegância sombria inimitável, completam em 2016 vinte e quatro anos de uma carreira irrepreensível. E The Something Rain, o nono álbum deste grupo de Nottingham, lançado em 2012, parece ter finalmente sucessor.

The Waiting Room, o novo e décimo álbum da carreira dos Tindersticks, vai ver a luz do dia a vinte e dois de janeiro, através da City Slang e Were We Once Lovers? é o mais recente single divulgado de um disco conceptual, com um acompanhamento audiovisual e onde todas as canções servem de banda sonora para um leque de curtas-metragens, cada uma realizada por um realizador diferente.

O video de Were We Once Lovers? foi realizado por Pierre Vinour, do projeto La Blogothèque e a canção contém uma míriade instrumental densa e elaborada, rica em pequenos detalhes e muitos deles deliciosamente hipnóticos. Confere...

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publicado por stipe07 às 20:21

David Bowie – Blackstar

Segunda-feira, 11.01.16

Quase três anos depois de The Next Day, o camaleão nascido em Brixton, em 1947 e com sessenta e nove anos completados há apenas dois dias, está de regresso aos álbuns com Blackstar, sete canções editadas nesse preciso dia do seu aniversário e que nos oferecem um David Bowie a calcorrear novamente territórios sonoros de forte cariz experimental e, no fundo, aqueles onde sempre se sentiu mais confortável, em cinquenta anos de carreira onde nem sempre foi pacífica a sua relação com o lado mais comercial da indústria fonográfica, apesar do enorme reconhecimento e reputação que hoje justamente goza, como um dos génios criativos mais influentes e recomendáveis do cenário musical e cultural contemporâneo.

Logo na audição do tema homónimo, a voz distorcida de Bowie esclarece-nos que os próximos quarenta minutos serão verdadeiramente desafiantes e que até para o mais fiel seguidor e conhecedor da trajetória discográfica do músico, Blackstar será um corropio imenso e intenso de códigos estéticos de complexa descodificação, criado por um músico que, ainda por cima, se revela extremamente confidente e próximo do ouvinte. A referência ao clássico cinematográfico Clockwork Orange (1971) de Stanley Kubrick, em Girl Loves Me ou as interseções com o jazz, género sonoro de culto para Bowie, em Tis A Pity She Was a Whore, canção onde se destacam os instrumentos de sopro e uma letra angustiada, assim como as variações ritmícas da bateria e a distorção da guitarra de Sue (Or In A Season of Crime), são apenas alguns exemplos da aúrea de mistério e do apenas aparente caos com que o autor pretende impressionar o ouvinte, ao mesmo tempo que comunica (algumas vezes canta, quase como se falasse) e se oferece, utilizando, neste caso, vários poemas com um cariz algo sombrio e sem aparente controle de tudo aquilo que sonoramente a sua veia criativa o instiga a produzir.

Habituado a ser elogiado por tudo aquilo que faz, Bowie não deixa de ser humano e, por isso, está também sujeito a erros e falhas. Seja como for, Blackstar é, notoriamente, um exercício honesto e sincero de dádiva e mesmo em canções como Can't Give Everything Away ou Lazarus, que apelam de modo mais evidente ao comercial, existe uma marca inesperada, seja através de um instrumento de sopro ou um som sintetizado, que provoca o tal estímulo intelectual que a audição deste disco exige. Esta Lazarus acaba também por impressionar e comover, pelo modo como exala um clima intensamente cinematográfico e perturbador. Curiosamente, Dollar Days, uma balada que contém um dos melhores momentos vocais da carreira de Bowie e uma viola e um piano intensos em sentimento e arrojo e que, por isso, teria tudo para nos obrigar a um enorme esforço de perceção da mensagem que carrega, acaba por ser a canção mais direta e incisiva do disco, aquela que não suscita qualquer dúvida sobre o ideário sentimental que pretende transmitir.

Disco marcante e que obriga a uma imersão por parte do ouvinte num universo muito próprio, Blackstar não pode ser dissociado da carreira de David Bowie e deve ser compreendido na exata medida daquilo que o autor pretendeu que o seu cardápio transmitisse. Com uma carreira cheia de momentos marcantes e que dificilmente serão esquecidos, este é um dos trabalhos em que este músico britânico melhor transformou as suas histórias pessoais em canções, numa cruzada sonora intensa, próxima e subtilmente encantadora, idealizada por um poeta exímio a entender os mais variados sentimentos e confissões humanas e que sabe, de forma bastante peculiar e única, como converter simples sentimentos em algo grandioso, épico e ainda assim delicadamente confessional. Espero que aprecies a sugestão...

(N.D.R.) - A crítica a este disco foi escrita poucas horas antes do início da derradeira viagem de David Bowie. Considero que a melhor homenagem que lhe poderia prestar, era não alterar uma única vírgula da análise, devido a esse facto.

David Bowie - Blackstar

01. Blackstar
02. Tis A Pity She Was A Whore
03. Lazarus
04. Sue (Or In A Season Of Crime)
05. Girl Loves Me
06. Dollar Days
07. I Can’t Give Everything Away

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publicado por stipe07 às 17:52

Yeasayer – I Am Chemistry

Sábado, 09.01.16

Yeasayer - I Am Chemistry

Desde o notável Fragrant World, disco editado já no longínquo ano de 2012, que os nova iorquinos Yeasayer se mantinham num silêncio que já começava a preocupar os seguidores deste projeto sonoro verdadeiramente inovador e bastante recomendável. Mas parece que essa compêndio de onze canções, das quais se destacavam composições tão inebriantes como Henrietta ou Longevity, já tem finalmente sucessor.

Amen & Goodbye, o novo disco dos Yeasayer, será editado a um de abril através da insuspeita Mute e I Am Chemistry é o primeiro single divulgado das treze composições que irão constar no seu alinhamento. O romantismo lisérgico do tema consolida a veia instável e experimental de um projeto cada vez mais assente numa pop de cariz eletrónico e bastante recomendável. Confere...

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publicado por stipe07 às 15:54

Coloured Clocks – Particle

Sexta-feira, 08.01.16

Editado hoje mesmo, dia oito de janeiro, e disponível para download no bandcamp da banda, Particle é o novo trabalho dos Coloured Clocks, uma banda australiana que é já presença habitual neste espaço. Com as origens a remontar ao início de 2011, os Coloured Clocks são um projeto musical liderado por James Wallace, um músico australiano natural de Melbourne. Estrearam-se nos lançamentos com o EP Where To Go, em julho de 2011, ao qual se seguiu Zoo, o disco de estreia, lançado em janeiro de 2012. No final de 2012 deram a conhecer mais um novo álbum, intitulado Nectarine e logo depois, em 2014, All Is Round, uma espécie de álbum interativo, que pedia para ser escutado na sequência que entendessemos, já que o início pode ser o fim ou o meio, ou seja, as canções circulavam livremente e isso só não era concreto porque estavam presas à realidade lógica da indispensável sequência numérica do disco.

Particle contém doze canções que se por um lado não defraudam a herança identitária do ideário sonoro que instiga Wallace a compôr, por outro, mostram um autor e um projeto no auge de uma carreira sustentada por um indie progressivo e psicadélico, com fortes reminiscências do rock da década de setenta e sem por de lado o que de melhor se propôe atualmente inspirado nesse universo musical.

Este é um trabalho que deve ser ouvido na íntegra atentamente e apreciado como um todo, apesar de saltar ao ouvido composições como a contemplativa e cósmica The Craziest Street That There Has Ever Been, ou a sedutora Waiting On You, canção que se aconchega nos nossos ouvidos e cola-se à pele com o amparo certo para que se expresse a melíflua melancolia que Wallace certamente quis que deslizasse dela, já que o mistério é, também, um elemento estruturante da filosofia sonora dos Coloured Clocks. Green Lights também merece audição dedicada, devido ao modo como um almofadado conjunto de vozes em eco e guitarras mágicas se manifestam com uma mestria instrumental vintage única, mas apostando, também, em mudanças de ritmo e sobreposições com elementos sintéticos, sendo um dos temas onde eletrónica e psicadelia se juntam de modo a descobrir novos sons, dentro de um espetro eminentemente pop.

Assim sendo, se gostas de sonoridades cósmicas e psicadélicas tens de reviver esta banda e este disco verdadeiramente épico, com uma estrutura melódica tradicional e com riffs de guitarra luminosos, bem acompanhados pela bateria e por sintetizadores flutuantes e poderosos que nos conduzem a um universo lisérgico e tortuoso, mas cheio de cor, numa espécie de simbiose entre a pop e o experimentalismo. Escrito, produzido, gravado e misturado pelo próprio James Wallace e masterizado por Steve Smart, Particle contém uma aúrea resplandescente e romântica invulgares e espelha uma feliz revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto há mais de quatro décadas por gigantes que se entregaram ao flutuar sonoro da lisergia. Espero que aprecies a sugestão...

01. The Craziest Street That There Has Ever Been
02. Fly The Bi-Plane
03. Butterflies
04. Green Lights
05. Racing Down The Road
06. Why Weren’t You There?
07. Waiting On You
08. Life Is So Defined
09. Coming Back To You
10. Pop Songs
11. 27
12. The Pattern Particle Set

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publicado por stipe07 às 21:03







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