Sábado, 31 de Outubro de 2015

The Never Surprise – Winters EP

O projeto canadiano The Never Surprise, natural de Vancouver, nasceu em 2011 e começou por resultar de uma colaboração entre David Gaudet e Nick Eakins, que procurava a amibiciosa simbiose entre a folk e o indie rock com alguns detalhes da eletrónica à mistura. O adeus de Eakins ao projeto em 2013 foi um duro golpe, mas não o fim de The Never Surprise, que agora, iluminado pela mente única de Gaudet, acaba de editar um EP com sete canções, disponíveis para audição e download, com a possibilidade de serem obtidas gratuitamente ou doares um valor pelas mesmas, na plataforma bandcamp.

Contando com as importantes contribuições de nomes tão influentes como Adam Nanji (The Belle Game), Andrew Braun (Rococode), Robbie Driscol, (Hannah Georgas) and Niko Friesen (The Zolas), Gaudet conseguiu oferecer-nos, com Winters, um ambiente bastante relaxante. No Dispute, o tema de abertura, é um veículo precioso para a indução imediata do ouvinte neste inverno genuíno e contemplativo. A gentileza da guitarra elétrica e o eco da voz dessa canção são competentes na forma como abarcam diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos, uma mistura harmoniosa a exuberante, mas suave e confessional, que nos oferece um início de audição de Winters ameno, íntimo, mas também arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Daí em diante, o EP sobrevive à sombra de arranjos bem feitos, que prendem a atenção, alternando entre climas calmos e agitados, conseguidos através da combinação da guitarra com outros sons e detalhes, quase sempre precurssivos, mas que nunca roubam às cordas o merecido protagonismo. Por exemplo, se os sussurros do tema homónimo criam uma sensação curiosa e reconfortante que a introdução da bateria não esbate, já os efeitos rústicos de Limousine e o andamento da guitarra em Ocean, transformam a audição do EP numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia.

Winters emociona, inspira e ilumina, levando-nos para um lugar calmo e pacífico, onde podemos fugir da velocidade, do caos e da ansiedade da vida moderna, um lugar que, independente de géneros ou estilos, definitivamente só existe na música. Espero que aprecies a sugestão...

The Never Surprise - Winters

01. No Dispute
02. Winters
03. No Real Me
04. Limousine
05. Ocean
06. Aurelia
07. Picket Line


autor stipe07 às 22:57
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015

Alpaca Sports – When You Need Me The Most EP

Oriundos de Gotemburgo, na Suécia, os Alpaca Sports têm já um cardápio sonoro interessante e que tem apostado numa sonoridade com aquele espírito tipicamente nórdico, cheio de traços que cruzam pop e psicadelia, com uma tonalidade muito própria e que amplia o espírito claramente juvenil de canções que contêm, quase sempre, um ambiente festivo e uma luminosidade muito própria.

O conceito de intensidade, neste caso nas guitarras e na percussão, mas também nos efeitos e arranjos, é transversal às sete canções de When You Need Me The Most, o novo trabalho deste grupo, um EP que é também um mini álbum e que exalta aquela ligeireza juvenil, fazendo-o à boleia de melodias bastante orelhudas, simples no processo mas eficazes no modo como se entranham e às quais é,por isso, impossível resistir.

Just Like Them, a canção que abre o alinhamento de When You Need Me The Most é um excelente exemplo da capacidade inebriante que os Alpaca Sports têm de nos convidar a darmos as mãos e fazermos uma roda em seu redor, enquanto dançamos ao som de uma canção que brilha no modo como palpita, guiada por uma guitarra que parece ter vida própria e que em determinados instantes até nem receia ousar. Depois, e tomando como exemplo a notável e festiva Need Me The Most, canção que pisca o olho a um certo travo mais melancólico, ficamos impressionados pelo modo harmonioso como os Alpaca Sports conseguem, com particular doçura e convicção, não resvalarem nunca para exageros desnecessários, conseguindo assim manter intato um precioso charme genuíno e provando que estamos na presença de uma banda criadora de belos instantes sonoros, que se estendem pelos nossos ouvidos sem a mínima sensação de desconforto.

O que não falta neste trabalho são canções competentes na forma como abarcam diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e que dão expressão a letras que exaltam o lado mais festivo da existência humana. Além dos exemplos já referidos, quando no efeito curioso e na folk de There's No One Like You, nos metais e nos sopros de Where’d You Go e na inocência que brota de todos os acordes da efusiva I Love You esta banda sueca se serve da combinação da guitarra com outros sons e detalhes, nunca rouba às cordas o merecido protagonismo, plasmado com um romantismo e uma cândura que nos confrontam com a nossa natureza, uma sensação curiosa e reconfortante que transforma-se numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia.

Talvez seja do clima sueco, ou do frio polar que obriga a que mentes que viajam constantemente entre a ressaca e um estado mais ébrio, tenham de se aquecer de qualquer forma, a verdade é que estes Alpaca Sports conseguem esse efeito reconfortante através da sua música, sem dúvida uma excelente porta de entrada para um mundo mais ternurento e acolhedor. Espero que aprecies a sugestão...

01. Just Like Them
02. Need Me The Most
03. There’s No One Like You
04. I Love You
05. Where’d You Go
06. When I Hold You
07. My Favourite Girlfriend


autor stipe07 às 22:21
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Quinta-feira, 29 de Outubro de 2015

Silversun Pickups – Better Nature

Os californianos Silversun Pickups de Brian Aubert, Nikki Monninger, Christopher Guanlao e Joe Lester estão de regresso aos discos com Better Nature, um trabalho que irá ver a luz do dia no final do mês de setembro, através da New Machine Records, a própria editora da banda.

O esplendor do indie rock está de regresso com estes californianos Silversun Pickups, que ao quarto disco se mostram mais adultos, seguros do som que pretendem replicar e particularmente íntimos de uma monumentalidade que Cradle (Better Nature) anuncia sem reservas logo na abertura e as guitarras pesadas de Connection e as distorções de Pins And Needles reforçam. É um alinhamento de dez canções que procuram abordar o conceito de humanidade, explícito na temática de temas como Latchkey Kids e Friendly Fires e o melhor modo de se encaixar as vozes andrógenas de Aubert e Nikki Monninger com um arsenal instrumental que mistura, de modo assertivo, uma certa crueza e simplicidade com uma dose equilibrada de experimentalismo, patente não só nos efeitos selecionados para as guitarras, mas também com a inserção de alguns detalhes sintetizados, exemplarmente emparelhados, por exemplo, entre a percussão na soturna Friendly Fires, mas também nos tambores e no agregado de vozes e guitarras que sustetam o poderoso edifício sonoro que alimenta Tapedeck e qyue em determinado momento parece ter tudo para se desmoronar.

O baixo de Nikki e, acima de tudo, a presença da sua voz, por exemplo, no tema anteriormente referido, é também cada vez mais uma peça chave na condução melódica de temas que não receiam, em nenhum instante, apelar à memória daquela fita magnética mais bem cuidada e onde guardámos os nossos clássicos preferidos que alimentaram os primordios do rock alternativo, sem descurar o compromisso com uma estética muito própria e que, no fundo, não deixando de conter a contemporaneidade e o ideal de inovação que os Silversun Pickups merecem, procura, essencialmente, o louvável intuíto de nos fazer regressar ao passado e entregar-nos canções caseiras e perfumadas por uma herança que nos diz muito, enquanto navegam numa espécie de meio termo entre o rock clássico, o shoegaze e a psicadelia.

Um dos grandes trundos de Better Nature e que amplia esse piscar de olhos fiel a um outro tempo que, pelos vistos, não conhece fronteiras temporais, devido à modernidade deste projeto californiano é o modo como Aubert mistura a sua voz com as letras e os arranjos das melodias, o que faz com que o próprio som da banda ganhe em harmonia e delicadeza o que a distorção pode afetar, apesar de, felizmente, o red line das guitarras fazer cada vez mais parte do cardápio sonoro dos Silversun PickupsNightlight, o primeiro avanço divulgado do álbum, é um tema onde o habitual shoegaze dos Silversun Pickups é dominado por uma guitarra com efeitos que criam uma sonoridade vigorosa e visceral particularmente épica, mas também se destaca pelo modo como aa voz e os coros acompanham as variações de ritmo e intenisdade da canção. E em Circadian Rhythm (Last Dance), a voz, neste caso a de Monninger, é outro trunfo declarado, uma canção com uma toada mais pop, onde não falta a predominância das cordas eletrificadas, com os teclados e a própria bateria, com as suas variações de ritmo, cadência e andamento, a contribuirem decisivamente para o cariz contemplativo e contemporâneo do tema

Neste álbum, os Silversun Pickups mantêm uma sonoridade melódica, séria e apimentada com boas doses de distorção e guitarras ascendentes, bases saturadas de efeitos e as vozes dos dois protagonistas maiores do projeto cada vez melhor encaixadas. É uma coleção de canções de fortes inspirações noventistas, como já foi referido, mas que prova que estes norte americanos já deixaram de ser um promessa e são hoje uma das grandes certeza do rock alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...

Silversun Pickups - Better Nature

01. Cradle (Better Nature)
02. Connection
03. Pins And Needles
04. Friendly Fires
05. Nightlight
06. Circadian Rhythm (Last Dance)
07. Tapedeck
08. Latchkey Kids
09. Ragamuffin
10. The Wild Kind


autor stipe07 às 18:05
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Quarta-feira, 28 de Outubro de 2015

Mild High Club – Timeline

Escorre em pouco menos de meia hora pelos nossos ouvidos Timeline, o portentoso disco de estreia dos Mild High Club, a carapaça pop de Alexander Brettin, músico norte-americano fã de Todd Rundgren e Wire.

O esplendor das cordas de Club Intro e o baixo e o teclado de Windowpane, assim como a voz ecoante de Brettin e a chuva de metais que se espalha por este tema, vestem-nos com umas enormes calças à boca de sino, camisas com golas até ao umbigo, desabotoadas na mesma medida, uma barba farta e um florido colar ao pescoço e coloca-nos em redor de todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se deliciam com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

As guitarras são o combustível que inflama os raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro dos Mild High Club, feitas de acordes lentos, vibrações cruas bem audíveis, por exemplo em Not To Self e algumas distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez, tudo escorrido sem pressas e com um certo ar preguiçoso, como convém à solarenga califórnia que abriga Brettin. Mas a receita também se compôe com alguns teclados munidos de um interessante arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais e uma secção rítmica que vive de uma bateria com a cadência exigida pela dose de lisergia que escorre em cada tema, numa sobreposição instrumental em camadas, onde dentro de uma clara essência pop que tem sempre o experimentalismo em ponto de mira, busca também uma acessibilidade que procura fazer de Timeline uma ode imensa de celebração do lado mais estratosférico, descomplicado e animado da vida.

Com outros destaques além dos já citados, este disco só pode ser saboreado convenientemente se tiver for tida em conta a delicada sensibilidade das cordas que suportam a cândida melodia do belíssimo instante de folk psicadélica chamado You And Me e a monumentalidade comovente de The Chat, tema que conta com a participação de Ariel Pink e Weyes Blood. Estes são dois extraordinários tratados sonoros que resgatam e incendeiam o mais frio e empedrenido coração que se atravesse e plasmam, além do vasto espetro instrumental presente em Timeline, a capacidade que estes Mild High Club também têm para compôr peças sonoras melancólicas e apresentar o melodioso com elevada estética pop.

Felizes no modo como se estreiam nos discos com um acervo de canções único e peculiar e que resulta, certamente, da consciência que Alexander Brettin, o grande mentor do projeto, tem das transformações que abastecem a música psicadélica atual, os Mild High Club querem ficar ligados umbilicalmente e logo à partida à lista de referências essenciais na parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que tem inundado os nossos ouvidos ultimamente. Isso sucede porque Timeline é um tratado sonoro de natureza hermética, mas que não se furta a quebrar algumas regras da pop, nomeadamente na questão da crueza lo fi, e até de desafiar as mais elementares do bom senso que uma estreia quase sempre exige, preferindo impressionar pelo arrojo, mostrando-se assim genial no modo como dá vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Mild High Club - Timeline

01. Club Intro
02. Windowpane
03. Note To Self
04. You And Me
05. Undeniable
06. Timeline
07. Rollercoaster Baby
08. Elegy
09. Weeping Willow
10. The Chat (Feat. Ariel Pink And Weyes Blood)


autor stipe07 às 18:08
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Terça-feira, 27 de Outubro de 2015

Tom Furse - Child Of A Shooting Star EP

Membro dos britânicos The Horrors, Tom Furse também tem um projeto a solo, onde aposta em sonoridades mais etéreas e contemplativas. À boleia da Lo Recordings, o músico editou no ocaso do último verão Child Of A Shooting Star, um compêndio de quatro temas onde a eletrónica downtempo e a chillwave ditam regras, uma eletrónica sofisticada e ambiental, com um cariz quase minimal e cheia de detalhes preciosos, que dão às canções uma toada densa, mas bastante agradável.

Complexo, surpreendente e algo enigmático, Child Of A Shooting Star é um passeio inebriante por um universo alternativo que nos deixa em permanente suspense, tal é a profusão de sons e efeitos, uns facilmente identificáveis e outros mais indecifráveis. Por exemplo, Let your Body Go, um belíssimo instrumental eletrónico, destaca-se pela imensidão de detalhes sintéticos absolutamente deliciosos, mas o tempero tropical de Trans-Universal Express. Para o final ficou reservado o melhor momento do compêndio, com as cordas de Cloud Mountain a serem permanentemente rodeadas de flashes e loopings sintéticos vigorosos, mas que nunca colocam em causa a cândura e o embalo que o tema nos proporciona

Disponível no formato físico vinil e em formato digital, Child Of A Shooting Star é música para ser não só vivida, mas também experienciada, já que desafia o nosso estado psiquíco e nos convida a aceder a uma dimensão superior de letargia. É, no fundo, um extraordinário momento de puro relaxamento e de contemplação sonora que nos permite embarcar numa curta mas profunda viagem a um universo musical que se pode definir como uma espécie de funk cósmico, alicerçado em criações sonoras versáteis e exóticas e que resultam de uma fórmula legítima e louvável de um músico que parece estar particularmente aberto e disponível a encontrar um sopro de renovação. Espero que aprecies a sugestão...

1. Trans-Universal Express
2. The Ocean Is Teacher
3. Let Your Body Go
4. Cloud Mountain


autor stipe07 às 20:22
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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2015

Gui Amabis - Ruivo em Sangue

Depois do sucesso alcançado em 2011 com Memórias Luso/Africanas, o disco de estreia e onde ficaram logo patentes as tuas fortes ligações a Portugal, Gui Amabis regressou aos lançamentos em 2012 com Trabalhos Carnívoros. E agora, pouco mais de três anos depois, está novamente de volta com este lindíssimo Ruivo em Sangue, um trabalho composto e gravado entre São Paulo e Lisboa e que, de acordo com o press release de lançamento, carrega no gene a solidão insólita de caminhar à deriva pelas ruas da capital portuguesa.

Gui Amabis começa a destacar-se no seu percurso discográfico não só pela beleza das suas canções, mas também pela faceta poética e pelo superior dramatismo da sua escrita. Assumindo-se como um letrista que quer passar em cada canção uma mensagem explicitamente e que a mesma seja entendida e decifrada através dos sons que a acompanham, um objetivo que Amabis descreve em mais uma entrevista extraordinária que me concedeu e que podes conferir abaixo, este autor está cada vez mais exímio no modo como retrata o sonho e a realidade, muitas vezes de modo indistinto e com uma carga onírica e fortemente cinematográfica.

Havendo dedicação e gosto na audição da música de Gui Amabis, é fácil criar e imaginar personagens e ações na nossa imaginação à medida que a sua música flui pelos nossos ouvidos, torna-se espontânea a necessidade de recriar interiormente as histórias, muitas vezes autobiográficas, que ele nos conta. De facto, no momento de cruzar as notas com as letras e de modo a exacerbar o ideário das mesmas, o autor olha para este processo como um quebra-cabeças, um jogo, já que quando escreve uma letra, de certo modo ela já traz consigo o cenário melódico que a irá sustentar.

Assim, neste Ruivo Em Sangue, disco em que consta da lista de participações especiais nomes tão ilustres como Dustan Gallas, Regis Damasceno e Marcelo Cabral, escutamos esta faceta única da música de Amabis, que apesar de ter um cariz tão pessoal e íntimo, soa e sabe também a um ato coletivo de partilha de sonhos, ideias e sentimentos.

Se Trabalhos Carnívoros me tinha agradado pela bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, já em Ruivo em Sangue, apesar de o autor não dispensar a habitual exuberância ao nível dos arranjos e as constantes variações rítmicas, dois aspetos que Eles Eram Humanos, por exemplo, plasma claramente, este novo disco é mais direto, cru, visceral e vibrante. É, claramente, um disco mais rock e que prova que Gui continua a ser um mestre da melodia e um génio criativo, onde transpiração e inspiração se dividem em doses iguais para nos oferecer mais uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único. Confere, já a seguir, a entrevista que Gui Amabis concedeu a Man On The Moon e espero que aprecies a sugestão...

Depois do sucesso alcançado em 2011 com Memórias Luso/Africanas, o disco de estreia e onde ficaram logo patentes as tuas fortes ligações a Portugal, regressou aos lançamentos em 2012 com Trabalhos Carnívoros. E agora, pouco mais de um ano depois, com este lindíssimo Ruivo em Sangue. Conforme fiz da última vez que te entrevistei, começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as expetativas para este novo trabalho? Continuas a seguir o conselho do teu pai e a não criar expetativas, ou há algo escondido aí dentro de ti, um desejo ou uma meta muito pessoais que tenhas para este disco?

Começo então agradecendo o lindíssimo. Tenho mais vontades que expectativas. Quero tocar mais, a cada apresentação sinto que eu e meus parceiros ficamos mais perto, musicalmente. Por outro lado, como letrista, a vontade é que meu texto seja compreendido e assimilado. Acredito que todo músico quer ser ouvido, se não, acabaria por não emitir sons.

Pelos vistos, este é mais um capítulo da tua forte ligação a Portugal, país onde encontras as tuas raízes, já que, além de Ruivo em Sangue ter sido gravado entre São Paulo e Lisboa, conta histórias inspiradas em passeios solitários pela nossa capital. Será sempre de certo modo inevitável na tua carreira construir pontes sonoras entre os dois lados do atlântico?

Quero muito poder apresentar esse concerto em Portugal, a banda está muito feliz e dedicada à pesquisa musical. Penso em ir  com esse grupo e poder interagir mais com músicos portugueses, quando aí estive fiquei isolado por estar na fase de composição do disco. Portugal faz parte disso, sendo eu metade lusitano não posso pensar de outra forma que não seja essa. Isso acaba por ser marcante no som e no texto.

Continuas a fazer música de modo a retratar momentos da tua vida e a escrever para tentares entender os teus sentimentos?

Sempre escrevo sobre cenários familiares, não costumo inventar coisas. Não sei se tenho um objetivo ao escrever. Tenho me divertido com o jogo de compor, achar a melodia presente em cada frase, deixar que essa revele suas notas e modulações. Os assuntos chegam sem serem chamados.

Se Trabalhos Carnívoros me tinha agradado pela bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, já em Ruivo em Sangue, apesar de não dispensares a habitual exuberância ao nível dos arranjos e as constantes variações rítmicas, dois aspetos que Eles Eram Humanos, por exemplo, plasma claramente, parece-me que fizeste um disco mais direto, cru, visceral e vibrante. Um disco mais rock, digamos assim… Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, que idealizaste para o álbum inicialmente? E o resultado final correspondeu ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Na resposta acima falo um pouco disso, cada frase tem sua melodia, cada melodia sua harmonia, cada harmonia seu arranjo e cada arranjo sua cor. Tudo está ligado, é um processo mutante e quando vemos está pronto. Geralmente começo sem saber aonde vai dar.

Continuas a ser um mestre da melodia, um génio criativo no momento de cruzar as notas com as letras de modo a exacerbar o ideário das mesmas e na entrevista anterior confessaste que este processo é para ti como um quebra-cabeças, um jogo e que quando escreves uma letra, de certo modo ela já traz consigo o cenário melódico que a irá sustentar. Na hora de te sentares para escrever e de entrares no estúdio para compor, o processo de criação musical continua a ser assim tão fluído e espontâneo, ou com o passar do tempo e o aumento do teu cardápio sonoro, começas a sentir necessidade de ser mais racional e menos espontâneo? Em suma, qual é, neste momento, a percentagem de inspiração e transpiração em tudo isto?

(Risos…) Vejo que já conhece meu processo, pra mim a inspiração vem da transpiração. São muitos testes e erros até soar bem aos meus ouvidos.

Confesso que fiquei particularmente surpreso com a opção de disponibilizares gratuitamente o teu novo álbum em formato digital. Como surgiu a ideia e porque foste em frente?

Isso se tornou uma prática entre os músicos independentes do Brasil. Fica difícil não disponibilizar o disco sendo que todos os outros o fazem. O disco está em quase todas as plataformas digitais, portanto, se a pessoa quiser comprar ela pode. Deixo essa escolha para o ouvinte.

Graxa em Sal teve direito a um excelente vídeo que ilustra uma pintura da autoria de Biel Carpenter. Como surgiu a inspiração para um tão curioso e interessante vídeo?

Estávamos para lançar o disco e queríamos um video para isso. Pensamos em fazer um Video-letra, mas eu queria fazer algo com Biel, então lembrei dos programas que assistia quando criança, animações em stopmotion. Biel gostou e realizou junto com Antonio Wolff.

Mais uma vez, nos créditos de um trabalho teu constam nomes tão ilustres como Dustan Gallas, Regis Damasceno e Marcelo Cabral. Cada vez mais a tua música, apesar de ter um cariz tão pessoal e íntimo, soa e sabe também a um ato coletivo de partilha de sonhos, ideias e sentimentos, não concordas?

Concordo, gosto das ideias deles, me apresentam caminhos melódicos e harmônicos que não me são naturais. Estão se tornando parceiros muito importantes, além de Samuel Fraga e Richard Ribeiro.

Quando é que podemos ouvir estas músicas ao vivo por cá?

Espero que possamos ir em 2016, estamos a conversar com algumas casas de música em Portugal. Ficaria muito feliz em apresentar, em Portugal, as músicas que aí fiz.

Obrigado mais uma vez pela tua música… Sou cada vez mais teu fã! Abraço…

Obrigado, beijos!


autor stipe07 às 18:28
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Domingo, 25 de Outubro de 2015

Reverend And The Makers – Mirrors

Formados por Jon McClure, Ed Cosens, Laura McClure, Joe Carnall e Ryan Jenkinson, os Reverend and The Makers são uma banda natural de Sheffield e começaram a carburar em 2007, considerado por alguma crítica como o ano de ouro do índie, com o disco The State Of Things. Depois veio A French Kiss In The Chaos em 2009, um homónimo em 2012, e agora, pouco mais de três anos, Mirrors, considerado pela crítica como um dos cenários essenciais da indie experimental britânica deste ano.

Projeto que exala uma sonoridade com uma forte componente elétrica, mas sem renunciar às origens indie pop da banda, como se percebe em Makin' Babies ou na mais acústica The Beach And The Sea e muitas vezes encarnadas na voz firme de Jon McClure, líder e vocalista, estes Reverend And The Makers são uma daquelas bandas que caem no goto de quem procura a banda sonora ideal para um estilo de vida regado de excessos e decadência, mas apenas nos seus desejos mais recônditos. Na verdade, canções como Amsterdam ou a animada e festiva Blue transpiram hedonismo e percebe-se que McClure terá controlado, além do microfone, cada centímetro quadrado de um mundo em miniatura onde existe ao centro uma húmida pista que ele pretende personificar e que, à boleia de canções quase sempre curtas e diretas, se torna no palco por excelência de uma espécie de comemoração solitária, mas que exige constantemente que nos juntemos à festa. No entanto, o conteúdo geral de Mirrors não é propriamente interdito a menores, ou algo que se pareça.

Assim, além dos exemplos já referidos, instantes como El Cabrera ou a funky Mr Glassalfempty, canção conduzida por um baixo simplesmente fabuloso, são momentos preciosos onde este cantor assume o papel de reverendo e de forma sagaz, incisiva e eloquente, dita o destino de alguns dos seus demónios que poderão também ser nossos, já que coloca sentimentos próprios de alguém que vive guiado pela voz do coração no papel central das emoções ditadas pelas composições. Todo este altruísmo tem sido injustamente ignorado, mas talvez seja desta vez que Jon McClure se vai tornar, de pleno direito, num porta voz de uma geração que continua a ignorar a sua existência. Espero que aprecies a sugestão...

Reverend And The Makers - Mirrors

01. Amsterdam
02. Black Widow
03. Makin’ Babies
04. Stuck On You
05. The Beach And The Sea
06. The Trip
07. El Cabrera
08. Blue
09. Something To Remember
10. Mr Glassalfempty
11. The Gun
12. My Mirror
13. Last To Know
14. Lay Me Down
15. Mr Glassalfempty (Radio Edit)
16. The Trip (Radio Edit)
17. Makin’ Babies (Radio Edit)
18. Mirrors (Overproof Dub)


autor stipe07 às 21:26
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Sábado, 24 de Outubro de 2015

EL VY – Return To The Moon

Com o ocaso da digressão de promoção de Trouble Will Find Me (2013), o último disco dos norte americanos The National, os membros da banda resolveram virar agulhas para alguns projetos paralelos. Recordo, por exemplo, o projeto Pfarmers que se estreou com o espetacular disco Gunnera, para mim já um dos marcos discográficos deste ano, da autoria de um super grupo do qual fazem parte Danny Seim (Menomena e Lackthereof), mas também Bryan Devendorf, o baterista dos The National e Dave Nelson (David Byrne, St. Vincent, Sufjan Stevens).

Matt Berninger, o vocalista da banda nova iorquina, também resolveu apostar em algo diferente e juntou-se a Brent Knopf (Menomena, Ramona Falls) para produzirem juntos o disco de estreia de um projeto intitulado EL VY. Esse álbum intitula-se Return To The Moon (2015), chegou recentemente às lojas através da 4AD e logo pela amostra do single homónimo, o primeiro tema divulgado, percebeu-se que estes EL VY apostam as fichas todas na voz grave de Berninger, mas os arranjos melódicos, o refrão simples e os versos acessiveis indicam uma explícita toada mais pop e luminosa do que o habitualmente escutado nos The National, ampliada também por boas guitarras e alguma sintetização.

Ainda mal se estrearam, mas a verdade é que estes EL VY carregam já uma aúrea intensa, que faz deles  foco de atenção, devido à carreira longa e qualitativamente elevada dos seus membros com ambos, e em especial Berninger, a serem um dos nomes fundamentais da cultura musical do novo século. Na verdade, este Return to The Moon é uma verdadeira jornada sentimental e realística pelos meandros de uma américa cada vez mais cosmopolita e absorvida pelas suas próprias encruzilhadas, uma odisseia heterogénea e multicultural oferecida por um projeto visionário que encarna atualmente um desejo claro de renovação, explorando habituais referências dentro de um universo sonoro muito peculiar e que aposta na fusão de rock, com a pop, o jazz e a folk, de uma forma direta e luminosa, mas também, em alguns instantes, densa e marcadamente experimental.

É evidente a sensação de prazer que qualquer conhecedor profundo da carreira dos músicos dos EL VY sente ao escutar este trabalho e acaba por ser natural expressarmos aquilo que sentimos acerca de Return To The Moon, exalando uma excitante sensação de alívio, porque se mantém intocável a vontade e a capacidade criativa destes autores para a renovação constante do seu ambiente particular, sem colocar em causa algumas permissas essenciais que identificam e tipificam o som específico dos seus projetos de origens. Se o tema tema homónimo deslumbra pelo esplendor das guitarras e o acerto dos teclados, a rugosidade algo jazzística de I’m The Man To Be e o dedilhar das cordas de Paul Is Alive, conjugado com os arranjos percussivos inéditos e outros recursos sonoros de cariz geralmente sintético, exprimem o modo asseado e inspirado como esta nova banda olha para as tendências atuais mais bem aceites pelo público. Need A Friend e  Happiness, Missouri acabam por ser o auge desta evidencia, pela forma como os EL VY exploram nessas canções uma ligação estreita entre a psicadelia, o rock alternativo e a pop, através de uma certa ironia pouco comum, mas com resultados práticos extraordinários.

Depois, no restante alinhamento de Return to The Moon, são outros os exemplos do modo como os EL VY em vez de se fecharem no seu próprio casulo, parecem estar muito atentos à realidade atual, enquanto se mostram particularmente inspirados e num elevado nível qualitativo na visão caleidoscópica que plasmam nesta estreia. O cariz boémio e nublado que dá vida à alegoria funk pop Silent Ivy Hotel, um tema que não receia abusar dos detalhes eletrónicos e de outros detalhes metálicos é outro sinal claro desse avanço, que a riqueza dos arranjos das cordas da reflexiva It's A Game, o ambiente nostálgico de No Time To Crank The Sun, ou as guitarras e o xilofone de Sleepin’ Light, tema que conta com a participação espeical de Ural Thomas, também evidenciam.

Tentativa bem sucedida de oferecer algo inovador, empolgante e orquestralmente rico, Return To The Moon é um álbum heterógeneo onde se cruzam diversos espetros sonoros com impressionante bom gosto e onde se escuta um certo caos, sempre controlado e claramente ponderado, rico, exuberante e impecavelmente produzido. Nele, estes EL VY oferecem-nos onze canções que borbulham um forte sinal de esperança e de renascimento, sementes que vão provavelmente conquistar para o grupo públicos diferentes daqueles que acompanham os projetos de onde os músicos são originários. Espero que aprecies a sugestão...

EL VY - Return To The Moon

01. Return To The Moon (Political Song For Didi Bloome To Sing, With Crescendo)
02. I’m The Man To Be
03. Paul Is Alive
04. Need A Friend
05. Silent Ivy Hotel
06. No Time To Crank The Sun
07. It’s A Game
08. Sleepin’ Light (Feat. Ural Thomas)
09. Sad Case
10. Happiness, Missouri
11. Careless


autor stipe07 às 21:21
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Zaflon - Blink

Uma das novas apostas da etiqueta londrina Lost In The Manor é o produtor local Zaflon, que começou a ganhar alguma notoriedade graças a parceiras proveitosas com  Jamie Woon and Royce Wood Junior, mas que está decidido a mostrar ao mundo as suas próprias criações sonoras. E foi no passado dia nove de outubro que nos ofereceu a primeira, um tema intitulado Blink e que conta com a participação especial da cantora Mina Fedora.

Com uma sonoridade invulgar devido a modo como mescla detalhes tipicamente urbanos com outros mais exóticos, nomeadamente o uso de um sample de sons naturais capatado por músico oriundo da Papua, Nova Guiné, Blink plasma uma eletrónica inspirada e de forte pendor psicadélico, que irá certamente encher as medidas de quem aprecia algo de verdadeiramente invulgar e inovador e que coloca Zaflon sob os radares mais atentos. Confere...


autor stipe07 às 15:34
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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2015

Telekinesis – Ad Infinitum

Oriundo de Seattle, o baterista e compositor norte americano Michael Lerner é um nome cada vez mais emergente e respeitado no cardápio da Merge Records. Refiro-me ao cerebro por trás do projeto Telekinesis que tem em Ad Infinitum o seu disco mais recente, um álbum que viu a luz do dia a dezoito de setembro e já o quarto do cardápio desta banda que começou o seu trajeto com um homónimo em 2009 e ao qual se seguiram ainda 12 Desperate Straight Lines (2011) e Dormarion (2013).

Embrenhado na cave da sua cidade natal onde tem o seu próprio estúdio de gravação e a passar um momento pessoal feliz já que se casou recentemente, Lerner procura sempre, de disco para disco, ser mais ambicioso e extrovertido no modo como aborda o universo da pop, mas sem descurar uma sonoridade bastante elétrica e próxima do rock n'roll. É uma demanda sonora que, como se percebe logo em Sylvia, olha sem receio para o alto de uma grandiosidade sonora e melódica que não anseia calcorrear os caminhos sempre arriscados e os desafios que o experimentalismo progressivo geralmente coloca. Seja em baladas tranquilas conduzidas pelas teclas sintetizadas, como In A Future World, ou outras composições mais agitadas, como Courtesy Phone ou a inspiradora Farmers Road, esse conceito de amplitude e até alguma magnificiência está sempre presente, normalmente abrigado numa série de camadas eletrónicas e percussões frenéticas, com os timbres de voz a serem frequentemente editados e permeados por uma atmosfera quase espacial, num resultado final com um forte apelo a um saudosismo vintage que se saúda. A sequência final Ad Infinitum part. 1 Ad Infinitum part. 2 acaba por ser o instante sequencial nevrálgico desta demanda quase obsessiva, mas saudável, porque todo o arsenal instrumental utilizado, mas também o acerto e o bom gosto da voz, nomeadamnete no modo como enfatiza o cariz fortemente sensorial da escrita de Lerner, conseguem replicar alguns dos alicerces essenciais do género sonoro em que o disco se quer legitimamente situar.

De facto, Telekinesis está cada vez mais confiante e assertivo no modo como agrega os sintetizadores com as guitarras e fá-lo, em Ad Infinitum, enclausurado numa espécie de máquina do tempo que o levou e depois nos leva até ao período mais aúreo e exuberante da synth pop e a new wave, em plena década de oitenta do século passado. Basta apreciarmos comodamente a batida cadenciada e um tanto sonhadora do single Sleep In e logo se percebe que, felizmente, este músico menos efusivo e mais reflexivo e sonhador não está nada preocupado em agradar às massas e sem intenções comerciais imediatas, mas antes imbuído de ambições e anseios bem maiores e superlativamente recompensadores. Espero que aprecies a sugestão... 

Telekinesis - Ad Infinitum

01. Falling (In Dreams)
02. Sylvia
03. In A Future World
04. Courtesy Phone
05. Sleep In
06. Edgewood
07. It’s Not Yr Fault
08. Farmers Road
09. Ad Infinitum Pt. 1
10. Ad Infinitum Pt. 2


autor stipe07 às 21:19
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Quinta-feira, 22 de Outubro de 2015

Majical Cloudz – Are You Alone?

Já viu a luz do dia à boleia da insuspeita Matador Records, Are You Alone?, o tão aguardado terceiro disco de Majical Cloudz, o projeto encabeçado pelo canadiano Devon Welsh e ao qual se junta Matthew Otto, mais uma obra prima incubada na mente de um grupo único, que quer em II quer em Impersonator, os dois registos anteriores, deixou-me boquiaberto assim como muita crítica e imprensa especializada, devido ao modo corajoso e exemplar como utiliza um angustiante e singular minimalismo sofredor, muitas vezes autobiográfico, para embarcar, disco após disco, numa espécie de catarse pessoal, da qual nos podemos apropriar, através do exemplo, para nossa própria salvação, comungando aspectos demasiado particulares da vida de Welsh, o escritor das canções, expostos num mundo lírico de forte apelo claustrofóbico e de difícil aproximação, mas com o qual nos identificamos sem enorme esforço.

Se as canções de Majical Cloudz fossem cantadas à capella, apenas com a voz de Welsh, desprovidas de instrumentos, teriam peso suficiente para impressionar, mas nunca com o grau sísmico que realmente contém, já que é verdadeiramente belissímo e até, em certos momentos, quase surreal, o método de construção da arquitetura sonora destes temas de Are You Alone?, edificados em sons que se vão sobrepondo com suavidade e astúcia e que do simples piano, a sons sintetizados, passando por instrumentos de sopro, ou batidas, abarcam uma miríade quase infinita de fontes, num minimalismo sonoro que é bastante enganador.

Chega a ser impressionante o modo como diante de um simples teclado Devon Welsh solta a magnificiência da sua voz sublime e arrebatadora e, fazendo dela um prolongamento físico do seu corpo, que se estende pelos braços até à ponta dos dedos que tocam no instrumento, atinge uma simbiose única entre dois corpos, o corpo homem e o corpo máquina, de modo a criar cenários pintados pela profunda introspeção e melancolia. Se logo em Disappeared a voz de Devon prende imediatamente a atenção de quem se disponibiliza para devotamente destrinçar a sua mensagem com merecido fervor, enquanto clama pela nossa companhia e nos convida diretamente a sermos testemunhas da sua solidão (Those that forever disappear, All I want is for you to talk to me, The way you used to do) nos temas seguintes percebe-se que ele quer despir-se integralmente perante cada um de nós, no caso de Control entregar-se totalmente (Would you control me, Would you lock me up and then never set me free, Would you, I am on my knees) e confessar-se sem rodeios, mesmo que tenha de expôr os seus maiores receios e fantasmas. O clímax desta missão única e singela acontece quando em Silver Car Crash assume desejar que o amor lhe possibilite o que mais ninguém ousa desejar, nem nos seus mais inconfessados e inverosímeis sonhos  (I want to kiss you, Inside a car that’s crashing, And we will both die laughing, Cause there is nothing left to do) para depois, em Change, acompanhado por uma batida crua, admitir ter levado tavez um pouco longe demais esta demanda de auto entrega ao destino sem concessões e planos que sustentem uma hipotética necessidade de salvação caso o fundo do poço seja a meta única, na possibilidade de não haver quem lhe estenda uma mão e lhe mostre novamente a luz (Today I felt no good, I wasted all my time, Don't ever ask me why). Mas isso nunca acontece porque, na verdade, imersos na audição de Are You Alone?, facilmente percebemos que Welsh pede a nossa compreensão e o feitiço torna-se de tal modo forte e eficaz que não pensamos sequer duas vezes até o resgatarmos de novo para o lado bom da força.

Este é um disco para ser escutado com auscultadores e no silêncio, porque também contém silêncios ruidosos que acentuam um dramatismo transversal ao alinhamento e que fornece pontos em comum às doze canções que passeiam por Are You Alone? e personificam uma arquitetura sonora que sobrevive num domínio muito próprio e que dificilmente encontra paralelo no cenário musical atual. Este é, sem dúvida, um acontecimento discográfico ímpar e que deveria estar ao alcance do mais comum dos mortais e fazer parte das suas obrigações diárias, como receita eficaz para a preservação da integridade sentimental e espiritual de cada um, duas das facetas que, conjugadas com a inteligência, nos distinguem a nós humanos, dos outros animais. Espero que aprecies a sugestão...

Majical Cloudz - Are You Alone

01. Disappeared
02. Control
03. Are You Alone?
04. So Blue
05. Heavy
06. Silver Car Crash
07. Change
08. If You’re Lonely
09. Downtown
10. Easier Said Than Done
11. Game Show
12. Call On Me


autor stipe07 às 18:52
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The Weatherman - Ice II

Dois anos após um homónimo, The Weatherman, o pseudónimo artístico criado em 2006 pelo multi-instrumentalista portuense Alexandre Monteiro e um projecto pop rock versátil e multifacetado, que se estreou em 2006 com Cruisin’ Alaska, ao qual se sucedeu Jamboree Park at the Milky Way (2009), está de regresso aos discos muito em breve e já divulgou um single daquele que será o seu quarto registo de originais.

Gravada, misturada e masterizada nos estúdios Sá da Bandeira no Porto em Setembro último, Ice II é essa novidade de The Weatherman, uma canção produzida a meias com Alexandre Almeida. De acordo com esta amostra, o próximo longa duração deverá remeter este cantautor para um universo pop e psicadélico, diversificado e versátil, onde reina a nostalgia dos anos sessenta e onde nomes como The Beatles ou Beach Boys são referências incontornáveis, além de algumas marcas identitárias da eletrónica atual. Ice II também já tem direito a um vídeo, registado pela lente de Vasco Mendes. Confere...

 


autor stipe07 às 18:35
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Quarta-feira, 21 de Outubro de 2015

Deerhunter - Fading Frontier

Dois anos após um fabuloso disco de garage rock, com elevada estética punk e cheio de guitarras vintage intitulado Monomania e um atropelamento grave em 2014, Bradford Cox está de regresso com os seus Deerhunter aos álbuns com Fading Frontier, nove canções que viram a luz do dia a dezasseis de outubro à boleia da 4AD e que foram produzidas pelo próprio grupo de Atlanta e por Ben H. Allen III, habitual colaborador dos Deerhunter desde o mítico Halcyon Digest (2010).

Se Monomania tinha uma toada lo fi, crua e pujante, com canções cheias de quebras e mudanças de ritmos e momentos de pura distorção, vozes quase inaudíveis e uma raiva que ainda não tinha sido vista nos Deerhunter, mesmo nos primeiros álbuns da banda, Fading Frontier não renega totalmente estes atributos essenciais para a definição justa do adn do grupo, com Duplex Planet à cabeça como tema que impulsionado pela guitarra de Tim Game, dos Stereolab, assegura algum ideal de continuidade. Mas a verdade é que este é o disco mais melódico do historial da banda e, se do cardápio dos Deerhunter há já excelentes instantes sonoros que merecem figurar em lugar de destaque na indie contemporânea, Fading Frontier contém instantes sonoros que são verdadeiros clássicos e que puxam os autores para um patamar superior de abrangência, não só pela miríade sonora que abrangem, mas também, e principalmente, por estarmos a falar de canções que misturam acessibilidade, diversidade e intrincado bom gosto, tudo com enorme eficácia.

Compêndio que privilegia então uma sensibilidade pop inédita nos Deerhunter e que em alguns momentos é atingida com um forte cariz épico e monumental, como se infere logo em All The Same, o estrondoso tema que abre o alinhamento, Fading Frontier também abriga os seus alicerces fundamentais em instantes mais introspetivos e etéreos, como é o caso da mágica melancolia que trespassa o piano e o baixo de Lather and Wood e do sintetizador irrepreensível e um efeito de guitarra que parece planar na cativante Living My Life, uma canção que permite obter, nos quase quatro minutos de duração, um completo alheamento de tudo aquilo que nos preocupa ou pode afetar em nosso redor. E além destes dois aspetos, transversais a grande parte do historial do grupo e que se misturam e se sublimam em vários temas deste novo álbum, com o single Breaker a ser talvez aquele que melhor consegue juntar toda a amálgama que hoje define o adn dos Deerhunter, há outros dois traços também algo antagónicos, mas aqui expressos com intensidade e requinte superiores; Refiro-me ao funk alegre e divertido de Snakeskin, canção que conta com a participação especial de Zumi Rosow no saxofone e, em Ad Astra, a um piscar de olhos objetivo áquele pós-punk britânico dos anos oitenta que fazia questão de viver permanentemente de braço dado com o experimentalismo e em simbiose com a psicadelia.

Fading Frontier é um daqueles registos discográficos onde a personalidade de cada uma das canções do alinhamento demora um pouco a revelar-se nos nossos ouvidos, mas é incrivelmente compensador experimentar sucessivas audições para destrinçar os detalhes precisos e a produção impecável e intrincada que as distingue e que sustenta a bitola qualitativa de um disco incubado por um grupo que vive no pico da sua produção criativa, porque exige e consegue navegar sem parcimónia em diferentes campos de exploração. A imprevisibilidade é, afinal, algo de valor no mundo artístico e Bradford Cox, uma dos personagens mais excêntricas no mundo da música de hoje, continua a jogar com essa evidência, a seu favor, à medida que apresenta diferentes ideias e conceitos de disco para disco, tendo, neste caso, excedido favoravelmente todas as expetativas e criado um dos álbuns essenciais do ano. Espero que aprecies a sugestão...

Deerhunter - Fading Frontier

01. All The Same
02. Living My Life
03. Breaker
04. Duplex Planet
05. Take Care
06. Leather And Wood
07. Snakeskin
08. Ad Astra
09. Carrion


autor stipe07 às 21:20
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Terça-feira, 20 de Outubro de 2015

Saintseneca – Such Things

Dark Arc, o extraordinário segundo álbum de estúdio dos norte americanos Saintseneca, uma banda natural de Columbus, no Ohio e formada por Zac Little, Maryn Jones, Steve Ciolek e Jon Maedor, já tem sucessor. Such Things é o novo tomo de canções desta banda essencial para a caraterização fiel do cenário indie folk norte americano na atualidade e, tendo visto a luz do dia à boleia da ANTI, não defrauda quem aprecia composições algo minimalistas, mas com arranjos acústicos particularmente deslumbrantes e cheios de luz.

Se os Mumford & Sons ou os Lumineers têm preenchido os holofotes de quem acompanha um género sonoro muito carateristico e com uma luminosidade única, seria importante começar a olhar para estes Saintseneca com outro olhar porque, disco após disco, eles estão a cimentar com superior arrojo e enorme criatividade, um compêndio de canções que merecem audição dedicada e maior projeção.

Honestidade, sinceridade e boa disposição são ideias e conceitos muito presentes na música destes Saintseneca e com elas surge, lado a lado, uma monumentalidade instrumental de realce, muitas vezes percussiva, como atesta, por exemplo, no caso de Such Things, Sleeper Hold. E a verdade é que este coletivo plasma tal evidência ao nível de poucos projetos contemporâneos. Além disso, o modo como as cordas vão surgindo nas várias canções e o diferente modelo de projeção das mesmas, acustica ou eletricamente, plasmam uma maturidade já bastante vincada, com os coros dos refrões a serem também uma imagem de marca que reforça uma calorosa ideia de coletivo. Mesmo em cenarios melódicos mais contidos, como sucede em Estuary, nunca é colocada em causa esta noção de luz e cor, uma sensação permanentemente orgânica de vitalidade e inspiração, que sabe como deixar o ouvinte a pensar, mesmo sabendo que está a ser diretamente convidado para se deixar absorver por um clima particularmente festivo. Depois, o modo quase sempre emocionado da interpretação vocal e o arrojo com que os restantes membros da banda se juntam ao vocalista, como sucede em Rare Form, amplia imenso o volume da canção e o seu cariz épico e expansivo, algo que se repete várias vezes ao longo de Such Thing, nomeadamente em River.

Such Things é um fundamental marco no presente anuário, oferecido por uns Saintseneca que pretendem algo tão grandioso como quererem apropriar-se, com competência, alegria e criatividade, de um género musical com profundas raízes na terra do Tio Sam. Espero que aprecies a sugestão...

Saintseneca - Such Things

01. Such Things
02. ///
03. Sleeper Hold
04. Estuary
05. Rare Form
06. Bad Ideas
07. The Awefull Yawn
08. How Many Blankets Are In The World
09. River
10. Soft Edges
11. The All Full On
12. Necker Cube
13. Lazarus
14. House Divided
15. Maya 31


autor stipe07 às 18:33
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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2015

Beach House – Thank Your Lucky Stars

Ainda há poucas semanas chegou às lojas, através da Sub Pop, Depression Cherry, o quinto álbum da dupla Beach House, um projeto sedeado em Baltimore, no Maryland, formado pela francesa Victoria Legrand e pelo norte americano Alex Scally e a dupla já tem outro longa duração nos escaparates. Thank Your Lucky Stars é o novo álbum dos Beach House, um disco editado no passado dia dezasseis de outubro e uma coleção de canções com uma filosofia e uma sonoridade diferentes do álbum anterior, mas que voltam a conter, felizmente, aquela toada simples e nebulosa, bastante melódica e etérea, plena de sintetizadores assertivos e ruidosos e guitarras com efeitos recheados de eco, que mantêm intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que vive em redor da voz doce de Victoria e da mestria instrumental de Alex e se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado.

Em mais nove canções os Beach House continuam a sua demanda camaleónica, já que exalam o contínuo processo de transformação que a dupla procura sempre mostrar, com a marca do indie pop muito presente e com uma dose de experimentalismo cada vez maior. Se Majorette contém um traço melódico algo efusivo e mais luminoso do que as propostas de Depression Cherry, o sintetizador onírico que conduz She's So Lovely e que é já uma imagem de marca da sonoridade da dupla, assim como o falsete doce de Victoria que o acompanha, é mais um convincente apelo para que a nossa mente e o nosso espírito se deixem ir à boleia desta proposta estética assente num clima abstrato e meditativo, presente neste tema com um impacto verdadeiramente colossal e marcante.

Esta pop experimental dos Beach House está cada vez mais elaborada e charmosa. A batida hipnótica feita no teclado em All Your Yeahs e a variação que ela sofre sem alterar a melodia, num crescendo de corpo e emoção e o fuzz de guitarra em One Thing, que a aproxima-a escandalosamente de alguns detalhes marcantes do rock mais progressivo, ou a exuberância algo barroca do sintetizador de Common Girl, assim como o andamento sentimentalmente pronunciado e épico de The Traveller, são alguns aspetos marcantes desta continua evolução e que nunca defraudam o ambiente contemplativo fortemente consistente deste álbum e que impregna o adn dos Beach House.

Thank Your Lucky Stars é mais uma impressão concetual forjada com superior veia criativa que nos mostra de modo exímio como a dupla consegue que as texturas e as atmosferas que criam, transitem, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas a inquietar constantemente todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Sempre balizados pelos sintetizadores, clarificam esta impressão, também com belíssimas letras, sempre entrelaçadas com deliciosos acordes, num resultado final em que prevalecem quase sempre melodias minuciosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, onde não falta uma estranha escuridão interestelar e uma soul que encarna um notório marco de libertação e de experimentação e nos agarra pelos colarinhos sem dó nem piedade e nos suga para um universo pop feito com uma sonoridade tão preciosa, bela, silenciosa e fria, como só estes Beach House nos podem proporcionar. 

Em Thank Your Lucky Stars viajamos bastante acima do solo que pisamos, numa pop com traços de shoegaze e embrulhada numa melancolia épica algo inocente, mas com uma tonalidade muito vincada e que sopra na nossa mente de modo a envolvê-la com uma elevada toada emotiva e delicada, uma receita que faz o nosso espírito facilmente levitar e que provoca um cocktail delicioso de boas sensações, além de atestar a maturidade e a capacidade que esta dupla possui de replicar a sua sonoridade típica e genuína sem colocar em causa um alto nível de excelência. Espero que aprecies a sugestão...

Beach House - Thank Your Lucky Stars

01. Majorette
02. She’s So Lovely
03. All Your Yeahs
04. One Thing
05. Common Girl
06. The Traveller
07. Elegy To The Void
08. Rough Song
09. Somewhere Tonight


autor stipe07 às 19:05
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Domingo, 18 de Outubro de 2015

Glass Vaults – Sojourn

Os Glass Vaults são uma banda oriunda de Wellington, na Nova Zelândia e em cujo regaço melancolia e lisergia caminham lado a lado, duas asas montadas em canções que nos oferecem paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos e a voz de Larsen que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta. E tudo isto sente-se com profundo detalhe, numa banda que por vir dos antípodas parece carregar nos seus ombros o peso do mundo inteiro e não se importar nada com isso, algo que nos esclarece com veemência Sojourn, o longa duração de estreia destes Glass Vaults, editado à boleia da Flying Out e que sucede a Glass (2010) e Into Clear (2011), dois eps que colocaram logo alguma crítica em sobressalto.

Life Is The Show, uma exuberância de cor e movimento marcial, numa espiral instrumental desmedida e isenta de qualquer pudor, lança o disco numa espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo e onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso. E depois, em West Coast, os efeitos circenses e as cordas que parecem ser capazes de reproduzir toda a magnificiência deste e de outro mundo num qualquer arraial bucólico de aldeia, com o seu centro nevrálgico no coreto da praça principal defronte da igreja matriz, lançam-nos definitivamente no universo fortemente cinematográfico e imersivo destes Glass Vaults, que mudam de cenário com uma naturalidade invulgar, sem colocarem em causa a homogeneidade de um alinhamento rico e muitas vezes surreal. No tema homónimo, eles já tocam içados no topo monte Aoraki, o ponto mais alto da Nova Zelândia, de onde debitam esta canção arrebatadora através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco das melodia e dão asas às emoções que exalam desde o sopé desse refúgio bucólico e denso, onde certamente se embrenharam, pelo menos na imaginação, para criar quase oito miutos que impressionam pela orgânica e pelo forte cariz sensorial. Ponto alto do disco, Sojourn contém um som esculpido e complexo, num encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador.

A mesma receita, mas de modo ainda mais barroco e hipnótico, repete-se em Sacred Heart, uma alegoria pop que impressiona pela grandiosidade, patente nos samples, nos teclados e nos sintetizadores inebriantes, não havendo regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos. Depois, o minimalismo contagiante da guitarra em que se sustenta Ancient Gates, mais um tema que nos desarma devido ao registo vocal e ao banquete percussivo que contém e a riqueza sintética que sobressai da tela por onde escorre uma amalgama de efeitos e ruídos em Come and Be Beautiful, são extraodinários exemplos do modo como esta banda é capaz de ser genuínaa manipular o sintético, de modo a dar-lhe a vida e a retirar aquela faceta algo rígida que a eletrónica muitas vezes intui, convertendo tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico.

Muitas vezes o inexplicável surge diante de nós e escorre pelos nossos ouvidos em forma de música e Sojourn peca e não merece sequer perdão pelo modo como desarma o ouvinte impossibilitando-o de utilizar expressões e vocábulos comuns e claramente entendíveis para descrever e classificar o seu conteúdo. Disco quase indeçifrável e com uma linguagem pouco usual mas merecedora de devoção, é capaz de projetar nos nossos ouvidos uma tela cheia de sonhos e sensações que muitas vezes apenas pequenos detalhes ou amplos arranjos conseguem proporcionar. Com nuances variadas e harmonias magistrais, tudo se orienta com o propósito de criar um único bloco de som, fazendo do disco um corpo único e indivisível e com vida própria, com os temas a serem os seus orgãos e membros e a poderem personificar no seu todo, se quisermos, uma projeção do lado apenas bom de cada um de nós. 

Na verdade, estes Glass Vaults oferecem-nos gratuitamente a possibilidade de usarmos a sua música para expor dentro de nós sentimentos de alegria e exaltação, mas também de arrepio e um certo torpor perante a grandiosidade de uma receita sonora cujos fundamentos lhes foram revelados em sonhos, já que só eles conseguem descodificar com notável precisão o seu conteúdo. Espero que aprecies a sugestão...

Glass Vaults - Sojourn

01. Intro
02. Life Is The Show
03. West Coast
04. Sojourn
05. Everyone’s An Artisan Now
06. Sacred Heart
07. Ancient Gates
08. Come And Be Beautiful
09. Slow Down
10. Your Blood
11. Don’t Be Shy


autor stipe07 às 20:10
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Sábado, 17 de Outubro de 2015

Hurts - Surrender

A dupla britânica Hurts de Theo Hutchcraft e Adam Anderson, está de regresso aos discos com Surrender, o terceiro trabalho do projeto, editado no passado dia seis de outubro e produzido por Stuart Price e Ariel Rechstaid.

Manchester, cidade de fortes tradições no que concerne à eletrónica britânica, principalmente a partir da última década do século passado, é o poiso natural desta dupla, mas não necessariamente o berço das influências que são decisivas para a sonoridade dos Hurts e, mais concretamente, este Surrender. Na verdade, é a pop polida dos anos oitenta, feita com sintetizadores carregados de efeitos, penteados volumosos e um ar sempre solene, que define a essência e o dramatismo deste projeto, que nos propôe mais uma coleção de canções assentes em teclados com a esperada pompa e circunstância aveludada que enfeita as melodias que debitam.

Impecavelmente produzido, Surrender arremessa para os nossos ouvidos toda uma herança luxuosa, com vários destaques, ao nivel instrumental, da responsabilidade de Anderson, que importa realçar; Assim, se Why é um forte apelo às pistas de dança e se Some Kind Of Heaven tem alguns elementos percurssivos curiosos, é, no entanto, o lado humano da voz grave de Hutchcraft que se mostra como o trunfo maior deste alinhamento. Refiro-me a uma voz impregnada, logo no tema homónimo, com vozes imponentes e redentoras, que depois passeiam uma dose incontida de egocentrismo em Nothing Will Be Bigger Than Us, de braço dado com teclados épicos. Mas o meu destaque de Surrender e talvez o tema que melhor sublima as duas vertentes é Lights, uma canção sedutora, com uma firme impressão da pop eletrónica dos anos oitenta, assente num refrão marcante, em guitarras plenas de groove, cordas dinâmicas e uma percussão onde não faltam efeitos de palmas. Este tema é um monumento de sensualidade, pensado para dançar no escuro, de preferência com a pessoa amada e o R&B de Rolling Stone e o piano de Wish, a composição que quase encerra Surrender, dois bons complementos para esse propósito acolhedor e nada subtil.

Firmes no percurso que resolveram calcorrear na carreira, os Hurts mostram neste terceiro disco um referencial estratégico sonoro estilístico cada vez mais aprimorado no modo como brincam com a subtileza e o mistério que envolve as relações, daquela maneira depressiva e sombria que se espera deles, mas com um bom gosto e um charme únicos. Espero que aprecies a sugestão...

Hurts - Surrender

01. Surrender
02. Some Kind Of Heaven
03. Why
04. Nothing Will Be Bigger Than Us
05. Rolling Stone
06. Lights
07. Slow
08. Kaleidoscope
09. Wings
10. Wish
11. Perfect Timing
12. Weight Of The World
13. Policewoman


autor stipe07 às 16:06
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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2015

The Walks - Fool's Gold

Apenas um ano depois de R, o ep de estreia, os The Walks estão de regresso com Fool’s Gold, o primeiro registo de originais no formato longa duração. Este é um disco que compila todos os temas compostos pelo grupo e que foram editados anteriormente no formato EP e outros que a banda considera importantes para uma caraterização clara da sonoridade deste belo projeto oriundo de Coimbra e formado por Gonçalo Carvalheiro, John Silva, Miguel Martins, Nelson Matias e Paula Nozzari.

Editado pela também conimbricense Lux Records, produzido pela própria banda e por João Brandão, Fool's Gold é um divertido e animado compêndio de canções que nos oferece uma espécie de anti pop, à boleia de um rock alegre e um pouco descomprometido e acelerado. São canções onde o boémio e o sentimentalismo sincero e profundo se misturam e até se confundem, num misto de êxtase, euforia e reflexão, cheias de pormenores que vão além da bateria, do baixo e das guitarras, para abarcar outros instrumentos de percussão e também de sopro.

Para os The Walks o rock não tem entraves, fronteiras e barreiras definidas e a própria banda, no seu seio, com um pragmatismo que se saúda, não busca uma inserção clara com categorias bem definidas desse género sonoro. Se temas como Redefine transpiram alguns detalhes do surf rock sessentista, logo a seguir, em Pleasure And Pain, os The Walks piscam o olho a alguns detalhes do punk rock mais sombrio que começou a fazer escola no final da década seguinte e bastam estes dois temas para se perceber que espontaneidade e naturalidade são conceitos intrínsecos ao processo de criação sonora no seio do grupo e que o momento é o que define um resultado final quase sempre inacabado até ao fim do prazo de entrega e divulgação de um produto final. Mesmo ao vivo, estas canções terão a particularidade de possuir uma flexibilidade tal que podem receber e alterar determinados arranjos, não só em função do espaço, como do próprio espírito da banda e do público no instante, sem que a essência de cada uma se altere.

Consistentes e artisticamente adultos, os The Walks são além de uma lufada de ar fresco, já uma certeza no panorama musical nacional. Não embarcam em rodeios e floreados desnecessários no momento de pegar nas guitarras inspiradas e arrojadas e num baixo denso e uma bateria dominadora, para criar um rock vigoroso, pujante e musculado, que merece a tua dedicada audição. Confere a entrevista que a banda concedeu a esta publicação, respondida pelo Gonçalo e espero que aprecies a sugestão...

Apenas um ano depois de R, o ep de estreia, os The Walks estão de regresso com Fool’s Gold, o primeiro registo de originais no formato longa duração. Aposto que a banda está numa fase criativa particularmente profícua. Antes de mais, e para quem não ouviu o disco anterior, quais são as principais diferenças entre os dois trabalhos?

Fool's Gold embora seja o nosso primeiro álbum, reúne todos os temas que compusémos desde o início do projecto. Fizémos questão de incluir temas que não ficaram registados no EP de estreia mas que para nós são importantes e que marcam sem dúvida a nossa sonoridade.

Claro que há temas que nunca tocámos ao vivo e que fazem parte da mais recente fase criativa.

Se compararmos os dois registos R e Fool's Gold, este último conta com um maior trabalho de produção e arranjo dos temas.

A vossa sonoridade é uma espécie de anti pop, um rock alegre e um pouco descomprometido e acelerado, cheio de pormenores que vão além da bateria, do baixo e das guitarras, para abarcar outros instrumentos de percussão e instrumentos de sopro. Concordam com esta descrição generalista? Quais são as vossas maiores influências?

Quando compomos os temas não nos preocupamos em encaixá-los numa ou noutra categoria.

À medida que os vamos trabalhando adicionamos elementos que julgamos enriquecer os temas e que nos permitem estar mais perto da sonoridade que idealizámos para cada um deles.

Sentimos que por vezes os pequenos detalhes podem fazer a diferença e esforçamo-nos para que isso aconteça.

As influências individuais de cada um acabam por se reflectir no resultado final e variam um pouco com aquilo que estamos a ouvir no momento ou com a fase que estamos a atravessar. Tem sido um processo natural e espontâneo.

Se temas como Redefine transpiram alguns detalhes do surf rock sessentista, mas logo a seguir, em Pleasure And Pain, piscam o olho, na minha opinião, a alguns detalhes do punk rock mais sombrio que começou a fazer escola no final da década seguinte, pode-se dizer que o rock dos The Walks não conhece fronteiras nem entraves?

Como referimos anteriormente, tentamos que o processo criativo não fique espartilhado em rótulos ou categorias.

Obviamente que quando compomos há influências que surgem de forma natural e não colocamos entraves a que isso aconteça, desde que todos se sintam confortáveis e que faça sentido no que estamos a trabalhar.

O disco foi produzido pela banda e por João Brandão. A vossa participação direta no processo de produção foi uma imposição vossa, logo desde o início, ou acabou por suceder com naturalidade?

Desde o EP que estabelecemos uma relação de empatia pessoal e profissional com o João e o Cláudio, e por isso o trabalho de produção colaborativo acaba por surgir naturalmente.

Não nos coibimos de dar as nossas sugestões, de dizer o que gostamos ou não e estamos perfeitamente abertos a que eles também o façam. Tudo resulta melhor quando são várias cabeças a trabalhar para o mesmo objectivo.

Adorei Lost In The Crowd. E para a banda... Há uma canção preferida neste álbum? 

A Lost in the Crowd foi uma das músicas que maiores restruturações sofreu em estúdio. No final ficámos bastante satisfeitos com o resultado e também o consideramos um dos temas fortes do disco. Claro que pessoalmente cada um acaba por ter a sua preferida mas, o tema que encerra o disco, Inside Out está na lista dos mais votados. É um tema pautado por vários momentos, um dos últimos que criámos e que aponta numa direcção um pouco diferente do que até ali tínhamos feito.

Além das canções, impressionou-me o conteúdo e a originalidade contrastante do vídeo do single Clockwork, realizado pelo coletivo We Are Portuguese. Esta componente visual é também uma aposta forte dos The Walks?

Sem dúvida. Desde a fase inicial que temos uma certa preocupação estética e visual por acharmos que pode reforçar a mensagem a transmitir.

No caso concreto do vídeo de apresentação de Clockwork procurámos jogar um pouco com os contrastes, resgatar os diversos tipos de dança dos seus próprios estilos e trazê-los para o nosso. A ideia pareceu-nos interessante, mas julgamos que o resultado final a superou.

A conimbricense Lux Records é uma lufada de ar fresco no panorama musical nacional; Tem sido importante para os The Walks este casamento?

Claro que sim. A Lux esteve connosco desde o início e tem sido um pilar importante para a divulgação e comercialização do nosso trabalho.

Tentamos não desiludir quem aposta em nós e a aliança sai reforçada com o lançamento deste longa duração.

Como têm corrido os concertos de promoção ao disco? Onde é que os leitores de Man On The Moon vos podem ver e ouvir nos próximos tempos?

Os concertos oficiais de apresentação iniciaram-se no Sabotage em Lisboa e no Salão Brazil em Coimbra, respectivamente a 9 e 10 de Outubro. Todas as novas datas serão divulgadas na nossa página do facebook, mas esperemos apresentar Fool's Gold no maior número de palcos possível.

Os concertos de preparação têm corrido da melhor forma e isso deixa-nos motivados para o futuro que se avizinha.

 


autor stipe07 às 18:31
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Quinta-feira, 15 de Outubro de 2015

a violet pine - Turtles

A vinte e três de setembro chegou aos escaparates, por intemédio da T.a. Rock Records, Turtles, o segundo disco dos italianos a violet pine, uma banda italiana que se divide entre Barletta, Bergamo e Milão e formada por Giuseppe Procida, Pasquale Ragnatela e Paolo Ormas e que aposta no post rock com pitadas de shoegaze no processo de composição melódica.

Nos a violet pine não existem limites, regras e concessões para o ruído, na mesma proporção da ausência de caos para a expansão do mesmo. Uma guitarra a desafiar permanentemente os limites do que é humanamente audível, mas sempre com um consistente entalhe melódico, um baixo cuja vibração das cordas parece ter sido captada no fundo da gruta mais escura e cavernosa a que a banda teve acesso, uma bateria tão crua como a força de um braço quando bate sem receio da dor e sintetizadores que nunca reclamam no instante de oferecer efeitos abrasivos, constituem a mistura instrumental nada anárquica, mas bastante heterogénea de que este trio se serve no momento de compôr. Estes são, claramente, todos os vetores sonoros que têm orientado a carreira dos a violet pine e Turtles sobrevive à luz dessa base sonora bastante peculiar e climática, com propostas ora banhadas por um doce toque de psicadelia a preto e branco, nomeadamente o espetacular single New Gloves, ora consumidas por um teor ambiental denso e complexo, como se confere no ranger metálico de New Game, ou no emaranhado de batidas e efeitos que sustentam o tema homónimo.

Independentemente da abordagem que é feita em cada canção e que varia imenso, com Have Fun, por exemplo, a piscar o olho a uma toada mais comercial e acessível, o que este disco nos oferece sem rodeios é um indie rock fulgurante, visceral infeccioso e incisivo, claramente marcado pela nostalgia dos anos oitenta, quase sempre envolvida numa embalagem frenética, embrulhada com vozes e sintetizadores num registo predominantemente grave, sombrio e ligeiramente distorcido.

Além de The Game, o tema de abertura, ser uma excelente porta de entrada para Turtles, porque contendo uma riqueza instrumental imensa, é também uma canção algo assustadora, friamente dividida em várias secções que, à medida que surgem, ampliam o cariz sombrio da canção e engrandecem o clima da mesma, Last Year é outra composição de audição imprescindível para se perceber como funcionam e se clarificam as transições sonoras em que os a violet pine apostam, notando-se a experimentação de diferentes estilos, com ecos bem audíveis de post punk e até uma faceta algo gótica, à qual não sera alheia a forte herança deixada por projetos como os Depeche Mode, se bem que estes italianos fazem-no com um forte carimbo experimental.

É evidente a mestria com que os a violet pine executam aquilo que pretenderam arquitetar em Turtles e impressiona a forma como enquadram todas estas referências num estilo muito próprio e inédito. Apreciar esta coleção algo invulgar de canções e todas as dinâmicas que propõe é um exercício auditivo simultâneamente complexo e recompensador, porque estamos na presença de uma amálgama sonora bastante calculada e muito bem construída. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:43
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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2015

Hatcham Social – The Birthday Of The World

Toby Kidd, Finnigan Kidd e David Claxton são os Hatcham Social, uma banda britânica oriunda da capital Londres e The Birthday Of The World o quarto trabalho do cardápio de um projeto cujas raízes remontam a 2006, altura em que com a benção de Tim Burgess, o líder dos Charlatans e de Alan McGee, patrão da Creation Records, os irmãos Kidd e Claxton, antigo baterista dos Klaxons, deram o pontapé de saída numa trip sonora que tem mergulhado, disco após disco, num universo sonoro recheado de novas experimentações e renovações e que soa sempre poderoso, jovial e inventivo.

A estreia nos discos dos Hatcham Social ocorreu em 2009 depois de alguns singles de sucesso editados anteriormente. You Dig The Tunnel and I'll Hide the Soil, foi o nome do trabalho de estreia, um álbum produzido pelo já referido Tim Burgess e por Faris Badwan, dos The Horrors. O sempre difícl segundo disco, intitulado About Girls, chegou em 2012 e o elevado apreço por parte da crítica especializada manteve-se, com Cutting Up The Present Leaks Out The Future, no início de 2014, a reforçar ainda mais as elevadas expetativas. Agora, no outono de 2015, o objetivo será, certamente, elevar o trio à escala de fenómeno global, com este The Birthday Of The World, uma esplendorosa coleção de dez canções, particularmente luxuriante, espiritual e hipnótica.

Verdadeiramente desconcertante e com uma produção cuidada, que aposta numa elevada dose de reverb e no típico espírito lo fi, The Brithday Of The World é um disco que faz da sua audição um desafio constante, quer devido ao modo como coloca em causa, permanentemente e sem concessões, o típico formato canção, mas também pela amálgama heterogénea de arranjos, samples e sons que rodeiam e sustentam as suas composições.

Instrumentalmente, desde a bateria ao baixo, passando pelo orgão, o piano, sintetizadores, guitarras, violas acústicas e um arsenal alargado de instrumentos de percussão, é extenso o rol de convidados para esta festa única e lisérgica, aos quais se juntam gravações de sons do nosso quotidiano e com os quais nos podemos identificar pessoalmente e um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias. A partir daí, abundam as sobreposições instrumentais em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa curiosa busca de acessibilidade, apesar do conteúdo do disco ser algo rugoso e com possuir a tal forte estética lo fi, havendo o propósito claro de aproximação ao ouvinte, cativando-o para uma audição dedicada.

Logo em Bucket Of Blood, a voz e a diversidade de sons e instrumentos que dão corpo a uma melodia plena de majestosidade e cor, e depois o espraiar cuidadoso das cordas de uma viola, cimentam o combustível que inflama os raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro dos Hatcham Social, feito de uma enorme assertividade e bom gosto. Depois o blues rock stoniano de Find A Way To Let In Your Sins (Hit Red Cut A Right), a essência vintage do saxofone e da guitarra de Hanging Rock, toda a herança aditiva e luminosa que o efeito sintético e o espírito barroco da percussão de A New World Calling transportam, ou o puro caos psicadélico que baliza Wondrous Place e depois, ainda nesse tema, num formato mais acústico, se cruza com as cordas de uma viola, efeitos flamejantes e um violino, são outros instantes de The Birthday Of The World que fazem destes Hatcham Social uma banda obrigatória para todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze, o chamado space rock e uma reforçada dose de experimentalismo sem regras e concessões, se deliciam com a mistura de vertentes e influências sonoras, sempre em busca de uma espécie de movimento estético de vanguarda sonoro, que desafia convenções e métodos e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

Disco desconcertante, The Birthday Of The World oferece-nos uma espécie de monumentalidade comovente através de extraordinários tratados sonoros que resgatam e incendeiam, enquanto plasmam, além do vasto espetro instrumental presente no disco, a capacidade que estes Hatcham Social possuem para compôr peças sonoras melancólicas e transformar o ruidoso em melodioso com elevada estética pop, não havendo escapatória possível desta ode imensa de celebração do lado mais estratosférico da vida. Espero que aprecies a sugestão...

Hatcham Social - The Birthday Of The World

01. Bucket Of Blood
02. Wondrous Place
03. The Struggle That Keeps Us Together (Coming Of Age In The Milky Way)
04. Find A Way To Let In Your Sins (Hit Red Cut A Right)
05. Our Love Will Carry Us Through The Stars (Song For Joanna)
06. Hanging Rock
07. A New World Calling
08. Darling
09. Life In An Endless Love Song
10. Star Woman


autor stipe07 às 17:41
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