music will provide the light you cannot resist! ou o relato de quem vive uma nova luz na sua vida ao som de algumas das melhores bandas de rock alternativo do planeta!
Natural de Essex, na Inglaterra, Sam Duckworth tem cerca de três décadas de existência mas uma carreira musical já bastante cimentada. Aos dezoito anos decidiu que iria viver da música e adoptou para o seu projeto a solo o peculiar nome Get Cape. Wear Cape. Fly., retirado de um artigo da revista de jogos de vídeo ZX Spectrum. Pouco depois consegue um contrato com a Atlantic Records e em 2006 estreia-se nos discos com The Chronicles Of A Bohemian Teenager. Dois discos depois dessa estreia e de uma aventura a solo em 2011 (The Mannequin), regressou em 2012 com Maps, um trabalho que juntamente com o sucessor, London Royal, lançado dois anos depois, conseguiu cimentar uma posição de relevo junto da massa crítica que passou a acompanhá-lo com superior atenção.
Agora, em 2015, Sam volta a virar agulhas para o seu projeto em nome próprio, com Amazing Grace, onze narrativas emocionais onde o músico tenta criar, à boleia da Alcopop! e de cerca de quarenta músicos que participam em diferentes instantes do disco, a sua própria marca de indie alegre e extrovertida, mas também intensa e emocional, através das cordas de uma viola, quase sempre plena de luz e esplendor, com temas do calibre da animada e charmosa Only A Fool ou da boémia El Loco a demonstrarem a versatilidade deste compositor londrino e o bom gosto com que seleciona arranjos que conferem à sua música uma graciosidade e uma delicadeza incomuns. Basta escutar-se os violinos e o coro de vozes que decoram Property Pagesou o clamor que brota do dedilhar das cordas e das teclas de um teclado em Long Division, depois surpreendidos pelo sopro angustiado de um tímido trompete para se ter a perceção plena que estamos na presença de um registo discográfico com bases sólidas para não darmos por perdido o tempo que dispendermos a saborear um cardápio de canções que deveriam estar ao alcance do mais comum dos mortais e fazer parte das suas obrigações diárias, como receita eficaz para a preservação da integridade sentimental e espiritual de cada um de nós, duas das facetas que, conjugadas com a inteligência, nos distinguem dos outros animais.
Sam Duckworth coloca então a viola como principal veículo de diálogo com a sua voz, em canções que falam sobre o amor, a autoestima, a morte e a solidão, fazendo de Amazing Grace uma plena evolução relativamente a The Mannequin, mostrando-se mais intenso nas palavras e alargando a possibilidade no plano dos arranjos, invulgarmente deliciosos nos efeitos da guitarra e na percussão em Hiding Place, redefinindo, assim, as fundações de uma obra que faz já do seu autor, um dos nomes mais importantes da indie pop folk deste tempo, num disco ideal para se ouvirquandoo sol finalmentedecide ir dormir. Espero que aprecies a sugestão...
01. El Loco 02. Hiding Place 03. Only A Fool 04. As It Is 05. Get By 06. Long Division 07. Cities In The Sky / Defence 08. Geldermalsen Cargo 09. Property Pages 10. The Way You Said 11. High Achievers
Oriundos de Londres, os britânicos Amber Leaves são Chesney Jefferson, Sebastian Drayton, Jay Morrod, Jake Miliburn e Josh Pontin, um coletivo que me impressionou novamente, desta vez comLove Song, o segundo de uma sequência de três temas que o coletivo pretende lançar este ano, à boleia da Lost In The Manor e que irá ver a luz do dia a dezasseis de outubro.
Acordes de um baixo com um elevado cariz funk e uma indelével assinatura impressa com hip-hop e o rock de garagem presleyano feito com uma forte pitada de blues é o grande sustento de Love Song, canção efervescente e refrescante, que seduz e faz estremecer o nosso lado mais libidinoso. Estes Amber Leaves personificam num turbilhão de emoções que vivem em perfeita sintonia com o espírito de um projeto com uma vitalidade imparável e que vale a pena escutar com dedicação. Confere...
Editado a vinte três de abril pela Secretly Canadian, Dancing At The Blue Lagoon é o sucessor de Bigfoot (2012), o disco de estreia dos Cayucas, uma banda sedeada em Santa Mónica, na Califórnia e formada pelos gémeos Zach e Ben.
Produzido por Ryan Hadlock, Dancing At The Blue Lagooné um retrato feliz de uma Califórnia cheia de sol, praias e pessoas que vivem algo alienadas do mundo real, por mergulharem constantemente nas ondas salgadas de um pacífico que estableece pontes com uma costa oeste cheia de oportunidades e todo auqele conforto que o capitalismo pode foerecer, com Hollywood a ser, de certo modo, o expoente máximo deste modo de viver tão exuberante e frenético como Big Winter Jacket, a canção que nos abre a porta para Dancing At The Blue Lagoon.
Ao segundo disco, os irmãos Yudin resolvem construir o seu próprio filme que narra a infância vivida em Davis, nos arredores de Los Angeles, oferecendo-nos assim um disco verdadeiramente conceptual, com um alinhamento que nos oferece diferentes experiências e sensações que permanecem impressas com detalhe nas mentes dos autores. E os Cayucas fazem-no à boleia de uma sonoridade que se apoia em guitarras eletrificadas e que mesclam algumas das caraterísticas fundamentais do indie rock alternativo, com destaque evidente natural para a surf music, deslumbrante em Moony Eyed Walrus e colorida em Hella, mas que também não descura uma vertente acústica, audivel em Blue Lagoon (Theme Song). Mas as cordas não são só feitas com guitarras; Os violinos de mãos dadas com o piano em Ditches fazem deste tema um dos mais profundos e sentimentais de Dancing At The Blue Lagoon, uma balada intensa e emocionante, com todos os ingredientes que uma canção desse género exige para atingir os pressupostos habituais.
Todo o clima deste disco, expresso com relevo no próprio artwork, é uma experiência divertida e nostálgica de um mundo diferente do nosso, visto pelos olhos de uma dupla que certamente procura, através da música, fazer refletir aquela luz que não se dispersa e que ilumina as seuas memórias, sem serem demasiado complicados no momento de criar sons e melodias que revivem um passado feliz, fazendo-o com canções que fluem naturalmente e, em alguns momentos, transmissoras daquela felicidade incontrolável e contagiante que todos nós procuramos. Espero que aprecies a sugestão...
01. Big Winter Jacket 02. Moony Eyed Walrus 03. Hella 04. Champion 05. Ditches 06. Dancing At The Blue Lagoon 07. Backstroke 08. A Shadow In The Dark 09. Blue Lagoon (Theme Song)
Depois de ter lançado Smoke Ring For My Halo, no início de 2011 e Wakin On A Pretty Daze dois anos depois, Kurt Vile está de regresso comb’lieve i’m goin down…, álbum que viu a luz do dia a vinte e cinco de setembro por intermédio da Matador Records e já o sexto da carreira deste músico que descende da melhor escola indie rock norte americana, quer através da forma como canta, quer nos trilhos sónicos da guitarra elétrica.
Cantautor sempre intenso e profundo no modo como expôe os dilemas e as agruras da vida, comuns à maioria dos mortais, mas também as alegrias e as recompensas que a existência terrena nos pode proporcionar, Kurt Vile encontra-se aos trinta e cinco anos numa fase da sua carreira que reflete, de certo modo, o seu posicionamento posicional no mundo em que vive e vivemos, duas realidades diferentes, mas no seu caso paralelas, porque caminham a par e passo, não fosse este músico norte americano natural de Lansdowne, na Pensilvânea, profundamente autobiográfico e auto reflexivo, servindo-se da música que cria para expiar os seus pecados mas também para comungar com o ouvinte os prazeres que experimenta.
É assim a música de Vile, intensamente pessoal e rica em descrições quer da sua existência quer de outros alteregos que cria, geralmente para desafiar o destino a oferecer-lhe sonhos e anseios que não quer deixar de experimentar um dia, não só a boleia do banjo que o pai lhe ofereceu aos catorze anos, mas também da viola e da guitarra, outros fiéis companheiros nesta jornada única e sentimental, sobre a vida de um músico, mas também de uma américa cheia de encruzilhadas e dilemas.
b’lieve i’m going down, este extraordinário novo disco de Vile é, pois, um exercício de aceitação plena de um estado de consciência sobre uma vida em constante rebuliço, mas constante no modo como lida com os diferentes sentimentos e emoções, doze canções que mostram esse Kurt Vile reflexivo, mas também auto confiante. Pretty Pimpin, o primeiro single divulgado desse trabalho, realça, principalmente, o segundo aspeto referido, já que a canção mostra o músico embarcado numa viagem lisérgica, patente na instrumentação e numa letra que rompe com as propostas mais intimistas de discos antecessores, apresentando-o menos tímido e mais grandioso. E essa luminosidade não abandona quase nunca o registo, com I’m An Outlawa mostrar-nos como Vile lida com a sua constante necessidade de fuga aos padrões sociais e aos cânones pré estabelecidos, algo que todos nós desejamos muitas vezes fazer, mas nem sempre temos espírito e ousadia para avançar e com Dust Bunnies a fazer-nos embarcar numa incrível viagem ao rock psicadélico da década de setenta, mantendo-se o derrame de versos extensos e quase descritivos dos habituais acontecimentos quotidianos, sempre com um olhar para o mundo físico e não apenas para uma exposição das suas emoções intrínsecas.
Daí em diante não faltam momentos em que prevalece essa sensação nada abstrata, que mostra um músico que procura sempre deixar o seu ambiente para caminhar pelo mundo real, algo audível nas imensas passagens instrumentais, quase sempre feitas com o simples dedilhar de cordas, que pintam instantes que podem ser possíveis pontos de reflexão silenciosa, que todos experimentamos diariamente e que nos dizem muitas vezes bastante mais e de modo superiormente sábio, do que conversas de circunstância com quem nos é próximo mas tem apenas um conhecimento circunstancial e superficial do nosso âmago. Lindíssimas baladas como Stand Inside ouLost My Head Tere, mas também o experimentalismo patente em Life Like This e as variações percussivas e os acordes deambulantes que empoeiram Wheelhouse, manifestam instrumentalmente estas experiências de vida sincera, que também precisa de ser uma jornada espiritual, para ser apreciada e saboreada em plenitude.
Demanda temática sobre um só ser que pode conjugar em si a esmagora maioria dos seres deste mundos, já que é profundamente genuíno no modo como expõe as principais virtudes e fragilidades da condição humana, b’lieve i’m goin down… discute melancolicamente sobre o amor, a saudade e outras futilidades diárias, à sombra de narrativas criadas por um músico que prova so sexto disco ser capaz de observar o tempo passar e de ser capaz de descrever cada mínimo aspecto sobre ele, à boleia das cordas,pelo menos durante mais trinta e cinco anos.
Kurt Vile estará em Lisboa a vinte e quatro de novembro, onde irá apresentar em nome próprio o novo álbum. A atuação está marcada para o Armazém F e a primeira parte está a cargo de Waxahatchee. Espero que aprecies a sugestão...
01. Pretty Pimpin 02. I’m An Outlaw 03. Dust Bunnies 04. That’s Life, Tho (Almost Hate To Say) 05. Wheelhouse 06. Life Like This 07. All In A Daze Work 08. Lost My Head there 09. Stand Inside 10. Bad Omens 11. Kidding Around 12. Wild Imagination
Os Broken Bells de Danger Mouse e James Mercer, vocalista dos The Shins, estão de regresso aos lançamentos com It’s That Talk Again, a primeira música divulgada pela desde o lançamento de After The Disco, o ultimo disco do grupo, lançado em 2014.
Este tema surge quase em simultâneo com o filme Broken Bells: Live At The Orpheum, sendo uma canção cheia de harmonias subtis embrulhadas na voz efusiva de Mercer e com uma forte toada pop, proporcionada por uma batida cheia de groove e que clama pelas pistas de dança. Confere...
Oriundo de Bellmore, em Nova Iorque, Brian Sendrowitz é o grande mentor do projeto Beat Radio, algumas vezes referido neste blogue, mas desta vez ele está de regresso com um outro intitulado Sleepy Crash, onde colabora com Tim Lannen dos The Diggs, à boleia da Awkward For Life Records.
Sleepy Crash, um pequeno EP com dois temas, é uma singela coleção irrepreensível de sons inteligentes e solidamente construídos, que nos emergem num ambiente melancólico e sedutor, capaz de nos fazer acreditar que a música pode ser realmente um veículo para o encontro do bem e da felicidade coletivas. PWTB, a primeira canção, tem algo de fresco e hipnótico, uma pop com um pendor eletrónico simples, bonito e dançável, nem que o façamos no nosso íntimo e para nós mesmos. Os sintetizadores têm um tempero muito particular e sustentam a base melódica e sabem como dar o tempero ideal à composição, dando-lhe que, com frequência, duvidam delas próprias sem saberem se querem avançar para uma sonoridade futurista, ou se preferem viver na firme intenção de ficarem a levitar na pop dos anos oitenta. Depois, em Name Every Storm, a densidade um pouco lo fi e shoegaze, confere aquele encanto retro e relaxante e amplia a atmosfera de brilho e cor em movimento que sustenta esta obra, que parece querer exaltar, acima de tudo, o lado bom da existência humana.
Sem deixar de evocar um certo experimentalismo típico de quem procura, através da música, fazer refletir aquela luz que não se dispersa, mas antes se refrata para inundar os corações mais carentes daquela luminosidade que transmite energia, estas canções carecem de cantos escuros e projetam a Sleepy Crash inúmeras possibilidades sobre o seu futuro discográfico próximo. Espero que aprecies a sugestão...
Say Hi é Eric Elbogen, um músico norte americano natural de Seattle e que faz música desde 2002. O seu disco mais recente tem o sugestivo nome de Bleeders Digest, um trabalho que chegou aos escaparates pela mão da Barsuk Records e o nono na carreira de um artista que é capaz de, em poucos segundos, viajar do rock mais selvagem até à indie pop de cariz experimental e sempre com um ambiente sonoro certamente movido a muita testosterona.
Bleeders Digest sucede a Endless Wonder, um álbum editado o ano passado e marca mais um capítulo numa saga fictional onde cada tomo se debruça sobre uma temática precisa, com os vampiros a serem, desta vez, o mote de onze canções onde não falta uma mescla de eletropop com sonoridades hard rock, o rock setentista, o rock de garagem e o blues. Se temas como The Grass Is Always Greener e Creatures Of The Night, o single já retirado do disco, assentam num sintetizador melodicamente assertivo e numa percussão convincente, além de guitarras plenas de groove e distorção, já Teeth Only For You abranda um pouco o clima, mas não o ritmo, já que a receita mantém-se, mas numa toada mais nostálgica e épica.
Se o disco merece audição atenta pelo seu todo, a diversidade plasmada nesses três exemplos acentua a justeza da necessidade de este músico obter, finalmente, um reconhecimento verdadeiro e um estatuto forte no universo sonoro alternativo. Aliás, o modo convincente como em Transylvania (Torrents Of Rain, Yeah) e Pirates Of The Cities, Pirates Of The Suburbs, Say Hi serve-se da grandiosidade das guitarras e de variações ritmícas e melódicas constantes, enquanto se debruça a fundo no universo sobrenatural e menos empírico dos vampiros, além de carimbar a enorme dose de criatividade que nele habita, sugere que este autor busca sempre novas nuances para o seu cardápio, curiosamente dentro de um som mais experimental e que não parece ter sido planeado para as rádios e os estádios, mas que tem, quanto a mim, potencial para um elevado airplay.
Até ao ocaso de Bleeders Digest, a imensa soul que desliza pelo piano arrebatador e pelos detalhes sintéticos de Galaxies Will Be Born e a monumentalidade instrumental de Volcanoes Erupt, que desliza até ao krautrock, são outros pontos de paragem obrigatória numa viagem única de fusão entre elementos particulares intrínsecos ao que de melhor ficou dos primórdios da pop, nos anos cinquenta, com o rock mais épico da década de oitenta e algumas das caraterísticas que definem o adn da eletropop atual.
Indubitavelmente, Say Hi domina a fórmula correta, feita com guitarras energéticas, uma sintetizador indomável, efeitos subtis e melodias cativantes, para presentear quem o quiser ouvir com canções alegres, aditivas, profundas e luminosas. O disco também se torna viciante devido a uma voz que, ao longo do trabalho, preenche verdadeiras pinturas sonoras que se colam facilmente aos nossos ouvidos e que nos obrigam a mover certas partes do nosso corpo. Espero que aprecies a sugestão...
01. The Grass Is Always Greener 02. It’s A Hunger 03. Creatures Of The Night 04. Transylvania (Torrents Of Rain, Yeah) 05. Lover’s Lane (Smitten With Doom) 06. Teeth Only For You 07. Time Travel Part Two 08. Pirates Of The Cities, Pirates Of The Suburbs 09. Galaxies Will Be Born 10. Volcanoes Erupt 11. Cobblestones
Natural de Londres, o britânico Sean Taylor editou a quinze de junho The Only Good Addiction Is Love, um disco gravado nos estúdios Congress House em Austin. Produzido por Mark Hallman (Carole King, Ani Di Franco), o álbum conta com a participação especial de lendário baixista Danny Thompson, que também costuma acompanhar Taylor nas suas digressões.
Muitas vezes as conexões que se estabelecem entre o escritor de canções e o seu próprio coração quando se encontra apaixonado, revelam-se para o próprio com maior clareza quando o mesmo se predispôe a revelar aos outros o seu estado de alma, em vez de, por exemplo, se debruçar, liricamente, sobre uma situação depressiva ou de quebra e término de uma relação amorosa. Depois de nos discos anteriores este músico se ter debruçado sobre a sua vida em Londres e as dificuldades de um trovador, The Only Good Addiciton Is Loveé um compêndio de canções inspiradas ainda no próprio autor e, obviamente com um conteúdo autobiográfico, mas que serve para Taylor perceber melhor os seus sentimentos num instante paticularmente feliz da sua vida pessoal e também para o próprio se revelar um pouco mais aos outros, utlizando a música como veículo privilegiado para essa exposição e para opinar acerca do amor, considerando-o o melhor sentimento que se pode apoderar de cada um de nós.
Inspirado numa frase do presidente do Uruguay, José Mujica que doou uma elevada percentagem do seu salário para instituições de caridade e que se recusava a viver no palácio presidencial, preferindo a pacatez da sua quinta e a companhia da sua esposa e de três cães, o título deste disco é, então, uma chamada de atenção para todos nós, sugerida por um excelente guitarrista que se serve da viola acústica e do esplendor das cordas para a criação de um ambiente sonoro emotivo e honesto.
Mas as inspirações de Taylor para este disco não se ficam apenas por Mujica, já que todo ele é um compêndio de referências a artistas que têm tocado no âmago do autor e ensinado o músico a ver o amor de várias perspetivas. O ambiente nublado e contemplativo da belíssima Rothko é uma homenagem sincera ao pintor abstracto expressionista Mark Rothko que cria formas ambientais que são verdadeiros hinos ao conceito de beleza e o instrumental Lorca refere-se, naturalmente, ao espanhol Federico Garcia Lorca, o poeta preferido deste músico e que, de acordo com o proprio, o inspirou a escrever algumas dezenas de canções logo após a primeira vez que leu algo dele. Depois, a calorosa e enleante Tienes Mi Alma En Tus Manos, canção que conta com alguns arranjos de violinos e de piano assombrosos, tem o seu título inspirado num trecho de The Power of Dog, um romance algo violento mas pleno de humanidade, da autoria de Don Wislow. O minimalismo acústico e percussivo mas intensamente melódico de Desolation Angels refere-se a um romance com o mesmo nome de Jack Kerouac, onde o protagonista foge das tentações da grande cidade para se refugiar numa floresta e, serenamente, sem constrangimentos, criar aquilo que considera ser a sua obra de arte perfeita e, finalmente, a contemplativa Les Rouges Et Les Noirs, inspira-se numa pintura da autoria de Paul Klee, um artista plástico multifacetado e que aborda diferentes movimentos nas suas obras.
Músico com um lado muito humano e que faz questão de se mostrar próximo de nós e de partilhar connosco as coisas boas e menos boas que a vida lhe vai proporcionando e, com essa abertura, faz-nos, quase sem darmos por isso, retribuir do mesmo modo, Sean Taylor é um cantautor que nunca perdeu o espírito nostálgico e sentimental que carateriza a sua escrita e composição. Na verdade, ele demonstra em The Only Good Addiction Is Love uma superior capacidade para suscitar sensações concretas no nosso íntimo, através de um estilo inconfundível no modo como dá a primazia às cordas, sem descurar o brilho dos restantes protagonistas sonoros e sem se envergonhar de colocar a sua belíssima voz na primeira linha dos principais fatores que tornam a sua música tão tocante e inspiradora. Espero que aprecies a sugestão...
01. The Only Good Addiction Is Love 02. Bad Light 03. Rothko 04. Lorca 05. Tienes Mi Alma En Tus Manos 06. Flesh And Mind 07. We Can Burn 08. MOMA 09. Desolation Angels 10. Les Rouges Et Les Noirs 11. The White Birds (WB Yeats)
Editado no passado dia vinte e quatro de julho com a chancela da Roll Call Records, And The Wave Has Two Sides é o novo registo de originais dos ON AN ON, um trio norte americano de Minneapolis formado por Nate Eiesland, Alissa Ricci e Ryne Estwing, três antigos membros dos Scattered Trees. Gravado em Los Angeles com o produtor Joe Chiccarelli (Spoon, The White Stripes, My Morning Jacket) depois de uma longa mas bem sucedida digressão, este disco, o terceiro da carreira do grupo, sucede ao aclamado Give In, editado em 2013 e na altura dissecado por cá.
Com um percurso discográfico e sonoro já consolidado e amplamento reconhecido, os ON AN ON sobrevivem à luz de um indie rock que se mistura, muitas vezes, com uma pop eletrónica de forte cariz ambiental, feita com uma míriade imensa de instrumentos e elaboradas cenografias sonoras, que transcendem as noções de género e fronteira, sem nunca se perder de vista a ideia da canção.
And The Wave Has Two Sides não foge à regra no modo como utiliza os sintetizadores, mas também o baixo e a guitarra, para criar telas sonoras que muitas vezes explodem como fogos de artifício, como se percebe em Behind The Gun, mas sem nunca descurar uma forte toada nostálgica e sentimentalmentme impressiva. Já Icon Love é uma viagem letárgica fortemente intimista que obedece a este paradigma, sendo-nos oferecida por todo o arquétipo instrumental acima referenciado e por uma harmonia vocal eloquente e que amplia o brilho da canção. Logo nesta composição percebe-se que o registo vocal de Nate está mais apurado e imbuído com uma aúrea de encantamento superior, sendo depois, no restante alinhamento, um elemento essencial para ampliar o contraste e acrescentar novas cores aos temas dos ON AN ON, que são, quase todos, muito cativantes.
Canções como Alright Alright ou Drifting são dois festins inebriantes de cor e luz reluzente e inspiradora, temas com uma forte vertente épica, emotiva e grandiosa. Algo divergentes em termos estruturais, com o primeiro exemplo a sustentar-se num efeito de guitarra grandioso e o segundo num dedilhar de cordas acústico absolutamente sedutor, convergem, no entanto, no rigor hipnótico com que se servem de um filtro de texturas saturadas para, à boleia de arranjos bem conseguidos e uma riqueza compositória claramente intuita e cerebral, nos oferecerem sensações fortemente melancólicas e que se desbravam num misto de euforia e contemplação, à medida que os diferentes efeitos vão-se revezando na linha da frente da estrutura melódica das composições e comfirmando a sua espantosa solidez. Mesmo as linhas de guitarra mais agrestes de Wait For The Kill ou as variações ritmícas que o baixo e a bateria definem em You Were So Scared, de mãos dadas com um efeito de guitarra curioso, exalam um intimismo romântico bastante peculiar, além de serem excelentes exemplos do que melhor se vai ouvindo no indie rock atual, aprimorando eficazmente a atmosfera sonora de um grupo com uma direção sonora que às vezes parece recuar duas décadas, no modo como cruza sintetizadores e vozes, com cordas e percussão, sempre com uma forte toada nostálgica e contemplativa.
Simples e intrigante, fortemente hermético e fechado num casulo muito próprio,And The Wave Has Two Sides está revestido com uma sonoridade que exige particular dedicação, mas que recompensa quem se atrever a tentar descobrir os seus recantos mais profundos e a procurar desbravar os territórios sonoros queeste disco decalca. Espero que aprecies a sugestão...
01. Behind The Gun 02. Icon Love 03. Alright Alright 04. I Can’t Escape It 05. It’s Not Over 06. Drifting 07. Wait For The Kill 08. Stay The Same 09. You Were So Scared 10. Secret Drone 11. Synth Interlude 12. All At Once
Oriundos de Malmö, na Suécia, os Summer Heart são um projeto encabeçado por David Alexander, ao qual se junta Frederick RQ e que aposta numa sonoridade com uuma elevada componente lo fi e com aquele espírito tipicamente nórdico, com imensos traços que cruzam pop e psicadelia, com uma tonalidade muito própria, plena de reverb, mas que não ofusca o espíirito claramente juvenil de canções que contêm uma luminosidade muito própria.
O conceito de intensidade, neste caso nas guitarras e na percussão, mas também nos efeitos sintetizados, é transversal às cinco canções de um EP que exalta a melancolia, fazendo-o à boleia de melodias capazes de vergar o coração mais empedernido e às quais é impossível resistir. The Cross é um excelente exemplo da capacidade inebriante que os Summer Heart têm de nos convidar a darmos as mãos e fazermos uma roda em seu redor, enquanto dançamos ao som de uma canção que brilha no modo como palpita, guiada por ma guitarra que parece ter vida própria e que em determinados instantes até nem receia ousar. Depois, e tomando como exemplo a notável e festiva Beat Of your Heart, tema que pisca o olho a um certo travo psicadélico, ficamos impressionados pelo modo harmonioso como os Summer Heart conseguem eletrificar a guitarra e, num clima mais rock, abraçando esse salutar experimentalismo ainda com maior convicção, não resvalarem nunca para exageros desnecessários, conseguindo assim manter intato um precioso charme genuíno e provando que estamos na presença de uma banda criadora de belos instantes sonoros, que, apesar do constante reverb, se estendem pelos nossos ouvidos sem a mínima sensação de desconforto.
O que não falta neste disco são canções competentes na forma como abarcam diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e que dão expressão a letras que exaltam o lado mais festivo da existência humana. Além dos exemplos já referidos, quando em Sleep os Summer Heart se servem da combinação da guitarra com outros sons e detalhes sintetizados, nunca roubam às cordas o merecido protagonismo, com esta canção a ser capaz de nos fazer refletir, com um romantismo e uma cândura que nos confrontam com a nossa natureza, uma sensação curiosa e reconfortante que transforma-se numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia.
Talvez seja do clima sueco, ou do frio polar que obriga a que mentes que viajam constantemente entre a ressaca e um estado mais ébrio, tenham de se aquecer de qualquer forma, a verdade é que estes Summer Heart conseguem esse efeito reconfortante através da sua música, sem dúvida uma excelente porta de entrada para um mundo mais confortável e acolhedor. Espero que aprecies a sugestão...
01. Sleep 02. Thinkin Of U 03. The Cross 04. Beat Of Your Heart 05. U Got All I’m Looking 4
Depois de uma parceria com os Major Lazer no tema Be Together, a dupla norte americana Wild Belle de Natalie Bergman e Elliot Bergman, acaba de apresentar Giving Up On You, o primeiro single daquele que será o segundo álbum do projeto. Esse trabalho, ainda sem data prevista de lançamento, irá suceder a Isles, uma estreia em grande da dupla, que continha canções como Another Girl e Keep You.
Giving Up On You tem tudo aquilo que define aquela pop irrequieta e inspirada na sonoridade retro dos anos oitenta, através de uma bateria eletrónica inquieta, guitarras eficientes, palmas e saxofones. Realce também para o modo airoso como Natalie repete o verso I’m giving up on you na canção, como se fosse particularmente experimentada na saída airosa de relacionamentos difíceis. Confere...
Christian Chidester, Jordan Hicks, Keon Masters, Steven Walker, Wolfgang Zimmerman são os Brave Baby, um coletivo norte americano oriundo de Charleston, que se estreou nos lançamentos discográficos em 2012 comForty Bells, um disco que viu a luz do dia à boleia da etiqueta local Hearts and Plugs e que foi produzido pelo próprio Zimmerman, o baterista da banda. Agora, três anos depois, chegou finalmente o sucessor, abrigado pela mesma editora, um trabalho intitulado Electric Friends e que em onze canções nos oferece um indie rock caleidoscópico, atravessado por um feixe multicolorido de sensações e sabores sonoros, uma verdadeira odisseia heterogénea e multicultural oferecida por um projeto visionário que encarna e explora habituais referências dentro de um universo sonoro muito peculiar e que aposta na fusão de rock, com a pop, a psicadelia e um certo funk algo jazzistico, de uma forma direta, mas também marcadamente experimental.
É evidente a sensação de prazer que qualquer apreciador profundo de um espetro musical mais lisérgico sente ao escutar os loopings e espirais que adornam Daisy Child, as guitarras que debitam distorções intensas e inebriantes, um baixo eloquente e uma voz dose que extravasa uma intensa sensação de empatia e simpatia connosco e ainda mais recompensador se torna depois, perceber que estas são permissas essenciais que identificam e tipificam o som específico destes Brave Baby. Em Find You Out está lá, de novo, o esplendor das cordas, com o baixo ainda mais imponente, mas agora firmado por sopros e por outros recursos sonoros de cariz geralmente sintético, que exprimem um modo curioso e bastante criativo averca de como a banda olha para as tendências atuais e faz uma mescla com o período aúreo do rock experimental, de plena década de setenta do século passado, de modo a conseguir um resultado final bem aceite pelo público. Mesmo quando em Ancients o clima épico e ancestral da canção é sustentado por uma camada instrumental rugosa e uma bateria frenética ou em Atlantean Dreams, a opção inicial passa pelo hipnotismo sintético do efeito fabuloso que introduz um tema que depois inflete para uma exuberância jazzística, algo clássica até, onde não faltam efeitos percussivos de metais e teclas de piano flamejantes, existe sempre a busca consciente e bem sucedida de apresentar detalhes que encarnem uma ligação estreita entre a psicadelia e o rock progressivo, através de um sentido épico pouco comum e com resultados práticos que, como se percebe, são realmente ricos e extraordinários.
Mas são outros mais e imensos os exemplos do modo como os Brave Baby em vez de se fecharem no seu próprio casulo, parecem estar muito atentos à realidade atual, enquanto se mostram particularmente inspirados e num elevado nível qualitativo na visão caleidoscópica que plasmam emElectric Friends do indie rock atual. O som de fundo orquestralmente rico que dá vida à alegoria funk popLarry On The Weekend, um tema que não receia abusar dos detalhes eletrónicos e dos detalhes metálicos é outro sinal claro desse avanço, que a riqueza dos arranjos sombrios das cordas vintage de Be Alright, ou o clima descontraído da viola que deambula por Hare Krishna evidenciam.
Num álbum heterógeneo onde se cruzam diversos espetros sonoros com impressionante bom gosto e onde um certo caos, sempre controlado e claramente ponderado, rico, exuberante e impecavelmente produzido, os Brave Baby oferecem-nos onze canções que explodem num forte sinal de esperança e de renascimento, sementes que vão provavelmente conquistar para o grupo novos públicos. Espero que aprecies a sugestão...
01. Daisy Child 02. Find You Out 03. Plastic Skateboard 04. Octopus J 05. Atlantean Dreams 06. Be Alright 07. Electric Friends 08. Ancients 09. Larry On The Weekend 10. Hare Krishna 11. Call It
Enquanto não chegam novidades acerca de um novo disco, os canadianos Arcade Fire preparam-se para o lançamento de The Reflektor Tapes, um documentário que irá chegar às salas de cinema e que, conforme o título indica, debruça-se sobre a última digressão da banda, após a edição de Reflektor, o último álbum do grupo.
Mas antes do documentário ver a luz do dia, a banda anunciou um vinil de sete polegadas, com dois temas inéditos,Get Right e Crucified Again. Acaba por ser uma versão final, de estúdio, de duas canções que a banda tocou durante essa digressão e que podes obter digitalmente, ou na edição em vinil, a partir da próxima sexta-feira.
Depois do Walter Benjamin, o Luis Nunes resolveu ser só Benjamim, escrever em português, montar arraiais na pacatez de Alvito, deixando Londres para trás e nessa linda vila alentejana montou um estúdio de gravação, por onde têm passado alguns músicos e projetos nacionais que têm merecido amplo destaque por cá, neste espaço de crítica e divulgação sonora.
Benjamim também abriu as hostilidades em relação à sua nova carreira a solo e Auto Rádio surge como o primeiro passo de um percurso cheio de anseios e expectativas e que até já resultou numa espécie de Volta a Portugal, materializada numa sequência de concertos de norte a sul do nosso país, durante trinta e três dias seguidos e que, nas palavras do próprio Benjamim, foi a digressão mais extensa e intensa que já aconteceu em Portugal, tendo passado por festas populares, associações culturais, festivais, bares, esplanadas, no meio da rua, num castelo, coretos e tabernas onde Benjamin tocou para todos os tipos de público que se pode encontrar. Gonçalo Pôla, amigo do músico, encarregou-se do registo foto-videográfico desta empreitada e elaborou um diário de estrada, um documento visual e sonoro precioso, não só para a percepção mais nítida do conteúdo musical e conceptual de Auto Rádio, mas também como documento de estudo de uma outra realidade muitas vezes ignorada do universo dos concertos no nosso país e de como é possível conceber espectáculos de música nos locais mais inusitados.
Antes de olhar com algum cuidado para o alinhamento de Auto Rádio é interessante elucidar acerca das motivações e das fontes de inspiração de doze canções que misturam rock, folk e a indie pop de cariz mais experimental. De facto, Auto Rádio debruça-se sobre as memórias que Benjamim guarda de relatos que o seu pai fazia do tempo que passou em Angola, de onde veio após a revolução dos cravos e, mais recenteemnte, de algumas histórias que Quinito, um amigo alentejano de Benjamim, lhe confidenciou, dos tempos que passou na Guiné, onde esteve destacado como militar no tempo da guerra colonial. Depois, a crise, relatos sobre a Invicta de onde a mãe é natural, o amor e carros a acelerar pela marginal de uma qualquer cidade são também ideias expostas com enorme bom gosto, uma ímpar sensibilidade e um intenso charme que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um inconfundivel sentimento de qualidade, ainda maior pela peça em si que este disco representa, principalmente para o autor.
Benjamim confessa que as suas influências vão do Duo Ouro Negro à Lena d'Água, passando pelos Beatles, os Beach Boys e Bob Dylan. Influências à parte, confesso que o que mais me agradou na audição de Auto Rádio foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Na verdade, temas como Eu Quero Ser o Que Tu Quiserese Do Céu e da Terra, estão cobertas por uma aúrea de sensibilidade e fragilidade romântica indisfarçáveis e depois, o bom gosto dos arranjos de cordas de O Quinito foi para a Guiné e a criatividade ímpar de Metereologia, explicam-se devido aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que a canção toma e nas sensações que transmite.
Disco extraordinariamente jovial, que seduz pela forma genuína e simples como retrata eventos e relacionamentos de um quotidiano rotineiro, Auto Rádioestá imbuído de uma enorme beleza melódica e estilística. É um documento que se escuta com enorme fluidez, onde existe um encadeamento claro entre os vários temas e uma noção de sequencialidade única, mesmo aqueles que parecem opostos no conceito e na ideia que procuram aflorar. Variado, portanto, nas temáticas que aborda, leva-nos à mesma, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa espécie de indie-folk-surf-suburbano, feito por um dos mestres nacionais de um estilo sonoro com nuances e características muito particulares. Confere a entrevista que Benjamim concedeu a Man On The Moon e espero que aprecies a sugestão...
Eu Quero Ser O Que Tu Quiseres
Tarrafal
Sintoniza
Os Teus Passos
O Quinito Foi Para A Guiné
O Sangue
Meteorologia
Volkswagen
Rosie
Do Céu E Da Terra
Auto Rádio
O Exílio
Depois do Walter Benjamin, o Luis Nunes resolveu ser só Benjamim, escrever em português, montar arraiais na pacatez de Alvito, deixando Londres para trás e nessa linda vila alentejana montar um estúdio de gravação, por onde têm passado alguns músicos e projetos nacionais que também tenho destacado no meu blogue e que falam sempre muito bem do tempo que passaram aí contigo. Agora, com uma banda, chegou a vez de olhares para a tua própria carreira e Auto Rádio surge como o primeiro passo de um percurso para o qual já criaste algum tipo de anseios e expetativas?
O primeiro passo surgiu em Dezembro com a morte do Walter Benjamin. Tinha de me libertar das amarras de um projecto que tinha há muito tempo e que, com o tempo, foi deixando progressivamente de fazer sentido, principalmente nesta fase em que voltei a morar em Portugal. As expectativas eram muitas mas mais no sentido dos desafios que toda esta mudança iria despertar, do que em termos de recompensa.
Antes de olharmos para o conteúdo de Auto Rádio deixa-me perguntar-te… Porque resolveste fazer uma espécie de Volta a Portugal, materializada numa sequência de concertos de norte a sul do nosso país, durante trinta e três dias seguidos?
Por muitas razões. Em primeiro lugar queria levar a música às pessoas, aproveitando agora o facto da mensagem das canções ser muito mais directa por causa da proximidade da língua, em segundo lugar queria aprender a cantar estas canções e habituar-me à mudança de língua, queria ser confrontado com todos os meus medos de frente – mudar de inglês para português é bem mais difícil do que parece. Por último, queria fazer algo que nunca tivesse sido feito e poder começar esta nova fase da minha vida com força e perceber como é que as pessoas reagiam às canções, independentemente do contexto. Ainda não conheci ninguém que se lembre de uma tour tão extensa e intensa em Portugal. Tocámos em festas populares, associações culturais, festivais, bares, esplanadas, no meio da rua, num castelo, coretos e tabernas para todos os tipos de público que se pode encontrar. Foi a viagem mais fixe que fiz com amigos – poder aliar a música a isso é um privilégio.
E como surgiu a ideia da presença do fotógrafo Gonçalo Pôla, que tem a cargo o registo foto-videográfico da empreitada e a elaboração de uma espécie de diário de estrada, que podemos acompanhar numa página da internet?
O Gonçalo é a pessoa que acompanhou este projecto mais de perto desde o início, foi a pessoa com quem mais desabafei acerca de todo este processo, algo que não foi mesmo nada fácil. Também foi ele que fez o vídeo de “Os teus passos” e foi juntos que começámos a imaginar a Volta a Portugal em Auto Rádio. Eu e o Gonçalo temos vários projectos sonhados que queremos concretizar, um deles é fazer um filme e isso tornou a presença dele absolutamente obrigatória nesta aventura toda.
Olhando então para o disco… De memórias remotas do Portugal colonial, que te chegaram aos ouvidos pelo teu pai, que regressou à metrópole em 1974 e por filmes super 8 que ele trouxe na bagagem, seja pelas histórias de um amigo teu alentejano chamado Quinito, que lutou na Guiné, ou as paisagens de Portugal, do Porto e até o amor, é imenso e intenso o ideário lírico e sonoro de Auto Rádio. É simples esta opção pouco ficcional e quase autobiográfica de escreveres sobre aquilo que te rodeia, em vez de inventares, na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais nunca terás à partida de te comprometer?
Eu gosto de inventar histórias aldrabando as minhas. Acho que nunca é simples escrever, seja sobre uma pessoa que conheces ou sobre o teu carro, mas eu acabo sempre por me comprometer com as personagens das minhas canções. Como é que alguma vez poderia agora vender o meu carro? Não dá, já está no coração.
Achei curiosas algumas das influências sonoras que referes, nomeadamente nas redes sociais, que vão do Duo Ouro Negro à Lena d'Água, passando pelos Beatles, os Beach Boys e Bob Dylan. Influências à parte, confesso que o que mais me agradou na audição de Auto Rádio foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, aquilo que idealizaste para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final, ou houve alterações de fundo ao longo do processo?
Eu queria um disco absolutamente bipolar, isto sou eu a voltar ao zero, a reaprender a escrever canções e a experimentar com todos os sons que tinha à mão. Mudei a minha vida toda e construí o meu estúdio só para poder fazer isso. Claro que a cada dia que passou as coisas mudaram, essa é a parte mais entusiasmante de fazer um disco – é uma viagem em que o caminho nunca é muito claro, apesar de o destino já estar traçado pelas canções.
Além de ter apreciado a riqueza instrumental, o encadeamento e a sequencialidade entre as músicas e também a criatividade com que selecionaste os arranjos, gostei particularmente do cenário melódico destas tuas novas canções, que achei particularmente bonito. Em que te inspiraste para criar as melodias?
Acho que me deixei ir, quis fazer canções pop que é o que gosto de fazer. Inspirei-me em milhares de coisas diferentes, desde histórias a discos que ouço. Acho que a história acaba por influenciar as melodias, a música tem que bater certo com o que dizes senão ninguém acredita.
Auto Rádio foi produzido por ti. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição tua? E porque a tomaste?
Bem, eu sou produtor de outros discos e produzir é uma coisa que eu adoro fazer, apesar de nem sempre ser fácil estar a cantar e a produzir o mesmo disco. Mas este foi um disco mesmo difícil de deitar para fora, houve muita resistência à mudança por parte das pessoas que normalmente acompanhavam o Walter e as ideias que andavam na minha cabeça tinham que ser executadas exactamente de acordo com aquilo que eu imaginava. Para isso tive de tomar as rédeas do projecto com pulso de ferro e muita determinação, a certa altura deixei de mostrar as canções e comecei a ignorar por completo as opiniões de quase toda a gente. Senti que se caso eu fosse contra uma parede, então seria de acordo com as minhas convicções claras, sem pedir a culpa emprestada. Isso também era fundamental para o início desta fase, queria lançar uma semente que era minha para no futuro poder construir a partir daí. Dito isto, tive toda a ajuda de toda a gente, mesmo dos mais cépticos. É absolutamente normal um processo deste tipo gerar controvérsia e só assim é que é fundamental criar. O António Vasconcelos Dias, que toca comigo, foi um braço direito fundamental no que toca à produção, não só pela ajuda mas como por ter acreditado e dado uma força enorme. Bem como o Gonçalo e o Nuno Lucas. O Joca (João Correia, bateria) estava mais desconfiado e é por isso que eu o adoro, obrigou-me a provar-me a mim próprio o tempo todo. Ele é um músico do outro mundo e a opinião dele não dá para ignorar, ainda para mais é como um irmão e é absolutamente sincero com tudo.
Confesso que fiquei particularmente surpreso com a simplicidade do artwork de Auto Rádio, que, pelos vistos, mostra o Volkswagen referido no oitavo tema do disco. Como surgiu a ideia e a oportunidade de contar com o João Paulo Feliciano, da Pacata Discos na conceção do artwork?
Bem, o João Paulo é o líder da Pataca Discos e se alguém percebe de artwork é ele. Portanto a ideia e a oportunidade eram as coisas mais naturais do mundo. Havia outra ideia para capa que foi discutida com alguma paixão mas que ficou pelo caminho. Confesso que gosto de estar numa editora em que se discute porque as coisas são feitas com sangue, todos nós damos tudo para que as coisas fiquem de acordo com o que acreditamos. É uma editora de carolas e isso vale tudo no mundo, é cinematográfico. O João Paulo é um grande amigo há muitos anos e é uma honra poder tê-lo como editor e poder contar com a mão dele para o artwork. Como não?
Por falar em Pacata Discos, esta editora é a casa de alguns dos nomes fundamentais do universo sonoro musical nacional. É importante para ti pertencer a esta família que vai do jazz, ao fado, passando pela pop, o indie rock e a eletrónica?
Claro. Somos uma família bem alargada. Eu adoro poder ter amigos e colegas tão talentosos com quem tanto aprendo e que têm sempre disponibilidade em ajudar com o seu talento infinito. Isto para além de que estares num catálogo forte é importante e sinto que foi algo que fomos construindo juntos.
Adoro a canção O Quinito Foi Para A Guiné. Aliás, quando estiveres novamente com ele por aí, conta-lhe que o autor deste blogue lhe agradece particularmente pelo modo como te inspirou nesta música. E tu, tens um tema preferido em Auto Rádio?
Vou dizer-lhe, ele vai ficar vaidoso. Vai mudando mas durante muito tempo foi a Volkswagen. É um bocado como escolher o filho preferido, é difícil e ainda não tenho distância suficiente.
Para terminar, o que te move é apenas esta espécie de mistura entre rock, folk e a indie pop experimental, ou gostarias ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico do Benjamim?
Eu gosto de não ter preconceitos em relação à música. Durante muito tempo fui posto na prateleira da folk por causa de um disco do Walter Benjamin e se há coisa que eu pretendo é fazer uma quantidade enorme de discos diferentes. Eu quero experimentar tudo.
Obrigado pela entrevista e, principalmente, pela tua música!
Depois de me ter debruçado em 2011 no EP Canopy e o ano passado no álbum Forever, estou de regresso aos Painted Palms para divulgar Horizons, o mais recente trabalho desta banda norte americana, natural de São Francisco, formada pelos primos Chris Prudhomme e Reese Donohue. Editado no passado dia quatro de setembro pela Polyvinyl Records, Horizons foi misturado por Eric Broucek, engenheiro da DFA. Refiro-me a um trabalho que da pop psicadélica de há cinco décadas atrás, passando pela eletrónica de final do século passado, é um disco excitante e multifacetado, um trabalho que procura meditar sobre as constantes mudanças que a sociedade contemporânea nos exige e como muitas vezes parece não ter fim esta busca constante, levada a cabo por todos aqueles que vivem insatisfeitos porque querem sempre mais e melhor.
Há algo na música destes Painted Palms que nos deixa num constante sobreaviso, uma espécie de eminência de perigo, um pessimismo incontrolável mas, ao mesmo tempo e como se isso fosse possível, de alguma forma sedutor. A eletrónica madura e encorpada de Disintegrate, talvez o destaque maior de horizons, permite-nos fazer uma ponte assertiva entre a pop ambiental contemporânea e o art-rock clássico, numa epopeia de quatro minuos e meio onde se acumula um amplo referencial de elementos típicos desses dois universos sonoros e que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica e até, diria eu, objetivamente sensual. E a verdade é que ao longo de Horizons abunda a sobreposição de texturas, sopros e composições jazzísticas contemplativas, uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades, um refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual.
Escuta-se a forte comoção latente de Waterfalle antes, logo no início, o punk blues enérgico e libertário de Contact, a insanidade desconstrutiva em que alicerçam as camadas de sons que dão vida a Painkiller e a incontestável beleza e coerência dos detalhes sintetizados que nos fazem levitar na sequência final feita com Geminie Glaciers, para se conferir, num mesmo bloco autoral, os diferentes fragmentos que os Painted Palms foram convocar à pop e ao indie rock, os dois universos sonoros que os rodeiam e com os quais se identificam, com um elevado índice de maturidade e firmeza, para se perceber o bom gosto como apostam nesta relação simbiótica, enquanto partem à descoberta de texturas sonoras. E a verdade é que esta dupla parece confiar plenamente no seu instinto criativo e transborda uma vontade quase obsessiva de atingir a perfeição, talvez para provar a ela própria que o caminho que escolheu é o adequado para que a praia sonora onde se querem deitar nunca seja consumida por uma maré de dúvidas e hesitações sonoras implacáveis.
Em suma, em Horizons os Painted Palms praticam o exercício de buscar referências de décadas passadas e procurar acrescentar os seus próprios elementos para compor uma obra musical que, no cômputo geral, carrega um enorme charme na forma como se equilibra entre o perigo de uma derrocada e a capacidade particularmente vincada de conjugar eletrónica e psicadelia, com um certo relevo e singularidade. Espero que aprecies a sugestão...
Os britânicos The Drink de Dearbhla Minogue, Daniel Fordham e David Stewart estão de regresso aos discos apenas onze meses após o espetacular disco homónimo de estreia, com Capital, o título do novo trabalho desta banda Londrina, gravado numa antiga quinta de produção suína, entretanto convertida em estúdio, nos arredores de Sheffield. De recordar que esse trabalho de estreia resultou de uma compilação dos três primeiros Eps do grupo e permitiu aos The Drink andar em digressão, com passagens pelos festivais Green Man e End Of The Road, abrir concretos para Toro Y Moi e participar no mítico programa da BBC 6, apresentado por Marc Riley.
Canção que fala do passado e de como ele tantas vezes nos consome e desfoca, No Memory, o primeiro avanço divulgado do disco e que encerra o seu alinhamento, oscila entre uma certa subtileza experimental percussiva e uma clara busca de algo mais comercial ao nível dos efeitos, o que faz do tema uma escolha nada inocente para chamariz do álbum. Há uma forte vertente experimental nas guitarras e uma certa soul na secção rítmica e no baixo sedutor, excelentes tónicos que potenciam o modo como Dearbhla Minogue sopra na nossa mente e a envolve com uma elevada toada emotiva e delicada, que faz o nosso espírito facilmente levitar, algo que provoca um cocktail delicioso de boas sensações. Capital irá ver a luz do dia a treze de novembro à boleia da Melodic Records. Confere No Memory e o artwork e o alinhamento de Capital...
1. Like A River 2. You Wont Come Back At All 3. Potter's Grave 4. Roller 5. Hair Trigger 6. I Can't Sleep 7. The Coming Rain 8. I'll Never Make You Cry 9. Month Of May 10. No Memory
Editado no final da última primavera, Days Of Surrender é o novo registo de originais de Joseph Arthur, um músico e compositor que nasceu em Akron, no Ohio, em setembro de 1971 e já com uma longa carreira discográfica, iniciada no início deste século e que conta com quase duas dezenas de lançamentos, com destaque para o anterior, um trabalho intitulado Lou e que serviu de tributo a Lou Reed, uma das grandes referências de Arthur.
A passear entre o rock alternativo, o indie pop e a folk, este músico norte americano aposta, quase sempre, em composições que são verdadeiras peças melódicas recheadas com um turbilhão de emoções. E o alinhamento de Days Of Surrendernão escapa quer às próprias opções instrumentais de Arthur sempre ricas e exuberantes e interpretadas pelo próprio, praticamente na íntegra, mesmo em palco, quer à evidência acima referida, sempre com uma preocupação clara por parte do autor em realçar o cariz intimista e singelo das suas canções, com arranjos e letras que falam por si.
Days Of Surrender ilumina a nossa mente e afaga os ouvidos logo no início, com os timbres de cordas bastante marcados de Pledge Of Allegiance e de Mystic Sister e o piano grave de Maybe You, a serem temas que colocam a nú a receita predileta de Arthur. Independentemente da primazia instrumental de cada um dos temas, raramente faltam alguns efeitos, percussivos ou atmosféricos, quase sempre com uma origem sintética, mas que nunca colocam em causa o vincado sabor orgânico de canções com as quais poderá haver uma identificação clara por parte do ouvinte, tal é a clareza e a acutilância com que Arthur versa sobre assuntos do quotidiano de qualquer comum mortal, sempre com uma vincado convite à reflexão profunda sobre os mesmos. Break, por exemplo, é uma canção agridoce, criada com inspiração e apurada veia criativa e que explora a fundo as diversas possibilidades sonoras da viola, com uma tonalidade única e uma capacidade incomum para quem souber ser exímio no seu manuseamento, como é o caso, ser capaz de a dedilhar para transmitir sentimentos e emoções com uma crueza e uma profundidade simultaneamente vigorosas e profundas. Mesmo quando o instrumento é eletrificado e deixado um pouco à sua sorte e a um andamento algo boémio, como sucede em Hold A Hand, ou opta por um frenesim agitado, como é o caso de Innocent Man, em vez do perigo do descontrole e da perca de homogeneidade no alinhamento, assiste-se à obtenção de um estado superior de consciência e profundidade, na abordagem temática da canção, que nos convida a um urgente exercicio de exorcização de todas as amarrras que o amor, como sentimento libertador, ainda coloca a muitos de nós.
Joseph Arthur tem conseguido sobreviver airosamente à erosão dos anos e estas suas novas canções soam ainda mais atuais e profundamente harmoniosas. São, no fundo, novas pinturas sonoras, carregadas de imagens evocativas que já conferimos em outros tempos, mas pintadas com melodias acústicas bastante virtuosas e cheias de luz e arrumadas com arranjos meticulosos e lúcidos, que provam a sensibilidade do autor para expressar tudo aquilo que sustenta a memória e o coração de muitos de nós. Espero que aprecies a sugestão...
01. Pledge Of Allegiance 02. Maybe You 03. Mystic Sister 04. Break 05. Come Back When You’re Poor 06. Isolate 07. Hold A Hand 08. I Don’t Know The Way 09. Innocent Man 10. Come Inside 11. Take You There 12. If I Could I’d Get Out
Onze anos depois do último registo de originais, os britânicos The Libertines, de Peter Doherty, Gary Powell, John Hassall e Carl Barât, têm finalmente um novo trabalho nos escaparates. Anthems for Doomed Youth, o terceiro registo de originais do grupo, chegou às lojas a quatro de setembro, por intermédio da Harvest e foi produzido por Jake Gosling.
Com o título inspirado num poema do século XIX com o mesmo nome da autoria de Rudyard Kipling, assim como Gunga Din, o primeiro single divulgado e que já teve direito a um vídeo realizado por Roger Sargent e que mostra o quarteto a deambular pelas ruas do Red Light District, na Tailândia, Anthems For Doomed Youth é um novo impulso para uma banda que atravessou o novo milénio em plena euforia, num percurso particularmente ascendente, mas também repentino que, como não podia deixar de ser, implodiu por dentro devido a dois egos conflituosos, o de Doherty e o de Barât e os problemas com a droga e a justiça que o primeiro enfrentou. Mesmo assim, os dois primeiros trabalhos dos The Libertines foram justamente considerados importantes e conjunturais no modo como colocaram de novo a Inglaterra que a olhar novamente para o punk rock mais cru e de garagem, que começou a criar escola em finais dos anos setenta do sécu,lo passado, depois da pop e da eletrónica e o trip-hop terem dominado as tabelas de vendas na última década do século XX. Hinos como Can't Stand Me Now ou Up the Bracket marcaram uma geração e deixaram, desde então, sedentos todso aqueles que ao lnogo de mais de uma década suspiraram pelo regresso deste projeto que se não for por mais, merece todo o nosso apreço e consideração pelo modo como se dedicaram ao punk com uma intgridade e uma originalidade incomuns.
Se não fosse para continuaram a ser relevantes, aposto que os The Libertines não ousariam um regresso após um hiato tão prolongado. E, na verdade, se havia essa permissa no espírito do quarteto quando entrou em estúdio, na Tailândia, para gravar esta nova fornada de canções, então podem dar-se por felizes com o resultado final. Não se duvide que Anthems For Doomed Youth é do melhor e mais consistente indie punk rock que se pode escutar atualmente, plasmado logo na rugosidade revoltosa de Barbarians, tema que recorda os mais esquecidos da eloquência festiva que transbordava da já citada Can't Stand Me Now, mas também nos riffs e nas distorções convincentes e inebriantes que temas como Glasgow Coma Scale Blues ou a angulosa e agressiva Fury Of Chonburynos oferecem. Depois, se Heart Of The Matter faz uma súmula eficaz e fluída do período mais aúreo do punk, aquela ligeireza algo adolescente, descomprometida e até pueril que desliza da divertida Gunga Din, da emotiva e acústica Iceman e da boémia Fame and Fortune, reafirmam a alma de um estilo muito vincado que se aconchega em paisagens musicais familiares porque reaplicam aquela fórmula que no período aúreo dos The Libertines nos fez lançar um olhar lancinante sobre as suas propostas e ainda as revestem com uma roupagem mais contemporânea, perceptível em alguns arranjos de cordas particularmente bem sucedidos. Aliás, as variações melódicas e os devaneios que se conferem na guitarra que conduz a folk do tema homónimo deste trabalho, são um excelente exemplo da ponte quase invisivel que o grupo estabelece entre a sua herança e este presente, como se o tempo não tivesse passado por eles, mas também como se eles não tivessem ficado presos lá atrás.
Anthems For Doomed Youth é um regresso vigoroso e feliz dos The Libertines às luzes da ribalta, não para fazerem figura de corpo presente e mostrarem que ainda existem, mas com o intuíito claro de quererem ser de novo referência e bitola. É um recomeço que se saúda, iluminado por canções que se escutam com um renovado prazer mas que também merecem ser dissecadas com algum detalhe, pelas novas nuances sonoras que contêm e pelo modo assertivo como foram criadas dentro do espetro sonoro em que a banda se insere. Espero que aprecies a sugestão...
01. Barbarians 02. Gunga Din 03. Fame And Fortune 04. Anthem For Doomed Youth 05. You’re My Waterloo 06. Belly Of The Beast 07. Iceman 08. Heart Of The Matter 09. Fury Of Chonburi 10. The Milkman’s Horse 11. Glasgow Coma Scale Blues 12. Dead For Love 13. Love On The Dole 14. Bucket Shop 15. Lust Of The Libertines 16. 7 Deadly Sins 17. Over It Again
Os DIIV (lê-se Dive) são um grupo do nova iorquino Zachary Cole Smith, músico dos Beach Fossils e que tem como companheiros de banda neste projeto Andrew Bailey (guitarra), Devin Ruben Perez(baixo) e Colby Hewitt (bateria). O disco de estreia chamou-se Oshin e viu a luz do dia há pouco mais de três anos através da Captured Tracks, mas já tem sucessor.
Is The Is Are, o novo trabalho dos DIIV, foi escrito na íntegra por Zachary, gravado em Brooklyn e chegará lá para fevereiro de 2016 à boleia da mesma etiqueta. Dopamine, o primeiro single divulgado do registo, é uma trip deambulante proporcionada pelas guitarras e a voz melódica do autor e onde o rock alternativo de cariz mais lo fi se confronta amigavelmente com uma pop particularmente luminosa e com um travo a maresia muito peculiar, mais comum em projetos do outro lado da costa americana. Confere...
Eirik Fidjeland, Petter Haugen Andersen e Simen Hallset são os Gold Celeste, um trio norueguês oriundo de Oslo e que sustenta a sua sonoridade na pop psicadélica que encontra a sua génese na reta final segunda metade do século passado, já que se alimenta de uma paleta refrescante e colorida de efeitos de guitarras, cuja origem remonta às três últimas décadas desse período, uma percussão vibrante, um baixo compacto, sintetizadores e orgâos incandescentes e um doce e celestial falsete. O grupo editou a onze de setembro The Glow, um extraordinário tomo de onze canções que viram a luz do dia através da etiqueta local Riot Factory Records, uma das mais reputadas do universo indie escandinavo.
Em The Glow os vários temas do alinhamento florescem e ganham vida própria num ambiente tipicamente lo fi, sem hesitações, de modo espontâneo e, aparentemente, sem artifícios exteriores particulares, além do arsenal instrumental acima descrito. É uma verdadeira trip sonora tumultuosa, mas também aditiva, com as canções a tentarem, a todo o custo, sair da espécie de colete de forças lo fi em que se encontram enclausuradas, em busca de um sol que, neste caso, poderá ser nefasto, já que se as iluminar em demasiado irá retirar-lhes a crueza e o reverb que molda a personalidade de um trabalho que tem nesta penumbra constante o seu atributo maior.
Envolvente, quente, épico, mas também intimista e acolhedor, este disco oferece-nos, portanto, um tratado de pop psicadélica, pleno de fuzz e reverb e que define o som dos autores num patamar superior de lisergia, enquanto flui de modo homogéneo e no universo próprio da banda e da sonoridade em que se insere, rebocado também pela mestria vocal de Eirik.
Temas como a estratosférica e exuberanteCan Of Worms, a contemplativa e experimental You And I, canção que ressuscita alguns detalhes que elevaram nos anos noventa nomes como os Mercury Rev ou os próprios The Flaming Lips a um grau superior de devoção, o charme acústico de But A Poem, o festim hipnótico em que se desmultiplica a percussão e as cordas até atrairem para junto de si um intenso som sintetizado em Is This What You Can Not Do? e que encarna uma faceta mais pop na intensa e eloquente The Start Of Something Beautiful, ou o cariz sedutor da planante The Dreamers, convidam-nos a conferir uns Gold Celeste que procurar recriar uma luta constante entre sons e melodias intrincadas, ao mesmo tempo que demonstram o dom de serem capazes de fazer música com uma quase pueril simplicidade. E, no fundo, este último aspecto é, quanto a mim, a melhor receita que este trio encontrou para demonstrar uma formatação adulta e a capacidade que possui de reinventar, reformular ou simplesmente replicar o que de melhor têm alguns projetos bem sucedidos na área sonora em que a banda se insere.
Assim, The Glowé mais um trabalho que faz uma espécie de simbiose entre a pop e o experimentalismo, temperado com variadas referências típicas do shoegaze e da psicadelia e carregadas de ácidos. No fundo, é uma espécie de caldeirão sonoro feito por mais um grupo que sabe como recortar, picotar e colar o que de melhor vai sendo sugerido hoje no chamado electropsicadelismo. Espero que aprecies a sugestão...
01. Can Of Worms 02. But A Poem 03. Open Your Eyes 04. The Dreamers 05. Grand New Spin 06. Time Of Your Life 07. Pastures 08. Is This What You Can Not Do 09. You And I 10. On The Brink 11. The Start Of Something Beautiful