man on the moon
music will provide the light you cannot resist! ou o relato de quem vive uma nova luz na sua vida ao som de algumas das melhores bandas de rock alternativo do planeta!
Courtney Barnett - Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit
Gravado em Melbourne durante o nosso verão de 2014, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit é o feliz título do arrebatador disco de estreia de Courtney Barnett, onze canções que viram a luz do dia a vinte e três deste mês atraves da House Anxiety/Marathon Artists e sucessor dos EPs I've Got a Friend Called Emily Ferris (2011) e How to Carve a Carrot into a Rose (2013), editados depois conjuntamente em The Double EP: A Sea of Split Peas, em 2013.

Carregas no play e com o indie rock frenético de Elevator Operator e do single Pedestrian At Best levantas o queixo, franzes o sobrolho, ensaias o teu melhor sorriso eufórico enigmático e passas a língua pelo lábio superior com indisfarçável deleite, enquanto uma voz doce, uma bateria intensa e uma guitarra que brilha daqui ao céu, num vaivém musculado e constante, te fazem abanar as ancas e partir em direção à festa mais próxima, nem que seja aquela que vais obrigatoriamente criar neste preciso instante e em que podes muito bem ser o único convidado. Mas isso pouco importa, porque respirar ao som deste disco é saborear automaticamente um clima festivo sem paralelo e, como referi logo no início, dar de caras com um compêndio sonoro que não poderia ter melhor nome, já que nele Courtney prende hermeticamente nos seus punhos e transmite depois para as letras e finalmente, para o modo como as canta, o turbilhão ruminante de uma qualquer mente quotidiana, criando um universo familair e cativante que facilmente nos enclausura.
Courtney é bastante hábil no modo como expôe aqueles pequenos detalhes da vida vomum e os trasnforma, na sua escrita, em eventos magnificientes e plenos de substância. Da exaltação do ócio criativo de Avant Gardenner até à apologia da rotina na já citada Elevator Operator, são vários os exemplos do modo como a autora exalta romanticamente e com um charme algo displiscente mas feliz, a postura que tem em relação à vida. O blues animado de An Illustration of Loneliness (Sleepless in NY), tema onde salta ao ouvido o excelente improviso da guitarra e, em oposição, o clima mais boémio dos sete minutos experimentais e psicadélicos de Small Poppies, expressam, sintomaticamente, este constante plasmar de paradoxos, de uma constante tensão oscilante entre o tédio e a ansiedade, o rock e a folk, o doce e o amargo e, enfim, entre o meramente quotidiano e aquilo que é naturalmente poético.
Já completamente seduzidos por este Sometimes I Sit and Think, And Sometimes I Just Sit, em Depreston somos embalados por uma lindíssima balada que nos oferece a possibilidade de viajarmos rumo a um limbo existencial e meditativo ao mesmo tempo que aquelas ancas ainda abanam e depois, se o indie rock de Aqua Profunda! dá-nos coragem para agarrar pelos colarinhos uns quantos incautos que se atravessam no caminho para trazê-los para a nossa festa, a pop dançante de Dead Fox fá-los sentirem-se rapidamente integrados e promete-nos que não nos vai deixar sós durante alguns dias já que assenta num refrão tremendamente aditivo e imbatível,
Com o ótimo solo de guitarra da punk Nobody Really Cares if You Don't Go to the Party, as certeiras baladas Debbie Downer e Boxing Day Blues e a densa, sombria e tensa Kim's Caravan, chega ao ocaso a audição de onze canções que podem tornar-se futuramente em clássicos intemporais, uma verdadeira explosão de cores e ritmos, personificada num disco arrebatador e real, sobre sentimentos reais, mudanças que surgem para balançar o que parecia estável, sobre problemas que vêm de dentro para fora e que podem atingir o outro ou qualquer um de nós. Espero que aprecies a sugestão...

Elevator Operator
Pedestrian at Best
An Illustration of Loneliness (Sleepless in NY)
Small Poppies
Depreston
Aqua Profunda!
Dead Fox
Nobody Really Cares if You Don't Go to the Party
Debbie Downer
Kim's Caravan
Boxing Day Blues
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Garden Of Elks - A Distorted Sigh
Espalhados pela Escócia, os Garden Of Elks são um trio formado por Niall Strachan, de Inverness, o baixista Ryan Drever, de Glasgow e a baterista Paul Bannon, de Edimburgo. A Distorted Sigh, o trabalho de estreia dos Garden Of Elks, chegará lá para abril, em formato digital, vinil e cassete, mas entretanto foram sendo divulgados alguns avanços desse disco de uma banda que assume possuir uma sonoridade que intitulam de trash pop e que confirmaram este álbum como uma das grandes surpresas desta primavera discográfica.

Em oito anos de escrita dedicada neste blogue e umas duas décadas de audição diária, ávida, atenta e apaixonada de novidades sonoras, chega-se a um ponto em que torna-se difícil sentirmo-nos realmente impressionados e espontaneamente rendidos, de modo imediato, a uma determinada banda ou projeto que entra pela primeira vez nos nossos ouvidos. Consigo-me recordar com algum à vontade dos nomes que tiveram esse efeito instantâneo e estes escoceses Garden Of Elks passarão a fazer parte dessa lista já apreciável, mas restrita, de bandas pelas quais me apaixonei à primeira audição. O baixo imponente que introduz o punk rock shoegaze de This Morning We Are Astronauts e a voz de Niall com um sotaque intenso e pronunciado e num tom que sustenta o seu charme, não só nesses dois detalhes mas também e princialmente, na incoerente tonalidade em relação à melodia, são aqueles fantásticos atributos que me prenderam irremdiavelmente a esta estreia absolutamente fabulosa. O indie rock de garagem, puro, vibrante, feito sem amarras e concessões, sujo e ditorcido e carregado de sentimento e emoção latente, continua bem vivo e é na fria Escócia, imagine-se, que se encontram algumas das melhores razões para percebermos, sentirmos e contactarmos com uma das provas evidentes que nos permitem saber que estamos certos por acreditar nessa permissa. Basta ouvirmos os quase dois minutos de Smile para percebermos que, apesar de ter sido necessário esperar dezassete anos, finalmente o clássico Song 2 dos Blur tem sequência à altura e os DJs já não precisam de desesperar para encontrar aquele tema que pode passar a seguir, sem falhas no arrojo, na amplitude sonora, no ritmo e na inspiração.
Swap, uma canção sobre a amizade, foi escrita por Niall como reação a um evento da vida de um amigo próximo, como forma de tributo à verdadeira amizade e de crítica a todos aqueles que apenas vêm a amizade como um modo de obterem proveito, descurando sempre a presença quando os outros realmente mais precisam. O punk rock orelhudo, feito com um baixo rugoso e vibrante e uma guitarra que inflama distorções verdadeiramente inebriantes é a pedra de toque deste tema e aprofunda ainda mais o exuberante sentimento de exclamação inicial, que nunca mais abandona o ouvinte dedicado, porque essa energia vai ser uma constante em A Distorted Sigh, até ao ocaso do alinhamento.
Contented Contender e I Hid Inside aproximam os Garden Of Elks de um universo progressivo e experimental que coloca a nú algumas das principais virtudes instrumentais da banda, enfatizadas nos efeitos das cordas eletrificadas e no modo como se encadeiam com as mudanças de ritmo e como as letras e as rimas se colam às melodias, ganhando vida e flutuando com notável precisão pelo limbo sentimental que transborda das canções. A própria voz de Niall, além de manter as caraterísticas acima descritas com enorme vigor até ao final, consegue sempre variar o volume de acordo com a componente instrumental, nunca havendo uma sobreposição pouco recomendável de qualquer uma das partes ao longo das canções, como se exige em alinhamentos onde predominam temas curtos, crus, sujos e diretos, mas vigorosos, emocionados e sentidos, como é o caso.
Invisible People Are Their Own Reflections In The Water é mais um exemplo que plasma com precisão as virtudes técnicas que os Garden Of Elks possuem e a forma direta e natural como conseguem abarcar as componentes mais clássicas e experimentais do rock e comprimi-las em algo genuíno e com uma identidade muito própria transpiram uma naturalidade e espontaneidade únicas. Mas estes contínuos agregados sonoros mantêm-se até ao fim e Se Mountain Dew e Wing fazem a simbiose entre garage rock, pós punk através da sonoridade crua, rápida e típica da que tomou conta do cenário lo fi inaugurado há mais de três décadas, já as aproximações ao puro grunge em Yoop provam, mais uma vez, que estes Garden Of Elks sabem como harmonizar e tornar agradável aos nossos ouvidos sons aparentemente ofensivos e pouco melódicos, fazendo da rispidez visceral algo de extremamente sedutor e apelativo. A viagem lisérgica que a dupla nos oferece nas reverberações ultra sónicas destes temas, com os riffs da guitarra a exibirem linhas e timbres com um clima marcadamente rugoso, ruidoso e monumental, comprime tudo aquilo que sonoramente seduz este trio escocês em algo genuíno e com uma identidade muito própria.
Para o final ainda faltava mais uma grande surpresa e algumas nuances inéditas no alinhamento; Tomorrow exala um transe hipnótico e apoteótico que mostra uma faceta um pouco diferente destes Garden Of Elks e poderá servir de indicador para o futuro sonoro próximo da banda. O agregado instrumental clássico que sutenta a canção, exuberante mas despido de exageros desnecessários, é a demonstração cabal do modo como este coletivo se disponibiliza corajosamente para um salutar experimentalismo onde reina uma certa megalomania e uma saudável monstruosidade agressiva, aliada a um curioso sentido de estética.
Em suma, toda esta cuidada sujidade ruidosa que os Garden Of Elks produzem, feita com justificado propósito, cimenta a minha ideia inicial que justifica, por um lado, a minha admiração imediata por esta banda e, por outro, a certeza que o indie rock alternativo cheio de sentimento e emoção, mesmo algo escondido na Escócia, está vivo e recomenda-se, porque é feito usando o baixo encorpado e vigoroso e a distorção das guitarras como veículo para uma verdadeira catarse sonora, que constrói com o ouvinte uma química interessante e o transporta para um ambiento denso, mas que busca claramente a celebração e o apoteótico! Espero que aprecies a sugestão...
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Jon McKiel – Jon McKiel EP
Lançado no início do verão de 2014 através da Headless Howl Records e gravado por Jay Crocker, Jon McKiel é o EP homónimo de um músico e compositor oriundo de Halifax, na Nova Escócia, uma coleção de seis canções que se abastecem numa folk que possui um interessante requinte vintage, exposta num alinhamento instrumentalmente irrepreensível, sem atropelos ou agressividade desnecessária e que nos permite fazer uma pausa melancólica e introspetiva.

As canções de McKiel são um convite direto à reflexão pessoal e ao desarme, que não tem de ser necesssariamente triste e depressivo, já que as suas melodias são, por regra, luminosas e implicitamente otimistas. Se as cordas exuberantes e a percussão festiva de New Tracy abrem o EP com uma majestosidade exemplar, o efeito da guitarra desse tema e a bateria cheia de quebras de ritmos, acedem-nos a um ambiente climático que impressiona pela criatividade com que os diferentes arranjos vão surgindo à tona. Tal evidencia-se, igualmente, no modo como a guitarra complementa o refrão em Chop Through, canção que emociona e trai quem insiste em residir num universo algo sombrio e fortemente entalhado numa forte teia emocional amargurada.
A pop folk, de travo blues de I Know e o rock clássico que transborda da sensual Accolades são mais duas provas do grau de maturidade de Jon Mckiel e do modo como é bem sucedido em fugir de uma possível queda na redundância convencional ou na repetição aborrecida.
Com o devaneio simples, delicado e feminino de Tropical Depression e a teia sonora convidativa, rica e trabalhada desse tema envolvente numa nuvem fumegante de emoção, aproxima-se o ocaso do EP e torna-se clara a tomada de consciência de que estas seis canções são um meritório retorno deste musico e cantautor aos lançamentos, através de melodias complexas e simples e letras românticas e densas e que o mesmo pretende ser legitimamente preponderante e firmar uma posição na classe daqueles artistas que basicamente só melhoram com o tempo. Espero que aprecies a sugestão...
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The Vultures - The Weakest Storm

Sedeados em Inglaterra e com músicos oriundos de cinco países de três continentes diferentes, os The Vultures servem-se das cordas de violas, violoncelos, guitarras, baixo e violinos, da bateria e de sintetizadores para criar canções que contêm uma paleta sonora com uma deliberada componente gótica, mas que não se resume a esse espetro, já que o indie rocke o punk são também bitolas importantes para a caraterização da música do projeto.
No final de janeiro os The Vultures editaram Three Mothers Part1, o disco de estreia, através da Ciao Ketchup Recordings, um compêndio de oito canções que segue uma bitola sonora assente em orquestrações com tanto de amplo e monumental como de sombrio, o tal indie rock com um certo cariz gótico, já definido por alguma crítica como um altpop neogótico, uma adaptação contemporânea e atual do som que fez escola na década de oitenta, no cenário indie britânico e que estes The Vultures pretendem resgatar.
Um dos grandes destaques deste disco é Weakest Storm, um tema que será editado a quatro de maio no formato single 7” em vinil e download digital e que tendo em conta a percurssão coesa e bastante ritmada e o vasto arsenal de cordas, amplia uma sensação de mistura de mistério com luxúria e que transborda da coesão e da amplitude de um som encorpado, que está plasmado, em Three Mothers Part 1. Confere...
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Robot Princess - Teen Vogue LP vs Action Moves EP
Oriundos de Brooklyn, Nova Iorque, os Robot Princess são Beau Alessi, Daniel D. Lee, Peter Ingles, Joe Reichel e Catherine Anderson, uma das novas apostas da Fleeting Youth Records, uma etiqueta essencial para os amantes do rock e do punk, sedeada em Austin, no Texas.

Os Robot Princess gravaram Teen Vogue, o disco de estreia, nos estúdios Serious Business, em Nova Iorque, há um par de anos, mas esse trabalho nunca viu a luz do dia, ou qualquer tipo de edição, quer física, quer digital. Recentemente, Catherine Anderson, membro da banda, produziu mais um punhado de canções do grupo, que resultaram num EP intitulado Action Moves.
Com estes dois trabalhos em mãos e com a Fleeting Youth Records a apostar seriamente nos Robot Princess, chegou finalmente a hora de um dos segredos mais bem guardados do indie rock nova iorquino ver música a chegar aos escaparates, com a edição em conjunto do álbum e do EP, que viram a luz do dia em formato digital e cassete a vinte e quatro de março.
Wake Me Up When Everyone Is Dead não tem segredos para todos os apreciadores do melhor indie rock, cru e lo fi, que pisca o olho ao grunge e esse é, desde logo, um excelente atributo de uma canção que nos transporta eficazmente para o interior do universo sonoro que tipifica estes Robot Princess. Uma bateria cheia de mudanças de ritmo, guitarras que desafiam o red line mas que também sabem ponderar os efeitos e a distorção e uma voz que tanto busca um registo rugoso, como procura soar doce como o mel, são alguns dos truques deste coletivo.
Logo a seguir, em Violent Shooting Stars, um tema particularmente melódico e que sobressai pelo inspirado jogo de vozes que contém e pela riqueza instrumental e diversidade de ritmos e emoções que transborda, numa exuberância pop bastante recomendável, fica claro que estes Robot Princess planam em redor de permissas sonoras fortemente experimentais e onde tudo vale quando o objetivo é arregaçar as mangas e criar música sem ideias pré-concebidas, arquétipos rigorosos ou na clara obediência a uma determinada bitola que descreva uma sonoridade especifica. Amateur Surgery segue esta permissa exuberante e festiva, mas Teen Vogue ou Super R-Type, numa toada mais nostálgica e pausada, também servem como porta de entrada para o clima identitário dos Robot Princess que, devido ao efeito da guitrarra, à subtileza da bateria e ao timbre das cordas, já se aproximam aqui do habitual edificio melódico que sustenta o formato canção mais acessível, mas sem deixar de se manter fiéis ao espírito inicial. O próprio baixo de You Or Your Sister, dividindo o protagonismo com a guitarra, que se destaca durante o refrão, ajuda a cimentar essa apenas aparente dicotomia entre experimental e acessível, indie rock alternativo e rock clássico, com o nível de desordem sonora a servir única e exclusivamente para colocar a nú um apenas aparente caos. Tudo foi claramente ponderado pelos Robot Princess e o próprio punk rock desgarrado e acelerado de Broke Dentist não desmorona o edifício sóbrio anteriormente edificado, que se mantém até ao fim sustentado por una arquitetura sonora genuina e atrativa, assimilável por qualquer ouvudo com minimo bom gosto, mas sem perder um saudável travo irreverente e beliçoso, dentro de limites bem definidos , apesar de parecer, em determinados momentos, que vale (quase) tudo.
Já perto do ocaso, o alinhamento prosegue, quase sem se dar por isso e Walking Someone Else's Dog, uma magnífica canção que flutua entre o indie rock mais anguloso e aquele que aposta num forte cariz experimental, já que no tema, além de um maravilhoso falsete, sobressai uma percussão com um elevado pendor jazzístico e o travo psicadélico, experimental e progressivo de The Cancer Joke, assim como o rock épico e monumental de My Hands Are On Fire e o músculo de Action Park, entrelaçado por uma bateria que se estende livremente pela melodia, sem cadência rítmica homogénea, são outros extraordinários instantes do álbum, que entre o experimental, o cru, o rugoso, o lo fi e o atmosférico, seduzem e emocionam, como é exigível a un género sonoro que procura sempre expôr sem desvios ou concessões algumas da típicas angústias, dilemas ou dúvidas existenciais de quem vive na ténue fronteira que separa a adolescência da vida adulta.
O indie rock genuíno, feito sem truques, sabe melhor quando vai direto ao assunto e, como referi no início, este quinteto nova iorquino não complica quando compõe com particular profundidade sentimental e interessante sentido melódico, sem descurar todos os atributos ruidosos que se exigem a uma banda que quer fazer-se notar pelo vigor e pela postura irreverente. Os Robot Princess devem ser imediatamente acescentados à lista daquelas bandas que merecem atenção redobrada, uma expisição abrangente e, mais importante que tudo isso, uma audição dedicada. Espero que aprecies a sugestão...
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Toro Y Moi - What For?
Toro Y Moy é o extraordinário projeto a solo de Chazwick Bundick, um músico e produtor norte americano, natural de Columbia, na Carolina do Sul e um dos nomes mais importantes do movimento chillwave atual, fruto de uma curta mas intensa carreira, iniciada em 2009, onde tem flutuado num oceano de reverberações etéreas e essencialmente caseiras. Sempre em busca da instabilidade, o produtor conseguiu no experimental Causers of This, de 2010, compilar fisicamente algumas das suas invenções sonoras e esse disco tornou-se imediatamente numa referência do género musical acima citado, ao lado de trabalhos como Life of Leisure dos Washed Out e Psychic Chasms de Neon Indian.

No ano seguinte, em 2011, surgiu Underneath The Pine, o sucessor e a leveza da estreia amadureceu e ganhou contornos mais definidos,com vozes transformadas e diferentes camadas sonoras sobrepostas, ficando claro que, a partir desse instante, Toro Y Moy ficaria ainda mais íntimo da pop, mas sem abandonar as suas origens. A psicadelia, o rock e a eletrónica começaram a surgir, quase sempre numa toada lo fi, nascendo assim as bases de Anything In Return, o terceiro disco de Chazwick, lançado no início de 2013. Agora, dois anos depois, Toro Y Moi chega a What For?, o quarto tomo da sua carreira, lançado no passado dia sete de abril pela Carpark Records, amadurecido e a piscar o olho ao hip hop e ao R&B mais retro, assim como ao discosound dos anos oitenta, fruto da recente relação musical com Tyler The Creator e Frank Ocean, além de se aprofundar uma já cimentada curiosa relação com a eletrónica, também muito presente no seu outro projeto paralelo intitulado Les Sins.
Os carros de corrida passam lá em baixo, no asfalto quente, enquanto dois pisos acima, junto a uma marina, plumas e biquinis confundem-se e ancas abanam sem pudor ao som do charme sofisticado do indie rock festivo de What You Want, canção que mistura cordas com efeitos flamejantes, numa receita que se estende, de modo mais sedutor a Buffalo e nos coloca na linha da frente de um universo particularmente radioso e onde vintage e contemporaneidade se confundem de modo provocador e certamente propositado. É uma cúpula entre rock e eletrónica, quente e assertiva e que ao longo do alinhamento vai convocando para a orgia outros sub-géneros da pop, que vão aguardando pacientemente a sua vez de entrar em cena, estendidos numa almofada junto à piscina, enquanto saboreiam mais um copo e apreciam um final de tarde glamouroso. Lá em baixo, no asfalto quente, a corrida aproxima-se da sua fase decisiva.
A cadência lo fi empoeirada e romântica da guitarra e do piano de The Flight e de Ratcliff, com o fuzz da distorção particularmente assertivo a destacar-se na última e o ambiente cinematográfico que escorre do doce mel minimal a que sabem as teclas sintetizadas de Yeah Right, são outras amostras do requinte melancólico com que Toro Y Moi nos dá as mãos, para nos levar com ele rumo às profundezas de um imenso oceano de hipnotismo e letargia, com elevada carga poética. Ao invés a luminosa e festiva Empty Nesters e a ode aos primórdios do discosound que escorre do efeito sintetizado sexy de Lilly não deixam vacilar o propósito claramente celebratório e fisicamente provocador que What For? procura replicar, com o groove do baixo, o descontrole apenas aparente da guitarra e o tom agudo da voz de Chazwick em Spell It Out a induzirem ainda mais na direçao ascendente o espetro climático do ambiente que rodeia tudo aquilo que a nossa imaginação quiser moldar e que será forçosamente algo excitante e com um certo teor libidinoso.
A toada descontraída e amena de Half Dome e Run Baby Run mostram-nos o pôr do sol, enquanto lá ao longe se celebra no pódio montado bem no centro da primeira reta do asfalto e aproximam-nos do ocaso de um disco onde cada música tem sempre algo de pessoal e tudo se sustenta de maneira adulta, como se o R&B de Frank Ocean e até detalhes de veteranos como Prince se derretessem no meio de sintetizadores e batidas irregulares. What For? comprova, uma vez mais, a força de Bundick, com fôlego renovado e a estabelecer uma multiplicidade de novos caminhos, testando sonoridades e experimentações sem recear ser apontado de ser uma espécie de terrorista sonoro, já que este é um artista que só se justifica quando vive de transformações. Espero que aprecies a sugestão...

1. What You Want
2. Buffalo
3. The Flight
4. Empty Nesters
5. Ratcliff
6. Lilly
7. Spell It Out
8. Half Dome
9. Run Baby Run
10. Yeah Right
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Howling - Stole The Night
RY X e Frank Wiedemann são os Howling, um projeto sedeado em Berlim e que aposta numa mistura entre o indie rock e a eletrónica ambiental, cheia de soul e sentimento e que se irá estrear nos discos com Sacred Ground, um trabalho que irá ver a luz do dia no início de maio.
O baixo mágico de Stole The Night é a surpreendente revelação mais recente de um álbum que tem a chancela da Monkeytown Records e da autoria de uma dupla que tem surpreendido por essa Europa fora, com excelentes atuações em clubes de relevo, estando prevista uma passagem pelo Lux, em Lisboa, poucos dias depois da edição de Sacred Ground. Confere...
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Josh Rouse - The Embers Of Time
Josh Rouse, um dos meus intérpretes preferidos a solo, está de regresso em 2015 com The Embers Of Time, disco lançado no passado dia sete de abril por intermédio da Yep Roc Records. O álbum foi produzido por Brad Jones, que já havia trabalhado com o cantor em 1972, em Nashville e no anterior The Happiness Waltz e foi gravado entre Valência, Espanha, no estúdio do artista, chamado Rio Bravo e Nashville, cidade norte americana natal do músico.

The Embers Of Time começa solarengo e festivo com Some Day’s I’m Golden All Night e com o esplendor das cordas e os arranjos típicos da folk sulista norte americana a darem as mãos para a criação do habitual ambiente emotivo e honesto que carateriza a música e os discos deste cantautor que nunca perdeu o espírito nostálgico e sentimental que carateriza a sua escrita e composição. Na verdade, The Embers Of Time é mais um trabalho repleto de letras pessoais e a harmónica de Too Many Things On My Mind, uma das melhores canções do disco, oferece-nos um Josh que não se envergonha de escrever sobre o modo como aprecia alguns dos melhores prazeres da vida, que tanto podem ser um bom filme, ou uma garrafa de um excelente vinho que o músico terá certamente aprendido a apreciar devidamente desde que assentou arraiais na vizinha Espanha e como os nossos dilemas existenciais também podem relacionar-se com algumas das melhores coisas da vida. No blues de JR Worried Blues, essa mesma harmónica volta a fazer das suas e a servir para dar cor a um ambiente igualmente descontraído e regado com um teor etílico ainda mais elevado e oriundo da Nashville que certamente o terá inspirado neste instante do alinhamento.
Josh Rouse tem este lado muito humano que eu aprecio imenso e que já fez dele, em tempos, um dos meus maiores confidentes, quando Nashville, um dos momentos altos da sua carreira, liderou a banda sonora de um período menos feliz, mas muito importante da minha existência. Ele faz questão de se mostrar próximo de nós e de partilhar connosco as coisas boas e menos boas que a vida lhe vai proporcionando e, com essa abertura, faz-nos, quase sem darmos por isso, retribuir do mesmo modo. Começa-se a ouvir as vozes e o som ambiente que introduz You Walked Through The Door e torna-se obrigatório vislumbrar Rouse a entrar pela nossa porta com uma garrafa numa mão e um naco de presunto na outra e o maior sorriso no meio, como se ele fosse já da casa, um grande parceiro, confidente e verdadeiro amigo, um daqueles que não complicam e com o qual se pode sempre contar. Alías, é curioso constar-se que The Embers Of Time foi uma das formas de terapia que Josh Rouse encontrou para combater uma crise de confiança e um estado algo depressivo que se apoderou do músico nos últimos tempos vividos em Valência (It's my surreal expat therapy record), quando as dez canções do alinhamento podem ter em nós essa mesma função terapêutica e retemperadora. Escuta-se a melodia escorreita e preguiçosa de Time e torna-se impossível não olhar para o nosso íntimo e sentirmos inspiração suficiente para enfrentarmos de frente alguns dos nossos maiores dilemas enquanto descobrimos a solução para certas encruzilhadas, uma resposta que estava mesmo ali, dentro do nosso peito, à espera desta canção para se revelar em todo o seu esplendor.
Esta superior capacidade que a música de Rouse tem de suscitar sensações concretas no nosso íntimo, tem um travo muito particular naquela harmónica quando chamou para junto de si o piano ao terceiro tema, numa canção chamada You Walked Through The Door, que sabe a um Paul Simon em grande forma, presente não só no sabor country da harmónica ma também no modo subtil como Josh conjuga a enorme sensibilidade melódica que lhe é intrínseca com a envolvència dos arranjos que seleciona, tocando-nos bem fundo. Essa mesma sensação reconfortante de proximidade e de fulgor repete-se adiante, nos arranjos feitos com violinos e no dueto com Jessie Baylin em Pheasant Feather. Aliás, Josh Rouse é único e tem um estilo inconfundível no modo como dá a primazia às cordas, seja qual for o instrumento de que elas se servem, sem descurar o brilho dos restantes protagonistas sonoros e, principalmente, sem se envergonhar de colocar a sua belíssima voz na primeira linha dos principais fatores que tornam a sua música tão tocante e inspiradora.
Até ao ocaso de The Embers Of Time nunca se perde o elo de ligação entre músico e ouvinte já que é impossível ficarmos indiferentes aos lamentos sentidos e tremendamente confessionais que acompanham a viola em Ex-pat Blues e depois, já devidamente exorcizados, não deixarmos de olhar em frente, recompostos e prontos para olhar a vida de um modo mais otimista e positivo ao som de Crystal Falls, enquanto termina um alinhamento de dez canções que será, certamente, justamente considerado como um marco fundamental na carreira de um compositor pop de topo, capaz de soar leve e arejado, mesmo durante as baladas de cariz mais sombrio e nostálgico e de nos mostrar como é fina a fronteira que existe muitas vezes entre dor e redenção. Espero que aprecies a sugestão...
The Embers of Time was recorded between Spain and Nashville with Brad Jones who I've recorded with a lot. Part of it’s a band and part of it’s just me with some arrangements. A lot of the performances on there are live. We ran through each song maybe once or twice and [the band] just nailed it! They’re so good! As a result, it has something you just can’t get recording things one at a time. We were in the same room. Something happens. A sort of glue to everything.
01. Some Days I’m Golden All Night
02. Too Many Things On My Mind
03. New Young
04. You Walked Through The Door
05. Time
06. Pheasant Feather (Feat. Jessie Baylin)
07. Coat For A Pillow
08. JR Worried Blues
09. Ex-Pat Blues
10. Crystal Falls
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R.E.M. Rarities Jukebox

Obscuro para muitos, praticamente desconhecido para imensos, mas considerado pela maioria dos fãs como o período aúreo da banda, o período em que os R.E.M. estiveram sobre a alçada da editora I.R.S., coincidiu com o lançamento dos cinco primeiros álbuns da banda, em plenos anos oitenta.
No rescaldo dessa fase inicial do trajeto do grupo de Michael Stipe, Mike Mills, Peter Buck e, ainda na altura, Bill Berry, os R.E.M. foram unanimemente considerados pela crítica norte americana como a melhor banda de rock alternativo da década, acabando por assinar pela multinacional Warner, etiqueta que permitiu alcançarem de modo mais massivo outros mercados, numa relação iniciada com Green e que atingiu proporções inimagináveis com Out Of Time e Automatic For The People.
Hoje mesmo, no dia em que escrevo estas linhas, nove de abril de 2015, passam trinta e um anos do lançamento de Reckoning, o segundo álbum da banda. Este período entre o EP Chronic Town, lançado a vinte e quatro de agosto de 1982 e o álbum Document, editado a vinte e um de março de 1987, foi um tempo em que a banda viveu permanentemente, sem pausas, a dividir-se entre o palco e o estúdio, tendo sido o seu espaço temporal mais profícuo e criativo, com centenas de concertos, algumas digressões europeias, cinco álbuns de estúdio, além desse EP de estreia e um catálogo imenso registado pelo grupo e pelos fãs que, muitos anos depois, ainda reserva algumas surpresas.
Em 2007 or R.E.M. passaram finalmente a fazer parte do Rock 'N' Roll Hall of Fame e a publicação Online Athens, na ocasião, produziu o documentário R.E.M. In The Hall, que inclui os melhores momentos dessa cerimónia e uma caixa digital intitulada R.E.M. Rarities Jukebox. São vinte e uma canções disponíveis para download gratuíto e quase todas captadas ao vivo. Delas destacam-se uma extraordinária versão de Radio Free Europe, o primeiro grande single da banda e algumas versões de clássicos da música norte americana como Ive Got you Babe, Steppin Stone ou Louie Louie, entre outros.
Este cardápio é aboslutamente imprescindível para qualquer fã ou apenas para quem quiser conhecer ainda melhor esta banda fundamental do universo sonoro alternativo. Confere...
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Sufjan Stevens – Carrie And Lowell
Depois de ter deambulado durante uma década entre o caótico, o esquizofrénico e o genial em discos tão importantes como Illinoise ou The Age Of Adz, Sufjan Stevens está de regresso mais negro, sombrio e recatado com Carrie And Lowell, um disco que marca o retorno do músico à folk mais intimista, nostálgica e contemplativa e que viu a luz do dia a trinta e um de março através da Asthmatic Kitty.

Oriundo de Detroit, no Michigan e atualmente a residir em Brooklyn, Nova Iorque, Sufjan Stevens começou a dar nas vistas no início da carreira na pele de um trovador acompanhado apenas pelas cordas de uma viola, estreando-se em 2000 com A Sun Came e a cantar sobre as agruras e as encruzilhadas de quem acaba de entrar na vida adulta. O entusiasmo, a inspiração e a apurada veia criativa trouxeram consigo um enorme entusiasmo e uma vontade de trabalhar fora do vulgar, com a exploração de outras possibilidades sonoras mais abrangentes, mas sempre com a folk na mira, a incubarem da mente incansável de um músico que chegou a prometer editar anualmente um disco dedicado a um estado norte americano, demanda que, tendo em conta os mais de cinquenta estados do país, lhe ocupariam mais de meio século de existência.
Carrie & Lowell são os sobrenomes da sua mãe e do seu padrasto e intitulam este seu sétimo disco, aquele que, como já referi, marca o regresso do músico à casa de partida, ficando para trás o experimentalismo avan-garde de The Age Of Adz, para agora voltar o puro sentimentalismo, embalado por uma folk madura e nostálgica, que se debruça sobre o falecimento da sua mãe, occorrido em 2012 após uma vida de excessos, abusos e um dignóstico de esquizofrenia, notícia essa que deixou o músico devastado.
De modo a exorcizar e lamber as feridas e a faxer o seu luto terapêutico de uma dor incontida e profunda, além da viola Sufjan Stevens recebeu também a companhia das teclas de um cândido sintetizador, que serve apenas para encaixar e dar um certo charme e brilho à moldura sonora estética de onze canções que são verdadeiras jóias, em todos os sentidos.
Das lembranças sentimentais que transbordam em Fourth Of July, aos lindíssimos arranjos medievais de All of Me Wants All of You, passando pelos arranjos de cordas tensos, dramáticos e melódicos de No Shade In The Shadow Of The Cross, todo o ideário sonoro e lírico de Carrie And Lowell serve para o músico fazer a sua homenagem póstuma à progenitora e recordar tempos idos, procurando a conexão possivel com tempos passados que ainda vageuiam pela sua memória de modo nostálgico e que são impossiveis de recuperar. O objetivo não é trazer até ao ouvinte o fantasma da mãe de Sufjan, mas fazer dele um veículo privilegiado de boas sensações que Sufjan, um homem de fé, convicto e assumido, quer que nós sintamos, para que, por muito amargurada que seja a nossa vida, permanentemente, ou em determinados momentos, ela possa sempre contar com aquelas recordações que guardamos no canto mais recôndito do nosso íntimo e que em tempos nos proporcionaram momentos reais e concretos de verdadeira e sentida felicidade.
Carrie and Lowell é alma e emoção traduzidas à voz e à guitarra, como documento sonoro ajuda-nos a mapear as nossas memórias e ensina-nos a cruzar os labirintos que sustentam todas as recordações que temos guardadas, para que possamos pegar naquelas que nos fazem bem sempre que nos apetecer. Basta deixamo-nos levar pelos sussurros do tema homónimo, para sermos automaticamente confrontados com a nossa natureza, à boleia de uma sensação curiosa e reconfortante que, pouco depois, ambientada pelo falsete de Sufjan e pelos sons percurssivos e rústicos de John My Beloved, transforma-se numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia. Espero que aprecies a sugestão...
01. Death With Dignity
02. Should Have Known Better
03. All Of Me Wants All Of You
04. Drawn To The Blood
05. Fourth Of July
06. The Only Thing
07. Carrie And Lowell
08. Eugene
09. John My Beloved
10. No Shade In The Shadow Of The Cross
11. Blue Bucket Of Gold



