Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015

Sugiro... XLVII

In my free time...


autor stipe07 às 13:26
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015

A Jigsaw - No True Magic

Os A Jigsaw de João Rui e Jorri  andam por cá há mais de uma década e gostam de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera das suas canções e esta realidade às vezes tão crua que eles também sabem tão bem descrever, enquanto embalam os nossos ouvidos com simples acordes, várias vezes dispostos em várias camadas sonoras, com uma naturalidade que impressiona os mais incautos, à semelhança da naturalidade com que a nossa realidade encaixa na melodia das canções.

No True Magic é a mais recente obra prima dos A Jigsaw, um disco particular, que deve também ser admirado tendo em conta a parte lírica; todas escritas em inglês, as canções são pequenas narrativas, algumas delas algo inusitadas e com uma lógica que aparentemente procura suscitar o aparente e o impossível.

No True Magic aborda a questão da mortalidade e a imortalidade como o milagre maior e a diferença entre magia e ilusão, como se a explicação de um truque quebrasse de algum modo o encanto que aquilo que não podemos explicar racionalmente geralmente nos provoca. Pareceu-me então que No True Magic é uma tentativa de desmontar a morte e torná-la mais acessível e menos mística e que a beleza das texturas sonoras que o trabalho contém provocam a sensação que existe um certo encanto na morte, na ideia de mortalidade e que é esse imponderável da vida que nos leva a querermos viver sempre intensamente.

De acordo com o press release do lançamento, em 1817, o poeta e filósofo Samuel Taylor Coleridge cunhou o termo “willing suspension of disbelief” que na abordagem da literatura permitiria ao leitor a suspensão do julgamento da implausibilidade de uma determinada narrativa. Com este álbum, os a jigsaw aceitam que a religião é, frequentemente, o melhor refúgio e abrigo que encontramos para ficarmos face a face com a receita mais indicada para o convivio com essa certeza, ao memso tempo que nos dão pistas sobre como aceitarmos os termos da nossa mortalidade.

Em No True Magic, os A Jigsaw souberam, mais uma vez, convocar um excelente elenco de músicos e formar uma verdadeira orquestra folk que se aperaltou com a melhor farpela e subiu ao cimo daquele estrado de madeira, com algumas ripas rachadas, mesmo ali ao lado de um balcão onde escorre o melhor néctar do Tenessee, condenado a descer por gargantas secas e protegidas com lenços empoeirados e marcados por uma vida de perigos e demandas. Alimentam e o aquecem o ambiente em redor apostando numa fusão de elementos da indie, da pop e da folk, que dão vida a melodias luminosas, feitas com cordas delicadas e arranjos particularmente deslumbrantes e cheios de luz, amiúde dominados também por instrumentos de sopro e por metais, que criam paisagens sonoras bastante peculiares.

Em onze composições sonoras carregadas de texturas, criadas através da justaposição de diferentes camadas de instrumentos e sons, podemos saborear uma conjugação com um elevado cariz contemporâneo e atual, apesar do forte revivalismo que a música dos A Jigsaw transporta sempre consigo. O resultado final é, como esta dupla já nos habituou, verdadeiramente vibrante e com uma energia bastante particular, numa banda que parece não querer olhar apenas para o universo tipicamente folk, mas também abraçar, através de alguns traços sonoros caraterísticos, as facetas mais soul e blues do próprio indie rock.

Se no tema homónimo ficamos imediatamente convencidos e conscientes do irrepreensível charme que nos espera e que seduz pela forma genuína e simples como os A Jigsaw lidam com os nossos medos e fantasmas, enquanto retratam eventos e relacionamentos de um quotidiano rotineiro, a folk adoçicada de Black Jewelled Moon, com uma irrepreensível articulação entre as vozes de João Rui e de Carla Torgerson, transborda uma luminosa e majestosa melancolia, num belíssimo tratado de folk acústica onde a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave que deslumbra e corrói, mesmo os corações mais empenedridos.

Ao terceiro tema deixamos de ficar do lado de fora e são-nos finalmente abertas de par em par as portas do poeirento saloon, um antro de vício e luxúria, em plena aridez do deserto mojave, mas que poderia ser também a tasca da Dona Matilde, algures entre Serpa e o Redondo. Embalados pelo blues fumarento, arrastado e fortemente sensual de Without The Prize, pouco depois, em Midnight Rain, já estamos (in)comodamente instalados na primeira mesa que encontramos, onde, enquanto olhamos em redor, reavivamos toda a carambola de emoções que habitam no lado mais agreste do nosso coração (How is your love with the people down below?).

O disco prossegue e em Them Fine Bullets somos trespassados pela bala mais luzidia e certeira do tambor do cano, depois de termos sido convocados pelo para um duelo, mesmo ali, do lado de fora do estabelecimento comercial, onde confrontámos aquele nosso maior medo que todos guardamos cá dentro, o que nos abate e nos acolhe e que é, quase sempre, a incontornável e inevitável morte (But I have the need of nothing, so I'll take them fine bullets to my grave). Tides Of Winter é o momento dramático em que sentimos o último sopro libertário e somos conduzidos ao além numa marcha dramática que devolve ao pó o que é do pó, para assim podermos aceder finalmente, em Gates of Hell, ao instante do juízo final, onde decidimos se queremos realmente deixar que as agruras do amor e desta vida nos dominem, ou se queremos ser nós a tomar as rédeas do nosso próprio destino e viver uma vida plena (I'm counting the days of trust lost with fate, and since you've been praying outside the wrong gate, Let me tell you brother heaven is just a word. Oh you've been looming by the gates of hell).

Até ao ocaso, refeitos e com uma segunda oportunidade guardada secretamente na algibeira do colete coçado, junto ao relógio de corda que conta em sentido contrário o tempo que falta para encararmos novamente o nosso destino, Bring Them Roses é uma canção que cabe nessa algibeira e na de todos aqueles que já viveram amores desencontrados e não correspondidos, com o alinhamento a encerrar com Hardly My Prayer, canção que plasma a enorme capacidade que esta dupla possui para escrever canções que tocam fundo e que transmitem mensagens profundas e particularmente bonitas.

Há definitivamente algo de especial nestes A Jigsaw e na originalidade com que usam aspetos clássicos da folk para criar um som cheio de frescura e vitalidade, mas onde também há espaço para composições melancólicas, com um acabamento bucólico e onde sa sensualidade feminina e o lado mais rugoso e áspero da masculinidade, muitas vezes se fundem e se confundem, em canções desprovidas de género e carregadas de emoções e sentimentos.

No True Magic é, por tudo isto e muito mais, outro marco numa época de extraordinária e definitiva afirmação do cenário musical indie e alternativo português. Confere, já a seguir, a entrevista que a dupla me concedeu e espero que aprecies a sugestão...

Com uma carreira já cimentada de uma década, iniciada com o EP From Underskin e depois do sucesso alcançado em 2011 com Drunken Sailors & Happy Pirates, regressam aos lançamentos com No True Magic, onze canções ambiciosas, impecavelmente produzidas e com um brilho raro e inédito no panorama nacional. Começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as vossas expetativas para este novo trabalho?

Creio que a melhor expressão seria a expectativa da continuidade. Tanto da continuidade da aceitação das nossas canções por quem já conhece o nosso trabalho como também a continuidade no acto de levar as nossas canções a cada vez mais pessoas de cada vez que temos um álbum novo. Isto porque as nossas expectativas em relação ao álbum já foram atendidas assim que ele ficou finalizado.

Confesso que o que mais me agradou na audição do álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral de No True Magic uma clara sensação de riqueza e bom gosto. Em termos de ambiente sonoro, o que idealizaram para o álbum inicialmente correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Há sempre coisas que se alteram entre a génese da criação das canções e depois o formato final que assumem nos álbuns. Faz tudo parte de um processo de refinamento da canção até que fiquemos satisfeito. Esses detalhes que vão surgindo são intencionais. Aliás como o é tudo neste álbum. Não existe nada nele sem uma forte razão para sustentar a sua inclusão no álbum. Um exemplo de uma canção que se transfigurou desde o momento da sua criação foi a tides of winter que inicialmente tinha sido pensada como uma peça com um arranjo simples e despido de instrumentações e acabou por se tornar a música que mais instrumentos tem neste álbum. Seriam necessários cerca de 50 músicos no mínimo para apresentar essa canção ao vivo tal como ela se encontra na gravação patente no álbum.

Além de ter apreciado a riqueza instrumental das cordas, dos sopros e da percussão, onde não faltam instrumentos como o violino, a harpa e uma trompa francesa e também a criatividade com que selecionaram os arranjos, também gostei particularmente do cenário melódico destas vossas novas canções, que achei particularmente bonito. Em que se inspiram para criar as melodias? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou as melodias são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?

O momento da criação pode ser um momento solitário. E com isto refiro-me à primeira centelha de uma melodia por exemplo. Mas só consideramos a música como aproximada de uma versão final do que será a partir do momento em que a experimentamos em conjunto e em que discutimos qual a ideia que cada um de nós os dois tem acerca do caminho a seguir com determinada música. Portanto acaba por ser um pouco a soma dos dois. Agora de onde vem a inspiração será porventura uma pergunta de difícil resposta pois não se sabe ao certo de onde advém essa magia. Mas algo que temos perfeita consciência é do trabalho imenso que nos aguarda se nos agrada aquela tal centelha. E é trabalho ansiado.

De acordo com vocês, True Magic aborda a questão da mortalidade e a imortalidade como o milagre maior e a diferença entre magia e ilusão, como se a explicação de um truque quebrasse de algum modo o encanto que aquilo que não podemos explicar racionalmente geralmente nos provoca. No True Magic é uma tentativa de desmontar a morte e torná-la mais acessível e menos mística? A beleza das vossas texturas sonoras quase que provoca a sensação que existe um certo encanto na morte, na ideia de mortalidade e que é esse imponderável da vida que nos leva a querermos viver sempre intensamente. Qual é, no fundo, a grande mensagem que querem transmitir neste disco?

A mensagem acaba por ser a consciencialização dessa mortalidade e dos artifícios de que nos munimos para fingir o seu esquecimento. Quanto ao que fazer com essa informação ou conhecimento a todos os instantes, isso será algo com o qual cada pessoa tem de lidar e para o qual este álbum não será ajuda. Ele é ajuda apenas no caminho até essa consciência.

Aproveitando a deixa... Como está neste momento a vossa relação com Deus? E com os dEUS belgas, de tom Barman, que inspiraram, através de uma das suas canções (Jigsaw You), o título do vosso projecto?

Seremos porventura ateus religiosos ou religiosamente ateus? Temos uma opinião e uma relação com esse Deus relativamente oposta. Contudo certo será que temos um bom punhado de perguntas para Lhe fazer. Quanto à relação com os dEUS já foi melhor. Isto em relação ao trabalho actual deles, já que em relação a álbuns como In a Bar Under The Sea, esses deixaram a sua marca de tal forma que a sua intemporalidade obriga a uma boa relação com esses.

No True Magic foi produzido pela própria banda. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?

Em boa verdade e exceptuando o nosso primeiro álbum Letters From The Boatman, devido à nossa inexperiência do trabalho de estúdio na altura, todos os nossos álbuns desde então foram sempre produzidos por nós pois a nossa visão acerca da estética musical é de tal forma certa em relação a como queremos que fique o álbum que não poderia ser de outra forma. A única diferença é que desta vez não há uma co-produção e assumimos a inteira responsabilidade desse "trabalho" nos créditos do álbum.

Adoro a canção Black Jewelled Moon. Os A Jigsaw têm um tema preferido em No True Magic?

Creio que o tema favorito de ambos é No True Magic. Não a música mas o álbum. Isto porque escrevemos e gravámos mais canções do que aquelas que estão no álbum. As 11 que chegaram ao álbum são as nossas favoritas. As outras ainda que partilhem da mesma devoção da nossa parte não encontraram lugar nesta primeira edição mas que irão certamente ver a luz do dia no futuro tal como já havia sido planeado.

Já agora, como surgiu a possibilidade de contar com a voz de Carla Torgerson neste tema?

Esta possibilidade foi criada por nós quando decidimos escrever esta canção para a Carla interpretar. Decidimos criar uma narrativa que envolvesse um papel feminino que teria que ser interpretado por ela e mais ninguém. Cada uma das palavras foi pensada para a sua voz. Isto é também fruto de uma paixão que nutríamos pela sua voz desde que a ouvimos no dueto Travelling Light dos Tindersticks há cerca de vinte anos no seu segundo álbum. Assim que terminámos a escrita da canção falámos com o Chris Eckman (vocalista dos Walkabouts) que nos deu o contacto da Carla e assim conseguimos falar com ela. Claro que à data em que decidimos escrever a canção para a Carla não sabíamos se ela iria aceitar ou sequer se alguma vez a iria ouvir. Foi um salto de fé que correu muito bem porque ela adorou a canção e de imediato acedeu a participar na mesma. E ainda que falemos da não existência de magia verdadeira. Quando recebemos as gravações da Carla que foram efectuadas em Seattle pelo Glenn Slater, foi um momento verdadeiramente mágico para nós.

Este disco conta com outras participações especiais de relevo, nomeadamente Susana Serra (violino), Gito Lima, Pedro Serra, Guilherme Pimenta, na bateria, Hugo Fernandes e Laurent Rossi, entre outros. São amigos com quem quiseram sempre trabalhar, ou profissionais que foram contactando devido ao seu valor artístico? Em suma, como foi possível congregar nomes tão ilustres à tua volta?

As participações nos nossos álbuns são sempre e em primeiro lugar fruto da admiração que nutrimos pela arte de quem decidimos convidar. E nisso já sabemos à partida que serão boas participações pois conhecemos o trabalho deles. Posto isto é natural que hajam casos que se diferenciam como o caso do convite da Susana Ribeiro que é tão devido à sua arte como envolve um lado emocional pelo facto de ter feito parte dos a a jigsaw ( e em boa verdade o seu coração está de tal forma entrelaçado no nosso que nunca deixará de fazer parte ainda que não presente). Nenhuma outra pessoa poderia ter escrito aquele violino nem nós o aceitaríamos. Temos também casos como o do Gito Lima que desde o nosso segundo álbum que tem gravado sempre o contrabaixo de um tema por álbum e que para além disso neste No True Magic é o responsável pelo design gráfico. O Pedro Serra faz parte agora da banda de suporte que criamos para levar este álbum para a estrada: a The Great Moonshiners Band, tal como o caso do Guilherme Pimenta que nós acompanha na estrada há cerca de três anos. Ou seja, volta aqui também a haver uma razão por detrás de tudo.

Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantarem em inglês e a opção será para se manter?

A razão principal foi o facto de ter iniciado os meus estudos anglo-saxonicos desde tenra idade e o inglês se ter tornado assim uma segunda língua tão natural como o Português. Em ultima análise a culpa de cantarmos inglês é dos meus pais por me terem proporcionado essa educação. E sendo que é uma opção que já dura há 15 anos, no âmbito de a A Jigsaw seria impossível ser de outra forma. Faz parte da nossa identidade.

O que vos vai mover sempre será a folk, o blues e a pop experimental ou gostariam ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico dos A Jigsaw?

Saber o que nos vai mover daqui a 20 anos é um exercício no campo da futurologia experimental. Mas certamente que haverá sempre uma relação umbilical com o folk ou blues independentemente do comprimento desse cordão. Nas palavras do Willie Dixon "os blues são as raízes e tudo o resto são os frutos". Saber daqui a 20 anos quanto distamos das raízes é um exercício fútil. Mas mantendo-nos fiéis a essa máxima do Dixon, não estaremos muito longe. Temos ideias para projectos futuros nossos onde exploramos outro tipo de sonoridades mas que, e mais uma vez, são unidos por essa consciência de proximidade da raiz comum. Os blues.


autor stipe07 às 20:51
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Cosmo Sheldrake - Tardigrade Song

Tardigrade Song, uma canção inspirada numa criatura com o mesmo nome, um micro animal pertencente à ordem taxonómica Folivora/Phyllophaga, é o possível avanço para EP de estreia de uma das mais recentes apostas da Transgressive Records. Falo de Cosmo Sheldrake, um compositor, produtor, vocalista e multinstrumentista inglês, oriundo de Londres e uma das novidades mais excitantes dos últimos tempos.

Depois de um single de sete polegadas, intitulado The Moss, editado em 2014 pela paradYse Records, amplamente escutado, nomeadamente na plataforma SoundCloud, Tardigrade Song é uma extraordinária sequência, que eleva Sheldrake para um novo patamar de cenários e experiências instrumentais, enquanto encaixa indiefolkhip-hop e electrónica, com noção de equilíbrio e um limbo perfeito.

A canção aposta num som esculpido e complexo, que faz uma ponte entre a pop ambiental contemporânea e o art-rock clássico, enquanto acumula, com  a percurssão e os instrumentos de sopro, um amplo referencial de elementos típicos desses dois universos sonoros e que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica e até, diria eu, objetivamente sensual. Acaba por haver uma sobreposição de texturas, sopros e composições jazzísticas contemplativas, numa paisagem imensa e ilimitada de possibilidades, com o resultado final a servir como um refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual. Confere...


autor stipe07 às 17:22
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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2015

Twerps - Range Anxiety

Marty Frawley, Jules McFarlane, Alex Macfarlane e Gus Lord são os Twerps, uma banda australiana oriunda de Melbourne e uma das coqueluches da conceituada Merge Records. Editado no passado dia vinte e três de janeiro, Range Anxiety é o segundo trabalho do coletivo, um disco gravado por Jack Farley nos Head Gap Studios e misturado por Matt Voigt. Além da Merge Records, este álbum também faz parte do cardápio da Chapter Music, sendo o sucessor de um homónimo editado em 2009.

Em treze canções os Twerps seduzem pela indie pop calorosa, vibrante e de enorme beleza melódica que propôem. Contemplativos, profundos e particularmente inspirados no modo como criam canções que transmitem sensações onde a nostalgia do nosso quotidiano se revê, logo na confessional I Don't Mind, além de plasmarem com fulgor o som retro e vintage onde se revêem, parecem querer dizer-nos que nada mais lhes importa a não ser ficarem um dia famosos por comporem típicas canções de amor, feitas com guitarras levemente distorcidas e harmoniosas, banhadas pelo sol dos subúrbios e misturadas com arranjos luminosos e com um certo toque psicadélico.

Estes são os traços identitários que abundam no cardápio sonoro deste grupo, que agora, em Range Anxiety, olha cada vez mais e com maior atenção para o rock alternativo dos anos oitenta e  provam definitivamente serem compositores pop de topo, capazes de soar leves e arejados, mesmo durante as baladas de cariz mais sombrio e nostálgico. Se o esplendor acústico das cordas irradia nas festivas e solarengas Back To You e Cheap Education e no rock clássico de New Moves, já temas como Stranger, Shoulders ou Simple Feelings, mostram que os Twerps também sabem distorcer as guitarras e usar a bateria com diferentes cadências, dando assim um cunho ritmico que procura a diversidade, sem que isso coloque em causa o propósito claro de criar um álbum sensível e com canções cheias de personalidade e interligadas numa sequência que flui naturalmente. Esta Simple Feelings e Adrenaline acabam por encarnar uma das melhores sequências de Range Anxiety, já que, de certo modo, representam dois polos totalmente opostos, para um fim comum; Se na primeira escuta-se a voz grave e imponente de Jules, numa melodia amigável, mas algo psicadélica, feita com guitarras distorcidas, a seguinte arrasta-se até ao fim num longo mas sereno diálogo entre a voz doce de Marty e diferentes timbres das cordas e da percussão, que vão crescendo de emoção e intensidade, há medida que a voz feminina vai deixando o protagonismo para os instrumentos. Jules acaba por não querer ficar atrás e em Fem Murdereres adoçica também a sua voz, enquanto a distorce ligeiramente, oferecendo-nos, com a ajuda do baixo e das guitarras, uma espécie de narrativa leve e sem clímax, com uma dinâmica bem definida e muito agradável.

Ouvimos cada uma das músicas deste trabalho e conseguimos, com uma certa clareza, perceber os diferentes elementos sonoros que foram sendo adicionados e que esculpiram as canções, com as guitarras, melodicamente sempre muito próximas da postura vocal e os arranjos dedilhados a sobressairem, não porque ficam na primeira fila daquilo que se escuta, mas porque suportam aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que a canção toma e nas sensações que transmite.

Num disco que não deixa de ser variado quanto às temáticas que aborda, vai-se, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa espécie de indie-folk-surf-suburbano, feito por mestres de um estilo sonoro carregado de um intenso charme e que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um charme ainda maior pela peça em si que este disco representa. As distorções são sempre bem controladas, os ruídos minimalistas e os arranjos das cordas estão dissolvidos em doses atmosféricas, mas expressivas e muito assertivas e a subtileza na voz e o modo como Jules e Marty se alternam, denota uma longa aprendizagem e a pecceção do melhor espaço que cada um pode ocupar na busca por uma musicalidade amena, coberta por uma aúrea de sensibilidade e fragilidade romântica indisfarçáveis. Range Anxiety está imbuído de uma enorme beleza melódica, escuta-se com enorme fluidez, há um encadeamento claro entre os vários temas, uma noção de sequencialidade e uma relação clara entre as diferentes composições, mesmo aquelas que, como é o caso de Love At First Sight, parecem instrumentalmente opostos no conceito e na ideia que procuram aflorar.

Em Range Anxiety os Twerps avançam em passo acelerado em direção à maturidade, num disco extraordinariamente jovial, que seduz pela forma genuína e simples como retrata eventos e relacionamentos de um quotidiano rotineiro, um trabalho fantástico para ser escutado num dia de sol acolhedor. Espero que aprecies a sugestão...

1. House Keys
2. I Don't Mind
3. Back to You
4. Stranger
5. New Moves
6. White as Snow
7. Shoulders
8. Simple Feelings
9. Adrenaline
10. Fern Murderers
11. Cheap Education
12. Love at First Sight
13. Empty Road

 


autor stipe07 às 19:04
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Balthazar – Then What

Balthazar - Then What

Três anos após o aclamado Rats, os belgas Balthazar estão de regresso aos discos com Thin Walls, disco que vai ver a luz do dia a trinta de março através da etiqueta Play It Again Sam.

Thin Walls foi gravado em Inglaterra, nos estúdios Yellow Fish Studios, com o apoo de Ben Hillier (Blur, Depeche Mode, Elbow) e Jason Cox (Massive Attack, Gorillaz).

Then What é o primeiro avanço divulgado do disco, uma canção que fala de alguém que está completamente dominado pelo amor que sente por alguém, ao ponto de perceber que a sua felicidade deixou de depender de si próprio e que não lhe resta outra saída senão aprender a lidar com essa nova realidade. Confere...


autor stipe07 às 17:42
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Domingo, 1 de Fevereiro de 2015

Lower Heaven - Home and Away EP

A paixão pela música e a ânsia constante de descoberta é um vício que guardo dentro de mim, fortemente impregnado e indissociável daquilo que sou enquanto ser humano que procura sentir-se plenamente realizado todos os dias. O contacto com novas bandas e projetos acaba por se tornar num excelente exercício de encontro e descoberta, documentado com fidelidade neste blogue. Conheci recentemente os norte americanos Lower Heaven por causa de Pulse, um extraordinário disco pleno de guitarras cheias daquele fuzz declaradamente vintage e com uma sonoridade algo lo fi, com a voz, muitas vezes distorcida e as escolhas de arranjos a conferir à música deles um ar ainda mais soturno. Posteriormente, tendo apresentado ao grupo a minha análise critica do álbum, recebi como resposta um extraordinário EP, intitulado Home and Away e que apesar de ter sido cronologicamente editado antes de Pulse, não pode deixar de ter um lugar de destaque neste espaço, principalmente por causa do seu fantástico conteúdo.

Editado em agosto 2014, Home and Away tem uma história e um conceito que não se ligam com Pulse, um disco que, apesar de editado depois deste EP, foi gravado em 2012 e 2013. Entretanto, estas quatro canções surgiram quase espontaneamente após a gravação dos temas de Pulse e os Lower Heaven gostaram tanto delas que quiseram  partilhá-las o mais rápido possível, até porque Pulse estava em pleno processo de mistura e produção. 

Os dois trabalhos acabaram por ser editados em separado, nunca se tendo colocado a hipótese de adicionar estas canções a Pulse, não só para não ficar um álbum demasiado extenso mas, principalmente, porque, como já referi, há uma dinâmica particular e mesmo uma sonoridade bastante distinta. Se Pulse era dominado pelo tal fuzz declaradamente vintage e com uma sonoridade algo lo fi, Home And Away tem um ambiente sonoro mais amplo, límpido e luminoso, mantendo-se o efeito na voz, num registo em eco, como o principal ponto de encontro entre os dois registos. Esta postura vocal acaba por revelar um curioso efeito na música deste Lower Heaven já que, é aquele toque que lhes confere a implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica, apesar da amplitude etérea deste EP. Logo em Holding Back acedemos à dimensão superior onde os Lower Heaven nos sentam e o baixo encorpado, o efeito da guitarra, o arranjo sintetizado e a percurssão hipnótica e pulsante de Through The Seasons, fazem deste EP, logo ao segundo tema, uma daquelas preciosidades que devemos guardar com carinho num cantinho especial do nosso coração.

Os Lower Heaven sabem muito bem como assumir uma faceta fortemente etérea e melancólica e como criar canções cheias de uma fragilidade incrivelmente sedutora e alicerçadas numa certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica. A surf pop ensolarada e descontraída de Swimmers e o rock com enormes resquícios do glam dos anos oitenta de All Becomes Alive, um tema que convida, simultaneamente, à dança e à melancolia, por causa das suas texturas eletrónicas polvilhadas com elevado charme, surpreendem de um modo excitante e ao mesmo tempo acolhedor.

Home And Away é um verdadeiro refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual, um enorme raio de luz que nos envolve num imenso arsenal de arranjos e detalhes, sendo para os Lower Heaven mais um atestado de qualidade ao alcance de poucos projetos que pretendem deixar uma marca indelével neste universo sonoro. A banda está atualmente em estúdio a preparar já o sucessor de Pulse, de acordo com o que me confidenciou Marcos, um dos membros da banda. Espero que aprecies a sugestão...

A mostrar HOME AND AWAY FINAL.jpg

1. Holding Back
 
2. Through The Seasons
 
3. Swimmers
 
4. All Becomes Alive


autor stipe07 às 21:10
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