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Bored Nothing – Some Songs

Quinta-feira, 04.12.14

Bored Nothing é um projeto de Melbourne, na Austrália, liderado por Fergus Miller. Depois de ter lançado diversas demos e EPs, disponíveis num dos mais interessantes e complexos bandcamps que já tive a oportunidade de espreitar, chegou em 2012 o disco de estreia, por sinal um homónimo, através da Spunk Records. Dois anos depois, a vinte e sete de outubro, viu a luz do dia Some Songs, o segundo disco.

Some Songs é indie rock introspetivo de primeira água, plasmado em treze canções de fino recorte e uma superior sensibilidade, tão simples e descomprometidas como deveria ser a nossa própria existência, tantas vezes absorvida por instantes que obrigam o nosso superior interesse pessoal a lidar com dilemas, quimeras e frustrações, que certamente nos enriquecem, mas que não precisam de dar sinal de si em permanência. Simple Songs pretende oferecer-nos exatamente o oposto, uma sonoridade solta e etérea, assente no fino e delicado dedilhar das cordas, feito por guitarras vintage contidas e que geralmente procuram um ponto de equilíbrio, felizmente quase sempre instável, entre a submissão acústica e a aparente agressão de efeitos e distorções, que vão subindo de volume à medida que o alinhamento avança. Esta receita não deixa também de ser abastecida por alguns simples detalhes e arranjos sintetizados, com momentos em que domina uma toada lo fi, crua e pujante, cheia de quebras e mudanças de ritmos, com uma certa, e quanto a mim feliz, dose de improviso.

Assim, Some Songs, apesar da aúrea fortemente melancólica de alguns temas, tem o condão de nos presentear com um alinhamento caloroso e reconfortante, sendo  uma banda sonora ideal para aquecer os dias mais tristonhos e sombrios que descrevem este outono. Ao som dele podemos meditar e repousar embalados por histórias que conterão, certamente, um vincado cariz autobiográfico, de um músico com pouco mais de vinte anos que, ao segundo disco, continua a tentar entender melhor o seu âmago e a lidar com as vicissitudes normais da sempre difícil transição para a vida adulta, fazendo-o através de tudo aquilo que de mais transcendental e lisérgico tem sempre a composição e a criação musical.

O alinhamento de Some Songs começa com um simples instante acústico chamado Not e depois chega finalmente a bateria e o baixo em Ice-Cream Dreams, o primeiro single divulgado, sem dúvida um momento alto do disco, devido ao ritmo e ao modo cativante como Bored Nothing nos oferece a sua voz com uma certa dose de reverb que amplia a tonalidade doce e sussurrante da mesma, como se o cantor nos soprasse ao ouvido enquanto espalha o charme incofundível do seu registo vocal. Depois, ainda no período inicial, temas como Where Do I Begin e We Lied merecem também audição dedicada porque, apesar de conduzidas pela guitarra, expandem-se e ganham vida devido ao critério que orientou a escolha dos restantes instrumentos e à forma como a voz mostra novamente uma sede incontrolável de protagonismo e se posiciona e se destaca. Pessoalmente, fui invariavelmente seduzido pelo teclado que, desde logo o inicio, toma conta de We Lied e o modo com o batida sintetizada passou a acompanhar essa melodia, pouco depois, numa dança com uma energia ímpar, cheia de outros sons que se atropelam durante o percurso da canção e que fazem dela, o meu momento prefeirdo do disco. Este exemplo é fundamental para o ouvinte mais dedicado perceber que a personalidade de cada tema do disco pode demorar um pouco a revelar-se nos nossos ouvidos, mas certamente será compensador experimentar sucessivas audições para destrinçar os detalhes precisos e a produção impecável e intrincada que as distingue e que, por acréscimo, sustenta o conteúdo.

Um outro instante acústico intitulado Ultra-lites marca a passagem para um novo capítulo do trabalho, mais elétrico, ritmado e luminoso, cheio de canções conduzidas por melodias assentes em guitarras distorcidas e um baixo e uma bateria sempre em sintonia, mas onde também não faltam detalhes sintetizados inspirados. Do quase punk lo fi de What You Want Always ao blues de Why You Were Dancing With All Those Guys, passando pela pop luminosa de Where Would I Begin, este é um novo periodo que reforça o cariz eclético de um músico inspirado e ajuda a fazer de Some Songs um disco feito na emoção e na intuição.

Até ao final, o rock experimental de Song for Jedder e de Ultra-lites II, os laivos de rock progressivo de Don't Go Sentimental e o groove de Artificial Flower, são o capítulo final de um compêndio de várias narrativas, onde convive uma míriade alargada de sentimentos que, da angústia à euforia, conseguem ajudar-nos a conhecer melhor a essência de um Fergus Miller sereno e bucólico. Com canções cheias de versos intimistas que fluem livremente, Bored Nothing procura através da música a sua individualidade, enquanto conta experiências e nos ajuda a perceber sobre aquilo que medita, as suas conclusões e as perceções pessoais do que observa, enquanto a sua vida vai-se desenrolando e ele procura não se perder demasiado na torrente de sonhos que guarda dentro de si e que nem sempre são atingíveis. Espero que aprecies a sugestão...

Bored Nothing - Some Songs

01. Not
02. Ice-cream Dreams
03. The Rough
04. We Lied
05. Ultra-lites
06. Do What You Want Always
07. Why Were You Dancing With All Those Guys
08. Where Would I Begin
09. Come Back To
10. Song For Jedder
11. Don’t Go Sentimental
12. Artificial Flower
13. Ultra-lites II

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publicado por stipe07 às 21:18

Cairobi - Zoraide

Quinta-feira, 04.12.14

Cairobi

Com músicos da Inglaterra, México, Itália e Áustria, mas baseados atualmente em Londres, os Cairobi são Giorgio Poti, Salvador Garza, Stefan Miksch, Alessandro Marrosu e Aurelien Bernard, um coletivo prestes a lançar-se nos lançamentos discográficos com Distante Fire, um EP que vai ver a luz do dia a dezasseis de fevereiro do próximo ano.

Zoraide é a canção que abre o alinhamento de Distante Fire, uma junção sónica e psicadélica de um verdadeiro caldeirão instrumental e melódico, um momento de pura experimentação, assente numa colagem de várias mantas de retalhos que nem sempre se preocupam com a coerência melódica e que, por isso e por ser extremamente dançável, deverá ser objeto do maior deleite e admiração. Esta é, acreditem, uma canção que desperta-nos para um paraíso de glória e esplendor e subjuga momentaneamente qualquer atribulação que nesse instante nos apoquente. Confere...

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publicado por stipe07 às 18:28






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