Terça-feira, 12 de Março de 2013

Youth Lagoon - Wondrous Bughouse

Depois de se ter estreado em 2011 com The Year Of Hibernation, um dos mais belos disco editados nesse ano, Trevor Powers, um músico norte americano que parece viver num universo mágico conhecido e construído inteiramente por ele, está de regresso com Wondrous Bughouse, disco lançado no passado dia cinco de março por intermédio da Fat Possum.

Trevor Powers assina como Youth Lagoon e parece viver mergulhado num mundo controlado por sintetizadores, que criam melodias que passeiam pelo mundo dos sonhos. As letras que escreve dançam nos nossos ouvidos e a voz deste jovem compositor cresce num misto de euforia, subtileza e entrega. 

Em Wondrous Bughouse cada sílaba ou frase das dez canções parece servir um propósito global, como se estivessemos na presença de um álbum conceptual sobre uma casa governada por insetos. Com base nessa observação fantástica e literal, o disco parece um conto infantil que poderia ser ilustrado pela mesma capa de cores exageradas e traço pueril que guarda a rodela. No entanto, uma audição mais atenta mostra-nos que este passeio por um universo feito de exaltações melancólicas nada mais é do que um retrato sombrio do estranho quotidiano que sustenta a vida adulta.

Enquanto o clima matinal e as composições agridoces de The Year of Hibernation pareciam lentamente acordar o músico de um estágio letárgico, em Wondrous Bughouse a compreensão da maturidade e a depressão rompem com a antiga lógica. Por mais encantadoras que sejam as melodias abordadas pela obra, está latente uma dor profunda que praticamente afoga tudo o que Powers construiu há dois anos. O amor, a solidão, o abandono, a vida e a morte, tudo serve como assunto, conceitos que pouco têm a ver com o universo das histórias infantis, mas antes com a crueza da realidade.

Dropla, o meu tema preferido de Wondrous Bughouse e, para já, na liderança das minhas melhores canções do ano, é um exemplo perfeito de uma belíssima melodia, que quase abafa o desesperado grito de Youth Lagoon para que a morte o poupe, ou que, pelos menos, os seus demónios não permitam que ele se consuma numa espiral recessiva mais profunda que a crise económica em que vivemos (You will never die, you will never die, You're playing a song, one that's for me, While my physical body is turning in my grave, Fierceful demon, no demon the brain, But It doesn't know how!). Dropla sintetiza a amargura do músico por ver a infância a ficar para trás e ter agora de conviver com as obrigações da vida adulta.

Trevor esforça-se por dar alguma cor e alegria às letras depressivas, através da sonoridade e da conceção visual de Wondrous Bughouse, onde há um certo clima circense e uma evidente psicadelia pop que lida com as orquestrações lo fi, uma espécie de meio termo entre os clássicos Funeral dos Arcade Fire (2004) e o In A Aeroplane Over The Sea dos Neutral Milk Hotel (1998).

Mute e Dropla são as canções mais acessíveis, mas dá um gozo enorme perceber que Wondrous Bughouse revela, a cada audição, novos detalhes, que antes pareciam de impossível previsão. Sleep Paralysis, por exemplo, contém um ambiente sonoro similar a Year Of Hibernation, até que uma onda de sintetizadores muda tudo e incendeia a canção com sons inéditos na carreira do músico. A partir de Third Dystopia esta nova variedade de elementos ganha novo fôlego e as batidas eletrónicas antecipam o que a melancólica Raspberry Cane reformula de maneira acessível e quase comercial do universo sonoro de Youth Lagoon. Daisyphobia encerra o álbum com pequenas contradições intencionais, um misto de maturidade e regresso ao tal clima infantil de Year Of Hibernation, como se a mente de Powers se perdesse no tal mundo adulto que ele mesmo criou.

Mesmo que a loucura seja uma espécie de fio condutor de Wondrous Bughouse e que ela seja tratada como um referencial que flutua constantemente entre a metáfora e a realidade, através de letras corroídas pelo medo de encarar o quotidiano adulto, as melodias ascendentes e alegres do disco, fazem dele uma obra prima, porque raramente um compositor conseguiu analisar o universo de um jovem adulto com tanta veracidade e dor e, simultaneamente, deixar-nos com um enorme sorriso nos lábios quando somos confrontados com a beleza melódica de que se serve para atingir tal desiderato. Espero que aprecies a sugestão...

01. Through Mind and Back
02. Mute
03. Attic Doctor
04. The Bath
05. Pelican Man
06. Dropla
07. Sleep Paralysis
08. Third Dystopia
09. Raspberry Cane
10. Daisyphobia


autor stipe07 às 13:12
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Segunda-feira, 11 de Março de 2013

Birds Of Tokyo – March Fires

Os Birds Of Tokyo são uma banda de indie rock banda australiana, natural de Perth e March Fires, lançado pela etiqueta EMI, é o seu último disco, editado a um de março. March Fires sucede a  Day One (2007), Universes (2008) e ao homónimo Birds Of Tokyo, de 2010 e foi produzido por Dave Cooley (Silversun Pickups) e misturado por Tony Hoffer (M83, Beck, The Kooks, Belle & Sebastian).

This Fire é o grande destaque de March Fires, um tema que quando foi lançado em outubro passado como um single deu origem a um EP homónimo e que relançou a carreira da banda. Atualmente a banda conta na sua formação com Ian Kenny, Adam Spark, Adam Weston, Glenn Sarangapany e Ian Berney.

Os quarenta e cinco minutos da sonoridade de March Fires assentam num indie rock épico, feito com uma enorme míriade instrumental, texturas sonoras ricas, diversificadas e apoiadas por uma postura vocal carregada de emoção e entusiasmo. É um álbum sólido, com uma linguagem simbólica, bem patente no próprio título do disco e, do início ao fim, otimista e caloroso. De certa forma seguem a fórmula dos Coldplay, a primeira banda que me fizeram recordar, já que injetam a sua música com uma mistura saudável de teclados, sintetizadores e outras influências pop para, juntamente com as guitarras sempre muito interligadas e carregadas de distorção, apresentarem uma espécie de soft rock, cheio de energia e cor. Não é uma pop descartável, apesar de não ter grandes segredos, mas um conteúdo que merece realce porque as onze canções criam um pacote coeso, delicadamente pensado, trabalhado e produzido meticulosamente.

Ian Kenny tem uma voz mesmo no auge da rebeldia, capaz de persuadir qualquer um a render-se aos seus anseios mais melancólicos, já que é um mestre a criar refrões aditivos e que entram facilmente no ouvido. Ele e as melodias criadas pelas teclas de Sarangapany, são mesmo, na minha opinião, os dois trunfos maiores de March Fires; É quase impossível não sentir-se um pico de emoção durante a audição do disco e aquela aúrea épica é uma presença constante, principalmente em This Fire, Boy e Lanterns, uma canção capaz de nos levar a um lugar onde tudo parece possível. Este impacto emocional é uma agradável sensação já que a fórmula escolhida para o causar é simples e de fácil absorção, para quem, obviamente, aprecia a típica sonoridade rock deste universo sonoro. Espero que aprecies a sugestão...

01. Liquid Arms
02. This Fire
03. When The Night Falls Quiet
04. Motionless
05. Lanterns
06. The Others
07. White Leaves
08. Blume
09. Boy
10. Sirin
11. Hounds


autor stipe07 às 22:39
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Domingo, 10 de Março de 2013

Air Review – Low Wishes

Depois do EP America's Son, os Air Review, uma banda norte americana de Dallas, no Texas, formada por Dragan Jakovljevic, Douglas Hale, Richard Carpenter, Jeff Taylor e Justin Robinson, estão de regresso com Low Wishes, disco lançado no passado dia vinte e nove de janeiro pela Blue Velvet/Spune e que inclui os quatro temas desse EP e mais cinco canções.

Desde que se formaram, em 2008, os Air Review têm subido a pulso no cenário alternativo norte americano. Da garagem onde começaram, até abrirem concertos para os The Flaming Lips e os Grimes, é o rock alternativo que os tem ajudado a subir os vários degraus que já escalaram, até chegarem a este Low Wishes, o disco que certamente os tirará definitivamente da penumbra.

Produzido pela própria banda, Low Wishes tem uma sonoridade madura e assertiva. Dos sintetizadores de Young à toada folk de America's Son, Low Wishes é transversal a diferente géneros musicais e uma espécie de soma de várias partes, cujo resultado é grandioso e até comovente.

A cereja no topo deste bolo sonoro acabam por ser as letras de Douglas Hale, belas e introspetivas; Quando ele canta no tema homónimo, I sold my ashes for a vial of the truth, é fácil imaginá-lo com um brilho sincero no olhar, que torna claro que os Air Review são algo mais do que uma simples nova banda de indie pop. Tematicamente há uma real obsessão pela simplicidade e por aquelas pequenas verdades que sustentam os nossos dias, nem smepre iguais, mesmo que já custe um pouco a alguns de nós sonhar e o coração esteja já demasiado marcado pelas vicissitudes intrínsecas à própria existência humana. Isso está bem plasmado na misteriosa H (Seven weeks of life is enough to call you mine).

Seja como for, o otimismo parece ser a palavra de ordem e a pedra de toque já que, no começo do álbum, em Rebel, os Air Review conquistam rapidamente o nosso respeito e admiração, porque nos convidam a nunca virar a cara à luta ou desistir; There’s only one thing left to believe in now that we’re old. And it’s the one thing I cannot ignore – that you’re always on my mind. Mas o meu grande destaque em termos de performance vocal está quase no final, em My Automatic, canção onde a voz tem uma beleza tal que nos obriga a desviar toda a nossa atenção para a mesma e, caso ainda não o tenhamos feito nenhuma vez durante a audição, a aumentar ainda mais o volume; Feel my bones/See I have an unkempt soul. Make it so no one knows/This is my automatic.

Low Wishes merece, quanto a mim, uma atenção constante, apesar deste destaque vocal. Os nove temas agarram-nos, irresistivelmente, até ao fim, têm uma familiariedade distinta e radiante, entrelaçam-se e isso amplia o efeito que o disco provoca no ouvinte que se predispôe, naturalmente, a aceitar de braços abertos as boas sensações que os Air Review fazem nascer dentro de nós e os nobres conselhos que nos reservaram, como se a sua música quisesse ser mais uma luz nas nossas vidas, pronta a iluminar os nossos passos e a ser mais um dos nossos faróis. O resultado final de tudo isto é uma experiência auditiva angustiante e sincera mas, simultaneamente, bonita e apaixonada, de um álbum que poderá bem ser, desde já, um dos melhores lançamentos indie de 2013. Espero que aprecies a sugestão...

 

01. Rebel
02. Young
03. America’s Son
04. H
05. Waiting Lessons
06. Low Wishes
07. My Automatic
08. Fin
09. Animal


autor stipe07 às 18:07
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Sábado, 9 de Março de 2013

Sugiro... XXVII


autor stipe07 às 12:18
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Sexta-feira, 8 de Março de 2013

Manuel Fúria - Manuel Fúria Contempla Os Lírios Do Campo

Manuel Fúria Contempla Os Lírios Do Campo é o novo disco de Manuel Fúria, ex-vocalista d'Os Golpes e um dos nomes de maior relevo do cenário musical nacional atual. Este novo álbum é uma edição Amor Fúria e sucede a Manuel Fúria Apresenta As Aventuras Do Homem Arranha (2008);  Foi lançado no passado dia vinte e oito de janeiro e produzido pelo próprio Manuel Fúria. O disco conta com as participações de Hélio Morais (Paus, Linda Martini), Martinho Lucas Pires (Deserto Branco), Lucas (Os Velhos), Silas Ferreira (Pontos Negros, Te Voy A Matar, Náufragos), Tomás Wallenstein (Capitão Fausto, Náufragos), Paulo Jesus (João Só e Abandonados, Náufragos), Tomás Cruz (Asterisco Cardinal Bomba Caveira, Náufragos), Daniel Hewson (Madonna, Groove Armada, Náufragos), Ricardo Pinto (Kumpanhia Algazarra, Náufragos), Bruno Margalho (Infrasonic, Chaterine Mourisseau, Náufragos), Luis Montenegro (SALTO), Francisca Aires Mateus (Náufragos) e Madalena Sassetti (Náufragos). Quase todos estes nomes estão ligados a outras bandas ou iniciativas em nome próprio, um espírito de partilha recente na música moderna portuguesa e que se aplaude.

Que Haja Festa Não Sei Onde é o primeiro single extraído do disco Manuel Fúria Contempla Os Lírios Do Campo e da sua banda Os Naúfragos, tema onde se pode ouvir que Abril ainda não morreu, O sol ainda não morreu, o que pressupõe, desde já, como ficou plasmado na entrevista que Manuel Fúria me concedeu e transcrita abaixo, que estamos na presença de um escritor de canções algo subversivo, que não é imune ao seu país contemporâneo, mas que se inspira, principalmente, no Portugal profundo feito de árvores, campanários, rixas e desamores e onde a Lisboa multifacetada, capital do seu coração, era, no passado, uma espécie de ponto colorido neste enorme jardim à beira mar plantado, mas que ele agora quer que arda, para que o país não mais se confunda com uma simples e pequena parte de um todo muito maior.

Os nove temas deste álbum exalam uma estranha beleza e um profundo sentimento de urgência, uma espécie de grito sincero  e algo confessional, porque neles Fúria clama, quase em fúria e de uma forma absolutamente sincera, para que nunca nos esqueçamos das nossas raízes, mas que também serve de aviso, já que terminou o tempo das hesitações e da nostalgia incipiente e o futuro só anima e conforta quem ama com coragem e em permanente espírito de alegria e festa. Manuel Fúria é um homem de fé, cheio de esperança de que deixemos de viver de vez numa espécie de eterna espera e deriva, neste limbo angustiante que clama por uma catarse coletiva alegre, festiva e revolucionária.

Sonoramente, para que esse efeito se atinja, Manuel Fúria e os Náufragos obedecem a uma miríade sonora que nos remete para a folk mas que também revive sonoridades punk rock do início dos anos oitenta e que ainda hoje estão atuais. Os arranjos trasmitem grandiosidade às canções e os metais, cordas e instrumentos de sopro elevam-nas a um interessantíssimo patamar festivo, de cor, alegria e excelência. Entrando em comparações, quase que me atrevo a dizer que temos aqui um travo de Arcade Fire em português. Confere então a entrevista que Manuel Fúria me concedeu, com o inestimável apoio da Raquel Lains da Let's Start A Fire e espero que aprecies a sugestão...

Declaração de intenções
Estandarte
Procuro a claridade
Que haja festa não sei onde
Jogo do sapo
A tempestade
Canção para casar contigo
À minha alma
Os lírios do campo

Depois de Manuel Fúria Apresenta As Aventuras Do Homem Arranha de 2008, surge finalmente o sucessor, Manuel Fúria Contempla Os Lírios do Campo. Quais são as principais diferenças entre os dois discos?

Há duas grandes diferenças. A primeira tem a ver com o aspecto formal: esse primeiro registo são 4 canções + 1 lamento musicado cuja gravação aconteceu de modo caseiro, rasteiro, rafeiro - uma produção do Tiago (na altura) Guillul bem à medida dos parâmetros sónicos da FlorCaveira pura; este segundo disco - 1 lamento musicado + 8 canções - foi gravado pelo José Fortes, produzido por mim e misturado pelo Nelson Carvalho, procuramos a alta fidelidade e um som grandioso que pudesse ser tradução dos Náufragos a tocarem num teatro (o que de facto aconteceu, no Belém Clube). A segunda diferença surge ao nível da substância propriamente dita: o primeiro disco aborda a desadequação a um sítio novo, grande e confuso, este novo trabalho tem a ver com o ponto de náusea dessa desadequação e a partida à procura de um lugar que rime com plenitude.

 

Este novo álbum está cheio de participações especiais, a maioria nomes ilustres do cenário musical nacional atual. Como foi possível congregar tantos cúmplices de excelência em redor desta causa?

Não foi particularmente complicado. Na verdade são pessoas com as quais fui travando cumplicidades ao longo destes últimos anos. A medida dessa possibilidade compreende-se na distância que separa os dedos de uma mão de um telefone.

Durante a audição de Manuel Fúria Contempla Os Lírios do Campo, chamou-me particularmente a atenção a escrita de algumas canções e o uso de palavras como «pátria», «amor», caridade», «coração», «bondade», «rei», «fé», «rapariga», «noiva», «Cristo», «contemplação», «mistério» e «alma. Estes vocábulos remeteram-me, de algum modo, para o passado histórico do nosso país, feito de paisagens bucólicas e com forte pendor religioso, onde talvez a Lisboa que Queres Ver a Arder, fosse uma exceção. Esta minha suposição está correta? Onde te inspiras para escrever as tuas canções?

Está correcta e incorrecta ao mesmo tempo. Não vivo absorvido pela História, mas dou os meus passos consciente do peso que carregamos nos nossos ombros e em relação ao qual somos devedores e, no meu caso pessoal, amante. Amante do passado, do presente e do futuro. Isto significa que as minhas referências não são exclusivas de tempos antigos, isso poderá servir de ponto de partida para o que escrevo mas o caminho da escrita passa pelas ruas que percorremos, as estradas que viajamos, como num filme do Rossellini ou do Kiarostami, o aqui e o agora assim mesmo. Depois há a direcção para onde esse caminho aponta, mas isso é outra história.

 

E já agora, consideras-te um poeta cantautor?

Nem uma coisa nem outra. Escrevo letras de canções, o parente pobre do poema (e parece-me que a única pessoa no mundo inteiro que escreve letras que são poemas, ou o contrário, é o Leonard Cohen) . Também não gosto de me chamar cantautor, acho a palavra pretensiosa e a certo ponto desprezível. Considero-me alguém com coisas para dizer e que inventa fórmulas para isso através dos códigos da música pope. Um cantor. Um autor. Um inventor.

 

Ainda nas letras, no tema Que Haja Festa Não sei Onde ouve-se Abril ainda não morreu, O sol ainda não morreu. Também te consideras um músico de intervenção?

Não no sentido politizado do termo intervenção; sentir-me-ia muito contente se as minhas coisas interviessem, significaria que o mundo que trago comigo influencia as pessoas, e como acredito que é um mundo bom, as pessoas poderiam participar disso. Depois este Abril vai para além do Abril dos cravos, é o Abril dos lírios - que são o que importa.

 

Acompanho o universo musical indie e alternativo com interesse, em particular o que se faz na América do Norte e que revive antigas sonoridades punk rock do início dos anos oitenta. Pode-se dizer que o rock feito de canções que sabem tão bem e se esfumam tão rápido como um cigarro são também uma das tuas maiores influências, independentemente da míriade sonora presente em Manuel Fúria Contempla Os Lírios do Campo? Se estiver errado, corrige-me!

Com certeza que sim. Cresci a ouvir e a cantar canções. Ouço-as todos os dias. Neste preciso momento estou a ouvir uma e tudo (Higgs Boson Blues do novo disco do Nick Cave). Ouvi e ouço outro tipo de formatos e abordagens à música, ao som, ao ruído, mas é a canção que mais me interessa.

 

Há quem te considere the next big thing da pop nacional. O que tens a dizer em tua defesa?

Sou inocente.

 

O vídeo do single Que Haja Festa Não Sei Onde é muito simples, mas extraordinário, festivo e cheio de participações especiais. Como correram as gravações?

Foram tranquilas. Desde o início que o Alexandre Azinheira (o realizador) e eu definimos os parâmetros sob os quais o teledisco teria que se reger: banda a tocar, fundo com a pintura da paisagem de Matlock do William Marlow e pronto. Estava tudo organizado, a única coisa que falhou foi o Benfica ter perdido no jogo dessa noite.

 

Tens uma canção preferida neste álbum?

A dos Velhos, À Minha Alma.

 

Como tem corrido a promoção ao disco? Dia 22 de Fevereiro vais tocar no Ritz Clube, em Lisboa e dia 23 de Fevereiro no Plano B, no Porto. Há surpresas? Vão aparecer convidados? O que podes desvendar? (como já aconteceu respondo com base nisso...)

De um modo geral a imprensa tem recebido bem este trabalho, à excepção de um ou outro jornalista que não vai à bola comigo e com as minhas coisas. Os concertos correram muito bem. O Ritz estava apinhado de gente e foi uma alegria enorme partilhar o placo com amigos, oferecer um espectáculo bem pensado, ensaiado e tocado, e acabar com um coro gigante, constituído pela audiência, a entoar a malha principal da Canção Para Casar Contigo. O grande receio concentrava-se no Porto, uma cidade cujo público é mais difícil de prever, mas, para surpresa minha, o Plano B estava muito bem composto. Foram dois dias óptimos.

 

O que podemos esperar do futuro discográfico de Manuel Fúria?

Podemos esperar a conclusão deste tríptico e depois também podemos esperar outros projectos paralelos, outras aventuras, e edições com pinta.


autor stipe07 às 19:11
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Quinta-feira, 7 de Março de 2013

Palma Violets – 180

Sedeados em Lambeth, nos arredores de Londres, Os Palma Violets são uma das novas coqueluches do cenário musical indie britânico devido a 180, o disco de estreia deste grupo, editado a vinte cinco de fevereiro pela Rough Trade. 180 é o número da porta do local onde decorreram várias festas onde os Palma Violets deram os seus primeiros espetáculos. No alinhamento do disco está Best Of Friends, canção que foi votada pelos leitores da New Musical Express como a Best Tracks of 2012. A propósito disso, Chili Jesson, membro dos Palma Violets afirmou: That's amazing, that's fucking cool. It's such a rough, raw song. We wrote it one day and recorded it the next, so it was all pretty quick. That song is at its freshest point. Every note we're hitting, like, no one really knows what they're playing. It's tongue-in-cheek.

 

Este troféu conseguido numa votação dinamizada por tão distinta publicação acabou por provocar um enorme falatório em redor dos Palma Violets, razão pela qual, a crítica local, uma máquina trituradora com os holofotes sempre apontados e àvida de novidades, aguardava com uma pouco habitual ansiedade a chegada aos escaparates de 180. E de de certa forma já nascidos num berço de ouro e com uma bitola tão elevada, o difícil seria analisar o álbum sem qualquer tipo de expetativa em relação ao conteúdo sonoro do mesmo. No entanto, não querendo achar que sou melhor comentador musical que a maioria da crítica internacional que considerou 180 um fiasco, congratulo-me por ter escrito este texto sem saber dessa ode prévia ao grupo e assim, despido das tais expetativas, talvez tenha tido possibilidade de analisar com outra frieza o conteúdo sonoro da estreia destes Palma Violets.

Assim, antes de mais, confesso que gostei muito de ouvir os cerca de quarenta minutos de 180. O disco circula entre o garage e o indie rock, com alguns laivos lo fi e a invadir o território dominado pelos conterrâneos The Libertines e The Vaccines. Os dois singles, Best Of Friends e Step Up For The Cool Cats, abrem estrategicamente o disco e causam logo bom impacto. Depois, o jogo de vozes entre Sam Fryer e Chilli Jesson e os riffs de guitarra, engrandecem, com energia e enorme dinamismo, temas como All the Garden Birds, Chicken Dippers e Last Of The Summer Wine, pecando apenas por não darem um pouco mais de protagonismo aos teclados de Pete Mayhew, que muitas vezes estão mal aproveitados. Isso é evidente em temas como Rattlesnake Highway, Tom The Drume e We Found Love.

Acaba por dar a sensação em alguns momentos que 180 merecia um maior tempo de maturação e que acabou por sair do forno demasiado cedo e devido à pressão do exterior, sem estar, portanto, ainda devidamente confecionado. O álbum entusiasma, não tanto como a facilmente influenciável imprensa britânica anunciou previamente e, se calhar, gostaria, mas é, quanto a mim, apesar de algo precoce, um nascimento saudável, inventivo e minimamente inspirado de uma banda que se tiver tempo e senão se deixar influenciar de novo pelos clamores da crítica e da componente comercial, acabará por se tornar numa referência dentro do género. 

Os Palma Violets andaram em fevereiro em digressão com os Django Django e Miles Kane and Peace, no evento NME Awards Tour 2013. Espero que aprecies a sugestão...

Palma Violets - 180

 

01. Best Of Friends
02. Step Up For The Cool Cats
03. All The Garden Birds
04. Rattlesnake Highway
05. Chicken Dippers
06. Last Of The Summer Wine
07. Tom The Drum
08. Johnny Bagga’ Donuts
09. We Found Love
10. Three Stars
11. 14


autor stipe07 às 22:05
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Curtas... XC

Pouco mais de um ano depois de Carrion Crawler/The Dream, os incríveis The Oh Sees regressam aos discos a dezasseis de abril com Floating Coffin, através da Castle Face Records e já disponibilizaram duas amostras, Toe Cutter – Thumb Buster Minotaur, em modo ÉFV. Confere...


Os Radiation City acabam de divulgar e disponibilizar, também em modo ÉFV, esta fantástica cover de Fly Me To The Moon, um clássico de Astrud Gilberto. Confere...

 

Depois de terem partilhado os dezasseis vídeos de Valtari e de os terem projectado em todos os continentes, inclusivamente em Portugal, a propósito do 10º aniversário do IndieLisboa, os islandeses Sigur Rós acabam de editar o DVD Valtari Film Experiment, com selo da editora XL.

A experiência cinematográfica dos Sigur Rós partiu da banda, que ofereceu o mesmo orçamento modesto a vários realizadores, pedindo-lhes para criar algo com a primeira coisa que lhes viesse à cabeça quando ouvissem a música.

Sigur Rós - Valtari Film Experiment

01. Varúð (Inga Birgisdóttir)
02. Valtari (Christian Larson)
03. Ég Anda (Ragnar Kjartansson)
04. Ekki Múkk (Nick Abrahams)
05. Varðeldur (Clare Langan)
06. Leaning Towards Solace (Floria Sigismondi)
07. Seraph (Dash Shaw John Cameron Mitchell)
08. Dauðalogn (Ruslan Fedotow)
09. Rembihnútur (Arni And Kinski)
10. Fjögur Píanó (Alma Har’el)
11. Ég Anda (Ramin Bahrani)
12. Varðeldur (Melika Bass)
13. Varúð (Bjorn Floki)
14. Dauðalogn (Henry J W Lee)
15. Fjögur Píanó (Anafelle Liu, Dio Lau and Ken Ngan)
16. Varúð (Ryan Mcginley)

 

Os Fol Chen, uma banda indie de Los Angeles, estão quase a regressar aos discos. The False Alarms chega aos escaparates já a dezanove de março, através da Asthmatic Kitty e IOU é um dos singles já conhecidos.

FolChenIOU

 

Talvez estimulado pelo recente reaparecimento do camaleão em cena, o veterano cantor, rato de estúdio e compositor indie John Vanderslice acaba de divulgar uma cover da sua autoria para o clássico Big Brother, um dos temas de destaque de Diamonds Dogs, o álbum que David Bowie editou em 1974. Já agora, acrescento que Vanderslice regressa aos discos já na primavera com Dagger Beach.

John Vanderslice - Diamond Dogs


autor stipe07 às 12:54
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Quarta-feira, 6 de Março de 2013

David Bowie – The Next Day

Depois de ter protagonizado alguns dos lançamentos discográficos mais importantes da história da música e após uma ausência de quase dez anos, o britânico David Bowie está de regresso com The Next Day, o vigésimo quarto álbum da sua carreira, lançado recentemente por intermédio da Iso Records/ Columbia. Este novo trabalho faz parte de uma triologia que teve como último capítulo Heathen em 2002 e comprova que o camaleão está de regresso e em boa forma.

The Next Day resulta de uma parceria com Tony Visconti, um músico de Nova Iorque que tem trabalhado com o camaleão em vários discos, nomeadamente no início da sua carreira, na chamada era Berlim, quando Bowie, na década de setenta, se refugiou naquela cidade e produziu alguma da matéria sonora fundamental da cultura pop.

No entanto, que ninguém espere por personagens fantásticas e andrógenas vindas do espaço ou por maquilhagem ousada. O Bowie de 2013 não renega que o tempo passou por si, é sóbrio, mas não deixa de ser convincente e linear, ou seja, mantém-se fiel ao seu som original e numa época em que já se ouviu quase tudo, não deixa de se mostrar algo revolucionário, mais não seja devido a esta fidelidade que só lhe fica bem.

Dez anos é muito tempo e a expetativa acumulada naqueles que seguem a carreira do músico com particular devoção certamente imensa e intensa. Penso que The Next Day não deixará essas expetativas defraudadas já que, mesmo que aqui não haja nada que o músico não tenha experimentado ainda, é justamente nesse feliz reviver do seu passado sonoro que Bowie cai novamente no goto de quem o venera.

Há vários temas em The Next Day que me merecem particular destaque; How Does The Grass Grow? condensa guitarras, teclados e vozes num mesmo ambiente melódico e comercial. São quase cinco minutos de versos prontos para serem decorados e que se espalham deliciosamente ao na canção. Alegre, a música surge como uma espécie de contraponto a outro material mais obscuro e também digno de destaque que se movimenta no decorrer do álbum, nomeadamente em The Stars (Are Out Tonight) , Love Is Lost e no brilho pop visível no romantismo exacerbado de Valentine’s Day.

A melancolia é um sentimento transversal em The Next Day e, de mãos dadas com ela, Bowie alcança momentos bastante assertivos; Where Are We Now? amarga os pensamentos mais existenciais do músico numa sonoridade que poderia pertencer aos R.E.M. da década de noventa e a bela You Feel So Lonely You Could Die ainda consegue ir um pouco mais além, já que, sendo nitidamente influenciada pelos Arcade Fire, revela expressividade e quando a canção se encontra com a música gospel numa explosão de vozes e arranjos volumosos de forte temática emocional, dá-se o cruzamento perfeito entre a melancolia da escrita e o épico instrumental.

The Next Day poderia muito bem servir de base para uma nova digressão de Bowie, sem haver necessidade de a sustentar em demasia nos velhos clássicos do músico. Há aqui suficiente matéria prima para uma compilação de canções consistente e que poderia servir para agradar às novas gerações que desconhecem a sua obra. Espero que ele aprecie esta sugestão...

David Bowie - The Next Day

01. The Next Day
02. Dirty Boys
03. The Stars (Are Out Tonight)
04. Love Is Lost
05. Where Are We Now?
06. Valentine’s Day
07. If You Can See Me
08. I’d Rather Be High
09. Boss of Me
10. Dancing Out In Space
11. How Does the Grass Grow?
12. (You Will) Set the World On Fire
13. You Feel So Lonely You Could Die
14. Heat


autor stipe07 às 18:48
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Terça-feira, 5 de Março de 2013

Guards – In Guards We Trust

Os Guards são um trio de Nova Iorque formado pelo vocalista Richie James Follin (irmão de Madeline Follin, o elemento feminino da dupla Cults), Loren Humphrey e Kaylie Church. In Guards We Trust, o disco de estreia, viu a luz do dia a cinco de fevereiro via Black Bell Records e Velvet Vision. O disco está disponível para audição na Pitchfork.

É incontável o número de bandas que nos últimos trinta anos surgiram influenciadas e fascinadas pelos Velvet Underground, desejosas de serem, no imediato, classificados de indie, devido à sonoridade em que apostam, mas também à postura que alimentam. Este trio oriundo da cidade que nunca dorme chamado Guards, não esconde a busca por uma zona de conforto no seio dessa espécie de cliché cada vez mais atual, por estarmos num período de assunção do fenómeno vintage e retro, ao qual a música não escapa. Assim, com tanta oferta e com tantas bandas novas a darem o corpo ao manifesto no universo indie e alternativo, com um cariz assumidamente lo fi e psicadélico, há que dar o devido mérito aquelas que de algum modo se destacam e nos oferecem algo de novo, diferente e contagiante.

Em In Guards We Trust, a guitarra é o instrumento nuclear, o elo de ligação de toda a sonoridade e a distorção que delas debita, o manto que cobre belíssimos teclados e que adorna, com doçura, luz e brilhantismo, doze canções onde a voz se divide muitas vezes entre os universos masculino e feminino. Neste disco os Guards, assumem, sem rodeios, que lhes corre nas veias essa toada surf popretrolo fi, apaixonada e nostálgica, mas sem deixarem de colocar o olho a outros horizontes mais abrangentes. Coming True e Giving Out não terão sido certamente escolhidos ao acaso como singles de In Guards We Trust, porque são duas canções que nos remetem para o rock mais comercial.

Esta aparente dicotomia talvez venha um dia a colocar os Guards numa encruzilhada muito semelhante aquela que, por exemplo, os Kings Of Leon tiveram que resolver há meia década. Pessoalmente, estou convicto que os Guards merecem ficar debaixo dos radares mais atentos e espero que se mantenham nesta toada que adorna a estreia. Espero que aprecies a sugestão...

Well take the very best moment that you ever had
That’s the one, that is what we have
Now take the very same moment when you fell apart
Give it back, ‘cause that is where you stopped

Guards - I Know It's you 

01. Nightmare
02. Giving Out
03. Ready To Go
04. Silver Lining
05. Heard The News
06. Not Supposed To
07. I Know It’s You
08. Coming True
09. Your Man
10. Can’t Repair
11. Home Free
12. 1 And 1


autor stipe07 às 21:30
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Curtas... LXXXIX

Tricky está de volta aos discos a vonte e oito de maio com False Idols. A fantástica Nothing's Changed, um tema que conta com a participação especial de Francesca Belmonte, é o primeiro single revelado e está disponível para download no sitio do músico.

 

Foi disponibilizada em modo ÉFV pela Erased Tapes, uma cover de Outside In Here, um original de Heather Woods tocado por Peter Broderick. Confere...

 

Johnny Jewel, o músico responsável pelo selo Italians Do It Better, prepara-se para lançar a segunda edição da coletânea After Dark. Ao lado de Ida No, o músico, que também é a principal mente por trás dos Glass Candy, acaba de lançar mais uma excelente criação que será encontrada nesse novo e inédito registo. Trata-se de The Possessed, um tema que já rodava nas apresentações da dupla, mas que agora conta com uma versão de mais de sete minutos de sintetizadores climáticos, vozes sensuais e uma produção nostálgica.

 

Para Azealia Banks o hip hop é indie e eu às vezes concordo. Depois de fazer uma versão para Slow Hands, dos Interpol, a rapper nova-iorquina resolveu mexer noutro clássico da última década, nomeadamente Barely Legal, dos The Strokes. Com base numa sonoridade essencialmente eletrónica, a canção ficou muito diferente da versão original, que fazia parte do clássico Is This It, de 2001.

 

 

Um dos vídeos que tem feito mais furor nos últimos dias tem sido o filme de Ingenue, tema retirado de AMOK; o álbum de estreia dos Atoms for Peace. Em Ingenue, o britânico Thom Yorke regressa às mesmas estranhas coreografias estranhas do vídeo de Lotus Flower.


autor stipe07 às 13:20
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Segunda-feira, 4 de Março de 2013

Atoms For Peace - AMOK

Acaba de chegar ao mercado discográfico AMOK, um novo capítulo de uma das parcerias mais inventivas do universo musical, formada por Thom Yorke e Nigel Godrich e que começou nos clássicos  do Radiohead, nomeadamente o OK Computer (1997) e o Kid A (2000). Esta colaboração estreita teve como último grande momento o In Rainbows (2007), a última obra prima da banda de Oxford e que reformulou a sonoridade do grupo inglês e influenciou decisivamente a própria industria musical. Agora, em AMOK, o álbum de estreia dos Atoms For Peace, uma banda que conta nas suas fileiras também com Flea, Joey Waronker e Mauro Refosco, Yorke e Godrich dão sequência às habituais experimentações eletrónicas que tanto gostam.

A forma como AMOK está concebido oculta a presença de Flea, Joey Waronker e Mauro Refosco, figuras que talvez merecessem um maior destaque durante no processo de construção do álbum. AMOK tem pouco mais de quarenta e cinco minutos de texturas sonoras assentes na dita eletrónica e com pouco impacto ao nível dos instrumentos convencionais. Fica-se com a perceção que o disco serve especificamente para expandir o universo redundante cultivado por Thom Yorke desde o lançamento de The Eraser (2006) e que Godrich usa o disco para dar sequência às mesmas guitarras que carimbaram o trabalho da sua outra banda, os Ultraísta, projeto com um acabamento sonoro bastante similar e que se estreou em 2012.

Na audição de AMOK somos aprisionados por uma sequência enérgica de sintetizadores, batidas eletrónicas e guitarras sequenciais que naturalmente nos hipnotizam. Músicas como Dropped e Default, por exemplo, são capazes de tomar conta da mente, sem muitas dificuldades, de um qualquer ouvinte mais frágil e  sensível, porque mergulham na fase a solo de Thom Yorke e percorrem as guitarras cíclicas do krautrock, uma das marcas das produções recentes de Godrich.

Com uma formatação essencialmente sintética e canções dotadas de forte proximidade rítmica, AMOK parece, muitas vezes, um álbum que saiu de uma fábrica escondida num laboratório caseiro de Godrich. Com um enquadramento musical adequado, o álbum engata numa sucessão de programações matemáticas que se interligam profundamente, com a voz de Thom Yorke a ser alvo de um tratamento acústico identificado logo na primeira música do trabalho, Before Your Very Eyes. Em diversos momentos fica a sensação de que a voz do britânico foi concebida graças ao auxílio constante de softwares ou programas específicos, um composto algo semelhante ao que foi feito em Kid A e similar ao que Kraftwerk e outros representantes do género já propuseram anteriormente.

Ainda que se revele como um verdadeiro concentrado de soluções programadas, em alguns momentos de AMOK, a percussão e as batidas dos demais colaboradores fluem de maneira inventiva e até se deslocam da linearidade que toma conta do disco. Como referi acima, infelizmente não chegam para dar outro destaque aos restantes membros dos Atoms For Peace, porque são instantes raros, sendo os melhores aqueles que se ouvem em Stuck Together Pieces, música em que Joey Waronker e o brasileiro Mauro Refosco mostram finalmente ao que vieram.

AMOK deve ser analisado de um ponto de vista completamente indissociado dos Radiohead já que, a mim parece-me ser apenas um projeto que serve de pretexto para que Thom Yorke e Nigel Godrich, com o beneplácito de mais três músicos, experimentem alguns devaneios sonoros eletrónicos. Quem quiser procurar aqui um trabalho similar às propostas mais sérias, profundas e inventivas que geralmente os Radiohead apresentam, será injusto com a filosofia subjacente a AMOK e a estes Atoms For Peace e estará, indevidamente, a pressentir o desmoronar da imensa capacidade criativa de uma das bandas mais influentes e decisivas do panorama alternativo nos últimos vinte anos. Espero que aprecies a sugestão... 

01. Before Your Very Eyes
02. Default
03. Ingenue
04. Dropped
05. Unless
06. Stuck Together Pieces
07. Judge Jury and Executioner
08. Reverse Running
09. Amok


autor stipe07 às 13:26
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Sábado, 2 de Março de 2013

K-X-P - II

Os K-X-P são um trio finlandês, sedeado em Helsinquia e formado por Timo Kaukolampi, Tuomo Puranen e Tomi Leppanen. No estúdio e, às vezes, ao vivo, acompanham-nos Anssi Nykänen. O grupo nasceu das cinzas dos Op:l Bastards e dos And The Lefthanded e começaram a carreira com Kaukolampi a declarar que K-X-P started after I wanted to stop playing in bands. It’s the antidote to normal bands. Its an anti-band. II foi lançado a onze de fevereiro pela Melodic Records e sucede ao disco de estreia, homónimo, editado em 2010.

O disco de estreia dos K-X-P teve críticas bastante favoráveis de publicações tão conceituadas como a Q, Future Music e a Pitchfork. Todas foram unânimes em enuncair o krautrock como a influência de base da sonoridade do grupo, com laivos de jazz, rock, eletrónica e dance music, nas suas mais variadas vertentes.
Este sucessor mantém a mesma bitola sonora da estreia. Foi gravado entre Berlim e Helsinquia, em antigos cinemas, estúdios tradicionais de gravação e utilizaram equipamento vintage, analógico e eletrónico. O conteúdo remete-me imediatamente para os vizinhos dinamarqueses, a dupla Reptile Youth e o seu disco homónimo. Neste II também se combina a energia punk com sons eletrónicos, mas as formas instrumentais, acordes, vozes e todo o aparato de elementos sonoros procuram reproduzir, com um elevado teor experimental, as marcas identitárias do krautrock.

O uso apurado dos sintetizadores, remetem para ambientes algo sombrios, mas as melodias são acessíveis o que provoca uma estranha, mas agradável sensação durante a audição. A canção Melody, logo a abrir, encarna este espírito e não será inocente o título já que o conteúdo perverte as redundâncias naturais do estilo em que está inserida e o mesmo é dançante, rápido e cresce numa mistura que percorre a eletrónica, o pós-punk e a música de dança.

É notório que todo o ambiente instrumental criado foi pensado para os concertos, como se II fosse, só por si, uma enorme jam session, soturna e imprevisível, que mergulha em túneis de ruídos, sintetizadores intransponíveis e o uso assertivo das reformulações musicais.

Mas II não vive só dos sintetizadores. Há sequências felizes de guitarras dançantes, vozes complementares e batidas que aproximam a banda dos alemães Neu!. Temas como Magnetic North e Flags & Crosses são capazes de olhar para o passado, ao mesmo tempo que mantêm firme uma relação com o presente. É quase uma quebra do que naturalmente direciona outros trabalhos do género, com o trio a mostrar ser capaz de manipular toda e qualquer referência de forma a produzir algo novo.

Curiosa é a inserção de pequenos complementos instrumentais que parecem feitos apenas para encher o disco, mínimas inclusões atmosféricas espalhadas por toda a obra, como se fossem uma introdução para  outros temas, nomeadamente, Ydolem, RBJTEV, EKMVIV e Reel Ghosts, que têm uma dimensão sonora e temporal muito mais significativa.

Tudo isto somado resulta, como referi anteriormente, numa sequência instrumental hipnótica de oito temas que poderá deixar-nos em transe. A força musical que circula pelo álbum parece ampliar-se em cada nova audição e esse é um dos maiores elogios que se pode fazer a II e a estes K-X-P. Espero que aprecies a sugestão...

01. Ydolem
02. Melody
03. Staring At The Moon
04. RBJTEV
05. Magnetic North
06. EKMVIV
07. In The Valley
08. Tears (Extended Interlude)
09. Flags & Crosses
10. Reel Ghosts
11. Easy (Infinity Waits)
12. Dark Satellite

K-X-P "Magnetic North" directed by Kimmo Kuusniemi (2013) from K-X-P on Vimeo.

 


autor stipe07 às 17:12
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Sexta-feira, 1 de Março de 2013

Foals - Holy Fire

Depois de Antidotes (2008) e Total Live Forever (2010), os Foals, uma banda de Oxford liderada por Yannis Philippakis, estão de regresso aos discos com Holy Fire, disco lançado pela Transgressive no início de fevereiro. Os Foals têm sido uma banda em constante mutação sonora. Da transposição das guitarras experimentais de Antidotes para o ambiente claustrofóbico de Total Life Forever, esse sempre difícil segundo disco, lançado em maio de 2010, serviu para aproximar a banda do grande público e ajudar a influenciar nomes como os Alt-J (∆), Everything Everything, ou os Egyptian Hip Hop.

A experimentação sonora faz parte do ADN dos Foals e com Holy Fire o grupo sobe mais um degrau no cardápio experimental que o define. Neste terceiro disco vão mais longe porque, além de se afastarem do clima soturno dos momentos experimentais de Total Live Forever e da crueza da estreia, optaram agora por criar um clima mais animado e até dançável. As melodias experimentais de Antidotes ainda estão por toda a parte, o mesmo acontece com a atmosfera densa do último álbum, mas a diferença está na forma como o ritmo convida-nos a dançar. No entanto, ainda há canções que contêm detalhes que fazem a ponte com o passado, nomeadamente Late Night,  a climática Moon, ou Milk & Black Spiders, temas que aperfeiçoam de maneira natural e particular muito do que foi produzido anteriormente por esta banda britânica.

Assim, os onze temas de Holy Fire, consolidam as experiências anteriores e fogem ao óbvio de forma madura e cativante, olhando delicadamente para os anos setenta e estabelecendo uma conexão com as pistas de dança do passado e do presente. Tudo isto está claramente plasmado na explosiva Inhaler e na jovial My Number, talvez a canção que melhor carateriza o novo rumo sonoro dos Foals, algo dance punk e com uma natureza instrumental que se divide entre a aceleração dos Gang Of Four e as experimentações dos Talking Heads.

Holy Fire, um disco leve e aventureiro, acaba por ser uma rodela que brinca abertamente com as composições comerciais de maneira individual, sem qualquer pensamento ou amarra sonora que parta de um conceito maior ou que ligue todas as canções. Este álbum produz efeito com o tempo, ou seja, é mais um daqueles discos que exigem várias e ponderadas audições, porque cada canção esconde texturas, vozes, batidas e mínimas frequências acústicas que só são percetíveis seguindo essa premissa. Espero que aprecies a sugestão...

1. Prelude
2. Inhaler
3. My Number
4. Bad Habit
5. Everytime
6. Late Night
7. Out Of The Woods
8. Milk & Black Spiders
9. Providence
10. Stepson
11. Moon 


autor stipe07 às 21:42
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