Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

Eels - Tomorrow Morning I

 

Os Eels apresentaram-se ontem no Coliseu de Lisboa, pela primeira vez em nove anos. Foram servidas vinte e quatro canções, em menos de hora e meia, sempre com o blues e o rock sulista por perto. Confere o alinhamento;

  

Grace Kelly Blues
Little Bird
End Times
Prizefighter
She Said Yeah (Rolling Stones)
Gone Man
Summer In The City (The Lovin' Spoonful)
Tremendous Dynamite
In My Dreams
In My Younger Days
Paradise Blues
Jungle Telegraph
My Beloved Monster
Spectacular Girl
Fresh Blood
Dog Faced Boy
That Look You Give That Guy
Souljacker, Pt 1
Talking 'Bout Knuckles
Beautiful Day
I Like Birds
Summertime (George Gershwin)
Looking Up
Encore
I Like The Way This Is Going
Oh So Lovely

 

Este texto não serve para falar do concerto de ontem, mas do novo disco da banda, Tomorrow Morning e que anuncia, outra vez, que o mundo não é assim tão mau! Este novo disco que faz parte de uma triologia que iniciou com Hombre Loco e prosseguiu com End Times, conforme referi AQUI. Debruçar-me-ei sobre Tomorrow Morning, com maior cuidado, assim que o ouvir. No entanto, e graças a mojo, um amigo com quem partilho o gosto profundo pela música e cujo blog recomendo, tive acesso a uma entrevista que Mark Everett (Mr. E) deu ao ípsilon, em meados de Agosto, acerca deste trabalho e onde também falou de outros temas igualmente interessantes e que me chamaram a atenção, nomeadamente como ser... Um homem bom!

 

Estamos na sala do quarto de hotel, na companhia do agente, a ver o Mundial, quando E surge do quarto onde atende os clientes, seja cara-a-cara, seja por telefone. Ele surge, calças apertadas e desbotadas enfiadas em botas de lenhador, camisola interior com suspensórios, barba enorme, óculos idem, boné na cabeça, e antes de dizer "bom dia" já lançou "Este jornalista italiano era um idiota".

"Ai sim?", pergunta o agente, "então porquê?".

"Acreditas que ele pensou que, quando eu canto 'My baby loves me' [na canção com o mesmo nome], estava literalmente a referir-me a um bebé?"

O agente ri-se. Nós ficamos calados, só um ligeiro sorriso.

"Não consigo perceber como é que um jornalista pode interpretar de forma tão literal", continua ele.

"Talvez não seja bom a inglês", diz o agente.

"Se ele soubesse ler, não seria jornalista, não é?", arriscamos.

Ele grunhe. Não, é um sorriso.

"Espere só para ver as minhas interpretações das suas letras".

Ele grunhe ainda mais. Não, é um riso.

"Nos últimos tempos andei a reflectir sobre o que se passava comigo", diz E, já no cadeirão do seu quarto com vista para o Hyde Park. "E isso acabou por tornar-se um conceito". Fala rápido, não toma muito tempo para reflectir, mas, quando toma, isso cria aquele tipo de silêncio que vulgarmente se toma por incomodativo.

"A ideia é que a felicidade pode ser uma escolha e, se se fizer essa escolha, e se se tiver alguma sorte, os acasos talvez nos levem à felicidade". Prossegue: "No fundo, o conceito é uma coisa fora do comum no rock: um tipo tornar-se um homem melhor. E talvez com isso venha uma mulher". Faz uma pausa e acrescenta: "Acho que é um pouco nobre tentar-se ser um homem melhor".

Uma qualquer força estranha impede-nos de rebolar no chão a rir. Ponderamos por um segundo e concluímos que ele está a falar a sério. Então arriscamos perguntar-lhe se há algo de judaico-cristão nesse tão toscamente verbalizado "ser um homem melhor". Algum tipo de culpa, contas a pagar, etc.

"Não, não sinto nenhum tipo de culpa, pelo menos não muitas vezes. Quando a sinto, sei que deve haver uma razão para ela".

E fim de história: o homem não quer ser excessivamente escrutinado e está no seu direito. "Acho que já tentei dizer vezes suficientes no passado que a vida não é assim tão má, e agora estou a dizê-lo outra vez, só que de forma mais aberta".

Esse é, diga-se, o som de "Tomorrow Morning": um ligeiro véu de melancolia a cobrir refrões que resplandecem (isto para usar uma imagem ridícula.)

"Essa é a ideia", diz ele, ao ouvir a imagem ridícula. "É a grande reviravolta que há em cada canção: surpresa, isto afinal é bom", conclui. Mas há coisas que não mudam e, depois deste momento de unidade com o mundo, E, como um Larry David rural, resmunga: "Não percebo como é que o italiano achou que era mesmo um bebé. Se fosse mesmo um bebé seria repugnante".

 

Corrida contra o tempo

Eis o lado obsessivo de Mark Everett, uma faceta que ele assume, embora não às claras. Vê-a como "uma ética de trabalho muito forte". "Muitas pessoas não conseguem acabar o que fazem", explica. "Eu acabo coisas a mais. Se decido fazer uma coisa, faço-a até ao fim. Se decido fazer três discos de seguida, faço". Aqui ele faz uma das suas pausas, que surgem sempre de forma brusca: está a dizer uma coisa com uma rapidez notável e de repente pára, sem que um tipo saiba se parou de vez ou só para ganhar balanço. Lá se aproveita a pausa para tentar olhar pelo buraco da fechadura da vida privada do homem.

"Se isso me retira da vida normal muitas vezes? A resposta é simples: suga-me a vida por completo. É preciso estar muito concentrado, não pensar em mais nada se não no que se está a fazer e aonde se quer chegar. Não há mais nada, não pode haver mais nada".

Tal como a culpa tem uma razão no mundo de Everett, a pressa também. Ele anda assumidamente "a correr contra o relógio", por causa da "história" (expressão dele) do pai: "Estou a chegar à idade com que o meu pai morreu e tenho cada vez mais consciência disso". O tiquetaque do tempo é duplo: a sombra da morte do pai, numa família em que a morte é visita constante.

Terá sido esse tiquetaque a alimentar a ambição de fazer uma trilogia num só ano. "Hombre Lobo" (2009) era "sobre o desejo", "End Times" (2009) "sobre a perda de amor", e agora "Tomorrow Morning" é "sobre um novo começo". Uma espécie de ciclo da vida, que Everett explica de forma sucinta: "O desejo leva-nos a alguma coisa, depois pensamos que tudo acabou, e a seguir sentimos que amanhã teremos outra hipótese".

De acordo com o plano inicial, E queria "acabar com um novo começo", pelo que tinha "de começar por pôr a sementinha". "Foi muito divertido ser um lobo", diz. Isto é: ser um predador sexual, tal como em "Hombre Lobo". Se isto parece conversa de pessoa normal, Everett faz questão de nos lembrar logo a seguir, que não é: "Mais divertido só fazer de conta que sou um terrorista".

"Tomorrow Morning" é o tipo de disco que invariavelmente leva os críticos a usarem expressões como "camadas". Pequenas melodias vão-se sobrepondo, criando ambientes, até que, no refrão, a canção abre-se de forma inesperada, como aquelas flores nos documentários sobre a natureza que aceleram a imagem para mostrar a passagem do tempo.

Mas mais do que em sobrepor camadas (ou texturas), E estava interessado no erro: "Queríamos aproveitar os erros, por isso samplámos tudo desde o primeiro momento. O erro pode ser muito interessante e usámo-los o mais que pudemos". Também lhe interessam a diversidade de géneros que o disco abarca, e a subversão que aplica a cada género. "Nenhum músico quer pertencer a um só género", diz, visivelmente afastado da realidade. "Não quero que uma canção gospel minha [que há neste disco] seja um gospel clássico [não é]. Tem de soar a 2010 e tem de ser a minha versão".

 

O exemplo Tom Waits

Há que reconhecer que ele é um desses tipos: quando se ouve uma canção dele, sabe-se que é dele. Talvez o único elemento comum seja a voz, mas lá que marcou o seu pequeno território, marcou. Ou não: "Não sei se a minha voz autoral é imediatamente identificável. Por um lado, é porreiro termos um nicho reconhecível, por outro isso é tremendamente limitativo. Deixo essa questão para os ouvintes".

Everett também não tem muita certeza de ter o seu lugar numa espécie de "middleground", algures entre o imenso reconhecimento da estreia e a obscuridade. "Quando os Eels começaram", lembra, "estávamos o tempo todo na MTV". A experiência foi "doentia", mas teve uma vantagem: "Deu para ver tudo o que detestava". E acerca desse "middleground", só tem uma coisa a dizer: "O Neil Young dizia que no lixo se encontram coisas muito mais interessantes".

Young é um dos heróis deste tipo - que sabe que nunca será tão grande como os que admira e se dá por contente por ter vindo "parar aqui", a este lugar que "alguns dos tipos que sempre foram heróis" são hoje seus amigos. Como Tom Waits.

Isso talvez explique um lado menos inquietado que parece sobrevir em Everett. É um tipo com objectivos e que, olhando para o futuro, diz: "Não me parece muito digno ter 55 anos e pôr tipos de 20 anos a gritar".

Será que ele pede conselhos ao seu amigo Tom Waits sobre como envelhecer com classe?

"Peço, claro. Mas não é preciso: basta olhar para o que ele fez. É um exemplo".

É improvável, mas quem sabe?, talvez dentro de 30 ou 40 anos estejamos a olhar para este homem como olhamos hoje para Waits.

Ípsilon

 

Pela amostra abaixo e por esta entrevista, fiquei ainda mais curioso para ouvir Tomorrow Morning e a nutrir maior admiração por Mark Everett.


autor stipe07 às 21:58
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