Sexta-feira, 19 de Abril de 2019

Tellavision - Add Land

Já viu a luz do dia Add Land, à boleia da Bureau B, o mais recente tomo discográfico do projeto artístico Tellavision, já com uma década de carreira, assente em três álbuns e dois EPs, sempre em busca de excitantes aventuras sónicas, abstrações musicais que têm a sua raíz na génese do chamado krautrock e onde o ruído não é algo supérfluo ou incómodo, mas usado com um propósito bem definido de servir como mais um veículo de transmissão de emoções e sensações que se pretendem o mais físicas e orgânicas possível, dentro daquilo que a música, enquanto manifestação artística por excelência, consegue provocar no âmago de cada um de nós. E de facto, nestas treze canções que constituem o alinhamento de Add Land, produzidas pela própria Tellavision e por Thies Mynther, uma das metades da dupla Phantom / Ghost, não faltam instantes que arrebatam e concentram a atenção, mesmo no ouvinte mais desatento ou desprevenido.

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Começa-se a ouvir os flashes sintetizados do tema homónimo do disco e somos logo dominados por campos magnéticos que estalam ao longo de uma batida pontiaguda, enquanto um pulso lento e levemente errático agita-se por baixo da voz de Tellavision à medida que ela canta, evocando os medos que nos paralisam, mas também aqueles que nos inspiram. E logo nesse tema percebe-se outro ás de trunfo deste projeto, o registo vocal da protagonista, sempre vibrante e tremendamente empático. Depois, no minimalismo da batida misteriosa de Salty Man, no travo maquinal de Hat Makers e no groove dançante da buliçosa bateria que conduz Purple View, estamos lançados e ficamos ainda mais esclarecidos acerca dos elevados níveis de complexidade e virtuosismo que estiveram na génese da concepção de um registo, em que máquinas e sons eletrónicos coabitam pacificamente e com superior simbiose com aquela instrumentação mais tradicional e orgânica e que costuma balizar as trevas mestras do indie rock.

Disco merecedor de contemplação cuidada e dedicada, aberto, confiante e otimista, apesar de muito balizado pela noção de medo, como de certo modo já referi, mas com o foco deste sentimento muito virado para o amor que nos permite superar os nossos medos, nomeadamente o nosso amor pelo outro e por nós próprios, Add Land oferece um novo grau de firmeza qualitativa a um projeto ímpar no panorama sonoro e artístico alternativo europeu. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 14:48
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Quinta-feira, 18 de Abril de 2019

Tricycles - Tricycles

João Taborda, Afonso Almeida, Edgar Gomes e Sérgio Dias são os Trycicles, uma espécie de super grupo que se estreou recentemente nos registos discográficos com um extraordinário disco homónimo, gravado e produzido por Nelson Carvalho e editado pela Lux Records. Descritos como um triciclo no alto de uma duna, a ver o mar, a sentir o sol quente nas rodas pintalgadas de areia, com uma certa comichão no volante por causa da humidade salgada, os Tricycles começaram a ganhar vida quando o Sérgio (bateria) e o Edgar (baixo) se juntaram ao Afonso (guitarra, voz) e ao João (guitarra, teclas, voz), para dar corpo a uma coisa vagamente improvável, mas que resulta claramente e que em estúdio funciona porque lá brincam como putos irrequietos no parque infantil e ao vivo também já que nos concertos a ideia é que a energia da lua no alcatrão quente suba pelos pedais até ao volante e exploda de modo a que o público e a banda comunguem raivas e melodias.

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De facto, assim que começa All The Mornings, o primeiro tema do alinhamento de Tricyclesum jogo de reflexos e um irónico lamento contra o tic tac do relógio, duas ideias que nos são induzidas através de uma composição vibrante, de pêlo na venta, mas também com um travo melódico particularmente aditivo, percebemos que estamos na presença de um conjunto de amigos com uma inegável sensibilidade pop, feita dos mais variados ambientes, mas também com aquele cerrar de punhos no momento certo, indispensável num projeto que queira também marcar uma presença marcante num espetro mais rock e até garageiro, exemplarmente replicado em Climbing Down. Assim, com uma filosofia interpretativa que dá a primazia à guitarra quer no processo de criação melódica, quer também no modo como as canções vão sendo adornadas, geralmente com rudes baixos que conversam com educadas baterias e pianos falsamente corteses, avançamos algo inebriados ao longo de doze canções que acabam por funcionar, no seu todo, como um sentido quadro sonoro, pintado com belíssimos arranjos e transições entre um alargado e rico espetro sonoro, que abarca alguns dos melhores tiques e heranças do indie rock das últimas décadas. Por exemplo, se no caso de Hamburguer, os Tricycles nos oferecem uma visão algo solarenga e festiva, em Kill It Moon nuances eminentemente etéreas e em Into The Sun um registo mais acústico, mas bastante encantatório, já em Words e em Phone Call: Yesterday's Paper, nas asas de um buliçoso piano, o quarteto vira agulhas para uma atmosfera mais insinuante e charmosa, com Humble Hymn a piscar o olho para territórios mais rockeiros e sumptuosos, mas igualmente acessíveis e deslumbrantes e C para outros mais psicadélicos, experimentais e progressivos.

O resultado feliz deste alinhamento que exala com igual dose de inspiração contemporaneidade e tradição, é um exercício de criatividade e sensibilidade único, feito, como já referi, com os mais variados ambientes e que surpreende faixa a faixa. Nesta belíssima estreia, os Tricycles escancaram-nos um mundo inédito, cujos códigos e fechaduras só eles conhecem, mas que anseiam por partilhar com todos nós. E tal só sucederá eficazmente se estivermos sedentos de sensações revigorantes e reflexivas, já que este coletivo socorre-se continuamente de imagens evocativas, que depois sustenta em melodias bastante virtuosas e cheias de cor, arrumadas com arranjos meticulosos e lúcidos e variações rítmicas e emotivas inesperadas, um caudal sonoro e lírico cuja filosofia subjacente prova a sensibilidade deste projeto para expressar e fazer desfilar, através da música que criam, um rol imenso de sensações, vivências e confissões. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:26
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Quarta-feira, 17 de Abril de 2019

Beck – Saw Lightning

Beck - Saw Lightning

Colors ainda não tem dois anos, o single Tarantula, inserido na banda-sonora do filme Roma, escrito e dirigido por Alfonso Cuarón, quatro meses, mas Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, já tem disco novo na forja, um registo initulado Hyperspace, ainda sem data de lançamento anunciada, mas certamente ainda em dois mil e dezanove. Tal frenesim criativo não é inédito neste músico californiano que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos foi habituando, nas últimas três décadas, a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras.

Saw Lightning é o primeiro single divulgado de Hyperspace, pouco mais de quatro minutos de um efervescente festim pop, que sobressai pela luminosidade das cordas de uma viola, por diversos detalhes percurssivos e pelo fuzz intermitente de uma teclado, uma canção que deve muito aquela estética típica do som nova iorquino da década de oitenta, sendo indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas. Confere...


autor stipe07 às 12:08
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Terça-feira, 16 de Abril de 2019

Courtney Barnett – Everybody Here Hates You

Courtney Barnett - Everybody Here Hates You

Um dos grandes destaques da edição deste ano do Record Store Day é, claramente, Everybody Here Hates You, uma nova canção da australiana Courtney Barnett, divulgada em exclusivo para esta iniciativa anual, amplamente publicitada neste espaço e que é marcada pela chegada de vários álbuns e singles, em edição limitada, às lojas de discos, um pouco por todo o mundo.

A canção viu a luz do dia em formato vinil de sete polegadas, com artwork desenhado pela própria Barnett e impressiona pelo charme algo displiscente mais feliz como a autora parece desprezar todos aqueles que a julgam constantemente, fazendo-o através de um clima sonoro que entre a folk mais experimental e a psicadelia, exala um travo algo boémio, com um realismo ímpar. Everybody Here Hates You tem no lado b Small Talk, uma composição que a autora já tinha guardada na gaveta desde o ano passado. Confere...


autor stipe07 às 21:36
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Segunda-feira, 15 de Abril de 2019

The Flaming Lips – King’s Mouth

Pouco mais de dois anos depois do excelente Oczy Mlody e de uma coletânea com os maiores êxitos da carreira com a chancela da Warner Brothers Records, os The Flaming Lips de Wayne Coyne estão de regresso com King's Mouth, um registo de doze canções que a banda assume ser um álbum conceptual baseado no estúdio de arte com este nome que esta banda de Oklahoma abriu há quatro anos e que tem com uma das principais atrações que os visitantes podem usufruir, um espetáculo de luzes LED de sete minutos que falam de um rei gigante bebé que quando cresceu fê-lo de tal modo que sugou para dentro da sua enorme cabeça todas as auroras boreais.

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King’s Mouth, o décimo quinto disco da carreira dos The Flaming Lips, lançado no âmbito da edição deste ano do Record Store Day, é sobre este rei disforme que morre quando tenta salvar o seu reino de uma avalanche de neve apocalíptica, acabando por sucumbir no meio dela. Após a morte, a sua cabeça enorme transforma-se numa espécie de fortaleza de aço pela qual os seus súbditos podem trepar e entrar pela boca, chegando, assim, às estrelas enquanto contemplam toda a imensidão de luzes e cores que em vida esse rei sugou enquanto se tornava maior e atingia a maioridade.

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Dado este mote lírico, incubado pela mente de um Coyne que é, claramente, um dos artistas mais criativos do cenário indie contemporâneo, a componente musical começou com uma mescla de sons e melodias abstratas que acabaram por se transformar num disco, apesar de esses não serem os objetivos iniciais do grupo. Mick Jones dos Clash e o coletivo Big Audio Dynamite narrariam as melodias e a história acima, descrita sucintamente, mas a verdade é que um mês depois de os The Flaming Lips colocarem mâos à obra estava pronto um álbum que acaba por nos oferecer mais uma verdadeira orgia lisérgica de sons e ruídos etéreos que nos catapultam, em simultâneo, para duas direções aparentemente opostas, a indie pop etérea e psicadélica e o rock experimental.

De facto, nas cordas de Sparrow, nos efeitos etéreos e nas nuvens doces de sons que parecem flutuar em Giant Baby, na suavidade flourescente de How Many Times, na sombria agregação de ruídos e samples que abastecem Electric Fire, na inflamante rugosidade do baixo e das distorções que vagueiam por Feedaloodum Beedle Dot e, principalmente, na cósmica puerilidade de All For The Life Of The City, somos convidados a contemplar um extraordinário tratado de indie pop etérea e psicadélica. Tendo esta natureza hermética, King's Mouth afirma-se num bloco de composições que são mais do que partes de uma só canção de enormes proporções, porque além de existir neste alinhamento diversidade e heterogeneidade, cada composição tem um objetivo claro dentro da narrativa, compartimentando-a e ajudando assim o ouvinte a perceber de modo mais claro toda a trama idealizada.

King's Mouth conduz-nos, então, numa espécie de viagem apocalíptica, onde Coyne, sempre consciente das transformações que foram abastecendo a musica psicadélica, assume o papel de guia e conta-nos uma história simples, mas repleta de metáforas sobre a nossa contemporaneidade, servindo-se ora de composições atmosféricas, ora de temas de índole mais progressiva e agreste e onde também coabitam marcas sonoras feitas com vozes convertidas em sons e letras e que praticamente atuam de forma instrumental. No final, tudo é dissolvido de forma aproximada e homogénea, através de sintetizadores cósmicos e guitarras experimentais, sempre com enorme travo lisérgico, num resultado final que ilustra na perfeição o cariz poético dos The Flaming Lips, um grupo ao mesmo tempo próximo e distante da nossa realidade e sempre capaz de atrair quem se predispõe a tentar entendê-los para cenários complexos, mas repletos de sensações únicas que só eles conseguem transmitir. Espero que aprecies a sugestão...

The Flaming Lips - King's Mouth

01. We Dont Know How a´And We Don’t Know Why
02. The Sparrow
03. Giant Baby
04. Mother Universe
05. How Many Times
06. Electric Fire
07. All For The Life Of The City
08. Feedaloodum Beedle Dot
09. Funeral Parade
10. Dipped In Steel
11. Mouth Of The King
12. How Can A Head


autor stipe07 às 14:49
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Sexta-feira, 12 de Abril de 2019

Tunng – Heatwave

Tunng - Heatwave

Alguns meses depois do excelente Songs You Make At Night, disco que chegou aos escaparates no verão passado à boleia da insuspeita Full Time Hobby, o coletivo britânico Tunng, que está a comemorar década e meia de uma respeitável carreira, onde tem misturado com uma ímpar contemporaneidade e bom gosto eletrónica e folk, volta a dar notícias com Heatwave, o primeiro avanço para This Is Tunng… Magpie Bites and Other Cuts, um disco de raridades e lados b que a banda atualmente formada por Mike Lindsay, Sam Genders, Ashley Bates, Phil Winter, Becky Jacobs e Martin Smith, prevê lançar no final do próximo mês de junho.

Tema vibrante, alegre e solarengo, Heatwave impressiona logo pela vasta pafernália de sons e detalhes sintéticos e orgânicos que o preenchem, camada após camada, sendo uma excelente canção para se perceber, de modo particularmente belo e impressivo, a materialização de toda a riqueza e heterogeneidade estilística que tem conduzido as mais recentes propostas sonoras dos Tunng. Confere...


autor stipe07 às 18:16
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Quinta-feira, 11 de Abril de 2019

Tame Impala - Borderline

Tame Impala - Borderline

Cerca de quatro anos após Currents e a testar os limites da nossa paciência devido a tão prolongado hiato, eis que os australianos Tame Impala de Kevin Parker voltam, finalmente, a dar sinais de vida com o anúncio praticamente certo de um novo disco ainda este ano.

De facto, depois de há algumas semanas nos terem brindado com o tema Patience, agora chegou a vez de ficarmos a conhecer a canção Borderline, que foi apresentada em primeira mão no famoso programa de televisão norte-americano Saturday Night Live. A mesma gravita em redor de um teclado inspirado, em redor do qual se insinua a bateria, diversos encaixes eletrónicos, uma guitarra indulgente e o habitual registo vocal ecoante, num resultado final algo melancólico e espiritual e onde, como é norma no projeto, rock, eletrónica e psicadelia dão as mãos dentro de um espetro eminentemente pop. Confere...


autor stipe07 às 23:07
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Quarta-feira, 10 de Abril de 2019

The Drums - Brutalism

Os norte-americanos The Drums lançaram há dois anos Abysmal Thoughts, o primeiro registo desde que este projeto se tornou, assumidamente, no trabalho a solo de Jonny Pierce. O ano passado este músico nova iorquino voltou a dar sinais de vida com o tema Meet Me In Mexico e agora, na primavera de dois mil e dezanove, regressa finalmente com um novo álbum, um registo intitulado Brutalism, que viu a luz do dia recentemente, à boleia da ANTI.

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Os The Drums são um dos grandes nomes do movimento saudosista de revitalização do lo-fi, que tem feito escola no século XXI. Na verdade, continuam a ser uma daquelas bandas que pura e simplesmente não custa nada gostar, apesar dos momentos menos felizes que viveram e que ditaram praticamente o ocaso do projeto quando, em 2010, o guitarrista Adam Kessler abandonou o projeto e alguns anos depois Jacob Graham também acabou por o fazer. Pierce é quem mantém o projeto vivo, tentando com este Brutalism estabilizar os The Drums numa posição de relevo dentro do espetro sonoro que calcorreia, procurando, desta vez, uma sonoridade com maior ênfase naquela pop sintetizada que dialoga promiscuamente com o rock oitocentista. Tal infere-se, logo a abrir o registo, no minimalismo algo maquinal de Pretty Cloud e depois no single Body Chemistry, uma canção muito pessoal em que Pierce aborda o modo como lidou com um diagnóstico recente de depressão (Maybe I’m depressed, Maybe I know too much about the world, about myself) e que sonoramente assenta numa curiosa simbiose entre o indie surf rock e a eletrónica chillwave, audível num curioso e bem sucedido jogo de interseções melódicas entre baixo e sintetizadores. 

As guitarras de Encyclopedia, um disco que se afirmou, à época, como um portento de post punk, que parecia ter vindo diretamente do período aúreo e mais sombrio do indie rock, acabam por ter uma posição de menor relevo neste registo, que nos oferece, no seu todo, uma verdadeira montanha mágica, mas mais sintetizada, acompanhada por guitarras menos agressivas mas, de certo modo, melodicamente mais ousadas. Os sintetizadores posicionam-se, portanto, na linha da frente do processo de construção melódica das canções. Conferimos tal permissa em 626 Bedford Avenue, uma daquelas composições que atesta na simbiose, entre flashes sintetizados borbulhantes e cordas luminosas, a rugosa vitalidade experimental que os The Drums sempre demonstraram e os sintetizadores flutuantes do tema homónimo, assim como nos sons poderosos e tortuosos que abastecem Loner, tema conduzido por um baixo exemplar, mas também na tonalidade mais épica e efervescente do efeito da guitarra que tempera o tapete percurssivo sempre agreste de Kiss It Away. Estes são temas que nos oferecem aquela faceta mais marcante, elétrica e explosiva dos The Drums, num alinhamento em que, canção após canção, se sente a vibração a aumentar e a diminuir de forma ritmada e empolgante, com composições com o selo caraterístico daquele rock misterioso e cheio de fechaduras enigmáticas e chaves mestras, mas que, se forem experimentadas com dedicação, acabam por abrir portas para um refúgio perfeito. Depois, ainda há o bónus de podermos conferir a postura vocal de Pierce, mais madura e suculenta do que nunca e particularmente tocante e emocionada em alguns momentos. I Wanna Go Back e Nervous são aquelas em que melhor se pode apreciar esta sua formatação vocal algo nostálgica e amiúde feita com uma quase pueril simplicidade.

Registo bem balizado em termos de referências, Brutalism merece dedicação e nota positiva não só por este encosto a tão importantes referências, particularmente as oitocentistas, mas também por, na minha opinião, mostrar que Pierce é cada vez mais capaz de agarrar em fórmulas bem sucedidas e, procurando nunca se colar demasiado a essa zona de conforto, conseguir criar algo único e genuíno e que, no seu todo, represente a relevância deste projeto nova iorquino no universo indie atual. De facto, Brutalism é uma prova evidente que o grupo não desiste de ser uma referência e que procura fazê-lo com contemporaneidade, consistência e excelência. Espero que aprecies a sugestão...

The Drums - Brutalism

01. Pretty Cloud
02. Body Chemistry
03. 626 Bedford Avenue
04. Brutalism
05. Loner
06. I Wanna Go Back
07. Kiss It Away
08. My Jasp
09. Blip Of Joy


autor stipe07 às 20:49
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Terça-feira, 9 de Abril de 2019

The Divine Comedy – Queuejumper

Cerca de três anos depois do excelente registo Foreverland, os The Divine Comedy de Neil Hannon regressam em dois mil e dezanove aos discos com Office Politics, um compêndio de dezasseis canções escritas e produzidas pelo próprio Hannon, gravadas na Irlanda e na capital de Inglaterra e que contaram com a participações especial vocal de Chris Difford, Cathy Davey e Pete Ruotolo.

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Disco inspirado nos avanços tecnológicos e que tem como principais personagens sonoras as máquinas e os sintetizadores, Office Politics também contará, como é norma nos The Divine Comedy, com canções onde a luminosidade e a ferocidade das guitarras dita a sua lei, como confessou recentemente Neil (It has synthesizers. And songs about synthesizersBut don’t panic. It also has guitars, orchestras, accordions, and songs about love and greed).

Queuejumper é o primeiro single desse disco que verá a luz do dia a sete de junho, uma divertida composição, assente num tapete percurssivo carregado de groove, acompanhado por um teclado pleno de soul e diversos arranjos inspirados, nomeadamente de cordas, uma canção que se mostra fiel à filosofia adjacente ao processo de composição do registo e que, soando inventiva e intemporal, está de acordo com o que se exige a um projeto com quase trinta anos de uma bem sucedida carreira, icónica e fundamental no cenário indie britânico. Confere Queuejumper e a tracklisting de Office Politics...

The Divine Comedy - Queuejumper

1. Queuejumper

2. Office Politics

3. Norman And Norma

4. Absolutely Obsolete

5. Infernal Machines

6. You'll Never Work In This Town Again

7. Psychological Evaluation

8. The Synthesiser Service Centre Super Summer Sale

9. The Life and Soul Of The Party

10. A Feather In Your Cap

11. I'm A Stranger Here

12. Dark Days Are Here Again

13. Philip And Steve's Furniture Removal Company

14. 'Opportunity' Knox

15. After The Lord Mayor's Show

16. When The Working Day Is Done


autor stipe07 às 16:32
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Segunda-feira, 8 de Abril de 2019

The Proper Ornaments - Six Lenins

Já viu a luz do dia Six Lenins, o terceiro registo de originais de um dos segredos mais bem guardados da indie britânica contemporânea. Refiro-me aos londrinos The Proper Ornaments de James Hoare, uma das caras metade dos Ultimate Painting e de Max Claps, membro recente dos Toy, que conseguiram ultrapassar um período bastante complicado, ainda antes da edição de Foxhole, o registo que lançaram há pouco mais de dois anos. Foram tempos conturbados, após uma estreia auspiciosa com Wooden Head, em dois mil e catorze, peripécias infelizes que incluiram episódios de doença, divórcio e abuso de drogas, mas que não impediram que três anos depois chegasse aos escaparates esse tal Foxhole, o segundo tomo do grupo.

Agora, na primavera de dois mil e dezanove e depois de uma digressão pelo outro lado do atlântico e de uma estadia bastante profícua no estúdio caseiro de James em Finsbury Park, Londres, que também serviu para afastar definitivamente todos os fantasmas que foram apoquentando os The Proper Ornaments neste meia década, a banda entrega finalmente aos seus fãs Six Lenins, uma espetacular coleção de dez canções que nos convidam a contemplar o grupo a dominar o seu som aparentemente sem qualquer esforço e com um acabamento exemplar, enquanto as suas proezas de composição, que divagam entre as heranças de uns Beach Boys ou uns Velvet Underground, se mostram cada vez mais surpreendentes.

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A impressão imediata que se tem logo após a audição de Six Lenins é que este é um daqueles discos em que se vai, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa espécie de indie-folk-surf-suburbano, feito por intérpretes de um arquétipo sonoro que exala um intenso charme, principalmente porque a sensação de intuição e espontaneidade é tal que, ao ouvi-los, parece que não se importaram nada de poderem, eventualmente, transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, desde que levem à tona a sonoridade com que realmente se identificam e se sentem realizados em replicar. E tal facto representa, desde logo, a manifestação de um elevado bom gosto, que se torna ainda maior pela peça em si que este disco representa, tendo em conta a bitola qualitativa do mesmo.

Six Lenins, o terceiro álbum dos The Proper Ornaments, que contou com as participações especiais de Danny Nellis (Charles Howl) no baixo e Bobby Syme (Wesley Gonzalez) na bateria, está, portanto, repleto de composições refinadas e exemplarmente elaboradas. A sonoridade é sempre controlada de modo a criar um clima homogéneo que se torna transversal ao alinhamento, enganando quem ouvir o disco desinteressadamente, porque irá sentir, erradamente, que as canções soam muito iguais. Mas este é um álbum que merece audição dedicada e que deve ser saboreado com o tempo e a velocidade que exige. A sua crueza plena de ricos detalhes, o charme analógico e o carisma vintage nada pretensioso e que não se desbota na contemporaneidade dos nossos dias em que a ferocidade do sintético e da pop fácil arrastam multidões tantas vezes iludidas e a riqueza melódica que contém e que nos permite encontrar a tal individualidade que cada composição claramente possui, só são devidamente assimilados, compreendidos e saboreados através de um modus operandi auditivo que seja dedicado à descoberta do que cada tema tem para oferecer e para nos enriquecer e desprendido de qualquer preconceito relativamente às influências e ao histórico sombrio, nublado e até algo decadente subjacente à incubação deste alinhamento solarengo, otimista e sorridente.

Assim, do ternurento efeito metálico que divaga por Apologies, até à intuitiva Crepuscular Child, uma canção emotivamente forte, conduzida por um baixo vincado e uma guitarra cheia de soul, passando pela jovialidade dos efeitos do sintetizador que conduz Song For John Lennon, pelo travo psicadélico de Where Are You Now, pela vibe surf sessentista de Please Release Me, ou pelo forte odor nostálgico a que exalam as teclas e as cordas de Bullet From A Gun, Six Lenins é um disco extraordinariamente jovial, uma sedutora demonstração de superior clarividência por parte de um projeto que soube sobreviver ao caos e que, fruto do empenho e da superior capacidade criativa dos seus membros, merece, claramente, uma outra posição de relevo no universo sonoro indie e alternativo. Espero que aprecies a sugestão...

The Proper Ornaments - Six Lenins

01. Apologies
02. Crepuscular Child
03. Where Are You Now
04. Song For John Lennon
05. Can’t Even Choose Your Name
06. Please Release Me
07. Bullet From A Gun
08. Six Lenins
09. Old Street Station
10. In The Garden


autor stipe07 às 21:30
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Domingo, 7 de Abril de 2019

Vampire Weekend – This Life & Unbearably White

Mais de meia década depois do excelente Modern Vampires of the City, disco lançado em dois mil e treze, os Vampire Weekend de Ezra Koenig, Rostam Batmanglij, Chris Baio, Chris Tomson e Greta Salpeter, estão finalmente de regresso aos lançamentos discográficos com Father Of The Bride, o quarto disco da carreira do grupo de Nova Iorque, que irá ver a luz do dia a três de maio, através da Columbia Records.

Vampire Weekend

Father Of The Bride será um disco duplo com dezoito composições e um terço do seu alinhamento está a ser divulgado ao grande público no primeiro semestre deste ano, tendo esse processo já dado o pontapé de saída com Harmony Hall e 2021, em fevereiro e Sunflower e Big Blue, no início de março. Agora, cerca de um mês depois, é divulgada a terceira fornada, constituída pelas canções This Life e Unbearably White.

This Life é um buliçoso tema, uma composição solarenga e com um groove bastante charmoso, assente num trabalho rítmico e percurssivo bastante radiante. Conta com a participação especial vocal de Danielle Haim e tem como principal curiosidade uma letra inspirada nas canções It Never Rains in Southern California, um sucesso de mil novecentos e setenta e dois da autoria de Albert Hammond, pai de Albert Hammond Jr., membro dos The Strokes e presença assídua neste blogue (Baby I know pain is as natural as the rain, I just thought it didn’t rain in California) e, no refrão, na composição Tonight, do rapper californiano iLoveMakonnen (You’ve been cheating on, cheating on me, So I’ve been cheating on, cheating on you).

Quanto a Unbearably White, tema que se debruça no modo cínico como a questão do racismo é hoje tratada numa cada vez mais politizada e dividida América (There’s an avalanche coming, Cover your eyes), trata-se de uma composição mais melancólica e intimista, com uma vasta inserção de arranjos de cordas e outros de origem sintética a pairarem sobre uma melodia intrigante e algo densa. Confere... 

Vampire Weekend - This Life - Unbearably White

01. This Life
02. Unbearably White


autor stipe07 às 14:08
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Sábado, 6 de Abril de 2019

The National – Light Years

The National - Light Years

Será a dezassete de maio que chegará aos escaparates e através da 4AD, I Am Easy To Find, o tão aguardado novo registo de originais dos norte-americanos The National. Oitavo disco da carreira do grupo, I Am Easy To Find sucede a Sleep Well Beast, o disco que a banda de Matt Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf editou no final do verão de dois mil e dezassete e terá um alinhamento de dezasseis canções, também já divulgado.

Uma das grandes curiosidades de I Am Easy To Find é resultar de uma parceria da banda com o realizador Mike Mills, sendo o registo um dos componentes de 20th Century Womeno mais recente filme do cineasta, que também dirigiu uma curta-metragem com o nome do álbum, que conta com Alicia Vikander como protagonista principal e na banda sonora com You Had Your Soul With You, o primeiro single retirado deste novo trabalho discográfico dos The National e que divulguei oportunamente e Light Years, o mais recente tema retirado de I Am Easy To Find, cujo vídeo também conta com a atriz sueca no papel principal.

Light Years é uma belíssima balada que coloca os The National no trilho de uma sonoridade que também lhes é familiar e na qual se movimentam confortavelmente. Servindo para encerrar em alta o alinhamento do disco, é uma canção assente num delicado piano e na voz cada vez mais madura, assertiva e positiva de Berninger, assumindo-se como uma das mais bonitas do cardápio da carreira do grupo nova iorquino. Confere...


autor stipe07 às 11:15
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Sexta-feira, 5 de Abril de 2019

Lambchop - This (Is What I Wanted to Tell You)

Depois de FLOTUS, o disco que os Lambchop editaram em dois mil e dezasseis, Kurt Wagner, o grande mentor deste projeto norte-americano sedeado em Nashville e ao qual se juntam atualmente o baixista Matt Swanson e o pianista Tony Crow, fez uma cover para o clássico When You Were Mine de Prince e realizou um mini-documentário em Colónia, onde juntamente com seis músicos alemães reinterpretou temas de FLOTUS. Após essa demanda por outros territórios artísticos, Wagner sentiu-se inspirado para mais uma adição ao cardápio do projeto da sua vida e quase no ocaso de dois mil e dezoito começaram então a ser revelados detalhes de This (is what I wanted to tell you), um trabalho que viu a luz do dia a vinte e dois de março último à boleia da City Slang, em parceria com a Merge Records e que, além do trio, também conta nos créditos com Matt McCaughan, reconhecido pelo seu excelente trabalho percurssivo em projetos como os Hiss Golden Messenger e Bon Iver.

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Percurssores do chamado alt-country, os Lambchop continuam a enredar-se por territórios sonoros onde o risco permanente é uma névoa que paira sempre sobre o grupo, mas que nunca se precipita e sempre se precipita devido ao superior quilate das canções e da filosofia adjacente a cada novo laçamento do grupo. This (Is What I Wanted to Tell You) não foge a essa regra, com os Lambchop a manterem-se fiéis à sua essência estética que vive muito da orgânica das cordas, quase sempre a base das composições, mas a mostrarem-se cada vez mais enredados nas possibilidades que o progresso tecnológico porporciona no momento de conceber o arquétipo instrumental de cada composição que idealizam. The December-ish You, a primeira canção revelada de This (Is What I Wanted to Tell You) teve, desde logo, a virtude de comprovar esta tese anterior. Se, por um lado, permanece nela aquela habitual tonalidade particularmente íntima e que exala a desarmante sensibilidade dos Lambchop, por outro, quer esse tema quer, por exemplo, This is what I wanted to tell you, são composições que seguem uma linha melódica e estilística que enreda cada vez mais a banda em paisagens onde jazz e eletrónica se misturam com superior elegância.

Esta sensação de constante experimentação em que os Lambchop vivem e da qual saiem sempre de modo airoso é, claramente, uma marca de independência e coragem por parte de quem assume estar na linha da frente de uma sonoridade eminentemente orgânica, mas que se disponibiliza para ser alvo de um manancial de possíveis remisturas por parte de quem se quiser aventurar a tentar embrenhar-se a fundo num arquétipo sonoro que configura uma espécie de country urbano com laivos de soul. As cordas e a voz modelada de The New Isn’t So You Anymore, trespassadas por vários efeitos divagantes, por um piano insinuante e por sopros estridentes e o jogo arbitrado pelo piano e que se estabelece entre baixo e bateria em Everything For You, uma das composições mais ritmadas do alinhamento, são os momentos maiores de uma espécie de eletroacústico que se embrenha a fundo por territórios digitais, mas nunca deixa de ter bem definidas as suas fronteiras. 

No que concerne ao restante alinhamento, não faltam em This (Is What I Wanted to Tell You) longas canções sobre relacionamentos, perdas, tristezas, revestidas com ironia e autodepreciação, como se exige a um disco dos Lambchop, que volta a colocar este grupo nos lugar devido em termos de reconhecimento que é, no fundo, continuar a conseguir ser uma espécie de segredo bem escondido para quem tem o bom gosto de apreciar o charme e a elegância que continuam a exalar deste projeto. Importa referir apenas que This (is what I wanted to tell you) é, tecnicamente, o décimo terceiro registo dos Lambchop desde o álbum de estreia em mil novecentos e noventa e quatro, mas foi anunciado por Wagner, pelos vistos por uma questão de superstição, como o décimo quarto da carreira do grupo (Like all the other tallest buildings in the world, Lambchop skips No. 13), This (is what I wanted to tell you). Espero que aprecies a sugestão...

Lambchop - This (Is What I Wanted To Tell You)

01. The New Isn’t So You Anymore
02. Crosswords, Or What This Says About You
03. Everything For You
04. The Lasting Last Of You
05. The Air Is Heavy And I Should Be Listening To You
06. The December-ish You
07. This Is What I Wanted To Tell You
08. Flower


autor stipe07 às 10:52
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Quinta-feira, 4 de Abril de 2019

Deportees - Bright Eyes

Deportees - Bright Eyes

Produzido por Pontus Winnberg (Miike Snow) e gravado nos estúdios Skolhaus, em Mariefred, nos arredores de Estocolmo, Bright Eyes é o mais recente single divulgado de Re-Dreaming, o EP que o trio sueco Deportees vai lançar a dezassete de maio.

Com forte tonalidade oitocentista, Bright Eyes tem uma atmosfera bastante emotiva, empática e sentimental e debruça-se sobre a capacidade que todos devemos ter de nos reerguermos depois de instantes de dissabor em que tudo parece desmoronar em nosso redor, conforme confessou recentemente Peder Stenberg, o vocalista e letrista do grupo. Confere...


autor stipe07 às 10:51
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Quarta-feira, 3 de Abril de 2019

Um Corpo Estranho - Homem Delírio

Já chegou aos escaparates Homem Delírio, o terceiro registo de originais do projeto Um Corpo Estranho, formado por Pedro Franco e João Mota e sedeado em Setúbal. O registo sucede aos trabalhos De Não Ter Tempo (2014), que contou com a participação de Celina da Piedade e incluia uma versão de um tema da Madredeus e Pulso (2016), considerado por alguma imprensa especializada como um dos melhores discos nacionais desse ano (Santos da Casa RUC, Certeza da Música, No Sólo Fado). Além destes três álbuns, Um Corpo Estranho também conta já no seu cardápio com três bandas sonoras para os bailados, A velha Ampulheta, Qarib e A Almofada da Paula, este último baseado na obra da pintora Paula Rego. Importa ainda referir que estes finalistas do Prémio José Afonso em 2015, já compuseram para curtas metragens e peças de dança e de teatro.

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Lançado com o apoio da Fundação GDA, produzido por Sérgio Mendes, elemento já frequente nos arranjos de Um Corpo Estranho e com as participações especiais de Paulo Cavaco ao piano e o acordeão inconfundível da, já habitual, Celina da Piedade, citada acima, Homem Delírio abre em modo excelência com Fio A Par Do Mal, uma canção que reflete sobre diversas dualidades e que nos deslumbra com um jogo vocal bastante impressivo e realista. A partir dessa impressionante interpretação está dado o mote para um alinhamento que no bucolismo e na superior complacência das cordas de Sangue Irmão e do tema homónimo, começa por nos levar a viajar até ao outro lado da fronteira, com o intuíto de nos apresentar alguém que quase todos conhecemos e que inspirou o processo de escrita do álbum. Assim, nessa demanda por uma sedutora Andaluzia espanhola cheia de histórias de um cavaleiro que lutou contra moinhos de vento e de cheiro a feno, reluz o conhecido escritor Ernest Hemingway, que é para os Um Corpo Estranho uma espécie de Dom Quixote moderno, não só por causa do seu cardápio lírico, mas também pelo modo pouco regrado como viveu, num trajeto onde inquietação, isolamento e desgosto conviveram paredes meias com um corajoso aventureiro.

Apresentado o Homem Delírio personagem que vai seguir de mãos dadas conosco até ao ocaso do alinhamento, de seguida, cordas, vozes em dor e uma distorção agreste alimentam em O Estrangeiro uma profunda reflexão sobre a problemática da crise dos refugiados e o modo como o nosso continente tem lidado com quem se vê abruptamente privado do lugar onde sempre pertenceu e passa a conviver em terra estranha com a desconfiança e o preconceito de quem nem sempre acolhe como devia. Esta temática da desconfiança e dos receios é substituida, pouco depois, por mais um fator causador de angústia e depressão humana, o universo da morte e da perca, mas que nesta abordagem também intui sobre o renascimento e o recomeço. É mais uma dicotomia alvo de reflexão, neste caso ao som do piano de Hera, com as mesmas teclas e o acordeão de Só O Paraíso a nos fazerem contemplar outra, o modo como olhamos para determinados espaços físicos e lugares e os analisamos, ou pela perspetiva dos factos provados que eles testemunharam e que a história narra com maior ou menor exatidão, ou os mitos e as lendas que lhes estão muitas vezes associados.

Esta maravilhosa viagem pelo nosso âmago termina com Valsa do Acaso, canção que encerra o alinhamento em modo convite, para que cada um de nós tenha a capacidade de meditar sobre a nossa existência e não recear mudar caso sinta que pode muito bem ter dentro de si um Homem Delírio a precisar de urgente exorcização. Pode muito bem fazer este exercício de introspeção ao som destes pouco mais de trinta minutos pensados para serem analisados à lupa, como é essencial na música que preenche e enriquece e nos dá algo de novo dentro da amálgama sonora dos dias de hoje, até porque os protagonistas de Um Corpo Estranho são exímios no modo como nos oferecem sons criados com forte inspiração em elementos paisagísticos, enquanto se debruçam sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e colocam a nu algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que todos temos, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que nos rodeia. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 10:47
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Terça-feira, 2 de Abril de 2019

Interpol – The Weekend

Interpol - The Weekend

Cerca de meio ano após o lançamento de Marauder, os Interpol entraram em grande estilo no novo ano com excelentes novidades. O trio nova iorquino começou por oferecer aos escaparates, logo em janeiro, um novo single intitulado Fine Mess, que, pelos vistos, irá também dar nome a um EP que a banda vai lançar a dezassete de maio, à boleia, obviamente, da Matador Records.

Com um alinhamento de cinco temas gravados por Dave Fridmann nos estúdios nova iorquinos do próprio, os Tarbox Studios, durante a sessões de Marauder, o tal disco que os Interpol editaram no verão passado, Fine Mess EP acaba de ver mais um tema divulgado. A canção chama-se The Weekend e, à semelhança da composição homónima do EP, oferece-nos um Banks incisivo como sempre, nomeadamente no modo como toca aquela guitarra agreste, agudizada pelo efeito identitário dos Interpol, feito daquele timbre metálico que lançou o grupo para as luzes da ribalta no início deste século, reforçando uma tentativa interessante do trio e que se saúda de regresso aquele formato mais genuíno que exalta o espírito sombrio dos anos oitenta e que fez que com o indie rock genuíno de Antics e o post punk revivalista de Turn On The Bright Lights, os Interpol conquistassem, à altura, meio mundo. É, pois, uma canção que contém aquela virilidade elétrica misturada com uma espécie de absurdo lírico, outra imagem de marca dos Interpol. Recordo que a banda irá passar por Portugal na próxima edição do NOS Primavera Sound. Confere Weekend e a tracklist de Fine Mess EP...

01 Fine Mess
02 No Big Deal
03 Real Life
04 The Weekend
05 Thrones


autor stipe07 às 10:40
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Segunda-feira, 1 de Abril de 2019

The Dodos – The Surface

The Dodos - The Surface

Foi no início do último outono que os The Dodos de Meric Long e Logan Kroeber colocaram nos escaparates o sucessor para o excelente Individ, lançado já no longínquo ano de dois mil e quinze. Esse novo álbum da dupla de São Francisco chamava-se Certainty Waves, foi produzido pelo próprio Meric Long, viu a luz do dia através da Polyvinyl Records e com ele veio também uma digressão de promoção ao disco que ainda não está concluída. No entanto, no final da primeira fase da mesma e como os The Dodos já não andavam na estada há algum tempo, sentiram-se particularmente inspirados e também uma tremenda necessidade de compôr, conforme confessou recentemente Meric (Back in the fall after finishing our first tour in what seemed like ages, a bunch of ideas that were floating around seemed to converge).

The Surface, uma nova composição da dupla, que viu recentemente a luz do dia através da editora acima referida, acaba por ser a primeira materialização concreta desse processo de composição repentino, também muito influenciado por uma guitarra adquirida recentemente pelo vocalista, um novo brinquedo que parece estar também a inspirá-lo imenso e a mostrar-lhe qual o rumo sonoro que pretende para o futuro dos The Dodos (I recently acquired a Recording King parlor guitar, it doesn't look like much on paper but it is magical and I am squeezing it like a life raft through the next batch of songs. Perhaps it is age, or just compounded cynicism, but there is an overwhelming gratitude that I feel when any small bit of inspiration sheds it's light, and the path ahead seems relatively clear ).

Para já, The Surface impressiona pelo modo como coloca os The Dodos novamente na senda daquela toada folk que marcou os primeiros trabalhos do projeto, tempos aúreos que tiveram o aâmago no já referido registo Individ e que, a meu ver, estavam a ser colocados de lado em detrimento de uma filosofia interpretativa mais pop e com um lustro mais sintético. Recordo que Certainty Waves deu uma importância nunca vista no seio do grupo, à vertente eletrónica e à heterogeneidade instrumental, proveniente, essencialmente, de fontes artificiais. A crueza da guitarra e a sua forte toada orgânica e o registo frenético e algo intuitivo da percurssão de Kroeber, neste novo tema dos The Dodos, fá-los regressar aos seus instintos mais primários e coloca os dois intérpretes naquela que é, por excelência, a sua zona de conforto e o seu periodo mais aúreo. Confere...


autor stipe07 às 10:38
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Domingo, 31 de Março de 2019

Ra Ra Riot & Rostam Batmanglij – Bad To Worse

Ra Ra Riot And Rostam Batmanglij - Bad To Worse

Dez anos depois de uma profícua colaboração que resultou num disco intitulado Discovery (2009) e de Rostam Batmanglij, membro dos Vampire Weekend de Ezra Koenig, ter produzido, cerca de meia década depois, Need Your Light, o último registo de originais dos Ra Ra Riot, alinhamento que continha Water, um tema composto a meias por Rostam e a banda, o músico nova iorquino e o coletivo de Siracusa, nos arredores da mesma cidade, voltam a unir esforços em Bad To Worse, o primeiro single revelado pelo grupo liderado por Wes Miles desde esse trabalho lançado há cerca de três anos.

Em Bad To Worse, canção inspirada em vagas memórias e longas viagens rodoviárias, como refere Miles no press release de lançamento da canção, que deverá fazer parte de um novo álbum dos Ra Ra Riot (It’s about watching the world from the window of the car or bus, and how there’s a familiarity to everything but it’s never the same as it once was), o ritmo divagante e melancólico da bateria encaixa na perfeição com o registo vocal em falsete de Miles, enquanto as sintetizações e as cordas, à medida que se acomodam progressivamente na melodia, fazem a canção levitar, levando-nos com ela e deixando-nos letargicamente à sua mercê, à medida que a herança de alguma da melhor pop oitocentista ressurge do nosso baú de memórias. Confere...


autor stipe07 às 12:30
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Sexta-feira, 29 de Março de 2019

Tricycles - Saliva

João Taborda, Afonso Almeida, Edgar Gomes e Sérgio Dias são os Tricycles, uma espécie de super grupo que acaba de se estrear nos registos discográficos com um homónimo, gravado e produzido por Nelson Carvalho e editado pela Lux Records e que será alvo de revisão atenta muito em breve neste blogue.

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Descritos como um triciclo no alto de uma duna, a ver o mar, a sentir o sol quente nas rodas pintalgadas de areia, com uma certa comichão no volante por causa da humidade salgada, os Tricycles começaram a ganhar vida quando o Sérgio (bateria) e o Edgar (baixo) se juntaram ao Afonso (guitarra, voz) e ao João (guitarra, teclas, voz), para dar corpo a uma coisa vagamente improvável, mas que resulta claramente e que em estúdio funciona porque lá brincam como putos irrequietos no parque infantil e ao vivo também já que nos concertos a ideia é que a energia da lua no alcatrão quente suba pelos pedais até ao volante e exploda de modo a que o público e a banda comunguem raivas e melodias.

Saliva é o mais recente single extraído de Tricycles, uma canção de amor, mas de um amor especial, o chamado amor-ódio. Como não gostam de coisas anémicas, os Tricycles puseram imenso amor-ódio neste tema e também muita saliva, unhas e contradições, tudo guiado pelo mesmo piano martelado do princípio ao fim. O resultado é uma música íntima e coberta de sal na ferida, já com direito a um video em desenhos animados, realizado por João Taborda, com a colaboração de Afonso Barata e editado por Edgar Gomes e o mesmo João Taborda, feito frame a frame, com muita paciência, muito amor e, desta vez, sem qualquer pitada de ódio

Importa ainda referir que os Tricycles irão participar no EPICENTRO!, um evento com curadoria da Lux Records e da Blue House, a decorrer no Salão Brazil, em Coimbra. Sobem ao palco a vinte de Abril, na última noite do evento, que contará também com Ruze e ainda com os The Parkinsons, como cabeças de cartaz. Confere...


autor stipe07 às 10:50
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Quinta-feira, 28 de Março de 2019

Kakkmaddafakka – Diplomacy

Ativos desde dois mil e quatro, sedeados em Bergen, na Noruega, e formados por Axel Vindenes, Pål Vindenes, Stian Sævig, Kristoffer Wie van der Pas, Lars Helmik Raaheim-Olsen e Sebastian Kittelsen, os Kakkmaddafakka estrearam-se nos discos em dois mil e sete com Down To Earth e contam já com quatro registos no seu cardápio, sendo o último Hus, um trabalho lançado há cerca de dois anos e que tem sucessor este ano, um alinhamento lançado recentemente pela Bergen Mafia Records e produzido por Matias Tellez. De acordo com a banda, este quinto álbum dos Kakkmaddafakka é o mais intimista e honesto do grupo, porque se inspira bastante em Bergen e porque aborda temáticas relacionadas com problemas de saúde mental, pelos vistos na ordem do dia em muitas bandas e projetos, como tem sido possível verificar nas publicações mais recentes deste blogue.

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Diplomacy é uma espécie de grito de alerta para o quanto difícl é, para mais pessoas do que se julga, viver nos dias de hoje numa sociedade profundamente dividida e carente de um rumo que agregue toda a amálgama de etnias, raças e povos que fazem desta nova Europa, um dos continentes mais heterogéneos e conturbados deste nosso mundo, apesar de apregoar muitas vezes aos sete ventos ser o mais civilizado, acolhedor e desenvolvido dos cinco. O segredo para a pacificação e para a sanidade e o equilíbrio que todos precisamos acaba por estar, no fundo, no encontro de pontos comuns e a música dos Kakkmaddafakka é fértil a deixar pistas nesse sentido, porque para este grupo a felicidade não olha a cores de pele, origens, heranças ou deuses para se manifestar. Basta ouvir o single Runaway Girl, uma luminosa e imponente canção sobre um amor proibido, assente num sintetizador cintilante, numa percussão frenética e numa guitarra plena dereverb, para se perceber a aúrea de otimismo e cor que a música deste grupo norueguês é capaz de transmitir ao ouvinte.

Para obter tal desiderato, Diplomacy aposta todas as fichas num receituário eminentemente pop que nos remete para a melhor herança da mescla de nomes como os The War On Drugs ou os Friendly Fires, só para citar os projetos que saltam logo ao ouvido durante a audição do disco. É uma filosofia interpretativa com um travo indie de excelência, assente também em rimas simples e de perceção quase intuitiva de uma espécie de humor melancólico e que a cadência e o polimento de Naked Blue, o travo oitocentista das sintetizações e das guitarras de Sin e Get Go também exemplificam e comprovam, num resultado final promissor e que não desilude minimamente. Espero que aprecies a sugestão...

Kakkmaddafakka - Diplomacy

01. My Name
02. Runaway Girl
03. The Rest
04. Sin
05. Get Go
06. Frequency
07. Moon Man
08. Naked Blue
09. This Love


autor stipe07 às 10:43
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