Segunda-feira, 11 de Setembro de 2017

The National - Sleep Well Beast

Foi no último dia oito que chegou aos escaparates e através da 4AD, Sleep Well Beast, o tão aguardado novo registo de originais dos norte-americanos The National, que sucede a Trouble Will Find Me, o disco que a banda de Matt Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf editou no já longínquo ano de 2013. Sétimo disco da carreira do grupo, Sleep Well Beast foi produzido por Aaron Dessner, com produção adicional de Matt Berninger e Bryce Dessner, misturado por Peter Katis e gravado no estúdio Long Pond em Hudson Valley, Nova Iorque.

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Os The National sempre foram bem aceites e acarinhados por cá devido ao modo como, nos primeiros discos, se tornavam automaticamente nossos amigos e confidentes, não só pela forma como abordavam a tristeza, dando-nos pistas concretas não só na forma de lidar com ela, mas também porque nos mostravam o caminho para a redenção, nem que fosse através da simples lembrança de que amanhã há um novo dia e que a esperança nunca pode esmorecer. E faziam-no apostando as fichas todas na voz grave de Berninger, conjugada com arranjos bastante melódicos, refrões simples e versos acessiveis que, aliando-se a uma orgânica melódica particularmente minimal, mas profunda e crua, nos facultavam tal universo fortemente cinematográfico e imersivo.

Seja por mero capricho, por uma questão de maturidade ou simples espírito aventureiro, a verdade é que tem havido um certo abandono dessa zona de conforto, o que, não colocando em causa a carreira dos The National, tem levado a banda para territórios sonoros menos imediatos e orgânicos, com os sintetizadores e outros arranjos e instrumentos inéditos, a fazerem cada vez mais parte do ideário sonoro do grupo. Desse modo, o primeiro grande elogio que se pode fazer a Sleep Well Beast é que não atira o quinteto nova iorquino para uma possível queda na redudância convencional ou na repetição aborrecida. Portanto, ultimamente, a cada novo lançamento do grupo, mais do que perceber com clareza aquilo que une o alinhamento à herança, convém olhar com atenção para os pontos de ruptura e de diferenciação, algo pertinente desde o antecessor, Trouble Will Find Me. Antes disso a estratégia era claramente outra, já que se Sad Songs for Dirty Lovers  foi a estreia assumida do grupo num contexto mais negro, apesar de não ser o primeiro disco da banda, dois anos depois Alligator trouxe uma maior variedade instrumental e, em 2007, Boxer carimbou a definitiva maturidade e internacionalização do coletivo, além de ter  posicionado na figura do vocalista um personagem que caminhava confortavelmente por cenários que descrevem dores pessoais e escombros sociais. Quanto a High Violet (2010), serviu para colocar ênfase numa toada mais épica e aberta do grupo e demonstrar a capacidade eclética que também têm de compôr, em simultâneo, temas com um elevado teor introspetivo (Conversation 16, Sorrow ou Terrible Love) e verdadeiros hinos de estádio (England,Bloodbuzz Ohio), mas sem defraudar o conceito inicial central.

Agora, ao sétimo álbum, os The National conseguem, em temas como Nobody Else Will Be There ou Walk It Back, regressar ao ambiente desolador que percorrem desde o começo de carreira e, ao mesmo tempo, apresentar as novas nuances instrumentais do seu arquétipo, muito firmadas nas teclas e em diversos dos atuais entalhes entre eletrónica e rock alternativo, que procuram incutir luminosidade e cor ao que aparentemente é sombra e rugosidade. Assim, acaba por ser comum escutar em simultâneo, como é o caso de Born to Beg, instantes em que os instrumentos clamam pela simplicidade, mas que acabam por resvalar para uma teia sonora que se diversifica e se expande para, neste caso, com alguma cor e optimismo, dar vida a um conjunto volumoso de versos sofridos, sons acinzentados e o habitual desmoronamento pessoal que nos arrasta sem dó nem piedade para o usual ambiente sombrio e nostálgico da banda e depois há ainda canções, como Empire Line, que prezam pelo minimalismo da combinação de apenas quatro instrumentos, mas que, no fundo, tornam-se num refúgio bucólico e denso que impressiona pelo forte cariz sensorial. Finalmente, há ainda outras que soam mais ricas e trabalhadas, como The System Only Dreams In total Darkness, talvez o tema do disco que exale com superior precisão o cada vez maior ecletismo de um grupo mais consciente de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes.

Casado e pai de uma filha, Matt afugenta os seus habituais demónios com maior conforto e uma natural aceitação em relação à impossibilidade do total desaparecimento dos mesmos, mesmo que haja atualmente mais instantes e eventos felizes na sua vida pessoal. Não faltam em Sleep Well Beast bons exemplos que nos remetem para uma certa felicidade, digamos assim, que Matt sente por ter finalmente percebido que os problemas, o sofrimento e a dor estarão sempre lá mesmo que a maior constância de eventos felizes seja uma realidade concreta na sua vida. Há como que uma tomada de consciência de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes. Sendo, sonoramente, o disco mais arriscado da carreira do grupo, Sleep Well Beast é, em suma, uma espécie de exercício de redenção, onde o sofrimento é olhado com a habitual inevitabilidade, mas de uma outra perspetiva, mais madura, assertiva e positiva, um compêndio onde os The National firmam a sua posição na classe dos artistas que basicamente só melhoram com o tempo. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Nobody Else Will Be There (4:39)
02. Day I Die (4:31)
03. Walk It Back (5:59)
04. The System Only Dreams in Total Darkness (3:56)
05. Born to Beg (4:22)
06. Turtleneck (3:00)
07. Empire Line (5:23)
08. I’ll Still Destroy You (5:15)
09. Guilty Party (5:38)
10. Carin at the Liquor Store (3:33)
11. Dark Side of the Gym (4:50)
12. Sleep Well Beast (6:31)


autor stipe07 às 16:52
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