Sábado, 11 de Novembro de 2017

Plastic Flowers – Absent Forever

Juntam-se guitarras impregnadas de efeitos com uma forte toada shoegaze e um ambiente melódico particularmente lisérgico e contemplativo e estão lançados os dados para a chegada às luzes da ribalta de mais um projeto indie dentro do espectro sonoro que nos oferece uma versão algo ruidosa da dream pop mais ambiental e que também revive, em grande parte, épocas gloriosas de um rock alternativo que fez escola na reta final do século passado em Terras de Sua Majestade. Refiro-me a Plastic Flowers, o alter-ego sonoro do grego, sedeado em Londres, George Samaras, um projeto que nasceu na zona de Tessalónica, na Grécia, há pouco mais de meia década. Plastic Flowers vai já no terceiro lançamento discográfico, sendo o mais recente Absent Forever, dez canções que acabam de ver a luz do dia à boleia da The Native Sound.

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Com algumas canções já arquitetadas desde 2013 e gravado em apenas três meses, em diferentes espaços de Londres e num pequeno estúdio da casa de um amigo de Samaras em Hampstead, arredores da capital britânica, Absent Forever é um disco de contrastes. Se contém instantes tremendamente ruidosos e com uma forte complexidade instrumental, também deve muito da sua bitola qualitativa superior a outros intensamente calmos e reflexivos, sendo inteligente o modo como se vão revezando entre si, muitas vezes dentro dos próprios temas, numa demanda sonora onde a ideia de experimentalismo é elevada à forma de arte, neste caso sonora, com charme, bom gosto e uma invulgar sapiência.

Um dos truques que explica o som inédito e bastante identitário deste álbum é o modo como no processo criativo foram capturados alguns dos instrumentos através da antiga e analógica tecnologia da fita magnética. Depois, a participação de um quarteto de cordas também ajudou a ampliar ainda mais o clima rugoso e orgânico de um alinhamento que possui o habitual cariz melancólico em que Plastic Flowers gosta de nos imergir. No single How Can In, o modo como um imparável riff eletrificado se sobrepõe e um trecho de guitarra ternurento que se repete ininterruptamente, plasma esta sensação agridoce que acaba por se estender à meia hora que o disco dura, até porque essa sensação se repete logo a seguir em Seventeen, canção que inicia com uma guitarra fortemente etérea e luminosa que pouco depois é trespassada por uma bateria imponente, com o resultado final a ser uma composição de forte cariz orquestral, com deliciosos acordes e melodias minuciosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, algo que à partida não era fácil de adivinhar assim que o tema começou. Depois, a sobriedade sentimental esplendorosa de Falling Off, o modo quase espiritual como em Half Life somos confrontados com um edifício sonoro com uma epicidade incomum e algo intrigante e a feliz nostalgia oitocentista que exala do post rock que define So Long, uma daquelas canções cujas diversas camadas de sons impelem ao cerrar de punho, são outros exemplos felizes do modo como neste Absent Forever é possível apreciar ruído e rugosidade, sem deixar de estar à tona uma toada eminentemente tranquila e sedutora, mesmo que, durante a audição, o frenesim na percussão e o ruído das guitarras, principalmente nos refrões, sejam nuances que parecem apontar numa outra direção, até algo oposta.

Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado, Absent Forever exala o contínuo processo de transformação de Plastic Flowers que procura mostrar, ao terceiro registo, com a marca do indie shoegaze, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...

Plastic Flowers - Absent Forever

01. Absent Forever
02. How Can I
03. Seventeen
04. Falling Off
05. Dalliance
06. Half Life
07. So Long
08. Where Are You
09. January 2017
10. NN


autor stipe07 às 22:50
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Sábado, 30 de Setembro de 2017

The Horrors - V

Três anos depois do grandioso e extraordinário Luminous, já ganhou vida o novo disco dos The Horrors de Faris Badwan, Joshua Hayward, Tom Cowan, Rhys Webb e Joseph Spurgeon, um trabalho lançado às feras recentemente e o quinto tomo da discografia deste quinteto de rapazes com o típico ar punk de há quarenta anos atrás, mas que têm mostrado que não pretendem apenas ser mais uma banda propagadora do garage rock ou do pós-punk britânico dos anos oitenta, mas donos de uma sonoridade própria e de um som adulto, jovial e tremendamente inovador.

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Ao quinto disco os The Horrors estabilizam numa monumentalidade muito própria e que encontra um equilíbrio da vertente sintética com a orgânica das guitarras. Assim, muita da orientação sonora deste disco encontra o seu principal sustento nas guitarras de Joshua e na bateria de Joseph, mas o sintetizador também é protagonista, instrumentos que se entrelaçam na construção de canções assentes numa faceta eminentemente pop, criadas por uma banda que faz questão de viver permanentemente de braço dado com o experimentalismo em simbiose com a psicadelia.

Logo na densidade profunda e bastente intrincada de Hologram há uma distorção de fundo permanente que acomoda o edifício melódico da canção, uma sujidade potente no modo como expõe riffs e reverbs num descontrole que é apenas aparente e que, de certo modo, rejuvenesce a herança de um projeto que nunca tinha chegado tão longe no modo como mistura orgânico e sintético, algumas vezes estabelecendo ténues fronteiras entre os dois campos. Mesmo quando o piano de Press Enter To Exit parece ir clarificar um pouco a toada e dar-lhe um cariz mais límpido, surgem logo no tema loopings e efeitos cujo charme empoeirado mantêm a toada do álbum no rumo certo. E depois, quer na eloquência sintética do single Machine, quer no espírito pulsante de Point no Reply ou até no cariz algo soturno e contemplativo do efeito da guitarra que dá alma a Ghost, ficam desfeitas as dúvidas de quem pudesse querer colocar em causa o habitual ambiente tremendamente lisérgico dos The Horrors, por causa de uma apenas aparente maior primazia dos sitnetizadores em detrimento das guitarras nesta mais recente filosofia estilística do grupo.

Mais densos, hipnóticos e audaciosos do que nunca, os The Horrors chegam a esta faxe fundamental da carreira no auge das suas capacidades enquanto manipuladores sonoros abrangentes, verdadeiros mestres do indie rock progressivo psicadélico, mas que olham para o ruído como da primeira vez, fazendo-o de forma cada vez mais hipnótica, densa e intrincada. Neste V acabam também por desconstruir um pouco aquela ideia de que o estilo sonoro em que se inserem tem de obedecer sempre a normas muito precisas e bem balizadas, sendo bem pensado e preciso o modo como desbravam novas pontes e caminhos, apostando todas as fichas numa explosão de cores e ritmos que criam um álbum despido de exageros desnecessários, mas apoteótico. Espero que aprecies a sugestão...

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1.Hologram
2. Press Enter to Exit
3. Machine
4. Ghost
5. Two Way Mirror
6. Weighed Down
7. World Below
8. Gathering
9. It’s a Good Life
10. Something to Remember Me By


autor stipe07 às 21:30
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Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017

Oh Sees - Orc

Viu a luz do dia a vinte e cinco de agosto último, através da Castle Face, a editora do próprio John Dwyer, Orc, o novo e décimo nono álbum da carreira dos norte americanos Thee Oh Sees, um regresso aos lançamentos discográficos que se saúda desta banda californiana que também acaba de mudar mais uma vez de nome, algo que não é inédito nas cerca de duas décadas que já leva de carreira.

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Querendo ser conhecido a partir de agora simplesmente como Oh Sees (sem o The), este quinteto apresenta em Orc dez canções que mantêm uma elevada bitola qualitativa que sobrevive à custa do modo astuto como o grupo continua a abanar-nos com riffs agressivos e esplendorosos que, quer se prolonguem por músicas completas, ou por instantes das composições, têm sempre uma forte vertente hipnótica e uma ilimitada ousadia visceral, que explode em cordas eletrificadas que clamam por um enorme sentido de urgência e caos, num incómodo sadio que já não nos deixa duvidar acerca do ADN destes agora Oh Sees.

Logo no frenesim impulsivo e até algo inquietante de The Static God Dwier e no fulgor progressivo de Raw Optics Dwyer baliza, nesses que são os temas de abertura e de encerramento do disco, o ambiente geral de Orc, sendo ajudado de modo particular pelos bateristas Dan Rincon e Paul Quattrone nessa demanda. Se nestes dois temas ambos exalam uma deliciosa cumplicidade percurssiva, a mesma atinge o ponto mais alto quando nos instantes instrumentais da majestosa Keys To The Castle, sem serem tão exuberantes, responsabilizam-se por juntar todos os cacos, na forma de efeitos, cordas de guitarra e até de violino que Dwyer atira, conforme lhe apetece, para cima de uma base sonora tremendamente lisérgica e sensorial. Depois, no blues boémio e desmedido de Jettisoned, no arsenal de efeitos que abastece Paranoise e nas teclas setentistas que recriam o experimentalismo psicadélico de Cadaver Dog, Dwyer não disfarça minimamente a predileção que atualmente nutre por misturar de modo aparentemente anárquico alguns dos cânones clássicos do rock alternativo com o heavy metal e o rock progressivo, além de outros subgéneros de um rock que não se coibe de receber de braços abertos tudo aquilo que o músico tiver para testar. E realmente Dwyer testa, experimenta e recria sem ter o mínimo receio de colocar em causa, se tal for necessário, a impossibilidade de confrontar o ouvinte com o melodicamente acessível, já que aquilo que realmente lhe parece importar verdadeiramente é criar e recriar sobrepondo e alternando climas e formatos, de modo a dar vida à sua incasiável alma roqueira.

Edifício sonoro brilhante e cheio de vida e cor, Orc possibilita aos Oh Sees atravessarem novamente as barreiras do tempo e manterem-se, ao mesmo tempo, joviais e coerentes. Para delírio dos fiéis seguidores, o grupo mantém intata a sua insana cartilha de garage folk rock blues com uma capacidade inventiva que se pronuncia instantaneamente, através de um desejo inato de proporcionar o habitual encantamento sem o natural desgaste da contínua replicação do óbvio. A verdade é que o som deste grupo é, cada vez mais, uma espécie de roleta russa e um caldeirão de originalidade, que acaba por transportar o ouvinte para uma espécie de bad trip musical, através de um veículo sonoro que se move através de uma sucessão de loopings bizarros, mas ainda assim dançantes. Espero que aprecies a sugestão... 

Download Oh Sees   Orc (2017) Mp3

01. The Static God
02. Nite Expo
03. Animated Violence
04. Keys to the Castle
05. Jettisoned
06. Cadaver Dog
07. Paranoise
08. Cooling Tower
09. Drowned Beast
10. Raw Optics

 

 


autor stipe07 às 20:51
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Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017

King Gizzard and the Lizard Wizard - Sketches Of Brunswick East

Quando no início do ano o projeto australiano King Gizzard and the Lizard Wizard de Stu Mackenzie anunciou que iria lançar cinco álbuns em 2017, foram muitos os cépticos que se apressaram a apontar o dedo à impossibilidade deste grupo de rock psicadélico conseguir levar por diante tal desiderato. Mas a verdade é que Sketches Of Brunswick East, treze canções que viram a luz do dia a vinte e cinco de agosto, através da ATO Records, são já o terceiro capítulo desta imponente saga onde detalhes da soul, do jazz, do rock, essencialmente o setentista e sonoridades africanas e até a folk tradicional inglesa se misturam, para dar vida e cor a um alinhamento onde também teve uma importante palavra a dizer Alexander Brettin, outro músico australiano e natural de Brunswick East, bairro dos subúrbios de Melbourne, tal como Stu e fã de Todd Rundgren e Wire, que tem como carapaça pop o projeto Mild High Club.

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Com os King Gizzard and the Lizard Wizard a contarem já com cerca de uma dezena de discos em carteira, a verdade é que este Sketches Of Brunswick East é já o terceiro trabalho que também conta com a participação dos Mild High Club. E Sketches Of Brunswick East, que também alude ao clássico de Miles Davis, Sketches Of Spainresulta na plenitude, porque é profusamente intensa e feliz esta estreita colaboração entre Stu e Alexander, nomeadamente através da modo como trocam trechos de guitarra acústica, que acabam por servir depois de base a um posterior trabalho de aperfeiçoamento e desenvolvimento por parte dos restantes membros dos King Gizzard and the Lizard Wizard, com o resultado final, mais uma vez, a ser verdadeiramente intenso e contagiante.

O disco inicia com um solo de piano lindíssimo por parte de Brettin, secundado por alguns detalhes percurssivos da autoria do baterista Michael Cavanagh e a partir daí o que se escuta é uma verdadeira espiral entusiasta e multicolorida, que nos colocabem no centro de um tornado que, da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se delicia com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

Se ao longo da audição deste álbum parece evidente que tudo aquilo que se pode escutar, dos arranjos às melodias passando pelos diferentes detalhes e samples, é cuidadosamente pensado. É curioso constatar que a busca do caos também pareceu fazer parte da filosofia dominante no processo de construção do arquétipo das várias canções. O jazz experimental acaba por ser a base, mas é muito redutor uma catalogação tão objetiva já que, obedecendo a uma filosofia firme de controle instrumental, quer a homenagem descarada à melhor bossa nova em You Can Be Your Silhouette, assim como os devaneios dos sopros divagantes de Sketches Of Brunswick East II e o modo como em The Spider And Me as variações rítmicas também sobressaiem devido ao modo como as cordas se entrelaçam com a voz, são apenas alguns exemplos felizes que nos remetem para um espetro muito mais vasto e abrangente, onde diferentes estruturas e influências submergem e se acotovelam, quase em uníssono, para conseguirem destaque entre si. É, em pouco mais de trinta minutos, o espraiar indulgente e sereno de uma prévia colocação numa máquina de lavar, num programa que permitiu uma espécie de rotação e sobreposição constante de tudo aquilo que a herança musical contemporânea, de índole eminentemente psicadélica, foi agregando e assimilando ao longo das últimas cinco décadas.

Mais uma vez os King Gizzard and the Lizard Wizard conseguem facultar-nos um acervo de canções único e peculiar e que resulta, certamente, da consciência que Stu, o grande mentor do projeto, tem das transformações que abastecem a música psicadélica atual, enquanto tenta ligar-nos umbilicalmente aquela que considera ser a melhor lista de referências essenciais na parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que tem inundado os nossos ouvidos ultimamente. Sendo este seu terceiro disco do ano um tratado sonoro de natureza hermética, também não se furta a quebrar algumas regras da pop, nomeadamente na questão da crueza lo fi, e até de desafiar as mais elementares do bom senso, impressionando, assim, pelo arrojo e mostrando-se genial no modo como dá vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Sketches of Brunswick East artwork

01. Sketches Of Brunswick East I
02. Countdown
03. D-Day
04. Tezeta
05. Cranes, Planes, Migraines
06. The Spider And Me
07. Sketches Of Brunswick East II
08. Dusk To Dawn On Lygon Street
09. The Book
10. A Journey To (S)hell
11. Rolling Stoned
12. You Can Be Your Silhouette
13. Sketches Of Brunswick East III


autor stipe07 às 09:27
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Sexta-feira, 25 de Agosto de 2017

The War On Drugs – A Deeper Understanding

Os The War On Drugs de Adam Gradunciel já eram sinónimo de saudade na redação de Man On The Moon, até porque não davam sinais de vida desde o excelente Lost In The Dream, editado há cerca de três anos. Refiro-me a um sexteto norte americano formado pelo baixista Dave Hartley, pelo teclista Robbie Bennett, pelo baterista Charlie Hall e pelos multi-instrumentistas Anthony LaMarca e Jon Natchez, além de Gradunciel e cuja sonoridade descomprometida e apimentada com pequenos delírios acústicos foi aos poucos transformando-se numa referência para vários artistas em início de carreira e não só e que está de regresso em 2017 com um novo registo de originais. O novo tomo de canções dos The War On Drugs intitula-se A Deeper Understanding, é o quarto da carreira do grupo, que contou na gravação e produção com a ajuda do engenheiro de som Shawn Everett (Alabama Shakes, Weezer) e viu a luz do dia hoje mesmo. Contém dez maravilhosas canções que deambulam entre a folk, a dream pop, o indie rock e a psicadelia e são bem capazes de oferecer ao autor o pódio no que concerne aos álbuns mais influentes, inspirados e acolhedores de 2017.

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Escutar com devoção os sermões de Gradunciel faz-nos embarcar serenamente e quase sem darmos por isso numa gloriosa viagem pela América que o inspira, uma América ao mesmo tempo tão sui generis, mas também tão genuína nas suas raízes e nos seus cânones fundamentais, mas também uma América plena de contrastes, até porque deve as suas fundações e raízes a numa heterogeneidade civilizacional cimentada ao longo de quatro séculos de choque cultural e civilizacional. E o encontro com este conjunto de incontornáveis permissas é um dos melhores elogios que se pode fazer a um disco que nos mostra com alguma clareza, entre outras coisas, como é viver nos dias de hoje numa sociedade profundamente dividida e carente de um rumo que agregue toda a amálgama de etnias, raças e povos que fazem do maior país do outro lado do atlântico um dos mais heterogéneos e conturbados deste nosso mundo, apesar de apregoar aos sete ventos ser o mais civilizado e desenvolvido de todos.

É curioso ver um tipo tão tímido e introvertido como este Adam Gardunciel parecer querer chamar a si o ónus gigantesco de tentar agregar num mesmo propósito toda uma multiplicidade racial, já que ele compõe canções que tanto servem à esquerda como à direita, a cristãos e a judeus e a brancos, índios, latinos ou negros, porque no fundo daquilo que nelas se fala são de pessoas, seres com uma humanidade própria que, apesar de adorarem vincar divergências, vêem, tantas vezes, quer o amor, quer os sonhos e os anseios, do mesmo modo. O segredo para a pacificação acaba por estar, no fundo, no encontro de pontos comuns e a música dos The War On Drugs é fértil a deixar pistas nesse sentido, porque para este grupo a felicidade não olha a cores de pele, heranças ou deuses para se manifestar. 

Com o reverb das guitarras e os sintetizadores a sustentarem o cardápio sonoro de um disco dinâmico e que se destaca logo na abertura com Up All Night, uma longa canção que apresenta uma progressão interessante e onde vão sendo adicionados os diversos arranjos que adornam as guitarras e a voz, nomeadamente sintetizadores e uma bateria indulgente, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte, A Deeper Understanding parece ser, por cá, a banda sonora ideal para aquecer os dias mais tristonhos e sombrios que se aproximam, mas também já serve para contemplarmos como serenidade o ocaso de um verão algo frenético e que para muitos não ficará gravado pelos melhores motivos.

Apesar deste álbum oferecer ao ouvinte diferentes perspetivas sobre a realidade sociológica que abriga os autores, ao longo da dez canções do disco Gradunciel também medita e repousa e cria facilmente no ouvinte suposições relacionadas sobre a sua vida pessoal, já que é inevitável escutar-se canções como Pain ou Knocked Down e concluir-se que este registo está cheio de poemas com uma elevada componente biográfica, que nos permitem entender melhor o âmago do autor, com a curiosidade de o fazermos através de tudo aquilo que de mais transcendental e lisérgico tem sempre a composição e a criação musical. Thinking Of A Place, onze minutos que são uma verdadeira vibe psicadélica e poeticamente melancólica, com uma progressão interessante e onde vão sendo adicionados diversos arranjos, sintetizadores a batidas que adornam as guitarras e a voz, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte, é mais um exemplo concreto deste indisfarçável impressionismo transversal a todo o alinhamento de A Deeper Understanding, um compêndio de várias narrativas onde convive uma míriade alargada de sentimentos que, da angústia à euforia, conseguem ajudar-nos a conhecer melhor a essência do autor e a descortinarmos opinião sobre a tal América que ele medita, assim como as suas conclusões e as perceções pessoais daquilo que observa enquanto a sua vida vai-se desenrolando e ele procura não se perder demasiado na torrente de sonhos que guarda dentro de si e que nem sempre são atingíveis.

Letras tão pessoais exigem, naturalmente, arranjos delicados e cuidados, com os quais o autor se identifique profundamente e, além do esplendor das cordas, particularmente inspiradas na já citada Pain ou no modo como induzem luz e positivismo a Nothing to Find, há que enfatizar as paisagens sonoroas criadas em In Chains e Strangest Thing, duas canções que, apesar de conduzidas pela guitarra, expandem-se e ganham vida devido ao critério que orientou a escolha dos restantes instrumentos e à forma como a voz de Gradunciel se posiciona e se destaca.

A Deeper Understanding é um trabalho que, do vintage ao contemporâneo, consegue encantar-nos e fazer-nos imergir na intimidade de um Gradunciel sereno e bucólico, através de uma viagem aos universos de Dylan e Kurt Vile, passando por Springsteen, com canções cheias de versos intimistas que flutuam livremente. É um disco simultaneamente amplo e conciso sobre as experiências pessoais do músico, mas também sobre o presente, a velhice, o isolamento, a melancolia e o cariz tantas vezes éfemero dos sentimentos, em suma, sobre a inquietação sentimental, ou seja, o existencialismo e as perceções humanas de uma América que parece ter encalhado e não saber como voltar novamente ao rumo certo. Espero que aprecies a sugestão...

 

The War On Drugs - A Deeper Understanding

01. Up All Night
02. Pain
03. Holding On
04. Strangest Thing
05. Knocked Down
06. Nothing To Find
07. Thinking Of A Place
08. In Chains
09. Clean Living
10. You Don’t Have To Go


autor stipe07 às 22:59
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Quinta-feira, 24 de Agosto de 2017

The Veldt - The Shocking Fuzz of Your Electric Fur: The Drake Equation

Formados em Raleigh pelos irmãos gémeos Daniel e Danny Chavis, aos quais se juntaram, entretanto, o baterista Marvin Levi e o baixista David Burris, os The Veldt foram, no ocaso do século passado, um dos novos nomes mais interessantes do cenário indie da Carolina do Norte, território onde incubaram grupos do calibre de uns Superchunk, Archers of Loaf, The Connells, Dillon Fence, The dBs, Squirrel Nut Zippers e Ryan Adams, entre outros. Estrearam-se nos registos discográficos em 1992 com Marigold, abrigados já pelo consórcio Stardog/Mercury e o sucesso desse arranque valeu-lhes um lucrativo contrato com a Polygram Records. Com essa bagagem financeira fizeram as malas e foram até Londres onde gravaram Afrodisiac, o segundo álbum do projeto, produzido pelo conceituado Ray Shulman (The Sugarcubes,The Sundays).

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De repente, os The Veldt viram-se a partilhar o palco com nomes tão distintos como os Oasis, The Cocteau Twins, The Pixies, Fishbone e Corrosion Of Conformity, bandas seminais e preponderantes, um sucesso que acabou por colocar o grupo numa espécie de impasse relativamente ao rumo a seguir, mas que não os impediu de gravar ainda mais dois registos, os discos Universe Boat, através da Yesha Recordings e Love At First Hate, à boleia da etiqueta que a própria banda entretanto tinha criado, a End Of The World Technologies.

Após estes quatro álbuns, Danny e Burris abandonam os The Veldt, o último dedica-se ao cinema, sendo atualmente produtor da aclamada série Survivor, da CBS e o grupo acaba por encerrar as hostilidades em 1998. De regresso a Nova Iorque, os gémeos Danny e Daniel concentram as suas atenções num novo projeto intitulado Apollo Heights, mais focado em sonoridades relacionadas como o trip-hop e a eletrónica, dos quais resulta um disco que foi bastante aclamado pela crítica, intitulado White Music For Black People, que contou com as participações especiais de Mos Def e Lady Miss Kier e que incluiu nos créditos David Sitek dos TV On The Radio na produção.

Agora, quase duas décadas depois da interrupção, os gémeos Chavis voltam a ressuscitar os The Veldt  e fazem-no acompanhados por Hayato Nakao e Marvin Levi e à boleia de um EP intitulado The Shocking Fuzz of Your Electric Fur: The Drake Equation, cinco canções que não envergonham a herança identitária que o grupo guarda. É um alinhamento assente em guitarras plenas de distorção, geralmente conjugadas com batidas sintetizadas e efeitos de índole eminentemente etérea, numa espécie de punk rock futurista, um shoegaze cibernético que replica atmosferas sonoras bastante hipnóticas e contemplativas, como é se percebe logo em Sanctified, o tema que abre o alinhamento do EP. É um som com uma componente elétrica muito intensa e onde o enigmático e marcante falsete vocal de Daniel é também um elemento importante, principalmente no modo como confere um certo travo nostálgico, algo exultante a cantar os delicados versos de In A Quiet Room e mais orgânico e intituivo a conduzir o clima profusamente sintético e rugoso de A Token, canção onde os atributos de Nakao como programador são levados ao extremo.

Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que integrou, de pleno direito, a lista de algumas referências óbvias de finais do século passado, The Shocking Fuzz of Your Electric Fur: The Drake Equation exala o contínuo processo de transformação de uns The Veldt que procuram sempre mostrar, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 14:06
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Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

The Jungle Giants – Quiet Ferocity

Oriundos de Brisbane e formados por Sam Hales, Cesira Aitken, Andrew Dooris e Keelan Bijker, os The Jungle Giants já têm finalmente nos escaparates o sucessor de Speakerzoid, o segundo disco do projeto, editado há dois anos e que sucedeu ao registo de estreia, um álbum intitulado Learn To Exist, editado em 2013. Quiet Ferocity é o novo álbum deste quarteto australiano, um trabalho que irá certamente continuar a catapultar o grupo para o merecido estrelato.

Escrever sobre o conteúdo de um disco dos The Jungle Giants após uma sardinhada com direito a duas canecas de meio litro de um excelente verde branco fresco de Castelo de Paiva não é uma tarefa fácil, mas como também não é extensa a lista de leitores deste blogue não corro o risco de ver a minha análise colocar em causa de modo permanente a bitola qualitativa quer deste espaço de escrita quer de um grupo que, como se percebe logo em On Your Way Down, assenta a sua permissa sonora numa pop heterógenea que entre o rock experimental e o eletropop,  é feita, geralmente, de um baixo encorpado e pleno de groove, algumas teclas insinuantes, uma guitarra impregnada com aquele fuzz psicadélico hoje tanto em voga e alguns efeitos futuristas, com o resultado global a ser uma ode festiva e inebriante que nos submerge em todos os minutos gastos na sua audição.

Estes The Jungle Giants têm o objetivo claro de fazer os seus ouvintes dançar ou, se não for esse o caso, pelo menos de nos fazer vibrar positivamente ao som das suas canções. E neste terceiro disco conseguem, com maior refinamento, esse propósito, mostrando uma superior clarividência interpretativa e, além disso, um piscar de olhos a territórios sonoros algo inéditos no percurso do grupo. Assim, o indie eletro pop luminoso e festivo de Feel The Way I Do e o clima sintético mas divertido de Bad Dream, assim como a exuberância punk do single Quiet Ferocity e o blues do baixo e da guitarra de Used to Be In Love acentuam ainda mais o cariz infeccioso e contemporâneo de um disco que parece um verdadeiro motim de acordes, arranjos e samples vocais, atributos que abraçam uma quantidade ilimitada de texturas onde sintetizadores e guitarras contagiantes estouram alegria e sedução, como se fossem um par de amantes em permanente troca lasciva de olhares e argumentos.

Se alguns dos principais pilares da pop contemporânea são pedras basilares deste alinhamento, em Quiet Ferocity nem faltam abordagens a um espetro indie mais futurista, repleto de samples curiosos e de efeitos e detalhes bastante criativos. Assim, se Time And Time Again sobrevive devido aos tiques percussivos frenéticos em que se acomoda, tricotados por um baixo dinâmico e fascinante, que depois se entrelaça com uma guitarra que se distorce sem controle, baixo esse que se mostra glorioso em In The Garage, já a soul dos efeitos que acompanham o ritmo da bateria de Waiting For A Sign com uma articulação e um charme incomuns e a vibração excitante do falso minimalismo da eloquente Blinded, constituem um inventivo e luxuriante mosaico que exala uma certa pop negra avançada mas excitante, numa revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto por alguns gigantes que se têm entregue ao flutuar sonoro da lisergia e de cuja listagem os The Jungle Giants também querem fazer parte.

Em suma, cheio de espaço, com texturas e fôlegos diferentes e onde é transversal uma sensação de experimentação nada inócua, Quiet Ferocity cimenta as coordenadas que se apoderaram do departamento de inspiração deste quarteto, sendo o resultado da ambição do mesmo em se rodear com uma áurea resplandecente e inventiva e de mostrar uns The Jungle Giants cada vez mais heterogéneos e abrangentes. Espero que aprecies a sugestão...

The Jungle Giants - Quiet Ferocity

01. On Your Way Down
02. Feel The Way I Do
03. Bad Dream
04. Used To Be In Love
05. Quiet Ferocity
06. Time and Time Again
07. Waiting For A Sign
08. Blinded
09. In The Garage
10. People Always Say


autor stipe07 às 00:34
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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

Arcade Fire - Everything Now

Quase quatro anos depois do excelente Reflektor e de dois discos a solo de Will Butler, os canadianos Arcade Fire aproveitaram a tomada de posse de Donald Trump e os seus devaneios para apresentarem ao mundo o seu novo álbum, mais uma inflexão sonora no rumo delineado pelo projeto no disco anterior e, tematicamente, também um claro manifesto político e de protesto claro, parece-me, ao novo rumo tomado pelo país vizinho, além da já habitual abordagem sociológica aos novos dilemas da contemporaneidade de cariz mais urbano e tecnológico em que a dita sociedade ocidental mais desenvolvida vive.

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Apesar do groove punk de Infinite Content, a primeira premissa que me parece clara após a audição deste Everything Now é a certeza de que os Arcade Fire estão cada vez mais distantes do rock impetuoso dos primórdios. Se no anterior Reflektor o grupo ofereceu-nos um trabalho mais acessível e direto que os antecessores, conseguindo manter o habitual encanto algo misterioso e místico que sempre marcou os discos desta banda canadiana, mas longe de funerais, da poesia barroca e de histórias de subúrbios, definindo-se pela vontade de fazer algo diferente e pôr-nos a dançar, desta vez, com a pista de dança ainda em ponto de mira e a manutenção da tonalidade da escrita de Butler e Chassagne, acabamos por, em vários momentos, nomeadamente em Peter Pan, darmos por nós naquele limbo onde, há mínima escorregadela, podemos cair para um lado mais obscuro e depressivo. 

Seja como for, os Arcade Fire apostam, definitivamente, na preponderância de sonoridades luminosas, com o formato eminemtemente pop a ser definitivamente relegado para primeiro plano e com o grupo a ter uma nova aúrea, completamente remodelada, mas sem deixar de lado como já referi, o rock, impecavelmente passado a lustro nas guitarras e na tonalidade aguda de Régine que acompanham a batida eletro do discosound setentista de Signs Of Life, mas também no efeito metálico que dá brilho à soul de Electric Blue e, com laivos de epicidade eletrónica extrema, no fuzz oitocentista de Creature Comfort. Depois, esta espécie de revisitação catálogo da história do rock nos últimos trinta anos, no seu formato mais pop, visita a obra de gigantes como David Bowie no toque de distinção dado pela percurssão em God Good Damn ou os U2 no rock de arena de Put Your Money On Me. As cançoes que acabam por suscitar uma aproximação evidente a ambientes mais nativos são, na minha opinião, o tratado de world music chamado Chemistry e Peter Pan, com a primeira a ir beber aos ares do caribe e a segunda a destacar-se pela fantástica percussão e pelos ritmos quentes e africanos.

Everything Now talvez seja a sequência musical mais arriscada da carreira dos Arcade Fire, já que não encontra quase paralelo nos trabalhos anteriores, excepto na tal abordagem a um clima mais pop à semelhança do antecessor e a permanência do típico ambiente quase religioso que a escrita das canções ainda criam, desta vez com a tal vertente política também muito presente. Com períodos introspetivos e outros de plena exaltação, é um disco altamente preciso e controlado, pensado ao mínimo detalhe e que podendo, para muitos fãs, não ir ao encontro das enormes expetativas que sobre ele recaiam, é, no entanto, na minha opinião, mais um salto qualitativo em frente na carreira dos Arcade Fire, principalmente por ter colocado, mais uma vez um enorme ponto de interrogação nos fãs e apreciadores da banda relativamente ao futuro sonoro do grupo. Espero que aprecies a sugestão...

Arcade Fire - Everything Now

01. Everything_Now (Continued)
02. Everything Now
03. Signs Of Life
04. Creature Comfort
05. Peter Pan
06. Chemistry
07. Infinite Content
08. Infinite_Content
09. Electric Blue
10. Good God Damn
11. Put Your Money On Me
12. We Dont Deserve Love
13. Everything Now (Continued)


autor stipe07 às 15:00
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Segunda-feira, 10 de Julho de 2017

Sun Airway – Heraldic Black Cherry

Filadélfia, na Pensilvânia, é a morada dos Sun Airway, uma dupla norte-americana formada por Jon Barthmus e Patrick Marsceill, que editou no início deste ano Heraldic Black Cherry, um compêndio de quinze canções que apostam nos traços mais caraterísticos da indie pop, algo que ficou muito claro, em Landscapes, o antecessor, mas também noutros lançamentos anteriores do projeto. Este Heraldic Black Cherry aprimora a mistura de todo o arsenal instrumental de que a dupla se serve com os sintetizadores, amplificando a vontade da dupla em ser exímia na criação de melodias que transmitam sensações onde a nostalgia do nosso quotidiano se reveja.

Os Sun Airway distinguem-se, logo à partida e conforme se confere em FOAM, a canção que abre este disco, por uma certa aúrea encantatória, um salutar experimentalismo livre de constrangimentos e amarras e onde o reverb e o fuzz se misturam com liberdade plena, originando um clima fortemente lisérgico que os cobre com uma aúrea de sensibilidade e fragilidade romântica indisfarçáveis. E a verdade é que depois, temas como All In, uma canção conduzida por um teclado emotivamente forte e um registo vocal sintetizado convincente, ou Sleeping Sound, uma composição de forte cariz cósmico conduzida por um efeito vincado e um piano cheio de soul, assim como o agregado ternurento que sustenta Small Fires ou a luminosidade melódica algo inebriante de Violent Gray permitem-nos, com uma certa clareza, refletir sobre alguns dos mais nobres sentimentos que nos invadem e tudo aquilo que de bom a vida tem para nos oferecer.

Heraldic Black Cherry torna-se desafiante pela forma como nos convida a tentarmos perceber os diferentes elementos sonoros que vão sendo adicionados e esculpindo as suas canções, melodicamente sempre muito próximas da postura vocal e com os arranjos sintéticos a sobressairem, não porque ficam na primeira fila daquilo que se escuta, mas porque suportam aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que a canção toma e nas sensações que transmite. Assim, neste registo vai-se, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa viagem psicadélica proporcionada por estes Sun Airway, mestres de um estilo sonoro carregado de uma intensa jovialidade e que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um charme ainda maior pela peça em si que este disco representa. Espero que aprecies a sugestão...

Sun Airway - Heraldic Black Cherry

01. FOAM
02. All In
03. Absolut
04. Sleeping Sound
05. Ha Ha
06. Violent Gray
07. Skiff
08. Small Fires
09. Big Ideas
10. Sand
11. Carry Away
12. Debraining
13. Landfall
14. Gob
15. All I Ever


autor stipe07 às 00:50
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Quinta-feira, 6 de Julho de 2017

Overlake – Fall

Oriundos de Nova Jersey, os Overlake são Tom Barrett, Lysa Opfer e Nick D'Amore, um trio que começou a fazer música em 2012 e que se estreou nos discos no ocaso de 2014 com Sighs, nove canções que viram a luz do dia através da Killing Horse Records. Agora, pouco mais de dois anos depois, já chegou o segundo disco deste grupo norte-americano, um compêndio de oito canções intitulado Fall e que viu a luz do dia através da insuspeita Bar-None Records, morada de nomes tão fundamentais para o indie rock como os The Feelies, os Happyness, Of Montreal, Yo La Tengo, The Spinto Band, Breakfast In Fur e The Individuals, entre outros.

Apaixonados pelo rock alternativo dos aos oitenta e noventa, os Overlake começaram como tantas outras bandas, através de jam sessions naturais e certamente bem sucedidas que foram construindo o esboço de uma carreira que, no segundo capítulo, acentua uma obediência lúcida a um cardápio confessado de inspirações, que de My Bloody Valentine a Pavement, passando por Sonic Youth, não colocam em causa uma identidade bem vincada e que se firma em paisagens sónicas criadas pela voz e pelas guitarras e por um baixo pulsante e uma percussão vibrante.

A escuta de Fall exige logo no belíssimo aglomerado épico Unnamed November uma audição dedicada, de modo a que todos os detalhes que suportam o alinhamento sejam devidamente contemplados. O riff metálico da guitarra de Winter Is Why e as distorções que o acompanham e a relação progressiva que o baixo e a bateria constroem em You Don't Know Everything, canção com um início algo inocente mas que depois ganha uma tonalidade muito vincada, são excelentes tónicos parase perceber a capacidade dos Overlake em soprar na nossa mente e envolvê-la com uma elevada toada emotiva e delicada, mesmo que a sonoridade pareça algo sombria e rugosa.

Com uma filosofia muito assertiva no modo como aborda o rock de cariz mais progressivo, o disco não deixa de fazer o nosso espírito facilmente levitar e de provocar um cocktail delicioso de boas sensações. Por exemplo, em determinado momento, a bateria toma conta das rédeas de And Again, uma canção que começa por impressionar no modo como a guitarra deambula livremente, mas assim que a percurssão surge, ficam irremediavelmente disponíveis os melhores atributos no que diz respeito à capacidade de composição e ao requinte que preenche o ideário sonoro destes Overlake e não duvidamos mais que as sensações de mestria e de bom gosto não surgem espontaneamente por acaso e que merecem ser devidamente realçadas pelo modo como vêm à tona. Há exemplos em que a sapiência criativa dos Overlake se torna algo negra e obscura, nomeadamente em Pines On A Beach, um imenso oceano de hipnotismo e letargia, que pisca o olho aos melhores atributos do punk rock luminoso e outros em que se mostra mais vibrante, mas também em Goodbye, composição que é um cenário idílico para quem, como eu, aprecia alguns dos detalhes básicos da melhor psicadelia.

Seja qual for a variante do rock alternativo replicada pelos Overlake, a súmula de Fall carateriza-se por um ambiente sonoro fortemente etéreo e melancólico, um álbum tipicamente rock e esculpido com cordas ligas à eletricidade e que ilustra o quanto certeiros e incisivos estes três músicos conseguiram ser na replicação do ambiente sonoro que escolheram, assente numa pop com traços de shoegaze, mas também num indie rock carregado de psicadelia e sempre com uma sobriedade sentimental marcada por uma intensa aúrea vincadamente orgânica. Espero que aprecies a sugestão...

Overlake - Fall

01. Unnamed November
02. Winter Is Why
03. You Don’t Know Everything
04. Can Never Tell
05. Gardener’s Bell
06. And Again
07. Pines On A Beach
08. Goodbye


autor stipe07 às 14:08
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