Sábado, 27 de Setembro de 2014

Perfume Genius - Too Bright

Editado no passado dia vinte e três de setembro por intermédio da Matador Records, Too Bright é o novo álbum de Perfume Genius, aka Mike Hadreas, um músico natural de Seattle e cujo trabalho de estreia, Learning, lançado em 2010, fez dele um dos nomes mais excitantes do cenário alternativo. Dois anos depois, Put Your Back N 2 It ofereceu-nos momentos sonoros soturnos e abertamente sofridos e agora, em Too Bright, Hadreas amplia as suas virtudes como cantor e criador de canções impregnadas com uma rara honestidade, já que são profundamente autobiográficas e, ao invés de nos suscitarem a formulação de um julgamento acerca das opções pessoais do artista e da forma vincada como as expõe, optam por nos oferecer esperança enquanto se relacionam  connosco com elevada empatia.

Gravado com Adrian Utley dos Portishead e com a participação especial de John Parish em vários temas, Too Bright é um disco inteiramente dominado por uma voz que se faz acompanhar de um ilustre piano, enquanto relata eventos de uma vida com alguns detalhes que nem sempre são particularmente agradáveis. Mike teve grandes dificuldades em lidar com a homofobia que sempre sentiu em redor devido à sua condição sexual e ao processo de recuperação que teve de encetar devido a uma dependência do álcool e das drogas, algo que a atmosfera lo-fi dos seus álbuns ilustra como uma necessidade confessional de resolução e redenção. Como o próprio Hadreas, os seus discos são delicados, emocionantes, e inerentemente tristes.

Too Bright não é uma inflexão radical em relação à toada dos trabalhos anteriores, mas há aqui algo mais intenso, também por causa das suas mudanças na vida pessoal e que, ao escutarmos a sua música, sentimos enorme curiosidade em conhecer. A forma contundente como Mike abre-nos o seu coração, impele-nos ao desejo de conhecer melhor o homem por detrás do piano e dos sintetizadores, os dois grandes pilares instrumentais de Too Bright e que, no caso dos últimos, alargaram exponencialmente o leque de possibilidades melódicas e de tomada de decisões ao nível dos arranjos.

Sendo então um artista que já confessou que não consegue fazer música se ela não falar sobre si próprio e que aproveitou, ainda, para referir que continua a guardar muitos segredos dentro de si, em Too Bright os timbres distorcidos de Queen, a dinâmica melosa e emotiva de Fool e a pop vintage de Grid, são exemplos nítidos sobre a forma como Mike criou neste trabalho, através de um aparato tecnológico mais amplo, caminhos de expressão musical inéditos na sua discografia e, simultaneamente, novas formas de se revelar a quem quiser conhecer a sua personalidade.

Se nos apraz partir nesta viagem de descoberta da mente de um homem cheio de particularidades, devemos estar também imbuídos da consciência de que temos, com igual respeito e apreço, de conhecer o lado mais obscuro da sua personalidade, um verdadeiro manancial para a mente criativa do músico, tendo em conta as especificidades da sua realidade que já referi, apenas genericamente. A voz grave e algo enraivecida e ferida que se escuta em I'm A Mother e que se distorce ainda mais em My Body, à medida que a componente instrumental sintética cria, nesta última, um ambiente sinistro e nos suga para o interior do âmago de Hadreas, provoca em nós um sentimento de repulsa, porque sentimos vontade de lutar contra essa evidência mas, por outro lado, causa uma atração intensa, como se não quisessemos deixar tão cedo de escutar este momento de verdadeiro delírio.

Perfume Genius é, como vemos, mestre na forma como utiliza a dor para transformar a sua intimidade em algo universal e na maneira como aborda de forma inédita as relações e a fragilidade humana. E esse caráter de ineditismo está plasmado na honestidade derramada por ele na sua música, transformando versos muitas vezes simples, num retrato sincero de sentimentos, que poderia bem fazer parte de um manual de auto ajuda para quem procure forças para superar os percalços de uma vida que possa estar emocionalmente destruída.

Too Bright faz justiça ao nome porque traz-nos luz... Não só sobre Mike, mas também sobre nós próprios, uma luz que de certa forma nos cega porque não é aquela que é transmitida por uma lâmpada ou pelo sol, mas o contacto e a tomada de consciência (fez-se luz) de muito do que guardamos dentro de nós e tantas vezes nos recusamos a aceitar e passamos a vida inteira a renegar. É uma luz suplicante, que luta contra os nossos desejos, ou que quer apenas ser a materialização deles, emanada de um disco sombrio e, por isso, muito forte, enquanto plasma uma nova faceta do percurso discográfico do autor. Espero que aprecies a sugestão...

Perfume Genius - Too Bright

01. I Decline
02. Queen
03. Fool
04. No Good
05. My Body
06. Don’t Let Them In
07. Grid
08. Longpig
09. I’m A Mother
10. Too Bright
11. All Along

 


autor stipe07 às 13:59
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Terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Space Daze – Follow My Light Back Home

Space Daze é o projeto a solo de Danny Rowland, guitarrista ecompositor dos consagrados Seapony e Follow My Light Back Home o seu primeiro disco desta nova aventura musical de um músico oriundo de Seattle e que encontra nas cordas de uma viola um veículo privilegiado de transmissão dos sentimentos e emoções que o impressionam. Com uma edição física limitada a cem cópias e no formato cassete, através da Pea Green Cassette, Follow My Light Back Home tem um belíssimo artwork da autoria de Jen Weidl e está também disponivel para download no bandcamp da Beautiful Strange, uma editora independente sedeada em Londres.

Follow My Light Back Home são doze canções em pouco mais de vinte e seis minutos, um disco curto mas incisivo e onde Danny não perdeu o espírito nostálgico e sentimental da escrita e composição que costuma sugerir nos Seapony, já que estamos na presença de um trabalho cheio de letras pessoais, que falam da forma como o músico sente o mundo que o rodeia, com canções como The Voices of StrangersIts Getting Lighter Earlier, ou o tratado folk I'll Know Tomorrow, a mostrarem a fina fronteira que existe muitas vezes entre a dor e a redenção.

Instrumentalmente, Space Daze é um projeto fortemente influenciado pela pop britânica dos anos oitenta, feita por nomes tão consagrados como Echo And The Bunnymen e os The Smiths. E letras tão pessoais exigem, naturalmente, arranjos delicados e cuidados. Assim, durante esta meia hora que o disco dura somos constantemente inundados por belíssimos arranjos de cordas que dão vida a improvisações melódicas com aquela forte componente etérea que nos deixa a levitar e que criam paisagens etéreas e melancólicas que nos ajudam a emergir às profundezas das nossas memórias, mas onde também não deixa de brilhar, amiúde, uma bateria inspirada e guitarras e sintetizadores às vezes pouco percetíveis mas que dão o tempero ideal às composições. Kill Me é um lindíssimo exemplo da conjugação de todos estes ingredientes, com um resultado final verdadeiramente  jovial, vibrante e luminoso.

Space Daze é a afirmação clara de um músico que consegue provar definitivamente ser um compositor pop de topo, capaz de soar leve e arejado, mesmo durante as baladas de cariz mais sombrio e nostálgico. Danny tem a capacidade inata de conseguir fazer-nos sorrir sem razão aparente, com isenção de excesso e com um belíssimo acabamento açucarado, que acaba por se tornar na banda sonora perfeita para um fim de tarde quente e prolongado, enquanto se prepara mais um churrasco e salta a tampa das primeiras garrafas daquela caixa de cerveja que vai animar mais um feliz serão entre aqueles amigos de ontem, de hoje e de sempre. Espero que aprecies a sugestão...

Space Daze - Follow My Light Back Home

01. Woke Up In The Summer

02. The Voices Of Strangers
03. Line Up On The Solstice
04. It’s Getting Lighter Earlier
05. It Becomes Silent
06. Going Out
07. I’ll Know Tomorrow
08. Having A Bad Time
09. Follow My Light Back Home
10. Kill Me
11. Close The Curtains
12. The Fireflies Are Gone

 


autor stipe07 às 23:25
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Sexta-feira, 18 de Julho de 2014

Say Hi – Endless Wonder

Say Hi é Eric Elbogen, um músico norte americano natural de Seattle e que faz música desde 2002. O seu disco mais recente é Endless Wonder, um trabalho que viu a luz do dia a dezassete de junho, por intermédio da Barsuk Records e já o oitavo da carreira de um artista que é capaz de, em poucos segundos, viajar do rock mais selvagem até à indie pop de cariz experimental, mas sempre com um ambiente sonoro certamente movido a muita testosterona.

Uma mescla de eletropop com sonoridades hard rock, onde não falta o rock setentista, o rock de garagem e o blues é a pedra de toque incial deste disco, já que Hurt In The Morning e Such A Drag, o single já retirado do disco, assentam num sintetizador melodicamente assertivo e num baixo bastante encorpado, além de guitarras plenas de groove e distorção. Critters abranda um pouco o ritmo mas a receita mantém-se, agora numa toada mais nostálgica e torna-se claro que Eric merece obter um reconhecimento verdadeiro e um estatuto forte no universo sonoro alternativo. Com uma década de carreira, o músico parece ter atingido o ponto mais alto de uma discografia com alguns momentos marcantes, apresentando agora novas nuances e um som mais experimental, que não parece ter sido planeado para as rádios e os estádios, mas que tem potencial para um elevado airplay.

Momentos como o groove que destila imensa soul de When I Think About You,  o baixo de Like Apples Like Pears, o efeito arrojado e a secção de metais de Figure It Out ou o sintetizador minimal que abre The Trouble With Youth e que depois desliza até ao krautrock, são outros quatro exemplos que mostram que Say Hi estará no apogeu do seu estado de maturidade e mais arrojado do que nunca, na sua viagem de fusão entre elementos particulares intrínsecos ao que de melhor ficou dos primórdios da pop, nos anos cinquenta, com o rock mais épico da década de oitenta e algumas das caraterísticas que definem o ADN da eletropop atual.

Indubitavelmente, Say Hi domina a fórmula correta, feita com guitarras energéticas, uma sintetizador indomável, efeitos subtis e melodias cativantes, para presentear quem o quiser ouvir com canções alegres, aditivas, profundas e luminosas. O disco também se torna viciante devido à voz fantástica de Eric, que atinge o apogeu interpretativo em Figure It Out, mas que ao longo do trabalho preenche verdadeiras pinturas sonoras que se colam facilmente aos nossos ouvidos e que nos obrigam a mover certas partes do nosso corpo. O que aqui temos é uma pop despretensiosa, que apenas pretende levar-nos a sorrir e a ficar leves e bem dispostos. Espero que aprecies a sugestão...

Say Hi - Endless Wonder

01. Hurt In The Morning
02. Such A Drag
03. Critters
04. When I Think About You
05. Like Apples Like Pears
06. Figure It Out
07. Clicks And Bangs
08. Sweat Like The Dew
09. Love Love Love
10. The Trouble With Youth


autor stipe07 às 21:15
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Quinta-feira, 27 de Março de 2014

The Soft Hills - Departure

Oriundos de Seattle e com uma rede de influências que vão da folk à psicadelia, os The Soft Hills são Garrett Hobba, Matt Brown, Randall Skrasek e Brett Massa, uma banda que estreou nos lançamentos discográficos em maio de 2010 com Noruz. Dois anos depois, no início de 2012, lançaram o segundo disco, um trabalho intitulado The Bird Is Coming Down To Earth e que os projetou para um leque mais alargado de seguidores devido à mistura que continha entre o rock clássico e a moderna indie folk.

Entretanto, já em 2013, chegou o terceiro álbum; Lançado em fevereiro desse ano, Chromatisms foi produzido por Matthew Emerson Brown e aprofundou a sonoridade proposta pelo disco anterior. Agora, cerca de um ano depois, já é conhecido o quarto tomo da discografia dos Soft Hills; O álbum chama-se Departure e mantém a aposta dos The Soft Hills na abordagem de diferentes espetros sonoros dentro do universo indie.

Departure é um disco de contrastes: sente-se o sol, harmonias e calor da Califórnia e o escuro, falta de cor e a chuva de Seattle. O disco conjuga a típica toada pop, com alguma folk implícita, à mistura com a psicadelia europeia e o rock alternativo de início dos anos oitenta. O resultado final envolve-nos num universo algo melancólico, uma espécie de euforia triste e de beleza num mundo sombrio, algo que comprova, uma vez mais as capacidades inatas de Garrett Hobba para a composição, ele que, ainda por cima, é detentor de uma voz única e incomparável.

Seja através de efeitos com ecos e com reverb das guitarras, ou através do simples dedilhar de uma corda acústica, ou de um efeito sintetizado luminoso, ou sombrio, Departure levanta voo em Nova Iorque (The Golden Hour), com a ajuda dos Interpol e aterra na Berlim governada por Bowie nos anos setenta (Stairs). Pelo meio não deixa de abordar também os caraterísticos sons da folk, momentos épicos e instantes cheios de tensão lírica porque relatam acontecimentos trágicos, sendo essa mesma tensão conduzida pelo groove do baixo de Brett Massa e, como já referi, por tiques típicos da psicadelia.

Em suma, num disco eclético e variado, os The Soft Hills exploram até à exaustão o espiritualismo nativo norte americano, mas desta vez também cruzaram o atlântico em busca das raízes do indie rock mais sombrio, num trabalho com evidentes influências em espetros sonoros de outros tempos, mas com uma forte tonalidade contemporânea. O single Golden Hour está disponivel no soundcloud da Tapete Records. Espero que aprecies a sugestão...

The Soft Hills - Deaprture

01. Golden Hour
02. Black Flowers
03. Road To The Sun
04. The Fold
05. White Queen
06. Reverie
07. How Can I Explain?
08. Here It Comes
09. Blue Night
10. Belly Of A Whale
11. Stairs


autor stipe07 às 21:25
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Domingo, 23 de Março de 2014

Virgin Of The Birds - Every Revelry

Every Revelry é o primeiro single retirado de Winter Seeds, o disco de estreia dos Virgin Of The Birds, uma banda norte americana liderada por Jon Rooney, natural de Seattle e que tem causado expetativa devido a vários Eps que foram sendo gravados, desde 2009 e que estão disponíveis no site da banda.

O tema está disponível para download gratuito e impressiona por ser um excelente exemplo de uma típica melodia pop simples, proporcionada por uma guitarra muito luminosa. Confere...


autor stipe07 às 21:49
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Sábado, 15 de Março de 2014

Posse – Soft Opening

Lançado no passado dia quatro deste mês, Soft Opening é o novo disco dos Posse, um grupo formado por Paul Wittmann-Todd, Sacha Maxim e Jon Salzman, que nasceu em 2010 quando Paul e Sacha se conheceram num bar lésbico de Seattle, tendo o baterista Jon juntado-se pouco depois à dupla. Soft Opening viu a luz do dia através da Beating A Dead Horse Records, sucede a um álbum de estreia homónimo, foi gravado integralmente no sotão de Sacha e foi misturado por José Diaz Rohena e masterizado por Mell Dettmer.

Se a simplicidade de processos e uma evidente quimica estiveram na génese da formação dos Posse, basta ouvir Soft Opening para perceber que esses conceitos também fazem parte da identidade sonora da banda. Não há grandes segredos neste disco e essa é uma das suas principais virtudes, já que todas as canções assentam em linhas de guitarra bastante melódicas, onde os arranjos dessas cordas são dissolvidos em doses atmosféricas, mas expressivas e muito assertivas e também numa percurssão pouco variada mas marcante e aditiva. Esta receita instrumental, onde cada elemento tem o seu próprio espaço e existe um protagonismo equilibrado entre cordas e secção ritmíca, é simples, mas extremamente eficaz e perfeita para a voz algo discreta mas muito encantadora de Paul que, juntamente com Sacha, foram o núcleo duro dos Posse.

Delay pedals and 27 years of disappointmen é uma frase chamariz que os Posse utilizam para descrever a música que fazem e, na verdade, Soft Opening é um delicioso compêndio para os verdadeiros apreciadores de um indie rock feito com guitarras, que tanto é capaz de assumir uma toada épica e mais ampla, enriquecida por longos instrumentais, algo muito audível nas variações de intensidade de Shut Up, Talk e Zone, assim como aquele indie rock ligeiramente pop e implicitamente dançável, muito patente no início do disco, na convidativa sequência assegurada por Interesting Thing No. 2 e Afraid.

Estamos na presença de oito canções que contêm a produção algo psicadélica típica da década de oitenta e as transformações sonoras que o indie rock experimentou na década seguinte, para musicar letras que falam das típicas angústias de quem está a deixar para trás uma juventude que foi vivida num período de fortes duvidas existenciais e se prepara para abrir as portas da idade adulta e pede, como fica explícito em Zone, no fim do disco, que o deixem levar por diante esse processo evolutivo pessoal, sem intromissões e de acordo com os seus mais intímos desejos (Don't touch Me, I'm In My Zone). Espero que aprecies a sugestão...

Posse - Soft Opening

01. Interesting Thing No. 2
02. Afraid
03. Talk
04. Shut Up
05. Jon
06. 2U
07. Cassandra B.
08. Zone

 


autor stipe07 às 15:06
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Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2014

Damien Jurado - Brothers and Sisters of the Eternal Son

A indie folk de Damien Jurado está de regresso, mais bela do que nunca, com Brothers and Sisters of the Eternal Son, o décimo primeiro disco do músico, lançado no passado dia vinte e um de janeiro por intermédio da Secretly Canadian. Brothers And Sisters of the Eternal Son foi produzido por Richard Swift (The Shins), que já tinha trabalhado com Jurado em Maraqopa, a obra prima que o músico lançou em 2012

 

Brothers And Sisters of the Eternal Son é, de acordo com o próprio Damien, baseado num sonho que o músico teve sobre alguém que desaparece e que sai de casa sem nada que o identifique, com o único e simples propósito de desaparecer sem deixar qualquer rasto. O disco é uma sequela de Maraqopa, um álbum que já abordava a temática da ideia de fuga, como a forma mais eficaz de cada um se reencontrar e captar com exatidão a sua essência, mas é, acima de tudo, o retrato de uma América que poucos conhecem, tornada personagem principal do disco no rufar dos tambores que nos levam numa longa viagem pelo interior mais profundo de um país que, por muito moderno que seja, no dia em que renegar a sua essência mitológica, feita de apaches e yankees, perderá todo o sentido. E essa essência ganha vida tanto na tundra a norte, como nas longas pradarias a oeste, ou nos vastos desertos a sul, num universo imenso de tribos, crenças e cores que, de Nova Iorque a Los Angeles, passando pela Seattle de Jurado, está cheia de espaços vazios e estranhas personagens que parecem fantasmas cinzentos.

No meio dessa gente que vagueia numa América traumatizada pelo Iraque e que ora agarrada à crença inabalável nos drones, ora com receio de contar os seus sonhos mais íntimos ao telefone, Jurado é uma sombra, uma tecla de um piano, uma folha de vento que voa ao som de um dedo que se aconchega na corda de uma guitarra, é um fantasma do nosso melhor amigo que nunca mais vimos, um cronista desse território tornado, através destas canções, assentes quase sempre numa lindíssima folk acústica, na materialização da sua própria alma.

Ao contar o que lhe invade a alma, quando se refugia no vazio ou no estúdio mais próximo e reflete sobre a sua América, Jurado segura com todas as forças na viola e transforma-a na sua arma de destruição maciça predileta. Devidamente artilhado, despeja as munições em pleno território amigo, sedento por poder ajudar os seus conterrâneos, que vivem em estados de espírito que oscilam entre o conformismo e a esperança sem sentido, a conseguirem vislumbrar uma centelha de luz, que poderá estar na lindíssima voz que escorre em Silver Joy, a canção mais longa do disco, com um groove algo caribenho e dançante, mas também em Silver Donna e Silver Katharine e que mesmo quando é sintetizada em Jericho Road, insiste em professar que nele está a luz, o caminho, a verdade e a vida.

Brothers and Sisters of the Eternal Son é um compêndio de pequenas polaroides em preto e branco, um disco que condensa, em pouco mais de meia hora, sarcasmo feroz e melancolia, em doze canções que criam atmosferas quase transcendentais, com pitadas de psicadelismo, arranjos barrocos e espirituais, e por isso resultam em algo que garante sucessivas audições, por dias a fio. Espero que aprecies a sugestão...

Damien Jurado - Brothers And Sisters Of The Eternal Son

01. Magic Number
02. Silver Timothy
03. Return To Maraqopa
04. Metallic Cloud
05. Jericho Road
06. Silver Donna
07. Silver Malcolm
08. Silver Katherine
09. Silver Joy
10. Suns In Our Mind

 


autor stipe07 às 20:53
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Terça-feira, 10 de Dezembro de 2013

La Luz - It's Alive

Naturais de Seattle, as La Luz são um quarteto formado por Shana Cleveland (guitarra), Marian Li Pino (bateria), Abbey Blackwell (baixo) e Alice Sandahl (teclados) e que aposta no punk rock, com alguns detalhes da surf music. Assinaram em julho pela insuspeita Hardly Art Records e no passado dia quinze de outubro chegou aos escaparates It's Alive, o disco de estreia da banda. Big Big Blood foi o primeiro avanço do disco, um tema disponibilizado gratuitamente pela editora.

As La Luz eram já um nome muito seguido no cenário indie e alternativo de Seattle desde que em 2012 surpreenderam com Damp Face, um EP com cinco temas que impressionaram pelo grau de maturidade do som do grupo e pela qualidade do mesmo, ainda por cima com uma edição de autor, que depois, já em fevereiro deste ano, foi reeditada pela Burger Records e está disponível no bandcamp do grupo.

Esses temas contidos em Damp Face apresentaram ao mundo a sonoridade típica dos La Luz, descrita acima, com a particularidade de terem uma toada um pouco mais polida e luminosa do que vários grupos que apostam no mesmo espectro sonoro, um fato que poderá advir de este ser um grupo exclusivamente feminino. Seja como for, este é um grupo com uma elevada pujança nas atuações ao vivo e parece-me que este quarteto de miúdas gosta imenso de interagir com o público e pôr toda a gente a dançar. Esta postura é muito importante nas La Luz até porque o conteúdo de It's Alive é propício à festa e à celebração.

Com a mudança de etiqueta melhoraram ainda mais as condições para a banda criar e produzir um som ainda mais límpido, algo que, no caso das La Luz joga muito a seu favor, porque as melodias que criam quase que exigem essa nitidez sonora para se expandirem e ganharem cor. Continua lá o reverb nas guitarras e a típica rugosidade que dá poder e músculo às canções, mas estas são agora ainda mais vivas e cristalinas, muito por causa dos efeitos e da produção do teclado de Sandhal.

Call Me In The Day é uma excelente canção pop, que se destaca exatamente pelo tal brilho, quer da melodia, quer da voz e Sure As Spring realça um outro aspeto que enfatiza a capacidade das La Luz em criar algo radioso, neste caso a emoção que as letras conseguem transparecer. Até a forma como Shana, em determinada altura, canta o paradoxo em que diz que quer morrer porque essa é a única forma de se sentir realmente viva, demonstra a positividade e a apologia ao nome da banda que este quarteto feminino procurou reproduzir neste disco de estreia.

Há mais dois temas que merecem uma audição atenta devido à sua componente instrumental única; Falo de Phantom Feelings e do orgão de Sunstroke, duas canções que poderiam facilmente fazer parte da banda sonora de um pequeno filme que nos mostrasse um quente e radioso dia de verão, junto a uma praia qualquer, a transbordar,de biquinis, bolas de borracha, gelados, bicicletas e corpos bronzeados refastelados num areal com a lotação esgotada.

It's Alive é um nome muito feliz para um trabalho quente, alegre e feliz, cheio de canções que nos soam, simultaneamente, a algo já familiar e até retro e vintage, mas também moderno e inovador. Espero que aprecies a sugestão...

13758
01. Sure as Spring
02. All the Time
03. Morning High
04. What Good Am I?
05. Sunstroke
06. It's Alive
07. Big Big Blood
08. Call Me in the Day
09. Pink Slime
10. Phantom Feelings
11. You Can Never Know


autor stipe07 às 21:08
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Quinta-feira, 14 de Novembro de 2013

Pearl Jam - Lightning Bolt

Lançado no passado dia catorze de outubro por intermédio da Universal Music, Lightning Bolt é o décimo disco dos norte americanos Pearl Jam, uma banda liderada pelo carismático Eddie Vedder, uma das personalidades mais importantes do universo musical das últimas duas décadas. Lightning Bolt foi produzido por Brendan O'Brien e sucede a Backspacer, um disco editado há cerca de quatro anos, em setembro de 2009.


Nascidos no início da década de noventa no apogeu do movimento grunge, os Pearl Jam sempre cultivaram a sua imagem e procuraram passar uma mensagem de correção e de não alinhamento com ideologias, tendo apenas ficado famosos por algumas manifestações e comentários públicos contra a MTV ou a indústria musical. Dessa forma, foram passando sempre um pouco ao lado da controvérsia e mantido uma espécie de aúrea em redor, que até lhes conferiu um lado misterioso, já que, não havendo polémicas, também nunca houve a exploração do lado pessoal e social dos músicos da banda e, por isso, além do gosto de Vedder pelo surf, pouco mais se sabe da vida pessoal de cada um.

Este grupo de músicos sempre cultivou uma forte amizade e criou uma espécie de manto protetor em redor, o que explicará esta longevidade, que obviamente se saúda, ainda por cima quando se fala de um dos grupos que conseguiu sobreviver ao declinio e ao estigma do grunge e que tem sido um dos mais criativos e consistentes do panorama rock alternativo das últimas décadas.

Mas afinal, a que se deve esta consistência? Como se descreve? Os Pearl Jam deram início à sua carreira com Ten, Vs. e Vitalogy, três discos essenciais para firmar a herança sonora do grupo. Mas de No Code para cá, o percurso dos Pearl Jam tem sido mais sinuoso, entre álbuns experimentais como esse e Yield e os mais adultos Binaural, Riot Act, Pearl Jam e Backspacer. Posto assim, o novo milénio tem sido vivido numa espécie de auto-gestão, algo que atinge o apogeu neste Lightning Bolt. E isso nota-se não só na parte instrumental do disco, como na voz de Vedder, cada vez mais ponderada e a correr menores riscos.

Seja como for, Lightning Bolt tem canções memoráveis, apesar de, no meu caso pessoal, achar que foi um enorme tiro ao lado a passagem pelo universo punk em Mind Your Manners, assim como a cansativa Pendulum, uma canção que pelos vistos serve para Vedder explicar-se perante os fãs, já que nela declama no meio de uma linha de piano orquestrada e muita tensão I'm in the fire but I'm still cold nothing works works for me anymore.
Um dos grandes temas do disco é, sem dúvida, a épica Sirens, mas também gostei muito de Yellow Moon. O tema homónimo é um dos mais comerciais do álbum, já que tem uma assinalável grandiosidade e será talvez o tema onde a voz de Vedder mais se destaca. Também apreciei particularmente o baixo de My Father’s Son e Swallowed Whole está muito bem associada a uma viagem grandiosa, enquanto Let The Records Play é feita com um blues rock enérgico e dançante. Sleeping By Myself é uma fantástica canção de verão e confere um clima mais alegre ao disco. Finalmente, Future Days parece ter sido deixada propositalmente para o final, já que é um tema que ressoa uma extrema intimidade relativamente a Eddie, uma canção com elevado teor acústico, à semelhança dos seus álbuns a solo.
Em Lightning Bolt não há propriamente momentos brilhantes ou uma canção que venha a configurar no top das cinco melhores canções de sempre no grupo. Por ser tão homogéneo, às vezes fica aquela sensação que os Pearl Jam encontraram essa tal zona de conforto e não querem mais sair dela, ou por falta de ideias, ou por mera ausência de necessidade ou vontade de provar algo, seja a quem for, porque já o fizeram anteriormente. No entanto, apesar de Lightning Bolt ser um dos momentos menos inspirados na carreira deste banda de Seattle e desta postura atual, que pode conduzir o grupo a um futuro muito semelhante ao dos Roling Stones, saúda-se a vontade dos Pearl Jam em continuar a tocar e a mostrar ao mundo intreiro a música que permanece nos seus corações. Espero que aprecies a sugestão...

Pearl Jam - Lightning Bolt

01. Getaway
02. Mind Your Manners
03. My Father’s Son
04. Sirens
05. Lightning Bolt
06. Infallible
07. Pendulum
08. Swallowed Whole
09. Let The Records Play
10. Sleeping By Myself
11. Yellow Moon
12. Future Days


autor stipe07 às 20:48
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Sábado, 13 de Julho de 2013

Hibou - Dunes EP

Hibou é Peter Michel, um músico de Seattle que tem estado a fazer upload de temas da sua autoria. A primeira canção que divulgou foi a atmosférica Glow, divulgada em Curtas... CI e inserida no EP homónimo editado em maio. Algumas semanas depois foi a vez de Sunder, canção já incluida neste EP e que partilhei em Curtas... CV.

Tanto Glow como Sunder são dois temas que nos remetem para uma indie pop lo fi  e retro, com uma sonoridade bastante etérea e que me recordou imediatamente os Beach Fossils e os DIIV. E essa toada mantém-se nas outras três canções deste trabalho, uma espécie de brisa refrescante e nostálgica nestes dias tão quentes, feita com guitarras bastante aditivas e uma percurssão muito fluída.

Dunes foi gravado na própria casa de Michel, lançado a treze de junho e está disponível para download no bandcamp do projeto, pelo preço que quiseres e gratuitamente no soundcloud do músico. Confere...

 Dunes EP cover art


autor stipe07 às 22:05
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