Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017

Oh Sees - Orc

Viu a luz do dia a vinte e cinco de agosto último, através da Castle Face, a editora do próprio John Dwyer, Orc, o novo e décimo nono álbum da carreira dos norte americanos Thee Oh Sees, um regresso aos lançamentos discográficos que se saúda desta banda californiana que também acaba de mudar mais uma vez de nome, algo que não é inédito nas cerca de duas décadas que já leva de carreira.

Resultado de imagem para oh sees 2017

Querendo ser conhecido a partir de agora simplesmente como Oh Sees (sem o The), este quinteto apresenta em Orc dez canções que mantêm uma elevada bitola qualitativa que sobrevive à custa do modo astuto como o grupo continua a abanar-nos com riffs agressivos e esplendorosos que, quer se prolonguem por músicas completas, ou por instantes das composições, têm sempre uma forte vertente hipnótica e uma ilimitada ousadia visceral, que explode em cordas eletrificadas que clamam por um enorme sentido de urgência e caos, num incómodo sadio que já não nos deixa duvidar acerca do ADN destes agora Oh Sees.

Logo no frenesim impulsivo e até algo inquietante de The Static God Dwier e no fulgor progressivo de Raw Optics Dwyer baliza, nesses que são os temas de abertura e de encerramento do disco, o ambiente geral de Orc, sendo ajudado de modo particular pelos bateristas Dan Rincon e Paul Quattrone nessa demanda. Se nestes dois temas ambos exalam uma deliciosa cumplicidade percurssiva, a mesma atinge o ponto mais alto quando nos instantes instrumentais da majestosa Keys To The Castle, sem serem tão exuberantes, responsabilizam-se por juntar todos os cacos, na forma de efeitos, cordas de guitarra e até de violino que Dwyer atira, conforme lhe apetece, para cima de uma base sonora tremendamente lisérgica e sensorial. Depois, no blues boémio e desmedido de Jettisoned, no arsenal de efeitos que abastece Paranoise e nas teclas setentistas que recriam o experimentalismo psicadélico de Cadaver Dog, Dwyer não disfarça minimamente a predileção que atualmente nutre por misturar de modo aparentemente anárquico alguns dos cânones clássicos do rock alternativo com o heavy metal e o rock progressivo, além de outros subgéneros de um rock que não se coibe de receber de braços abertos tudo aquilo que o músico tiver para testar. E realmente Dwyer testa, experimenta e recria sem ter o mínimo receio de colocar em causa, se tal for necessário, a impossibilidade de confrontar o ouvinte com o melodicamente acessível, já que aquilo que realmente lhe parece importar verdadeiramente é criar e recriar sobrepondo e alternando climas e formatos, de modo a dar vida à sua incasiável alma roqueira.

Edifício sonoro brilhante e cheio de vida e cor, Orc possibilita aos Oh Sees atravessarem novamente as barreiras do tempo e manterem-se, ao mesmo tempo, joviais e coerentes. Para delírio dos fiéis seguidores, o grupo mantém intata a sua insana cartilha de garage folk rock blues com uma capacidade inventiva que se pronuncia instantaneamente, através de um desejo inato de proporcionar o habitual encantamento sem o natural desgaste da contínua replicação do óbvio. A verdade é que o som deste grupo é, cada vez mais, uma espécie de roleta russa e um caldeirão de originalidade, que acaba por transportar o ouvinte para uma espécie de bad trip musical, através de um veículo sonoro que se move através de uma sucessão de loopings bizarros, mas ainda assim dançantes. Espero que aprecies a sugestão... 

Download Oh Sees   Orc (2017) Mp3

01. The Static God
02. Nite Expo
03. Animated Violence
04. Keys to the Castle
05. Jettisoned
06. Cadaver Dog
07. Paranoise
08. Cooling Tower
09. Drowned Beast
10. Raw Optics

 

 


autor stipe07 às 20:51
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sábado, 16 de Setembro de 2017

The Fresh And Onlys – Wolf Lie Down

Lançado através da Sinderlyn Records, House Of Spirits é o novo disco dos The Fresh & Onlys, um trabalho que sucede a Long Slow Dance (2012), ao EP Soothsayer(2013) e ao aclamado House of Spirits (2014) sendo já o sexto disco da carreira de um grupo que nasceu em 2008, natural de São Francisco, na Califórnia e formado por Tim Cohen, ao qual se juntam, atualmente, Shayde Sartin e Kyle Gibson, com James Kim e James Barone a serem os bateristas de serviço em várias canções deste disco.

Resultado de imagem para The Fresh And Onlys 2017

Tim Cohen tem tido um ano de 2017 bastante produtivo. Depois de um disco a solo intitulado Luck Man está de regresso com os seus The Fresh And Onlys à boleia de um álbum com oito canções que mantêm o projeto numa elevada bitola. É um registo composto por excelentes canções que logo a abrir, com o tema homónimo, refletem um indie rock portentoso, com aquela sonoridade tipicamente americana. Mas não é só Wolf Lie Down que nos esclarece acerca do feliz acerto deste alinhamento. Daí em diante não faltam outros instantes onde guitarras plenas de fuzz conduzem melodias cativantes, num som que sabe claramente às suas origens, porque exala um odor que se distingue de imediato, tal é a energia deste fio condutor que explora até à exaustão e com particular sentido criativo um filão que abraça todos os detalhes que o indie rock, na sua vertente mais pura e noise, transporta lado a lado com a folk com um elevado pendor psicadélico.

Se o referido tema homónimo debruça-se sobre alguém que anseia quase desesperadamente por um grande amor,  já Black Widow, a canção que encerra Wolf Lie Down, é uma narrativa profunda sobre o lado mais negro da mente humana, sustentada, curiosamente, numa gentil melodia acústica que serve de contraponto ao ideário lírico da canção. E acaba por ser nesta deriva entre dois pólos que muitas vezes se entroncam e misturam na história de cada um de nós que Cohen se inspira para escrever canções que atingem facilmente o nosso âmago, tal é a autenticidade e impressionismo que transportam. Pelo meio, na subtil indiferença do expermentalismo de Walking Blues, na visita que nos é oferecida ao antigo oeste selvagem na curiosa Becomings ou no charme funky que dá ainda mais cor à cósmica Qualm Of Innocence, ampliada por um coro gospel, nunca nos sentimos aborrecidos à medida que vão desfilando belos acordes de cordas que se entrelaçam com samples de teclado, alguns arranjos de sopros e distorções hipnotizantes que impressionam até quem conhece o catálogo deste grupo norte americano.

É bom perceber que Cohen sente-se cada vez mais confortável e maduro na sua posição de reverendo denunciador de tudo aquilo que hoje cativa e inquieta toda uma geração que, a meio do seu percurso existencial, vê todo um legado de ideiais e valores prestes a esfumar-se no meio de uma sociedade cada vez mais frenética e tecnológica. O cariz orgânico e assumidamente rugoso de Dancing Chair expressa esta espécie de grito de revolta, enquanto agrega, bem no centro do alinhamento de Wolf Lie Down, esta viagem criativa e experimental que faz uma espécie de súmula de variadas referências noise, folk e psicadélicas. Tal é conseguido através de um som leve e cativante e com texturas psicadélicas que, simultaneamente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, sempre com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

The Fresh And Onlys - Wolf Lie Down

01. Wolf Lie Down
02. One Of A Kind
03. Qualm Of Innocence
04. Walking Blues
05. Dancing Chair
06. Impossible Man
07. Becomings
08. Black Widow


autor stipe07 às 12:30
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sexta-feira, 15 de Setembro de 2017

Chad VanGaalen – Light Information

Editado no passado dia oito de setembro, por intermédio da Sub Pop Records, Light Information é o novo trabalho de Chad Van Gaalen, um canadiano natural de Calgary e um músico, autor e compositor de quem já sentia saudades, nomeadamente dos seus devaneios cósmicos. Desaparecido depois de em 2010 ter editado o excelente Diaper Island, andou, pelos vistos, a aprender a usar o pedal steel, além de ter trabalhado na banda desenhada de ficção científica Translated Log Of Inhabitants, surpreendeu a crítica e os fãs três anos depois com o excelente Shrink Dust e agora, no final deste verão, oferece-nos mais trinta e oito minutos de excelente música indelevelmente marcada pela parentalidade, uma novidade feliz na vida do ser humano VanGaalen.

Resultado de imagem para chad vangaalen 2017

Chad é um artista que domina diferentes vertentes e se expressa em múltiplas linguagens artísticas e culturais, sendo a música mais um dos códigos que ele utliza para expressar o mundo próprio em que habita e dar-lhe a vida e a cor, as formas e os símbolos que ele idealizou. Assim, as suas composições refletem, com alguma minúcia, estados de alma e os contextos que definem o seu momento, através de um código específico, tal é a complexidade e a criatividade que estão plasmadas nas suas canções, usando como principal ferramenta alguns dos típicos traços identitários de uma espécie de folk psicadélica, com uma considerável vertente experimental associada. Esta matriz sonora mais aventureira começou a ganhar forma no antecessor de Shrink Dust, o tal Diaper Island, já que antes disso, em Infiniheart (2004) e Soft Airplane (2008), apostou numa sonoridade folk eminentemente acústica e orgânica. Agora, em Light Information, o autor confronta-nos com uma luminosidade algo inédita, mostrando-se vivo e estranhamento empático e exuberante no modo como comunica connosco.

Sendo a eletrónica o terreno onde musicalmente VanGaalen se move com maior conforto, Chad acaba por olhar com mais atenção para a indie pop movida a cordas reluzentes, nomeadamente no modo como em Mind Hijacker's Curse recria uma toada pulsante e algo épica movida através de uma batida enérgica e um efeito sintetizado cósmico a cheirar ao universo de um Bowie por todos os poros e na leveza de Pine and Clover ao oferecer-nos um cândido instante de blues folk acústica particularmente embaladora e intimista. Acabam por ser dois exemplos antagónicos de uma filosofia comum que busca uma maior assertividade no modo como se serve do habitual formato canção para atingir uma maior variedade de fãs, mesmo que em instantes como a soturna psicadelia de Host Body ou a sobriedade acústica mas indisfarcavelmente punk de Faces Lit, o músico se mantenha fiel aos seus genes, reproduzindo aqui alguns dos sons mais orgânicos que podemos escutar no seu cardápio.

Sintetizadores e teclados, são apenas uma pequena parte do arsenal bélico com que ele nos sacode e traduz, na forma de música, a mente criativa que nele vive e que parece, em determinados períodos, ir além daquilo que ele vê, pensa e sente. Se You Fool é um exercício de manifestação óbvia daquilo que nos faz mudar o facto de sermos pais, enquanto coloca já a nú alguns detalhes que justificam o cariz psicadélico e aventureiro que anima Chad, com as guitarras de Broken Bell, apresentadas logo a seguir, a reforça-se o novo enquadramento da obra, cheia de fragmentos de sons sintetizados e distorcidos, versos hipnóticos e vozes com forte pendor lo fi, mas também subtis instantes melódicos de pura subtileza e encantamento. Chega-se ao ocaso e em Static Shape, ao conferirmos uma nuvem de distorções leves e acolhedoras, enquanto a lisergia sintetizada em que se acomodam cria paisagens sonoras verdadeiramente alucinogénicas, ficamos convencidos da enorme beleza e criatividade impressas num disco que buscou novos estímulos, de forma mais ponderada, com todos os arranjos e detalhes a terem sido certamente ponderados de forma muito cuidada, pois só assim se entende o audível aconchego da profusão de sons e de ruídos e poeiras sonoras que o trespassam, sempre com sentido e ordem, já que tudo parece encaixar devidamente e percebe-se diferentes colagens e sobreposições de sons.

Light Information é, portanto, um verdadeiro jogo de texturas e distorções controladas pelos nossos ouvidos. Um passeio pela essência da música psicadélica, idealizado por um inventor de sons que nos canta as subtilezas da sua existência pessoal, mas sem nunca se entregar ao exagero, até porque é explícita a toada experimental que ocupa este compêndio verdadeiramente obrigatório. Espero que aprecies a sugestão...

Chad VanGaalen - Light Information

01. Mind Hijacker’s Curse
02. Locked In The Phase
03. Prep Piano + 770
04. Host Body
05. Mystery Elementals
06. Old Heads
07. Golden Oceans
08. Faces Lit
09. Pine And Clover
10. You Fool
11. Broken Bell
12. Static Shape


autor stipe07 às 13:40
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017

King Gizzard and the Lizard Wizard - Sketches Of Brunswick East

Quando no início do ano o projeto australiano King Gizzard and the Lizard Wizard de Stu Mackenzie anunciou que iria lançar cinco álbuns em 2017, foram muitos os cépticos que se apressaram a apontar o dedo à impossibilidade deste grupo de rock psicadélico conseguir levar por diante tal desiderato. Mas a verdade é que Sketches Of Brunswick East, treze canções que viram a luz do dia a vinte e cinco de agosto, através da ATO Records, são já o terceiro capítulo desta imponente saga onde detalhes da soul, do jazz, do rock, essencialmente o setentista e sonoridades africanas e até a folk tradicional inglesa se misturam, para dar vida e cor a um alinhamento onde também teve uma importante palavra a dizer Alexander Brettin, outro músico australiano e natural de Brunswick East, bairro dos subúrbios de Melbourne, tal como Stu e fã de Todd Rundgren e Wire, que tem como carapaça pop o projeto Mild High Club.

Resultado de imagem para King Gizzard and the Lizard Wizard 2017

Com os King Gizzard and the Lizard Wizard a contarem já com cerca de uma dezena de discos em carteira, a verdade é que este Sketches Of Brunswick East é já o terceiro trabalho que também conta com a participação dos Mild High Club. E Sketches Of Brunswick East, que também alude ao clássico de Miles Davis, Sketches Of Spainresulta na plenitude, porque é profusamente intensa e feliz esta estreita colaboração entre Stu e Alexander, nomeadamente através da modo como trocam trechos de guitarra acústica, que acabam por servir depois de base a um posterior trabalho de aperfeiçoamento e desenvolvimento por parte dos restantes membros dos King Gizzard and the Lizard Wizard, com o resultado final, mais uma vez, a ser verdadeiramente intenso e contagiante.

O disco inicia com um solo de piano lindíssimo por parte de Brettin, secundado por alguns detalhes percurssivos da autoria do baterista Michael Cavanagh e a partir daí o que se escuta é uma verdadeira espiral entusiasta e multicolorida, que nos colocabem no centro de um tornado que, da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se delicia com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

Se ao longo da audição deste álbum parece evidente que tudo aquilo que se pode escutar, dos arranjos às melodias passando pelos diferentes detalhes e samples, é cuidadosamente pensado. É curioso constatar que a busca do caos também pareceu fazer parte da filosofia dominante no processo de construção do arquétipo das várias canções. O jazz experimental acaba por ser a base, mas é muito redutor uma catalogação tão objetiva já que, obedecendo a uma filosofia firme de controle instrumental, quer a homenagem descarada à melhor bossa nova em You Can Be Your Silhouette, assim como os devaneios dos sopros divagantes de Sketches Of Brunswick East II e o modo como em The Spider And Me as variações rítmicas também sobressaiem devido ao modo como as cordas se entrelaçam com a voz, são apenas alguns exemplos felizes que nos remetem para um espetro muito mais vasto e abrangente, onde diferentes estruturas e influências submergem e se acotovelam, quase em uníssono, para conseguirem destaque entre si. É, em pouco mais de trinta minutos, o espraiar indulgente e sereno de uma prévia colocação numa máquina de lavar, num programa que permitiu uma espécie de rotação e sobreposição constante de tudo aquilo que a herança musical contemporânea, de índole eminentemente psicadélica, foi agregando e assimilando ao longo das últimas cinco décadas.

Mais uma vez os King Gizzard and the Lizard Wizard conseguem facultar-nos um acervo de canções único e peculiar e que resulta, certamente, da consciência que Stu, o grande mentor do projeto, tem das transformações que abastecem a música psicadélica atual, enquanto tenta ligar-nos umbilicalmente aquela que considera ser a melhor lista de referências essenciais na parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que tem inundado os nossos ouvidos ultimamente. Sendo este seu terceiro disco do ano um tratado sonoro de natureza hermética, também não se furta a quebrar algumas regras da pop, nomeadamente na questão da crueza lo fi, e até de desafiar as mais elementares do bom senso, impressionando, assim, pelo arrojo e mostrando-se genial no modo como dá vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Sketches of Brunswick East artwork

01. Sketches Of Brunswick East I
02. Countdown
03. D-Day
04. Tezeta
05. Cranes, Planes, Migraines
06. The Spider And Me
07. Sketches Of Brunswick East II
08. Dusk To Dawn On Lygon Street
09. The Book
10. A Journey To (S)hell
11. Rolling Stoned
12. You Can Be Your Silhouette
13. Sketches Of Brunswick East III


autor stipe07 às 09:27
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sábado, 2 de Setembro de 2017

LCD Soundsystem – American Dream

Já há alguns meses que não restavam quaisquer dúvidas que 2017 iria ser o ano em que os LCD Soundsystem de James Murphy iriam editar o sucessor de This Is Happening, nomeadamente desde que foram divulgadas na primavera Call The Police e American Dream, os primeiros avanços do novo álbum do grupo nova iorquino e que acaba de ver a luz do dia através da DFA Records do próprio Murphy. São dez canções que em pouco mais de uma hora nos mostram porque devemo-nos sentir verdadeiramente felizes por This Is Happening não ter sido o epílogo da banda, como foi na altura, no início desta segunda década do século XXI, profusamente prometido (It's (really...) Time To Get Away!). E convém referir que este alinhamento deve também algo de significativo a David Bowie, artista com quem Murphy, durante conversas que tinham como objetivo colocar o patrão da DFA a produzir Blackstar, diversas vezes desabafou a saudade que sentia do seu antigo projeto, um sentimento que ele veio a descobrir ser partilhado também por Nancy Whang e Pat Mahoney, outros dois nomes incontornáveis dos LCD. Aliás, a canção que encerra este American Dream, a sombria e minimal Black Screen, debruça-se sobre esta troca afetiva de argumentos entre Bowie e Murphy.

Resultado de imagem para lcd soundsystem 2017

Quando uma nova corrente do indie rock começou a fazer escola no início deste século em Nova Iorque e as guitarras e o baixo começaram a dar as mãos aos sintetizadores e à eletrónica para invadir as pistas de dança do mundo inteiro, os LCD Soundsystem estavam na vanguarda desse movimento e a avalancar outros nomes, nomeadamente os Hot Chip, The Rapture, Cut Copy, !!! (chk chk chk), Radio 4 e Fischerspooner, entre outros, alguns deles abrigados pela própria DFA. E a verdade é que com a primeira saída dos LCD Soundsystem de cena, esse espetro sonoro que tanto sucesso obteve durante cerca de uma década, passou a viver um pouco na penumbra, apesar de nomes recentes como os Orange Cassettes e os próprios Liars parecerem sempre dispostos a levar o garage rock novamente nessa direção com assinalável mestria, sempre dançável e psicadélica. Agora, com este segundo capítulo do projeto de James Murphy e tendo em conta a assombrosa bitola qualitativa de American Dream, os dados estão novamente lançados para que o dance post punk rock volte novamente a estar na linha da frente e em plano de destaque no universo sonoro indie e este grupo volte a ocupar um trono que, no fundo, nunca deixou de lhes pertencer.

American Dream está repleto de composições intensas e melancólicas e que nos possibilitam usufruir de um mosaico declarado de referências, que se centram, essencialmente, numa mescla entre a típica eletrónica underground nova iorquina e o colorido neon dos anos oitenta, havendo inclusive, dentro desta bitola referencial, períodos introspetivos, que depois resvalam para finais épicos e de maior exaltação. Logo nos flashes sintetizados vigorosos e no piano divagante da futurista Baby se percebe que este é um disco que não defraudará toda a herança que traz atrás de si. E depois, no ritmo tribalista deliciosamente anguloso, proporcionado, em grande parte, pelo intenso baixo, de Other Voices, exemplarmente acompanhado pelo habitual efeito vocal ecoante de um James Murphy que canta e declama em simultâneo, somos de imediato transportados para os melhores momentos daquele já algo longínquo disco homónimo que ofereceu aos LCD Soundsystem a rampa de lançamento perfeita para um merecido estrelato.

Com estes dois temas iniciais a fazerem a ponte perfeita entre um glorioso passado e aquilo que os LCD Soundsystem querem continuar a explorar nesta nova demanda, American Dream prossegue numa espécie de balanço entre aquele clima underground que pisca o olho de modo bastante apetecível às pistas e momentos de algum pendor mais reflexivo, nomeadamente acerca do modo como Murphy vê a América que atualmente tanto o inquieta. Assim, se os devaneios rítmicos e o modo como é constantemente amplificada uma das cordas do baixo em Change Yr Mind, ou o festim sintético que transborda por todos os poros da efusiva e lasciva Tonite, são composições que nos fazem abanar a anca mesmo que não haja um firme propósito, apenas e só o facto de ser hora de celebrar. Já na espiral instrumental em que crescem guitarras e bateria em I Used To, ou na cadência algo angustiada do tema homónimo, que talvez procure refletir o modo como o tal sonho americano é hoje apenas uma ilusão sem sentido, sentimo-nos impelidos a procurar entender o modo como Murphy, sendo um dos melhores entertainers da atualidade, é também capaz de se sentir frustrado e desanimado com aquilo que observa ao seu redor. O espetacular baixo e o pendor exaltante dos sintetizadores e da batida crescente de Call The Police, acabam por fazer desta canção uma espécie de tema aglutinador perfeito de todo este receituário, um tema onde é possível descobrir razões para dançar de olhos fechados e a sorrir enquanto se pensa na vida e naquilo que mais nos consome e inquieta.

Disco que exige várias audições para ser devidamente compreendido, até porque vive muito deste apelo constante, mas nem sempre explícito, à festa, American Dream talvez reflita, no fundo, a realidade atual de uma América onde não existem, nos dias de hoje, muitas razões para celebrar ou motivos que inspirem à criação musical que exale, de modo evidente, a gloriosa celebração do que é viver num país que nunca se cansa de apregoar que lidera os destinos do mundo. De um modo mais particular, talvez aquele que mais interesse, ensina-nos que nunca é tarde para recomeçar, que os anos podem passar por nós, mas o nosso espírito pode manter-se amplamente jovial e criativo, mesmo que isso suceda de modo menos intuitivo, mas mais refletido, maduro e consciente. É assim, de certo modo, a melhor descrição que se pode fazer destes renovados LCD Soundsystem como entidade. Espero que aprecies a sugestão...

LCD Soundsystem - American Dream

01. Oh Baby
02. Other Voices
03. I Used To
04. Change Yr Mind
05. How Do You Sleep?
06. Tonite
07. Call The Police
08. American Dream
09. Emotional Haircut
10. Black Screen


autor stipe07 às 15:47
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Segunda-feira, 28 de Agosto de 2017

Beck – Dear Life

Beck - Dear Life

Depois de mais de meia década de solidão, o músico que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold e Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos habituou a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras, regressou em 2014 com Morning Phase, o décimo segundo trabalho da sua carreira e que viu a luz do dia por intermédio da Capitol Records. Falo, obviamente, de Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, um cantor e compositor que tantas vezes já mudou de vida como de casaco e que agora, três anos depois desse belo disco, está de regresso com Colors, dez canções que proporcionarão um novo fôlego na sua carreira, uma espécie de recomeço, depois de nos últimos dois verões ter igualmente surpreendido com dois singles intitulados Dreams e Wow.

Colors verá a luz do dia a treze de outubro, com o selo Capitol Records e Dear Life é um dos avanços, um tema que sobressai pela luminosidade de um piano e pelo fuzz intermitente de uma guitarra que deve muito aquela estética que além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica, sendo indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas. Confere...


autor stipe07 às 21:05
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sexta-feira, 25 de Agosto de 2017

The War On Drugs – A Deeper Understanding

Os The War On Drugs de Adam Gradunciel já eram sinónimo de saudade na redação de Man On The Moon, até porque não davam sinais de vida desde o excelente Lost In The Dream, editado há cerca de três anos. Refiro-me a um sexteto norte americano formado pelo baixista Dave Hartley, pelo teclista Robbie Bennett, pelo baterista Charlie Hall e pelos multi-instrumentistas Anthony LaMarca e Jon Natchez, além de Gradunciel e cuja sonoridade descomprometida e apimentada com pequenos delírios acústicos foi aos poucos transformando-se numa referência para vários artistas em início de carreira e não só e que está de regresso em 2017 com um novo registo de originais. O novo tomo de canções dos The War On Drugs intitula-se A Deeper Understanding, é o quarto da carreira do grupo, que contou na gravação e produção com a ajuda do engenheiro de som Shawn Everett (Alabama Shakes, Weezer) e viu a luz do dia hoje mesmo. Contém dez maravilhosas canções que deambulam entre a folk, a dream pop, o indie rock e a psicadelia e são bem capazes de oferecer ao autor o pódio no que concerne aos álbuns mais influentes, inspirados e acolhedores de 2017.

Resultado de imagem para the war on drugs 2017

Escutar com devoção os sermões de Gradunciel faz-nos embarcar serenamente e quase sem darmos por isso numa gloriosa viagem pela América que o inspira, uma América ao mesmo tempo tão sui generis, mas também tão genuína nas suas raízes e nos seus cânones fundamentais, mas também uma América plena de contrastes, até porque deve as suas fundações e raízes a numa heterogeneidade civilizacional cimentada ao longo de quatro séculos de choque cultural e civilizacional. E o encontro com este conjunto de incontornáveis permissas é um dos melhores elogios que se pode fazer a um disco que nos mostra com alguma clareza, entre outras coisas, como é viver nos dias de hoje numa sociedade profundamente dividida e carente de um rumo que agregue toda a amálgama de etnias, raças e povos que fazem do maior país do outro lado do atlântico um dos mais heterogéneos e conturbados deste nosso mundo, apesar de apregoar aos sete ventos ser o mais civilizado e desenvolvido de todos.

É curioso ver um tipo tão tímido e introvertido como este Adam Gardunciel parecer querer chamar a si o ónus gigantesco de tentar agregar num mesmo propósito toda uma multiplicidade racial, já que ele compõe canções que tanto servem à esquerda como à direita, a cristãos e a judeus e a brancos, índios, latinos ou negros, porque no fundo daquilo que nelas se fala são de pessoas, seres com uma humanidade própria que, apesar de adorarem vincar divergências, vêem, tantas vezes, quer o amor, quer os sonhos e os anseios, do mesmo modo. O segredo para a pacificação acaba por estar, no fundo, no encontro de pontos comuns e a música dos The War On Drugs é fértil a deixar pistas nesse sentido, porque para este grupo a felicidade não olha a cores de pele, heranças ou deuses para se manifestar. 

Com o reverb das guitarras e os sintetizadores a sustentarem o cardápio sonoro de um disco dinâmico e que se destaca logo na abertura com Up All Night, uma longa canção que apresenta uma progressão interessante e onde vão sendo adicionados os diversos arranjos que adornam as guitarras e a voz, nomeadamente sintetizadores e uma bateria indulgente, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte, A Deeper Understanding parece ser, por cá, a banda sonora ideal para aquecer os dias mais tristonhos e sombrios que se aproximam, mas também já serve para contemplarmos como serenidade o ocaso de um verão algo frenético e que para muitos não ficará gravado pelos melhores motivos.

Apesar deste álbum oferecer ao ouvinte diferentes perspetivas sobre a realidade sociológica que abriga os autores, ao longo da dez canções do disco Gradunciel também medita e repousa e cria facilmente no ouvinte suposições relacionadas sobre a sua vida pessoal, já que é inevitável escutar-se canções como Pain ou Knocked Down e concluir-se que este registo está cheio de poemas com uma elevada componente biográfica, que nos permitem entender melhor o âmago do autor, com a curiosidade de o fazermos através de tudo aquilo que de mais transcendental e lisérgico tem sempre a composição e a criação musical. Thinking Of A Place, onze minutos que são uma verdadeira vibe psicadélica e poeticamente melancólica, com uma progressão interessante e onde vão sendo adicionados diversos arranjos, sintetizadores a batidas que adornam as guitarras e a voz, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte, é mais um exemplo concreto deste indisfarçável impressionismo transversal a todo o alinhamento de A Deeper Understanding, um compêndio de várias narrativas onde convive uma míriade alargada de sentimentos que, da angústia à euforia, conseguem ajudar-nos a conhecer melhor a essência do autor e a descortinarmos opinião sobre a tal América que ele medita, assim como as suas conclusões e as perceções pessoais daquilo que observa enquanto a sua vida vai-se desenrolando e ele procura não se perder demasiado na torrente de sonhos que guarda dentro de si e que nem sempre são atingíveis.

Letras tão pessoais exigem, naturalmente, arranjos delicados e cuidados, com os quais o autor se identifique profundamente e, além do esplendor das cordas, particularmente inspiradas na já citada Pain ou no modo como induzem luz e positivismo a Nothing to Find, há que enfatizar as paisagens sonoroas criadas em In Chains e Strangest Thing, duas canções que, apesar de conduzidas pela guitarra, expandem-se e ganham vida devido ao critério que orientou a escolha dos restantes instrumentos e à forma como a voz de Gradunciel se posiciona e se destaca.

A Deeper Understanding é um trabalho que, do vintage ao contemporâneo, consegue encantar-nos e fazer-nos imergir na intimidade de um Gradunciel sereno e bucólico, através de uma viagem aos universos de Dylan e Kurt Vile, passando por Springsteen, com canções cheias de versos intimistas que flutuam livremente. É um disco simultaneamente amplo e conciso sobre as experiências pessoais do músico, mas também sobre o presente, a velhice, o isolamento, a melancolia e o cariz tantas vezes éfemero dos sentimentos, em suma, sobre a inquietação sentimental, ou seja, o existencialismo e as perceções humanas de uma América que parece ter encalhado e não saber como voltar novamente ao rumo certo. Espero que aprecies a sugestão...

 

The War On Drugs - A Deeper Understanding

01. Up All Night
02. Pain
03. Holding On
04. Strangest Thing
05. Knocked Down
06. Nothing To Find
07. Thinking Of A Place
08. In Chains
09. Clean Living
10. You Don’t Have To Go


autor stipe07 às 22:59
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

The Jungle Giants – Quiet Ferocity

Oriundos de Brisbane e formados por Sam Hales, Cesira Aitken, Andrew Dooris e Keelan Bijker, os The Jungle Giants já têm finalmente nos escaparates o sucessor de Speakerzoid, o segundo disco do projeto, editado há dois anos e que sucedeu ao registo de estreia, um álbum intitulado Learn To Exist, editado em 2013. Quiet Ferocity é o novo álbum deste quarteto australiano, um trabalho que irá certamente continuar a catapultar o grupo para o merecido estrelato.

Escrever sobre o conteúdo de um disco dos The Jungle Giants após uma sardinhada com direito a duas canecas de meio litro de um excelente verde branco fresco de Castelo de Paiva não é uma tarefa fácil, mas como também não é extensa a lista de leitores deste blogue não corro o risco de ver a minha análise colocar em causa de modo permanente a bitola qualitativa quer deste espaço de escrita quer de um grupo que, como se percebe logo em On Your Way Down, assenta a sua permissa sonora numa pop heterógenea que entre o rock experimental e o eletropop,  é feita, geralmente, de um baixo encorpado e pleno de groove, algumas teclas insinuantes, uma guitarra impregnada com aquele fuzz psicadélico hoje tanto em voga e alguns efeitos futuristas, com o resultado global a ser uma ode festiva e inebriante que nos submerge em todos os minutos gastos na sua audição.

Estes The Jungle Giants têm o objetivo claro de fazer os seus ouvintes dançar ou, se não for esse o caso, pelo menos de nos fazer vibrar positivamente ao som das suas canções. E neste terceiro disco conseguem, com maior refinamento, esse propósito, mostrando uma superior clarividência interpretativa e, além disso, um piscar de olhos a territórios sonoros algo inéditos no percurso do grupo. Assim, o indie eletro pop luminoso e festivo de Feel The Way I Do e o clima sintético mas divertido de Bad Dream, assim como a exuberância punk do single Quiet Ferocity e o blues do baixo e da guitarra de Used to Be In Love acentuam ainda mais o cariz infeccioso e contemporâneo de um disco que parece um verdadeiro motim de acordes, arranjos e samples vocais, atributos que abraçam uma quantidade ilimitada de texturas onde sintetizadores e guitarras contagiantes estouram alegria e sedução, como se fossem um par de amantes em permanente troca lasciva de olhares e argumentos.

Se alguns dos principais pilares da pop contemporânea são pedras basilares deste alinhamento, em Quiet Ferocity nem faltam abordagens a um espetro indie mais futurista, repleto de samples curiosos e de efeitos e detalhes bastante criativos. Assim, se Time And Time Again sobrevive devido aos tiques percussivos frenéticos em que se acomoda, tricotados por um baixo dinâmico e fascinante, que depois se entrelaça com uma guitarra que se distorce sem controle, baixo esse que se mostra glorioso em In The Garage, já a soul dos efeitos que acompanham o ritmo da bateria de Waiting For A Sign com uma articulação e um charme incomuns e a vibração excitante do falso minimalismo da eloquente Blinded, constituem um inventivo e luxuriante mosaico que exala uma certa pop negra avançada mas excitante, numa revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto por alguns gigantes que se têm entregue ao flutuar sonoro da lisergia e de cuja listagem os The Jungle Giants também querem fazer parte.

Em suma, cheio de espaço, com texturas e fôlegos diferentes e onde é transversal uma sensação de experimentação nada inócua, Quiet Ferocity cimenta as coordenadas que se apoderaram do departamento de inspiração deste quarteto, sendo o resultado da ambição do mesmo em se rodear com uma áurea resplandecente e inventiva e de mostrar uns The Jungle Giants cada vez mais heterogéneos e abrangentes. Espero que aprecies a sugestão...

The Jungle Giants - Quiet Ferocity

01. On Your Way Down
02. Feel The Way I Do
03. Bad Dream
04. Used To Be In Love
05. Quiet Ferocity
06. Time and Time Again
07. Waiting For A Sign
08. Blinded
09. In The Garage
10. People Always Say


autor stipe07 às 00:34
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sexta-feira, 14 de Julho de 2017

Lush Purr - Cuckoo Waltz

Abrigados pela insuspeita e espetacular Song By Toad, Records de Matthew Young, os escoceses Lush Purr dos irmãos Gavin Will e Rikki Will, aos quais se juntam Emma Smith e Andres Fazio, nasceram das cinzas dos míticos The Yawns e, à imagem desse consagrado projeto, seguem na senda de um indie punk rock psicadélico com um certo pendor lo fi e que tem em Cuckoo Waltz o trabalho de estreia. São treze notáveis canções incubadas em Glasgow, cidade escolhida pela banda para ponto de encontro de músicos que, entre Aberdeen e Santiago do Chile, se distribuem por diferentes proveniências, mas que nessa cidade em boa hora se conheceram e resolveram compôr juntos.

Resultado de imagem para Lush Purr band edinburgh

O disco inicia com Wave e logo se percebe um fio condutor bem definido, assente na primazia das cordas, que vão deixando-se levar por um salutar experimentalismo, à medida que progridem e ampliam a tonalidade da canção. Depois, em Bananadine, um riff eletrificado e o modo como a bateria se encaixa na melodia, têm o propósito bem claro de captar definitivamente o lado mais radiofónico do ouvinte, sem colocar em causa uma certa ousadia experimental, à qual aludi acima e que acabará por ser transversal a todas as canções independentemente do rumo que as mesmas tomem.

Depois deste início prometedor e já completamente absorvidos pelo conteúdo de Cuckoo Waltz, Horses On Morphine, mantendo o estilo, acelera o ritmo até territórios de maior pendor punk, para, pouco depois, em Stuck In A Bog, sermos surpreendidos pela acutilância percurssiva de uma bateria cheia de personalidade e por mudanças de acordes bem delineadas e em (I Admit It) I’m A Gardener, por uma ainda maior rugosidade, quer percussiva, quer elétrica, uma espiral crescente de fulgor e emotividade que não deserma até ao fim. É uma forma de compôr e de manusear o arsenal instrumental escolhido que não deixa margem para dúvidas relativamente ao modo excitante e anguloso como os Lush Purr conseguem cirandar por diferentes espetros sonoros e parecendo que flutuam entre eles, conseguem criar sempre fios condutores que facultam uma homogeneidade bastante impressiva ao disco, sem que ele deixe de exalar uma superior maturidade e um ecletismo claramente indie.

Até ao ocaso, com o baixo de Mr. Maybe, que dita regras de modo ditadorial, mesmo que a guitarra procure imiscuir-se na liderança do ambiente do tema, com, em I, Bore, a opção por um travo algo vintage ou com o noise algo contemplativo da guitarra de Triple Squit, existe sempre a tal variedade de referências a palpitar e fica a certeza que estes Lush Purr são uma das novidades mais refrescantes deste verão indie e que o rock que seguram com unhas e dentes, feito de um certo experimentalismo alternativo novecentista, dificilmente encontra melhores interlocutores. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 16:05
link do post | comenta / bad talk | See the bad talk... (1) | The Best Of... Man On The Moon...
|
Segunda-feira, 10 de Julho de 2017

Sun Airway – Heraldic Black Cherry

Filadélfia, na Pensilvânia, é a morada dos Sun Airway, uma dupla norte-americana formada por Jon Barthmus e Patrick Marsceill, que editou no início deste ano Heraldic Black Cherry, um compêndio de quinze canções que apostam nos traços mais caraterísticos da indie pop, algo que ficou muito claro, em Landscapes, o antecessor, mas também noutros lançamentos anteriores do projeto. Este Heraldic Black Cherry aprimora a mistura de todo o arsenal instrumental de que a dupla se serve com os sintetizadores, amplificando a vontade da dupla em ser exímia na criação de melodias que transmitam sensações onde a nostalgia do nosso quotidiano se reveja.

Os Sun Airway distinguem-se, logo à partida e conforme se confere em FOAM, a canção que abre este disco, por uma certa aúrea encantatória, um salutar experimentalismo livre de constrangimentos e amarras e onde o reverb e o fuzz se misturam com liberdade plena, originando um clima fortemente lisérgico que os cobre com uma aúrea de sensibilidade e fragilidade romântica indisfarçáveis. E a verdade é que depois, temas como All In, uma canção conduzida por um teclado emotivamente forte e um registo vocal sintetizado convincente, ou Sleeping Sound, uma composição de forte cariz cósmico conduzida por um efeito vincado e um piano cheio de soul, assim como o agregado ternurento que sustenta Small Fires ou a luminosidade melódica algo inebriante de Violent Gray permitem-nos, com uma certa clareza, refletir sobre alguns dos mais nobres sentimentos que nos invadem e tudo aquilo que de bom a vida tem para nos oferecer.

Heraldic Black Cherry torna-se desafiante pela forma como nos convida a tentarmos perceber os diferentes elementos sonoros que vão sendo adicionados e esculpindo as suas canções, melodicamente sempre muito próximas da postura vocal e com os arranjos sintéticos a sobressairem, não porque ficam na primeira fila daquilo que se escuta, mas porque suportam aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que a canção toma e nas sensações que transmite. Assim, neste registo vai-se, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa viagem psicadélica proporcionada por estes Sun Airway, mestres de um estilo sonoro carregado de uma intensa jovialidade e que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um charme ainda maior pela peça em si que este disco representa. Espero que aprecies a sugestão...

Sun Airway - Heraldic Black Cherry

01. FOAM
02. All In
03. Absolut
04. Sleeping Sound
05. Ha Ha
06. Violent Gray
07. Skiff
08. Small Fires
09. Big Ideas
10. Sand
11. Carry Away
12. Debraining
13. Landfall
14. Gob
15. All I Ever


autor stipe07 às 00:50
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|

eu...

Powered by...

stipe07

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Parceria - Portal FB Headliner

Facebook

Man On The Moon - Paivense FM (99.5)

Em escuta...

Twitter

Twitter

Blogs Portugal

Bloglovin

Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

12
13
14

17
19
23

24
25
26
27
28
29
30


posts recentes

Oh Sees - Orc

The Fresh And Onlys – Wol...

Chad VanGaalen – Light In...

King Gizzard and the Liza...

LCD Soundsystem – America...

Beck – Dear Life

The War On Drugs – A Deep...

The Jungle Giants – Quiet...

Lush Purr - Cuckoo Waltz

Sun Airway – Heraldic Bla...

You Can't Win, Charlie Br...

Abram Shook – Love At Low...

Kasabian – For Crying Out...

The Horrors – Machine

Ulrika Spacek – Modern En...

Oh Sees - The Static God

The Flaming Lips – The Fl...

Ganso - Pá Pá Pá

Glass Vaults – The New Ha...

POND - The Weather

X-Files

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

take a look...

I Love...

Os melhores discos de 201...

Astronauts - Civil Engine...

blogs SAPO

subscrever feeds