Terça-feira, 21 de Junho de 2016

Okta Logue – Diamonds And Despair

Philip Meloi, Benno Herz, Robert Herz e Max Schneider são os alemães Okta Logue, um quarteto distribuido por Frankfurt e Darmstadt e mais um nome a direcionar o seu processo de criação sonora para aquela psicadelia pop ampla e elaborada, através de um som firme e definido e onde cada instrumento parece assumir uma função de controle, nunca se sobrepondo demasiado aos restantes, com Diamonds And Despair, o mais recente disco do grupo, a encarnar um espírito ecoante e esvoaçante, transversal às catorze canções do seu alinhamento e que coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

O fuzz do sintetizador e o esplendor das cordas de Pitch Black Dark e da alegoria pop One-Way Ticket To Breakdown, os detalhes percussivos e a guitarra planante de Helpless e o ambiente etéreo e imersivo criado pelos efeitos de Stars Collapse esclarecem o ouvinte acerca da constante omnipresença do experimentalismo rock que ditou a sua lei nos grandiosos anos setenta e da salutar psicadelia instrumental e melódica que definia alguns dos nomes fundamentais desse género que hoje vem sendo replicado com enorme sucesso nos dois lados do atlântico.

Como é apanágio num som que se pretende luminoso, atrativo e imponente, sem descurar aquela fragilidade e sensorialidade que o território estilístico onde estes Okta Logue se movem exige, Diamonds And Despair caracteriza-se, em grande parte, pela subtileza com que este quarteto alemão incorpora uma musicalidade prática, concisa e ao mesmo tempo muito abrangente, num disco marcado pela proximidade entre as canções, fazendo com que o uso de letras cativantes e de uma instrumentação focada em estruturas técnicas simples, amplie os horizontes e os limites que vão sendo traçados em mais de uma hora de canções com tudo para tornarem-se em verdadeiros clássicos da pop experimental. A majestosidade das guitarras que conduzem Waves e a direção delicada e ao mesmo tempo mais esculpida e etérea, que a banda assume em Wasted With You, assim como o acabamento límpido e minimalista, mas fortemente sentimental e profundo de It's Been A While, arrancam o máximo daquilo que as guitarras conseguem enfatizar ao nível dos efeitos e das distorções hipnóticas e acabam por ser um piscar de olhos insinuante a um krautrock que, cruzado com um subtil minimalismo eletrónico, prova o minucioso e matemático planeamento instrumental de um disco em ritmo ascendente, mas sempre controlado, até à última canção.

Pleno de nuances variadas e harmonias magistrais, em Diamonds and Despair tudo se orienta com o propósito de criar um único bloco de som, fazendo do disco um corpo único e indivisível e com vida própria, com os temas a serem os seus orgãos e membros e a poderem personificar no seu todo, se quisermos, uma sonoridade própria e transparente, através de um disco assertivo, onde os Okta Logue utilizaram todas as ferramentas e fórmulas necessárias para a criação de algo verdadeiramente único e imponente e que obriga a crítica a ficar particularmente atenta a este grupo. Espero que aprecies a sugestão...

Okta Logue - Diamonds And Despair

01. Pitch Black Dark
02. Helpless
03. Stars Collapse
04. Waves
05. Diamonds And Despair
06. Heat
07. Under The Pale Moon
08. It’s Been A While
09. One-Way Ticket To Breakdown
10. Wasted With You
11. Heroes Of The Night
12. Distance
13. Summer Days
14. Take It All


autor stipe07 às 21:39
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Terça-feira, 7 de Junho de 2016

Psychic Ills – Inner Journey Out

Um das mais curiosas apostas do catálogo da Sacred Bones Records são os Psychic Ills, um projeto norte americano oriundo da big apple e que desde 2003 tem divagado por um universo de explorações sonoras que criam pontos de interseção seguros e estreitos entre eletrónica, rock ambiental e rock progressivo, sempre com uma toada eminentemente lo fi e psicadélica, que até nem dispensou alguns artifícios caseiros de gravação, como se percebe em Inner Journey Out, o quinto disco do grupo, editado no passado dia três de junho pela referida etiqueta.

Tocar a nostalgia e dar vida a uma sensação tão singela e simultaneamente perene como essa requere, obrigatoriamente, uma jornada sonora com uma elevada dose de bom gosto e que busque uma harmonia e um rigor instrumentais que são, quanto a mim, uma imagem de marca destes Psychic Ills. Essa evidência fica plasmada bem cedo, durante a audição de Inner Journey Out, não só na escuta do orgão de Back To You e no modo como os instrumentos percussivos e de sopro vão sendo adicionados à melodia, à medida que a emotividade vocal de Tres Warren toma conta do nosso âmago, mas também, e principalmente, no ritmo efusiante, marcado pelo baixo rugoso e pelo compasso de uma bateria intransigente nos tempos e que se vai deixando enlear por uma distorção de guitarra a espumar aquele blues tipicamente americano até ao tutano, em Another Change, mas também na luminosidade das cordas da folk boémia e contemplativa de I Don't Mind, canção que conta com a participação especial de Hope Sandoval (Mazzy Star) e que na componente eletrificada, também ressuscita alguns dos melhores atributos do cardápio de efeitos que define a típica guitarra do outro lado do atlântico e que exala uma mansidão folk rock psicadélica incomum e capaz de nos envolver num torpor intenso.

Já completamente absorvidos por um início de alinhamento tão intenso e incandescente, levamos um soco no baixo ventre quando entra pelos nossos ouvidos Mixed Up Mind, canção que, quanto a mim (e como ninguém vai ler isto, posso dizê-lo abertamente), tem na sua génese tudo para ser sexualmente bastante apelativa e funcionar como um verdadeiro e eficaz estimulante. Na verdade, quer esta Mixed Up Mind, quer All Alone, parecem uma espécie de parelha inseparável, dois temas que se enrolaram sem apelo nem agravo, envoltos numa sonoridade que faz com que pareçam ter estado presos num qualquer transítor há várias décadas e que finalmente libertados com o aconchego que a evolução tecnológica destes dias permite, tendo ficado disponíveis algures num assento almofadado virado para uma solarenga praia, no início daquela madrugada que todos vivemos uma vez na vida, ou na cama mais confortável lá de casa, com vista para um vasto oceano de questões existenciais, que entre o arrojado e o denso, se bem acompanhados, oferece-nos uma estadia de magia e delicadeza invulgares.

Até ao final aguardam-nos muitas outras surpresas e instantes de difícil mas bastante acessível e recompensadora catalogação sonora, que experimentados à boleia do cinismo de Coca-Cola Blues, da simplicidade crua de Music In My Head e da exuberância e majestosidade de Ra Wah Wah, permitem-nos a absorção plena e dedicada de uma assumida grandiosidade celestial, onde o retro se confunde com charme, uma simbiose à qual é impossível ficar indiferente, imbuída de uma salutar complexidade que coloca os autores rumo ao típico rock que se situa num patamar superior de abrangência.

Estes Psychic Ills deixam-nos viajar no tempo e enquanto nos fazem recuar quase meio século, sob o efeito soporífero de canções que parecem não ter um tempo exato para viverem e que se deixam espraiar até ao limite de tudo aquilo que têm de sublime para nos transmitir, oferecem-nos uma revisão bastante contemporânea de toda a herança que o indie rock de cariz mais melancólico, ambiental e lo fi nos deixou até hoje. Espero que aprecies a sugestão... 

Psychic Ills - Inner Journey Out

01. Back To You
02. Another Change
03. I Don’t Mind
04. Mixed Up Mind
05. All Alone
06. New Mantra
07. Coca-Cola Blues
08. Baby
09. Music In My Head
10. No Worry
11. Hazel Green
12. Confusion (I’m Alright)
13. Ra Wah Wah
14. Fade Me Out


autor stipe07 às 23:23
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Terça-feira, 31 de Maio de 2016

Enemy Planes – Beta Lowdown

Minneapolis, no Massachussets, é o poiso dos Enemy Planes, uma banda formada por Casey Call, Joe Gamble, David LeDuc, Kristine Stresman, Shön Troth, Joe Call e Jessica Anderson e que acaba de se estrear nos discos com Beta Lowdown, onze canções preenchidas com um indie rock cru, rugoso e bastante intenso. Este é, claramente, um dos melhores lançamentos discográficos do ano, dentro do espetro sonoro em que o grupo se insere e que, por exemplo, a ambivalência entre cordas e sintetizadores em Weightless , a canção que determina o ocaso do alinhamento, tão bem explicita.

Muito antes disso, começa-se a escutar a opulência de Automatic Catatonic e percebe-se, imediatamente, que Beta Lowdown é um álbum frontal, marcante, elétrico e explosivo. Nesta música sente-se a vibração a aumentar e a diminuir de forma ritmada e damos por nós a desejar que o resto do disco seja assim. E na verdade, o ritmo frenético e empolgante, quer do baixo quer da guitarra de Bare Your Teeth, tem o selo caraterístico daquele rock misterioso e cheio de fechaduras enigmáticas e chaves mestras, mas que, se forem experimentadas com dedicação, acabam por abrir portas para um outro refúgio perfeito. Refiro-me a We Want Blood, tema onde é explorado exaustivamente um hipnotismo lisérgico, com uma forte dimensão espacial e algo lo fi, percetivel quer na elevada dose sintética do tema, quer na míriade de efeitos que o sustentam.

Estes Enemy Planes não defraudam logo à primeira audição e convencem acerca da sua grandiosidade e explendor melódico, sem grandes reservas. Se os temas acima referidos apresentam vários dos pontos fortes de Beta Lowdown, até ao final do alinhamento, a feliz imprecisão rítmica e o clima nostálgico oitocentista de Between Lives, o elevado efeito soporífero, bastante acessível e, certamente, do agrado de um público mais abrangente, de Locks, a explosão de cores e ritmos, que nos oferecem um ambiente simultaneamente denso e dançável, em pouco mais de três minutos que são um verdadeiro compêndio de um acid rock eletrónico despido de exageros desnecessários, mas apoteótico, em Just A Ghost, atestam que este disco é uma irrepreensível coletânea de rock psicadélico, proposta por um coletivo que aposta numa espécie de hipnose instrumental pensada para nos levar numa road trip, à boleia das cordas, da bateria e do sintetizador, uma viagem lisérgica através do tempo, em completo transe e hipnose.

Assim, da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e por um rock intenso e com uma elevada dose de experimentalismo, são várias as vertentes e influências sonoras que podem descrever a sonoridade dos Enemy Planes, que iniciam a sua demanda sonora discográfica de modo confiante, altivo e bastante criativo. Espero que aprecies a sugestão...

Enemy Planes - Beta Lowdown

01. Automatic Catatonic
02. Bare Your Teeth
03. We Want Blood
04. Stranger Danger
05. Between Lives
06. (O’ Ensnared) Swans
07. Devolver
08. Locks
09. Just A Ghost
10. No Strings
11. Weightless


autor stipe07 às 21:52
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Sábado, 28 de Maio de 2016

Metronomy – Old Skool

Metronomy - Old Skool

Dois anos depois de Love Letters, os britânicos Metronomy de Joe Mount estão prestes a regressar aos discos com Summer 08, um álbum que irá ver a luz do dia já a um de julho e que será, certamente, um dos acontecimentos musicais do próximo verão.

Como o nome do tema indica, Old Skool, um dos avanços já divulgados de Summer 08, impressiona pelo clima retro proporcionado pelo funk da batida, um baixo bastante vigoroso e vários arranjos metálicos, aspectos que conferem à canção uma curiosa mescla entre indie rock, eletrónica e hip-hop, numa espécie de fusão entre Daft Punk e Beastie Boys, impressão ampliada por um sintetizador que obedece a uma lógica sonora próxima do chamado discosound, particularmente efusiva e que tem feito escola desde a alvorada dos oitentas, mas com um elevado toque de modernidade, num ambiente algo psicadélico e que apela claramente às pistas de dança. Confere...


autor stipe07 às 14:45
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2016

Unknown Mortal Orchestra - First World Problem

Depois de os neozelandeses Unknown Mortal Orchestra, do músico e compositor Ruban Nielsen e de Jake Portrait e Greg Rogove, terem-nos oferecido Multi-Love, um dos melhores discos do ano passado, eis que voltam a dar sinais de vida com First World Problem, uma extraordinária canção que, estreitando os laços entre a psicadelia e o R&B, contém a impressão firme da sonoridade típica da banda, catupultando-a ainda para uma estética mais abrangente.

Além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, esta canção ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica da década anterior. O volume e a densidade instrumental da canção torna indisfarçável a busca dos Unknown Mortal Orchestra de uma melodia agradável, marcante e rica em detalhes e texturas, com uma grandiosidade controlada e que contém um forte apelo às pistas de dança. Confere...

 


autor stipe07 às 22:06
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Terça-feira, 24 de Maio de 2016

Damien Jurado - Visions Of Us On The Land

Lançado no passado mês de março pela Secretly Canadian, Visions Of Us On The Land é o novo compêndio de canções do norte americanos Damien Jurado e encerra uma trilogia iniciada em 2012 com Maraqopa, disco ao qual se seguiu Brothers and Sisters of the Eternal Son, dois anos depois.  Este Visions Of Us On The Land foi  produzido por Richard Swift e confirma Damien Jurado como um dos nomes fundamentais da folk norte americana e um dos artistas que melhor tem sabido preservar algumas das caraterísticas mais genuínas de um cancioneiro que dá enorme protagonismo ao timbre acentuado e rugoso das cordas para dissertar crónicas de uma América profunda e muitas vezes oculta, não só para os estrangeiros, mas também para muitos nativos que desde sempre se habituaram à rotina e aos hábitos de algumas das metrópoles mais frenéticas e avançadas do mundo, construídas num país onde ainda é possível encontrar enormes pegadas de ancestralidade e que inspiram calorosamente Jurado.

Este Visions Of Us On The Land é, portanto, uma homenagem profunda aquela América feita de índios e cowboys, mas também de pioneiros, viajantes e exploradores, uma narrativa vibrante onde vozes e instrumentos compôem um painel muito impressivo que nos permite viajar no tempo. E nessa demanda podemos ir até às montanhas rochosas do Utah, à neve do Alasca, ao sol da Califórnia e ao pó do deserto texano ou aos desfiladeiros de Yellowstone, à medida que apreciamos descrições vivas e intensas de cenários que muitas vezes só vemos em filmes.

Assim, e citando alguns dos instantes mais impressivos de um alinhamento que é, no seu todo, um retrato vivo, se Mellow Blue Polka Dot nos coloca bem no centro de um acampamento índio, já o rock psicadélico setentista de Lon Bella senta-nos ao volante de um descapotável em plena Route 66, sem destino fixo, enquanto QACHINA deixa-nos apreciar deslumbre paisagístico de montanhas verdejantes, com fontes de água pura ainda intactas e onde ursos, águias, lobos e veados coabitam pacificamente, sem nunca terem sentido a presença humana.

O alinhamento prossegue e não há como evitar uma enorme sensação de conforto ou esconder o sorriso perante o excelente registo vocal que conduz ONALASKA, o êxtase percussivo carregado de sol da inebriante Walrus, a majestosidade melódica de Exit 353, a cândura e a inocência de Queen Anne ou o aconchegante dedilhar da viola da noturna e introspetiva On The Land Blues, outros exemplos da excelência de um disco que, sendo já o décimo segundo da carreira de Damien Jurado, é um dos momentos maiores da sua carreira, pricncipalmente pelo modo como este músico se coneta com o solo que diariamente pisa e o honra e preserva, mostrando-nos, numa jornada evocativa, o melhor que tem e que sente pelo seu país. Espero que aprecies a sugestão...

Damien Jurado - Visions Of Us On The Land

01. November 20

02. Mellow Blue Polka Dot
03. QACHINA
04. Lon Bella
05. Sam And Davy
06. Prisms
07. ONALASKA
08. TAQOMA
09. On The Land Blues
10. Walrus
11. Exit 353
12. Cinco De Tomorrow
13. And Loraine
14. A.M. AM.
15. Queen Anne
16. Orphans In The Key Of E
17. Kola


autor stipe07 às 21:29
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2016

Mira, Un Lobo! - Heart Beats Slow

Esplendor, exuberância e sentimento, são adjetivos que me assaltaram com insistência o pensamento durante as várias audições de Heart Beats Slow, o refúgio sonoro lançado recentemente pela Tapete Records e criado pelo lisboeta Luís F. de Sousa, que assina a sua música como Mira, Un Lobo!. É um disco com dez canções que apostam as fichas todas na voz eclética do autor, conjugada com arranjos bastante melódicos, refrões simples e versos contundentes, uma estrutura inicial depois suportada por uma invulgar criatividade no manuseamento dos sintetizadores e que está explícita, por exemplo, na intensidade do trip hop de Newborn Killers, mas também por algumas cordas, elétricas e acústicas. É um compêndio sonoro de forte cariz fortemente ambiental, uma verdadeira espiral pop onde não falta também um marcante estilo percurssivo.

Sustentado por uma propensão certamente inata para a feliz sobreposição de várias camadas de sopros sintetizados, mas também inspirado no modo como é capaz de utilizar o simples dedilhar de uma viola para instigar Sliced Guitar, uma das melhores canções deste disco, em Heart Beats Slow Mira, Un Lobo! filtra tudo de modo bastante orgânico, amplo e rugoso, numa linha vincadamente experimental. São canções que se sustentam numa receita particularmente minimal, mas profunda e crua, que cria um universo fortemente cinematográfico e imersivo. A verdade é que parece haver momentos em que o autor toca submergido num mundo subterrâneo, de onde debita sons através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco das melodias e dão asas às emoções que exala desde as profundezas desse refúgio bucólico e denso onde certamente se embrenhou. A tecla do piano que introduz Like Punching Glass é, por si só, um marco impressivo desta fórmula, mas Tramadol ou Serotonin também demonstram-no, dois temas que parecem ter vida própria, com os seus efeitos a parecer que foram esculpidos e debitados pela própria natureza. E logo depois, assistir ao modo como progride o edifício instrumental que anima Suffocation, obriga a um exercício exigente de percepção, mas que além de ser fortemente revelador é claramente recompensador.

A mesma receita, mas de modo ainda mais grandioso e hipnótico, repete-se em We're Not Far, canção que impressiona pela cândura inicial dos efeitos que manipulam a voz, que funciona e sussurra também como membro pleno do arsenal instrumental, mas que depois se desenvolve e simultaneamente nos envolve, numa espiral de sentimento e grandiosidade, patente também no no frenesim do sintetizador e numa bateria inebriante, não havendo, como se percebe, regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos.

De facto, este Mira, Un Lobo! é mais um bom exemplo de um músico capaz de ser genuíno no modo como manipula o sintético, de modo a dar-lhe vida e a retirar aquela faceta algo rígida que a eletrónica muitas vezes intui, convertendo tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos ou linhas melódicas dispersas em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico. Os constantes flashes metálicos projetados pelas teclas em várias direções criam um cenário idílico, não faltando, inclusive, no tema homónimo, uma deliciosa pitada psicadélica a escorrer por todos os seus poros, potenciando a incontestável beleza e coerência de um álbum que nos catapulta rumo a um universo invulgarmente empolgante e sensorial, que da eletrónica, à pop, passando pelo rock progressivo cria uma relação simbiótica bastante sedutora, um disco entalhado no ventre da terra mãe e de onde brotou para se tornar na banda sonora perfeita de um território tremendamente sensorial, assente numa arrebatadora coleção de trechos sonoros cuja soma resulta numa grande obra linda e inquietante. Espero que aprecies a sugestão...

1. Tramadol
2. Newborn Killers
3. Serotonin
4. Suffocation
5. Sliced Guitar
6. We're Not Far
7. Like Punching Glass
8. Spaceman
9. Heart Beats Slow
10. Introduction


autor stipe07 às 23:05
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Quinta-feira, 19 de Maio de 2016

Quelle Dead Gazelle - Maus Lençois

Miguel Abelaira e Pedro Ferreira são a dupla que encarna Quelle Dead Gazelle, um projeto artistíco de indie rock experimental, oriundo de Lisboa e que está de regresso aos discos com Maus Lençóis, oito canções produzidas pelos próprios e por Makoto Yagyu e Fábio Jevelim e que traduzem uma jornada sonora no espaço e no tempo, à procura da expressão melódica da natureza e dos sentimentos humanos, bem como a envolvência entre ambos e que se inspira fortemente na contemporaneidade de um país que vive há meia década assombrado por uma inquietante crise, que começou por ser económica mas que, hoje em dia, é também já uma profunda crise de valores, de ausência de rumo e de identidade, suportada de um povo que parece cada vez mais resignado a toda esta conjuntura e fatalidade.

Mesmo não parecendo presos por amarras ou balizas que enclausurem o arquétipo sonoro pelo qual se regem, o alargado espetro rítmico de uma bateria capaz de encarnar as diferentes personagens que ganham vida em cada uma destas canções e o timbre típico agudo e lo fi da guitarra, que se afirma, também, como uma verdadeira imagem de marca desta dupla, mostra que a bitola sonora destes Quelle Dead Gazelle andará sempre em redor do post rock com uma forte componente melódica, um aspeto essencial do adn do grupo, bem patente quer na toada mais étnica de Burundi ou no groove efusivo de Pedra Pomes, apenas dois exemplos de como, apesar da ausência da compoente lírica, é possível escutar Maus Lençóis e perceber que há aqui uma narrativa de diferentes tramas. É possível apreciar este álbum do mesmo modo que abrimos um livro e, de facto, contemplá-lo é quase como abrir várias áginas já que, realmente, percebe-se a existência dessa linha sonora contínua, onde tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração do projeto tivesse um motivo para se posicionar dessa forma.

Sejamos, ou não, apreciadores desta sonoridade mais crua, ríspida e claramente experimental, mas inspirada e sentida, não é possível escutar Maus Lençóis sem absorver a obra como um todo e entregar-se aos pequenos detalhes que preenchem o seu alinhamento é resultado da mais pura satisfação, como se os Quelle Dead Gazelle projetassem inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção, num resultado final que se assume como um álbum conceptual, que impressiona pela beleza utópica de composições que exploram ao máximo a relação sensorial humana, com um som psicadélico, barulhento e melódico que atiça todos os nossos sentidos, provoca em nós reações físicas que dificilmente conseguimos disfarçar e, contendo belíssimas texturas, que não se desviam do cariz fortemente experimental que faz parte da essência do grupo, trespassam sempre o nosso âmago, fechando-nos dentro de um mundo muito próprio, místico e grandioso, onde tudo flui de maneira hermética e acizentada, como convém a uma crise bem sucedida. Espero que aprecies a sugestão...

Maus Lençóis cover art

Sede

Pedra-Pomes

Vaca Fria

Abismo

Burundi

Costas Quentes

Chavalo Lusitano

Fala Baixo


autor stipe07 às 22:07
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Marvel Lima - Fever

Depois de em 2014 terem surpreendido a mais atenta crítica nacional com Mi Vida, canção que seria o primeiro avanço para o disco de estreia, que parece que irá ver, finalmente, a luz do dia, lá para setembro, à boleia da editora pontiaq, os alentejanos Marvel Lima acabam de divulgar uma nova prova sonora, que comprova ser este um projeto a ter claramente em conta no panorama indie e alternativo nacional.

Esse sinal dado por este quinteto oriundo de Beja, intitula-se Fever, um tema que encontra a sua alma e pujança numa mistura de indie pop e indie rock com o punk e o post rock, sem descurar também alguns detalhes da eletrónica, um cocktail ampliado por uma elevada dose de emoção, arrojo e amplitude progressiva que, conforme indica o press release do lançamento, també conta com um forte tempêro mediterrâneo e uma assumida influência latina. Confere...


autor stipe07 às 22:02
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Terça-feira, 17 de Maio de 2016

The Weatherman - Eyeglasses for the masses

Gravado nos estúdios Hertzcontrol em Caminha por Marco Lima, produzido pelo próprio e por e Alexandre Almeida, e misturado nos SoundHill Studios no Porto por João André, Eyeglasses For The Masses é o quarto e novo registo de originais de The Weatherman, o pseudónimo artístico criado em 2006 pelo multi-instrumentalista portuense Alexandre Monteiro e um projecto pop rock versátil e multifacetado, cujo universo pop e psicadélico nos remete para um mundo sonoro onde reina a nostalgia dos anos sessenta e onde nomes como os The Beatles, claramente audíveis na cândura de Now & Then, ou os Beach Boys, homenageados a preceito em Endless Expectations, são referências incontornáveis, além de algumas marcas identitárias da pop e da eletrónica atual.

Masterizado em Los Angeles pela mão do galardoado Brian Lucey (Artic Monkeys, Black Keys, The Shins, Beck, Sigur Ros, entre outros), Eyeglasses For The Masses assinala uma década de carreira de um músico que sempre demonstrou ser um inspirado e comovente escritor de canções e que, desta vez, quis, de acordo com o press release do lançamento, mover tudo e todos com o poder de uma grande canção. De facto, apoiado pela enorme mestria com que manipula, principalmente, as teclas de um piano, The Weatherman dá-nos a mão e convida-nos a penetrar sem hesitações num disco que faz de nós, inicialmente estranhos numa terra estranha, acabados de chegar ou prontos para partir, num alinhamento que funciona como um campo de sacos cheios de memórias onde a vida se refugia ou fica presa, quando o amor nos resolve pregar, mais uma vez, uma enorme partida.

Tal como esse amor, esta é uma viagem empolgante, onde tudo começa e acaba, instigados pela motivação de canções tão felizes como All The In Between e outras capazes de manipular a nossa mente fragilizada e entorpecida para o lado mais positivo da existência humana, algo que sucede intuitivamente a quem se deixar embrenhar pela monumentalidade instrumental de A Kind Of A Bliss, canção que nos oferece uma sensação de liberdade incomensurável, com o bónus de expirar do nosso âmago toda a cegueira, vertigem, ou abismo, que a solidão tantas vezes nos proporciona.

Parece-me que para quem recentemente ficou só e sente medo que essa fatalidade se prolongue no tempo, algo que nem sempre está nas nossas mãos evitar, este é um álbum que pode indicar pistas seguras para que tal não suceda e que nos pode mostrar o que há do outro lado do vidro que reflete a nossa existência, agora algo perdida. Se tantas vezes nos esquecemos que aquilo que é esta fragilidade que é visível, principalmente aos outros, pode ser apenas aparente, o grito de esperança que desembrulhamos em Unpack My Mind, mostra-nos que muitas vezes depende da nossa força interior o encontro, ou não, de uma nova felicidade, que tantas vezes, por conformismo ou pessimismo, julgamos inatingível.

Mesmo que o ideário global do autor, ao idealizar Eyeglasses For the Masses, não tenha tido esta premissa de busca e reencontro do lado mais positivo e colorido da existência e da felicidade, não há como resistir a esse forte apelo, algumas vezes bastante emotivo, em onze canções onde se cruzam pessoas e factos reais, que nos ensinam que há escolhas que dependem exclusivamente de nós e que nunca devemos condicionar o nosso acesso ao amor devido à nossa religião, estatuto social ou género. One Of These Days, tudo ficará novamente no sítio certo, nem que isso signifique a nossa vida precise de ser completamente virada do avesso. Espero que aprecies a sugestão...

At The In Between

To The Universe

A Kind Of Bliss

Now & Then

Eyeglasses For The Masses

Endless Expectations

Unpack My Mind

Ice II

One Of These Days

Good Dreaming

Call All Monkeys (bonus track)


autor stipe07 às 21:22
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