Quarta-feira, 26 de Agosto de 2015

Vows – Soon Enough Love

O indie rock psicadélico está na ordem do dia e não há volta a dar. Rebocado pelo sucesso de nomes como os The Flaming Lips, The Blank Tapes, Tame Impala, POND, MGMT e tantos outros, é um espetro sonoro que floresce da Austrália ao sol da Califórnia e agora também em Burlington, nos arredores de Nova Jersey, à boleia dos Vows, uma dupla formada por Jeff Pupa e James Hencken e que editou a quinze de junho, com a ajuda inestimável da Section Sign RecordsSoon Enough Love, o terceiro álbum da carreira deste projeto.

Tal como sucedeu com os dois trabalhos atecessores, Winter’s Grave em 2011 e Stranger Things em 2013, Soon Enough Love foi gravado e produzido num ambiente eminentemente caseiro, desta vez numa sala de estar em Vermont e numa cave de Nova Jersey. Sem pressões editoriais e uma data pré-estabelecida para ver a luz do dia, o disco foi sendo incubado através da troca de ficheiros entre os músicos, com os temas a florescerem e a ganharem vida própria num ambiente tipicamente lo fi, sem hesitações, de modo espontâneo e sem artifícios exteriores aos Vows.

Envolvente, quente, épico, mas também intimista e acolhedor, Soon Enough Love é um tratado de pop psicadélica, pleno de fuzz e reverb e que redefine o som dos autores para um patamar superior de lisergia. Com a participação especial de Sabeel Azam na guitarra elétrica em alguns temas, o trabalho flui de modo homogéneo e no universo próprio da banda e da sonoridade em que se insere, rebocado pela mestria vocal de Pupa e pela multiplicidade de efeitos que cria com a guitarra elétrica, assim como o groove que oferece ao baixo e pela habilidade inata de Hencken à frente dos sintetizadores e da percussão.

Temas como a estratosférica e exuberante Day To Day, canção que ressuscita alguns detalhes que elevaram em tempos os The Beach boys a um grau superior de devoção, o charme de Candy, o festim eletrónico em que se desmultiplica Futuis Eam e que encarna uma faceta mais pop em Come To Your Senses, ou o cariz sedutor de Letter From The Sun, mostram-nos uns Vows a procurar recriar uma luta constante entre guitarra e sintetizador, sendo quase indefinivel o grau de primazia de um dos dois componentes quer na componente melódica, quer na arquitetura não só destas, mas também de outras composições do disco. Na verdade, estamos na presença de uma verdadeira trip sonora tumultuosa, mas também aditiva, com as canções a tentarem, a todo o custo, sair da espécie de colete de forças lo fi em que se encontram enclausuradas, em busca de um sol que, neste caso, poderá ser nefasto, já que se as iluminar em demasiado irá retirar-lhes a crueza e o reverb que molda a personalidade de um alinhamento que tem nesta penumbra constante o seu atributo maior, um alinhamento feito de canções cheias de sons poderosos e tortuosos, sintetizadores flutuantes e vozes abafadas.

Para amadurecer não é preciso parecer demasiado complicado e criar sons e melodias intrincadas. Consegui-lo é ser agraciado pelo dom de se fazer a música que se quer e ser-se ouvido com particular devoção. Para que isso suceda a fórmula correcta é feita com uma quase pueril simplicidade, a melhor receita para demonstrar essa formatação adulta, assim como a capacidade de reinventar, reformular ou simplesmente replicar o que de melhor têm alguns projetos bem sucedidos na área sonora em que uma banda se insere. Assim, Soon Enough Love é mais um trabalho que faz uma espécie de simbiose entre a pop e o experimentalismo, temperado com variadas referências típicas do shoegaze e da psicadelia e carregadas de ácidos. No fundo, é uma espécie de caldeirão sonoro feito por mais uma dupla que sabe como recortar, picotar e colar o que de melhor vai sendo sugerido hoje no chamado electropsicadelismo. Espero que aprecies a sugestão...

Vows - Soon Enough Love

01. Futuis Eam
02. Day To Day
03. Candy
04. Sound Island
05. The Snake
06. Shrinking Violet
07, Letter From The Sun
08. Come To Your Senses
09. Kemps Ridley
10. Nothing to Prove


autor stipe07 às 21:41
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Sexta-feira, 21 de Agosto de 2015

Deerhunter – Snakeskin

Deerhunter - Snakeskin

Após um hiato de dois anos, os Deerhunter de Bradford Cox já têm sucessor para os muito aclamados Halcyon Digest e Monomania. É já em outubro que vai ver a luz do dia, à boleia da insuspeita 4AD, Fading Frontier, o sexto e próximo disco desta banda nova iorquina, um trabalho poroduzido por Ben H. Allen III (Animal Collective, Washed Out) e que será mais um agregado de canções que irão certamente contar com transições entre o harmonioso e o caótico, sempre com um pano de fundo sonoro cru e pujante.

As guitarras sujas e o som assertivamente rugoso de Snakeskin constituem o primeiro avanço divulgado de Fading Frontier, tema que transporta consigo, além da sonoridade rock setentista, um funk psicadélico particularmente alegre e bastante dançável, com as distorções e os ruídos de fundo constantes, que já são uma imagem de marca dos Deerhunter, testada desde o versátil Microcastle (2008), a conduzirem a canção por um ambiente claramente festivo. Confere...


autor stipe07 às 09:12
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Quarta-feira, 19 de Agosto de 2015

The KVB – Mirror Being

Nicholas Wood e Kat Day são o núcleo duro dos londrinos The KVB, mais uma banda a apostar na herança do krautrock e do garage rock, aliados com o pós punk britânico dos anos oitenta. Mirror Being é o mais recente registo de originais da dupla, um álbum com dez canções lançado há algumas semanas pela Invada Records e que sucede ao aclamado EP Out Of Body, editado o ano passado.

Escritos e gravados entre Londres e Berlim no ano passado, logo após as sessões de Out Of Body, os dez temas de Mirror Being são instrumentais e experimentações analógicas que foram sendo captadas pela dupla ao longo desta etapa inicial da carreira, iniciada em 2012 com Always Then, ao qual se seguiu os trabalhos Immaterial Visions e Minus One, antes do já referido EP. Já agora, a banda encontra-se a gravar em Bristol o próximo registo de originais que deverá ver a luz do dia lá para o final do ano. 

Este compêndio algo abstrato deve ser escutado e entendido como apenas uma aparente junção de vários sons dispersos que os The KVB foram criando ao longo do tempo e que fizeram-nos o favor de não deixarem que se perdessem. E ao apreciar este alinhamento percebe-se que a dupla esmera-se na construção de canções volumosas e que se deixam conduzir por um som denso, atmosférico e sujo, que encontra o seu principal sustento nas guitarras, na bateria e nos sintetizadores, instrumentos que se entrelaçam na construção de canções que espreitam perigosamente uma sonoridade muito próxima da pura psicadelia.

Com vários instantes sonoros relevantes instrumentalmente, Dys-Appearance e, principalmente, Obsession, são os momentos altos deste agregado, canções conduzidas pelos sintetizadores, mas onde não falta um baixo vibrante e que recorda-nos a importância que este instrumento tem para o punk rock mais sombrio, com a diferença que os The KVB conseguem aliar às cordas desse instrumento, cuja gravidade exala ânsia, rispidez e crueza, uma produção cuidada, arranjos subtis e uma utilização bastante assertiva da componente maquinal. Pouco depois, Fields inflete um pouco as pisadas deixadas pelos temas anteriormente referidos, já que além de conter uma guitarra carregada de fuzz e distorção, insinua os nosso ouvidos com alguns samples vocais impercetíveis mas que conferem ao tema uma toada orgânica inédita em Mirror Being, além da abundância de arranjos delicados feitos com metais minimalistas.

Enquanto muitas bandas procuram a inovação na adição de uma vasta miríade de influências e tiques sonoros, que muitas vezes os confundem e dispersam enquanto calcorreiam um caminho que ainda não sabem muito bem para onde os leva, os The KVB parecem ter balizado com notável exatidão o farol que querem para o seu percurso musical, atirando-nos para ambientes eletrónicos onde os teclados têm o maior destaque, construindo diversas camadas sonoras, quase sempre entregue a um espírito desolado e que nos remete para os sons de fundo de uma típica cidade do mundo moderno. Também por isso, Mirror Being é um excelente documento sonoro como ponte da primeira etapa da carreira da dupla e com algumas dicas que nos permitem teorizar com alguma exatidão o que aí vem já nos próximos meses. Espero que aprecies a sugestão...

The KVB - Mirror Being

01. Atlas
02. A Tenuous Grasp
03. Dys-Appearance
04. Obsession
05. As They Must
06. Fields
07. Poetics Of Space
08. Chapter
09. Mirror Being
10. Descent


autor stipe07 às 22:17
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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2015

The Jungle Giants – Speakerzoid

Oriundos de Brisbane e formados por Sam Hales, Cesira Aitken, Andrew Dooris e Keelan Bijker, os The Jungle Giants já têm finalmente nos escaparates o sucessor de Learn To Exist, o trabalho de estreia do projeto, editado há dois anos e que sucedeu a um ep homnónimo editado no ano anterior. Speakerzoid é o novo álbum deste quarteto australiano, um trabalho que viu a luz do dia a sete de agosto e que irá certamente catapultar o grupo para o merecido estrelato.

O curioso nome deste disco dá o mote para o seu início e a resposta à questão pertinente sobre o signficado do vocábulo está na música que contém, sendo os acordes iniciais de Every Kind Of Way a resposta dada pelos The Jungle Giants à questão. Com um registo vocal de Sam Hales eminentemente declamativo, um baixo encorpado e pleno de groove, algumas teclas insinuantes, uma guitarra impregnada com aquele fuzz psicadélico hoje tanto em voga e alguns efeitos futuristas, esta canção é uma ode festiva e inebriante que nos submerge num disco que vale todos os minutos gastos na sua audição.

Na sequência, o indie rock rugoso mas festivo de Devil's Play e o clima folk divertido de Kooky Eyes e de Mexico, assim como a exuberância acústica de Creepy Cool e o blues da guitarra de Lemon Myrtle acentuam ainda mais o cariz infeccioso e contemporâneo de um disco que parece um verdadeiro motim de acordes, arranjos e samples vocais, que de Beck a Tame Impala, abraça uma quantidade ilimitada de texturas onde sintetizadores e guitarras contagiantes estouram alegria e sedução, como se fossem um par de amantes em permanente troca lasciva de olhares e argumentos.

Em Speakerzoid nem faltam abordagens a um espetro mais punk e musculado, não só porque o baixo está sempre presente na conduão melodica das canções, mas também porque assume, em alguns casos, um protagonismo singular. It Gets Better, uma canção futurista, repleta de samples curiosos e de efeitos e detalhes bastante criativos, ou Not Bad, não tendo, na essência, aquela toada sombria do punk rock, sobrevivem devido ao colchão grave em que se acomodam, tricotado por um baixo dinâmico e fascinante, que baliza e se entrelaça com as variações de ritmo da bateria com uma articulação e um charme incomuns.

Gravado durante o ano de 2014 e produzido por Magoo, Speakerzoid é, pois, um inventido e luxuriante compêndio de canções que entre o indie rock, o hip hop e a pop psicadélica, nos oferece uma sonoridade geral heterógenea e uma groove viajante com uma estética mais próxima de uma certa pop negra avançada, fazendo-o com uma vibração excitante, numa revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto por alguns gigantes que se têm entregue ao flutuar sonoro da lisergia e de cuja listagem os The Jungle Giants também querem fazer parte.

Em suma, cheio de espaço, com texturas e fôlegos diferentes e onde é transversal uma sensação de experimentação caseira, Speakerzoid clarifica as novas coordenadas que se apoderaram do departamente de inspiração deste quarteto, sendo o resultado da ambição do mesmo em se rodear com uma aúrea resplandescente e inventiva e de mostrar uns The Jungle Giants cada vez mais heterogéneos e abrangentes. Espero que aprecies a sugestão...

The Jungle Giants - Speakerzoid

01. Every Kind Of Way
02. Devil’s Play
03. Kooky Eyes
04. Lemon Myrtle
05. What Do You Think
06. Mexico
07. Creepy Cool
08. Not Bad
09. It Gets Better
10. Together We Can Work Together
11. Tambourine
12. Work It Out (Bonus Track)


autor stipe07 às 21:24
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Man Of Moon - The Road

Oriundo de Edimburgo, na Escócia, o duo Man Of Moon anda a impressionar a crítica com The Road, um single editado digitalmente a dezassete de Julho e com edição física brevemente, num single de sete polegadas, à boleia da insuspeita Melodic de Andy Moss. Falo de quase quatro minutos vibrantes e hipnóticos, que assentam num indie rock rugoso mas épico, intenso e visceral, melodicamente bastante sedutor, um psicotrópico mental verdadeiramente eficaz e aditivo.

Uma guitarra cheia de fuzz, diversos efeitos metálicos, um baixo vigoroso e que sustenta exemplarmente uma arquitetura sonora deslumbrante e lisérgica são os ingredientes deste The Road, um dos melhores temas deste época mais quente do ano e cujo suor merece dedicada audição. Confere...

 


autor stipe07 às 12:32
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Terça-feira, 11 de Agosto de 2015

Vinyl Williams - Into

Lionel Williams, neto do aclamado compositor John Williams, é um músico e artista plástico natural de Los Angeles que assina a sua música como Vinyl Williams, tendo-se estreado nos disco em 2012 com Lemniscate, um trabalho com uma pop de forte índole lo fi, mas com interessante aceitação no seio da crítica. Três anos depois, Vinyl Williams está de regresso com Into, um álbum que viu a luz do dia a vinte e quatro de julho por intermédio da Company Records, a editora de Chazwick Bundick, também conhecido como Toro Y Moi.

Depois do ideário concetual que conduziu Lemniscate a um universo essencialmente lo fi, três anos depois Vinyl Williams dá um enorme e consistente passo em frente rumo aos meandros mais distintivos e aconselhados da pop, com este Into, uma coleção de canções bastante mais acessíveis, não só no que diz respeito à amplitude das mesmas, mas, e acima de tudo, no que concerne à cor e ao charme, num artista fascinado pela antiguidade, com particular destaque para a cultura egípcia.

Servindo-se, essencialmente, de sintetizadores, mas também das cordas, o músico criou, neste seu segundo álbum, uma paleta colorida, onde não falta emoção e drama, num alinhamento com instantes mais etéreos e introspetivos e outros também extrovertidos e comunicativos, sempre com o experimentalismo e a agregação de diferentes estilos e influências a balizarem a estutura das canções. Aliás, esta noção de arquétipo acaba por ser transversal a todo o conceito artístico de Williams, conforme se percebe no próprio artwork do álbum e na visita à sua página oficial com um conteúdo que vai muito além da música. As composições de Into têm, então, na sequência desta forma de pensar e ver o mundo, uma geometria muito calculada, com os diferentes sons, efeitos e arranjos a serem sempre colocados com particular minúcia e cálculo.

Logo na guitarra de Gold Lodge e no modo como ela se cruza com os efeitos, o teclado e o reverb da voz torna-se claro todo este ideário que conduz Into, com a percussão apelativa e os flashes abrasivos de Space Age Utopia a alargarem ainda mais a sensação submersiva que o disco nos oferece rumo a um universo sonoro muito particular e que deslumbra pelo charme e pela capacidade que tem de apelar ao nosso íntimo. Mas é a pop lisérgica de World Soul que melhor demonstra o o modo como Vinyl Williams, um homem de crenças, se deixa absorver pelas relações nem sempre harmoniosas entre cultura e religião e o conflito interior que a crença, a fé e a constante atração por tudo aquilo que é metafísico tantas vezes provoca no ser humano.

O krautrock e a psicadelia acabam também por andar um pouco em redor dos conceitos sonoros de Vinyl Williams, mas sem descurar o tal cuidado na montagem dos temas, como se percebe, por exemplo, nos quase dez minutos de Xol Rumi. Esta canção é um verdadeiro tratado sonoro que expira toda aquela filosofia algo rigida e maquinal de uns Neu! ou uns Kraftwerk, mas as variações rítmicas e a orgânica das guitarras dão ao tema o agregado sentimental indispensável para que o espiritualismo do autor se manifeste, como se percebe também no emocionado instrumental The Tears Of an Inanimate Object, no space funk de Allaz ou na nuvem sintetizada de sons etéreos em que se acomoda a celestial Greatest Lives.

Criado para ser escutado sem interrupções e repetidamente, Into é um retato impressionista e barroco intenso e de forte cariz ambiental, feito com uma míriade imensa de instrumentos e elaboradas cenografias sonoras, que transcendem as noções de género e fronteira, sem nunca se perder de vista a ideia da canção, um álbum que recompensa quem se atreve a descobrir os seus recantos mais profundos e a procurar desbravar os territórios sonoros que decalca. Espero que aprecies a sugestão...

Into cover art

Gold Lodge
Space Age Utopia
Ring
World Soul

Hall Of Records
The Tears Of An Inanimate Object
Iguana City
Greatest Lives
Zero Wonder
Axiomatic Mind
Eter-Wave-Agreement
Plinth Of Uncanny Design
Allaz
Xol Rumi

 


autor stipe07 às 21:39
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Sexta-feira, 7 de Agosto de 2015

The Valkarys – (Just Like) Flying With God

Scott Dunlop, Sarah Ross, Craig Birrell, Colin Brennan e Wayne Hoy são os The Valkarys, um quinteto de indie rock oriundo de Edimburgo, na Escócia, mas com um olhar lancinante sobre o sol da Califórnia e aquele garage rock com uma forte toada psicadélica que desde a década de sessenta tem feito escola na costa oeste do outro lado do Atlântico. Editado a vinte e cinco de abril último, (Just Like) Flying With God é o ultimo disco de originais do grupo, o primeiro longa duração depois de The Average Can Blind You To The Excellent, o trabalho de estreia, lançado em 2010 e de Chloroform (2011) e Psychodelica (2013), dois EPs que se seguiram neste intervalo.

Logo na guitarra incandescente, na bateria vibrante e na harmónica esplendorosa de Meraki fica claro o receituário sonoro destes The Valkarys, inteligentes no modo como misturam influências que, dos Beatles aos The La's, nos fazem recuar com nostalgia e um enorme sorriso no rosto aos primórdios do indie rock e da pop psicadélica dos anos sessenta. Contendo a impressão firme da sonoridade típica da banda, Meraki catapulta este disco para uma bitola qualitativa elevada, mas engane-se quem acha que o restante alinhamento de (Just Like) Flying With God, se orienta apenas por aquela pop tão solarenga como o estado norte americano que tanto nos faz recordar essa canção. O clima western de Waves, por exemplo, o clima épico e contemplativo de For You, ou a guitarra algo suja e lo fi, com um pé no post punk, de We Are The World, assim como o devaneio inebriante da guitarra de (Lover) Dont' Go transportam este grupo ainda para uma estética mais abrangente, que além de reviver marcas típicas do rock vintage, explora outras paisagens sonoras, igualmente emocionais e compensadoras, mas mais consentâneas com uma contemporaneidade onde abunda o saudosismo e a apetência pelo retro.

Na verdade, o timbre das guitarras nestes The Valkarys, o arrojo da bateria no modo como se impõe ritmicamente em todo o disco e o charme dos arranjos e efeitos que adornam as dez melodias que compôem o seu alinhamento, são provas abundantes das pontes que se estabelecem entre épocas verdadeiramente intemporais e uma atualidade onde a ânsia, a rispidez e a pura e simples crueza de outrora vão sendo substituidas por um maior cuidado na produção e nos arranjos, principalmente nas cordas, tudo confortado por uma utilização assertiva da guitarra acústica, quando a mesma é chamada à linha da frente, conforme se percebe, por exemplo, em Xylophobia.

(Just Like) Flying In God é outro bom exemplo desta apetência óbvia para a exaltação de bases sonoras que nos dias de hoje mostram-se cada vez mais ambientais, mas sempre ampliadas com o potencial psicadélico das guitarras. Depois, as boas letras que estes The Valkarys nos oferecem e a tal clássica relação estreita entre o rock de garagem e a pop psicadélica, ao resultar em canções viscerais e cheias de estilo, tão enevoadas como a penumbra que rodeia o próprio grupo, mas também tão luminosas como só as bandas que sabem ser eficazes à sombra das suas próprias regras conseguem ser, faz de (Just Like) Flying With God um disco obrigatório para os amantes deste espetro sonoro particularmente atrativo. Espero que aprecies a sugestão...

The Valkarys - (Just Like) Flying With God

01. Meraki
02. Honey Hill
03. Xylophobia
04. Early Verve
05. Waves
06. We Are The World
07. For You
08. Fistfull Of Dollars (Revisited)
09. (Lover) Don’t Go
10. Starfish

 


autor stipe07 às 21:46
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2015

DIV I DED - Born to Sleep

A vinte e um de julho último chegou aos escaparates Born To Sleep, o disco de estreia dos DIV I DED, um projeto checo criado pelo multi-instrumentista Filip Helštýn em 2013, juntamente com a vocalista Viktorie Marksová e que faz já parte da insuspeita e espetacular editora, Fleeting Youth Records, uma etiqueta essencial para os amantes do rock e do punk, sedeada em Austin, no Texas.

Inspirados pela pop melancólica simples e intrigante, feita com aquele intimismo romântico que integra uma espantosa solidez de estruturas, num misto de euforia e contemplação e adornada com arranjos sintetizados e orgânicos muito subtis mas capazes de amenizar a típica crueza das guitarras, os DIV I DED também piscam o olho ao punk rock, enquanto exigem ser encarados e apreciados sem reservas e serem alvo de uma análise detalhística, à boleia de todos os nossos sentidos, para que se torne compensadora a nossa audição e justas as alusões ao conteúdo de Born To Sleep.

As guitarras pulsantes e os flashes elétricos que as suas cordas debitam, têm aqui algo de cósmico e especial enquanto Marsova canta sobre um futuro melhor que aguarda por todos nós nas estrelas, nomeadamente em Electric Age. Não sendo importante dissertar acerca da crença, ou não, dos DIV I DED numa outra existência física e material depois da nossa viagem terrena, importa sim esclarecer que esta dupla checa tem corpo, alma e substância, não sendo possível assimilar convenientemente a beleza poética e angelical dos riffs amplos de Star Rover II ou, num registo mais introspetivo e límpido, o groove do baixo de Between Us, se fizermos de Born to Sleep uma banda sonora casual de um instante rotineiro e normal da nossa existência.

Se Late Awakening, o primeiro single divulgado de Born To Sleep, era um tema que exalava um charme melódico que impressionava pela atmosfera densa e pastosa mas libertadora e esotérica que transportava, tendo sido agora desvendado o conteúdo global do álbum e tendo em conta os temas já descritos e outros que serão ainda citados à frente, percebe-se que nestes DIV I DED apelar ao nosso íntimo com monumentalidade instrumental e uma intensa sensibilidade melodica, são as faces de uma mesma moeda cunhada com sofisticação e que tem tudo para às vezes poder sensibilizar particularmente os mais incautos.

Há, portanto, outros exemplos no álbum do modo hermético e ambicioso como os DIV I DED se movimentam dentro do espetro sonoro com que se identificam; Os sons abrasivos de No Light e o modo implícito como a distorção da guitarra os molda, sem colocar em causa a grandiosidade da canção, assim como o luxuoso e luminoso andamento pop de Frozen evidenciam um notório e aprimorado sentido estético e a junção sónica e algo psicadélica de um verdadeiro caldeirão instrumental e melódico. Já Machines, um momento de experimentação minimal e com um registo vocal que deve ser objeto do maior deleite e admiração, é outro extraordinário exemplo do paraíso de glória e esplendor que estes checos procuraram recriar logo na estreia e que subjuga momentaneamente qualquer atribulação que no instante da sua audição nos apoquente.

Em Born To Sleep houve claramente uma enorme atenção aos detalhes, notando-se um relevante trabalho de produção e, dentro do lo fi e da predominãncia de efeitos em eco, a busca por uma cosmética cuidada e precisa na escolha dos melhores arranjos. Também por isso, este é um disco reflexivo e indutor de sensações intrincadas e profundas e nele os DIV I DED consagram-se como banda relevante no espetro do indie rock de cariz mais sombrio e progressivo e, mais importante que isso, dão-nos pistas preciosas sobre como permitir que o nosso íntimo sobreviva e se mantenha íntegro neste mundo tão estranho. Espero que aprecies a sugestão..


autor stipe07 às 18:05
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Terça-feira, 21 de Julho de 2015

Jaill – Brain Cream

Lançado a trinta de junho pela Burguer Records, a etiqueta que já os tinha abraçado em 2009, com There’s No Sky (Oh My My), o aclamado disco de estreia, Brain Cream é o novo lançamento discografico dos Jaill, uma banda norte americana oriunda de Milwaukee e formada por Vincent Kircher, Austin Dutmer e Andrew Harris, de regresso à casa de partida depois de dois trabalhos editados pela insuspeita Sub Pop.

Basta um olhar atento à capa de Brain Cream para se perceber que a indie pop psicadélica é a grande força motriz deste trio. Aliás, as vozes aditivas, a ligeira distorção da guitarra e os acordes coloridos, enérgicos e joviais de Got an F, o primeiro single divulgado do disco, transportam-nos até ao auge dos anos setenta e ao universo místico hoje muito em voga e que alguns projetos atuais tão bem replicam.

Quando no início da última década algumas bandas alicercadas na pop, mas com orquestrações alternativas, começaram a receber bastante atenção dos média especializados, fazer e ouvir música recheada de nuances detalhadas e sons coloridos parecia ser uma excelente proposta para a música naquele momento. A mim, um entusiasta de novas sonoridades e do experimentalismo, confesso que me seduziu! Assim que naquela altura ouvi algumas bandas que trilhavam este caminho, rapidamente senti-me atraído por esta sonoridade, à boleia de uns Architecture In Helsinki, por exemplo e, mais recentemente, rendido aos Unknown Mortal Orchestra ou aos Tame impala. e na verdade, estes Jaill parecem ser fortes candidatos a fazer parte desta cartilha, suportados numa base eminentemente pop, bastante coerente e dinâmica e estruturalmente cheia de preciosos detalhes.

Além do tema já referido e que, sucintamente, agrega  a estirpe sonora destes Jaill, nos dois pólos do disco, temas como a frenética e intuitiva Sweet Tooth Lovers, ou a solarenga Just A lovely Day são dois exemplos inebriantes e festivos de um trabalho que se espraia por treze canções que fazem o tempo passar mais lentamente, mesmo quando o pedal das guitarras descontrola-se em Look At You, ou procura ambientes melódicos mais nostálgicos e progressivos, como é o caso do fuzz de Draggin' ou na intensa e ampla Chocolate Poison Time.

Brain Cream é uma verdadeira sequência de músicas divertidas e com minuciosos detalhes. Tanto Change Reaction como Slides And Slips aproximam o trio de uma linguagem sonora com aproximação a elementos folk e as boas sequências de arranjos de guitarras, elétricos e acústicos, a tematização alegre e alguns leves toques de psicadelismo fazem com que o trabalho cresça e cada nova canção, dividem o álbum em vários momentos e evitam que os melhores se concentrem quer na abertura, quer no término do disco. Falo de um disco sem ondas, homogéneo e lineado por alto, com a banda a orientar-se de uma forma bastante dançante e espontânea, próxima de um clima festivo, relaxante e solarengo.

Brain Cream é a consolidação definitiva de um projeto que andava tremido pelo desgaste do tempo e necessitava urgentemente deste ponto alto, feito através de um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva os Jaill. É um apanhado sonoro vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as visões de uma pop caleidoscópia, cheia de sentido de liberdade e prazer juvenil . Espero que aprecies a sugestão...

Jaill - Brain Cream

01. Just A Lovely Day
02. Getaway
03. Got An F
04. Slides And Slips
05. Symptoms
06. Change Reaction
07. Picking My Bones
08. Little Messages
09. Draggin
10. Pointy Fingers
11. Chocolate Poison Time
12. Look At You

13. Sweet Tooth Lovers (bonus track)


autor stipe07 às 22:14
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Sexta-feira, 17 de Julho de 2015

Wilco - Star Wars

Os míticos Wilco divulgaram ontem, sem aviso prévio, o sucessor de The Whole Love (2011), o último registo de originais desta banda de Chicago. O novo álbum do grupo de Jeff Tweedy chama-se Star Wars, contem onze canções impregnadas com um excelente rock alternativo e está disponivel, gratuitamente, na página oficial do grupo.

O clichet curioso que encarna o título do novo álbum dos Wilco não passa despercebido, até porque está na ordem do dia a estreia do sétimo episódio da mais famosa saga da indústira cinematográfica, lá para o final do ano, com o mesmo nome. Seja como for, Jeff Tweedy deve ter-se sentido invadido pelo lado bom da força para oferecer a todos os seus fãs, de um modo completamente inesperado, um trabalho que, como seria de esperar, fala de paixão e de amor, como os melhores psicoativos sentimentais que podemos usar, mas também de estrelas e até, se quisermos, de sabres de luz, viagens intergaláticas e planetas distantes habitados pelos mais estranhos seres, já que a musica dos Wilco sempre teve a capacidade de nos fazer divagar ao som de composições bastante sugestivas e esse espírito mantém-se intacto.

Claramente ligados à corrente logo desde o instrumental EKG, os efeitos indutores de More... e o fuzz das guitarras de Random Name Nenerator, os Wilco marcam, à partida, uma posição forte no que concerne à filosofia sonora de Star Wars, oferecendo ao ouvinte quase tudo aquilo que o espera, canções dominadas por guitarras a exibirem linhas e timbres com um clima marcadamente progressivo e rugoso, alicerçado num garage rock, ruidoso e monumental. Não é inédito neste grupo de Chicago tal opção por um som mais cru e ruidoso, que em Cold Slope também mostra todos os atributos, mas é curioso e nobre quererem, nesta fase da carreira, ampliar essa faceta roqueira de uma banda que também se costuma mover confortavelmente por territórios mais acústicos. Em Star Wars, a doce balada pop Taste The Ceiling e o esplendor minimalista de Where Do I Begin são exemplos felizes do lado mais sensível e emotivo do grupo, mas o que realmente sobressai durante a audição integral do trabalho é a perceção clara que os Wilco optaram por ligar a sua faceta experimental a pleno gás, obtendo um balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso, mas sem nunca descurar aquela particularidade fortemente melódica que costuma definir as suas composições.

Os quase quatro minutos da já citada Random Name Generator, canção que se sustenta num arranjo de cordas alto e um riff de guitarra bastante elétrico, a fazer lembrar alguns dos melhores instantes de A Ghost Is Born, são a expressão máxima, em Star Wars, da boa forma do grupo e da capacidade que os Wilco ainda têm de se mostrar altivos, joviais, vibrante e contemporâneos. E mesmo quando em The Joke Explained nos fazem recuar umas quatro décadas até aos primórdios do rock clássico, em Pickled Ginger nos abanam com a sensibilidade do efeito metálico abrasivo de uma guitarra que corta fino e rebarba, ou em You Satellite nos oferecem um clima mais negro e soturno, os Wilco deslumbram pelo à vontade com que também navegam nos meandros intrincados e sinuosos do indie rock mais progressivo e psicadélico..

A leveza contínua, o entusiasmo lírico, a atmosfera amável, apesar do fuzz constante e o clima geral luminoso, enérgico e algo frenético de Star Wars, são os principais indicadores de um disco que flui bem, não só porque tem um conjunto de belíssimas canções, que nos oferecem camadas sofisticadas de arranjos criativos e bonitos, mas também porque é um álbum que mantém firme o traço de honestidade de uma banda que quer continuar a ser protagonista no universo sonoro em que se move, trazendo de volta os Wilco arrebatadores, que The Whole Love tinha, de algum modo, silenciado. Espero que aprecies a sugestão...

wilco-star-wars-cover-900x506.jpg

01. EKG
02. More…
03. Random Name Generator
04. The Joke Explained
05. You Satellite
06. Taste The Ceiling
07. Pickled Ginger
08. Where Do I Begin
09. Cold Slope
10. King Of You
11. Magnetized

 


autor stipe07 às 11:50
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