Sábado, 24 de Janeiro de 2015

Diagrams – Chromatics

Sam Genders é a mente pensante por trás dos Diagrams, uma banda londrina que se estreou nos discos no início de 2012 com Black Light. Agora, três anos depois, Sam está de regresso, novamente através da Full Time Hobby, com Chromatics, um trabalho produzido por Leo Abrahams (Wild Beasts, David Byrne, Brian Eno, Jon Hopkins, Ed Harcourt, Marianne Faithful ) e que mantém Sam num registo sonoro diferente dos Tunnga, um projeto do qual fez parte e cuja sonoridade era mais virada para a folk. Nos Diagrams, Genders mostra-se menos lo fi, embora a sua voz e as escolhas de arranjos confiram às músicas de Black Light um certo ar soturno.

Em três anos muito se alterou na vida de Sam; mudou-se de Londres para Sheffield, levando consigo uma nova esposa, fez novos amigos e vive uma dinâmica existencial diferente, estando estas temáticas bem presentes no conteúdo de Chromatics. Este é, então, um disco que, de acordo com o próprio o autor, debruça-se sobre  a dinâmica das relações e mostra que nunca devemos perder a fé em nós próprios, neste caminho que todos trilhamos chamado vida e que é feito de altos e baixos. (Relationships are a constant thread. In all their frustrating, exciting, mundane, beautiful, wonderful, sexy, scary glory. (...) And there’s lots of hope in the songs. They shouldn’t be taken too literally mind you… in my head Chromatics is life in Technicolor; with all its ups and downs).

Para a abordagem desta temática, Diagrams inspirou-se não só na sua experiência pessoal, mas também na escrita sobre o assunto, com ênfase particular para os escritores David Schnarch e Ester Perel e um livro intitulado Division Street, da autoria da poeta local Helen Mort. A rotina mais pacata de Sheffield, a permanência num novo local, fisicamente mais amplo e aberto, a natureza circundante, um estúdio em casa e a possibilidade de Sam compôr sem pressão e quando a inspiração chegasse, foram fundamentais para a génese sonora de Chromatics, uma coleção de onze canções que refletem toda esta conjuntura, bastante multifacetada e com vários exemplos de audição obrigatória.

Do indie rock angular de Desolation, à eletrónica com detalhes implícitos da folk de Serpent, a canção que melhor cruza a herança dos Tunng com a matriz Diagrams, passando pelo groove de Dirty Broken Bliss e a pop vintage de The Light And The Noise, Chromatics mistura e expôe as diferentes cores que observou pela janela do seu estúdio no jardim das traseiras, conseguindo ser simultaneamente experimental e acessível. Tão depressa deparamos com batidas eletrónicas minimalistas, usadas sempre como tónica e não regra, como escutamos sintetizadores e guitarras limpas, acompanhadas de toda uma gama de camadas de instrumentos inseridos meticulosamente, que surpreendem sem cansar, envolvidos por uma clara elegância vocal, resultando em algo excitante e ao mesmo tempo acolhedor.

Jovial e envolvente, Chromatics seduz pela forma genuína e simples como retrata eventos e relacionamentos de um quotidiano rotineiro, enquanto estabelece pontes brilhantes entre momentos de maior intensidade com outros mais intimistas, levando-nos, dessa forma, ao encontro de emoções fortes e explosivas, outrora adormecidas, para depois nos serenar. Sem dúvida, um trabalho fantástico para ser escutado num dia de sol acolhedor. Espero que aprecies a sugestão...

Diagrams - Chromatics

01. Phantom Power
02. Gentle Morning Song
03. Desolation
04. Chromatics
05. You Can Talk To Me
06. Shapes
07. Dirty Broken Bliss
08. Serpent
09. The Light And The Noise
10. Brain
11. Just A Hair’s Breadth


autor stipe07 às 19:00
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Darkness Falls - The Answer

As Darkness Falls são uma das novas coqueluches do cenário indie do reino da Dinamarca, uma banda descoberta pelo visionário produtor Anders Trentemøller e formada pela dupla feminina Josephine Philip (teclados, voz) e Ina Lindgreen (guitarra, baixo e voz). Depois de em março em outubro de 2011 se terem estreado nos discos com Alive In Us, parece que já há finalmente sucessor. O novo álbum das Darkness Falls é um homónimo, viu recentemente a luz do dia, novamente através da HFN Music  e The Answer foi o primeiro tema divulgado do trabalho, assim como o respetivo video.

The Answer é o pronúncio claro de que o novo disco das Darkness Falls funde, mais uma vez, texturas pop tipicas das guitarras dos anos sessenta com a eletrónica, uma mistura harmoniosa e dinâmica de elementos, alicercados na típica melancolia pop que define variados projetos oriundos desta zona da Europa. Confere...


autor stipe07 às 16:34
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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2015

Shirley Said - Merry Go Round (video)

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Uma das novas apostas da etiqueta Lost In The Manor é a dupla italiana Shirley Said, natural de Latina, nos arredores de Roma e formada por Giulia Scarantino e Simone Bozzato. A eletrónica experimental, que chega a raiar a fronteira do techo minimal, é a pedra de toque destes Shirley Said, uma eletrónica sensual e algo abstrata, mas bastante sofisticada e de forte cariz ambiental.

A dupla acaba de divulgar o vídeo de Merry Go Round, um filme dirigido e produzido por Gabriel Beretta e com Yin Lee a ficar a cargo da maquilhagem espetacular de Giulia. Na canção tudo se movimenta como uma massa de som em que o mínimo dá lugar ao todo, ou seja, os detalhes são, sem dúvida, parte fundamental da funcionalidade e da beleza da obra da dupla, sendo impecável o modo como exploram essa unidade e as várias nuances sonoras que aplicam, de um modo que instiga, hipnotiza e emociona. Confere...


autor stipe07 às 21:13
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Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2015

Archive – Restriction

Os Archive, um colectivo britânico formado em 1994 por Darius Keeler e Danny Griffiths, estão de regresso aos discos no início de 2015, através da PIAS Recordings, com Restriction, o sucessor de With Us Until You're Dead (2012) e Axiom (2014) e décimo álbum de estúdio de um projeto responsável por alguns dos mais marcantes discos do panorama alternativo dos últimos vinte anos, com destaque para o Londinium de 1996 e Noise de 2004.

Nestas duas décadas os Archive tornaram-se talvez no nome maior da vertente mais sombria e dramática do trip hop. Este Restriction foi produzido por Jerome Devoise, um colaborador de longa data da banda e se With Us Until You're Dead e Axiom trilhavam caminhos que iam da electrónica à soul, passando pela pop de câmara, agora os Archive colocaram as guitarras na linha da frente, ampliaram o volume das distorções e, mesmo sendo um disco que vive essencialmente da eletrónica e dos ambientes intimistas e expansivos, mas sempre acolhedores, que a mesma pode criar, foi acrescentada uma toada mais orgânica, ruidosa e visceral. É deste cruzamento espectral e meditativo que Restriction vive, com doze canções algo complexas, mas bastante assertivas.

Feel It, um dos singles do álbum e Restriction, o tema homónimo, abrem o disco e surpreendem pelo modo como as guitarras, o baixo e a bateria seguem a sua dinâmica natural, mesmo tendo a companhia sempre atenta do sintetizador, que não deixa de rivalizar com o conjunto, mas sem nunca ofuscar o protagonismo da tríade, que conduz os temas para uma faceta mais negra e obscura, tipicamente rock, esculpindo-os com cordas ligas à eletricidade, ao mesmo tempo que a banda exibe uma consciente e natural sapiência melódica.

Kid Corner, outro single já lançado do disco, segue a toada inicial, mas a replicar um certo travo industrial, que a belíssima voz de Holly Martin aprofunda, com uma carga ambiental assinalável, bem patente no modo como as guitarras e a voz se enquadram com a grave batida sintética e repleta de efeitos maquinais. End Of Our Days vem quebrar esse ímpeto inicial, uma canção que nos agarra pelos colarinhos sem dó nem piedade e que nos suga para um universo pop feito com uma sonoridade preciosa, bela, silenciosa e estranha, que se repete um pouco adiante, em Black And Blue, um registo quase à capella, onde esta mesma voz é acompanhada por um orgão e um efeito de uma guitarra que nos afoga numa hipnótica nuvem de melancolia.

Esta lindíssima viagem às pastosas aguas turvas em que mergulha a eletrónica dos Archive ganha contornos de excelência em Third Quarter Storm, um mundo de paz e tranquilidade que nos embala e acolhe de modo reconfortante, proporcionando uma sensação de bem-estar e tranquilidade que nem um potente efeito sintetizado desfaz. O tema faz-nos descolar ao encontro da soul do piano de Half Built Houses, uma canção cheia de imagens evocativas sobre o mundo moderno e encarna o momento alto do trabalho de produção feito em Restriction e o já habitual modo como os Archive conseguem dar vida a belíssimas letras entrelaçadas com deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos.

A escrita deste grupo britânico carrega uma sobriedade sentimental que acaba por servir de contraponto a uma sonoridade algo sombria, mas onde geralmente nenhum instrumento ou som está deslocado ou a mais e a conjugação entre exuberância e minimalismo prova a sensibilidade dos Archive para expressar pura e metaforicamente as virtudes e as fraquezas da condição humana.

Restriction avança, sem dó nem piedade, com as músicas quase sempre interligadas entre si e em Ride In Squares somos novamente confrontados com um excelente trip hop, de contornos algo sombrios e sinistros, mas bem vincados, feitos com camadas de efeitos sintéticos em cima de uma batida potente e certeira, numa espécie de pintura sonora carregada de imagens evocativas, impregnadas com uma melodia bastante virtuosa e cheia de cor e arrumada com arranjos meticulosos e lúcidos.

Até final, se é o típico trip hop ácido e nebuloso que conduz Crushed, que, já agora, é manietado por efeitos robóticos carregados de poeira e por teclados atiçados com efeitos metálicos e um subtil efeito de guitarra, já em Ladders Ruination é o rock progressivo feito com uma bateia e um baixo vibrantes e guitarras carregadas de distorção que domina, em oposição ao minimalismo contagiante que paira delicadamente sobre uma melodia pop simples e muito elegante, em Greater Goodbye, uma canção que depois evolui de forma magistral devido ao piano e à batida sintetizada.

Restriction é um álbum tão rico que permite várias abordagens, sendo complexo definir uma faceta sonora dominante, tal é a míriade de estilos e géneros que suscita. É um tratado de fusão entre indie rock, electrónica e outros elementos progressivos, que piscam o olho ao jazz, ao hip-hop e à soul, com pontes brilhantes entre si e com momentos de maior intensidade e outros mais intimistas, levando-nos, dessa forma, ao encontro de emoções fortes e explosivas, de modo honesto e coerente. Os Archive sempre seguiram uma linha sonora complexa e nunca recearam abarcar variados estilos e tendências musicais, mantendo sempre uma certa integridade em relação ao ambiente sonoro geral que os carateriza. Restriction tem alma e paixão, é fruto de intenso trabalho e consegue ter canções perfeitas, com vozes carregadas de intriga e profundidade. Espero que aprecies a sugestão...

Archive - Restriction

01. Feel It
02. Restriction
03. Kid Corner
04. End Of Our Days
05. Third Quarter Storm
06. Half Built Houses
07. Ride In Squares
08. Ruination
09. Crushed
10. Black And Blue
11. Greater Goodbye
12. Ladders


autor stipe07 às 22:16
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Terça-feira, 20 de Janeiro de 2015

Swings - Detergent Hymns

Oriundos de Tenleytown, nos arredores de Washington, os norte americanos Swings são um trio que aposta com firmeza no rock alternativo, nomeadamente aquele post-rock que fez furor na última década do século passado, com arranjos crus e um certo cariz lo fi, que não renega um ligeiro travo hardcore. Após terem editado alguns EPs, que podes escutar no bandcamp do projeto, o disco de estreia, Detergent Hymns, chegou aos escaparates no passado dia dezassete de janeiro, via Quiet Year Records e também está disponível na mesma plataforma, como a possibilidade de o obteres gratuitamente ou doares um valor pelo mesmo.

Eminentemente cru e lo fi e gravado durante o verão de 2014, Detergent Hymns é um disco cheio de belíssimas letras entrelaçadas com deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos.

A leveza onírica com que os Swings deixaram as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural e assumirem aquela faceta algo negra e obscura que carateriza um ambiente sonoro fortemente etéreo e melancólico, fica logo patente em Pale Trinity, o primeiro tema do alinhamento. É encantador o modo como um registo vocal fortemente sentimental grave e algo enraivecido e ferido, que derrama um retrato de verdadeiros e sinceros sentimentos, se cruza com uma componente instrumental que carrega uma intensa aúrea vincadamente orgânica, despindo os Swings de todo aquele mistério, tantas vezes artificial, que os poderia envolver, para mostrar, com ousadia, a verdadeira personalidade do agregado sentimental que carateriza os membros do grupo e que comporta sentimentos e estados de alma delicados, emocionantes e inerentemente tristes.

Escutar Detergent Hymns é provar e partilhar o estado de alma destes Swings e assim, quem sabe, dar de caras com um bom manual de auto ajuda para quem procura forças para superar os percalços de uma vida que possa estar emocionalmente menos equilibrada. O longo devaneio confessional chamado apenas V ou a tentativa de reação contrária aquela luz suplicante, que luta contra os nossos desejos, em Phlegm, são apenas dois momentos deste trabalho que nos agarram pelos colarinhos e fazem o nosso espírito facilmente levitar provocando um cocktail delicioso de boas sensações. O ambiente melódico criado em Forearms, fortemente rendilhado e introspetivo é, igualmente, um convite claro ao desejo de cerrar os punhos, ganhar coragem e vasculhar e trazer à tona o que de mais profundo e incontido vagueia pelo pacote dos nossos desejos que todos temos na nossa alma.

Heavy Manner, o momento alto de Detergent Hymns e um dos singles já retirado do trabalho e Sans Dream, são duas canções que assentam numa bateria pulsante e variada e em distorções agudas da guitarra. Essa é, amiúde, a pedra de toque do cenário melódico arquitetado onde não falta aquela pura adrenalina sonora, numa viagem que nos remete para a gloriosa época do rock independente que reinou na transição entre as duas últimas décadas do século passado

Álbum tipicamente rock e esculpido com cordas ligas à eletricidade, Detergent Hymns é um compêndio de canções cheias de uma fragilidade incrivelmente sedutora e alicerçadas numa certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica. Os Swings deixaram-se impregnar, com rara honestidade, por uma atmosfera lo-fi que parece ter a intenção de servir como veículo para uma necessidade confessional de resolução e redenção. Espero que aprecies a sugestão... 

 


autor stipe07 às 21:26
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Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2015

Pashion Pusher - Couch King EP

Natural de Edimburgo, Passion Pusher é o alter ego sonoro de James Gage, um músico já com um cardápio bastante interessante, integralmente disponível na plataforma bandcamp. Editado apenas em formato digital e cassete, no passado dia dezassete de novembro, Couch King é um EP com quatro novas canções do músico, um lançamento com o selo de qualidade da escocesa Song By Toad Records, sendo o primeiro nesta editora liderada por Matthew Young, a quem desde já agradeço o envio do exemplar do EP.

Passion Pusher tem apenas dezanove anos mas uma voz que fascina pela maturidade e pelo modo como procura replicar um registo que chegue ao nível de artistas clássicos, com Nick Cave no topo das influências audíveis e também à custa de emoções fortes embrulhadas em temas simples, adornados com arranjos um pouco rugosos e com um claro pendor lo fi.

As quatro canções de Couch King têm uma sonoridade muito similar, assentes em riffs assimétricos, ruídos pop e todo o assertivo clima de um garage rock ligeiro, algo baladeiro e boémio. Com a ajuda da guitarra elétrica James canta sobre a simplicidade e a natureza tantas vezes simples e rotineira da nossa existência e de como o amor pode ser o tempero que tanto a pode adocicar como azedar, mas que nunca deixa ninguém indiferente ou intacto quando passa pela vida de todos nós, independentemente da importância que cada um lhe atribui e das mudanças que provoca. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:45
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Domingo, 11 de Janeiro de 2015

Panda Bear – Panda Bear Meets The Grim Reaper

Quem acompanha cuidadosamente e com particular devoção a carreira a solo de Panda Bear, um músico natural de Baltimore, no Maryland e a residir atualmente em Lisboa, compreende a necessidade que ele sente de propôr em cada novo disco algo que supere os limites da edição anterior. É como se, independente da pluralidade de acertos que caracterizavam a antecessor, o novo compêndio de canções que oferece tenha que transpôr barreiras e como se tudo o que fora antes construído se encaminhasse de alguma forma para o que ainda há-de vir, já que é frequente perceber que, entre tantas mudanças bruscas e nuances, é normal perceber que para Bear o que em outras épocas fora acústico, transformou-se depois em eletrónico, o ruidoso tornou-se melodioso e o que antes era experimental estranhamente aproximou-se da pop.

Panda Bear Meets The Grim Reaper, sucessor do aclamado Tomboy e quinto álbum da carreira deste músico norte americano que reside em Lisboa há oito anos, sabe a essa necessidade de superação e de evolução a cada disco. Nos mais de cinquenta minutos que dura, encontramos uma sequência de primorosas e ainda mais atrativas experimentações, com o nível de desordem sonora a mostrar-se sempre acessível ao ouvinte e o disco a fluir dentro de limites bem definidos. As canções sucedem-se articuladas entre si e de forma homogénea, com cada uma, sem exceção, a contribuir para a criação de um bloco denso e criativo, cheio de marcas sonoras relacionadas com vozes convertidas em sons e letras que praticamente atuam de forma instrumental e onde tudo é dissolvido de forma homogénea, o que faz com que Panda Bear Meets The Grim Reaper esteja longe de revelar todos os seus segredos logo na primeira audição.

Impecavelmente produzido por Peter Kember e pelo próprio Panda Bear e editado através da Domino Recordings, Panda Bear Meets The Grim Reaper começou a ser idealizado na mente criativa do músico durante as gravações de Centipede Hz, o último registo dos Animal Collective. Declaradamente influenciado pelo movimento hip-hop que floresceu na última década do século passado com nomes como Dust Brothers, Q-Tip, A Tribe Called Quest, Pete Rock, DJ Premier, 9th Wonder, e J Dilla, a serem influências assumidas, o álbum plasma essas referências do passado tingidas com novidade, algo que confere a este disco um resultado ao mesmo tempo nostálgico e inovador, com o indie rock, a folk, esse hip-hop e a electrónica, a cruzarem-se constantemente entre si, com noção de equilíbrio e um limbo perfeito, que nos faz descobrir a sua complexidade à medida que o vamos ouvindo de forma viciante.

Assim que Panda Bear começa a preparar o terreno com Sequential Circuits e somos invadidos pelo esplendor do efeito vocal que ecoa nos nossos ouvidos, percebemos que estamos prestes a escutar algo grandioso, plasmado logo no épico festim que parece implodir a qualquer instante em Mr Noah, e no eletropunk blues, enérgico e libertário, que escorre por todos os poros desta canção. Já completamente consumidos pelo arsenal infinito de efeitos, flashes e ruídos que correram impecavelmente atrás da percussão orgânica e bem vincada que sustentou esse tema, desaceleramos e mudamos de direção, como se tivessemos transposto quase instantaneamente uma espécie de portal, para um universo de pendor mais psicadélico, embalados pelo intro Davy Jones’ Locker, que estende graciosamente a passadeira vermelha ao belíssimo instante de folk psicadélica que é Crosswords, uma das canções mais melancólicas e acessíveis da carreira deste músico. O ordenado caos, onde cada fragmento tem um tempo certo e uma localização e tonalidade exatas, seja debitado por um instrumento orgânico ou resultado de uma programação sintetizada, prossegue a sua demanda triunfal na insanidade desconstrutiva e psicadélica em que alicerçam as camadas de sons que dão vida a Butcher Baker Candlestick Maker, na incontestável beleza e coerência dos detalhes orgânicos que nos fazem levitar em Latin Boy e no poderio eloquente do ruído de fundo da monumental Come To Your Senses, um bom tema para desesperar mentes ressacadas.

Mesmo no doce romantismo da trompete e da harpa de Tropic Of Cancer e do piano de Lonely Wanderer, dois lindíssimos instantes pop, que entre o experimental e o atmosférico, seduzem e emocionam, abundam sons que tão depressa surgem como se desvanecem e deixam-nos sempre na dúvida sobre uma possível alteração repentina do rumo dos acontecimentos, exigindo ao ouvinte estar permanentemente alerta e focado no que escuta. 

Até ao final, se Principe Real impressiona pela sintetização da voz omnipresente, em contraste com a batida grave e o baixo pulsante entregue a um espírito desolado e que nos remete para os sons de fundo de uma típica cidade do mundo moderno, que poderá ser a Lisboa que também é de Bear e onde há um jardim com o nome da canção que pode ser um local aprazível para a escuta de Panda Bear Meets The Grim Reaper, já a hipnótica Selfish Gene subjuga momentaneamente qualquer atribulação que nesse instante nos apoquente, enquanto sentados num banco desse espaço verde, isolados por um par de auscultadores de última geração, abosrvemos egoisticamente todo o cruzamento espectral e meditativo de que o disco vive.

O ocaso chega mais depressa do que gostaríamos com Acid Wash, canção que sabe claramente a despedida e onde as batidas sintéticas e repletas de efeitos maquinais, nunca se sobrepôem em demasiado ao restante conteúdo sonoro, assente em elementos minimalistas que vão sendo adicionados a um efeito aquático sintético com um volume crescente.

Panda Bear Meets The Grim Reaper é um álbum extraordinário porque além de não renegar a identidade sonora distinta de Panda Bear, ainda a eleva para um novo patamar de diferentes cenários e experiências instrumentais através de canções que nos fazem querer descobrir a sua complexidade à medida que se escuta o alinhamento de forma viciante. Exatidão e previsibilidade não são palavras que constem do dicionário deste autor e este novo trabalho, naturalmente corajoso e muito complexo e encantador, ao ser desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, plasma mais uma completa reestruturação no seu som, firmada por uma poesia sempre metafórica, o que faz com que Panda Bear se mostre ao mesmo tempo próximo e distante da nossa realidade e capaz de atrair quem se predispõe a tentar entendê-lo para cenários complexos, mas repletos de sensações únicas e que só ele consegue transmitir. Espero que aprecies a sugestão...

Panda Bear - Panda Bear Meets The Grim Reaper

01. Sequential Circuits
02. Mr Noah
03. Davy Jones’ Locker
04. Crosswords
05. Butcher Baker Candlestick Maker
06. Boys Latin
07. Come To Your Senses
08. Tropic Of Cancer
09. Shadow Of The Colossus
10. Lonely Wanderer
11. Príncipe Real
12. Selfish Gene
13. Acid Wash


autor stipe07 às 18:25
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Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2015

David Thomas Broughton & Juice Vocal Ensemble - Sliding The Same Way

Polémico, às vezes hilariante, músico, comediante, filósofo e compositor David Thomas Broughton é exímio no modo como escreve e canta sobre o amor e todos os sentimentos que rodeiam esse palavrão, principalmente os menos apetecíveis, como a angústia, a depressão, o medo, o sofrimento e até o suícidio. Estes são os grandes temas de Sliding The Same Say, um trabalho gravado por Phil Snell nos estúdios LIMBO, em Otley, Leeds, com a presença do coletivo Juice Vocal Ensemble e que viu a luz do dia no passado dia catorze de novembro, pela Song, By Toad Records.

Um dos grandes atributos deste disco que resulta de uma parceria feliz entre um inspirado artista e um grupo de vozes excelentes é o modo como foi gravado, de forma direta e crua, dispensado um aturado trabalho de produção que iria certamente tornar algumas canções mais incipientes retirando um pouco da alma que contêm por terem sido interpretadoass e gravadoas de uma vez só e com um assertivo grau de emotividade.

Conhecidos por algumas covers de temas de nomes tão relevantes como os Guns N'Roses, Kraftwerk ou Rhianna e tendo já trabalhado com nomes importantes da pop e da folk, nomeadamente Gavin Bryars, Shlomo, Mica Levi (aka Micachu dos Micachu and The Shapes), os Juice Vocal Ensemble são um trio que explora eficazmente o chamado registo à capella, fazendo-o procurando transmitir um certo misticismo e uma grande dose de espiritualidade, algo que casa na perfeição com a escrita algo inusitada de David Thomas.

Disco essencialmente acústico, vincadamente experimental e dominado por cordas com uma forte toada blues, Sliding The Same Way contém um alinhamento sinuoso e cativante, que nos convida frequentemente à introspeção e à reflexão sobre o mundo moderno e onde David não poupa na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, havendo, no disco, vários exemplos do forte cariz eclético e heterogéneo do seu cardápio. Por exemplo, em In Service, o registo vocal de fundo em espiral e melodicamente hipnótico, a corda de uma viola que com ele se entrelaça e alguns efeitos transportam-nos numa viagem rumo ao revivalismo dos anos oitenta, os coros lindíssimos de Woodwork e o dedilhar deambulante da viola na enigmática e profunda Unshaven Boozer são outros dois momentos que trazem brisas bastante aprazíveis ao ouvinte.

Com um fio condutor óbvio e assente em alguma da melhor indie pop contemporânea, Sliding The Same Way é um pacote cheio de paisagens sonoras que contam histórias que a voz deste músico britânico, natural de Leeds, sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Espero que aprecies a sugestão..


autor stipe07 às 19:20
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Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2015

Ýours Are The Only Ears - Fire In My Eyes

Yours Are The Only Ears - "Fire In My Eyes"

Yours Are The Only Ears é o projeto musical a solo da nova iorquina Susannah Cutler, um dos elementos da banda Epoch e também com um interessante trabalho já desenvolvido no campo artístico visual, tendo-se destacado ultimamente com o artwork de Wendy, o mais recente lançamento do também nova iorquino Small Wonder, tendo também contribuido com o seu desempenho vocal em alguns temas desse disco.

Fire In My Eyes é o tema mais recente divulgado por Susannah, um belíssimo instante acústico gravado com a ajuda de David Benton, dos LVL UP e com um conteúdo lírico absolutamente extraordinário (Do you want to smoke on your roof, And stare at the pavement?, I imagine my body on the ground, Am I a good person?)

Tal como o aspecto predominante do seu artwork, a música de Susannah Cutler é simples, mas plena de expressividade e vida e ela mostra-se exímia em compôr telas sonoras com uma tonalidade algo cinza, mas plenas de sentimentos e emoções. Fire In My Eyes está disponível gratuitamente no bandcamp da autora, ou com a possibilidade de doares um valor pelo tema. Confere...

 

i'm sitting inside
the room that is now mine
it comes in waves
i want to take care of you somedays

do you want to sit in my room
and listen to music?
i had something to tell you
but i forgot it

will you try not to lie?
ignore the sword between your thighs
the women that you've compromised
ignore the fire in my eyes

do you want to smoke on your roof
and stare at the pavement?
i imagine my body on the ground
am i a good person?

i recall my hands around your throat
in the darkness of our hole
the colors are all muddy now
my angry footprint on your mouth

do you want to sit on a hill
and fall down with me?
we could make more coffee
or just fall back asleep

 


autor stipe07 às 17:38
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Terça-feira, 30 de Dezembro de 2014

Astari Night - The Boy Who Tried

A mostrar TBWT_Single.jpg

Os Astari Nite são uma banda norte americana de Miami, na Flórida, formada por Mychael Ghost (voz), Illia Tulloch (bateria), Michael Setton (guitarra) e M. Sallons (baixo). Depois de no início deste ano ter revelado Stereo Waltz, o último longa duração do grupo, agora, no ocaso de 2014, divulgo The Boy Who Tried, o primeiro avanço para Eponymous, um EP que a banda irá lançar muito em breve.

Produzido por Josh Rohe, The Boy Who Tried assenta num som progressivo com tonalidades típicas do rock mais gótico e da eletrónica cheia de tiques da darkwave, sendo esta a habitual atmosfera sonora dos Astari Night. O rema está disponível gratuitamente ou com a possibilidade de doares um valor pelo mesmo. Confere...


autor stipe07 às 12:03
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