Segunda-feira, 29 de Agosto de 2016

Noiserv - Sete

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Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na bagagem um compêndio de canções que fazem parte dos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, além dos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless e Almost Visible Orchestra, havendo também a destacar o DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's There. Esta é já uma já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional, de um artista que nos trouxe uma nova forma de compôr e fazer música e que gosta de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera das suas canções e a realidade às vezes tão crua e que ele também sabe tão bem descrever.

Hoje mesmo Noiserv deu a conhecer ao mundo Sete, o meu número preferido, um doce e tocante instrumental, com um imenso travo a melancolia, perigoso e de lágrima fácil para todos aqueles que habitualmente divagam e exorcizam ao som de um lindíssimo piano. O de Sete é acompanhado por alguns metais e conduz-nos por um universo bucólico bastante impressivo e sentimentalmente rico, exemplarmente retratado num espetacular vídeo com argumento de Tiago Ribeiro, produzido por Andreia Lucas e realizado por Gustavo Sá e Sílvio Rocha, sendo as maquetes da Autoria de Pedro Alves da Gare.

Adivinha-se um regresso aos discos imperdível e claramente inspirado de um músico, intérprete e compositor único no nosso panorama musical. Confere...


autor stipe07 às 11:22
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Sexta-feira, 26 de Agosto de 2016

Poliça - United Crushers

Já com meia década de existência e com United Crushers, o terceiro álbum, como prova de elevada bitola qualitativa, os norte americanos Poliça chegam a 2016 aconchegados por doze novas canções que se debruçam sobre a realidade social e política do país de origem à boleia de uma pop sintetizada intensa, particularmente charmosa e sonoramente muito inspirada nos inesquecíveis anos oitenta.

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Desde que se escutou It's all shit, it's all shit, it's all shit, em Summer Please, o primeiro tema divulgado para promoção de United Crushers, percebeu-se que estes Poliça não são indiferentes a uma América cheia de contrastes, onde o superficial e o consumo ditam regras e as desigualdades sociais e as tensões interraciais estão na ordem do dia. Esta é uma temática que os Poliça já tinham abordado quer em Give You The Ghost, quer em Shulamith, os dois antecessores, mas ao terceiro tomo o grupo de Minneapolis emerge exaustivamente neste ideário, com temas como Wedding, que se debruça sobre a violência policial (all the cops want in… saying hands up, the bullets in), ou Melting Block, uma reflexão sobre a cada vez mais decadente vida nos subúrbios de uma grande metrópole, a serem composições que de modo profundo refletem esta espécie de psicanálise a que um país inteiro se submete ao ter aceite, voluntariamente, ou não, deitar-se no divã que enfeita o canto mais obscuro do estúdio destes Poliça.

Sonoramente, United Crushers vive, em suma, da eletrónica e dos ambientes intimistas que a mesma pode criar sempre que lhe é acrescentada uma toada mais reflexiva, com o baixo, sublime em Fish e Berlin, a ser essencial pelo constante ruído de fundo orgânico e visceral que oferece ao alinhamento, tornando-o ainda mais impulsivo e contundente. É um cruzamento espectral, sonoro e meditativo entre música e mensagem, majestoso em Lately, uma relação que sustenta os alicerces de um disco com doze canções algo complexas e bastante assertivas e que provam a elevada maturidade deste grupo e a sua natural propensão para conseguir, com mestria e excelência, manusear a eletrónica digitalmente, através de batidas digitais bombeadas por sintetizadores e adicionar-lhe as clássicas guitarra, baixo e bateria, além de uma performance vocal aberta e luminosa e que muitas vezes contrasta com a natural frieza das batidas digitais.

Sofisticados, rigorosos e positivamente frios, os Poliça chegam a 2016 interpretativamente brilhantes, quer ao nível da composição, quer da escolha dos instrumentos e dos arranjos, compondo com diferentes graus de intensidade e a exigirem de quem se interesse por este belo álbum, um tempo e uma dedicação que objetivamente merecem. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Summer Please
02. Lime Habit
03. Someway
04. Wedding
05. Melting Block
06. Top Coat
07. Lately
08. Fish
09. Berlin
10. Baby Sucks
11. Kind
12. Lose You

 


autor stipe07 às 14:18
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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

Lisa Hannigan – At Swim

A irlandesa Lisa Hannigan está de regresso aos discos com At Swim, a nova coleção de canções de uma das intérpretes e compositoras do cenário musical atual mais relevantes e que depois de ter feito parte da banda de Damien Rice abriu as hostilidades já há quase uma década com Sea Sew (2008), um álbum encantador que deixou logo a crítica especializada rendida. Três anos depois, em 2011, chegou Passenger, o segundo trabalho, que manteve a bitola qualitativa inicial e onde se destacava um dueto com Ray LaMontagne no tema O Sleep.

At Swin interrompe um hiato de cinco anos e permite-nos contemplar uma Lisa Hannigan em pleno estado de maturidade e mais incisiva e criativa do que nunca no modo como é capaz de nos enternecer com simples canções, um trabalho que também foi alavancado por Aaron Dessner, dos The National, admirador do percurso de Lisa e que desde o início das gravações se disponibilizou para oferecer toda a ajuda que a cantora precisasse, desencandeando uma troca de correspondência transatlântica, de trechos sonoros e lirícos, que sustentam muito do cardápio disponível em At Swim.

Gravado então junto ao rio Hudson, em Nova Iorque e produzido por Dessner, At Swim gira muito em redor da doce gravidade da voz única de Lisa, exímia a penetrar no nossso âmago e com um talento imenso no modo como nos consegue colocar na linha da frente de toda a trama que gira em redor das suas canções, que narram eventos que podem suceder com naturalidade a quem se entrega ao amor com convicção e procura, nesse sentimento, viver uma jornada emocional única e que faça do dia a dia um constante tesouro. É vasta a panóplia de acontecimentos que estas canções narram, com Fall a expôr as sensações de isolamento e solidão que a saída de casa causou na autora e a luminosidade acolhedora de Lo a levantar a nossa mente para um voo estratosférico com uma quase impercetível serenidade. Depois, se escutarmos atentamente a doce melancolia debitada pela guitarra de Prayer For The Dying percebemos que esta é uma daquelas canções capaz de elevar o espírito daquele nosso amigo que está a atravessar um momento amoroso menos positivo. Entretanto, se o dedilhar do banjo de Snow esclarece-nos que a redenção também faz parte dentro do conceito de perca e que a ideia de recomeço deve nortear sempre quem é desafiado pelas circunstâncias menos felizes da vida, o piano de We, The Drowned ensina-nos que se o destino nem sempre está nas nossas mãos e que aquilo que semeamos é sempre aquilo que acabamos por colher, inevitavelmente.

Um dos momentos mais significativos e curiosos de At Swim é a interpretação à capella de Anahorish, um poema maravilhoso de Seamus Heaney e que nos prende hermeticamente bem longe do turbilhão ruminante de uma qualquer existência quotidiana, criando um universo familiar e cativante que facilmente nos enclausura. A partir daí, a percussão jazzística absolutamente irrepreensível e carregada de soul de Tender e o piano minimalista de Barton expressam, sintomaticamente, um constante plasmar de paradoxos, de uma constante tensão oscilante entre a celebração e a ansiedade, a pop e a folk, o doce e o amargo e, enfim, entre o meramente quotidiano e aquilo que é naturalmente poético.

At Swim esconde no seu seio uma pancada seca e certeira numa pop paciente e charmosa, nas asas de Lisa Hannigan, uma cantautora que jurou uma fidelidade quase canónica à lentidão melódica, à boleia do charme das cordas e à capacidade que o uso assertivo dos graves, agudos e falsetes da sua voz têm de colocar em causa todos os cânones e normas que definem alguns dos pilares fundamentais da nossa interioridade. Espero que aprecies a sugestão...

Lisa Hannigan - At Swim

01. Fall
02. Prayer For The Dying
03. Snow
04. Lo
05. Undertow
06. Ora
07. We, The Drowned
08. Anahorish
09. Tender
10. Funeral Suit
11. Barton


autor stipe07 às 10:36
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Sexta-feira, 12 de Agosto de 2016

Pfarmers – Our Puram

Depois de Gunnera, uma planta gigante que abunda, por exemplo, nas margens do biblíco Rio Jordão e que se tornou personagem principal de um sonho que invadiu em tempos o descanso sagrado de Danny Seim (Menomena e Lackthereof), ter sido a grande referência conceptual do trabalho de estreia do super projeto Pfarmers, que além desse músico conta também com Bryan Devendorf (The National) e Dave Nelson (David Byrne, St. Vincent, Sufjan Stevens), agora é a comunidade Rajneeshpuram, fundada na década de oitenta pelo mistíco sacerdote e filósofo Bhagwan Shri Rajneesh (também conhecido como Rajneesh, ou Osho), a servir de inspiração para Our Puram, o segundo disco de um coletivo com um universo sonoro fortemente cinematográfico e imersivo e que conta com a chancela da insuspeita Joyful Noise Recordings.

Our Puram foi escrito enquanto Danny Seim se mudava de Portland, no Oregon, para Louisville, no Kentucky, com a ideia fixa de criar um álbum conceptual sobre o Oregon onde viveu grande parte da sua vida, tendo escolhido debruçar-se particularmente sobre a comunidade Rajneeshpuram, de que ouvia falar na infância e cuja natureza real e trágica, devido às tensas e dificéis relações com as localidades vizinhas, se foi apercebendo já na vida adulta. A ideia inicial era colocar-se no papel de um membro dessa comunidade que procura inserir-se na sociedade exterior, mas acaba por, inconscientemente, debruçar-se no seu próprio êxodo. Já agora, e completando informação anterior, esta comunidade chegou a ter cerca de sete mil membros, ocupando uma área com milhares de hectares completamente autónoma, onde não faltavam escolas, supermercados, hospitais , restaurantes e outros serviços públicos, que podes conhecer melhor aqui.

Em Our Puram, tal como tinha sucedido em Gunnera, são poucos os resquícios da sonoridade habitual dos projetos de onde os músicos que compôem este coletivo são originários. Talvez os sopros de Here With Us sejam uma daquelas marcas sonoras que tanto nos The National como nos Menomena ainda se consigam ouvir, mas a filosofia Pfarmers defende a criação de composições de cariz fortemente ambiental, com um elevado ênfase numa percurssão vincada e com forte cariz étnico, variações ritmícas constantes, a inserção de uma vasta miríade de efeitos e sons sintetizados, quase de modo anárquico e sustentados por várias camadas de sopros, também de origem sintética, lançando o grupo e este Our Puram numa espiral pop, majestosa, por exemplo, no clima jazzístico de Sheela e onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso. A voz grave de Seim é outro atributo fundamental para a criação de um som profundo, assim como o seu baixo pleno de groove.

Com momentos de elevada intensidade, algumas vezes passíveis de entroncar entre as últimas propostas dos Battles e algumas criações dos The Books, Our Puram é um álbum esculpido e complexo, onde é forte a dinâmica entre os sopros e o baixo, num encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador, tudo ampliado por um claro misticismo, que trespassa continuamente o cenário audível. The Commune será, talvez, o exemplo mais bem conseguido do modo eficaz como Seim conseguiu plasmar o controverso ideário Rajneeshpuram em formato canção, mas os trombones de Tour Guide, a  insanidade desconstrutiva em que alicerçam as camadas de sons das guitarras e do baixo que dão vida a 97741 e a incontestável beleza e coerência dos detalhes orgânicos dos sopros e dos flashes sintetizados que nos fazem levitar no single Red Vermin, justificam, sem qualquer sombra de dúvida, a atribuição de um claro nível de excelência aos diferentes fragmentos que os Pfarmers convocaram nos vários universos sonoros que os rodeiam e que da eletrónica, à folk, passando pela pop e o rock progressivo, criam uma relação simbiótica bastante sedutora, enquanto partem à descoberta de texturas sonoras que podem muito bem servir de referência para projetos futuros.

Our Puram é um ribeiro sonoro por onde confluem vários sons da mais diversa estirpe e de diferentes proveniências, mas todos cheios de vida e prestes a desaguar na Terra Prometida idealizada pelos Pfarmers. Aí são arremessadas para longe todas as tensões e desajustes de um passado de Seim, que está, pelos vistos, na sua vida pessoal, a salivar por uma banda sonora tremendamente sensorial, feita aqui com uma arrebatadora coleção de trechos sonoros cuja soma resulta numa grande melodia linda e inquietante. Para chegar a este resultado único, Seim e os seus parceiros, não recearam entregar-se de corpo e alma ao instrumentos que mais apreciam mas também ao mundo das máquinas, numa simbiose corajosa e sem entraves ou inibições, em oito canções que transportam um infinito catálogo de sons e díspares referências que parecem alinhar-se apenas na cabeça e nos inventos nada óbvios destes Pfarmers. Espero que aprecies a sugestão...

Pfarmers - Our Puram

01. 97741
02. Tour Guide
03. Red Vermin
04. You’re with Us
05. Sheela
06. The Commune
07. Osho Rising
08. Our Puram


autor stipe07 às 16:30
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Sexta-feira, 5 de Agosto de 2016

LNZNDRF - Green Roses

Coletivo fundamental do indie rock deste século, os norte americanos The National têm sabido potenciar e expressar a enorme veia criativa dos seus membros noutros projetos paralelos, que devem o sucesso obtido não só ao símbolo de qualidade intrínseco à presença de um membro dessa banda nos créditos, mas também, e principalmente por isso, por causa da superior qualidade do conteúdo sonoro que é criado. Assim, se em 2015 Matt Berninger e Bryce Dessner uniram-se a Brent Knopf dos Menomena para formar os EL VY e se Bryan Devendorf deu as mãos a Danny Seim, dos mesmos Menomena e a Dave Nelson (David Byrne, St. Vincent, Sufjan Stevens), para incubar os Pfarmers, os irmãos Scott e o mesmo Bryan Devendorf unirem-se a Ben Laz dos Beirut, para criar os LNZNDRF, um projeto que se estreou no início deste ano com um discos homónimo, à boleia da conceituada 4AD, e que parece ter já um sucessor na calha.

Enquanto o segundo registo dos originais dos LNZNDRF não chega, a banda acaba de editar dois temas em formato EP; Refiro-me a Green Roses e Salida, dois monumentos sonoros majestosos e de qualidade ímpar, instrumentais com um cariz fortemente ambiental, sustentados por várias camadas de sopros sintetizados, guitarras plenas de frenesim e efeitos que piscam o olho a uma orgânica particularmente minimal, mas profunda e crua, num universo fortemente cinematográfico e imersivo.

Nestes vinte e cinco minutos escuta-se uma espiral pop onde não falta o marcante estilo percurssivo de Devendorf, ou algum do cardápio de efeitos que Danny apresentou nos Menomena, mas onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso. O lançamento acaba por seguir um pouco a linha experimental das oito canções que faziam parte do alinhamento de LNZNDRF, mas quer os sopros de Green Roses e principalmente o krautrock do baixo de Salida dão asas a emoções mais etéreas e luminosas, exaladas desde as profundezas do refúgio bucólico e denso onde certamente estes músicos se embrenham para criar composições que impressionam pelo forte cariz sensorial. Confere...

LNZNDRF - Green Roses

01. Green Roses
02. Salida


autor stipe07 às 15:54
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Terça-feira, 2 de Agosto de 2016

Warpaint - New Song

Theresa Wayman, Emily Kokal, Jenny Lee Lindberg e Stella Mozgawa estão de regresso com Heads Up, um título feliz para batizar aquele que será o terceiro disco das Warpaint, sucessor de um homónimo, lançado em 2014.

Heads Up irá ver a luz do dia à boleia da Rough Trade Records já a vinte e três de setembro e New Song é o primeiro single divulgado do disco, canção algo inédita no percurso do quarteto por mostrar uma faceta mais polida e luminosa. A mesma conta com uma belíssima letra, entrelaçada com deliciosos acordes e uma melodia minusiosamente construída com diversas camadas de instrumentos. Acaba por ser mais um passo em frente num projeto que nunca se acomodou a uma abordagem estilística estanque, apesar de manter no seu epicentro sonoro uma intensa aúrea sexual, que despe as Warpaint de todo aquele mistério, tantas vezes artificial, que as poderia envolver, mostrando, assim, mais uma vez, com ousadia, a sua verdadeira personalidade. Confere...

Warpaint - New Song


autor stipe07 às 19:03
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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016

Future Generations – Future Generations

Eric Grossman, Mike Samsevere, Eddie Gore, Dylan e Devon Sheridan são os Future Generations, um coletivo nova iorquino sedeado no Bronx e que acaba de se estrear nos discos com um homónimo, dez canções que viram a luz do dia há poucos dias através da Frenchkiss Records.

Tudo começou na universidade de Fordham, há cerca de meia década, quando Eddie conheceu Eric e Mike. Começaram a viver juntos e daí até fazerem música foi um pequeno passo. Depois de Devon se ter juntado ao grupo, chegou o primeiro EP, a atenção da Frenchkiss, uma etiqueta nova iorquina de relevo no cenário indie e agora, finalmente, este compêndio de canções que são já um marco imprescindível e obrigatório neste ano repleto de novidades e registos sonoros qualitativamente incomuns.

Em quase quarenta minutos, Future Generations tem bem assentes as suas coordenadas, de modo a estilizar canções em cujo regaço festa e lisergia caminham lado a lado. Falo de duas asas que nos fazem levitar ao encontro de paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, um rock e uma eletrónica com um vincado sentido cósmico, bem patente logo na formosa Grace. É uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos, teclados corrosivos no modo como atentam contra o sossego em que constantemente nos refugiamos e uma voz que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

Se a audição de Future Generations nos oferece vastas paisagens sonoras, nota-se, rapidamente, num ponto em comum em praticamente todas as suas canções. Sintetizadores e cordas onde abundam guitarras experimentais trocam piropos, para depois, como é o caso de Stars, desabrocharem numa explosão sónica, feita de exuberância e cor. Mesmo no território mais negro e minimal de This Place We go, no tribalismo percussivo de Black and Bleu, ou na mais reflexia e etérea Coast, ocorre sempre um percurso triunfante e seguro, numa súmula muitas vezes quase impercetível entre epicidade e uma sensualidade pop lasciva, num resultado global borbulhante e colorido.

Bálsamo retemperador perfeito capaz de nos fazer recuperar o fôlego de um dia intenso, Future Generations faz mossa nos nossos ouvidos e agita a mente, assim deixemo-nos nós ser conduzidos por uma espiral pop onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, através de um som esculpido e complexo, originando um encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. O minimalismo contagiante da linha sintetizada em que se sustenta 60 Seconds, mais um tema que nos desarma devido ao registo vocal e ao banquete de efeitos borbulhantes que contém, numa riqueza sintética que sobressai da tela por onde escorre uma ordenada amálgama sonora, é um extraordinário exemplo do modo como esta banda é capaz de ser genuína a manipular o sintético, de modo a dar-lhe a vida e a retirar aquela faceta algo rígida que a eletrónica muitas vezes intui, colocando as agulhas intencionalmente orientadas para algo épico.

Future Generations é um corpo único e indivisível e com vida própria, servido em bandeja de ouro, uma alegoria pop aventureira que plasma intensamente e com elevada bitola qualitativa as novas e mais inspiradas tendências do indie contemporâneo, mesmo no clima retro vintage oitocentista de You've Got Me Flush. É, claramente, um daqueles discos que exige várias e ponderadas audições, porque cada um dos seus temas esconde texturas, vozes, batidas e mínimas frequências que só são percetíveis seguindo essa premissa. Espero que aprecies a sugestão...

Future Generations - Future Generations

01. Grace
02. Stars
03. Rain
04. Black And Bleu
05. This Place We Go
06. You’ve Got Me Flush
07. Find An Answer
08. Coast
09. 60 Seconds
10. Thunder In The City


autor stipe07 às 11:05
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Quinta-feira, 30 de Junho de 2016

Autolux – Pussy’s Dead

Lançado na última primavera pela Columbia Records, Pussy's Dead é o novo registo de originais dos Autolux, uma banda norte-americana de rock experimental formada em 2000 em Los Angeles pelo guitarrista e vocalista Eugene Goreshter, o baixista Greg Edwards e a baterista e vocalista Carla Azar e que vai já no terceiro disco de uma carreira que tem colocado em sentido a crítica mais atenta.

Estes Autolux são ricos no modo como utilizam uma hipnótica subtileza, assente, essencialmente, na dicotómica e simbiótica relação entre o fuzz da guitarra e vários efeitos sintetizados arrojados, com uma voz serena mas profunda a rematar este ménage que fica logo tão bem expresso no clima planante, mas incisivo de Selectallcopy. É uma musicalidade prática, concisa e ao mesmo tempo muito abrangente, num disco marcado pela proximidade entre as canções, fazendo com que o uso de letras cativantes e de uma instrumentação focada em estruturas técnicas simples, amplie os horizontes e os limites que foram sendo traçados numa carreira com mais de uma década e marcada por discos como Future Perfect (2004) ou Transit Transit (2010), já verdadeiros clássicos da pop experimental.

Em Soft Scene, com a passagem para uma batida seca, acompanhada por um flash e um rugoso e cru riff de guitarra, percebe-se uma saudável ausência de controle, insinuando-se um clima punk que pisa um terreno bastante experimental e que, algures entre os Liars e os The Flaming Lips, é banhado por uma psicadelia pop ampla e elaborada, sem descurar um lado íntimo e resguardado, que dá não só a esta canção, mas a todo um disco, um inegável charme, firme, definido e bastante apelativo.

A tal ausência de controle não é aqui sinónimo de amálgama ou ruído intencional; Em Pussy's Dead, canções como as radioheadianas Junk for Code e, com outras nuances mais translúcidas, Listen To The Order, assim como o frio e contemplativo piano de Anonymous, mostram-nos que este é um registo onde cada instrumento parece assumir uma função de controle, nunca se sobrepondo demasiado aos restantes, evitando a todo momento que o alinhamento desande, apesar das cordas e das teclas mostrarem uma constante omnipresença, como é apanágio de um som que se pretende simultaneamente acessível, atrativo e imponente, sem descurar a faceta algo obscura e misteriosa que estes Autolux apreciam radiar, juntamente com uma fragilidade e sensorialidade que na pop majestosa, esculpida e etérea que enfeita Change My Head, por exemplo, encarna um registo melódico ecoante e esvoaçante que coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

A receita que os Autolux assumiram em Pussy's Dead arrancou do seio do grupo o melhor alinhamento que apresentaram até hoje, expresso em dez canções que exaltaram o melhor de cada intérprete. Se as guitarras ganham ênfase em efeitos e distorções hipnóticas e se bases suaves sintetizadas, acompanhadas de batidas, cruzam-se com essas cordas e outros elementos típicos da pop e da própria folk, como demonstra Becker e se é também audível um piscar de olhos insinuante a um krautrock que, cruzando-se com um certo minimalismo eletrónico, prova o minucioso e matemático planeamento instrumental de um disco que contém um acabamento límpido e minimalista, então não nos resta outra alternativa senão concluir que este é um álbum feliz, porque além de ter gozado de uma clara liberdade e indulgência interpretativa, dividida entre redutos intimistas e recortes tradicionais esculpidos de forma cíclica, também contou com uma enorme sapiência para a criação de nuances variadas e harmonias magistrais, onde tudo se orientou com o propósito de criar um único bloco de som, fazendo do disco um corpo único e indivisível e com vida própria, onde couberam todas as ferramentas e fórmulas necessárias para que a criação de algo verdadeiramente imponente e que obriga a crítica a ficar mais uma vez particularmente atenta a esta nova definição sonora que deambula algures pela cidade dos anjos. Espero que aprecies a sugestão...

Autolux - Pussy's Dead

01. Selectallcopy
02. Soft Scene
03. Hamster Suite
04. Junk For Code
05. Anonymous
06. Brainwasher
07. Listen To The Order
08. Reappearing
09. Change My Head
10. Becker


autor stipe07 às 17:45
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Terça-feira, 28 de Junho de 2016

The Tallest Man On Earth – Time Of The Blue

The Tallest Man On Earth - Time Of The Blue

O sueco Kristian Matsson, que assina a sua música como The Tallest Man On Earth, acaba de divulgar Time Of The Blue, uma nova canção que é mais uma etapa evolutiva na carreira de um músico que desde a estreia, em 2008, com Shallow Grave, até a Dark Bird Is Home, o último disco de Matsson, editado o ano passado, cresceu sempre de modo sustentado e com cada vez maior aceitação e reconhecimento público.

O minimalismo acústico e eminentemente folk deste tema, em oposição com o sentimentalismo que dele transborda, remete Time Of The Blue para os primórdios da carreira do autor, havendo algo de aboslutamente profundo e perene nesta canção que catapulta The Tallest Man On Earth para um patamar superior de exuberância lírica. O próprio excelente vídeo do tema, realizado por Rolf Nylinder, amplia esta sensação. Confere...

 


autor stipe07 às 22:51
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Quinta-feira, 5 de Maio de 2016

Suuns – Hold/Still

Num momento de enorme e justificada histeria coletiva devido ao novo álbum dos Radiohead, prestes a ver a luz do dia não se sabe bem quando, vindo de onde, como e com o quê, não deve passar em claro e despercebido aquele que poderia ser, para mim, o melhor lançamento discográfico desse grupo de Oxford depois de Kid A. Refiro-me a Hold/Still, um compêndio de onze canções com a chancela da Secretly Canadian e assinado pelo excelente projeto Suuns, um quarteto oriundo de Montreal, no Canadá. Os Suuns apareceram em 2007 pela mão do vocalista e guitarrista Ben Shemie e do baixista Joe Yarmush, aos quais se juntaram, pouco depois, o baterista Liam O'Neill e o teclista Max Henry. Estrearam-se nos álbuns em 2010 com Zeroes QC, três anos depois chegou o extraordinário Images Du Futur, um trabalho que lhes elevou o estatuto grandemente, trendo merecido enormes elogios, não só no Canadá, mas também nos Estados Unidos e na Europa, sendo este Hold/Still, o terceiro disco, a confirmação de estarmos na presença de um grupo especial e distinto no panorama indie e alternativo atual.

Fall, o primeiro tema do alinhamento de Hold/Still, coloca-nos bem no centro de um noise rock que não deixa de nos fazer recordar experimentações semelhantes ao que foi testado pelos Sonic Youth do início de carreira e logo depois, em Instrument, existe uma implícita dose de punk dance que enquanto nos aproxima de uma sonoridade algo amena e introspetiva, mostra-nos a abrangência destes Suuns e o modo quase impercetível como mesclam orgânico e sintético com propósitos bem definidos.

Na verdade, o que parece ser inicialmente apenas ruído, distorção e gritos desordenados, passa a debitar algo mais brando, com uma proposta de som muito mais voltada para um resultado atmosférico, definição que se amplia com evidência em UN-NO, canção onde o dedilhar e a distorção da guitarra oferece aquele toque experimental que nos faz crer, logo ao terceiro tema, que este é um disco colossal, do melhor que já ouvi este ano! E o pendor hipnótico, intenso e efervescente de Resistance e de Translate, assim como a rugosidade intensa e algo caótica de Brainwash, reforçam tal impressão com racionalidade objetiva, sobre um conjunto de canções com uma base sonora bastante peculiar e climática, uma proposta ora banhada por um doce toque de psicadelia a preto e branco, ora consumida por um teor ambiental denso e complexo. 

Com uma estrutura inicialmente lenta no decorrer das primeiras audições, o disco aos poucos revela uma variedade de texturas e transformações que parecem filtradas pelos atmosféricos ensinamentos da banda. É uma espécie de  psicadelia suja, que além da pafernália de sons sintetizados que contém, é banhada, ora por guitarras suaves, ora por loopings de distorção, numa união com uma certa tonalidade minimalista, que costura todas as canções do álbum, evitando excessos e onde tudo é moldado de maneira controlada, com acordes minuciosos e com a voz reduzida ao essencial, com todas as canções a soarem encadeadas, como se todo o disco fosse apenas uma única e extensa canção.

Assertivos e capazes de romper limites, os Suuns oferecem-nos, em Hold/Still, entre belíssimas sonorizações instáveis e pequenas subtilezas, um portento sonoro de invulgar magnificiência, com proporções incrivelmente épicas, um disco bem capaz de proporcionar um verdadeiro orgasmo volumoso e soporífero a quem se deixar enredar nesta armadilha emocionalmente desconcertante, feita com uma química interessante e num ambiente simultaneamente denso e dançável, despido de exageros desnecessários, mas que busca claramente a celebração e o apoteótico. Espero que aprecies a sugestão...

Suuns - Hold-Still

01. Fall
02. Instrument
03. UN-NO
04. Resistance
05. Mortise And Tenon
06. Translate
07. Brainwash
08. Careful
09. Paralyzer
10. Nobody Can Save Me Now
11. Infinity


autor stipe07 às 20:56
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