Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2016

The Drink - Capital

Os britânicos The Drink de Dearbhla Minogue, Daniel Fordham e David Stewart regressaram aos discos apenas onze meses após o espetacular disco homónimo de estreia, com Capital, o título do novo trabalho desta banda Londrina, gravado numa antiga quinta de produção suína, entretanto convertida em estúdio, nos arredores de Sheffield. De recordar que esse trabalho de estreia resultou de uma compilação dos três primeiros Eps do grupo e permitiu aos The Drink andar em digressão, com passagens pelos festivais Green Man e End Of The Road, abrir concretos para Toro Y Moi e participar no mítico programa da BBC 6, apresentado por Marc Riley.

Admiradores confessos de sonoridades esplendorosas e que os façam tocar a guitarra sempre completamente ligados à corrente, os The Drink abrem este disco com a roqueira e dançante Like A River e percebe-se logo que há, simultaneamente, com a ajuda de uma bateria a recordar detalhes do garage rock, uma tentativa de estabelecer pontes entre o indie rock, com alguns detalhes mais sensíveis da pop, bem estruturados e devidamente adocicados com arranjos bem conseguidos. O groove sedutor de You Won't Come Back At All e a luminosidade algo minimal e claramente ambiental da divertida Potter's Grave, acentuada por um falsete irrepreensível, oferecem-nos duas canções doces, mas com alguma distorção e instantes bem noisy, que ajudam a reforçar uma fusão particularmente consistente e carregada de referências assertivas.

À medida que o disco avança e somos confrontados com a densidade melodiosa de The Coming Rain e a subtileza invulgar que emana das cordas do baixo de Month Of May, enquanto se cruza com o efeito da guitarra e as teclas do orgão, vamos percebendo que este Capital é um exemplo particularmente feliz do que é um alinhamento que oferece um equilíbrio interessante entre a busca de uma toada lo fi expressiva e sintética e um som que não dispensa a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão. E a cereja no topo do bolo foi estes The Drink terem tido a capacidade de encontrar este ponto açucarado envolto numa pulsão rítmica, que casa eficazmente com uma voz apaixonada, uma Dearbhla Minogue que canta letras fortemente reflexivas sobre algumas questões importantes da sociedade ocidental contemporânea.

Chegamos ao ocaso de Capital e deparamo-nos com No Memory, talvez o momento mais alto deste belíssimo trabalho. Canção que fala do passado e de como ele tantas vezes nos consome e desfoca, No Memory oscila entre uma certa subtileza experimental percussiva e uma clara busca de algo mais comercial ao nível dos efeitos, o que faz do tema uma escolha nada inocente para chamariz do álbum. Há uma forte vertente experimental nas guitarras e uma certa soul na secção rítmica e no baixo sedutor, excelentes tónicos que potenciam o modo como Dearbhla sopra na nossa mente e a envolve com uma elevada toada emotiva e delicada, que faz o nosso espírito facilmente levitar, algo que provoca um cocktail delicioso de boas sensações. Capital viu a luz do dia a treze de novembro à boleia da Melodic Records. Espero que aprecies a sugestão...

Capital cover art

1. Like A River
2. You Wont Come Back At All
3. Potter's Grave
4. Roller
5. Hair Trigger
6. I Can't Sleep
7. The Coming Rain
8. I'll Never Make You Cry
9. Month Of May
10. No Memory


autor stipe07 às 21:31
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Quinta-feira, 28 de Janeiro de 2016

Massive Attack - Ritual Spirit EP

Primeiro lançamento dos Massive Attack desde o fabuloso Heligoland (2010), Ritual Spirit é o novo compêndio de canções da dupla Robert Del Naja e Grant Marshall. São quatro temas divulgados inicialmente através de uma aplicação intitulada Fantom, mas agora também já disponiveis no circuito comercial habitual e que marcam um regresso em grande forma destes pesos pesados da eletrónica, do trip hop e da pop experimental.

Com as participações especiais de nomes tão significativos como Tricky, Roots Manuva, Azekel ou os Young Fathers, Ritual Spirit é um oásis sonoro intenso e implacavelmente sombrio, criado pelos génios superlativos da manipulação dos típicos suspiros sensuais que o baixo e as batidas da dub proporcionam. Num compêndio homogéneo, mas onde é possível destrinçar dois rumos algo distintos, se a composição homónima ou Take It There juntam, de algum modo, o passado musical da dupla de Bristol, com algumas tendências sintéticas do presente, antevendo assim, devido ao referencial que representam, bastante sobre o futuro próximo de toda a música eletrónica mais soturna e atmosférica, já em Dead Editors ou Voodoo In My Blood, os Massive Attack aproveitam as presenças de Roots Manuva e dos Young Fathers, respetivamente, para tentarem fugir um pouco de si próprios e do seu som inigualável. Continuando a ser os mesmos mestres de sempre, nestes dois casos na arte de manipular os traços caraterísticos e identitários da trip hop, conseguem assim retocar um pouco o seu adn, sem descurar a já habitual e espantosa dose de sensualidade e suavidade que é sempre possível conferir na tonalidade das canções que interpretam, trazendo assim, mesmo no seio daquela névoa que faz parte do charme da dupla, brisas bastante aprazíveis ao ouvinte.

Contemporâneo, futurista e, ao mesmo tempo, deliciosamente retro, porque os Massive Attack nunca deixam de nos oferecer gratuitamente aquela sensação quase física de conseguirmos, através deles, recuar cerca de vinte anos até às nebulosas ruas de Bristol, Ritual Spirit balança entre o insinuante e o sublime, num anacronismo intrigante que nos possibilita descobrir uma nova luz e pistas concretas para outros rumos que poderão vir a sustentar o universo musical que Del Naja e Marshall ajudaram a criar e ainda hoje renovam e defendem como ninguém. Espero que aprecies a sugestão...

Massive Attack - Ritual Spirit

01. Dead Editors (Feat. Roots Manuva)
02. Ritual Spirit (Feat. Azekel)
03. Voodoo In My Blood (Feat. Young Fathers)
04. Take It There (Feat. Tricky And 3D)


autor stipe07 às 16:12
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Terça-feira, 26 de Janeiro de 2016

John Grant – Grey Tickles, Black Pressure

Dois anos e meio depois do fabuloso Pale Green Ghosts, o canadiano John Grant regressou aos discos perto do ocaso de 2015 com Grey Tickles, Black Pressure, o terceiro registo de originais de um artista que, a solo, demonstra ser um cantor e compositor de inúmeros recursos, utilizados quase sempre para criar composições sonoras com um sabor algo agridoce e expostas num fundo cinza intencionalmente dramático e muitas vezes icónico, geralmente com uma forte componente autobiográfica, não faltando, desta vez, algumas alusões ao seu problema de saúde, conhecido do público em geral (John Grant é portador do vírus HIV).

Produzido por John Congleton, gravado em Dallas e lançado à boleia da insuspeita Bella Union, Grey Tickles, Black Pressure fala de amores não correspondidos e, acima de tudo, da dificuldade que este hoemm, que reside atualmente na Islândia e com quase meio século de vida, continua a sentir para se integrar num mundo que, apesar de mentalmente mais aberto e liberal, continua a ser um lugar estranho para quem nunca hesita em ser implacável, mesmo consigo próprio, na hora de tratar abertamente e com muita honestidade e coragem os seus problemas relacionados com o vício de drogas, distúrbios psicológicos, relacionamentos amorosos traumáticos e o preconceito sofrido por ser homossexual.

Se Grey Tickles é, então, uma alusão direta à questão da meia idade, na tradição islandesa e Black Pressure, refere-se a pesadelo, na linguagem turca, o título clarifica implacavelmente toda a temática acima referida, o cenário denso e intrincado que molda o palco onde Grant desfila a sua existência diária e que encontra paralelo em doze canções de um disco que abre e fecha com trechos bíblicos retirados da Carta de Paulo aos Coríntios, uma intensa ode de celebração do amor coletivo e fraterno e, no fundo, uma referência irónica vinda de um Grant que, como já referi, além de se sentir permanentemente desfocado da realidade concreta, não é propriamente hábil a demonstrar o seu afeto por alguém, apesar de ter um coração enorme e cheio de amor para dar.

Assim, Grey Tickles, Black Pressure está impregnado de lindíssimas baladas, conduzidas por belíssimos arranjos orquestrais e pela voz imponente de Grant. Excelentes exemplo são o tema homónimo, uma canção que fala da arte de envelhecer, ou Global Warming, o grande momento do disco, uma canção com um dramatismo incontrolável, que nos revela uma espécie de apocalipse. Mas também há que escutar atentamente No Morte Tangles, composição conduzida por batidas sintéticas algo incontroladas, que comprovam a mestria compositória do autor.

Mas este disco não é feito só de momentos particularmente sentidos e melancólicos; Os ruídos vintage de Guess How I Know, a voz apelativa e sensual de Amanda Palmer, dos Dresden Dolls, em You And Him, a misteriosa Down Hill, a climática e híbrida Magma Arrives e o minimalismo sintético de Voodoo Doll e Disappointing, tema que conta com a participação vocal de Tracey Horn, são canções que merecem audição dedicada e comprovam a mestria de quem usa a música como um elixir terapêutico para tentar amenizar as experiências trágicas que têm assolado a sua existência.

Em Grey Tickles, Black Pressure, John Grant expôe alguns dos detalhes mais delicados da sua vida, enquanto se aproxima de nós sem pedir compaixão, apenas com o intuito honesto de partilhar vivências e tentar curar as suas feridas internas. E também, quem sabe, fazer com que as suas músicas ajudem alguns de nós que se possam identificar com aquilo que ele já passou e que tem para nos dizer. Espero que aprecies a sugestão...

John Grant - Grey Tickles, Black Pressure

01. Intro
02. Grey Tickles, Black Pressure
03. Snug Slacks
04. Guess How I Know
05. You And Him (Feat. Amanda Palmer)
06. Down Here
07. Voodoo Doll
08. Global Warming
09. Magma Arrives
10. Black Blizzard
11. Disappointing (Feat. Tracey Thorn)
12. No More Tangles
13. Geraldine
14. Outro


autor stipe07 às 21:33
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Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2016

Astronauts - Civil Engineer

Astronauts é um projeto musical encabeçado pelo londrino Dan Carney e que se estreou em pleno 2014 com Hollow Ponds, a extraordinária primeira etapa da nova vida musical de um músico e compositor que fez carreira nos lendários Dark Captain, que se destacaram com o belíssimo Dead Legs & Alibis e que se dedicou a estas dez canções num período particularmente conturbado da sua vida pessoal. Hollow Ponds viu a luz do dia por intermédio da Lo Recordings e parece ter já, finalmente, sucessor.

Astronauts é um nome feliz para um projeto que, servindo-se de uma instrumentação orgânica bem real e terrena, ao ser tocada por Dan Carney, parece inspirar-se num universo exterior, sendo possível imaginar o autor a tocar devidamente equipado com um fato hermético que lhe permite transmitir a simultaneamente implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica que transmite, por exemplo, Civil Engineer, o primeiro avanço para End Codes, o próximo disco de Astronauts.

Canção que se abriga à sombra de uma folk etérea de superior calibre, Civil Engineer é uma excelente rampa de lançamento para acedermos à dimensão superior onde Astronauts nos senta, já que o efeito sibilante constante, o baixo encorpado, a percurssão hipnótica e pulsante e as cordas que se passeiam exuberantemente em redor da melodia, fazem deste tema uma daquelas preciosidades que devemos guardar com carinho num cantinho especial do nosso coração.

Adivinha-se pois mais um disco em que Dan Carney se entregará à introspeção e além de refletir sabiamente sobre o mundo moderno, irá fazê-lo materializando os melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, tornando-nos novamente cúmplices das suas angústias e incertezas, enquanto sobrepõe texturas, sopros e composições contemplativas, que criam uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades e um refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual. Confere...


autor stipe07 às 22:11
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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2016

Tiger Waves – Tippy Beach

Lançado no passado dia dezoito de janeiro e disponível para download no bandcamp da banda, com a possibilidade de doares um valor pelo mesmo, Tippy Beach é o novo compêndio de canções dos Tiger Waves, um projeto oriundo de Austin, no Texas, formado por James Marshall, cientista da NASA no Departamento de Física Teórica Cósmica, natural dessa cidade texana e Reid Comstock, estudante de filosofia oriental nascido em Chicago, ao qual se juntam, atualmente, Tyler Wharen e Joshua Kerl. Ainda sem se conhecerem pessoalmente,  os dois primeiros começaram por trocar música pela internet, depois passaram a sons, maquetas de ruídos, até resolverem juntar-se e compor juntos. Dessa parceria, na primavera de 2011 nasceram oficialmente os Tiger Waves, que se estrearam nos discos pouco depois com Only Good Bands Have Animal Names, álbum lançado em junho desse ano e que deu o pontapé de saída para um percurso discográfico já com alguns momentos relevantes e sonoramente reconfortantes.

As treze canções de Tippy Beach escutam-se com interessante deleite, já que parecem, antes de mais, resultado de um curioso empilhamento de camadas sonoras que começaram por ser pedaços isolados de música e, devido à mestria instrumental de James e Reid, foram sendo acomodadas como um puzzle onde tudo faz de repente o maior sentido quando agregado devidamente, ficando, assim, a parecer, cada vez mais, canções prontas, até atingirem um resultado final que da pop, ao surf rock, passando por alguma psicadelia, cruza a típica sonoridade de uns Beach Boys, apimentada por uma confessada obsessão por mestres do calibre de Phil Spector ou Syd Barrett, duas referências obrigatórias dos Tiger Waves.

A leveza melódica de canções como In Your Head ou o single homónimo e a vibração luminosa das cordas de Salida , o groove veraneante de Spectacle Of You e a cândura dos metais de Look Away, tema que parece ter sido composto propositadamente para um conto de fadas urbano contemporâneo, contrastam com o cariz mais sombrio da intrigante Down The Middle ou da contemplativa Third Term, mas o resultado global soa de modo bastante homogéneo, com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

Em suma, Tippy Beach sabe a uma indisfarçável urbanidade que nos oferece histórias banais que se cruzam numa esquina qualquer de uma cidade onde todos correm sem se perceber muito bem para onde, como ou porquê, apesar de haver um propósito bem definido no meio desse aparente caos, como demosntra a toada eminentemente tranquila e algo épica e sedutora deste alinhamento. Havendo belos instantes sonoros pop onde a instrumentação é colocada em camadas e a voz manipulada como uma espécie de eco, a atmosfera criada é bastante calma e contemplativa, bem à medida de um projeto que se aproxima claramente de algumas referências óbvias de finais do século passado. É um disco que comprova a rara capacidade destes Tiger Waves para manipularem instrumentalmente o sintético, sem descurar o orgânico, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, de modo a oferecer-nos texturas e atmosferas sonoras que, se deixarmos, inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...

Tiger Waves - Tippy Beach

01. Down The Middle
02. In Your Head
03. Spectacle Of You
04. Turns To Sky
05. Stay Inside
06. Salida
07. Sounds (Pt. 1)
08. In Retrograde
09. Look Away
10. Tippy Beach
11. I’m Not That Type Of Man
12. Third Term
13. Take Me Home


autor stipe07 às 21:36
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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2016

Indoor Voices - Auratic EP

Depois de no final de 2011 terem editado Nevers e um ano depois um EP intitulado S/T, os Indoor Voices de Jonathan Relph, Owen Davies, Ryan Gassi, Craig Hopgood e Kate Rogers estão de regresso com Auratic, um novo EP com cinco canções, editado no passado dia quinze de janeiro através da Häxrummet Records e disponivel no bandcamp do projeto em formato digital e com a possiblidade de aquisição de um exemplar em cassete, cuja produção foi limitada a quarenta exemplares. Em Auratic, esta banda de Toronto, no Canadá, contou com a ajuda de Chris Stringer na mistura e de Jeff Elliot na produção de cinco temas que contaram também com as participações especiais de Mihira Lakshman nos violinos e Alisha Erao (Lush Agave e Alligator Indian), Maja Thunberg (Star Horse), Kate Rogers (IV e Kate Rogers Band), Jimena Torres (The Great Wilderness) e Sandra Vu (SISU e Dum Dum Girls) nas vozes.

É algures entre o épico e o lo fi que estes Indoor Voices se sentem confortáveis a dar à luz canções iluminadas por uma fragilidade incrivelmente sedutora, à medida que deixam as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural e assumirem uma faceta algo negra e obscura, para criar um cenário musical tipicamente rock, esculpido com cordas ligas à eletricidade, mas com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

Este desígnio é logo audível na imponência de See Wish e o clima etéreo de Atomic, assim como o modo como, nesta composição de forte cariz orquestral, deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, carregam uma sobriedade sentimental esplendorosa, é outro exemplo feliz do modo como nestes Indoor Voices é possível conferir leves pitadas de shoegaze e post rock, mas nada de muito barulhento ou demasiado experimental.

Na verdade, todos os temas de Auratic têm uma toada eminentemente tranquila e algo de épico e sedutor. Há uma sonoridade muito implícita em relação à eletrónica dos anos oitenta e para mim destacam-se os belos instantes sonoros pop onde a instrumentação é colocada em camadas e a voz manipulada como uma espécie de eco, criando uma atmosfera geral calma e contemplativa, que atinge um elevado pico de magnificiência em What Can I, o meu destaque maior do trabalho.

Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado, Auratic exala o contínuo processo de transformação de uns Indoor Voices que procuram sempre mostrar, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:07
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Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2016

Villagers – Where Have You Been All My Life?

Os irlandeses Villagers são, neste momento, praticamente monopólio da mente criativa de Conor O'Brien e estão já na linha da frente do universo indie folk europeu, pelo modo criativo e carregado com o típico sotaque irlandês, como replicam o género, ainda por cima oriundos de um país com fortes raízes e tradições neste género musical. Com um trajeto musical bastante profícuo nos últimos anos, além de intenso e rico, acabaram por resolver agregar alguns dos temas mais significativos de Becoming a Jackal (2010), {Awayland} (2013) e Darling Arithmetic (2015), dando assim origem a Where Have You Been All My Life?, um álbum editado a oito de janeiro último, através da Domino Records e que nos oferece não apenas uma simples compilação de sucessos, mas uma narrativa muito pessoal e autobiográfica de um cantor e compositor extraordinário, que se debruça frequentemente sobre a temática da sexualidade e os desafios emocionais que a questão da sua homossexualidade lhe tem colocado nos anos mais recentes.

Com o apoio inestimável de Richard Woodcraft, um dos elementos fundamentais da retaguarda dos Radiohead e do engenheiro de som Ber Quinn, os Villagers assentaram arraiais nos estúdios RAK, em Londres e regravaram os doze temas do alinhamento de Where Have You Been All My Life?, adaptando os novos arranjos de modo a que fluissem como uma narrativa homogénea e linear, a exata sensação que a audição do álbum nos oferece.

Se temas como Set The Tigers Free ou Everything I Am Is Yours não defraudam a implacável herança folk que foi tipificando o som do Villagers, já o dedilhar de cordas de Darling Aritmethic e de The Souls Serene ou o baixo impulsivo de Memoir oferecem-nos um olhar mais vincado sobre o modo como Conor consegue entrelaçar letras e melodias e adicionar ainda belos arranjos, de forte teor sentimental, caraterísticas que fazem deste coletivo irlandês não só uma referência essencial e obrigatória no género, mas também um bom aconchego para alguns dos nossos instantes mais introspetivos e fisicamente intimistas.

Seja como for, o meu grande destaque deste trabalho acaba por ser, sem dúvida, até pela temática, Hot Scary Summer, uma canção onde o autor canta emotivamente sobre o fim do amor e o lado mais destrutivo desse sentimento (all the pretty young homophobes looking out for a fight); É nesta canção que Conor amplifica inteligentemente o modo como em Villagers fala de si e das suas experiências e esse ênfase, ampliado pela cândura do seu falsete, acaba por fazer com que se dispa totalmente, exalando uma vincada veia erótica.

Terminando com uma lindíssima versão de Wichita Lineman, um original de 1968 da autoria de Glen Campbell, já revisto por nomes importantes como os R.E.M., Where Have You Been All My Life? contém instantes sonoros de superior magnificiência, em que é possível sentirmos que estamos abraçados ao líder desta banda, a partilhar o mesmo espaço físico da mesma, completamente desprovidos de qualquer defesa, enquanto testemunhamos o modo como Conor se entrega a uma aritmética amorosa, onde está em causa não só o modo como gere a sua relação com o amor, mas também consigo mesmo e os seus próprios conflitos emocionais. Espero que aprecies a sugestão...

Villagers - Where Have You Been All My Life

01. Set The Tigers Free
02. Everything I Am Is Yours
03. My Lighthouse
04. Courage
05. That Day
06. The Soul Serene
07. Memoir
08. Hot Scary Summer
09. The Waves
10. Darling Arithmetic
11. So Nave
12. Wichita Lineman


autor stipe07 às 20:51
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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2016

Coloured Clocks – Particle

Editado hoje mesmo, dia oito de janeiro, e disponível para download no bandcamp da banda, Particle é o novo trabalho dos Coloured Clocks, uma banda australiana que é já presença habitual neste espaço. Com as origens a remontar ao início de 2011, os Coloured Clocks são um projeto musical liderado por James Wallace, um músico australiano natural de Melbourne. Estrearam-se nos lançamentos com o EP Where To Go, em julho de 2011, ao qual se seguiu Zoo, o disco de estreia, lançado em janeiro de 2012. No final de 2012 deram a conhecer mais um novo álbum, intitulado Nectarine e logo depois, em 2014, All Is Round, uma espécie de álbum interativo, que pedia para ser escutado na sequência que entendessemos, já que o início pode ser o fim ou o meio, ou seja, as canções circulavam livremente e isso só não era concreto porque estavam presas à realidade lógica da indispensável sequência numérica do disco.

Particle contém doze canções que se por um lado não defraudam a herança identitária do ideário sonoro que instiga Wallace a compôr, por outro, mostram um autor e um projeto no auge de uma carreira sustentada por um indie progressivo e psicadélico, com fortes reminiscências do rock da década de setenta e sem por de lado o que de melhor se propôe atualmente inspirado nesse universo musical.

Este é um trabalho que deve ser ouvido na íntegra atentamente e apreciado como um todo, apesar de saltar ao ouvido composições como a contemplativa e cósmica The Craziest Street That There Has Ever Been, ou a sedutora Waiting On You, canção que se aconchega nos nossos ouvidos e cola-se à pele com o amparo certo para que se expresse a melíflua melancolia que Wallace certamente quis que deslizasse dela, já que o mistério é, também, um elemento estruturante da filosofia sonora dos Coloured Clocks. Green Lights também merece audição dedicada, devido ao modo como um almofadado conjunto de vozes em eco e guitarras mágicas se manifestam com uma mestria instrumental vintage única, mas apostando, também, em mudanças de ritmo e sobreposições com elementos sintéticos, sendo um dos temas onde eletrónica e psicadelia se juntam de modo a descobrir novos sons, dentro de um espetro eminentemente pop.

Assim sendo, se gostas de sonoridades cósmicas e psicadélicas tens de reviver esta banda e este disco verdadeiramente épico, com uma estrutura melódica tradicional e com riffs de guitarra luminosos, bem acompanhados pela bateria e por sintetizadores flutuantes e poderosos que nos conduzem a um universo lisérgico e tortuoso, mas cheio de cor, numa espécie de simbiose entre a pop e o experimentalismo. Escrito, produzido, gravado e misturado pelo próprio James Wallace e masterizado por Steve Smart, Particle contém uma aúrea resplandescente e romântica invulgares e espelha uma feliz revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto há mais de quatro décadas por gigantes que se entregaram ao flutuar sonoro da lisergia. Espero que aprecies a sugestão...

01. The Craziest Street That There Has Ever Been
02. Fly The Bi-Plane
03. Butterflies
04. Green Lights
05. Racing Down The Road
06. Why Weren’t You There?
07. Waiting On You
08. Life Is So Defined
09. Coming Back To You
10. Pop Songs
11. 27
12. The Pattern Particle Set


autor stipe07 às 21:03
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Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2016

Craft Spells – Our Park By Night

Craft Spells - Our Park By Night

Oriundos de São Francisco, na Califórnia e formados por Justin Paul Vallesteros, Jack Doyle Smith, Javier Suarez e Andy Lum, os norte americanos Craft Spells lançaram em 2014 um espetacular disco intitulado Nausea, um trabalho que viu a luz por intermédio da Captured Tracks e que sucedeu a Idle Labor, o disco de estreia dos Craft Spells, lançado em 2011 e ao EP Gallery, editado no ano seguinte.

No último ano, este grupo norte americano regressou aos lançamentos com a divulgação em formato single de Our Park By Night, canção que chegou finalmente à nossa redação e cujo groove descontraído e solarengo confirma o modo exímio como Vallesteros, o líder e principal compositor dos Craft Spells, sabe como nos presentear com uma chillwave pop simples e cativante, onde não falta uma letra profunda e consistente. Esta é, também instrumentalmente, uma canção com contornos verdadeiramente únicos, onde além do genial efeito da guitarra, também dita leis um baixo que nos conquista automaticamente e de modo envolvente e sedutor. Confere...


autor stipe07 às 13:37
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Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2016

Beliefs – Leaper

Toronto, no Canadá, é o poiso dos Beliefs de Jesse Crowe e Josh Korody, dupla que lançou no passado mês de novembro um compêndio de indie rock absolutamente obrigatório intitulado Leaper, tendo-o feito à boleia da insuspeita Hand Drawn Dracula. É um disco imponente, visionário e empolgante, que assenta no típico indie rock atmosférico, que vai-se desenvolvendo e nos envolvendo, com vários elementos típicos do shoegaze, da dream pop e do post punk lo fi, a conferirem a estes Beliefs uma dinâmica e um brilho psicadélico incomum.

Tidal Wave, o contundente tema que abre este disco, é um exemplo corrosivo, hipnótico e contundente da cartilha sonora que os Beliefs guardam na sua bagagem, com o eco da guitarra a assumir, desde logo, um amplo plano de destaque no processo de condução melódica, eficazmente acompanhada por um baixo vigoroso e uma bateria entusiasmante e luminosa. As mudanças de ritmo com que a mesma abastece 1992 e o modo como acompanham o efeito abrasivo da guitarra, ampliam a perceção fortemente experimental e algo soturna, mas intensa e sedutora, de uma canção que ilustra o quanto certeiros e incisivos os Beliefs conseguiram ser na replicação do ambiente sonoro que escolheram.

À medida que Leaper avança, em composições tão díspares como a etérea Drown ou a caótica e impulsiva Morning Light, torna-se claro que o som destes Beliefs, sendo mais ou menos luminoso, conforme as sensações que cada tema pretende extravasar, é sempre encorpado, decidido e seguro e surpreende o modo como a dupla transforma uma hipotética rispidez visceral em algo de extremamente sedutor e apelativo, com uma naturalidade e espontaneidade curiosas. Depois, escuta-se o rock incisivo de Ghosts e percebe-se não só o modo como o efeito da voz de Jess é um trunfo declarado dos Beliefs, até porque transmite uma sensação de emotividade muito particular e genuína, mas também fica plasmado como determinados arranjos, como aquele que, neste caso, é proporcionado pelo baixo, plasmam com precisão as virtudes técnicas da dupla e o modo como conseguem abarcar vários géneros e estilos do universo sonoro indie e alternativo e comprimi-los em algo genuíno e com uma identidade muito própria. Na verdade, é impossível, ao longo de todo o alinhamento, ficar indiferente à emotividade que transborda do efeito das guitarras, mas também nos atinge no âmago e de modo contundente o modo como os temas progrides, orientados pela secção percussiva, apoiada numa bateria e num baixo que expandem criatividade e arrojo quase sem limites. Parece, frequentemente, que a dupla foi dominada por uma aúrea psicotrópica lisérgica que lhe tolheu os sentidos, para deixar os instrumentos se expressarem livremente, como é o caso do tema homónimo, numa verdadeira espiral de fuzz rock, rugoso, visceral e psicadélico, cheio de efeitos e flashes, uma ordenada onda expressiva relacionada com o espaço sideral, que oscila entre o rock sinfónico e guitarras experimentais, com travos de krautrock.

Há nestes Beliefs uma aúrea de grandiosidade indisfarçável e um notável nível de excelência no modo como conseguem ser nostálgicos reavivando no ouvinte outros projetos que foram preponderantes nas últimas décadas do século passado e na forma como mutam a sua música e adaptam-na a um público ávido de novidades refrescantes, mas que faça recordar os primórdios das primeiras audições musicais que alimentaram o nosso gosto pela música alternativa. Este projeto caminha sobre um trilho aventureiro calcetado com um experimentalismo ousado, que parece não conhecer tabús ou fronteiras e que nos guia propositadamente para um mundo onde reina uma certa megalomania e uma saudável monstruosidade agressiva, aliada a um curioso sentido de estética. Esta cuidada sujidade ruidosa que os Beliefs produzem, concebida com justificado propósito e usando a distorção das guitarras como veículo para a catarse, é feita com uma química interessante e num ambiente simultaneamente denso e dançável, despida de exageros desnecessários, mas que busca claramente a celebração e o apoteótico. Espero que aprecies a sugestão...

Beliefs - Leaper

01. Tidal Wave
02. 1992
03. Colour Of Your Name
04. Drown
05. Leaper
06. Ghosts
07. Morning Light
08. Go Ahead And Sleep
09. Leave With You
10. Swooner


autor stipe07 às 21:05
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