Quinta-feira, 20 de Novembro de 2014

Archive - Black And Blue

Os Archive de Darius Keelers e Dan Griffiths e aos quais se juntam neste momento Pollard Berrier, Rosko John, Dave Pen, Maria Q, Smiley, Steve Harris, Steve Davis, Jonathan Noyce, Holly Martin e Mickey Hurcombe, são um dos nomes essenciais do trip-hop que começou a fazer escola na década de noventa no Reino unido e já andam por cá desde 1996. Entre Londres e Paris, foram responsáveis por alguns dos mais marcantes discos do panorama alternativo dos últimos vinte anos, com destaque para Londinium  (1996), Take My Head (1999) e Noise (2004), entre tantos outros. Um dos últimos registos de originais do projeto tinha sido With Us Until You're Dead, um trabalho editado em 2012 e do qual dei conta na altura, mas ainda há poucos meses, mais concretamente a vinte e seis de maio, lançaram um outro trabalho in intitulado Axiom.

Agora, cerca de meio ano depois, já há sucessor anunciado; Disponibilizado gratuitamente no soundcloud oficial do coletivo, Black and Blue é um dos três primeiros avanços já divulgados para Restriction, o décimo álbum da carreira dos Archive, que irá ver a luz do dia a doze de janeiro de 2015, através da PIAS Recordings. A canção, uma das doze do alinhamento de Restriction, é um registo quase à capella, com a voz a ser acompanhada por um orgão e um efeito de uma guitarra que nos afoga numa hipnótica nuvem de melancolia.

Além do vídeo de Black and Blue, é possivel tambem visualizar na página oficial da banda os filmes de Kid Corner e Feel It, os dois outros avanços de Restriction já divulgados. Confere...


autor stipe07 às 13:26
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Sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

Damien Rice – My Favourite Faded Fantasy

Já chegou finalmente aos escaparates My Favourite Faded Fantasy, o novo disco do irlandês Damien Rice, um músico e compositor exemplar, natural de Dublin. My Favourite Faded Fantasy é o primeiro disco de Damien em oito anos, contém oito canções no alinhamento e viu a luz do dia no início de novembro por intermédio da Warner.

Produzido por Rick Rubin, My Favourite Faded Fantasy é o terceiro tomo da carreira discográfica de um autor que se estreou em 2002 com O e parece querer seguir o rumo que continuou a traçar aí e, depois, em 9 (2006), um caminho feito de ambientes claramente confesionais e tão nostálgicos e comtemplativos como a Islândia onde o músico se refugiou nos últimos anos, longe do mediatismo e dos palcos.

O disco abre com o single homónimo, uma canção de mais de seis minutos de duração, com um início bastante calmo e contemplativo, para depois evoluir para uma sonoridade vibrante, uma uma das marcas inconfundíveis do músico. Logo nessa abertura de portas e na sombria It Takes A Lot To Know A Man, fica claro que o arsenal instrumental gira em redor do piano, do violino e da guitarra acústica, exalando, no entanto, uma apreciável veia experimentalista, com arranjos que fazem balançar os temas entre o indie luminoso e épico (I Don't Want to Change You) e aquela toada mais sensível e sombria, que as cordas e a voz única e inconfundível de Damien tão bem replicam, como, por exemplo, em Colour Me In. Esta voz carrega em todo o disco um lamento de fundo, uma espécie de nó na garganta fielmente ampliado e reproduzido e que comove, ainda por cima quando se dedica a dar vida a canções de amor e arrependimento cercadas de fragilidade nos ricos arranjos instrumentais e onde a raiva, o remorso, a tristeza e a descoberta de buscas incessantes aos recantos mais profundos da alma são a sua grande força motriz.

I Don't Want to Change You e The Greatest Bastard são outros singles já retirados de um trabalho que tresanda a uma tremenda honestidade que este músico irlandês parece querer muito preservar, como se a música fosse o seu veículo privilegiado para expôr tudo aquilo que emocionalmente lhe toca fundo e de algum modo preenche ou, de um ponto de vista menos otimista, o perturba. Em The Greatest Bastard, Damien parece sentir uma necessidade profunda de se entregar ao julgamento cruel de quem o censura e lhe virou as costas devido a erros do passado, fazendo-o com uma humildade tal que torna-se impossível não o perdoar de qualquer momento menos bom que tenha protagonizado e não hesitar a dar uma nova oportunidade a um homem que se apresenta perante as suas heranças completamente desarmado e disponível a aceitar qualquer suplício para ter da vida um novo rumo que lhe permita decobrir uma nova luz.

Para nós que gostamos de dar uma utilidade, nem quee seja fútil, a um compêndio sonoro que de algum modo nos toca e emociona, My Favourite Faded Fantasy tem instantes que tanto podem servir de banda sonora para a leitura de uma carta de amor verdadeiramente sentida que recebemos de alguém que desejamos ardentemente, como outros que poderão servir para potenciar a nossa dor caso a missiva, com o mesmo remetente, tenha um conteúdo completamente oposto, de anúncio de completa rejeição.

Cheio de pequenas historias românticas, algumas de proporções épicas, como comprovam os mais de nove minutos de It Takes A Lot To Know A Man, My Favourite Faded Fantasy é um regresso feliz às luzes da ribalta de um homem que vive no apogeu da maturidade que os seus quarenta anos lhe conferem e  que tem o enorme atributo de criar belas músicas para ouvir enquanto se pensa na vida. Este é um disco sobre o amor e uma boa arma para fazer qualquer um entender que, definitivamente, uma história de amor não é feita só de momentos felizes, já que o alinhamento tanto está recheado de sensações positivas, plasmadas em canções expansivas e, ao mesmo tempo, imbuídas por um forte caráter intimista, como de canções como The Box, que parecem não querer nada mais a não ser obedecer ao nosso desejo de fuga de uma realidade que às vezes aprisiona e sufoca. Espero que aprecies a sugestão...

Damien Rice - My Favourite Faded Fantasy

01. My Favourite Faded Fantasy
02. It Takes A Lot To Know A Man
03. The Greatest Bastard
04. I Don’t Want To Change You
05. Colour Me In
06. The Box
07. Trusty And True
08. Long Long Way


autor stipe07 às 21:59
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Quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

Pompeii – Loom

Os norte americanos Pompeii são Dean Stafford, Colin Butler, Rob Davidson e Erik Johnson, um grupo de Austin, no Texas, com já dez anos de carreira e uma reputação importante no cenário indie local. Lançado no passado dia através da Red Eye Transit, Loom é o novo compêndio sonoro dos Pompeii, um trabalho misturado por Erik Wofford (Explosions In The Sky, Okkervil River, My Morning Jacket) em Austin, masterizado por Jeff Lipton (Arcade Fire, Bon Iver, The Magnetic Fields) e que contou com a participação espeical do coletivo Tosca String Quartet em alguns instrumentais do disco.

Com uma escrita maravilhosa e impregnado com soberbos arranjos orquestrais, Loom são pouco mais de quarenta minutos de puro deleite sonoro. Da pop mística e graciosa com um forte cariz sentimental (Celtic Mist), ao indie rock que fez escola em finais do século passado (Frozen Planet), ao mais progresssivo (Blueprint), passando pela típica intimidade da folk americana (Frozen Reprise), escutam-se dez canções envolventes, festivas e grandiosas e que nos permitem aceder a uma outra dimensão musical com uma assumida pompa sinfónica e inconfundível, sem nunca descurar as mais básicas tentações pop e onde tudo soa utopicamente perfeito.

Loom denota esmero e paciência por parte dos Pompeii, principalmente na forma como acertam nos mínimos detalhes. Das guitarras que escorrem ao longo de todo o trabalho, passando pelos arranjos de cordas, uma percurssão eminentemene orgânica e envolvida por ricos teclados e arranjos majestosos, até à poderosa voz de Dean, simultaneamente dolorosa e magistral, rica e envolvente, belíssima em Sleeper e quase sempre assente numa generosidade criativa, tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração do que escutamos tivesse um motivo para se posicionar dessa forma.

O som dos Pompeii é espacial, experimental, psicadélico, barulhento e melódico e há alguns momentos neste disco que comprovam todas estas facetas por si só o que acrescenta à bagagem sonora dos Pompeii novas e belíssimas texturas, que não se desviam do cariz marcadamente experimental que faz parte do ADN do grupo. É fabuloso o modo como Sleeper cresce e se desenvolve, com uma percurssão que à medida que surge da penumbra, vinda de diferente fontes, vai chamando para junto de si um verdadeiro arsenal instrumental orgânico e sintético que explode num final sónico e verdadeiramente emocionante e grandioso. A bateria e o efeito da guitarra em Rescue também permitem esta absorção de diferentes sensações e o contato direto com uma multiplicidade de planos sonoros ganha neste tema uma dimensão superior. E outro instante que merece amplo destaque e audições repetidas devido à forma como plasma o cariz épico, melancólico e grandioso e o alargado leque sonoro destes Pompeii é a batida ácida e cadente de Ekspedition e as cordas em formato acústico de uma viola e um violino que se entrelaçam entre si e com uma linha de guitarra eletrificada, num tema cantado com uma voz em coro, diversos detalhes que conferem à canção um enigmático e sedutor cariz vintage

Não é preciso chegar ao final do disco para perceber que Loom gira em redor de um sentimento muito específico, mas a voz emocionalmente forte de Dean em Drift, acompanhada por uma guitarra algo dolorosa, é o melhor exemplo que comprova que este é, acima de tudo, um disco de e sobre o amor, onde o orgânico dedilhar das cordas e das teclas foi a pedra de toque para expor sentimentos com genuína entrega e sensibilidade extrema. Esta canção encerra da melhor forma um disco que transporta uma beleza e uma complexidade que merecem ser apreciadas com particular devoção e faze-nos sentir vontade de carregar novamente no play e voltar ao inicio. Espero que aprecies a sugestão...

Pompeii - Loom

01. Loom
02. Celtic Mist
03. So Close
04. Frozen Planet
05. Frozen Reprise
06. Blueprint
07. Rescue
08. Ekspedition
09. Sleeper
10. Drift


autor stipe07 às 22:09
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Terça-feira, 11 de Novembro de 2014

Foxygen - ...And Star Power

Sam France e Jonathan Rado são a dupla por trás dos Foxygen, um projeto californiano, natural de Weslake Village, nos arredores de Los Angeles, apaixonado pela sonoridade pop e psicadélica dos anos cinquenta a sessenta e setenta, dois períodos localizados no tempo e que semearam grandes ideias e nos deram canções inesquecíveis, lançaram carreiras e ainda hoje são matéria prima de reflexão. Na estreia, com Take the Kids Off Broadway, (disco criado em 2011, mas apenas editado no ano seguinte) os Foxygen procuraram a simbiose de sonoridades que devem muito a nomes tão fundamentais como David Bowie, The Kinks, Velvet Underground, The Beatles e Rolling Stones. Dois anos depois, com uma melhor produção e maior coesão, o sucessor, We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic, disco produzido por Richard Swift, trazia o mesmo horizonte vasto de referências e as inspirações da estreia, mas trabalhadas de forma ainda mais abrangente e eficaz. Agora, ao terceiro trabalho e na Jagjaguwar que desde sempre os abriga, os Foxygen alargam ainda mais os horizontes, libertam-se de qualquer amarra que ainda os poderia limitar e deixam a criatividade evidenciar-se nas mais diversas formas.

No meio de ruídos e alguns diálogos desconexos, mas com vários momentos onde conseguem sintonizar-se no ambiente certo, os Foxygen apresentam um projeto megalómano, uma hora e vinte de música que atesta o amadurecimento natural da dupla, que aprendeu subtilmente a mudar o seu som sem ferir as naturais susceptibilidades dos gostos musicais que cada um dos dois guarda dentro de si e que foram, desde sempre, o grande fator motivacional dos Foxygen, já que não são gostos propriamente convergentes.

...And Star Power é um verdadeiro tratado sonoro carregado de emoção, cor e alegria, uma verdadeira viagem no tempo, mas também um disco intemporal na forma como plasma com elevada dose de criatividade o que de melhor recria atualmente o vintage, ao mesmo tempo que aponta caminhos para o futuro não só da dupla, como de todo um género musical que não se deve esgotar apenas na recriação de algumas das referências fundamentais do passado, mas também subsistir numa demanda constante por algo genuíno e que depois sirva de modelo e de referencial sonoro. O modo como os Foxygen recriam a música de outrora, faz já deles um modelo a seguir para outros projetos que queiram trilhar este caminho sinuoso e claramente aditivo, principalmente pelo modo como, não só no disco, mas mesmo em cada música, conseguem ser transversais e estabelecer pontes entre o passado e o futuro.

Em ...And Star PowerCosmic Vibrations é a canção que melhor mostra as diversas mudanças que o grupo consegue criar dentro da mesma composição. A introdução de quase um minuto tem um tom sexy, acompanhado de um órgão e uma percussão muito subtil. Quando o baixo pulsante entra, a canção começa a tomar um rumo mais rock e sensual, atingindo o auge numa aceleração que é novamente interrompida pela toada anterior, uma espécie de coito interrompido mas que não impede o regresso aos preliminares.

Outros destaques deste disco são, certamente, a balada I Don't Have Anything/The Gate, que tem o melhor refrão de ...And Star Power e You & I, outro instante melancólico que obedece à sonoridade glam dos anos setenta, abastecida pelo período aúreo de Bowie. A quadra Star Power tem um experimentalismo instrumental que se aproxima do blues marcado pelo piano e pelas guitarras, além dos metais e de alguns ruídos que assentam muito bem na sequência de canções, que vão acelerando e aumentando o nível de ruído e de distorção à medida que a sequência avança. A secção de sopros e as vozes, ao terceiro tomo (What Are We Good For), acabam por fazer deste tema um dos grandes destaques do disco, com a toada groove e funky que passeia de mãos dadas com o momento mais rock do álbum, feito de imensas guitarras e de vários instantes sonoros diferentes sobrepostos. Esta sequência, que termina com Ooh Ooh, soa à banda sonora ideal para uma noite bem regada, com alguma agitação e boa música, onde os acontecimentos parecem sair um pouco fora de controle, mas na madruga, tudo acaba bem.

Outro momento que retive foi a sequência feita com percurssão e as teclas em Mattress Warehouse e o lado mais lisérgico e desconexo dos Foxygen plasmado em 666 e Wally's Farm e na sedutora Cannibal Holocaust, uma música que embarca num clima enganadoramente doce e, por isso, potencialmente lisérgico. Até ao final, parece haver um aumento no volume de acidez que abastece a dupla e, quer em Hot Summer, quer em Cold Winter/Freedom aumenta a frequência de vozes perturbadoras e sons desconexos, com a última a ser uma viagem hipnótica de seis minutos obscura, áspera e aterradora, um clima que apenas diminui lentamente em Can’t Contextualize My Mind e Brooklyn Police Station. O alinhamento encerra com Everyone Needs Love e Hang, dois temas que nos ajudam a aterrar em segurança, de forma amena, doce e otimista, mas sempre de mãos dadas, como não podia deixar de ser, com o soft rock e a psicadelia.

Deliciosamente arrojado e mal acabado, ...And Star Power é um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento de vinte e quatro canções nascesse um mapa genético que define o universo que motiva os Foxygen, uma banda com uma identidade muito própria e um sentido melódico irrepreensível. Numa dupla que primeiro se estranha, mas depois se entranha, é um impressionante passo em frente quando comparado com os registos anteriores, num disco vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências do passado. Espero que aprecies a sugestão...

I: The Hits & Star Power Suite
Star Power Airlines
How Can You Really
Coulda Been My Love
Cosmic Vibrations
You & I
Star Power I: Overture
Star Power II: Star Power Nite
Star Power III: What Are We Good For
Star Power IV: Ooh Ooh
II: The Paranoid Side
I Don’t Have Anything / The Gate
Mattress Warehouse
666
Flowers
Wally’s Farm
Cannibal Holocaust
Hot Summer
III: Scream: A Journey Through Hell
Cold Winter / Freedom
Can’t Contextualize My Mindi
Brooklyn Police Station
The Game
Freedom II
Talk
IV: Hang On To Love
Everyone Needs Love
Hang


autor stipe07 às 20:21
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Terça-feira, 4 de Novembro de 2014

North Atlantic Oscillation – The Third Day

Os North Atlantic Oscillation são uma banda natural de Edimburgo, na Escócia e que se move entre o post rock, o rock progressivo e a eletrónica. Um dos segredos mais bem guardados da Kscope, estrearam-se nos discos em 2010 com Grappling Hooks e dois anos depois voltaram a surpreender com Fog Electric, um excelente sucessor. Agora, no final de outubro, chegou aos escaparates The Third Day, o terceiro álbum de uma banda atualmente formada por Sam Healy, Ben Martin e Chris Howard.

Não é tarefa simples catalogar estes North Atlantic Oscillation já que do rock progressivo à pop atmosférica, passando pela eletrónica, é vasta a teia sonora que abarcam, havendo apenas em comum, à medida que vão variando pelas paisagens que sustentam as suas canções, um forte e saudável cariz psicadélico. Em Third Day, este exercício de demanda por diferentes territórios é uma realidade insofismável e ao longo do seu alinhamento escuta-se uma hora de música magnífica, distribuída por dez canções que nos permitem aceder a uma outra dimensão musical com uma assumida pompa sinfónica e inconfundível, sem nunca descurar as mais básicas tentações pop e onde tudo soa utopicamente perfeito.

Procurando fazer uma espécie de paralelismo entre as origens do grupo e a temática que mais os inspira, escutar The Third Day é um pouco como embarcar numa viagem por um oceano multicolorido que parece não encontrar fronteiras dentro daquela pop eletrónica que explora paisagens sonoras expressionistas, através das teclas do sintetizador e de uma percurssão orgânica, as grandes referências instrumentais neste processo de justaposição de vários elementos sonoros. A verdade é que não falta uma certa acidez psicotrópica dotada por este arsenal instrumental diferenciado e por uma clareza melódica épica, aspetos que servem para engrandecer e ampliar o cariz emotivo da maior parte das canções do disco, tão vasto como o oceno onde este trio navega, feito das tenebrosas águas frias que abastecem o Mar do Norte.

Há no disco temas puramente instrumentais e outros que não dispensam a presença da voz e canções que se estendem de tal modo que as duas vertentes são abastecidas por um referencial distinto, como se houvesse quase duas canões na mesma. August ou When To Stop são dois instantes onde o grupo consegue definir o melhor contraste entre as diferentes referências sonoras que o orientam, acabando por as sublimar com mestria e fazer com que se destaque a emoção, sempre que a voz surge e corta com o caráter mais sombrio e dramático da componente instrumental.

Elsewhere acaba por ser a canção que faz a melhor súmula deste modus operandi que faz jus à fama que estes North Atlantic Oscillation possuem. A canção mostra um equilibrio perfeito entre as componentes instrumentais orgânica e sintética, além de sustentar-se numa melodia particularmente assertiva; As guitarras distorcidas, a voz pulsante e os efeitos de teclado deliciosos, originaram uma estrutura musical onde tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração do tema tivesse um motivo para se posicionar dessa forma.

A grandiosidade dos North Atlantic Oscillation também fica plasmada no modo como colocam a nú aquela melancolia que é tão caraterística de ambientes mais frios e rudes. Em A Little Nice Place, a tensão vocal e os efeitos por detrás inauguram o notável desfile do lado mais introspetivo do grupo, que se repete em Wires e Pines of Eden, outras duas canções onde a melancolia é comandada, no caso da primeira por uma bateria tremendamente jazzística e na segunda por sons de guitarra, que aliados a outras cordas e ao piano, dão um tom fortemente denso e contemplativo ao tema, com a voz a trazer a oscilação necessária para transparecer uma elevada veia sentimental.

O oposto é audível, por exemplo, em Penrose, um tema que mostra como eles conseguem ser luminosos e transmitir uma mensagem forte, mesmo que a voz esteja ausente. Já o intervalo de ruídos e de atmosferas que se escutam em Do Something Useful é claramente inspirada nos Pink Floyd, como se estivessem eles a navegar numa viagem oscilante por um mar alucinogénico, que busca uma psicadelia que se lança sobre o avanço lento mas infatigável de um corpo eletrónico que também usa a voz como camada sonora e When To Stop é uma forma bastante colorida e doce de terminar um alinhamento de um disco difícil de ouvir para quem não tem por hábito apreciar estruturas sonoras mais ambientais e psicadélicas, mas que é um portento de sensibilidade e optimismo, a transbordar de um amor que definitivamente nos liberta.

Há uma forte dinâmica criativa no seio deste projeto que aposta em várias abordagens sonoras, mas sempre magistrais, numa conversa coerente que celebra a natureza dinâmica da combinação instrumental e explora um método de abordagem criativa, que permite a concordância e a discordância, por sua vez, num alinhamento que impressiona pela atmosfera densa e pastosa mas libertadora e esotérica que transporta. The Third Day é um disco muito experimentalista, mas tem também uma estrutura sólida e uma harmonia constante. É estranho mas pode também não o ser. É a música no seu melhor. Espero que aprecies a sugestão...

North Atlantic Oscillation - The Third Day

01. Great Plains II
02. Elsewhere
03. August
04. A Nice Little Place
05. Penrose
06. Do Something Useful
07. Wires
08. Pines Of Eden
09. Dust
10. When To Stop

 


autor stipe07 às 21:42
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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2014

The Flaming Lips – With A Little Help From My Fwends

Uma das bandas fundamentais e mais criativas do cenário musical indie e alternativo são, certamente, os norte americanos The Flaming Lips, de Oklahoma. Há quase três décadas que gravitam em torno de diferentes conceitos sonoros e diversas esferas musicais e em cada novo disco reinventam-se e quase que se transformam num novo projeto.

Com o virar do século este coletivo ampliou a sua dose de arrojo e passou a rejeitar todas as referências normais do que compreendemos por música, um pouco em contra ciclo com uma imensidão de projetos que com a massificação das formas de divulgação e audição, puseram sempre a vertente mais comercial na ordem do dia. É um fato assumido várias vezes pelo próprio Wayne Coyne que não existe uma lógica sonora nos discos mais recentes dos The Flaming Lips, mas a verdade é que, na minha opinião, ninguém pode colocar em causa a excelência de álbuns como Embryonic (2009) e The Terror (2013), principalmente no modo como conseguiram criar algo simultaneamente estranho e genuíno. Mas, no fundo, um conhecedor profundo dos The Flaming Lips, não terá dificuldade em afirmar que The Terror foi mais um capítulo de uma saga alimentada por histórias complexas (Yoshimi Battles the Pink Robots), sentimentos (The Soft Bulletin) e experimentações únicas (Zaireeka) e que With A Little Help From My Fwends, o novo registo do coletivo, é uma consequência lógica de todo este asservo único e peculiar, que resulta geralmente da consciência que Coyne tem das transformações que abastecem a música psicadélica atual e que também inclui lançamentos limitados de parcerias completamente aleatórias, não só com o seu sobrinho, o líder dos Stardeath And White Dwarfs, mas também já com Kesha, Nick Cave, Tame Impala ou Neon Indian, entre tantos outros. Finalmente, há também uma lógica de continuidade clara pela sequência do que já tinham feito com o clássico The Dark Side Of The Moon dos Pink Floyd, em 2009.

Com o propósito de servir a obtenção de donativos para The Bella Foundation, uma organização em Oklahoma que fornece tratamento veterinários a animais de pessoas que não os podem pagar, este novo trabalho dos The Flaming Lips mantém, naturalmente, a habitual estratégia da banda de construir um alinhamento de vários temas, mas que funcionam como uma espécie de tratado de natureza hermética, onde esse bloco de composições não é mais do partes de uma só canção de enormes proporções.

Os The Flaming Lips não se cansam de quebrar todas as regras e até de desafiar as mais elementares do bom senso que, no campo musical, quase exigem que se mantenha intocável a excelência. Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, o clássico dos Fab Four de sessenta e sete, é um marco incontornável da história não só da música como da própria cultura popular e, procurando fazer uma espécie de paralelo que talvez ajude a explicar o impacto deste passo do coletivo de Oklahoma, With A Little Help From My Fwends é quase como um Carl Sagan ou um Franz Kafka convidarem meia dúzia de amigos e resolverem reescrever todos juntos os livros da Bíblia de acordo com a sua própria imaginação, mesmo que sem descurar, pelo menos, alguma da essência dos mesmos.

Com as participações especiais de nomes tão controversos e díspares no género de música que é usual replicarem, como My Morning Jacket, Moby, Miley Cyrus, Electric Wurms ou Phantogram, With A Little Help From My Fwends é composto, principamente, por composições atmosféricas com marcas sonoras relacionadas com vozes convertidas em sons e letras que praticamente atuam de forma instrumental e tudo é dissolvido de forma tão aproximada e homogénea que estas treze canções, como todos os discos deste grupo, estão longe de revelar todos os seus segredos logo na primeira audição.

Quem estiver à espera de escutar covers e versões parecidas com os originais dos Fab Four, desengane-se, porque o objetivo foi homenagear o clássico e não reproduzi-lo. O conceito andou mais em redor de uma ideário teatral, como se a ideia fosse recriar uma espécie de ópera espacial que, à medida que avança, vai competindo consigo própria, de modo a soar ainda menos natural e convencional. No entanto, há que realçar que os diferentes convidados preservaram algum do ADN intrínseco à carreira de cada projeto e artista, tendo todos aceite alinhar nesta parada psicotrópica de forma explicitamente aberta ao experimentalismo tão caro aos The Flaming Lips, mas sem colocarem em causa a sua própria integridade sonora ou descurar a sua essência. Temas como Getting Better (com Dr Dog, Morgan Delt e Chuck Inglish), Within You Without You (com Birdflower e Morgan Delt) e o reprise do tema homónimo (com os Foxygen e Ben Goldwasser dos MGMT), foram os que melhor conseguiram o intuíto de alterar radicalmente a percepção da canção original e permitir desde logo a identificação dos autores das versões, enquanto tudo soa de um modo particularmente assertivo.

Miley Cyrus teve a oportunidade de participar em dois dos temas mais relevantes deste trabalho e, na verdade, a partir de hoje estas são as minhas duas canções preferidas desta artista, o que, por si só, mostra as virtudes da sua participação.

Bastante ambicioso, totalmente bizarro, em alguns momentos ridículo, objetivamente polémico e certamente controverso, With A Little Help From My Fwends é um disco que não pode nunca ser analisado isolado da restante discografia dos The Flaming Lips e do seu percurso mais recente. Nele, Coyne comportou-se como um elefante numa loja de porcelana e depois, ainda se sentou no meio dela e tentou juntar os cacos com a ajuda de vários amigos que trouxeram, cada um deles, a sua cola para voltar a juntar as várias peças. É um disco que vale pelo arrojo, incomoda em determinados instantes da audição, mas é genial no modo como consegue fazer aquilo que no fundo Wayne Coyne deseja; Chamar os holofotes para junto de si e arranjar alguns trocados para uma das várias fundações que têm a sorte de poderem contar com o seu lado mais filantropo. Espero que aprecies a sugestão...

The Flaming Lips - With A Little Help From My Fwends

01. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Feat. My Morning Jacket, Fever The Ghost, And J Mascis)
02. With A Little Help From My Friends (Feat. Black Pus, And The Autumn Defense)
03. Lucy In the Sky With Diamonds (Feat. Miley Cyrus And Moby)
04. Getting Better (Feat. Dr. Dog, Chuck Inglish And Morgan Delt)
05. Fixing A Hole (Feat. Electric Wurms)
06. She’s Leaving Home (Feat. Phantogram, Julianna Barwick And Spaceface)
07. Being For The Benefit Of Mr. Kite! (Feat. Maynard James Keenan, Puscifer And Sunbears!)
08. Within You Without You (Feat. Birdflower And Morgan Delt)
09. When I’m Sixty-Four (Feat. Def Rain And Pitchwafuzz)
10. Lovely Rita (Feat. Tegan And Sara And Stardeath And White Dwarfs)
11. Good Morning Good Morning (Feat. Zorch, Grace Potter And Treasure Mammal)
12. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club (Reprise) (Feat. Foxygen And Ben Goldwasser)
13. A Day In The Life (Feat. Miley Cyrus And New Fumes)

 


autor stipe07 às 21:35
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Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Twin Hidden – Join Hands

Twin Hidden

Divididos entre Londres e Manchester os Twin Hidden são Matthew Shribman e Sam Lea, dois amigos de infância que com dez anos já faziam música juntos, tendo-se estrado nos lançamentos em 2001 com um disco cujo rasto é desconhecido (This album is now where it belongs, at the bottom of the sea, where it will never be found).

A separação física de ambos deu-se com a entrada na universidade, quando Matthew foi estudar para Oxford e Sam para Manchester. Acabou por haver um breve hiato no grupo, mas os Twin Hidden parecem estar apostados em regressar novamente à ribalta, desde que no ano passado resolveram voltar a compôr juntos, tendo o piano como instrumento privilegiado destas novas experências sonoras conjuntas.

Join Hands, o novo single da dupla, será editado em dezembro, mas já chegou à redação de Man On The Moon, enviado pela própria banda. Pelos vistos, está a captar a atenção das pessoas certas, porque o tema está a fazer enorme furor junto da crítica especializada e basta escutar a canção para se perceber porquê. Join Hands é uma peça musical magistral, uma pop futurista com o ritmo e cadência certas, conduzida por teclas inebriantes e arranjos sintetizados verdadeiramente genuínos e criativos, capazes de nos enredar numa teia de emoções que nos prende e desarma sem apelo nem agravo. A forma como os falsetes da dupla se entrelaçam entre si, enquanto metais, bombos, cordas e teclas desfilam orgulhosas e altivas, mais parece uma parada de cor, festa e alegria, onde todos comungam o privilégio de estarem juntos, do que propriamente um agregado de sons no formato canção. Ficarei muito atento a este projeto, nomeadamente ao possível lançamento de um disco. Confere...

 


autor stipe07 às 13:29
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Sábado, 25 de Outubro de 2014

Tashaki Miyaki – The Beautiful Ones (Prince Cover)

Tashaki Miyaki

A vocalista Lucy Miyaki e o guitarrista Tashaki formam os Tashaki Miyaki, uma dupla oriunda de los Angeles, que navega nas águas turvas e profundas da dream pop de pendor psicadélico. Em digressão com os Allah-Las durante este outono, resolveram gravar algumas covers para a ocasião, um trabalho que irá ser editado com o sugestivo nome The Covers EP.

Uma das canções que os Tashaki Miyaki resolveram revisitar com a ajuda do produtor Joel Jerome foi o clássico The Beautiful Ones, um original de Prince, tendo-o feito de forma bastante original e assertiva e criado uma atmosfera densa e particularmente sensual e hipnótica.  A versão está disponivel para download gratuito. Confere...


autor stipe07 às 20:10
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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Blue Hawaii – Get Happy / Get Happier

Blue Hawaii – "Get Happy" / "Get Happier"

Os Blue Hawaii são um projeto canadiano formado pelo enigmático casal Agor e Raph (na verdade chamam-se Alexander Cowan e Raphaelle Standell-Preston), uma dupla originária de Montreal e que se estreou nos discos em 2010 com Blooming Summer. O sucessor chamou-se Untogether e viu a luz do dia no início de 2013 por intermédio da Arbutus Records.

Quase dois anos depois os Blue Hawaii voltam a mostrar-se com a divulgação de uma nova canção intitulada Get Happy, gravada no início deste ano. E além desse tema, incluiram no single Get Happier, uma versão da canção principal, mais acelerada, criada no passado mês de agosto. A digressão de apresentação de Untogether foi marcante para os Blue Hawaii e Get Happy reflete esse estado de alma de um casal que teve de gerir novas realidades e conflitos.

 As the year progressed, we found our live show intensify but still had all these softer recordings which would never be released. Hence we present ’Get Happy’ / ’Get Happier’, where we explore both sides: the original demo and a fun, double-time edit made one day in August.

Os dois temas estão disponíveis para download gratuito. Confere...


autor stipe07 às 13:31
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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2014

Panda Bear - Noah EP

Chega no dia doze de novembro às lojas Meets The Grim Reaper, o novo e quinto álbum da carreira de Panda Bear, um músico com fortes ligações a Portugal, adepto confesso de grande Sport Lisboa e Benfica e membro fundador dos Animal Collective.

Depois do cariz minimal em que alicerçou Tomboy, de acordo com a imprensa este novo trabalho de Panda Bear, gravado entre Lisboa e a planície texana com a colaboração de Pete Kember, leva o músico de regresso à estratégia em que é mestre, a junção sónica e psicadélica de um verdadeiro caldeirão instrumental e melódico. Pela amostra, intitulada Mr Noah, um single lançado em formato EP, acompanhado por mais três canções que não farão parte do alinhamento de Meets The Grim Reaper, essa opção terá sido bem sucedida e o novo trabalho do músico será certamente um marco fundamental da sua carreira.

No EP encontramos uma sequência de primorosas e ainda mais atrativas experimentações. Se Mr Noah prepara o terreno sendo o tema mais acessível do EP, a cândura pop e romântica de Faces In The Crowd levanta um pouco mais o véu sobre o futoro sonoro de Bear, o que será finalizado no toque de psicadelia que define Untying The Knot, um tema que leva Panda Bear para o clima hipnótico e lisérgico da década de setenta e que é bem capaz de ser o o novo território sonoro que o deixa atualmente algo siderado. Por fim, This Side of Paradise é um momento de pura experimentação, uma colagem de várias mantas de retalhos que nem sempre se preocupam com a coerência melódica e que incluem samples de vozes e arranjos em eco e sintetizados, nem sempre claramente percetíveis.

Confere o EP de lançamento do single Mr Noah, já disponível para download no itunes e a tracklist de Meets The Grim Reaper...

Album cover: Panda Bear - Mr Noah

Mr Noah
Faces In The Crowd
Untying The Knot
This Side Of Paradise

01.Sequential Circuits
02.Mr Noah
03.Davy Jones’ Locker
04.Crosswords
05.Butcher Baker Candlestick Maker
06.Boys Latin
07.Come To Your Senses
08.Tropic Of Cancer
09.Shadow Of The Colossus
10.Lonely Wanderer
11.Principe Real
12.Selfish Gene
13.Acid Wash


autor stipe07 às 21:05
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