Segunda-feira, 11 de Setembro de 2017

The National - Sleep Well Beast

Foi no último dia oito que chegou aos escaparates e através da 4AD, Sleep Well Beast, o tão aguardado novo registo de originais dos norte-americanos The National, que sucede a Trouble Will Find Me, o disco que a banda de Matt Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf editou no já longínquo ano de 2013. Sétimo disco da carreira do grupo, Sleep Well Beast foi produzido por Aaron Dessner, com produção adicional de Matt Berninger e Bryce Dessner, misturado por Peter Katis e gravado no estúdio Long Pond em Hudson Valley, Nova Iorque.

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Os The National sempre foram bem aceites e acarinhados por cá devido ao modo como, nos primeiros discos, se tornavam automaticamente nossos amigos e confidentes, não só pela forma como abordavam a tristeza, dando-nos pistas concretas não só na forma de lidar com ela, mas também porque nos mostravam o caminho para a redenção, nem que fosse através da simples lembrança de que amanhã há um novo dia e que a esperança nunca pode esmorecer. E faziam-no apostando as fichas todas na voz grave de Berninger, conjugada com arranjos bastante melódicos, refrões simples e versos acessiveis que, aliando-se a uma orgânica melódica particularmente minimal, mas profunda e crua, nos facultavam tal universo fortemente cinematográfico e imersivo.

Seja por mero capricho, por uma questão de maturidade ou simples espírito aventureiro, a verdade é que tem havido um certo abandono dessa zona de conforto, o que, não colocando em causa a carreira dos The National, tem levado a banda para territórios sonoros menos imediatos e orgânicos, com os sintetizadores e outros arranjos e instrumentos inéditos, a fazerem cada vez mais parte do ideário sonoro do grupo. Desse modo, o primeiro grande elogio que se pode fazer a Sleep Well Beast é que não atira o quinteto nova iorquino para uma possível queda na redudância convencional ou na repetição aborrecida. Portanto, ultimamente, a cada novo lançamento do grupo, mais do que perceber com clareza aquilo que une o alinhamento à herança, convém olhar com atenção para os pontos de ruptura e de diferenciação, algo pertinente desde o antecessor, Trouble Will Find Me. Antes disso a estratégia era claramente outra, já que se Sad Songs for Dirty Lovers  foi a estreia assumida do grupo num contexto mais negro, apesar de não ser o primeiro disco da banda, dois anos depois Alligator trouxe uma maior variedade instrumental e, em 2007, Boxer carimbou a definitiva maturidade e internacionalização do coletivo, além de ter  posicionado na figura do vocalista um personagem que caminhava confortavelmente por cenários que descrevem dores pessoais e escombros sociais. Quanto a High Violet (2010), serviu para colocar ênfase numa toada mais épica e aberta do grupo e demonstrar a capacidade eclética que também têm de compôr, em simultâneo, temas com um elevado teor introspetivo (Conversation 16, Sorrow ou Terrible Love) e verdadeiros hinos de estádio (England,Bloodbuzz Ohio), mas sem defraudar o conceito inicial central.

Agora, ao sétimo álbum, os The National conseguem, em temas como Nobody Else Will Be There ou Walk It Back, regressar ao ambiente desolador que percorrem desde o começo de carreira e, ao mesmo tempo, apresentar as novas nuances instrumentais do seu arquétipo, muito firmadas nas teclas e em diversos dos atuais entalhes entre eletrónica e rock alternativo, que procuram incutir luminosidade e cor ao que aparentemente é sombra e rugosidade. Assim, acaba por ser comum escutar em simultâneo, como é o caso de Born to Beg, instantes em que os instrumentos clamam pela simplicidade, mas que acabam por resvalar para uma teia sonora que se diversifica e se expande para, neste caso, com alguma cor e optimismo, dar vida a um conjunto volumoso de versos sofridos, sons acinzentados e o habitual desmoronamento pessoal que nos arrasta sem dó nem piedade para o usual ambiente sombrio e nostálgico da banda e depois há ainda canções, como Empire Line, que prezam pelo minimalismo da combinação de apenas quatro instrumentos, mas que, no fundo, tornam-se num refúgio bucólico e denso que impressiona pelo forte cariz sensorial. Finalmente, há ainda outras que soam mais ricas e trabalhadas, como The System Only Dreams In total Darkness, talvez o tema do disco que exale com superior precisão o cada vez maior ecletismo de um grupo mais consciente de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes.

Casado e pai de uma filha, Matt afugenta os seus habituais demónios com maior conforto e uma natural aceitação em relação à impossibilidade do total desaparecimento dos mesmos, mesmo que haja atualmente mais instantes e eventos felizes na sua vida pessoal. Não faltam em Sleep Well Beast bons exemplos que nos remetem para uma certa felicidade, digamos assim, que Matt sente por ter finalmente percebido que os problemas, o sofrimento e a dor estarão sempre lá mesmo que a maior constância de eventos felizes seja uma realidade concreta na sua vida. Há como que uma tomada de consciência de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes. Sendo, sonoramente, o disco mais arriscado da carreira do grupo, Sleep Well Beast é, em suma, uma espécie de exercício de redenção, onde o sofrimento é olhado com a habitual inevitabilidade, mas de uma outra perspetiva, mais madura, assertiva e positiva, um compêndio onde os The National firmam a sua posição na classe dos artistas que basicamente só melhoram com o tempo. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Nobody Else Will Be There (4:39)
02. Day I Die (4:31)
03. Walk It Back (5:59)
04. The System Only Dreams in Total Darkness (3:56)
05. Born to Beg (4:22)
06. Turtleneck (3:00)
07. Empire Line (5:23)
08. I’ll Still Destroy You (5:15)
09. Guilty Party (5:38)
10. Carin at the Liquor Store (3:33)
11. Dark Side of the Gym (4:50)
12. Sleep Well Beast (6:31)


autor stipe07 às 16:52
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Quarta-feira, 6 de Setembro de 2017

Andrew Belle – Dive Deep

O compositor e músico californiano Andrew Belle regressou este verão aos discos com Dive Deep, onze canções escritas e compostas por um dos intérpretes mais importantes da indie pop atual no lado de lá do atlântico, um artista que conhece, com minúcia e destreza, como replicar um ambiente sonoro multicolorido e espetral, sendo claramente influenciado pela paisagem multicultural de Los Angeles, cidade onde Andrew vive atualmente.

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O alinhamento de Dive Deep contém um forte cunho impressivo enquanto explora algumas das mais contemporâneas interseções entre pop e eletrónica, através de uma vasta paleta instrumental que dando primazia ao sintetizador não deixa também de recorrer a alguns detalhes e arranjos de índole mais orgânica, em especial os percurssivos.

No clima etéreo e fortemente climático de Horizon e na batida pulsante de Black Clouds encontramos, logo à partida, um som cheio e irrepreensivelmente produzido, repleto de pequenas nuances que nos vão espevitando e nos fazem manter o foco na audição, à medida que Belle explana todos os seus atributos não só como cantor, mas também, e principalmente, como escritor de poemas que servem a todos quantos procuram viver com intensidade e procuram usufruir o que de melhor a vida pode proporcionar.

Depois de um excelente ano em 2013, que teve como momento alto a edição do aclamado disco Black Bear, Andrew perdeu a voz durante dois meses e nesse período sentiu enorme receio de ter de lidar com um futuro sem a música no centro da sua vida. Felizmente recuperou desse grave problema de saúde e este Dive Deep reflete, com honestidade e uma certa exaltação, a alegria que o músico voltou a sentir por ter novamente a capacidade de utilizar os seus atributos vocais para transmitir tudo aquilo que o emociona.

Dive Deep acaba por ser um disco que debruçando-se sobre a normalidade da existência humana e as suas rotinas, procura também vestir a pele de conselheiro na hora de tomar aquelas decisões que tantas vezes definem a ténue fronteira que nos separa do mundo da ignorância e dos medos, do usufruto pleno dos desafios com que somos constantemente confrontados. É um disco de esperança, de coragem, alegre e positivo e que não nos deixa paralisar na indecisão e na dúvida, até porque, conforme indica o tema homónimo, são muitas as vezes em que aquilo que de melhor nos sucede é consequência de um anterior mergulho corajoso no desconhecido e na indecisão. Espero que aprecies a sugestão...

Andrew Belle - Dive Deep

01. Horizon
02. Black Clouds
03. Down
04. Honey And Milk
05. Dive Deep
06. T R N T
07. New York
08. You
09. Hurt Nobody
10. Drought
11. When The End Comes


autor stipe07 às 14:26
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Sábado, 2 de Setembro de 2017

LCD Soundsystem – American Dream

Já há alguns meses que não restavam quaisquer dúvidas que 2017 iria ser o ano em que os LCD Soundsystem de James Murphy iriam editar o sucessor de This Is Happening, nomeadamente desde que foram divulgadas na primavera Call The Police e American Dream, os primeiros avanços do novo álbum do grupo nova iorquino e que acaba de ver a luz do dia através da DFA Records do próprio Murphy. São dez canções que em pouco mais de uma hora nos mostram porque devemo-nos sentir verdadeiramente felizes por This Is Happening não ter sido o epílogo da banda, como foi na altura, no início desta segunda década do século XXI, profusamente prometido (It's (really...) Time To Get Away!). E convém referir que este alinhamento deve também algo de significativo a David Bowie, artista com quem Murphy, durante conversas que tinham como objetivo colocar o patrão da DFA a produzir Blackstar, diversas vezes desabafou a saudade que sentia do seu antigo projeto, um sentimento que ele veio a descobrir ser partilhado também por Nancy Whang e Pat Mahoney, outros dois nomes incontornáveis dos LCD. Aliás, a canção que encerra este American Dream, a sombria e minimal Black Screen, debruça-se sobre esta troca afetiva de argumentos entre Bowie e Murphy.

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Quando uma nova corrente do indie rock começou a fazer escola no início deste século em Nova Iorque e as guitarras e o baixo começaram a dar as mãos aos sintetizadores e à eletrónica para invadir as pistas de dança do mundo inteiro, os LCD Soundsystem estavam na vanguarda desse movimento e a avalancar outros nomes, nomeadamente os Hot Chip, The Rapture, Cut Copy, !!! (chk chk chk), Radio 4 e Fischerspooner, entre outros, alguns deles abrigados pela própria DFA. E a verdade é que com a primeira saída dos LCD Soundsystem de cena, esse espetro sonoro que tanto sucesso obteve durante cerca de uma década, passou a viver um pouco na penumbra, apesar de nomes recentes como os Orange Cassettes e os próprios Liars parecerem sempre dispostos a levar o garage rock novamente nessa direção com assinalável mestria, sempre dançável e psicadélica. Agora, com este segundo capítulo do projeto de James Murphy e tendo em conta a assombrosa bitola qualitativa de American Dream, os dados estão novamente lançados para que o dance post punk rock volte novamente a estar na linha da frente e em plano de destaque no universo sonoro indie e este grupo volte a ocupar um trono que, no fundo, nunca deixou de lhes pertencer.

American Dream está repleto de composições intensas e melancólicas e que nos possibilitam usufruir de um mosaico declarado de referências, que se centram, essencialmente, numa mescla entre a típica eletrónica underground nova iorquina e o colorido neon dos anos oitenta, havendo inclusive, dentro desta bitola referencial, períodos introspetivos, que depois resvalam para finais épicos e de maior exaltação. Logo nos flashes sintetizados vigorosos e no piano divagante da futurista Baby se percebe que este é um disco que não defraudará toda a herança que traz atrás de si. E depois, no ritmo tribalista deliciosamente anguloso, proporcionado, em grande parte, pelo intenso baixo, de Other Voices, exemplarmente acompanhado pelo habitual efeito vocal ecoante de um James Murphy que canta e declama em simultâneo, somos de imediato transportados para os melhores momentos daquele já algo longínquo disco homónimo que ofereceu aos LCD Soundsystem a rampa de lançamento perfeita para um merecido estrelato.

Com estes dois temas iniciais a fazerem a ponte perfeita entre um glorioso passado e aquilo que os LCD Soundsystem querem continuar a explorar nesta nova demanda, American Dream prossegue numa espécie de balanço entre aquele clima underground que pisca o olho de modo bastante apetecível às pistas e momentos de algum pendor mais reflexivo, nomeadamente acerca do modo como Murphy vê a América que atualmente tanto o inquieta. Assim, se os devaneios rítmicos e o modo como é constantemente amplificada uma das cordas do baixo em Change Yr Mind, ou o festim sintético que transborda por todos os poros da efusiva e lasciva Tonite, são composições que nos fazem abanar a anca mesmo que não haja um firme propósito, apenas e só o facto de ser hora de celebrar. Já na espiral instrumental em que crescem guitarras e bateria em I Used To, ou na cadência algo angustiada do tema homónimo, que talvez procure refletir o modo como o tal sonho americano é hoje apenas uma ilusão sem sentido, sentimo-nos impelidos a procurar entender o modo como Murphy, sendo um dos melhores entertainers da atualidade, é também capaz de se sentir frustrado e desanimado com aquilo que observa ao seu redor. O espetacular baixo e o pendor exaltante dos sintetizadores e da batida crescente de Call The Police, acabam por fazer desta canção uma espécie de tema aglutinador perfeito de todo este receituário, um tema onde é possível descobrir razões para dançar de olhos fechados e a sorrir enquanto se pensa na vida e naquilo que mais nos consome e inquieta.

Disco que exige várias audições para ser devidamente compreendido, até porque vive muito deste apelo constante, mas nem sempre explícito, à festa, American Dream talvez reflita, no fundo, a realidade atual de uma América onde não existem, nos dias de hoje, muitas razões para celebrar ou motivos que inspirem à criação musical que exale, de modo evidente, a gloriosa celebração do que é viver num país que nunca se cansa de apregoar que lidera os destinos do mundo. De um modo mais particular, talvez aquele que mais interesse, ensina-nos que nunca é tarde para recomeçar, que os anos podem passar por nós, mas o nosso espírito pode manter-se amplamente jovial e criativo, mesmo que isso suceda de modo menos intuitivo, mas mais refletido, maduro e consciente. É assim, de certo modo, a melhor descrição que se pode fazer destes renovados LCD Soundsystem como entidade. Espero que aprecies a sugestão...

LCD Soundsystem - American Dream

01. Oh Baby
02. Other Voices
03. I Used To
04. Change Yr Mind
05. How Do You Sleep?
06. Tonite
07. Call The Police
08. American Dream
09. Emotional Haircut
10. Black Screen


autor stipe07 às 15:47
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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2017

Liars – TFCF

Poucas bandas se transformaram tanto ao longo da última década como o trio de Nova Iorque chamado Liars e formado originalmente por Angus Andrew, Aaron Hemphill e Julian Gross. Deram início à carreira com uma sonoridade muito perto do noise rock, com experimentações semelhantes ao que fora testado pelos Sonic Youth do início de carreira e até com algumas doses de punk dance e aos poucos foram aproximando-se de uma sonoridade mais amena e introspetiva. O que antes era ruído, distorção e gritos desordenados, passou a debitar algo mais brando, com uma proposta de som muito mais voltada para um resultado atmosférico, definição que passou a imperar com evidência desde o disco homónimo lançado em 2007. Este toque experimental acabou por se manter e WIXIW (pronuncia-se wish you), em 2012, foi o culminar de uma tríade que começou no tal Liars de 2007 e prosseguiu em Sisterworld (2010). Dois anos depois, em 2014, os Liars voltam a apostar numa inflexão sonora com Mess, um disco que apresentava uma mistura nada anárquica, mas bastante heterogénea de todos os vetores sonoros que orientaram, até então, a carreira do trio, um álbum carregado de batidas, com uma base sonora bastante peculiar e climática e com propostas ora banhadas por um doce toque de psicadelia a preto e branco, ora consumidas por um teor ambiental denso e complexo.

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Mess acabou por ser o disco da ruptura e da implosão de um trio que se desmoronou no meio da inquietude e do tal caos, feito de três visões bastantes diferentes daquele que deveria ser o rumo sonoro mais consistente dos Liars, um trajeto que após dezassete anos de busca incessante de consensos, acabou por atingir o limite do tolerável. Assim, Angus Andrew vê-se isolado, mas não dá baixa da marca registada Liars, preferindo, com o acordo dos ex colegas, continuar a dar sequência ao universo com esse nome, agora a solo, sendo TFCF, o primeiro lançamento discográfico nesta nova realidade do projeto. 

Os Liars sempre criaram um som muito difícil de definir porque misturam eletrónica com rock alternativo, noise rock, avant garde, post punk e outras sonoridades e a verdade é que não se pode afirmar que tenham produzido dois trabalhos semelhantes em termos de sonoridade. Este conceito de ruptura mantém-se em TFCF, o que talvez prove que Angus acabou por conseguir fazer prevalecer sempre, acima de todos, a sua filosofia, apesar da aparente democraticidade e busca de pontos de equilíbrio, como descrevi.

Composto integralmente por Angus, no seu país de origem, a Austrália, numa ilha ao largo de Sidney, acessível apenas por barco, num clima de auto isolamento claramente imposto, TFCF materializa esta oportunidade de ouro que o músico finalmente teve para explanar livremente  os conceitos artísticos com que mais se identifica, procurando, ao mesmo tempo, revitalizar o som Liars, elevando-o para uma nova escala e paradigma de inedetismo até porque, a primeira impressão que se tem logo após a audição deste álbum é que não há nenhum projeto contemporâneo conhecido que possa ser equiparado estilisticamente ao que é apresentado nestas onze canções. Já agora, é curiosa a explicação de Angus para o artwork do disco. Justifica-o afirmando que durante dezassete anos sentiu-se de certo modo casado com Aaron Hemphill, o seu principal parceiro nesta aventura e o último a abandoná-lo (Depois de Mess os Liars chegaram a ser uma dupla durante algum tempo) e agora que ele o deixou, ficou sozinho, apenas com um vestido de noiva (I felt like I was married to Aaron [Hemphill] creatively, and now that he is gone I am alone in my wedding dress).

TFCF acaba por refletir bastante esta nova conjuntura, até porque Angus não se fez rogado na hora de aproveitar algum material sonoro que estava guardado em bruto para o próximo disco do projeto no formato trio e em que Angus e Aaron tinham chegado a trabalhar em conjunto, apesar de, durante esse brainstorming virtual, um estar em los Angeles e o outro em Berlim. No Help Pamphlet, um dos poucos momentos acústicos do álbum e onde a guitarra é protagonista, é clara nesta realidade, com a letra a referir-se diretamente a Aaron (OK, that’s it. Those are all the songs I really like… I hope that you have a really great break. And I’m thinking of you all the time.)

Olhando um pouco para o restante conteúdo do disco, independentemente da abordagem que é feita em cada canção e que varia imenso, a eletrónica é o fio condutor, quase sempre envolvida numa embalagem minimal, embrulhada com vozes e sintetizadores num registo predominantemente grave e ligeiramente distorcido, que cria uma atmosfera sombria, hipnótica e visceral. O clima algo caótico e lo fi de The Grand Delusional personifica, claramente, uma forma de procurar exorcizar o modo angustiante como Angus olha para a nova realidade com que convive, mas depois, quer nas cordas medievas de Cliché Suite, acompanhadas por arranjos que dão um tema um clima spaghetti curioso, quer na batida pulsante, grave e sensual de Staring At Zero e nos seus detalhes metálicos, assim como nos samples ambientais da climática Face To Face With My Face e no folk punk caliedoscópico de No Tree No Branch, o músico liberta-se um pouco das amarras identitárias e oferece-nos algumas nuances curiosas que deverão projetar um pouco aquele que será futuro sonoro dos Liars. O vigor percurssivo de Coins In My Caged Fist, acompanhado por um sintetizador algo agreste, talvez seja o momento de TFCF que mais nos remeta para o passado, mas de um modo feliz porque é um tema que vai beber à fonte de Drums Not Dead, a obra-prima do grupo.

Disco que personifica, sem rodeios, um estado de (in)consciência muito próprio de um autor que vive num momento crucial da sua existência, quer pessoal quer artística, TFCF é um corpo sonoro cheio de especificidades, que precisa e merece ser apreciado de acordo com as regras que ele próprio define, sem ideias pré-concebidas ou expetativas balizadas, até porque, na minha opinião, poderá vir a ser um marco imprescindível para a descrição futura testamental da marca Liars, pois estou certo que agora, depois de exorcizados os fantasmas e definidas as novas pistas, Angus não vai ficar por aqui e vai finalmente poder mostrar, sem ter que dar explicações ou fazer concessões, aquilo que artisiticamente realmente vale. E parece ser muito! Espero que aprecies a sugestão...

Liars - TFCF

01. The Grand Delusional
02. Cliche Suite
03. Staring At Zero
04. No Help Pamphlet
05. Face To Face With My Face
06. Emblems Of Another Story
07. No Tree No Branch
08. Cred Woes
09. Coins In My Caged Fist
10. Ripe Ripe Rot
11. Crying Fountain


autor stipe07 às 14:51
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Quinta-feira, 24 de Agosto de 2017

The Veldt - The Shocking Fuzz of Your Electric Fur: The Drake Equation

Formados em Raleigh pelos irmãos gémeos Daniel e Danny Chavis, aos quais se juntaram, entretanto, o baterista Marvin Levi e o baixista David Burris, os The Veldt foram, no ocaso do século passado, um dos novos nomes mais interessantes do cenário indie da Carolina do Norte, território onde incubaram grupos do calibre de uns Superchunk, Archers of Loaf, The Connells, Dillon Fence, The dBs, Squirrel Nut Zippers e Ryan Adams, entre outros. Estrearam-se nos registos discográficos em 1992 com Marigold, abrigados já pelo consórcio Stardog/Mercury e o sucesso desse arranque valeu-lhes um lucrativo contrato com a Polygram Records. Com essa bagagem financeira fizeram as malas e foram até Londres onde gravaram Afrodisiac, o segundo álbum do projeto, produzido pelo conceituado Ray Shulman (The Sugarcubes,The Sundays).

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De repente, os The Veldt viram-se a partilhar o palco com nomes tão distintos como os Oasis, The Cocteau Twins, The Pixies, Fishbone e Corrosion Of Conformity, bandas seminais e preponderantes, um sucesso que acabou por colocar o grupo numa espécie de impasse relativamente ao rumo a seguir, mas que não os impediu de gravar ainda mais dois registos, os discos Universe Boat, através da Yesha Recordings e Love At First Hate, à boleia da etiqueta que a própria banda entretanto tinha criado, a End Of The World Technologies.

Após estes quatro álbuns, Danny e Burris abandonam os The Veldt, o último dedica-se ao cinema, sendo atualmente produtor da aclamada série Survivor, da CBS e o grupo acaba por encerrar as hostilidades em 1998. De regresso a Nova Iorque, os gémeos Danny e Daniel concentram as suas atenções num novo projeto intitulado Apollo Heights, mais focado em sonoridades relacionadas como o trip-hop e a eletrónica, dos quais resulta um disco que foi bastante aclamado pela crítica, intitulado White Music For Black People, que contou com as participações especiais de Mos Def e Lady Miss Kier e que incluiu nos créditos David Sitek dos TV On The Radio na produção.

Agora, quase duas décadas depois da interrupção, os gémeos Chavis voltam a ressuscitar os The Veldt  e fazem-no acompanhados por Hayato Nakao e Marvin Levi e à boleia de um EP intitulado The Shocking Fuzz of Your Electric Fur: The Drake Equation, cinco canções que não envergonham a herança identitária que o grupo guarda. É um alinhamento assente em guitarras plenas de distorção, geralmente conjugadas com batidas sintetizadas e efeitos de índole eminentemente etérea, numa espécie de punk rock futurista, um shoegaze cibernético que replica atmosferas sonoras bastante hipnóticas e contemplativas, como é se percebe logo em Sanctified, o tema que abre o alinhamento do EP. É um som com uma componente elétrica muito intensa e onde o enigmático e marcante falsete vocal de Daniel é também um elemento importante, principalmente no modo como confere um certo travo nostálgico, algo exultante a cantar os delicados versos de In A Quiet Room e mais orgânico e intituivo a conduzir o clima profusamente sintético e rugoso de A Token, canção onde os atributos de Nakao como programador são levados ao extremo.

Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que integrou, de pleno direito, a lista de algumas referências óbvias de finais do século passado, The Shocking Fuzz of Your Electric Fur: The Drake Equation exala o contínuo processo de transformação de uns The Veldt que procuram sempre mostrar, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 14:06
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Domingo, 20 de Agosto de 2017

Grizzly Bear – Painted Ruins

Até parece mentira, mas já foi em 2004 que Horn of Plenty estreou os nova iorquinos Grizzly Bear de Edward Dros, Daniel Rossen, Christopher Bear e Chris Taylor nos lançamentos musicais. Na época, o disco passou despercebido e até há quem não o inclua na discografia oficial da banda, até porque foi composto inteiramente pelo vocalista, Daniel Rossen, com apenas algumas contribuições do baterista, Christopher Bear. Agora, quase década e meia depois, já chegou o quinto disco dos Grizzly Bear, um trabalho editado já cinco anos após o antecessor, o complexo Shields.

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Daniel Rossen não é insensível ao mundo que o rodeia e gosta de colocar na ordem do dia as suas preocupações e angústias relativamente ao que vai observando e vivendo, servindo-se da música como veículo privilegiado não só dessa demanda reflexiva, mas também para procurar alertar quem se predispuser a aceitá-lo como mais um conselheiro seguro e que merece crédito. Assim, se as ruidosas e intrincadas camadas sonoras que sustentavam a densidade de Shields serviram como arma de arremesso para este músico e a banda que lidera exorcizarem alguns demónios seus e outros alheios, em Painted Ruins temos um conjunto de telas que nos descrevem com minúcia a importância de uma vivência plena e feliz, mesmo que os sinais que recebemos do exterior, quer sejam politicos, sociais ou económicos não sejam, por estes dias, os mais aconchegantes e prometedores.

Apesar do sintético, várias vezes na sua vertente mais floreada e intrincada, manter-se presente e até com requintes de charme e magnificiência em temas como Glass Hillside e na cândura de Systole, nestas onze canções o rock numa versão mais pura ganha novamente protagonismo e avança para a linha da frente da filosofia sonora, muito à imagem dos primeiros registos do grupo, mais orgânicos e imediatos do que Shields. Por exemplo, quer a epicidade rugosa e visceral de Mourning Sound, mas também o modo como em Three Rings é refletida muita da melancolia que era exposta nos primórdios da carreira dos Grizzly Bear, são bons exemplos desse feliz retrocesso, algo que no caso de Three Rings se infere da camada de ruídos experimentais e compostos acinzentados que sustentam o tema, com o acrescento de arranjos onde contrastam elementos acústicos e elétricos a deitarem por terra qualquer sintoma de monotonia e repetição e com um baixo incisivo e uma batida plena de pulso e vigor a conferirem a Mourning Sound o cerrar de punhos pretendido. Depois, quer as diversas variações rítmicas e de primazia na condução entre teclas e cordas em Losing All Sense e os diferentes entalhes entre guitarra, efeitos e bateria no caos desafiante do rock progressivo que alimenta Aquarium, acabam por imprimir ao disco o cunho identitário de complexidade que qualquer trabalho deste projeto tem necessariamente de ter, mas sem o desviar do rumo inicialmente traçado.

Álbum desafiante porque só revela todo o seu potencial instrumental e todos os detalhes e nuances que o trespassam após repetidas audições, Painted Ruins é uma verdadeira obra de arte por isso e porque mantém acesa a chama algo angustiante e nebulosa de uns Grizzly Bear que mais do que se preocuparem em agradar ao mainstream e à radiofonia, preferem estar na linha da frente daqueles que compõem com o firme propósito de deixar algo que marque e exercite a mente de quem aceita ouvir e deliciar-se com os seus sermões. Espero que aprecies a sugestão...

Grizzly Bear - Painted Ruins

01. Wasted Acres
02. Mourning Sound
03. Four Cypresses
04. Three Rings
05. Losing All Sense
06. Aquarian
07. Cut-Out
08. Glass Hillside
09. Neighbors
10. Systole
11. Sky Took Hold


autor stipe07 às 14:20
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Domingo, 13 de Agosto de 2017

Vagabon - Infinite Worlds

Camaronesa de nascimento e a viver em Nova Iorque, Laetitia Tamko é, desde 2014, Vagabon, uma autora, cantora, multi-instrumentista e compositora que escreve canções que parecem servir para ilustrar uma multiplicidade de mundos e emoções com uma filosofia muito própria e que se amplia após sucessivas audições, tal é o vício que ela provoca em quem se deixa imbuir pela sua cartilha sonora e aceita abstarir-se de tudo aquilo que o rodeia enquanto a ouve, nomeadamente as oito canções de Infinite Worlds, o seu registo de estreia, editado já este ano à boleia da Father/Daughter Records.

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Amante da música tradicional camaronesa, mas também atualizada quanto às novas tendências indie, em Infinite Worlds Laetitia revela-nos, com enorme fluidez e expressividade, a singluridade do seu registo vocal e a sua luminosidade e clarividência instrumental e melódica, em canções que começaram a ver o seu arquétipo desenhado desde 2014, ano em que começou a fazer circular algumas demos, de modo físico e digital, por editoras independentes. Uma cassete intitulada Persian Garden viu mesmo a luz do dia nesse mesmo ano, via Miscreant Records, um compêndio lo-fi onde a autora plasmou, à boleia da guitarra e da voz, os fundamentos básicos da sua filosofia sonora, que agora, três anos depois, também chama a si o sintetizador e a bateria.

Assim, dentro de um indie rock pulsante e onde não falta uma curiosa toada punk, explicíta e gloriosamente inspirada em 100 Years, o que temos em Infinite Worlds são composições com uma energia muito própria e que acabam por exalar também, em determinados momentos, a herança identitária africana de Tamko, já que se debruçam sobre a mudança da família da autora dos Camarões para os Estados Unidos e o choque cultural e as dificuldades de adaptação de toda a prole à nova realidade civilizacional e, mais especificamente, da autora ao sistema escolar norte-americano. São temas repletos de colagens eletrónicas com elevada dose de hipnotismo, que são depois adornados por uma bateria intensa e riffs de guitarra rugosos, contrabalançados pela doçura e inocência da sua voz, como fica explícito logo no single Embers, mas que também mudam bruscamente de direção, para uma toada mais acústica e contemplativa como é o caso do piscar de olhos simultâneo ao R&B e ao rock progressivo em Fear & Force e que acabam também por conseguir, através de várias nuances interpretativas, oscilar entre estes dois universos. O mesmo sucede, numa outra abordagem, em Minneapolis, canção repleta de alterações de tonalidade e euforia, ao nível da eletrificação das cordas, mas também rítmicas.

De modo sujo e empoeirado e pleno de memórias de um passado marcante e feito de mudanças, notavelmente autoral na crueza sentimental e orgânica de Cleaning House, em Infinite WorldsVagabon acaba por fazer uma espécie de reciclagem tecnológica e estética de tudo aquilo que sonoramente a inspira, fazendo-o de modo intimista e natural e de modo a refletir não só uma vontade expressa de experimentar, mas principalmente de estabelecer a sua própria identidade, que também tem um lado solidário no modo como tenta ser uma voz de incentivo e de guia para todos aqueles que hoje precisam de sair do seu habitat natural para sobreviver ou realizar sonhos e acabam, com frequência, por se deparar com uma realidade que coloca mais obstáculos do que portas a uma vivência plena e realizada. As raparigas incomuns, que não são celebradas e as mulheres de cor, são, como referiu recentemente à Pitchfork, os seus principais alvos. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 16:30
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Quarta-feira, 9 de Agosto de 2017

DRLNG - Black Blue

Foto de Drlng Band.

Depois do extraordinário EP Icarus, editado em 2014, os DRLNG, uma banda de Boston formada por Eliza Brown (voz), Martin Newman (guitarras) e James Newman (baixo) das cinzas dos míticos Plumerai, têm lançado uma série de temas em formato single, sendo o mais recente Black Blue, uma canção que conta com as participações especiais de Danny Chavis nas guitarras e Hayato Nakao na programação, membros dos nova iorquinos The Veldt.
Black Blue são pouco mais de cinco minutos que apostam numa fusão do indie rock mais melancólico e sombrio com alguns detalhes da folk americana e da pop. A voz pura e límpida de Eliza é um trunfo explorado positivamente até à exaustão e que ganha um realce ainda maior quando as guitarras algo turvas de Martin têm a capacidade de proporcionar uma aúrea algo mística e ampliada, não só à voz de Eliza, como também, no fundo, à própria mensagem da canção.
Nesta composição conseguimos dissecar diferentes vias e infuências, já que, ao mesmo tempo que há uma paisagem sonora que transparece calma e serenidade, também existe na guitarra uma tensão constante, numa melodia amigável e algo psicadélica, que se arrasta até ao final num longo diálogo entre o efeito metálico e diferentes dinâmicas percussivas.
Quer Black Blue, quer os dois singles já editados antes deste, See It All e Cobra, estão disponíveis para audição e download na plataforma bandcamp do projeto.Confere...


autor stipe07 às 02:16
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Sexta-feira, 30 de Junho de 2017

The National - Guilty Pleasures

The National - Guilty Party

Será a oito de setembro próximo que chegará aos escaparates e através da 4AD, Sleep Well Beast, o tão aguardado novo registo de originais dos norte-americanos The National, que irá suceder a Trouble Will Find Me, o disco que a banda de Matt Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf editou no já longínquo ano de 2013.

The System Only Dreams in Total Darkness foi o primeiro single retirado de Sleep Well Beast e agora chegou a vez de conferir Guilty Pleasures, canção que coloca os The National no trilho de uma sonoridade eminentemente reflexiva, como é apanágio do projeto, mas cada vez menos sombria e mais optimista, demonstrando o cada vez maior ecletismo de um grupo consciente de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes. Confere...


autor stipe07 às 18:17
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Quinta-feira, 29 de Junho de 2017

The Drums – Abysmal Thoughts

Oriundos de Brooklin, em Nova Iorque, os The Drums foram formados ainda na década passada por Jonathan Pierce e Jacob Graham e são um dos grandes nomes do movimento saudosista de revitalização do lo-fi, que tem feito escola no século XXI. Na verdade, continuam a ser uma daquelas bandas que pura e simplesmente não custa nada gostar, apesar dos momentos menos felizes que viveram ultimamente e que ditaram praticamente o ocaso do projeto quando, em 2010, o guitarrista Adam Kessler abandonou o projeto. Agora, alguns anos depois, o grupo ainda procura estabilizar-se numa posição de relevo dentro do espetro sonoro que calcorreia, procurando fazê-lo à boleia de Abysmal Thoughts, doze canções que viram recentemente a luz do dia à boleia da ANTI Records. 

Resultado de imagem para the drums 2017

Sucessor do pouco entusiasmente Encyclopedia, este Abysmal Thoughts é um passo firme na reabilitação de uns The Drums que corriam o sério risco de cairem no esquecimento, depois do furor que em tempos provocaram na crítica e no grande público, principalmente devido à obra-prima Portamento. Assim, a audição deste alinhamento oferece-nos uma coleção de boas canções com uma sonoridade bastante alegre e com traços bem delimitados da etiqueta sonora da banda que obedece à velha combinação mágica, assente numa presença forte do baixo, guitarras límpidas, uma bateria cadente e frenética, vibrante e cheia de energia e, a compor o ramalhete, um Jonathan Pierce cada vez mais seguro na voz. Logo em Mirror confere-se um rock algo melancólico e ingénuo, com esta ímpar impressão nostálgica a ampliar-se no modo como o timbre da guitarra que plana sobre o tema é dedilhada em I'll Fight For Your Life e no modo como o mesmo efeito metálico conduz Blood Under My Belt.

Este auspicioso início de Abysmal Thoughts dá-nos a percepção que o antecessor Encyclopedia foi, claramente, um momento menos bom e que este terceiro trabalho é que pode ser encarado como o mais fiel depositário da filosofia estilística firmada pelos The Drums em Portamento. O modo como a percussão mantém o ritmo frenético, tema após tema, o uso exaustivo de um caraterístico timbre da guitarra, geralmente a tocar três notas, a opção pela utilização cada vez mais precisa do sintetizador como veículo privilegiado de condução melódica, exemplar na já referida canção I'll Fight For Your Life e bastante eficaz no modo inventivo como se conjuga com os metais em Your Tenderness e a forma como em temas como a surf pop luminosa de Heart Basel, ou a resilência inquietante de Are U Fucked o baixo acomoda os restantes instrumentos, dando-lhes a rugosidade e a substância que precisam para a obtenção do tal charme lo-fi presente no adn do grupo, são caraterísticas transversais ao disco que reafirmam a certeza de que parece haver uma reentrada desta banda norte-americana numa rota mais certeira.

Abysmal Thoguhts é um trabalho interessante e pensado para ser escutado como um todo, contendo bons exemplos do potencial criativo e da sensibilidade lirica desta banda. Reergue os The Drums para uma segunda vida, que será ainda mais bem sucedida se o grupo não hesitar, no futuro, em colocar o seu enorme potencial criativo na abordagem mais corajosa e extrovertida de outros espetros sonoros, sem haver necessidade de colocarem em causa o habitual ambiente nostálgico que os carateriza. Espero que aprecies a sugestão... 

The Drums - Abysmal Thoughts

01. Mirror
02. I’ll Fight For Your
03. Blood Under My Belt
04. Heart Basel
05. Shoot The Sun Down
06. Head Of The Horse
07. Under The Ice
08. Are U Fucked
09. Your Tenderness
10. Rich Kids
11. If All We Share (Means Nothing)
12. Abysmal Thoughts


autor stipe07 às 14:17
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