Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Thurston Moore – The Best Day

Editado no passado dia vinte e um de outubro por intermédio da Matador Records, The Best Day é o novo álbum do norte americano Thurston Moore, uma das peças mais importantes de uma das principais engrenagens da história do rock alternativo e independente, chamada Sonic Youth, que também contava com a sua ex Kim Gordon e com Lee Ranaldo no núcleo duro. Este trabalho sucede a Demolished Thoughts (2011) e contou com os contributos de James Sedwards (guitarras), Deb Googe, dos My Bloody Valentine (baixo) e Steve Shelley (bateria), os músicos que atualmente têm acompanhado Moore.

Ao ser dominado por guitarras, The Best Day não surpreende, já que esse é o instrumento de eleição de Moore, um dos guitarristas fundamentais das últimas décadas e influência importante para novas e anteriores gerações de músicos. Permaentemente ligado à corrente, Moore abre as hostilidades com a impressionante Speak To The Wild, um verdadeiro tratado de indie rock, cru e sem espinhas e com uma melodia extroardinária. Pela forma como esse tema nos agarra logo pelos colarinhos e nos impele a submergirmos nele sem olharmos para trás, percebemos que isso acontece com toda a naturalidade porque este é um disco dominado pela distorção típica dos Sonic Youth, sempre acomodada em diferentes camadas, como convém aos verdadeiros amantes desta fórmula única e genuína que praticamente só preenchia e impregnava o receituário do coletivo nova iorquino. O baixo e a bateria também são dois elementos preciosos neste quadro chamado The Best Day, já que lhes compete adicionar o ritmo e o corpo necessários para a obtenção do ambiente denso, mas de fácil e aditiva assimilação, por onde as melodias se estendem e se cruzam, ao longo de oito canções que merecem a mais atenta audição. Depois, há ainda a cereja no topo do bolo, a voz de Thurston, um registo predominantemente grave mas produzido com uma limpidez incrivel, que ora parece um pouco deslocado das melodias, ora parece declamar em vez de cantar, mas é exatamente neste modo peculiar de cantar que reside o charme de uma prestação, que em Forevermore atinge um cariz particularmente emotivo, quando, quase hipnoticamente e, amiúde, sem avisar, Moore canta um refrão particularmente emotivo e de modo embargado (That’s why I’ll love you forevermore, That’s why I want you forevermore).

Com oito músicas a estenderem-se por mais de cinquenta minutos, obivamente que este é um disco com um elevado cariz experimental, apesar de estar bem definido e vincado o som caraterístico que domina a obra, que apenas se distancia ligeiramente quando é dada absoluta primazia a um enorme e barroco arsenal de cordas, dedilhadas de modo acústico, mas convincente, em Tapes, uma canção que prescinde da percurssão e que acolhe as violas com o vigor de um baixo omnipresente.

O protagonismo da vertente acústica volta a mostrar predicados em Vocabularies, uma canção onde o baixo abre ainda mais os braços para acolher uma viola num abraço com um sabor psicadélico, acentuado com uma voz algo enraivecida que se debruça sobre a temática da igualdade sexual e do preconceito (Vocabularies of dominance now obsolete, Un-possessed by all men). Esta ousadia permanente também fica plasmada, em direção oposta, no punk de Detonation e na distorção contínua, abrasiva e hipnótica que se estende ao longo do instrumental progressivo Grace Lake, um desejo de tentar algo diferente que direcionou-se, nestes e noutros casos, não tanto para o arsenal instrumental, mas para o catálogo de arranjos proporcionados pelo mesmo e, principalmente, para o processo de construção melódica das canções. Por exemplo, a já citada Speak To The Wild são oito minutos cheios de guitarras que nunca esmorecem e de constantes mudanças de ritmo e de explosões sónicas devidamente controladas e Forevermore estende-se por onze, com o conceito de diversidade patente no modo como os vários instrumentos competem entre si à medida que dão asas ao voo picado de uma melodia orelhuda, uma estratégia que se repete no single homónimo, um verdadeiro deleite para quem é um fã incondicional dos Sonic Youth.

The Best Day é, pois, um álbum que transporta a carreira a solo do autor para o universo mais próximo da banda icónica que fez parte, já que se Demolished Thoughts tinha uma componente acústica inédita e que, por acaso, era qualitativamente bastante recomendável, tendo surpreeendido positivamente a crítica e os ouvintes, desta vez Thurston Moore procurou fugir um pouco do óbvio e mostrar o seu lado pessoal mais enraivecido, incansável, agridoce e rugoso e assim, comprovar o seu próprio ecletismo. Espero que aprecies a sugestão... 

Thurston Moore - The Best Day

01. Speak To The Wild
02. Forevermore
03. Tape
04. The Best Day
05. Detonation
06. Vocabularies
07. Grace Lake
08. Germs Burn


autor stipe07 às 21:34
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Terça-feira, 21 de Outubro de 2014

Foxes In Fiction - Ontario Gothic

Líder da insuspeita etiqueta Orchid Tapes, Warren Hildebrand também compôe música e fá-lo como Foxes In Fiction. Natural de Toronto, no Canadá, mas a residir atualmente nos Estados Unidos, em Brooklyn, Nova Iorque, Warren editou no passado dia vinte e três de setembro, por intermédio da sua Orchid Tapes, um homónimo que é um verdadeiro tratado de dream pop, da autoria de um projeto que parece não encontrar fronteiras dentro da eletrónica que explora paisagens sonoras expressionistas mais calmas e ambientais.

Através das teclas do sintetizador, de samples de sons e ruídos variados e de uma percurssão sintética, as grandes referências instrumentais neste processo de justaposição de vários elementos sonoros, Warren criou sete canções que sublimam com mestria uma profunda emoção, já que transportam claramente bonitos sentimentos, dedicados integralmente a Cait, uma amiga muito próxima de Warren, que faleceu em 2010 e que ele conheceu depois de ter chegado em 2004 a Toronto com a sua família, vindos de uma zona rural no Ontario, onde viviam desde 2001. Apesar destas canções narrarem um dos períodos mais tumultuosos da existência do autor, em que acumulou muita ansiedade e tristeza, Warren preferiu abordar melodicamente essa conjuntura algo sombria da parte lírica das canções, de um modo suave e de algum modo luminoso, homenageando esta amizade que terá sido tão profunda, bonita e intensa como o ambiente sonoro de Ontario Gothic.

E no que concerne então a esse ambiente, destaco, desde logo, Into The Fields e Glow (v079), duas canções que constroem uma sequência onde a melancolia de ambas se junta numa única atmosfera sonora comandada por um sintetizador, que aliado a cordas e ao piano, origina um tom fortemente denso e contemplativo, com a voz de Warren a conferir a oscilação que depois é necessária para transparecer essa elevada veia sentimental. De seguida, em Shadow's Song, escuta-se um violino com arranjos que ficaram a cargo do consagrado Owen Pallett; Tal é a beleza dos mesmos, simultaneamente deslumbrantes e delicados e ampliados pela cândura da voz, que não há como evitar sermos levados para uma atmosfera muito própria, que transmite uma certa inocência romântica com uma estética sonora e visual inédita e onde a noção de retro terá sido um conceito claramente tido em conta. O clímax do alinhamento acaba por chegar com o tema homónimo, que ganha um tom fortemente frágil e uma atmosfera verdadeiramente sublime quando Warren entrega-se de corpo e alma à canção enquanto canta alguns dos versos mais intrincados e emocionais que pudemos escutar ultimamente.

Quando Warren decidiu deitar-se numa nuvem feita com a melhor dream pop operou um pequeno milagre sonoro e incubou um belíssimo álbum, com um conteúdo grandioso e um desempenho formidável ao nível instrumental e da voz, um tratado musical leve, cuidado e que encanta, não sendo difícil ficarmos rendidos ao seu conteúdo. Espero que aprecies a sugestão...

Image of FOXES IN FICTION - ONTARIO GOTHIC 12" (Pre-sale)

1. March 2011
2. Into The Fields
3. Glow (v079)
4. Shadow's Song
5. Ontario Gothic
6. Amanda
7. Altars


autor stipe07 às 20:45
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Sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Parquet Courts – Uncast Shadow Of A Southern Myth

Parquet Courts - Content Nausea

Os nova iorquinos Parquet Courts de Andrew Savage, lançaram na primeira metade deste ano um excelente trabalho intitulado Sunbathing Animal e mantêm-se criativamente bastante profícuos e apurados, já que acabam de anunciar o sucessor e com data de lançamento para novembro, como é habitual através da What’s Your Rupture?.

O novo trabalho dos Parquet Courts, ou melhor, dos Parkay Quarts, nome que usam para assinar este disco, vai chamar-se Content Nausea, contêm doze canções e o primeiro single revelado é o tema que encerra o alinhamento, que podes conferir abaixo.

Neste novo trabalho os Parkay Quarts afastam-se um pouco do habitual punk rock cru, rápido e lo fi onde costumam navegar confortavelmente, para apostar em sonoridades mais clássicas, num disco que inclui duas covers: These Boots Were Made For Walking de Nancy Sinatra e Slide Machine dos 13th Floor Elevators. Confere...

01 “Everyday It Starts”
02 “Content Nausea”
03 “Urban Ease”
04 “Slide Machine”
05 “Kevlar Walls”
06 “Pretty Machines”
07 “Psycho Structures”
08 “The Map”
09 “These Boots”
10 “Insufferable”
11 “No Concept”
12 “Uncast Shadow Of A Southern Myth”


autor stipe07 às 17:51
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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2014

Speedy Ortiz - Doomsday

Speedy Ortiz - "Doomsday"

A iniciativa LAMC, da autoria da etiqueta Famous Class, é uma homenagem da mesma a Ariel Panero, um antigo colaborador da editora que, enquanto esteve vivo, sempre tentou que algumas bandas conseguissem o justo reconhecimento e que tem um memorial em seu nome, o VH1 Save The Music, com as receitas de venda destes singles a reverterem integralmente para o mesmo, podendo ser adquiridos na plataforma Bandcamp.

Para cada single de 7" que é lançado, a Famous Class pede a um artista preferido que faculte um tema que nunca tenha editado e depois solicita ao mesmo que escolha uma banda nova e emergente que admire, para que contribua com uma canção para o lado b do single.

E o single mais recente a ser divulgado por esta iniciativa é da autoria dos Speedy Ortiz de Matt Robidoux (guitarra), Mike Falcone (bateria), Sadie Dupuis (guitarra, voz) e Darl Ferm (baixo), que, por sua vez, convidaram Chris Weisman para o lado b.

Doomsday é o nome da canção da banda de Northampton, um tema bastante melódico e algo emotivo e que aposta num som cheio de guitarras com raízes no rock alternativo da década de noventa. Chris Weisman contribui com um instante de pop acústica intitulado I Took It Off A Record. Confere...


autor stipe07 às 13:36
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Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

Blonde Redhead - Barragán

Kazu Makino, Amedeo Pace, Simone Pace são os Blonde Redhead e lançaram no passado dia dois de setembro Barragán, o nono álbum na carreira deste grupo oriundo de Nova Iorque e que tem construido um catálogo sonoro bastante consistente, com a dream pop sempre na fila da frente, no que diz respeito à sonoridade que replicam. Com o nome inspirado no célebro arquiteto mexicano Luis Barragán, Barragán viu a luz do dia por intermédio do selo Kobalt, em parceria com a Popstock e foi produzido por Drew Brown, um nome importante do universo indie e que já trabalhou com nomes tão significativos com Beck, Radiohead ou os The Books.

Há algo de intenso e peculiar em Barragán, o tema homónimo que abre o disco, um ruído agradável, cheio de detalhes campestres e que servirá certamente para acalmar a mente e o ouvido para o deleite sonoro que se segue, em mais nove canções que deslumbram pela riqueza da sua faceta instrumental, construída, quase sempre, a partir de sintetizadores e teclados bastante inspirados, que replicam discretos apontamentos e arranjos subtis , que algures entre a tal dream pop, mas também a folk e a eletrónica, dão vida a letras surrealistas e tingem de magia e cor os nossos ouvidos.

Lady M exala um charme intenso, feito com uma vocalização exuberante que se repete ao longo do disco e que atinge um verdadeiro clímax interpretativo em Cat On Tin Roof, principalmente pela forma como o tom agudo e extremamente sedutor e insinuante da voz de Kazu se entrelaça com um baixo encorpado e algo matreiro. Este mesmo baixo já tinha feito a sua primeira aparaição em Dripping e, obrigando-nos a abanar a anca logo à terceira canção, conferiu a necessária sensualidade que o requinte geralmente exige e que, pouco depois, intrometendo-se no jogo entre a guitarra e o sintetizador em Mind To Be Hand, conquista-nos irremediavelmente e leva-nos a não querer perder mais o rasto deste novo registo de um coletivo que tem construido um catálogo sonoro bastante consistente, que fez dos Blonde Redhead uma das bandas mais fascinantes dos nossos dia.

Há algo de desafiante no modo como este trio se afunda num experimentalismo refinado, que além de criar o ambiente perfeito para a voz sedutora de Makino, dá vida e som a texturas e cenografias sonoras ímpares e genuínas, não só no que concerne a tudo aquilo que é geralmente audível no domínio da eletrónica, mas também no campo do orgânico, tal é a delicadeza e a fragilidade de alguns arranjos de cordas ou sopros, quase sempre arrumados com uma impecável sobriedade e a evidenciar sinais de uma recomendável exuberância criativa.

Com uma carreira que virou decididamente agulhas para a pop a partir de Melody of Certain Damaged Demons (2000) e aprofundou essa inflexão com Misery is A Buttefly (2004) e, principalmente, no fantástico 23 (2007), os Blonde Redhead ainda arriscaram terrenos eminentemente eletrónicos com Penny Sparkle(2010). Seja como for, Barragán acaba por ser o passo lógico de uma certa agregação de todas as facetas sonoras que foram alimentando o trio, num alinhamento recheado de obras primas que revivem o que de melhor se podia escutar há uns bons trinta anos e quase sempre afundado num colchão de sons eletrónicos que fazem de Barragán um passeio divertido e, ao mesmo tempo, introspetivo, cheio de charme e bom gosto. Os Blonde Redhead conjugam e criam com distinção o que de melhor é feito atualmente no universo indie pop e numa época em que existe uma explosão de novas propostas, mas só se distinguem realmente aquelas que conseguem atingir um patamar qualitativo verdadeiramente inovador e deslumbrante. Em Nova Iorque ainda sobrevive, ao fim de quase três décadas, uma banda bastante inovadora e de sonoridade única, cada vez mais experimental e minimalista e que não se cansa de arregaçar as mangas em busca do constante desafio e da descoberta. Espero que aprecies a sugestão...

Blonde Redhead - Barragán

01. Barragán
02. Lady M
03. Dripping
04. Cat On Tin Roof
05. The One I Love
06. No More Honey
07. Mind To Be Had
08. Defeatist Anthem (Harry And I)
09. Penultimo
10. Seven Two

 


autor stipe07 às 21:29
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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

The Drums – Encyclopedia

Brooklyn, em Nova Iorque, é um verdadeiro viveiro musical sem paralelo no mundo inteiro, um éden para os amantes do universo sonoro indie e alternativo e os The Drums uma referência fundamental desse bairro da Big Apple. Atualmente formados pela dupla Jonathan (Jonny) Pierce e Jacob Graham, a mesma que fundou o grupo e já sem as presenças de Adam Kessler e Connor Hanwick, os The Drums já têm sucessor para o excelente Portamento (2011), um trabalho chamado Encyclopedia, lançado no último dia vinte e dois de setembro, por intermédio da Minor Records.

Logo que se conheceu, há algumas semanas, o primeiro avanço de Encyclopedia, percebeu-se que há uma inflexão sonora relativamente aquelas que têm sido as habituais propostas dos The DrumsMagic Mountain é um portento de post punk, que parece ter vindo diretamente do período aúreo e, por isso, mais sombrio, do indie rock, um género que floresceu em plena transição entre as décadas de setenta e oitenta, uma verdadeira montanha mágica sintetizada e movida com as guitarras mais ousadas e agressivas que se escutaram até hoje neste projeto.

Pouco tempo depois, com a divulgação de I Can't Pretend, o panorama anteriormente descrito confirmou-se, com os sintetizadores novamente na linha da frente do processo de construção melódica da canção e com as expetativas no seio dos mais atentos a subirem numa escala tão exponencial como a rugosa vitalidade experimental que os The Drums demonstravam ter nesta nova fase da sua existência, saudando-se a opção pelo encosto a tão importantes referências. Tal facto, na minha opinião, faz com que seja cada vez mais percetivel a evidente capacidade que esta dupla possui de criar algo único e genuíno com a sua discografia, algo que foi muito prometido nos primórdios da banda e que agora parece regressar com renovado vigor.

Com a audição integral de Encyclopedia e tendo em mente os dois temas previamente conhecidos, confirmaram-se as minhas suspeitas, que me diziam que, apesar de agora serem apenas dois músicos, ampliou-se o cardápio instrumental de que os The Drums se servem para criar, mais diversificado, com o sisntetizador a abrir um novo leque de possibilidades que a banda não se coibiu de explorar, de forma particularmente assertiva, em alguns momentos do disco. Além das duas canções já referidas, temas como a balada Kill My Heart, que fala de sonhos muitas vezes impossíveis, ou Face Of God” e Bell Laboratories, provam que os The Drums chegaram ao estúdio de mente aberta e dispostos a servir-se de tudo aquilo que é colocado ao seu dispôr para criar música, sejam instrumentos eletrónicos ou acústicos, para assim fazerem canções cheias de sons poderosos e tortuosos, com sintetizadores flutuantes e uma voz particularmente inspirada. A postura vocal de Pierce está mais madura e suculenta e particularmente tocante e emocionada em alguns momentos, com canções como I Hope Time Doesn't Change e Kiss Me Again a serem aquelas em que melhor se pode apreciar esta nova formatação vocal algo nostálgica, amiúde feita com uma quase pueril simplicidade.

Outro dos momentos altos do álbum é Face Of God, uma boa canção que volta a abordar questões mentais, agora relacionadas com os nosso medos e como devemos ter a capacidade de controlar os nosso momentos de maior ansiedade, para que não sejamos paralisados por eles e incapacitados de poder ter uma vida normal e realizada numa sociedade contemporânea altamente competitiva e propícia à incubação de fobias e receios. Os The Drums sempre apreciaram a abordagem deste género de temáticas particularmente existencialistas e a já citada Bell Laboratories é outro tema que o demonstra, em especial no modo como nos convida e incita a nunca termos receio de dar aquele passo em frente que muitas vezes nos falta, rumo ao desconhecido, que pode ser compensador, devido aos tais receios que nos toldam a iniciativa.

Em Encyclopedia os The Drums alargam os seus horizontes e contrariam quem considera que as fórmulas bem sucedidas devem ser replicadas até à exaustão e que as formas antigas de composição são sempre as mais eficientes. É notório que a dupla quer fazer parte da equipa daqueles que se orgulham dos atalhos e das rotas divergentes que exploram e, fazendo-o com este nível qualitativo que Encyclopedia emana, não dar argumentos a quem quiser catalogar com injusto menosprezo um instante discográfico de uns The Drums que, mais que perceber zonas de conforto, talvez estejam com vontade de, radicalmente, procurar romper com as mesmas e, para já, ousar viver numa espécie de limbo criativo e ir vendo o que dá. Seja como for, estamos na presença de um trabalho que só demonstra a relevância deste projeto nova iorquino no universo indie atual, uma prova evidente que o grupo não desiste de ser uma referência e que procura fazê-lo com contemporaneidade, consistência e excelência. Espero que aprecies a sugestão...

The Drums - Encyclopedia

01. Magic Mountain
02. I Can’t Pretend
03. I Hope Times Doesn’t Change Him
04. Kiss Me Again
05. Let Me
06. Break My Heart
07. Face Of God
08. U.S. National Park
09. Deep In My Heart
10. Bell Laboratories
11. There Is Nothing Left
12. Wild Geese


autor stipe07 às 21:32
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Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

School Of Seven Bells – I Got Knocked Down (But I’ll Get Up)

A vinte e nove de dezembro de 2013, perdia a vida, aos trinta e cinco anos, o guitarrista Benjamin Curtis da dupla School of Seven Bells. Curtis tinha sido diagnosticado com um tipo raro de cancro linfático logo no início desse ano. Antes de sua morte, o músico gravou no hospital, com um laptop, uma versão de I Got Knocked Down (But I’ll Get Up), um clássico de Joey Ramone, lançado no álbum póstumo Don't Worry About Me (2002), o primeiro trabalho a solo do vocalista dos Ramones.

Esta cover de I Got Knocked Down (But I’ll Get Up), conta com a voz de Alejandra Deheza, a parceira de Benjamin Curtis nos School of Seven Bells. Confere...

School Of Seven Bells - I Got Knocked Down (But I'll Get Up)


autor stipe07 às 13:24
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Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Interpol – El Pintor

Depois de um interregno de quase quatro anos, os Interpol estão de regresso aos lançamentos com El Pintor, o novo disco desta banda liderada por Paul Banks. Escrito e gravado durante o ano de 2013, em Nova Iorque, cidade de onde o grupo é natural, nos estúdios Electric Lady Studios & Atomic Sound, El Pintor foi misturado em Londres, nos Assault & Battery Studios, por Alan Moulder.

Todas as canções de El Pintor foram escritas e produzidas pelos Interpol, com Daniel Kessler à guitarra, Samuel Fogarino na bateria e Paul Banks na voz, na guitarra e, pela primeira vez, no baixo. O disco conta com as participações especiais de Brandon Curtis (The Secret Machines) nos teclados em nove canções, de Roger Joseph Manning, Jr. (Beck) nos teclados em Tidal Wave e de Rob Moose (Bon Iver) a tocar violino e viola em Twice as Hard.

Independentemente do estado atual daquele indie rock de cariz mais alternativo e que aposta no revivalismo de outras épocas, nomeadamente os primórdios do punk rock mais sombrio que fez furor nos finais da década de setenta e início da seguinte, com nomes com os Joy Division ou os Cure à cabeça, o género deve imenso a nomes como os The White Stripes, The Killers, The Strokes e, principalmente, a estes Interpol, grupos que se destacaram com o disco de estreia no início deste século e que, agregados a esse estigma, procuraram evoluir, nos trabalhos seguintes, para outras sonoridades e para a exploração de diferentes territórios sonoros. Os Interpol seguiram esse percurso e nem sempre o fizeram de forma imaculada, apesar de, pessoalmente, não desvalorizar tanto o conteúdo de Our Love To Admire e do homónimo Interpol, os dois antecessores deste El Pintor, como tanta crítica que li sobre esses trabalhos quando viram a luz do dia. E, na verdade, em 2014, os Interpol resolveram voltar ao trilho inicial, sendo este disco uma espécie de novo reinício de um trio que finalmente percebeu que a sua imensa legião de fãs não se importa que se mantenham no território sonoro onde se sentem mais confortáveis, aquele que os lançou para as luzes da ribalta, quando com o indie rock genuíno de Antics e o post punk revivalista de Turn On The Bright Lights conquistaram meio mundo.

El Pintor, um curioso anacrónico da palavra Interpol, não é Antics, ou Turn On The Bright Lights, ou uma súmula dos dois, mas é o álbum dos Interpol que melhor homenageia esse extraordinário início de carreira. Este trio de Nova Iorque está, pois, de regresso ao formato que exalta o espírito sombrio dos anos oitenta e não é necessário escutar demasiados acordes de All The Rage Back Home, o tema de abertura, para se perceber essa evidência, à medida que iniciamos uma viagem alicerçada num Banks incisivo como nunca, mas também em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas e num baixo cheio daquele groove punk, com Sam a colar todos estes elementos, através da bateria, com uma coerência exemplar.

Quando o tema de abertura de um disco é tão assertivo, ou mantemos as expetativas ou assumimos que a canção charneira foi colocada no início e o restante alinhamento não atinge essa bitola; Em El Pintor vale a pena seguir pelo primeiro caminho, porque o restante conteúdo sonoro do alinhamento replica e acentua os elogios que a primeira canção suscita. Aquela sensualidade algo enigmática, mas nada figurativa, que sempre rodeou os Interpol, exala por todos os poros de My Blue Supreme e de My Desire, a primeira uma canção que nos obriga a inspirar e a expirar ao ritmo da mesma até ao êxtase final e a segunda um tema que nos recorda aquele prazer tantas vezes difícil de descrever que os Interpol sempre provocaram no nosso íntimo, uma canção de resposta por parte da banda a todos aqueles que já duvidavam das capacidades do grupo em se focar no som que melhor os identifica e na temática lírica que exemplarmente sempre abordaram, relacionada com o lado mais complicado das relações, a frustração e uma faceta algo provocatória que nunca enjeitaram demonstrar (In my desire, I'm a frustrated man, some of us ask for peace, do what we can, play me out, play me out, look like your chance has come).

Outros destaques de El Pintor são o post punk de Everything Is Wrong, o indie rock anguloso e que marca claramente a tal ruptura com o passado recente de Ancient Ways (Oh fuck the ancient ways), Anywhere, uma canção que mantém-nos empolgados do início ao fim, Breaker 1, um extraordinário tema que nos remete para a sonoridade épica, melódica e melancólica do clássico NYC, um dos momentos maiores de Antics e a balada Same Town, New Story; um verdadeiro símbolo, até pelo título, desta nova vida do grupo.

El Pintor é um recomeço em grande forma, como já referi, mas também um grito de raiva por parte da banda em relação às críticas que receberam nos últimos anos. Percebe-se, por este disco, que os Interpol assumiram que há um caminho que só eles podem trilhar solitariamente e que já perceberam que as formas antigas de composição são as mais eficientes, mas que se orgulham dos atalhos e das rotas divergentes que já exploraram e que qerem quebrar o enguiço de quem insiste em querer catalogar com injusto menosprezo alguns instantes discográficos de determinados projetos que procuraram apenas, ao longo da carreira, perceber zonas de conforto ou, radicalmente, procurar romper com as mesmas e até viver numa espécie de limbo criativo e ir vendo o que dá.

El Pintor é indie rock e pós punk sem falsos pressupostos, tem um valor natural e genuíno e não precisa de uma análise demasiado profunda para o percebermos, até porque um dos seus grandes atributos, enquanto disco, é não ser demasiado intrincado ou redundante no que concerne aos arranjos e ao arsenal instrumental de que se serve, algo que só demonstra a relevância deste trio nova iorquino no universo indie atual, uma prova evidente que o grupo está de regresso às origens com contemporaneidade, consistência e excelência. Espero que aprecies a sugestão...

Interpol - El Pintor

01. All The Rage Back Home
02. My Desire
03. Anywhere
04. Same Town, New Story
05. My Blue Supreme
06. Everything Is Wrong
07. Breaker 1
08. Ancient Ways
09. Tidal Wave
10. Twice As Hard


autor stipe07 às 22:04
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Quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

Parquet Courts – This Is Happening Now (LAMC 13#)

Parquet Courts - "This Is Happening Now"

Há alguns dias fiz referência à iniciativa de caridade FAMOUS CLASS RECORDS / LAMC 7" SERIES, para dar conta de Nero (Has A Lot To Think About), a nova canção dos White Fence, um single que tinha como lado b um tema de Jack Name, aka John Webster John, o habitual guitarrista nos White Fence. Hoje foi dado a conhecer o décimo terceiro tomo da coleção, um single que tem como grande destaque This Is Happening Now, dos Parquet Courts.

Esta banda de Brooklyn, Nova Iorque, surpreendeu no início do ano com o excelente Sunbathing Animal e esta nova canção do grupo liderado por Andrew Savage mantém a receita assertiva desse disco, feita com arranjos sujos e as guitarras desenfreadas, num tema com uma forte índole psicadélica e que parece ter viajado no tempo e amadurecido numa simbiose entre garage rock pós punk.

O lado b do single chama-se Spike Train, um original dos também nova iorquinos Future Punx e podes adquirir os dois temas no bandcamp, gratuitamente ou com a possibilidade de doares um valor, como se exige, naturalmente, numa iniciativa de caridade. Confere...


autor stipe07 às 16:47
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

Sinkane - Mean Love

Quase dois anos após o magnífico Mars, Sinkane está de regresso aos discos com Mean Love, o seu novo registo a solo, novamente com a chancela da insuspeita DFA Records de James Murphy. Extraordinário músico e compositor, oriundo de uma família de professores universitários e músicos do Sudão, Sinkane desembarcou nos Estados Unidos da América em 1989 como refugiado político e cresceu no Ohio a ouvir punkreggae, música eletronica e sons típicos da sua terra natal. Entretanto mudou-se para Brooklyn, em Nova Iorque, onde, antes de iniciar a carreira a solo, tocou com nomes tão importantes do universo indie como os Of Montreal, Yeasayer, ou Caribou e, nesta última década, tem-se debruçado a fundo sobre aquilo que vai escutando e acontecendo musicalmente ao redor, num bairro musicalmente tão efervescente como é Brooklyn, tendo já abordado espetros sonoros tão divergentes como o post rock ou a música de cariz mais erudito, mas nunca renegando as suas raízes africanas, sendo esse, muitas vezes, o elo de ligação privilegiado entre os diferentes géneros que remexe e onde se posiciona.


Se a sonoridade de Mars apontava, acima de tudo, para a sua origem nos povos sudaneses e as suas raízes músicais africanas, em Mean Love Sinkane olha com outra profundidade para aquilo que mais o seduz na música norte-americana e em especial na soul. Com a permanente parceria com os nomes de peso acima citados e, mais recentemente, tendo sido incumbido da direção musical de Atomic Bomb, de Willian Onyeabor, Sinkane acabou por se especializar num espetro sonoro que diz muito ao país que o acolheu. Desse modo, Mean Love é uma bela homenagem à soul que o adotou, mas onde não falta o R&B ou a bossa nova, por exemplo, para enriquecer ainda mais um quadro sonoro magnífico, feito de dez canções que merecem a nossa mais completa devoção. Sejamos, ou não, verdadeiros apreciadores deste universo musical, devemos olhar para Mean Love como uma jóia rara, já que seste disco é um paraíso soul em todos os sentidos e isso deve-se à sua sonoridade universal, dançante e, ao mesmo tempo, íntima e suave.

Ouve-se Mean Love com alguma descontração e somos atravessados por uma certa homogeneidade sonora, como se o alinhamento fosse um todo constituido pela soma de várias partes que pouco diferem entre si. No entanto, da pop luminosa e assente num jogo entre o orgânico, audível na percurssão das palmas e o sintético fornecido pelo efeito do teclado sintetizado em How We Be, ao afrobeat de New Name, passando pelo funk de Yacha, o meu tema preferido do disco, a pop melancólica de Hold Tight e de Son, a bossa nova que sustenta Moonstruck, o reggae que alimenta Young Trouble, o jazz e o blues de Mean Love, o tema homónimo, ou a implícita toada folk de Galley Boys, que se torna mais festiva devido ao efeito de sopros em Omdurman, Mean Love é uma verdadeira passerelle de uma diversidade incrivel de traços e tiques, uma mistura de sonoridades do passado com as ilimitadas possibilidades técnicas que o desenvolvimento tecnológico proporciona e disponibiliza aos produtores e compositores.

Como sempre, Gallab toca quase todos os instrumentos e não se fez rogado no uso de efeitos, quer nas batidas, quer nas guitarras, conseguindo soar, em simultâneo e de forma inteligente, sofisticado e descontraído, havendo no ambiente criado pelas canções um certo humor e boa disposição, numa atmosfera típica de um afável e acolhedor dia de verão.

Em Mean Love, Sinkane deitou-se numa nuvem feita com a melhor pop atual e operou mais um milagre sonoro; Tornou-se expansivo e luminoso, encheu essa nuvem com uma sonoridade eminentemente introspetiva, mas que não deixa de ser alegre, floral e perfumada e fê-lo sem grandes excessos e com um belíssimo acabamento açucarado, duas das permissas que justificam coerência e acerto na estratégia musical escolhida. Mean Love é um belíssimo disco, com um conteúdo grandioso e um desempenho formidável ao nível instrumental e da voz, um tratado musical leve, cuidado e que encanta, não sendo difícil ficarmos rendidos ao seu conteúdo. Espero que aprecies a sugestão... 

01. How We Be
02. New Name
03. Yacha
04. Young Trouble
05. Moonstruck
06. Mean Love
07. Hold Tight
08. Galley Boys
09. Son
10. Omdurman


autor stipe07 às 22:25
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