Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

Everything Everything - A Fever Dream

A Fever Dream é o nome do novo disco dos britânicos Everything Everything, o quarto registo de originais desta banda oriunda de Manchester e que sucede ao aclamado Get to Heaven, o álbum que o quarteto lançou há cerca de dois anos. Depois de terem trabalhado em Get To Heaven com o consagrado Stuart Price (Kylie Minogue, The Killers e Scissor Sisters), neste A Fever Dream contaram, na gravação e produção, com a ajuda de James Ford, habitual colaborador de bandas como os  Arctic Monkeys, Depeche Mode ou os Foals.

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Desde 2010 que os Everything Everything abordam a condição humana contemporânea e a espécie de miserabilismo que se tem apoderado de um ocidente onde recentemente o brexit, a mudança política no outro lado do atlântico e o terrorismo são eventos algo traumáticos e que marcam negativamente uma realidade fortemente competitiva, frenética e até egoísta para cada entidade individual que luta por um lugar ao sol. Em suma, os Everything Everything têm sabido estar sintonizados com o absurdo sociológico e político dos nossos tempos, numa carreira bastante marcada por momentos de profunda reflexão sobre aquilo que os rodeia e agora fazem-no novamente, de modo ainda mais incisivo e abrigados numa pop hiperativa e fortemente sintetizada, a filosofia sonora fundamental que sustenta este A Fever Dream, onze canções que mostram o quanto o nosso mundo se parece cada vez mais, na óptica do grupo, um lugar pouco convidativo e demasiado instável, porque está repleto de aramadilhas e ziguezagues. A título de exemplo, se a saída do Reino Unido da União Europeia e o aumento da xenofobia nesse país são retratados em Put Me Together, já Big Game aborda os perigos da propensão humana para o autoritarismo e para o individualismo compulsivos, com ambas as canções a constituirem-se como dois bons exemplos do foco que o grupo coloca nestas questões existenciais.

Os Everything Everything sempre procuram replicar um som intuitivo, mas que também fosse desafiante. E Se Get To Heaven foi, logo à partida, um trabalho brilhante no modo como demorava a entrar no âmago dos fãs, em A Fever Dream a digestão do conteúdo sonoro parece ser mais acessível, mas sem quebrar o encanto que se sente sempre que um alinhamento nos faz o convite inconsciente e viciante para uma nova audição. Esta permissa já ficou de algum modo explícita quando há algumas semanas foi divulgado Can't Do, o single de apresentação, uma canção que piscando o olho a um vasto leque de influências que vão da dream pop ao rock progressivo, passando pela eletrónica e o indie rock contemporâneo, plasma um refinado e cuidadoso processo de corte e costura de todo o espetro musical que seduz o grupo. Tematicamente, é um tema que, de acordo com Jonathan Higgs, o líder dos Everything Everything, pretende alertar as consciência para a noção de normalidade, porque, de acordo com ele, esse é um conceito que ninguém sabe definir com exatidão e, por isso, nenhuma entidade ou indíviduo se pode apropriar do mesmo e apresentar-se como tal e as outras canções confirmam a impressão inicial que o tema causou. A distorção abrasiva da guitarra e as várias nuances rítmicas de Ivory Tower ou o modo como em Run The Numbers passamos, numa fração de segundos, de uma atmosfera contemplativa para um rodopio eletrificado carimbam este modo apenas aparentemente irrefletido de compôr, numa espécie de anarquia minuciosamente planeada que no tema homónimo ganha uma dimensão única devido a um piano cheio de solenidade acompanhado por uma electrónica explosiva feita de beats vincados e o falsete único de Higgs, também extraordinário a refletir uma vincado humor negro à medida que acompanha os sintetizadores de Night Of The Long Knives.

Disco indutor, frenético e provocante, A Fever Dream é um passo seguro e maduro dos Everything Everything rumo ao estrelato, um agregado interessante e improvável de análise psicológica e sociológica do estado atual do mundo, mas que pode sempre encontrar algum conforto e até, quem sabe, a esperada redenção e salvação nas pistas de dança nele espalhadas. Talvez possa ser a música o elemento conciliador e libertador das civilizações e os Everything Everything parecem querer voluntariar-se para levar a cabo essa cruzada inolvidável. Espero que aprecies a sugestão...

Everything Everything - A Fever Dream

01. Night Of The Long Knives
02. Can’t Do
03. Desire
04. Big Game
05. Good Shot, Good Soldier
06. Run The Numbers
07. Put Me Together
08. A Fever Dream
09. Ivory Tower
10. New Deep
11. White Whale


autor stipe07 às 14:52
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Quarta-feira, 21 de Junho de 2017

Everything Everything – Can’t Do

Everything Everything - Can't Do

A Fever Dream verá a luz do dia a dezoito de agosto e será o nome do próximo disco dos britânicos Everything Everything, o quarto registo de originais desta banda oriunda de Manchester e que sucederá ao aclamado Get to Heaven, o álbum que o quarteto lançou há cerca de dois anos. Depois de terem trabalhado em Get To Heaven com o consagrado Stuart Price (Kylie Minogue, The Killers e Scissor Sisters), neste A Fever Dream contaram, na gravação e produção, com a ajuda de James Ford, habitual colaborador de bandas como os  Arctic Monkeys, Depeche Mode ou os Foals.

A Fever Dream tem em Can't Do o single de apresentação, uma canção que piscando o olho a um vasto leque de influências que vão da dream pop ao rock progressivo, passando pela eletrónica e o indie rock contemporâneo, plasma um refinado e cuidadoso processo de corte e costura de todo o espetro musical que seduz o grupo. Tematicamente, é um tema que, de acordo com Jonathan Higgs, o líder dos Everything Everything, pretende alertar as consciência para a noção de normalidade, porque, de acordo com ele, esse é um conceito que ninguém sabe definir com exatidão e, por isso, nenhuma entidade ou indíviduo se pode apropriar do mesmo e apresentar-se como tal. Confere...


autor stipe07 às 06:26
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Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2016

American Wrestlers - Goodbye Terrible Youth

American Wrestlers é um projeto liderado por Gary McClure, um escocês que vive atualmente nos Estados Unidos, em St. Louis, no estado do Missouri. A ele juntam-se, atualmente, Ian Reitz (baixo), Josh Van Hoorebeke (bateria) e Bridgette Imperial (teclados). Tendo Gary crescido em Glasgow, no país natal, mudou-se há alguns anos para Manchester, na vizinha Inglaterra, onde conheceu a sua futura esposa, com quem se mudou, entretanto, para o outro lado do Atlântico.

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Depois de em Manchester ter feito parte dos míticos Working For A Nuclear Free City, juntamente com o produtor Philip Kay, um projeto que chegou a entrar em digressão nos Estados Unidos e a chamar a atenção da crítica e a ser alvo de algumas nomeações, a verdade é que nunca conseguiu fugir do universo mais underground acabando por implodir.

Já no lado de lá do atlântico, Gary começou a compôr e a gravar numa mesa Tascam de oito pistas e assim nasceram os American Wrestlers. O projeto deu um grande passo em frente, ao assinar pela insuspeita Fat Possum e daí até ao disco de estreia, um homónimo editado na primavera do ano passado, foi um pequeno passo. American Wrestlers impressionou pelo ambiente sonoro com um teor lo fi algo futurista, devido à distorção e à orgânica do ruído em que assentavam grande parte das canções, onde não faltavam alguns arranjos claramente jazzísticos e uma voz num registo em falsete, com um certo reverb que acentuava o charme rugoso da mesma.

Se essa estreia, já na prateleira lá de casa, nos oferecia uma viagem que nos remetia para a gloriosa época do rock independente, sem rodeios, medos ou concessões, proporcionada por um autor com um espírito aberto e criativo, o sucessor, um trabalho intitulado Goodbye Terrible Youth e que viu a luz do dia em meados de novembro, cimenta essa filosofia vencedora. Mas no modo como, logo em Vote Tatcher, o sintetizador se relaciona com o fuzz da guitarra, esclarece-nos que à segunda rodada Gary libertou-se de uma certa timidez introspetiva, para se apresentar mais luminoso e expressivo. Aliás, isso também percebe-se em Give Up, a primeira amostra divulgada, canção que impressiona pela melodia frenética em que assenta e que oscila entre o épico e o hipnótico, o lo-fi e o hi-fi, com a repetitiva linha de guitarra a oferecer um realce ainda maior ao refrão e as oscilações no volume a transformarem a canção num hino pop, que funciona como um verdadeiro psicoativo sentimental com uma caricatura claramente definida e que agrega, de certo modo, todas as referências internas presentes na sonoridade de American Wrestlers, mas com superior abrangência e cor.

Na verdade, o quarto onde McClure compôs o registo de estreia transformou-se num grande palco, sem colocar em causa aquele clima algo misterioso que define este projeto American Wrestlers, mas oferecendo ao ouvinte uma maior multiplicidade de detalhes e caraterísticas dos vários espetros sonoros que definem o indie rock alternativo. O grunge que exala de So Long, o crescente frenesim psicadélico que nos envolve em Hello, Dear, o fuzz inebriante do baixo de Someone Far Away e o modo como o riff da guitarra ácido e extremamente melódico rebarba de alto a baixo a secção rítmica de Terrible Youth, permitem-nos contemplar todo este charme rugoso que os American Wrestlers replicam hoje melhor que ninguém e dão-nos o mote para um álbum curioso e desafiante, que impressiona pela forma livre e espontânea como os vários instrumentos, mas em especial as guitarras, se expressam, guiadas pela nostalgia e pelas emoções que Gary pretende transmitir. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 23:15
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Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2016

Tim Burgess And Peter Gordon – Same Language, Different Worlds

Foi já a dois de setembro e à boleia da O Genesis que chegou aos escaparates Same Language, Different Worlds, um tomo de nove canções que resulta de uma colaboração profícua entre Tim Burgess, vocalista dos The Charlatans e o mítico Peter Gordon, que já na casa dos sessenta anos, continua a ser um mestre do rock experimental, tendo feito parte dos créditos de discos dos The Love of Life Orchestra, Laurie Anderson e The Flying Lizards, entre outros. Os dois músicos conheceram-se em Nova Iorque, no já longínquo ano de 2012 e desde então começaram a incubar e a gravar estas canções que contam com a participação especial de Ernie Books (participou com Arthur Russel no primeiro álbum dos Modern Lovers), Peter Zummo (trombone), Mustafa Ahmed (congas) e Nik Voyd (DFA) e são inspiradas no trabalho que em tempos Gordon desenvolveu com os já referidos The Love Of Life Orchestra, um dos nomes mais relevantes do catálogo da DFA de Peter Murphy.

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Quem estiver à espera de encontrar nestas novas canções a típica sonoridade dos The Charlatans, banda que na década de noventa misturou o rock clássico com sonoridades mais experimentais, encabeçando um verdadeiro motim sonoro, para regozijo da agitada juventude britânica, sempre sedenta de novas experiências e daquela efervescência que o clima local não proporciona e que acaba por ser a música, muitas vezes, a ter esse papel agitador e impulsivo, desengane-se, porque o que temos neste Same Language, Different Worlds é uma exploração de paisagens sonoras que, obedecendo também a um conceito estilístico eminentemente experimental, procuram recriar um ambiente futurista algo glam, mas sem deixar de acomodar-nos temporalmente nas mais recentes tendências. O single Begin não terá sido escolhido de modo inocente para abrir o alinhamento, já que a forte sintetização do teclado, entrelaçada com o timbre soturno da voz de Burgess e o estrilho agudo de uma guitarra planante, plasmam essa convivência entre aqueles que são hoje alguns dos traços mais vincados da pop eletrónica e os novos horizontes que se vão colocando ao próprio rock

No restante alinhamento do disco, não pode passar em claro a soul negra de Say, o luminoso e aquático single Ocean Terminus, o groove pop que sobrevive da fusão entre saxofone e batidas em Around e Being Unguarded, com esse mesmo saxofone a transmitir uma alma incrível à irónica Tracks Of My Past e o tributo ao rock dos anos quarenta deste século feito em com Temperature High, tema onde a vasta miríade de arranjos orgânicos impressiona, assim como alguns instrumentos de percussão algo inéditos,com destaque para o bongo. Quer estas quer as restantes canções são uma resoluta declaração de sobrevivência misturada com a reflexão que esta dupla certamente faz sobre o seu som e o modo como o viveram nos mais variados projetos em que se envolveram e em como ele pode sobreviver imaculado à passagem do tempo e deixar marcas impressivas para o futuro próximo. Same Language, Different Worlds é, em suma, um excelente trabalho de rock mutante, que dá vida a letras impressivas e inspiradas, num disco atemporal e revivalista, porque é de hoje, mas pode vir a ser novamente editado lá para 2040. Espero que aprecies a sugestão...

Tim Burgess And Peter Gordon - Same Language, Different Worlds

01. Begin
02. Say
03. Around
04. Being Unguarded
05. Ocean Terminus
06. Temperature High
07. Like I Already Do
08. Tracks Of My Past
09. Oh Men


autor stipe07 às 18:23
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Segunda-feira, 15 de Agosto de 2016

American Wrestlers - Give Up

American Wrestlers é um projeto liderado por Gary McClure, um escocês que vive atualmente nos Estados Unidos, em St. Louis, no estado do Missouri. Tendo crescido em Glasgow, no país natal, mudou-se há alguns anos para Manchester, na vizinha Inglaterra, onde conheceu a sua futura esposa, com quem se mudou entretanto para o outro lado do Atlântico.

Depois de em Manchester ter feito parte dos míticos Working For A Nuclear Free City, juntamente com o produtor Philip Kay, um projeto que chegou a entrar em digressão nos Estados Unidos e a chamar a atenção da crítica e a ser alvo de algumas nomeações, a verdade é que nunca conseguiu fugir do universo mais underground acabando por implodir.

Já no lado de lá do atlântico, Gary começou a compôr e a gravar numa mesa Tascam de oito pistas e assim nasceram os American Wrestlers. O projeto deu um grande passo em frente, ao assinar pela insuspeita Fat Possum e daí até ao disco de estreia, um homónimo editado na primavera do ano passado, foi um pequeno passo. American Wrestlers impressionou pelo ambiente sonoro com um teor lo fi algo futurista, devido à distorção e à orgânica do ruído em que assentavam grande parte das canções, onde não faltavam alguns arranjos claramente jazzísticos e uma voz num registo em falsete, com um certo reverb que acentuava o charme rugoso da mesma.

Se essa estreia nos oferecia uma viagem que nos remetia para a gloriosa época do rock independente, sem rodeios, medos ou concessões, proporcionada por um autor com um espírito aberto e criativo, o sucessor, um trabalho intitulado Goodbye Terrible Youth e que irá ver a luz do dia em meados de novembro, deverá cimentar essa filosofia vencedora, com Give Up, a primeira amostra divulgada, a impressionar pela melodia frenética em que assenta e que oscila entre o épico e o hipnótico, o lo-fi e o hi-fi, com a repetitiva linha de guitarra a oferecer um realce ainda maior ao refrão e as oscilações no volume a transformarem a canção num hino pop, que funciona como um verdadeiro psicoativo sentimental com uma caricatura claramente definida e que agrega, de certo modo, todas as referências internas presentes na sonoridade de American Wrestlers. Goodbye Terrible Youth será, de certeza, um dos grandes lançamentos do ocaso de 2016. Confere Give Up e o alinhamento do disco...

01 “Vote Thatcher”
02 “Give Up”
03 “So Long”
04 “Hello, Dear”
05 “Amazing Grace”
06 “Terrible Youth”
07 “Blind Kids”
08 “Someone Far Away”
09 “Real People”


autor stipe07 às 18:15
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Terça-feira, 17 de Maio de 2016

The Stone Roses – All For One

The Stone Roses - All For One

Mais de duas décadas depois do aclamado Second Coming (1994), o segundo registo de originais da banda e que sucedeu ao aclamado The Stone Roses, o disco de estreia, lançado em 1989, os britânicos The Stone Roses resolveram dar um novo impulso à carreira. A ideia inicial seria organizar uma digressão de verão, mas os ensaios foram tão produtivos que parece certo um novo disco, a ser lançado muito em breve.

Enquanto o terceiro registo discográfico dos The Stone Roses não chega aos escaparates, All For One é o primeiro tema divulgado pelo grupo de Manchester, uma canção conduzida por guitarras incisivas e uma percurssão inebriante e que não defrauda minimamente o ilustre passado da banda de Ian Brown e John Squire. Confere...


autor stipe07 às 13:49
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Segunda-feira, 28 de Março de 2016

James – Girl At The End Of The World

Há bandas que resistem com firmeza ao definitivo ocaso e os britânicos James de Tim Booth, Jim Glennie (baixo), Larry Gott (guitarra), Saul Davies (guitarra, violino), Mark Hunter (teclados), David Baynton-Power (bateria) e Andy Diagram (trompete), são um excelente exemplo de um grupo que depois de um adeus anunciado com toda a pompa a circunstância, após uma carreira recheada de sucessos e uma popuplaridade enorme por cá, resolveu dar um novo fôlego ao projeto, uma segunda vida que se iniciou em 2008 com Hey Ma, e tem mais um novo capítulo no historial, pronto a ser apreciado por todos aqueles que, como é o meu caso, acompanham o grupo há mais de vinte anos.

james

Girl At The End Of The World, o décimo quarto longa duração dos James, sucede a La Petite Mort e foi produzido por Max Dingel (The Killers, Muse, White Lies), tendo sido escrito e gravado na Escócia e terminado nos estúdios Rak Studios, em St. John's Wood, Londres, contendo doze canções que lidam com o amor e toda a envolvência emocional que este sentimento provoca em quem procura vivênciá-lo com a maior plenitude possível.

Conhecemos Tim Booth há três décadas, já o ouvimos cantar sobre imensas temáticas e muitos de nós apropriaram-se de vários dos seus poemas e canções para expressar sentimentos e enviar mensagens a pessoas queridas, mas é curioso começar a ouvir este disco e perceber, logo em Bitch, que o músico ainda tem intata a capacidade de encarnar outras personagens, de forma bastante plausível, mesmo que sejam do sexo oposto. E neste tema fá-lo de modo bastante convincente,  à boleia de um baixo rugoso e encorpado, atravessado por flashes sintetizados particularmente inspirados, duas das imagens sonoras mais relevantes de Girl At The End Of The World, um disco que, como tem sido hábito nesta segunda vida dos James, procura um equilíbrio entre o charme inconfundível das guitarras que carimbam o ADN dos James com o indie rock que agrada às gerações mais recentes e onde abunda uma primazia dos sintetizadores e teclados com timbres variados, em deterimento das guitarras, talvez em busca de uma toada comercial e de um lado mais radiofónico e menos sombrio e melancólico. A presença de Max Dingel na produção é o tiro certeiro nessa demanda, apesar de não ser justo descurar a herança que nomes como Gil Norton ou Brian Eno, figuras ilustres que já produziram discos dos James, ainda têm na sonoridade do grupo.

Um clima bastante festivo é outra imagem impressiva deste alinhamento, que exala optimismo e luz em praticamente todos os temas. A pop feita alegoria em Waking e a dinâmica de To My Surprise, são dois claros exemplos disso, sendo a última uma canção onde os efeitos e as variações da bateria ajudam as guitarras a fazer brilhar a voz vintage, mas ainda em excelente forma de Booth. Essa excelente forma vocal é ampliada pelo excelente acompanhamento que a mesma faz ao piano em Attention e ao sintetizador na contemplativa Dear John, um dos melhores momentos melódicos do disco, o clássico tema orquestral, com alguns detalhes a darem à canção um clima romântico e sensível único e tipicamente James. Depois, se no clima acústico de Feet Of Clay existem alguns pormenores que nos remetem para os primórdios do grupo, nomeadamente para certos instantes de Laid, já a manta sintética que abastece Surfer's Song e as guitarras de Catapult exalam U2 por todos os poros sonoros, com Move Down South e Alvin a conterem alguns detalhes que nos convidam a uma pequena e discreta visita às pistas de dança mais alternativas, nomeadamente o tal baixo pulsante e vigoroso.

Nomes maiores da pop independente das últimas décadas e detentores de mais de vinte singles que alcançaram o top britânico, os James testemunharam todos os movimentos musicais que foram aparecendo em Inglaterra e foram sempre uma alternativa credível, por exemplo, à britpop. E a verdade é que seguem ainda firmes no seu caminho, a reboque de mais um disco feito com bonitas melodias e cheio de detalhes que mostram que os James ainda estão em plena forma e conhecem a fórmula correta para continuar a deslumbrar-nos com o clássico indie rock harmonioso, vigoroso e singelo a que sempre nos habituaram, fazendo-nos inspirar fundo e suspirar de alívio porque, felizmente, há bandas que, pura e simplesmente, não desistem. Espero que aprecies a sugestão...

James - Girl At The End Of The World

01. Bitch
02. To My Surprise
03. Nothing But Love
04. Attention
05. Dear John
06. Feet Of Clay
07. Surfer’s Song
08. Catapult
09. Move Down South
10. Alvin
11. Waking
12. Girl At The End Of The World


autor stipe07 às 11:19
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Sábado, 17 de Outubro de 2015

Hurts - Surrender

A dupla britânica Hurts de Theo Hutchcraft e Adam Anderson, está de regresso aos discos com Surrender, o terceiro trabalho do projeto, editado no passado dia seis de outubro e produzido por Stuart Price e Ariel Rechstaid.

Manchester, cidade de fortes tradições no que concerne à eletrónica britânica, principalmente a partir da última década do século passado, é o poiso natural desta dupla, mas não necessariamente o berço das influências que são decisivas para a sonoridade dos Hurts e, mais concretamente, este Surrender. Na verdade, é a pop polida dos anos oitenta, feita com sintetizadores carregados de efeitos, penteados volumosos e um ar sempre solene, que define a essência e o dramatismo deste projeto, que nos propôe mais uma coleção de canções assentes em teclados com a esperada pompa e circunstância aveludada que enfeita as melodias que debitam.

Impecavelmente produzido, Surrender arremessa para os nossos ouvidos toda uma herança luxuosa, com vários destaques, ao nivel instrumental, da responsabilidade de Anderson, que importa realçar; Assim, se Why é um forte apelo às pistas de dança e se Some Kind Of Heaven tem alguns elementos percurssivos curiosos, é, no entanto, o lado humano da voz grave de Hutchcraft que se mostra como o trunfo maior deste alinhamento. Refiro-me a uma voz impregnada, logo no tema homónimo, com vozes imponentes e redentoras, que depois passeiam uma dose incontida de egocentrismo em Nothing Will Be Bigger Than Us, de braço dado com teclados épicos. Mas o meu destaque de Surrender e talvez o tema que melhor sublima as duas vertentes é Lights, uma canção sedutora, com uma firme impressão da pop eletrónica dos anos oitenta, assente num refrão marcante, em guitarras plenas de groove, cordas dinâmicas e uma percussão onde não faltam efeitos de palmas. Este tema é um monumento de sensualidade, pensado para dançar no escuro, de preferência com a pessoa amada e o R&B de Rolling Stone e o piano de Wish, a composição que quase encerra Surrender, dois bons complementos para esse propósito acolhedor e nada subtil.

Firmes no percurso que resolveram calcorrear na carreira, os Hurts mostram neste terceiro disco um referencial estratégico sonoro estilístico cada vez mais aprimorado no modo como brincam com a subtileza e o mistério que envolve as relações, daquela maneira depressiva e sombria que se espera deles, mas com um bom gosto e um charme únicos. Espero que aprecies a sugestão...

Hurts - Surrender

01. Surrender
02. Some Kind Of Heaven
03. Why
04. Nothing Will Be Bigger Than Us
05. Rolling Stone
06. Lights
07. Slow
08. Kaleidoscope
09. Wings
10. Wish
11. Perfect Timing
12. Weight Of The World
13. Policewoman


autor stipe07 às 16:06
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Terça-feira, 4 de Agosto de 2015

New Order - Restless

New Order - Restless

Após um hiato de quase uma década os New Order estão de regresso aos lançamentos discográficos com Music Complete, um álbum que chegará às lojas a vinte e cinco de setembro, à boleia da Mute Records. Primeiro disco desta banda fundamental e pioneira na mistura de indie rock com a eletrónica sem o baixista Peter Hook, em compensação Music Complete contou com a teclista Gillian Gilbert, esposa do baterista Stephen Morris, de regresso à banda, de onde tinha saído em 2001 para cuidar dos filhos do casal.

Restless é o primeiro avanço divulgado deste novo álbum dos New Order, que conta com colaborações e participações especiais de nomes tão importantes como Elly Jackson dos La Roux, Brandon Flowers e Iggy Pop. Confere...


autor stipe07 às 14:11
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Domingo, 21 de Junho de 2015

PINS - Wild Nights

Holgate, Lois McDonald, Anna Donigan e Sophie Galphin são as PINS, um quarteto britânico oriundo de Manchester, que editou no passado dia nove de junho Wild Nights, onze canções com a chancela da insuspeita Bella Union e que, não mudando o curso da história do indie rock, devem chegar rapidamente aos teus ouvidos e com uma certa devoção, porque fazem parte de um disco que irá catapultar definitivamente este projeto para o merecido estrelato. Se estás virada para o guarda-fatos a escolher o vestido com que irás sair esta noite, se o trabalho entrou num impasse e precisas de ouvir algo que funcione um desbloqueador criativo e animado ou se conduzes numa estrada junto ao oceano num dia solarengo mas falta a banda sonora perfeita que irá completar esse cenário onírico, então as PINS são a escolha certa porque respirar ao som deste disco é saborear automaticamente um clima festivo sem paralelo e dar de caras com um compêndio sonoro que prende hermeticamente os nossos ouvidos, no modo como cria um universo familiar e cativante que facilmente nos enclausura.

Gravado no Rancho De La Luna, em Joshua Tree, nos Estados Unidos, por Dave Catching, Wild Nights encontra ecos na pop sessentista e no garage rock que começou a brotar nessa mesma década, sendo essa apenas a base de uma sonorisade que depois se materializa numa consistência e corpulência superiores a qualquer exemplo sonoro atual que se guie apenas por estas destas bitolas. Assim, numa banda britânica, mas que soa muito mais ao outro lado do atlântico, The Cramps, Velvet Undergorund, The Dandy Warhols e as mais contemporâneas Dum Dum Girls, parecem ser influências assumidas, que foram reveladas logo em Girls Like Us, o disco de estreia. esse trabalho, editado o ano passado, colocou alguma crítica imeditamente de olho nestas quatro rockers assumidas e Wild Nights confirma o elevado apetite para a destruição de uma banda quem traz fogo na venta, mas com estilo, classe e glamour.

A abrir com um portentoso fuzz de guitarra, um baixo vigoroso e uma percussão marcada, numa melodia épica por onde navega uma voz feminina invulgarmente grave e sensualmente abrasiva, Wild Nights tem em Baby Banghs um excelente exemplo desta raiva que condensada nesta amálgama de quatro rostos rock que espreitam em cada esquina de canções que sustentam a sua génese em guitarras que navegam entre os turtuosos sistemas circulatórios do psicadelismo e do noise mais post-punk. A toada aprimora-se em Young Girls, uma ode ao feminismo e um exemplo do modo hábil como as PINS expôem certos detalhes da vida comum e os transformam, na sua escrita, em eventos magnificientes e plenos de substância (What will we do when our dreams come true, young girls?).

A escrita das PINS tem essa faceta simultaneamente confidente e epifânica até porque, da exaltação do ócio criativo do negrume visceral que palpita em House Of Love e Molly até à apologia do amor em Dazed By You, são vários os exemplos do modo como estas miúdas exaltam romanticamente e com um charme algo displiscente mas feliz, a postura que têm em relação à vida, feita, geralmente, de dois pólos opostos. A pop animada e luminosa desta Dazed By You, tema onde salta ao ouvido o excelente improviso da guitarra e, em oposição, o clima mais sombrio e crú da experimental e psicadélica Oh Lord, expressam, sintomaticamente, este constante plasmar de paradoxos, um delicado balanço e uma contínua tensão oscilante entre o tédio, a raiva e a festa, o doce e o amargo e, enfim, entre o meramente quotidiano e aquilo que é naturalmente poético. Seja como for, caso subsistam dúvidas sobre o nosso campo preferido desta deriva sonora ou a faceta em que as PINS se mostram mais confortáveis, basta escutar-se o limbo existencial e meditativo que escorre do volumoso indie rock de Too Little Too Late para sermos agarrados pelos colarinhos e rapidamente integrados num disco com onze canções que podem tornar-se futuramente em clássicos intemporais, à boleia de uma verdadeira explosão de cores e ritmos que contam sentimentos reais e que podem atingir o outro ou qualquer um de nós. Espero que aprecies a sugestão...

PINS - Wild Nights (2015) 320 KBPS

 1. Baby Bhangs
2. Young Girls
3. Curse These Dreams
4. Oh Lord
5. Dazed by You
6. Got It Bad
7. Too Little Too Late
8. House of Love
9. If Only
10. Molly
11. Everyone Says


autor stipe07 às 18:27
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