Sábado, 11 de Novembro de 2017

Plastic Flowers – Absent Forever

Juntam-se guitarras impregnadas de efeitos com uma forte toada shoegaze e um ambiente melódico particularmente lisérgico e contemplativo e estão lançados os dados para a chegada às luzes da ribalta de mais um projeto indie dentro do espectro sonoro que nos oferece uma versão algo ruidosa da dream pop mais ambiental e que também revive, em grande parte, épocas gloriosas de um rock alternativo que fez escola na reta final do século passado em Terras de Sua Majestade. Refiro-me a Plastic Flowers, o alter-ego sonoro do grego, sedeado em Londres, George Samaras, um projeto que nasceu na zona de Tessalónica, na Grécia, há pouco mais de meia década. Plastic Flowers vai já no terceiro lançamento discográfico, sendo o mais recente Absent Forever, dez canções que acabam de ver a luz do dia à boleia da The Native Sound.

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Com algumas canções já arquitetadas desde 2013 e gravado em apenas três meses, em diferentes espaços de Londres e num pequeno estúdio da casa de um amigo de Samaras em Hampstead, arredores da capital britânica, Absent Forever é um disco de contrastes. Se contém instantes tremendamente ruidosos e com uma forte complexidade instrumental, também deve muito da sua bitola qualitativa superior a outros intensamente calmos e reflexivos, sendo inteligente o modo como se vão revezando entre si, muitas vezes dentro dos próprios temas, numa demanda sonora onde a ideia de experimentalismo é elevada à forma de arte, neste caso sonora, com charme, bom gosto e uma invulgar sapiência.

Um dos truques que explica o som inédito e bastante identitário deste álbum é o modo como no processo criativo foram capturados alguns dos instrumentos através da antiga e analógica tecnologia da fita magnética. Depois, a participação de um quarteto de cordas também ajudou a ampliar ainda mais o clima rugoso e orgânico de um alinhamento que possui o habitual cariz melancólico em que Plastic Flowers gosta de nos imergir. No single How Can In, o modo como um imparável riff eletrificado se sobrepõe e um trecho de guitarra ternurento que se repete ininterruptamente, plasma esta sensação agridoce que acaba por se estender à meia hora que o disco dura, até porque essa sensação se repete logo a seguir em Seventeen, canção que inicia com uma guitarra fortemente etérea e luminosa que pouco depois é trespassada por uma bateria imponente, com o resultado final a ser uma composição de forte cariz orquestral, com deliciosos acordes e melodias minuciosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, algo que à partida não era fácil de adivinhar assim que o tema começou. Depois, a sobriedade sentimental esplendorosa de Falling Off, o modo quase espiritual como em Half Life somos confrontados com um edifício sonoro com uma epicidade incomum e algo intrigante e a feliz nostalgia oitocentista que exala do post rock que define So Long, uma daquelas canções cujas diversas camadas de sons impelem ao cerrar de punho, são outros exemplos felizes do modo como neste Absent Forever é possível apreciar ruído e rugosidade, sem deixar de estar à tona uma toada eminentemente tranquila e sedutora, mesmo que, durante a audição, o frenesim na percussão e o ruído das guitarras, principalmente nos refrões, sejam nuances que parecem apontar numa outra direção, até algo oposta.

Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado, Absent Forever exala o contínuo processo de transformação de Plastic Flowers que procura mostrar, ao terceiro registo, com a marca do indie shoegaze, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...

Plastic Flowers - Absent Forever

01. Absent Forever
02. How Can I
03. Seventeen
04. Falling Off
05. Dalliance
06. Half Life
07. So Long
08. Where Are You
09. January 2017
10. NN


autor stipe07 às 22:50
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Quinta-feira, 26 de Outubro de 2017

My Sad Captains – Sun Bridge

Os My Sad Captains são uma banda de rock alternativo natural de Londres, cujo nome foi inspirado por um poema do escritor Thom Gunn. Os membros da banda são Ed Wallis, Leon Dufficy, Ben Walker, Steve Blackwell e Henry Thomas e estão de regresso aos discos com Sun Bridge, dez canções abrigadas pela Bella Union e que estão finalmente a catapultar este projeto que já acompanho à meia década, desde o excelente trabalho de estreia, Fight Less, Win More, para o devido destaque.

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Logo a abrir, o instrumental climático fortemente contemplativo intitulado Early Rivers, é uma canção perfeita para nos introduzir neste disco, já que permite-nos relaxar e assim ficarmos devidamente preparados para um conjunto de canções que tanto podem conter uma sonoridade simultaneamente enérgica e memorável, como é o caso do efusivo single Everything At The End Of Everything, ou então que se abrigam à sombra de territórios sonoros mais delicados e experimentais, como sucede, por exemplo, em Destination Memory, uma composição com um início introspetivo mas que depois seduz definitivamente pela mistura de detalhes e arranjos que resultaram numa melancolia inebriante, épica e grandiosa.

Parece óbvio que estes My Sad Captains parecem fortemente influenciados por bandas indie do outro lado do atlântico, como os Yo La Tengo e os Red House Painters, mas é redutor balizá-los tendo apenas em conta as principais caraterísticas desse indie rck norte-americano mais enraizado, já que eles contêm algns traços identitários muito próprios e peculiares, que passam, essencialmente, pelo cruzamento do timbre da guitarra e das restantes cordas com a uma voz bastante melódica, algo que em Don't Listen to Your Heart é bastante audível. Esse efeito repete-se em Curtain Calls de uma forma ainda mais luminosa e adopta uma faceta mais sintética com o belo murmúrio que atravessa New Sun e o modo como nessa canção a guitarra se entrelaça com efeitos sintetizados borbulhantes e uma bateria com uma cadência pouco usual.

Apesar de algumas canções que sustentam o disco terem uma evidente luminosidade e um apurado sentido épico, abundam neste sun Bridge momentos mais introspetivos, mas igualmente belos, com especial destaque para o minimal dedilhar da viola na balada William Campbell e para a extensa Winter Sweet, outro instrumental que nos abraça e que se entranha sem grande esforço, impondo-nos uma melodia única e extremamente agradável, simultaneamente cândida e profunda.

Sun Bridge é um disco que não nos dá tempo para recuperar o fôlego, porque são imensos os momentos que proporcionam prazer, conforto e admiração durante a sua escuta. É um trabalho para ser ouvido e contemplado, um alinhamento onde há momentos animados e luminosos, mas também instantes de pausa, de sossego e melancolia, esta, muitas vezes, quase absurda. Tal sofreguidão deve-se, em suma, à consistência com que, música após música, somos confrontados e confortados por melodias maravilhosamente irresistiveis e ternurentas. Espero que aprecies a sugestão...

My Sad Captains - Sun Bridge

01. Early Rivers
02. Everything At The End Of Everything
03. Destination Memory
04. Don’t Listen To Your Heart
05. None In A Million
06. William Campbell
07. Curtain Calls
08. New Sun
09. Wintersweet
10. Relive


autor stipe07 às 21:30
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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Fink - Resurgam

Três anos depois do excelente álbum Hard Believer, o projeto Fink de Fin Greenall (voz, guitarra), um músico britânico com quarenta e cinco anos, natural de Bristol e que, deambulando entre Londres e Berlim, vai-se destacando não só como músico, mas também como compositor e produtor para outros projetos, está de volta com Resurgam, dez canções que viram a luz do dia no final de setembro e que catapultam este projeto para um nível qualitativo de excelência numa carreira sempre a subir, disco após disco.

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O título deste novo disco de Fink é inspirado numa inscrição de origem latina que o autor encontrou numa igreja quase milenar de Cornwall, sua cidade natal e cujo espírito e significado faz-se sentir, transversalmente, ao longo de todo o alinhamento, produzido pelo carismático Flood (PJ Harvey, U2, Foals, Warpaint, The Killers) e gravado nos estúdios Assault & Battery Studios, que este produtor partilha com Alan Moulder no norte de Londres.

Num projeto em que os dois maiores trunfos são a belíssima voz de Fin e o magnífico trabalho instrumental, principalmente de Tim Thornton, à frente da bateria e da guitarra, ficamos logo agarrados ao disco com Resurgam, o tema homónimo de abertura, feito de uma melodia que tem por base uma bateria e a voz de Fink impregnada de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de um teclado e algumas cordas. Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco essencialmente acústico, vincadamente experimental e orgânico e com uma forte toada blues. Depois, no clima envolvente de Day 22, bastante influenciado por alguns arranjos de sopros inebriantes e na sumptuosa delicadeza do piano que baliza Cracks Appear, ao qual vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de uma guitarra eletrificada, percebe-se que há não só um maior arrojo pop relativamente a Hard Believer, mas também a assunção por parte do autor de que a opção por um alinhamento sinuoso e cativante e que nos convide frequentemente à introspeção e à reflexão sobre o mundo moderno, acaba por ser a opção certa não só para conseguir materializar os melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, mas também para chegar a um número ainda maior de ouvintes que ainda não tiveram a oportunidade de se deliciar com a filosofia estilística deste artista tremendamente dotado.

Na verdade, além dos temas já citados, não faltam neste disco, vários outros exemplos do forte cariz eclético e heterogéneo do cardápio de Fink. Se o transbordar de um sentimento algo angustiante e sentido à boleia do piano em Word to The Wise e da viola em Not Everything Was Better In The Past mostram um lado do músico algo inquietante e a suplicar por um outro patamar de serenidade, já a subtil clareza da batida sincopada que alimenta a sempre crescente The Determined Cut e a suavidade contínua e algo subtil de Godhead oferecem-nos, em oposição, um Fink mais sorridente e esperançoso, um exímio e lúcido contador de histórias que servem a qualquer comum dos mortais.

Resurgam está recheado de sons inteligentes e solidamente construídos, que nos emergem em ambientes carregados de ritmos e estruturas sonoras muitas vezes falsamente minimalistas e que têm como grande atributo poderem facilmente fazer-nos acreditar que a música pode ser realmente um veículo para o encontro do bem e da felicidade coletivas. Espero que aprecies a sugestão...

Fink - Resurgam

01. Resurgam
02. Day 22
03. Cracks Appear
04. Word To The Wise
05. Not Everything Was Better In The Past
06. The Determined Cut
07. Godhead
08. This Isn’t A Mistake
09. Covering Your Tracks
10. There’s Just Something About You


autor stipe07 às 21:25
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Quinta-feira, 10 de Agosto de 2017

Mura Masa - Mura Masa

No sul de Inglaterra, em pleno canal da Mancha, situa-se a minúscula ilha de Guernsey, terra natal de Alex Crossan, um músico nascido a cinco de abril de mil novecentos e noventa e seis e que desde muito cedo começou a utlizar a composição musical e o DJing como principal refúgio para a natural sensação de isolamento que sempre sentiu e de modo a materializar também um forte desejo de sair do meio do atlântico e passar viver em Londres. Ele assina a sua música como Mura Masa (nome de um sabre japonês) e estreou-se recentemente nos discos com um homónimo, editado à boleia da Polydor Records e que conta com várias participações especiais de relevo, nomeadamente Damon Albarn, Charli XCX e A$AP Rocky, entre outros.

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Produtor, compositor e multi-instrumentista, Alex Crossan começou a ser notado pela crítica quando em setembro do ano passado apresentou ao mundo Lovesick, um dos temas deste seu álbum de estreia e que conta com a voz de A$AP. A partir daí a ansiedade por novas canções por parte de uma já interessante legião de fãs foi aumentando até ficar finalmente satisfeita com estas treze canções que, do rap à eletrónica, passando pela pop ambiental, o hip-hop, o house tropical, o dubstep e o próprio jazz, abraçam uma multiplicidade de estilos e tendências sonoras que fazem deste Mura Masa um dos discos mais interessantes e multifacetados do momento. 

Caldo sonoro, mas também multicultural, Mura Masa tem instantes que nos incitam à pista de dança e a deixar extravasar o nosso lado mais libidinoso, que irá certamente deliciar-se com a batida afro de Nuggets ou o clima envolvente particularmente sensual do efeito metálico sintético que conduz All Around the World e outros em que predomina um clima de maior introspeção, com particular destaque para o intimismo de Blue, canção que ganha um charme muito próprio devido ao modo como as vozes de Alex e Albarn se entrelaçam. E este jogo entre estas duas vozes contém uma ainda maior simbologia porque encerra um disco que instrumentalmente, entre os vários estilos que cruzam as treze canções, acaba por firmar a atmosfera de um álbum que obriga-nos a esperar o inesperado e a ouvi-lo em constante sobressalto, excitados pela sensualidade de algumas letras e por nunca sabermos muito bem o que poderá vir a seguir. E um dos temas que mais me impressionou e fez-me crer que realmente o inesperado está sempre ao virar da esquina, foi Nothing Else! e a abordagem vocal algo minimalista mais impressiva de Jamie Lidell ao universo mais negro do r&b, o grande detalhe que sustenta a soul essa canção. Mas também merecem, na minha opinião, especial referência o cardápio instrumental sintético que trespassa o frenesim de Helpline e a luminosidade harmónica de Second 2 None.

Mura Masa plasma com particular eloquência e impressiva criatividade a míriade sonora que influencia o seu autor e leva-nos facilmente a admirar o mesmo pelo bom gosto com que navega de influência em influência e acaba, com essa viagem descomprometida, mas inspirada, por construir algo inédito e a sua própria marca sonora identitária, que faz de si um dos produtores mais interessantes da nova pop contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

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1.Messy Love
2. Nuggets (feat. Bonzai)
3. Love$Ick (feat. A$AP Rocky)
4. 1 Night (feat. Charli XCX)
5. All Around the World (feat. Desiigner)
6. give me the ground
7. What If I Go?
8. Firefly (feat. NAO)
9. Nothing Else! (feat. Jamie Lidell)
10. Helpline (feat. Tom Tripp)
11. Second 2 None (feat. Christine and the Queens)
12. Who Is It Gonna B (feat. A.K. Paul)
13. Blu (feat. Damon Albarn)


autor stipe07 às 14:09
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Terça-feira, 8 de Agosto de 2017

Fink – Cracks Appear

Fink - Cracks Appear

Três anos depois do excelente álbum Hard Believer, o projeto Fink de Fin Greenall (voz, guitarra), um músico britânico com quarenta e cinco anos, natural de Bristol e que, deambulando entre Londres e Berlim, vai-se destacando não só como músico, mas também como compositor e produtor para outros projetos, está de volta com Resurgam, dez canções que vão ver a luz do dia em setembro próximo.

Cracks Appear é o primeiro tema divulgado de Resurgam, uma composição que tem por base uma bateria e umas teclas impregnadas de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de uma guitarra eletrificada Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco que, apesar de um aparente maior arrojo pop relativamente a Hard Believer, será essencialmente acústico, vincadamente experimental e claramente dominado por cordas com uma forte toada blues.

O título deste novo disco de Fink é inspirado numa inscrição de origem latina que Greenall encontrou numa igreja quase milenar de Cornwall, sua cidade natal e cujo espírito e significado faz-se sentir, transversalmente, ao longo de todo o alinhamento, produzido pelo carismático Flood (PJ Harvey, U2, Foals, Warpaint, The Killers) e gravado nos estúdios Assault & Battery Studios, que este produtor partilha com Alan Moulder no norte de Londres. Confere...


autor stipe07 às 00:11
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Quarta-feira, 21 de Junho de 2017

Everything Everything – Can’t Do

Everything Everything - Can't Do

A Fever Dream verá a luz do dia a dezoito de agosto e será o nome do próximo disco dos britânicos Everything Everything, o quarto registo de originais desta banda oriunda de Manchester e que sucederá ao aclamado Get to Heaven, o álbum que o quarteto lançou há cerca de dois anos. Depois de terem trabalhado em Get To Heaven com o consagrado Stuart Price (Kylie Minogue, The Killers e Scissor Sisters), neste A Fever Dream contaram, na gravação e produção, com a ajuda de James Ford, habitual colaborador de bandas como os  Arctic Monkeys, Depeche Mode ou os Foals.

A Fever Dream tem em Can't Do o single de apresentação, uma canção que piscando o olho a um vasto leque de influências que vão da dream pop ao rock progressivo, passando pela eletrónica e o indie rock contemporâneo, plasma um refinado e cuidadoso processo de corte e costura de todo o espetro musical que seduz o grupo. Tematicamente, é um tema que, de acordo com Jonathan Higgs, o líder dos Everything Everything, pretende alertar as consciência para a noção de normalidade, porque, de acordo com ele, esse é um conceito que ninguém sabe definir com exatidão e, por isso, nenhuma entidade ou indíviduo se pode apropriar do mesmo e apresentar-se como tal. Confere...


autor stipe07 às 06:26
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Sábado, 10 de Junho de 2017

Ulrika Spacek – Modern English Decoration

Lançado no passado dia dois de junho através da Tough Love Records, Modern English Decoration é o mais recente capítulo da saga discográfica dos britânicos Ulrika Spacek de Rhys Edwards e Rhys William, um disco que à semelhança de The Album Paranoia, o registo de estreia editado no início de 2016, foi gravado, produzido e misturado numa galeria de arte chamada KEN e à qual os Ulrika Spacek e os três músicos que os acompanham, Ben White, Callum Brown e Joseph Stone, chamam de sua casa, a bolha onde se refugiam para compôr, idealizar vídeos e expressar-se através de outras formas de arte além da música.

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A filosofia de composição musical destes Ulrika Spacek baliza-se através de um assomo de crueza tingido com uma impressiva frontalidade quer lírica quer sonora. Na complacência enganadora de Mimi Pretend há uma guitarra rugosa e plena de efeitos metálicos, acompanhada por uma bateria falsamente rápida, e esta dupla é a mesma que vai ser depois o grande suporte das canções, em volta da qual gravitarão diferentes arranjos, quer orgânicos, quer sintéticos, geralmente com um teor algo minimal. E se a guitarra nunca perde identidade, a bateria mantém-se precisa no modo como confere alma e robustez ao ritmo de cada composição. Depois, há um baixo implacável na marcação à zona e todo este arsenal instrumental é rematado por uma voz geralmente reverberizada e que se arrasta. É um rock que impressiona pela rebeldia com forte travo nostálgico e por aquela sensação de espiral progressiva de sensações, que tantas vezes ferem porque atingem o âmago, bastanto ouvir Protestant Work Slump para se tomar contacto com esta autenticidade que desmascara quem arrisca entrar no jogo de sedução ímpar que Modern English Decoration proporciona.

Canções do calibre de Dead Museum, quase cinco minutos de um cósmico devaneio soul ou, em oposição, a indulgência acústica intensamente reflexiva do tema homónimo, plasmam também uma das maiores virtudes destes Ulrika Spacek que é a capacidade de conseguirem divagar por diferentes ângulos e espetros dentro de um universo sonoro bastante específico. Isso sucede porque corre-lhes nas veias aquela atitude claramente experimental e enganadoramente despreocupada, expressa numa vontade óbvia de transformar cada composição numa espécie de jam session, através de uma espécie de colagem de vários momentos de improviso. Se nas cordas de Saw A Habit Forming aquela pop sessentista ácida e psicotrópica, encontra o poiso ideal para se espraiar, o modo quase cínico como em Full Of Men os Ulrika Spacek nos levam a sorrir e a abanar a anca ao som de uma canção que se insinua continuamente por causa do modo algo desconexo como se vai desenvolvendo ritmíca e melodicamente, acaba por ser a expressão máxima deste modo bastante textural, orgânico e imediato de criar música e de fazer dela uma forma artística privilegiada na transmissão de sensações que não deixam ninguém indiferente.

Modern English Decoration atesta a segurança, o vigor e o modo criativamente superior como este grupo britânico entra em estúdio para compôr e criar um shoegaze progressivo que se firma com um arquétipo sonoro sem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual. Um dos discos obrigatórios do ano, claramente. Espero que aprecies a sugestão...

Ulrika Spacek - Modern English Decoration

01. Mimi Pretend
02. Silvertonic
03. Dead Museum
04. Ziggy
05. Everything, All The Time
06. Modern English Decoration
07. Full Of Men
08. Saw A Habit Forming
09. Victorian Acid
10. Protestant Work Slump


autor stipe07 às 00:05
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Segunda-feira, 29 de Maio de 2017

Splashh – Waiting A Lifetime

Depois do excelente Comfort, o registo de estreia, os Splashh estão de regresso com Waiting A Lifetime, o segundo álbum de um quarteto sedeado em Londres mas com diferentes proveniências que depois se refletem, claramente, na sonoridade do grupo. Formados em 2012 pela iniciativa da cantora e guitarrista Sasha e do guitarrista Toto Vivian, aos quais se juntaram o também neozelandês Jacob Moore na bateria e o baixista Thomas Beal, são uma das bandas mais excitantes e independentes do cenário indie britânico e estas suas novas dez canções atestam-no com veemência.

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Quatro anos depois de uma auspiciosa estreia, certamente teria sido mais simples para os Splashh terem seguido o rumo de Comfort, um disco que aliava o grunge ao punk rock direto e preciso, com um travo de shoegaze e alguma psicadelia lo fi, numa espécie de space rock, mas a verdade é que neste novo capítulo a opção foi infletir, não numa direção oposta, mas no sentido de aprimorar, expandir e até testar os limites criativos de uns Splashh agora menos diretos e concisos e mais experimentalistas e progressivos.

Para quem conhece de fio a pavio o conteúdo de Comfort, logo nos loopings da percussão e no fuzz da guitarra de Rings, impressiona-se com a riqueza e a diversidade do novo contexto sonoro do grupo, mais burilado, límpido e altivo. Este alargamento do espetro sonoro justifica-se depois através de um exercício comparativo simples e objetivo entre várias canções; Assim, se em Closer o timbre metálico da guitarra inquieta pela pujança e pelo pendor psicadélico, já em Look Down to Turn Away uma batida minimal crescente e um reverb vocal são elementos que tipificam uma eletrónica de cariz mais ambiental, apesar da mudança brusca que o tema sofre em determinado momento, rumo a uma atmosfera mais trance e progressiva. De referir ainda a homónima Waiting A Lifetime, uma canção direta e acelerada, cheia de guitarras em looping e que disparam em todas as direções, acompanhadas por uma bateria que não desarma nem dá descanso e o clima majestoso e visceral de Under The Moon. São mais dois temas capazes de clarificar o ouvinte acerca da tonalidade espacial, experimental e psicadélica que a banda criou neste seu novo trabalho.

Disco que apresenta constantemente duas faces completamente opostas, Waiting A Lifetime é pura adrenalina sonora, um exercício bem sucedido de afirmação de um ecletismo e de uma superior capacidade criativa, por parte de uma banda que acrescenta à sua bagagem sonora novas e belíssimas texturas, que aprimoram o cariz fortemente experimental que faz já parte do ADN de quem olha para o rock com independência e sem rodeios, medos ou concessões, fazendo-o com um espírito aberto e criativo. Espero que aprecies a sugestão...

Splashh - Waiting A Lifetime

01. Rings
02. See Through
03. Gentle April
04. Come Back
05. Honey and Salt
06. Look Down To Turn Away
07. Waiting A Lifetime
08. Closer
09. Under the Moon
10. No 1 Song In Hell


autor stipe07 às 18:36
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Quinta-feira, 18 de Maio de 2017

Steven Wilson – Pariah

Steven Wilson - Pariah

Mais conhecido pela sua contribuição ímpar nos projetos Porcupine Tree e Storm Corrosion, Steven Wilson tem também já uma profícua carreira a solo, que vai ver o seu quinto capítulo a dezoito de agosto próximo com a edição de To The Bone, o seu próximo registo discográfico. Este é um dos músicos que na atualidade melhor mistura rock progressivo e eletrónica, fazendo-o sempre com grandiosidade e elevado nível qualitativo. Aliás, basta escutar o antecessor Hand. Cannot. Erase.,(2015) ou a obra-prima The Raven That Refused To Sing (And Other Stories) (2013), para se perceber como Steven Wilson é exímio nessa mescla e como convive confortavelmente com o esplendor e a grandiosidade, não tendo receio de arriscar, geralmente com enorme dinâmica e com uma evidente preocupação pela limpidez sonora.

Com a participação especial da israelita Ninet Tayeb, que já tinha feito parte dos créditos de Perfect Life e Routine, dois dos melhores temas de Hand. Cannot. Erase., Pariah é o primeiro single divulgado de To The Bone, uma canção que impressiona pela riqueza melódica e por uma assertiva conexão entre belas paisagens acústicas e instantes de fulgor progressivo, enquanto se debruça sobre alguns dos medos e paranóias do mundo moderno e a dependência que todos sentimos da tecnologia, duas ideias transversais ao restante alinhamento do disco, conforme confessou o autor recentemente (My fifth record is in many ways inspired by the hugely ambitious progressive pop records that I loved in my youth. Lyrically, the album’s eleven tracks veer from the paranoid chaos of the current era in which truth can apparently be a flexible notion, observations of the everyday lives of refugees, terrorists and religious fundamentalists, and a welcome shot of some of the most joyous wide-eyed escapism I’ve created in my career so far.) Confere...


autor stipe07 às 09:40
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Segunda-feira, 17 de Abril de 2017

Happyness – Write In

Lançado através da Moshi Moshi Records, Write In é o novo registo de originais dos Happyness. Refiro-me a um trio oriundo dos arredores de Londres, composto por Ash Cooper, Benji Compston e Jonny Allan e que após um aclamado EP homónimo editado em 2013, estreou-se nos lançamentos no verão de 2015 com Weird Little Birthday, o antecessor deste Write In. Era uma obra sensível, com canções cheias de personalidade e interligadas numa sequência que fluia naturalmente e que agora recebe um notável sucessor.

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Write In é um trabalho que junta alguns dos melhores atributos do indie rock contemporâneo e onde a psicadelia e o lo fi se cruzam constantemente, de modo a criar canções com uma vibe muito genuína e bastante íntima, num alinhamento que até ao seu ocaso transparece sempre uma saudável convivência entre uma face com uma certa frescura pop solarenga e outra mais ruidosa e experimental. Onde esse dar de mãos é mais percetível é bem no âmago do disco, onde encontramos em Bigger Glass Less Full um momento que sabe a puro devaneio sonoro e onde um certo travo a grunge parece querer mostrar uma ideia algo errada de displicência, para logo nas cordas da viola que indica o trajeto de Victor Lazarros Heart contemplarmos uma melodia de rara beleza, sobriedade e sensibilidade

Mas é interessante analisar esta filosofia que transparece de Write In logo pelo início deste alinhamento de dez canções. Se no clima acolhedor de Falling Down, percebe-se que há um elevado grau de acerto no modo como estes três músicos conjugam as guitarras com o baixo e a bateria sem demasiado adorno, mas de modo a conseguir captar a atenção do ouvinte, um pouco adiante, na melodia insistente de Uptrend / Style Raids e na delicadeza da bateria e no modo como ela afaga o abafo da voz, reforça-se esta ideia de que muitas vezes a simplicidade de processos é meio caminho andado para, no seio do indie rock de cariz mais alternativo, chegar-se à criação feliz de composições aditivas e plenas de sentido e substância. E isso sucede já depois de em The Reel Starts Again (Man As Ostrich), ao ter-se juntado o piano à receita, ter sido ampliada essa sensação de proximidade, que atinge superior abrangência no modo como em Through Windows essas mesmas teclas e um registo vocal sussurrante nos proporcionam um saboroso néctar soporífero para algumas das nossas tormentas, que têm aqui uma janela aberta de par em par para partirem para bem longe.

Em Anytime, quando as guitarras ganham vigor e majestosidade e em Anna,Lisa Calls, ao replicarem uma charmosa distorção que entronca nos melhores atributos daquele que deve ser um hino rock agitador e intuitivamente optimista, já não restam mais dúvidas que estamos na presença de um registo que merece figurar em plano de destaque nas melhores propostas indie do momento, incubado por uns Happyness que sabem o balanço exato e como é possível serem animados, luminosos e festivos e noutros instantes que assentem num formato mais íntimo e silencioso e onde exista uma maior escassez instrumental e um registo vocal sussurrante, mostrarem-se mais contemplativos e etéreos. O delicioso andamento amigável e algo psicadélico de The C Is A B A G, canção sonoramente detalhada e que amarra, por si só, várias pontas da heterogenidade em que assenta Write In, acaba por ser outro clímax de todo este ideário processual e que timbra o som identitário dos Happyness, que nos oferecem um álbum que, sendo um belo psicoativo sentimental, encarna uma viagem até à gloriosa época do rock independente, sem rodeios, medos ou concessões, proporcionada por uma banda com um espírito aberto e criativo e atravessada por um certo transe libidinoso. Espero que aprecies a sugestão...

Happyness - Write In

01. Falling Down
02. The Reel Starts Again (Man As Ostrich)
03. HAnytime
04. Through Windows
05. Uptrend / Style Raids
06. Bigger Glass Less Full
07. Victor Lazarros Heart
08. Anna, Lisa Calls
09. The C Is A B A G
10. Tunnel Vision On Your Part


autor stipe07 às 14:44
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