Sábado, 17 de Janeiro de 2015

Tennis System – Technicolour Blind

Liderados por Matt Taylor, os norte americanos Tennis System estrearam-se nos discos a vinte e um de outubro com Technicolour Blind, um disco que viu a luz do dia através da PaperCup Music e focado no amor e nas saudades de Matt pela namorada que deixou em Washington D.C., já que se mudou para Los Angeles, onde está agora a banda sedeada.

Um indie rock vibrante e acelerado é o sustento das dez canções deste trabalho, cheio de ambientes épicos e melodias cheias de luz e cor. Uma guitarra plena de fuzz e de distorções variadas, um baixo imponente, uma bateria que nunca descansa e sintetizadores carregados de efeitos fazem parte da receita sonora de um disco particularmente emotivo e que tem tudo para catapultar estes Tennis System para uma posição mais visível no universo alternativo, devido ao modo assertivo e até exuberante, como propôem um rock cheio de sintetizações, efeitos e ruídos e com uma toada muito rica e sedutora.

Estes três músicos deixaram as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural, para criar um álbum tipicamente rock, esculpido com cordas ligas à eletricidade e com um interessante cariz épico que não é mais do que um assomo de elegância incontida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

A escrita do disco carrega uma sobriedade sentimental que se percebe devido à matriz temática que rodeia Technicolour Blind e, naturalmente, é possível apreciar aqui belíssimas letras entrelaçadas com deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com as diversas camadas de instrumentos já descritas. Com vários momentos altos, destaco a introdução de My Life In, instante de uma simplicidade verdadeiramente desarmante e capaz de deixar em sobressalto os espíritos mais incautos, até uma guitarra planante tomar conta da canção e levá-la, durante pouco mais de um minuto, para um nível superior de elegância e arrojo, que se estende nas teclas de Try To Hide e, mais uma vez, numa distorção imponente e inigualável. Depois, canções como Call It Home ou o tema homónimo do trabalho, fazem-nos não duvidar mais da excelência de um álbum que impressiona pelo bom gosto com que cruza vários estilos e dinâmicas sonoras, numa toada que tem tanto de shoegaze como de progressivo e que até em Such A Drag busca pontos de interseção com a pop mais experimental e algumas paisagens e sensibilidades que no single Dead Honey piscam o olho à mais pura psicadelia.

Escutar Technicolour Blind é uma experiência diferente e a oportunidade de contatar com um conjunto de canções que transbordam uma aúrea algo mística e espirituale que materializam um feliz encontro entre sonoridades que surgiram há décadas e se foram aperfeiçoando ao longo do tempo e ditando as regras que hoje consagram as tendências mais atuais em que assenta o rock alternativo com um cariz fortemente nostálgico e contemplativo, mas também feito com elevada dose de ruído e distorção. Espero que aprecies a sugestão...

Tennis System - Technicolour Blind

01. Suicide
02. Call It Home
03. Ungrown
04. Memories And Broken Dreams
05. Technicolour Blind
06. Such A Drag
07. My Life In
08. Try tT Hide
09. Hara Kiri
10. Dead Honey


autor stipe07 às 21:43
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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2015

Lower Heaven – Pulse

Oriundos de Silverlake, nos arredores de Los Angeles e com o nome retirado da letra de uma canção dos Echo And The Bunnymen, os Lower Heaven são já um nome consensual e com uma base de seguidores bastante consolidada no universo alternativo local. Confessam ser influenciados por nomes fundamentais como os My Bloody Valentine, Hawkwind, ou os The Jesus and Mary Chain e, na verdade, escutando Pulse, o mais recente trabalho deste quarteto, percebe-se que baseiam o seu som em guitarras cheias daquele fuzz declaradamente vintage e com uma sonoridade algo lo fi, com a voz, muitas vezes distorcida e as escolhas de arranjos a conferir à música dos Lower Heaven um ar ainda mais soturno.

Os acordes iniciais de Availae são perfeitos para percebermos o que nos espera nos próximos cerca de quarenta minutos. Aguarda-nos belíssimas letras entrelaçadas com deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos. Os Lower Heaven deixaram as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural e assumirem aquela faceta algo negra e obscura que carateriza um ambiente sonoro fortemente etéreo e melancólico, para criar um álbum tipicamente rock e esculpido com cordas ligas à eletricidade, mas com canções cheias de uma fragilidade incrivelmente sedutora e alicerçadas numa certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

Se Beyond All Living Things e a sua longa introdução pulsante e contemplativa mergulha o ouvinte num ambiente carregado de psicadelia e explora nitidamente um universo certamente construido com várias substâncias psicotrópicas consumidas em noites chuvosas, já o rock progressivo de In The Open e, principalmente, de A Day Without Yesterday, impressiona pelo modo como em cima de um sintetizador minimalista mas aditivo começa por ser adicionada uma guitarra limpa e depois toda a gama de instrumentos inseridos meticulosamente, que surpreendem sem cansar, resultando em algo excitante e ao mesmo tempo acolhedor.

Estes Lower Heaven deixam-se envolver por uma intensa aúrea vincadamente orgânica e, por isso, fortemente sensual e isso confere-lhes em todo aquele mistério, que protege, com ousadia, a verdadeira personalidade do agregado sentimental que carateriza este grupo, já que as canções de Pulse parecem ter sido propositadamente pensadas para levantar apenas ligeiramente o manto e deixar-nos numa espécie de limbo de elevada densidade sobre a verdadeira mensagem que querem passar para o grande público com este trabalho. Basta escutar-se o clima INXS da guitarra, da bateria vibrante e do registo vocal em Entropy, ou o baixo arrastado e o efeito vocal de Nectar, para darmos de caras com dois excelentes exemplos do clima sussurrante e hipnótico que domina Pulse e o instante em que a última canção cresce e depois se deixa envolver num imenso arsenal de arranjos e detalhes, é um atestado de qualidade ao alcance de poucos projetos que pretendem deixar uma marca indelével neste universo sonoro.

Pulse é um notório marco de libertação e de experimentação onde não terá havido apenas um anseio por cumprir um caderno de encargos alheio, o que deu origem a um disco que nos agarra pelos colarinhos sem dó nem piedade e que nos suga para um universo pop feito com uma sonoridade tão preciosa, bela, silenciosa e estranha como a vastidão imensa e simultaneamente diversificada da paisagem e de um mundo completamente diferente do nosso, de onde estes Lower Heaven são originários. Espero que aprecies a sugestão...

Lower Heaven - Pulse

01. Avialae
02. Beyond All Living Things
03. A Day Without Yesterday
04. Nectar
05. In the Open
06. Entropy
07. Cosmic Ray
08. God


autor stipe07 às 21:10
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Domingo, 4 de Janeiro de 2015

Twin Oaks – Animal & Clarity

Sedeado em Los Angeles, na Califórnia, Twin Oaks é um projeto de dream pop formado pela dupla Lauren Brown e Aaron Christopher, dois amigos do liceu que resolveram formar uma banda que retrata e expõe sentimentos fortes e genuínos com uma atitude sonora que privilegia o minimalismo instrumental e o bom gosto no modo como criam melodias que nos transportam para um universo doce e  contemplativo envolvido por uma voz terrivelmente delicada e sedutora.

Animal e Clarity é o mais recente lançamento da dupla, um single com dois temas feitos com letras carregadas de nostalgia e melancolia e com detalhes sonoros delicados e introspetivos que nos levam numa viagem algo sombria pelo mundo tímido destes Twin Oaks, cuja estética sonora não defrauda minimamente os verdadeiros apreciadores da dream pop mais letárgica e melancólica. Confere...

Twin Oaks - Animal - Clarity

01. Animal
02. Clarity


autor stipe07 às 15:37
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Domingo, 14 de Dezembro de 2014

Dirt Dress - Revelations EP

Ativos desde 2007, ano em que se estrearam com o EP Theme Songs, os norte americanos Dirt Dress vêm de Los Angeles, na Califórnia e têm no indie rock a sua força motriz, uma sonoridade que não é inédita, mas que, neste caso, é feita com enorme originalidade, já que o grupo tem uma forma muito própria de conjugar a guitarra com os sintetizadores, como ficou particularmente explícito em Donde La Vida No Vale Nada, o último trabalho do trio, editado em novembro de 2012. Agora, estão de regresso com mais quatro canções, ensacadas num EP intitulado Revelations, que viu a luz do dia a dezoito de novembro, por intermédio da Future Gods.

Twelve Pictures foi o primeiro tema do EP divulgado pelos Dirt Dress e logo aí percebeu-se que vivem muito de referências do passado, nomeadamente o garage rock dos anos sessenta e a psicadelia da década seguinte. O breve interlúdio feito com um saxofone, as guitarras e a voz, levam-nos de volta aos primórdios do punk de cariz mais lo fi, em plena década de setenta e onde não falta aquele travo do surf pop psicadélico, numa canção que também comprova o elevado grau de emotividade e de impressionismo que o projeto coloca nas suas letras (I’ve cut myself so deep I’ve seen my muscles bleed).

O clássico rock sombrio e visceral, misturado com o punk e o surf rock mais obscuro, são, portanto, o grande referencial sonoro do grupo, mas também a pop experimental, a surf pop dos anos sessenta e a pop alternativa dos anos oitenta. Assim, a ânsia, a rispidez e a pura e simples crueza, são amenizadas por um grande cuidado na produção e nos arranjos, principalmente nas cordas e por uma utilização assertiva do sintetizador.

Além de Twelve Pictures, temas como Skin Diving e, principalmente, Silk Flowers, plasmam um superior cuidado não só na procura de uma diversidade melódica e até instrumental, mas também na demonstração de controle das operações, mas sem deixar que isso ofusque o charme exalado pelo universo cinzento e nublado que cobre a mente criativa do coletivo. Isso também é conseguido no modo como as canções aconchegam a voz, quase sempre colocada numa postura um pouco lo fi, o que lhe dá uma tonalidade fortemente etérea e ligeiramente melancólica.

Interessantes no modo como dissecam uma já clássica relação estreita entre o rock de garagem, a pop lo fi e o punk psicadélico e exímios na forma como colocam na voz o tal cariz algo sombrio que tão bem os carateriza, em Revelations os Dirt Dress apresentam-nos quatro canções cheias de estilo, tão enevoadas como a penumbra que rodeia o próprio grupo, mas também tão luminosas como só as bandas que sabem ser eficazes à sombra das suas próprias regras conseguem ser. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:07
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Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2014

Line & Circle - Line & Circle EP

Line and Circle

Os Line & Circle nasceram da colaboração entre Brian J. Cohen (voz, guitarra) e Brian Egan (teclados), dois músicos do Ohio que entretanto se mudaram para Los Angeles e a quem se juntaram, entretanto, o guitarrista Eric Neujahr, o baterista Nick Cisik, e o baixista Jon EngelhardEditado no passado dia vinte e oito de outubro pela própria banda e produzido por Lewis Pesacov, Line & Circle é o novo EP homónimo dos Line & Circle, uma banda californiana que está a espantar a critica musical com esta pequena coleção de três canções, havendo já quem lhes adivinhe um futuro bastante promissor.

Se a beleza pode tornar-se em algo de certa forma cansativo, principalmente quando surge de mãos dadas com a monotonia ou a repetição sucessiva, como sugere a última canção do EP, nestes Line & Circle a beleza das suas canções contradiz esse titulo, porque é luminosa e vive num enredo melódico preenchido por intimismo e drama. Com uma receita instrumental transversal às três canções, que se comporta como a lava que desce pela montanha abaixo absorvendo e derretendo tudo em redor e definida por um baixo vibrante, uma percussão ritmada e guitarras cheias de efeitos e melodias ricas e com um padrão bastante particular, cada uma destas canções apresenta uma definição de beleza e cor tão rigorosa, que é impossivel não sentir nesta alquimia harmoniosa um invejável sentido estético.

O resultado é uma coleção irrepreensível de canções com uma modernidade e atualidade absolutas, com um pulsar textural muito intenso e viciante, embora umbilicalmente ligadas ao período aúreo do rock alternativo, que ditou leis em finais do século passado. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 19:39
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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

YACHT - Where Does The Disco? EP

Compositores, escultores, filósofos, ativistas e músicos, os YACHT (Young Americans Challenging High Technology) são um projeto concetual sedeado em Los Angeles, mas consideram Marfa, no Texas, a sua casa espiritual. No entanto, o projeto nasceu em 2002, em Portland, sendo nesta espécie de utópico triângulo das Bermudas em pleno Oeste dos Estados Unidos da América que se move um grupo que começou por servir como um veículo para Jona Bechtolt, que escreve sobre ciência, cultura e tecnologia num blogue chamado Universe, divulgar o seu trabalho em diversas áreas, qe vão da pesquisa científica à música, obviamente. Em 2008 Claire L. Evans juntou-se a Jona e já foi juntos que gravaram e publicaram em 2009  o aclamado See The Mystery Lights, na tal localidade texana chamada Marfa, ao qual se seguiu, em 2011, Shangri-la, um disco sobre a utopia, a distopia e tudo o que fica no meio. Entretanto, Bobby Birdman e Jeffrey Brodsky, amigos de Jona e Claire, já se juntaram aos YACHT, compondo a banda nas atuações ao vivo.

Com cinco discos já lançados através de editoras tão proeminentes como a DFA Records, a Marriage Records, ou a States Rights Records, onde se estrearam, os YACHT são já considerados como uma das bandas norte americanas mais criativas, principalmente por causa dos concertos, tendo já tocado em lugares tão díspares como museus, galerias de arte, barcos, casas de banho e até numa zona rural da China e das remisturas inconfundíveis, tendo já desmantelado canções de Snoop Dogg, Kings of Leon, Phoenix, Neon Indian, Stereolab, RATATAT, Classixx e muitos outros.

Um Ep com quatro temas chamado Where Does The Disco? é a mais recente novidades dos YACHT, com a última canção do alinhamento a ser uma remistura da autoria de Jerome LOL do tema homónimo, que fala sobre o amor e os CDs (Compact Disc). Assente numa batida retro sintetizada, com efeitos que disparam em diferentes direções e com um timbre sintético na voz que lhe dá uma toada que tem tanto de sexy como de robótico, Where Does The Disco? parece ser a banda sonora perfeita para uma odisseia espacial, congeminada algures no início da década de oitenta e do período aúreo do disco sound. A viagem interestelar continua em Works Like Magic, que avança agora cerca de duas décadas, até aquele período em que no início deste século, em Nova Iorque, as guitarras e o baixo começaram a dar as mãos aos sintetizadores e à eletrónica e a invadir as pistas de dança do mundo inteiro. O tema fala do fascínio que a tecnologia e a realidade virtual provocam no ser humano e como existe uma ligação estreita entre  sexo e a tecnologia; We argue that sex and technology coexist in our present: we touch, we push buttons, we seek intimacy in screens. When we connect, it works like magic, afirmou recentemente Jona sobre o tema.

Terminal Beach é uma canção diferente das antecessoras. Mantêm-se os flashes de efeitos vários, mas aqui é o indie rock quem mais ordena, feito com guitarras acomodadas em diversas camadas, uma melodia orelhuda, uma bateria bem marcada e uma postura vocal a fazer recordar divas dos anos setenta como Blondie ou Debbie Harry. O resultado final é um verdadeiro e imenso hino indie rock.

Quanto à remistura do tema homónimo do disco da autoria de Jerome Lol, o autor confere um ambiente mais negro e místico ao tema, quando amplia a percussão, dando-lhe uma tonalidade algo grave, acentuada por alguns elementos novos como o som de xilofones e da bateria.

Neste EP os YACHT continuam a dar vida à fusão única que alimentam entre o talento musical que possuem e o mundo tecnológico, propondo mais um punhado de canções que exploram a eletrónica e o indie rock de modo a serem simultaneamente abrangentes, versáteis e acessíveis ao grande público, sempre com as pistas de dança debaixo de olho. Where Does The Disco? está disponivel atualmente apenas no formato digital, através da Downtown Records, mas haverá uma edição especial física, à venda durante a próxima digressão da banda que se irá chamar Where Does This Disco? Tour. Confere...

Where Does This Disco

Works Like Magic

Terminal Beach

Where Does This Disco (Jerome LOL Remix)


autor stipe07 às 22:06
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Terça-feira, 11 de Novembro de 2014

Foxygen - ...And Star Power

Sam France e Jonathan Rado são a dupla por trás dos Foxygen, um projeto californiano, natural de Weslake Village, nos arredores de Los Angeles, apaixonado pela sonoridade pop e psicadélica dos anos cinquenta a sessenta e setenta, dois períodos localizados no tempo e que semearam grandes ideias e nos deram canções inesquecíveis, lançaram carreiras e ainda hoje são matéria prima de reflexão. Na estreia, com Take the Kids Off Broadway, (disco criado em 2011, mas apenas editado no ano seguinte) os Foxygen procuraram a simbiose de sonoridades que devem muito a nomes tão fundamentais como David Bowie, The Kinks, Velvet Underground, The Beatles e Rolling Stones. Dois anos depois, com uma melhor produção e maior coesão, o sucessor, We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic, disco produzido por Richard Swift, trazia o mesmo horizonte vasto de referências e as inspirações da estreia, mas trabalhadas de forma ainda mais abrangente e eficaz. Agora, ao terceiro trabalho e na Jagjaguwar que desde sempre os abriga, os Foxygen alargam ainda mais os horizontes, libertam-se de qualquer amarra que ainda os poderia limitar e deixam a criatividade evidenciar-se nas mais diversas formas.

No meio de ruídos e alguns diálogos desconexos, mas com vários momentos onde conseguem sintonizar-se no ambiente certo, os Foxygen apresentam um projeto megalómano, uma hora e vinte de música que atesta o amadurecimento natural da dupla, que aprendeu subtilmente a mudar o seu som sem ferir as naturais susceptibilidades dos gostos musicais que cada um dos dois guarda dentro de si e que foram, desde sempre, o grande fator motivacional dos Foxygen, já que não são gostos propriamente convergentes.

...And Star Power é um verdadeiro tratado sonoro carregado de emoção, cor e alegria, uma verdadeira viagem no tempo, mas também um disco intemporal na forma como plasma com elevada dose de criatividade o que de melhor recria atualmente o vintage, ao mesmo tempo que aponta caminhos para o futuro não só da dupla, como de todo um género musical que não se deve esgotar apenas na recriação de algumas das referências fundamentais do passado, mas também subsistir numa demanda constante por algo genuíno e que depois sirva de modelo e de referencial sonoro. O modo como os Foxygen recriam a música de outrora, faz já deles um modelo a seguir para outros projetos que queiram trilhar este caminho sinuoso e claramente aditivo, principalmente pelo modo como, não só no disco, mas mesmo em cada música, conseguem ser transversais e estabelecer pontes entre o passado e o futuro.

Em ...And Star PowerCosmic Vibrations é a canção que melhor mostra as diversas mudanças que o grupo consegue criar dentro da mesma composição. A introdução de quase um minuto tem um tom sexy, acompanhado de um órgão e uma percussão muito subtil. Quando o baixo pulsante entra, a canção começa a tomar um rumo mais rock e sensual, atingindo o auge numa aceleração que é novamente interrompida pela toada anterior, uma espécie de coito interrompido mas que não impede o regresso aos preliminares.

Outros destaques deste disco são, certamente, a balada I Don't Have Anything/The Gate, que tem o melhor refrão de ...And Star Power e You & I, outro instante melancólico que obedece à sonoridade glam dos anos setenta, abastecida pelo período aúreo de Bowie. A quadra Star Power tem um experimentalismo instrumental que se aproxima do blues marcado pelo piano e pelas guitarras, além dos metais e de alguns ruídos que assentam muito bem na sequência de canções, que vão acelerando e aumentando o nível de ruído e de distorção à medida que a sequência avança. A secção de sopros e as vozes, ao terceiro tomo (What Are We Good For), acabam por fazer deste tema um dos grandes destaques do disco, com a toada groove e funky que passeia de mãos dadas com o momento mais rock do álbum, feito de imensas guitarras e de vários instantes sonoros diferentes sobrepostos. Esta sequência, que termina com Ooh Ooh, soa à banda sonora ideal para uma noite bem regada, com alguma agitação e boa música, onde os acontecimentos parecem sair um pouco fora de controle, mas na madruga, tudo acaba bem.

Outro momento que retive foi a sequência feita com percurssão e as teclas em Mattress Warehouse e o lado mais lisérgico e desconexo dos Foxygen plasmado em 666 e Wally's Farm e na sedutora Cannibal Holocaust, uma música que embarca num clima enganadoramente doce e, por isso, potencialmente lisérgico. Até ao final, parece haver um aumento no volume de acidez que abastece a dupla e, quer em Hot Summer, quer em Cold Winter/Freedom aumenta a frequência de vozes perturbadoras e sons desconexos, com a última a ser uma viagem hipnótica de seis minutos obscura, áspera e aterradora, um clima que apenas diminui lentamente em Can’t Contextualize My Mind e Brooklyn Police Station. O alinhamento encerra com Everyone Needs Love e Hang, dois temas que nos ajudam a aterrar em segurança, de forma amena, doce e otimista, mas sempre de mãos dadas, como não podia deixar de ser, com o soft rock e a psicadelia.

Deliciosamente arrojado e mal acabado, ...And Star Power é um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento de vinte e quatro canções nascesse um mapa genético que define o universo que motiva os Foxygen, uma banda com uma identidade muito própria e um sentido melódico irrepreensível. Numa dupla que primeiro se estranha, mas depois se entranha, é um impressionante passo em frente quando comparado com os registos anteriores, num disco vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências do passado. Espero que aprecies a sugestão...

I: The Hits & Star Power Suite
Star Power Airlines
How Can You Really
Coulda Been My Love
Cosmic Vibrations
You & I
Star Power I: Overture
Star Power II: Star Power Nite
Star Power III: What Are We Good For
Star Power IV: Ooh Ooh
II: The Paranoid Side
I Don’t Have Anything / The Gate
Mattress Warehouse
666
Flowers
Wally’s Farm
Cannibal Holocaust
Hot Summer
III: Scream: A Journey Through Hell
Cold Winter / Freedom
Can’t Contextualize My Mindi
Brooklyn Police Station
The Game
Freedom II
Talk
IV: Hang On To Love
Everyone Needs Love
Hang


autor stipe07 às 20:21
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Sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

The Airborne Toxic Event – Wrong

Depois de Such Hot Blood, os norte americanos The Airborne Toxic Event, uma de uma banda de Los Angeles formada por Mikel Jollett (voz, guitarra, teclas), Steven Chen (guitarra, teclas), Noah Harmon (baixo, voz), Daren Taylor (bateria) e Anna Bulbrook (viola, teclas, tamborim, voz), estão de regresso aos discos com Dope Machines, o quarto trabalho da carreira do coletivo, ainda sem data de lançamento anunciada.

Wrong é o primeiro avanço divulgado de Dope Machines e, pelo sintetizador qe passeia livremente pela canção, ditando o rumo dos acontecimentos, a eletrónica terá um papel ainda mais preponderante no futuro deste coletivo. Confere...

The Airborne Toxic Event - Wrong


autor stipe07 às 13:11
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Sábado, 25 de Outubro de 2014

Tashaki Miyaki – The Beautiful Ones (Prince Cover)

Tashaki Miyaki

A vocalista Lucy Miyaki e o guitarrista Tashaki formam os Tashaki Miyaki, uma dupla oriunda de los Angeles, que navega nas águas turvas e profundas da dream pop de pendor psicadélico. Em digressão com os Allah-Las durante este outono, resolveram gravar algumas covers para a ocasião, um trabalho que irá ser editado com o sugestivo nome The Covers EP.

Uma das canções que os Tashaki Miyaki resolveram revisitar com a ajuda do produtor Joel Jerome foi o clássico The Beautiful Ones, um original de Prince, tendo-o feito de forma bastante original e assertiva e criado uma atmosfera densa e particularmente sensual e hipnótica.  A versão está disponivel para download gratuito. Confere...


autor stipe07 às 20:10
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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Allah-Las – Worship The Sun

Naturais de Los Angeles, os norte americanos Allah-Las são Miles, Pedrum, Spencer e Matt e têm um novo disco intitulado Worship The Sun, um trabalho lançado por intermédio da Innovative Leisure no último dia dezasseis de setembro e que sucede a um homónimo que foi o disco de estreia da banda, editado em 2012.

Os Allah-Las estão atrasados ou adiantados quase meio século, depende da perspetiva que cada um possa ter acerca do conteúdo sonoro que replicam. Se na década de sessenta seriam certamente considerados como uma banda vanguardista e na linha da frente e um exemplo a seguir, na segunda década do século XXI conseguem exatamente os mesmos pressupostos porque, estando novamente o indie rock lo fi e de cariz mais psicotrópico na ordem do dia, são, na minha modesta opinião, um dos projetos que melhor replica o garage rock dos anos sessenta e a psicadelia da década seguinte.

Depois de terem impressionado com o búzio de Allah-Las, estes californianos mantêm a toada no sucessor e trazem o mesmo horizonte vasto de referências e as inspirações da estreia, mas trabalhadas de forma ainda mais abrangente e eficaz. Levam-nos novamente numa viagem que espelha fielmente o gosto que demonstram relativamente aos primórdios do rock e conseguem apresentar, em simultâneo, algo inovador e diferente, através de uma sonoridade muito fresca e luminosa, assente numa guitarra vintage, que de Creedance Clearwater Revival a Velvet Underground, passando pelos Lynyrd Skynyrd, faz ainda alguns desvios pelo blues dos primórdios da carreira dos The Rolling Stones e pela irremediável crueza dos The Kinks.

Começa-se a escutar De Vida Voz e cá vamos nós a caminho da praia ao som dos Allah-Las e de volta à pop luminosa dos anos sessenta, aquela pop tão solarenga como o estado norte americano onde a banda reside. E vamos com eles enquanto nos cruzamos com os veraneantes cor de salmão e de arca frigorífica na mão, que lutam interiormente ao chegar ao carro, sem saberem se a limpeza das chinelas deve ser exaustiva, ou se os inúmeros grãos de areia que se vão acumular no tapete junto aos pedais do Mégane justificam um avanço de algumas centenas de metros na fila de veículos que regressam à metrópole. A praia dos Allah-Las, na costa oeste, começa com o pôr do sol e uma fogueira e continua noite dentro até o vidrão ficar cheio e a areia se confundir com as beatas que proliferam, numa festa feita de cor, movimento e muita letargia.

Quem acha que ainda não havia um rock n' roll tresmalhado e robotizado nos anos sessenta ou que a composição psicotrópica dos substantivos aditivos que famigeravam à época pelos estúdios de gravação não permitia grande rigor melódico, ficará certamente impressionado com a contemporaneidade vintage nada contraditória dos acordes sujos de No Werewolf e do groove da guitarra e de uma voz que parece planar sobre Artifact e Recurring, dois dos melhores temas do disco. Depois, o tema homónimo tem um experimentalismo instrumental que se aproxima do blues marcado pela guitarra acústica, além dos metais e de alguns ruídos que assentam muito bem na canção. Had It All, o single já retirado do disco, obedece integralmente à toada revivalista, com um certo travo folk, numa canção que funde Bob Dylan e Jimmy Hendrix, numa sonoridade simultaneamente grandiosa e controlada. Já as cordas de Nothing To Hide e o efeito que as acompanham, assim como a percurssão groove do tema homónimo e os efeitos hipnóticos da guitarra, sustentam duas das mais belas melodias de um disco que até abraça a folk e o country sulista americano em Better Than Mine

Uma das canções mais curiosas do álbum é 501-415, a peça mais psicadélica e sintética do disco e com um timbre pouco usual, estado aqui o momento mais experimental de um trabalho que mesmo nos momentos puramente instrumentais, como Ferus Gallery, Yemeni Jade e a já citada No Werewolf, não desilude.

Buffalo Nickel tem o melhor refrão de Worship The Sun, uma balada que obedece à sonoridade pop dos anos sessenta e Follow You Down tem um experimentalismo instrumental que se aproxima do blues marcado pelo baixo e pelas guitarras, além dos metais e de alguns ruídos que assentam muito bem na canção, uma atmosfera que se repeate no surf rock de Every Girl, uma forma muito luminosa e festiva de encerrar um disco que feito de referências bem estabelecidas e com uma arquitetura musical que garante aos Allah-Las a impressão firme da sua sonoridade típica e ainda permite terem margem de manobra para futuras experimentações.

Worship The Sun é, como de algum modo já referi, coerente com vários discos que têm revivido os sons outrora desgastados das décadas de sessenta e setenta e é uma viagem ao passado sem se desligar das novidades e marcas do presente. É um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva esta banda californiana. É um disco vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências antigas. Espero que aprecies a sugestão...

Allah-Las - Worship The Sun

01. De Vida Voz
02. Had It All
03. Artifact
04. Ferus Gallery
05. Recurring
06. Nothing To Hide
07. Buffalo Nickel
08. Follow You Down
09. 501-415
10. Yemeni Jade
11. Worship The Sun
12. Better Than Mine
13. No Werewolf
14. Every Girl


autor stipe07 às 22:15
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