Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

Tashaki Miyaki – The Dream

A vocalista Lucy Miyaki e o guitarrista Tashaki formam o núcleo duro dos Tashaki Miyaki, uma banda oriunda de Los Angeles que navega nas águas turvas e profundas da dream pop de pendor psicadélico e que acaba de se estrear no formato longa duração com The Dream, um lindíssimo tomo de canções patrocinadas pela Metropolis Records, produzido por Paige Stark, misturado por Dan Horne (Cass McCombs, Allah-Las) e que com as participações especiais de Joel Jerome (Cherry Glazerr, La Sera, Dios) e do multi-instrumentista Jon Brion. São canções que nos embalam e incitam de um modo muito particular e lisérgico, já que comprovam o quanto estes Tashaki Miyaki são incomparáveis e mestres na criação de uma atmosfera densa, mas particularmente sensual e hipnótica.

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Com uma sonoridade cada vez mais sóbria e adulta, Lucy e Tashaki criaram em The Dream um catálogo sonoro envolvente, climático e tocado pela melancolia, que atinge o seu auge, na minha opinião, na pop luminosa e pueril de Cool Runnings, uma daquelas canções que se não se embranha no imediato é porque existe algo de errado no nosso âmago no que concerne à capacidade de absorver emoção e fervor. Mas logo em City e, de modo mais vincado, em Girls On T.V., a dupla apresenta uma instrumentação que tem como pano de fundo essencial o clássico rock abarcado pela típica herança da América do Norte, que serve-se de guitarras sobriamente eletrificadas e distorcidas para obter uma mistura sem fronteiras definidas, entre esse grande universo sonoro e o blues, a folk, e, implicitamente, alguns pilares fundamentais da eletrónica ambiental, com o bónus de ser audível, neles a procura de uma sonoridade ainda mais intimista e reservada, como se quisesse replicar-se, no seu todo, com um suspiro algo abafado e o menos expansivo possível.

No inconfundível dedilhar das notas de Anyone But You e na sobriedade dos arranjos de Facts Of Life, conferimos mais dois notáveis exemplos de como se sente neste álbum uma superior carga emotiva. Além disso, a voz adocicada de Lucy, que parece pairar, em praticamente todo o disco, numa frágil nuvem de algodão, faz juz à cândura de uma odisseia poética que transborda fragilidade em todas as sílabas e versos que sustentam as canções. Esta voz, quando em Get It Right replica um registo mais grave sem colocar em causa o elevado pendor lisérgico da cantora, é mais uma manifestação audível e concreta do jogo dual que os Tashaki Miyaki conseguem oferecer ao ouvinte, entre força e fragilidade, dois aspetos que nas vozes, na letra e na instrumentação, se equilibram de forma vincada e segura.

The Dream é, em suma, um compêndio sonoro que surpreende pelo bom gosto como apresenta de forma sombria e introspetiva, mas superiormente frágil e sedutora, a visão dos Tashaki Miyaki sobre alguns temas que sempre tocaram a dupla, mas, principalmente, pela forma madura e sincera como tentam conquistar o coração de quem os escuta com melodias doces e que despertam sentimentos que muitas vezes são apenas visíveis numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

Tashaki Miyaki - The Dream

01. L.A.P.D. Prelude
02. City
03. Girls On T.V.
04. Out Of My Head
05. Anyone But You
06. Cool Runnings
07. Tell Me
08. Facts Of Life
09. Keep Me In Mind
10. Get It Right
11. Somethin Is Better Than Nothin
12. L.A.P.D. Finale
13. L.A.P.D.


autor stipe07 às 14:56
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2017

Foxygen - Hang

Com uma salutar obsessão pelos Brian Jonestown Massacre, os Foxygen são hoje estrelas maiores do firmamento indie e estão de regresso aos lançamentos discográficos com Hang, oito canções que são um impressionante passo em frente na carreira de uma dupla natural de Weslake Village, nos arredores de Los Angeles e apaixonada pela sonoridade pop e psicadélica de segunda metade do século passado, um período localizado no tempo e que semeou grandes ideias e nos deu canções inesquecíveis, lançou carreiras e ainda hoje é matéria prima de reflexão para inúmeros projetos.

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Se na estreia, com Take the Kids Off Broadway (disco criado em 2011, mas apenas editado no ano seguinte), os Foxygen procuraram a simbiose de sonoridades que devem muito a nomes tão fundamentais como David Bowie, The Kinks, Velvet Underground, The Beatles e Rolling Stones e se dois anos depois, com uma melhor produção, a cargo de Richard Swift e maior coesão, o sucessor, We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic, trazia o mesmo horizonte vasto de referências e as inspirações da estreia, mas trabalhadas de forma ainda mais abrangente e eficaz e se em 2014 as mais de vinte canções de ...And Star Power alargaram ainda mais os horizontes do projeto, libertando-o definitivamente de qualquer amarra que ainda o pudesse limitar, agora, ao quarto disco, os Foxygen atingem o auge de maturação e refinamento, num alinhamento onde a criatividade se evidencia nas mais diversas formas, fruto de um psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e um sentido de liberdade e prazer juvenil que é suficientemente atual nesta dupla, exatamente por experimentar tantas referências do passado.

Editado pela Jagjaguwar que desde sempre abriga os Foxygen, Hang está cheio de instantes obrigatórios e surpreendentes. Se Follow The Leader é conduzido por aquele charme negro com fortes ligações ao melhor da motown setentista e se a descarada homenagem de Avalon ao rock progressivo e ao clássico Waterloo dos suecos Abba, ajuda a plasmar o modo como Sam France e Jonathan Rado não se envergonham de elevar ao panteão nomes e figuras de outros tempos que sempre os encantaram, principlamente quando houve um aumento no volume de acidez que sempre abasteceu a dupla, já o sintetizador glam e o piano insinuante de Mrs. Adams são um bom exemplo do modo como os Foxygen são geniais a colar e sobrepôr melodias e instrumentos sem perderem o norte e, naturalmente, quase sempre com um tom sexy e algo subtil. Depois, quando a guitarra pulsante entra, a canção começa a tomar um rumo mais rock e sensual, atingindo o auge numa aceleração que é novamente interrompida pela toada anterior, uma espécie de coito interrompido mas que não impede o regresso aos preliminares.

Até ao final, num disco que de Eddie Holland a Smoking Robinson e Martha Reeves, passando pelos britânicos Electric Light Orchestra de Jeff Lynne tem em si impresso aquele espírito nativo único e genuíno, uma típica canção de natal chamada America, que bem precisa de um Pai Natal generoso que a salve dos tempos tenebrosos que vive, um intenso e melancólico tema com forte travo country chamado On Lankershim e Rise Up, talvez a canção que melhor exemplifica a filosofia experimentalista, ao nível instrumental deste projeto, que se aproxima muitas do blues marcado pelo piano e pelas guitarras, além dos metais e de alguns ruídos, são outros instantes que reúnem, também através das letras, todo um manancial de imagens e referências que evocam a era de ouro de Hollywood e, tendo em conta o período temporal acima descrito, principalmente os mágicos anos setenta.

Hang conta com várias participações especiais, entre elas Trey Pollard, Matthew E. White, os The Lemon Twigs e Steven Drozd dos Flaming Lips, músicos experientes e conceituados, que adicionaram há já habitual receita cósmica da dupla, vários ingredientes assertivos, conseguindo-se sintonizar sempre no ambiente certo, sem ferir as naturais susceptibilidades dos gostos musicais que cada um deles trouxe consigo. O resultado é um verdadeiro tratado sonoro carregado de emoção, cor e alegria, uma verdadeira viagem no tempo, mas também um disco intemporal na forma como plasma com elevada dose de criatividade o que de melhor recria atualmente o vintage. Mas Hang também aponta caminhos para o futuro não só da dupla, como de todo um género musical que não se deve esgotar apenas na recriação de algumas das referências fundamentais do passado, mas também subsistir numa demanda constante por algo genuíno e que depois sirva de modelo e de referencial sonoro. O modo como o misticismo exótico dos Foxygen recria a música de outrora, faz já deles um modelo a seguir para outros projetos que queiram trilhar este caminho sinuoso e claramente aditivo, principalmente pelo modo como, não só neste disco, mas mesmo em cada música, conseguem ser transversais e estabelecer pontes entre o passado e o futuro. Espero que aprecies a sugestão...

Foxygen - Hang (2017)

01. Follow the Leader
02. Avalon
03. Mrs. Adams
04. America
05. On Lankershim
06. Upon a Hill
07. Trauma
08. Rise Up


autor stipe07 às 09:19
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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

The New Division – Precision EP

Os The New Division são uma banda de Riverside, nos arredores Los Angeles, formada em 2005 por John Kunkel, ao qual se juntam, ao vivo, Brock Woolsey, Michael Janz,Mark Michalski e Alex Gonzales. Falei deles em finais de 2011 por causa de Shadows, o disco de estreia e de Gemini, um trabalho editado há quase dois anos e que continha treze canções com alguma da melhor pop new wave que se pode escutar atualmente. Agora, no dealbar de 2017, este projeto está de volta com Precision, um ep que viu a luz do dia a sete de janeiro, através da Quapaw Music Publishing.

O revivalismo punk rock dos anos oitenta, combinado com a eletrónica mais influente dessa época, razão pela qual não será alheia a inserção das palavras New (Order) e (Joy) Division no nome, é a grande força motriz do processo de criação musical de Kunkel, um músico bastante interessando por esse período musical e que procura replicar, com uma contemporaneidade que se saúda, esse universo musical essencial na história musical e cultural de final do século passado. Tal permissa fica desde logo plasmada, por exemplo, no single Vicious, a principal amostra do ep, canção que impressiona pelo inedetismo de alguns efeitos sintetizados, piscando o olho a uma sonoridade pop, luminosa e expansiva, certamente em busca de um elevado sucesso comercial, de modo a ampliar a rede de ouvintes e seguidores do grupo, além dos habituais devotos que têm acompanhado o percurso da banda com particular devoção.

Precision impressiona, desde logo, pela qualidade da produção e pela aposta firme na criação de um som límpido e que entre o revivalismo e algumas intenções futuristas, agrada e seduz, até pelo forte apelo às pistas de dança. Estamos na presença de um conjunto de canções cuidadosamente trabalhado, onde as influências são bem claras e canções como a já referida Vicious, a pulsante Rewind, que conta com a participação especial vocal de Missing Words, a retro Vices ou a mais orgânica e épica Precision, foram certamente pensadas para o airplay, baseando-se numa pop épica e conduzida por teclados sintéticos que dão vida a refrões orelhudos e melodias que se colam ao ouvido com particular ênfase.

Precision confirma que as guitarras dominam cada vez menos o processo de criação melódica dos The New Division e neste ep os sintetizadores e os efeitos da bateria eletrónica assumem os comandos, olhando de frente para aquela pop nórdica fortemente sentimental que, por exemplo, os A-Ha recriaram com mestria no tal período temporal que entusiasma Kunkel.

Não é novidade nenhuma dizer-se que a música enquanto forma de arte é um fenómeno onde quem inova sonoramente pode encontrar aí o caminho para o sucesso. No entanto, penso que esta manifestação artística também é um fenómeno cíclico e que as bandas e artistas que buscam elementos retro de outras décadas para recriar um estilo próprio também poderão encontrar a chave para o sucesso. Exemplos que procuram seguir esta doutrina são bem comuns nos dias de hoje são bem comuns e já não restam dúvidas que os The New Division escolheram a inesquecível década da ascensão da música eletrónica para sustentar a sua carreira discográfica. Espero que aprecies a sugestão...

The New Division - Precision

01. Vicious
02. Rewind (Feat. Missing Words)
03. Vices
04. Precision
05. Pressure (In Decay)
06. Walk


autor stipe07 às 11:18
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

Andrew Belle – Back For Christmas

Andrew Belle - Back For Christmas

O compositor e músico californiano Andrew Belle compôs e editou um tema de natal para este ano. A canção intitula-se Back For Christmas e está incluída no alinhamento de A Very RELEVANT Christmas, Vol 6, uma edição da publicação Relevant e na qual se incluem, também com composições alusivas a esta quadra festiva, outros nomes imprescindíveis como Kyle Cox, Sleeping At Last, Hoyle e Branches, entre outros.

Esta canção já existe em formato demo desde 2010, mas só agora, no ocaso de 2016, Andrew Belle viu a oportunidade certa para lhe dar os arranjos finais. Ela tem um historial bastante interessante de junção de fragmentos, conforme referiu Belle no release de lançamento: The demo of this song was actually created back in 2010 and I wrote each of the verses at different times over the last six years,” shares Belle. “In the first verse I’m talking about the existence of God, the second is about discovering who he is, and the third verse says, ‘I only got what I can give away,” which is something I’m learning, slowly, as I get older.

Com o ambiente sonoro multicolorido e espetral a ser influenciado pela paisagem multi cultural de Los Angeles, cidade onde Andrew vive atualmente e com um forte cunho impressivo por parte do produtor Chad Copelin (Ben Rector, Sufjan Stevens, Ivan & Alyosha), Back For Christmas explora algumas das mais contemporâneas interseções entre pop e eletrónica enquanto nos oferece um excelente instante sonoro para esta consoada.Confere...


autor stipe07 às 21:09
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Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

The Blank Tapes - Ojos Rojos

Vieram da Califórnia numa máquina do tempo diretamente da década de sessenta, têm passado por esta publicação várias vezes e aterraram no universo indie pela mão da Antenna Farm Records. Chamam-se The Blank Tapes, são liderados por Matt Adams, ao qual se juntam atualmente Spencer Grossman, Will Halsey e Pearl Charles. Depois de em maio de 2014 me terem chamado a atenção com Vacation, um disco gravado por Carlos Arredondo nos estúdios New, Improved Recording, em Oakland e de pouco antes do ocaso desse ano, terem divulgado mais uma coleção de canções, nada mais nada menos que quarenta e três, intitulada Hwy. 9 e de em janeiro de 2015 terem editado Geodesic Home Place, agora, já em 2016, oferecem-nos Ojos Rojos, mais catorze canções de intensidade festiva máxima e que nos levam de volta à pop luminosa dos anos sessenta, aquela pop tão solarenga como o estado norte americano onde Matt reside.

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(pic by Sheva Kafai)

Reviver sonoramente tempos passados parece ser uma das principais permissas da esmagadora maioria dos projetos musicais norte americanos que vêm da costa oeste. Enquanto que às portas do Atlântico procura-se mergulhar o indie rock em novas tendências e sonoridades mais contemporâneas, basta ouvir-se Sexxy Skyype, um dos temas mais inebriantes e festivos de Ojos Rojos para se perceber que do outro lado da route 66, em São Francisco e Los Angeles, os ares do Pacífico fazem o tempo passar mais lentamente, mesmo quando o pedal das guitarras descontrola-se na surf pop de Dance To Dance ou procura ambientes melódicos mais nostálgicos e progressivos, como é o caso de La Baby ou Beach Party.

Matt, o líder do grupo, é apaixonado pela sonoridade pop e psicadélica dos anos sessenta e setenta, dois períodos localizados no tempo e que semearam grandes ideias e nos deram canções inesquecíveis, lançaram carreiras e ainda hoje são matéria prima de reflexão e os The Blank Tapes querem ser guardiões de um som que agrada imenso a todos os veraneantes cor de salmão e de arca frigorífica na mão, que lutam interiormente ao chegar ao carro, sem saberem se a limpeza das chinelas deve ser exaustiva, ou se os inúmeros grãos de areia que se vão acumular no tapete junto aos pedais do Léon justificam um avanço de algumas centenas de metros na fila de veículos que regressam à metrópole.

O disco prossegue e quer no rock n' roll tresmalhado de Spring Break ou no fuzz complacente de Biggest Blunt In Brazil e na cadência suave e profundamente veraneante de Let Me Hear You Rock, fica claro que Ojos Rojos balança entre uma contemporaneidade vintage e um glorioso suadosimo, em canções com referências bem estabelecidas, numa arquitetura musical que garante a Matt a impressão firme da sua sonoridade típica e que lhe continua a dar margem de manobra para várias experimentações transversais e diferentes subgéneros, que da surf pop, ao indie rock psicadélico, passando pela típica folk norte americana, não descuram um sentimento identitário e de herança que o músico guarda certamente dentro de si e que procura ser coerente com vários discos que têm revivido sons antigos.

Ojos Rojos é, portanto, mais uma viagem ao passado sem se desligar das novidades e marcas do presente. É um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva os The Blank Tapes. É um apanhado sonoro vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências do passado. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 16:48
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Terça-feira, 4 de Outubro de 2016

Warpaint - Heads Up

Theresa Wayman, Emily Kokal, Jenny Lee Lindberg e Stella Mozgawa estão de regresso com Heads Up, um título feliz para batizar aquele que é o terceiro disco das Warpaint, sucessor de um homónimo, lançado em 2014. Produzido por Jacob Bercovici, Heads Up viu a luz do dia a vinte e três de setembro à boleia da Rough Trade Records e nele estas quatro miúdas deixaram as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural e assumirem uma faceta mais polida e luminosa que o antecessor, para criar um álbum tipicamente rock, etéreo q.b. e esculpido com cordas ligadas à eletricidade e com uma identidade muito particular.

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Abastecidos pelos antecessores e com o conteúdo de ambos ainda a fazer mossa no nosso subconsciente, basta escutar o baixo e a bateria de Whiteout para se perceber que em Heads Up existe uma nova envolvência e um clima mais refinado e cuidado, sem que isso coloque em causa a habitual orgânica e aquele pulsar que faz destas Warpaint um dos melhores projetos sonoros indie contemporâneos.

Piscando também o olho ao funk e ao R&B em By Your Side e, num outro pólo, ao rock oitocentista revestido a neon e plumas em So Good e à eletrónica mais melancólica e ambiental em The Stall, torna-se claro que foi bem sucedida a incessante busca por algo diferente e inovador, com as Warpaint a chegarem ao terceiro álbum dando mais um passo em frente num projeto que nunca se acomodou a uma abordagem estilística estanque, apesar de manterem no seu epicentro sonoro uma intensa aúrea sexual, que as despe de um mistério tantas vezes artificial, mostrando, sem rodeios e mais uma vez, com ousadia, a verdadeira personalidade de um coletivo cada vez mais maduro e confiante.

Charme, luxúria e a sofisticação são adjetivos que descrevem na perfeição um alinhamento de onze canções intenso, experimental e com vida própria e independente, com Heads Up a agarrar-nos pelos colarinhos sem dó nem piedade e a sugar-nos para um universo pop feito com uma sonoridade tão preciosa e bela, como as autoras da mesma. Espero que aprecies a sugestão...

Warpaint - Heads Up

01. Whiteout
02. By Your Side
03. New Song
04. The Stall
05. So Good
06. Don’t Wanna
07. Don’t Let Go
08. Dre
09. Heads Up
10. Above Control
11. Today Dear


autor stipe07 às 23:03
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016

Local Natives – Sunlit Youth

À exceção de algumas remisturas e versões, os norte americanos Local Natives têm-se mantido na penumbra desde o excelente Hummingbird, o disco que esta banda natural de Los Angeles editou em 2013 e que fez da leveza instrumental, do sofrimento traduzido em versos e da formatação primorosa que brincava com a excelência das formas instrumentais, a sua imagem de marca.

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Mas agora, mais de três anos depois e à boleia da Loma Vista Recordings, este quinteto liderado por Taylor Rice está de regresso com Sunlit Youth, doze novas canções antecipadas já há alguns meses por Past Lives, tema que ampliava a habitual componente épica dos Local Natives, feita com texturas monumentais e arranjos deslumbrantes, sempre numa lógica de progressão, à medida que a canção avança e nunca perdendo de vista as melodias suaves e a dor, dois vectores essenciais do conceito sonoro deste grupo e que se estendem pelo restante alinhamento do álbum.

A sonoridade dos Local Natives sempre se manteve dentro de uma atmosfera bem delineada e de uma constante proximidade lírica e musical, algo bem patente logo em Gorilla Manor, o disco de estreia e uma obra que alicerçou definitivamente o rumo sonoro do grupo. Hummingbird concretizou tudo aquilo que tinha sido proposto três anos antes e Sunlit Youth, mantendo o grupo na rota delineada, acrescenta uma maior componente épica, feita com texturas monumentais e arranjos que parecem aproximar o grupo das propostas de Robin Pecknold (Fleet Foxes) e Win Butler (Arcade Fire) e fazer uma espécie de simbiose das mesmas, como se percebe logo na imensidão sonora de Villainy.

Em Sunlit Youth há coerência no alinhamento e cada tema parece introduzir e impulsionar o seguinte, numa lógica de progressão, mas nunca perdendo de vista as melodias suaves e a dor, dois vectores essenciais do conceito sonoro dos Local Natives. Dessa forma, enquanto Fountain Of Youth e Masters crescem de maneira a soterrar-nos com emanações sumptuosas e encaixes musicais sublimes, Dark Days e Jellyfish puxam o álbum para ambientes mais melancólicos e amenos. Existem ainda composições que lidam, em simultâneo, com esta duplicidade, caso de Coins, um tema que nos transporta até altos e baixos instrumentais, que atacam diretamente os nossos sentimentos.

E são estes sentimentos que suportam cada mínima fração instrumental e poética de Sunlit Youth, já que praticamente tudo aquilo que se ouve lida com aspectos dolorosos da vida a dois. A própria sobreposição de cantos e o modo com os músicos da banda vão-se revezando na voz e de maneira orquestral direcionam os próprios rumos marcados pelos instrumentos que tocam. Assim, as vozes servem como estímulo para o começo, o meio e o fim das canções e não são apenas um instrumento extra, mas uma das linhas que guiam e amarram o álbum do princípio ao fim.

Embora tenha a concorrência de um universo musical saturado de propostas, Sunlit Youth consegue posicionar os Local Natives num lugar de destaque, porque traz na constante proximidade entre as vozes e as melodias instrumentais, imensa emoção e carateriza-se por ser um registo que involuntariamente chama a atenção pela beleza e que, por isso, deve ser apreciado com cuidado e real atenção. Espero que aprecies a sugestão...

Local Natives - Sunlit Youth

01. Villainy
02. Past Lives
03. Dark Days
04. Fountain Of Youth
05. Masters
06. Jellyfish
07. Coins
08. Mother Emanuel
09. Ellie Alice
10. Psycho Lovers
11. Everything All At Once
12. Sea Of Years


autor stipe07 às 22:33
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Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

Allah-Las - Calico Review

Naturais de Los Angeles, os norte americanos Allah-Las são Miles, Pedrum, Spencer e Matt e têm um novo disco intitulado Calico Review, um trabalho lançado por intermédio da Mexican Summer no último dia nove de setembro e que sucede ao excelente Worship The Sun (2014) e a um homónimo, que foi o disco de estreia da banda, editado em 2012. Calico Review foi gravado no Valentine Recording Studio, um estúdio famoso em Los Angeles que estava encerrado desde finais da década de setenta, com o equipamento utilizado a ser, de acordo com a banda, semelhante ao que foi usado pelos The Beach Boys em Pet Sounds.

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Os Allah-Las estão atrasados ou adiantados quase meio século, depende da perspetiva que cada um possa ter acerca do conteúdo sonoro que replicam. Se na década de sessenta seriam certamente considerados como uma banda vanguardista e na linha da frente e um exemplo a seguir, na segunda década do século XXI conseguem exatamente os mesmos pressupostos porque, estando novamente o indie rock lo fi e de cariz mais psicotrópico na ordem do dia, são, na minha modesta opinião, um dos projetos que melhor replica o garage rock dos anos sessenta e a psicadelia da década seguinte.

Depois de terem impressionado com o búzio de Allah-Las e a abrangência vintage de Worship The Sun, estes californianos trazem o mesmo horizonte vasto de referências e as inspirações dos antecessores, mas de forma ainda mais abrangente e eficaz, levando-nos numa viagem que espelha fielmente o gosto que demonstram relativamente aos primórdios do rock e conseguindo apresentar, em simultâneo, algo inovador e diferente.

No momento de compôr e de selecionar o cardápio instrumental das canções a receita dos Allah-Las é muito simples mas tremendamente eficaz e aditiva, mesmo no sentido psicotrópico do termo. A embalagem muito fresca e luminosa, apimentada por um manto de fundo lo fi empoeirado, e rugoso mas pleno de soul, é assente numa guitarra vintage, que de Creedance Clearwater Revival a Velvet Underground, passando pelos Lynyrd Skynyrd, faz ainda alguns desvios pelo blues dos primórdios da carreira dos The Rolling Stones e pela irremediável crueza dos The Kinks.

Começa-se a escutar Strange Heat e cá vamos nós a caminho da praia ao som dos Allah-Las e de volta à pop etérea e luminosa dos anos sessenta para, pouco depois, na percussão vibrante exemplarmente cruzada com as cordas de um violão em Satisfied e nos acordes sujos de Famous Phone Figure, assim como no groove da guitarra e de uma voz que parece planar sobre It Could Be You e Autumn Dawn, os dois dos melhores temas do disco,ficarmos completamente absortos por este experimentalismo instrumental que se aproxima do blues marcado pela guitarra acústica, além dos metais e de alguns ruídos que assentam muito bem, num disco que até abraça a folk e o country sulista americano em Terra Ignota.

Place In The Sun, o ocaso de Calico Review, é uma feliz homenagem ao final do verão, uma canção com sabor a despedida do sol e do calor, através de uma balada que obedece à sonoridade pop dos anos sessenta e uma forma muito assertiva de encerrar um disco feito de referências bem estabelecidas e com uma arquitetura musical que garante aos Allah-Las a impressão firme da sua sonoridade típica e ainda permite terem margem de manobra para futuras experimentações. Ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva esta banda californiana, Calico Review conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências antigas. Espero que aprecies a sugestão...

Allah-Las - Calico Review

01. Strange Heat
02. Satisfied
03. Could Be You
04. High And Dry
05. Mausoleum
06. Roadside Memorial
07. Autumn Dawn
08. Famous Phone Figure
09. 200 South La Brea
10. Warmed Kippers
11. Terra Ignota
12. Place In The Sun


autor stipe07 às 17:56
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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016

Cold Cave – The Idea Of Love

Cold Cave - The Idea Of Love

O projeto Cold Cave, liderado por Wesley Eisold, está de regresso com The Idea Of Love, um lançamento em formato físico single de sete polegadas e digital, com duas canções, o tema homónimo e Rue The Day. Este género de edições parece ser, definitivamente, a filosofia de Wesley para a apresentação das canções dos Cold Cave, com o clássico formato álbum a ser, para o autor, uma realidade do passado. O músico natural de Los Angeles confessou recentemente que esse é um formato demasiado redutor e que pretende publicar música livremente e sem a obrigatoriadade de o fazer à sombra de um alinhamento longo e definido no tempo, mesmo tendo em conta a excelente aceitação dos discos Love Comes Close (2009) e Cherish the Light Years (2011).

Quanto a estas duas canções, a rápida e efervescente The Idea Of Love é um imponente concentrado lo fi, com a distorção da guitarra e um efeito sintetizado futurista e suportarem a voz manipulada de Eisold. Esta composição prova que as guitarras barulhentas e os sons melancólicos do início dos anos noventa, assim como todo o clima sentimental dessa época e as letras consistentes, que confortavam e destruiam o coração num mesmo verso, continuam, vinte anos depois, a fazer escola. Rue the Day já nos remete para um universo eletrónico mais experimental, uma belíssima caldeirada, feita com várias espécies sonoras, envolvida numa embalagem frenética, com uma atmosfera sombria e visceral.

Este lançamento dos Cold Cave é, em suma, uma miríade de sons que fluem livres de compromissos e com uma estética própria, apenas com o louvável intuito de nos fazerem regressar ao passado e entregar-nos composições caseiras e perfumadas pelo passado, a navegarem numa espécie de meio termo entre o rock clássico, a eletrónica, o shoegaze e a psicadelia.


autor stipe07 às 15:56
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Quinta-feira, 1 de Setembro de 2016

Cass McCombs - Mangy Love

Natural de Los Angeles, na Califórnia, Cass Mccombs é um dos mais notáveis intérpretes do folk rock norte americano e está de regresso aos discos com Mangy Love, o oitavo tomo discográfico da sua já extensa e notável carreira. Refiro-me a um alinhamento de doze canções, que viram a luz a vinte e seis de agosto e sucedem ao excelente Big Wheel And Others, sendo o primeiro álbum do músico depois de ter assinado pela ANTI- Records.

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Mangy Love traz-nos de volta o ambiente algo ambivalente a que McCombs nos tem habituado na sua já extensa discografia, feito de sonho e amargura, dois campos lexicais que parecem não se cruzar em nenhum instante nas nossas vidas, mas que na escrita deste músico californiano se entrelaçam insistentemente, nomeadamente, e com notável ênfase, no piano e nas cordas complacentes de Low Flyin’ Bird. Mas já Opposite House, o primeiro avanço divulgado de Mangy Love, tinha deixado logo quer essa certeza de continuidade, quer o inedetismo invulgar das criações sonoras de McCombs, numa canção que conta com a participação especial de Angel Olsen nas vozes de fundo e que reforça a habitual sonoridade do músico, assente em banjos e violões carregados de amargura, mas também uma interessante dose de bom humor e ironia, uma sonoridade simplista, porém inebriante, que pula entre suaves exaltações ao rock alternativo e sorumbáticas doses de uma folk ruidosa, num oceano de melancolia ilimitada.

Apreciar Mangy Love é, incondicionalmente, ser transportado para um tradicional jogo de sons e versos que caracterizam alguma da melhor folk contemporânea, que ao invés de ser purista oferece-se de braços abertos ao indie rock e à própria eletrónica, o que, no caso de McCombs, atinge instantes de brilhantismo nas composições mais extensas, algo bem plasmado na visceralidade das guitarras e na voz sussurrante de Cry e no imenso oceano nostálgico que se espraia perante nós em I'm A Shoe. Depois, temas como Medusa's Outhouse, que segue esta linha autoral bem definida com rigidez, mostrando-nos um romântico inveterado, especialista em musicar lamentos e amores que não deram certo e o andamento rugoso e caribenho da fumarenta Run Sister Run, deixam-nos convencidos da excelência de um disco que mantém, em todo o alinhamento, uma fluidez agradável e inegavelmente marcante.

Mangy Love é, em suma, uma formidável sequência de composições bastante radiofónicas, onde tudo aquilo que atrai e influencia Cass McCombs, e que descrevi acima, é densamente compactado, com enorme mestria e um evidente bom gosto, num artista que longe de se abrigar apenas à sombra de canções melódicas convencionais, procura, disco após disco, reforçar o seu historial sonoro com um brilho raro que entronca, basicamente, na simplicidade com que se aventura na sua própria imaginação e numa indisfarcável devoção aos autores clássicos da América que o viu nascer e onde cabem, numa ténue fronteira, todos os sonhos, mas também diferentes angústias. Espero que aprecies a sugestão...

Resultado de imagem para Cass McCombs Mangy Love

01. Bum Bum Bum
02. Rancid Girl
03. Laughter Is The Best Medicine
04. Opposite House
05. Medusa’s Outhouse
06. Low Flyin’ Bird
07. Cry
08. Run Sister Run
09. In A Chinese Alley
10. It
11. Switch
12. I’m A Shoe


autor stipe07 às 22:09
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