Segunda-feira, 6 de Abril de 2015

The Blank Tapes - Geodesic Dome Piece

Vieram da Califórnia numa máquina do tempo diretamente da década de sessenta e aterraram no universo indie pela mão da Antenna Farm Records. Chamam-se The Blank Tapes, são liderados por Matt Adams, ao qual se juntam atualmente Spencer Grossman, Will Halsey e Pearl Charles e depois de em maio de 2014 me terem chamado a atenção com Vacation, um disco gravado por Carlos Arredondo nos estúdios New, Improved Recording, em Oakland e de pouco antes do ocaso do último ano, divulgarem mais uma coleção de canções, nada mais nada menos que quarenta e três, intitulada Hwy. 9, agora, a vinte e três de janeiro último, regressaram aos lançamentos discográficos com Geodesic Home Place, treze novas canções que nos levam de volta à pop luminosa dos anos sessenta, aquela pop tão solarenga como o estado norte americano onde Matt reside.

Reviver sonoramente tempos passados parece ser uma das principais permissas da esmagadora maioria dos projetos musicais norte amricanos que vêm da costa oeste. Enquanto que às portas do Atlântico procura-se mergulhar o indie rock em novas tendências e sonoridades mais contemprâneas, basta ouvir-se Slippin' slide, um dos emas mais inebriantes e festivos de Geodesic Dome Piece para se perceber que do outro lado da route 66, em São Francisco e Los Angeles, os ares do Pacífico fazem o tempo passar mais lentamente, mesmo quando o pedal das guitarras descontrola-se em Buff ou procura ambientes melódicos mais nostálgicos e progressivos, como é o caso de Magic Leaves.

Matt, o líder do grupo, é apaixonado pela sonoridade pop e psicadélica dos anos sessenta e setenta, dois períodos localizados no tempo e que semearam grandes ideias e nos deram canções inesquecíveis, lançaram carreiras e ainda hoje são matéria prima de reflexão e os The Blank Tapes querem ser guardiões de um som que agrada imenso a todos os veraneantes cor de salmão e de arca frigorífica na mão, que lutam interiormente ao chegar ao carro, sem saberem se a limpeza das chinelas deve ser exaustiva, ou se os inúmeros grãos de areia que se vão acumular no tapete junto aos pedais do Mégane justificam um avanço de algumas centenas de metros na fila de veículos que regressam à metrópole.

Quem acha que ainda não havia um rock n' roll tresmalhado e robotizado nos anos sessenta ou que a composição psicotrópica dos substantivos aditivos que famigeravam à época pelos estúdios de gravação, ficará certamente impressionado com a contemporaneidade vintage nada contraditória dos acordes sujos e do groove do baixo de So High e dos teclados de Oh My Muzak, assim como do experimentalismo instrumental de For Breakfast, que se aproxima do blues marcado pela guitarra em 4:20, além da percussão orgânica e de alguns ruídos e vozes de fundo que assentam muito bem na canção. A campestre Brown Chicken Brown Cow e a baladeira e sentimental Do You Wanna Get High? mantêm a toada revivalista, com um certo travo surf, em canções com referências bem estabelecidas, numa arquitetura musical que garante a Matt a impressão firme da sua sonoridade típica e que lhes deu margem de manobra para várias experimentações transversais e diferentes subgéneros que da surf pop, ao indie rock psicadélico, passando pela típica folk norte americana, não descuraram um sentimento identitário e de herança que o músico guarda certamente dentro de si e que procura ser coerente com vários discos que têm revivido sons antigos.

Geodesic Dome Piece é, portanto, mais uma viagem ao passado sem se desligar das novidades e marcas do presente. É um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva os The Blank Tapes. É um apanhado sonoro vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar  tantas referências do passado. Espero que aprecies a sugestão...

The Blank Tapes - Geodesic Dome Piece

01. Way Too Stoned
02. Oh My My
03. Buff
04. Magic Leaves
05. For Breakfast
06. So High
07. Oh My Muzak
08. Slippin’ Slide
09. 4:20
10. Brown Chicken Brown Cow
11. Do You Wanna Get High?
12. To Your Dome Piece
13. Do You Wanna Get High (Acoustic Demo)


autor stipe07 às 15:15
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Quarta-feira, 1 de Abril de 2015

LA Font - Whisperer

Liderados por Danny Bobbe e ao qual se junta Jon, Harlow e Greg e oriundos de Echo Park, nos arredores de Los Angeles, os norte americanos LA Font acabam de divulgar Whisperer, o seu mais recente single, um tema que antecipa Hangtime Vol. 1, o novo EP da banda, que irá ver a luz do dia a vinte e oito de abril, em formato digital e cassete, através da insuspeita e espetacular editora Fleeting Youth Records, uma etiqueta essencial para os amantes do rock e do punk, sedeada em Austin, no Texas.

A propósito deste novo trabalho dos LA Font, Bobbe afirmou recentemente: Hangtime's a record about not waiting around for something to happen. It's about putting in work, kicking it out, washing your hands and starting again. Take the best part of a lemon meringue pie (the meringue) and a Dodger Dog (the Dodgers) and that’s Hangtime Vol. 1.

Whisperer é uma canção inicialmente melancólica, mas com uma progressão excelente que apostando numa simbiose entre garage rockpós punk e rock clássico, mostra uns LA Font particularmente melódicos e com um elevado sentido de estética sonora. Brevemente os LA Font irão entrar em digressão com os Shark?. Confere...

 


autor stipe07 às 18:22
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Sábado, 28 de Março de 2015

Wand - Golem

Os Wand são uma banda norte americana, oriunda de Los Angeles e liderada por Cory Hanson, um músico que toca regularmente com Mikal Cronin e os Meatbodies, dois projetos que já foram referenciados em Man On The Moon. Nestes Wand, juntam-se a Cory, Evan Burrows, Daniel Martens e Lee Landey.

Os Wand tocam um indie punk rock psicadélico, progressivo, experimental e fortemente aditivo e Ganglion Reef, o disco de estreia, editado em 2014, foi um marco e uma referência para os amantes do género. Agora, um ano depois, os Wand já têm sucessor pronto; Golem chegou a dezassete de março através da etiqueta In The Red e tem no fuzz rock a sua pedra de toque, talvez a expressão mais feliz para caraterizar o caldeirão sonoro que os Wand reservam para nós e que logo na imponência de The Unexplored Map e no festim grandioso de Self Hynosis In 3 Days, o primeiro single divulgado, fica claramente plasmado. Esta canção é um delicioso exemplar de indie rock astral e vigoroso, um tratado sonoro que ressuscita o que de melhor se pode escutar relativamente ao rock alternativo da última década do século passado, com um upgrade de adição psicotrópica e elevada lisergia.

As guitarras são, naturalmente, o combustível que inflama os raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro dos Wand, feitas de acordes rápidos, distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez. Mas a receita também se compôe com sintetizadores munidos de um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias, uma secção rítmica feita com um baixo pulsante e uma bateria com um forte cariz étnico, que é várias vezes literalmente cortada a meio por riffs de guitarra, numa sobreposição instrumental em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa busca de acessibilidade que se saúda.

O efeito abrasivo de Reaper Invert ao contrastar com o efeito sinistro da guitarra, mostra o enorme acerto de Cory na busca de um som grandioso e simultaneamente acessivel a todos os ouvidos. Melodicamente pattindo em busca de um sentido épico irrepreensível, a canção acaba por funcionar como um excelente interlúdio para Melted Rope, um grandioso instante sonoro psicadélico que ressuscita o glorioso espelndor do rock progressivo que fez escola na década de setenta do século passado e que encontra sequência mais ruidosa e ácida no inenso edifício sonoro pulsante e esplendoroso que alimenta Cave In. A sensibilidade da viola e o efeito da guitarra que trespassa a melodia de alto abaixo na primeira e o fuzz das guitarras e as constantes mudanças de ritmo na segunda, acentuam a monumentalidade de dois extraordinários tratados sonoros que, sendo o núcelo duro de Golem, resgatam e incendeiam o mais frio e empedrenido coração, além de plasmarem o vasto espetro instrumental presente no disco e a capacidade que estes Wand têm para compôr peças sonoras melancólicas e transformar o ruidoso em melodioso com elevada estética pop

A viagem alucinante que a audição de Golem nos oferece prossegue sem intervalos ou concessões e vão-se multiplicando os diferentes efeitos que alimentam as guitarras dos Wand, sempre no limiar daquilo que é humanamente suportável e sonoramente majestoso, sem perca de controle ou equilibrio. Este constante experimentalismo fica novamente plasmado nas águas turvas e sombrias em que navega Flesh Tour e no grunge abrasivo e hipnótico de Floating Head, mas também, e de modo mais vincado, em Planet Golem, canção onde parece valer mesmo tudo e onde não terão havido concessões no que diz respeito às opções tomadas, quer no que diz respeito ao sabor inebriante das guitarras, quer no que que concerne à seleção de ruídos e detalhes de fundo que servem para dar corpo e substância a um clima sonoro intenso e nubloso.

Golem chega ao ocaso com um intenso upgrade sonoro, fortemente lisérgico, cósmico e imponente, chamado The Drift, uma forte cabeçada que nos agita a mente na forma de um riff melódico assombroso, carregado de distorção e perfeitamente diabólico e quando damos por nós, o disco terminou mais ainda estamos completamente consumidos pelo arsenal infinito de efeitos, flashes e ruídos que correram impecavelmente atrás da percussão orgânica e bem vincada que sustenta os Wand e percebemos que não há escapatória possível desta ode imensa de celebração estratosférica. Tens coragem para carregar novamente no play? Eu nem me paercebi que o fiz. Espero que aprecies a sugestão...

Album cover: Wand – Golem (2015)

1. The Unexplored Map
2. Self Hypnosis In 03 Days
3. Reaper Invert
4. Melted Rope
5. Cave In
6. Flesh Tour
7. Floating Head
8. Planet Golem
9. The Drift


autor stipe07 às 20:19
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Sexta-feira, 27 de Março de 2015

Vetiver – Complete Strangers

Sexto álbum da discografia de Andy Cabic, a mente profunda e inspirada que em São Francisco, na solarenga Califórnia alimenta e dá vida ao projeto Vetiver, Complete Strangers é, conforme o título indica, uma compilação sentida e honesta da partilha de sensações e eventos que o autor experimentou recentemente em diferentes locais e com diversas pessoas que se foram cruzando na sua vida. Diário de bordo de um autor que tem tido diferentes músicos a colaborar consigo ao longa da carreira, mas que teve sempre em Thom Monahan, o engenheiro de som e produtor deste disco, o seu parceiro mais fiel, Complete Strangers foi gravado em Los Angeles, com a companhia dos músicos Bart Davenport, Gabe Noel e Josh Adams e quer a batida luminosa de Stranger Still, quer a viola que conduz From No On e, principalmente, Current Carry, além de, logo no início, situarem o ouvinte na heterogeneidade muito própria deste projeto, mostram-nos o efeito que o sol da costa oeste tem na música de Andy e como é bom ele ter-se deixado levar pelos insipradores raios flamejantes que esse astro atirou para as janeas do estúdio onde se instalou, para dar vida a uma folk pintada com alguns dos melhores detalhes da chillwave, que deambulando entre o acústico e o sintético e psicando amiúde o olho a um certo travo psicadélico, criou canções competentes na forma como abarcam diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos, que pode muito bem ser a mundialmente famosa indie pop.

Vetiver é mestre a misturar harmoniosamente a exuberância acústica das cordas com a sua voz grave, mas suave e confessional, sendo este um álbum ameno, íntimo e cuidadosamente produzido, além de arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação. Que melhor exemplo do que o jogo de sedução que se estabelece entre o efeito da guitarra, as cordas de uma viola e um insinuante baixo em Confiding, uma canção sobre as vulnerabilidades próprias do amor, para plasmar o enorme charme da música de Vetiver? Que melhor instante do que aquele em que, em Backwards Slowly, variados efeitos percussivos e um sintetizado se cruzam com essa mesma guitarra e a cândura da voz de Andy, para nos levar fazer querer ir até à praia mais próxima e enfrentar esse mesmo sol bem de frente para sermos ilmunados pela mesma força positiva que levou este compositor a criar estas canções? Que melhor ritmo, do que aquele que sustenta Loose Ends ou a bossa nova de Time Flies By para nos fazer colocar no rosto aquele nosso sorriso que nunca nos deixa ficar mal e conseguirmos, finalmente, traçar uma rota sem regresso até aquele secreto desejo que nunca tivemos coragem de realizar?

A música de Vetiver é perfeita para nos fazer descolar da vida real muitas vezes confusa e repleta de precalços, aterra-nos num mundo paralelo onde só cabem as sensações mais positivas e bonitas que alimentam o nosso íntimo e que entre a luz e a melancolia tornam-se verdadeiras e realizam-se, provando que Andy sabe como contar histórias que o materializam na forma de um conselheiro espiritual sincero e firme e que tem a ousadia de nos querer guiar pelo melhor caminho, sem mostrar um superior pretensiosismo ou tiques desnecessários de superioridade.

Complete Strangers é um daqueles discos que nos vão soar sempre a algo familiar; Escutá-lo pela primeira vez é experimentar aquela sensação que estamos a rever alguém que já se cruzou na nossa vida em tempos e que nos causou sensações boas e partilhou conosco belos momentos quando tal sucedeu. E essa impressão sente-se porque as canções deste disco falam do nosso interior com clareza, ressucitam o que de melhor a mente humana pode sentir, sendo a sua audição uma experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia. Os lindíssimos acordes que nos vão surpreendendo ao longo do álbum dão-nos a motivação necessária para acreditarmos que vale a pena esse sacrifício desgastante de calcorrear a vida real, desde que haja portos de abrigo como este durante o percurso, trabalhos discográficos que nos dão as pistas certas para uma vivência existencial plena e verdadeiramente feliz. Espero que aprecies a sugestão...

Vetiver - Complete Strangers

01. Stranger Still
02. From Now On
03. Current Carry
04. Confiding
05. Backwards Slowly
06. Loose Ends
07. Shadows Lane
08. Time Flies By
09. Edgar
10. Last Hurrah


autor stipe07 às 21:10
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Quarta-feira, 18 de Março de 2015

Kodak To Graph - ISA

Depois de em agosto de 2013 Mikey Maleki ter andado a editar uma canção por mês, numa longa e bonita jornada que resultou na compilação 2013 Monthly Singles, disponivel para audição e download e que fui dando conta, por cá, durante esse ano, este músico e produtor norte americano de origens iranianas oriundo de Pensacola, na Flórida, atualmente a residir em Los Angeles e que assina a sua música como Kodak To Graph, começou 2015 a participar ativamente na gravação de Oldies, um trabalho também disponivel gratuitamente e que plasma eletrificantes experimentações sonoras. Agora, a dez de março, chegou, finalmente, o seu longa duração de estreia, um disco chamado ISA, também possivel de ser obtido gratuitamente e que é uma verdadeira jornada emotiva e emocional pelos pensamentos, experiências e momentos que se revelaram significativos para o autor nos últimos temps e que o transformaram no músico e pessoa que é hoje.

Maleki sempre gostou de gravar e depois reproduzir sinteticamente sons reais, que capta ao seu redor e que tanto podem ser relacionados com a natureza, nomeadamente o chilrear de aves ou os galhos que se quebram durante um passeio pela floresta, como sons mais citadinos e que reproduzem ruídos habituais num ambiente citadino. Desolation Wilderness é um bom tema para se perceber de que modo funciona esta imagem de marca de Kodak to Graph e igualmente bastante presente no restante alinhamento de ISA. O autor confessa cultivar esse gosto com método porque acha que a inserção desses arranjos nas melodias enriquece-as e funciona, de certa forma, como a componente lírica das suas canções, geralmente instrumentais, dando-lhes uma clara sensação de narrativa e ampliando o propósito que elas têm, que é o de contar histórias concretas e com vida, mesmo que não contenham letras e uma voz que as replique de modo entendível. Quando a voz surge nas canções de Maleki é quase sempre modificada e samplada, funcionando como mais um detalhe sonoro ou outro dos instrumentos que deambulam pelas composições. Los Angeles, tema de tributo à cidade que recentemente acolheu este músico, é um notável exemplo do modo como Maleki utiliza a voz como mero recurso sonoro, no meio de outros detalhes e sons que facilmente nos colocam no meio da movimentada South Vermont rumo a Beverly Hills.

A música de Kodak To Graph exala imenso uma sensação de convite frequente à introspeção e à reflexão sobre o mundo moderno e este produtor não poupa na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, com Belong, o tema de abertura, a surpreender desde logo pelo cariz pop claramente urbano, proporcionado por uma eletrónica manipulada com mestria, não só no modo como o cruza o trompete com a melodia, mas também pelo realce que alguns metais usufruem em determinados momentos da canção. Belong liga-se com Floating através de uma batida minimal que depois parece submergir num mundo aquático e, por isso, sonoramente mais denso e pastoso e se esta conexão entre canções acentua o tal espírito de narrativa sequencial que domina ISA, a opção por arranjos, detalhes, ruídos e métodos de manipulação sonora que se interligam com o título das canções, além de nos fazerem perceber as diversas variáveis que Mike introduz no sintetizador para transmitir uma sensação intrincada e fortemente espiritual. Na verdade, ISA transborda um ideal de leveza e cor constantes, como se o disco transmitisse todas as sensações positivas e os raios de luz que fazem falta aos nossos dias, apesar de, felizmente, serem agora menos frios e sombrios, permitindo-nos escutar uma música bastante sensorial, que parece ter textura, cheiro e flutuações térmicas condizentes com o ritmo, a batida ou o borbulhar de determinados detalhes, aquáticos ou terrenos que facilmente se identificam e que são passíveis de serem confrontados com aspetos reais e palpáveis do meio que nos rodeia. Se a sensibilidade emotiva, minimal e arrepiante de Glaciaa nos obriga a vestir um agasalho bem quente enquanto sobrevoamos os pólos, as já citadas Los Angeles e Belong retratam uma América multicultural e cosmopolita que acolheu e inspira Maleki.

Rico e arrojado e apontando em diferentes direções sonoras, apesar de haver um estilo vincado que pode catalogar o cardápio sonoro apresentado, ISA tem um fio condutor óbvio, assente em alguma da melhor eletrónica contemporânea, mas uma das suas particularidades é conseguir, sem fugir muito desta bitola, oferecer música que se sente e que se vê, englobando diferentes aspetos e detalhes de outras raízes musicais, que podem passar pelo trip hop, a chillwave, o hip hop ou o R&B num pacote que conta histórias que as máquinas de Maleki sabem, melhor do que ninguém, como reporduzir e encaixar. Este é um álbum para ser escutado, visto e sentido, recheado de paisagens sonoras bastante diversificadas, mas de algum modo descomplicadas e acessíveis e que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

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autor stipe07 às 19:14
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Segunda-feira, 9 de Março de 2015

Dirty Dishes - Guilty

Os Dirty Dishes são Jenny Tuite e Alex Molini, uma dupla oriunda de Los Angeles, na Califórnia que se conheceu quando Alex vomitou acidentalmente nos sapatos de Jenny numa festa e, sentindo-se mal com isso, procurou no dia seguinte o contacto dela para lhe oferecer um novo par de sapatos. O par de solas nunca foi entregue, mas desse contacto nasceu uma nova banda, estes Dirty Dishes que têm em Guilty o seu mais recente lançamento discográfico, um trabalho disponivel no bandcamp do projeto, desde vinte e sete de janeiro, em formato vinil e digital, através da Exploding In Sound Records e em formato cassete através da Seagreen.

Num disco que se divide em dois períodos distintos, o baixo e as distorções da guitarra de Thank You Come Again convidam-nos a recordar o período aúreo do grunge dos anos noventa, um revivalismo salutar proposto por uma dupla que sabe como causar impacto logo à primeira e criar um ambiente de tensão, narcótico, empoeirado e fortemente aditivo. Os Dirty Dishes fazem juz ao nome e, em Red Roulette, servem-nos, com enorme requinte, esse som sujo, ampliando a toada épica inicial e plasmando uma interrssante capacidade melódica numa simbiose entre garage rockpós punk e rock clássico, fazendo juz à sonoridade crua, rápida e típica da que tomou conta do indie rock norte americano há mais de duas décadas.

Chega-se a Guilty, o tema hómónimo e um dos singles já extraídos do disco e a bitola sonora destes Dirty Dishes já não tem segredos. Mesmo que haja um ambiente mais sombrio a tomar conta desta canção, o mesmo não defrauda os apreciadores do género. A partir de Androgynous Love Song, Guilty entra então num rumo mais reflexivo e calmo, mas respeitando sempre a fórmula sonora inderente à dupla. Esta canção é dominada pelo pendor acústico das cordas e pela cândura nada óbvia da voz de Jenny e, logo a seguir, a atmosférica Dan Cortez, canção onde a percurssão se vai insinuando enquanto não desiste de tentar engatar o ritmo, alinha com a mesma voz e um efeito agudo de uma guitarra hipnótica, sendo estes detalhes bons exemplos da forma corajosa como, logo na estreia, os Dirty Dishes não se coibem de tentar experimentar ideias diferentes e fugir do comum.

Neste segundo momento do disco, canções como Dinner Bell, uma composição cheia de efeitos e detalhes preciosos, enquanto é guiada por um baixo nada óbvio e o misterioso lamento chamado Lackluster, contêm momentos de pura improvisação, com instantes intrumentais que apontam em diferentes direções e com um baixo que não receia tomar as rédeas do conteúdo melódico das mesmas. E esta faceta mais experimental, que tem o seu instante mais curioso na folk acústica de One More Time, como anteriormente referi, não perturba a conturbada homogeneidade de um alinhamento sempre fluído e acessível, apesar desses momentos e da especificidade rugosa do som que carateriza os Dirty Dishes.

Em Guilty esta dupla californiana estabelece uma zona de conforto, mas não se coibe de colocar o pé de fora e de calcorrear outros universos sonoros adjacentes ao indie rock alternativo que marcou os anos noventa e que podem ir da psicadelia, à folk, passando pelo punk rock e ao próprio rock progressivo, num disco excitante e intenso e que nos desperta para um paraíso de glória e esplendor. A verdade é que eles parecem dispostos a lutar com garra e criatividade para empurrar e alargar as barreiras do seu som, ao longo de cerca de quarenta minutos intensos, rugosos e que não envergonharão o catálogo sonoro deste grupo de Los Angeles, seja qual for o restante conteúdo que o futuro lhes reserve. Espero que aprecies a sugestão...
01. Thank You Come Again
02. Red Roulette
03. Guilty
04. Androgynous Love Song
05. Dan Cortez
06. Dinner Bell
07. Lackluster
08. One More Time
09. Sugar Plum Fairies


autor stipe07 às 22:59
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Segunda-feira, 2 de Março de 2015

Warpaint - No Way Out

Theresa Wayman, Emily Kokal, Jenny Lee Lindberg e Stella Mozgawa são as Warpaint, um título feliz para quatro intérpretes que compôem música que parece vir do interior da alma mais sincera e verdadeira que podemos imaginar e que o ano passado surpreenderam com um disco homónimo onde deixaram as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural e assumirem uma faceta negra e obscura, para criar um álbum tipicamente rock, esculpido com cordas ligas à eletricidade e com uma certa timidez que não era mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica

Agora, quase um ano depois, as Warpaint voltam a deixar-nos boquiabertos com No Way Out, uma nova canção que indicia a proximidade de um novo registo de originais e que promete ser mais um marco na carreira deste projeto californiano. O tema assenta em deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos. A escrita carrega uma sobriedade sentimental que acaba por servir de contraponto a uma sonoridade algo sombria e, em alguns instantes, tipicamente lo-fi. Confere...


autor stipe07 às 15:56
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Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2015

Wand – Self Hypnosis In 3 Days

Os Wand são uma banda norte americana, oriunda de Los Angeles e liderada por Cory Hanson, um músico que toca regularmente com Mikal Cronin e os Meatbodies, dois projetos que já foram referenciados em Man On The Moon. Nestes Wand, juntam-se a Cory, Evan Burrows, Daniel Martens e Lee Landey.

Os Wand tocam um indie punk rock psicadélico e fortemente aditivo e Ganglion Reef, o disco de estreia, editado em 2014, foi um marco e uma referência para os amantes do género. Agora, um ano depois, os Wand já têm sucessor pronto; Golem chega a dezassete de março através da etiqueta In The Red e Self Hynosis In 3 Days, o primeiro single divulgado, é um delicioso exemplar de indie rock astral e vigoroso, um tratado sonoro que ressuscita o que de melhor se pode escutar relativamente ao rock alternativo da última década do século passado, com um upgrade de adição psicotrópica e elevada lisergia. Confere...

Dica Follow Friday da edição de hoje: X-Acto. Recomendo vivamente!


autor stipe07 às 13:16
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Domingo, 1 de Fevereiro de 2015

Lower Heaven - Home and Away EP

A paixão pela música e a ânsia constante de descoberta é um vício que guardo dentro de mim, fortemente impregnado e indissociável daquilo que sou enquanto ser humano que procura sentir-se plenamente realizado todos os dias. O contacto com novas bandas e projetos acaba por se tornar num excelente exercício de encontro e descoberta, documentado com fidelidade neste blogue. Conheci recentemente os norte americanos Lower Heaven por causa de Pulse, um extraordinário disco pleno de guitarras cheias daquele fuzz declaradamente vintage e com uma sonoridade algo lo fi, com a voz, muitas vezes distorcida e as escolhas de arranjos a conferir à música deles um ar ainda mais soturno. Posteriormente, tendo apresentado ao grupo a minha análise critica do álbum, recebi como resposta um extraordinário EP, intitulado Home and Away e que apesar de ter sido cronologicamente editado antes de Pulse, não pode deixar de ter um lugar de destaque neste espaço, principalmente por causa do seu fantástico conteúdo.

Editado em agosto 2014, Home and Away tem uma história e um conceito que não se ligam com Pulse, um disco que, apesar de editado depois deste EP, foi gravado em 2012 e 2013. Entretanto, estas quatro canções surgiram quase espontaneamente após a gravação dos temas de Pulse e os Lower Heaven gostaram tanto delas que quiseram  partilhá-las o mais rápido possível, até porque Pulse estava em pleno processo de mistura e produção. 

Os dois trabalhos acabaram por ser editados em separado, nunca se tendo colocado a hipótese de adicionar estas canções a Pulse, não só para não ficar um álbum demasiado extenso mas, principalmente, porque, como já referi, há uma dinâmica particular e mesmo uma sonoridade bastante distinta. Se Pulse era dominado pelo tal fuzz declaradamente vintage e com uma sonoridade algo lo fi, Home And Away tem um ambiente sonoro mais amplo, límpido e luminoso, mantendo-se o efeito na voz, num registo em eco, como o principal ponto de encontro entre os dois registos. Esta postura vocal acaba por revelar um curioso efeito na música deste Lower Heaven já que, é aquele toque que lhes confere a implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica, apesar da amplitude etérea deste EP. Logo em Holding Back acedemos à dimensão superior onde os Lower Heaven nos sentam e o baixo encorpado, o efeito da guitarra, o arranjo sintetizado e a percurssão hipnótica e pulsante de Through The Seasons, fazem deste EP, logo ao segundo tema, uma daquelas preciosidades que devemos guardar com carinho num cantinho especial do nosso coração.

Os Lower Heaven sabem muito bem como assumir uma faceta fortemente etérea e melancólica e como criar canções cheias de uma fragilidade incrivelmente sedutora e alicerçadas numa certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica. A surf pop ensolarada e descontraída de Swimmers e o rock com enormes resquícios do glam dos anos oitenta de All Becomes Alive, um tema que convida, simultaneamente, à dança e à melancolia, por causa das suas texturas eletrónicas polvilhadas com elevado charme, surpreendem de um modo excitante e ao mesmo tempo acolhedor.

Home And Away é um verdadeiro refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual, um enorme raio de luz que nos envolve num imenso arsenal de arranjos e detalhes, sendo para os Lower Heaven mais um atestado de qualidade ao alcance de poucos projetos que pretendem deixar uma marca indelével neste universo sonoro. A banda está atualmente em estúdio a preparar já o sucessor de Pulse, de acordo com o que me confidenciou Marcos, um dos membros da banda. Espero que aprecies a sugestão...

A mostrar HOME AND AWAY FINAL.jpg

1. Holding Back
 
2. Through The Seasons
 
3. Swimmers
 
4. All Becomes Alive


autor stipe07 às 21:10
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Sábado, 17 de Janeiro de 2015

Tennis System – Technicolour Blind

Liderados por Matt Taylor, os norte americanos Tennis System estrearam-se nos discos a vinte e um de outubro com Technicolour Blind, um disco que viu a luz do dia através da PaperCup Music e focado no amor e nas saudades de Matt pela namorada que deixou em Washington D.C., já que se mudou para Los Angeles, onde está agora a banda sedeada.

Um indie rock vibrante e acelerado é o sustento das dez canções deste trabalho, cheio de ambientes épicos e melodias cheias de luz e cor. Uma guitarra plena de fuzz e de distorções variadas, um baixo imponente, uma bateria que nunca descansa e sintetizadores carregados de efeitos fazem parte da receita sonora de um disco particularmente emotivo e que tem tudo para catapultar estes Tennis System para uma posição mais visível no universo alternativo, devido ao modo assertivo e até exuberante, como propôem um rock cheio de sintetizações, efeitos e ruídos e com uma toada muito rica e sedutora.

Estes três músicos deixaram as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural, para criar um álbum tipicamente rock, esculpido com cordas ligas à eletricidade e com um interessante cariz épico que não é mais do que um assomo de elegância incontida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

A escrita do disco carrega uma sobriedade sentimental que se percebe devido à matriz temática que rodeia Technicolour Blind e, naturalmente, é possível apreciar aqui belíssimas letras entrelaçadas com deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com as diversas camadas de instrumentos já descritas. Com vários momentos altos, destaco a introdução de My Life In, instante de uma simplicidade verdadeiramente desarmante e capaz de deixar em sobressalto os espíritos mais incautos, até uma guitarra planante tomar conta da canção e levá-la, durante pouco mais de um minuto, para um nível superior de elegância e arrojo, que se estende nas teclas de Try To Hide e, mais uma vez, numa distorção imponente e inigualável. Depois, canções como Call It Home ou o tema homónimo do trabalho, fazem-nos não duvidar mais da excelência de um álbum que impressiona pelo bom gosto com que cruza vários estilos e dinâmicas sonoras, numa toada que tem tanto de shoegaze como de progressivo e que até em Such A Drag busca pontos de interseção com a pop mais experimental e algumas paisagens e sensibilidades que no single Dead Honey piscam o olho à mais pura psicadelia.

Escutar Technicolour Blind é uma experiência diferente e a oportunidade de contatar com um conjunto de canções que transbordam uma aúrea algo mística e espirituale que materializam um feliz encontro entre sonoridades que surgiram há décadas e se foram aperfeiçoando ao longo do tempo e ditando as regras que hoje consagram as tendências mais atuais em que assenta o rock alternativo com um cariz fortemente nostálgico e contemplativo, mas também feito com elevada dose de ruído e distorção. Espero que aprecies a sugestão...

Tennis System - Technicolour Blind

01. Suicide
02. Call It Home
03. Ungrown
04. Memories And Broken Dreams
05. Technicolour Blind
06. Such A Drag
07. My Life In
08. Try tT Hide
09. Hara Kiri
10. Dead Honey


autor stipe07 às 21:43
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