Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017

Grandfather's House - Diving

Braga é o poiso natural do projeto Grandfather’s House, banda que surigu há cerca de meia década pelas mãos do guitarrista Tiago Sampaio, ao qual se juntou, entretanto, a irmã Rita Sampaio na voz, dupla que lançou, em 2014, o seu primeiro registo, o EP Skeleton. Entretanto, João Vitor Costeira juntou-se e pegou na bateria e já na forma de trio editaram o ano passado Slow Move, o disco de estreia. Agora, cerca de um ano depois e já com Nuno Gonçalves nas teclas, irá viu a luz do dia Diving, o segundo lançamento do projeto em formato longa duração, um trabalho gravado e produzido na Mobydick Records (Braga) por Budda Guedes e os próprios Grandfather’s House e misturado e masterizado no HAUS (Lisboa) por Makoto Yagyu.

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Nah Nah Nah começa e enquanto não chega a voz enleante e subversiva de Adolfo Luxúria Canibal, os Grandfather's House parecem tocar submergidos num mundo subterrâneo de onde debitam música através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco da melodia. Depois, já com o vocalista dos Mão Morta na linha da frente da síncope do tema, guitarras distorcidas e um baixo proeminente dão asas às emoções que exalam desde as profundezas desse refúgio bucólico e denso onde se embrenharam e insistem em manter-se em Drunken Tears, desta vez com a guitarra a assumir um cariz mais ambiental, sustentada por várias camadas de sopros sintetizados, uma espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo.

É este o arranque prometedor de um álbum que nos agarra pelos colarinhos e nos embrenha numa orgânica particularmente minimal, mas profunda e crua, um universo fortemente cinematográfico e imersivo, que instiga e provoca sem pedir licença, com aquela arrogância tipíca de quem sabe o que tem para oferecer e não se faz rogado na hora de colocar em cima da mesa todos os trunfos aos dispôr para ser bem sucedido, neste caso numa demanda sonora que pretende desafiar o lado mais reflexivo e introspetivo do ouvinte, mas também, em determinados momentos, a sua faceta mais libidinosa e misteriosa, eloquente e desafiante na guitarra inquietante que sustenta Sorrow. Alías, impregnado com uma densidade peculiar no modo como hipnotiza e seduz e alicercado naquele falso minimalismo que o compasso de umas palmas, efeitos sintetizados encobertos por uma cosmicidade algo nebulosa e o efeito divagante de uma guitarra proporcionam, You Got Nothing Lose, o primeiro single divulgado deste Diving, é um excelente exemplo desta espécie de duplicidade transversal a todo o alinhamento que, de acordo com o press release do mesmo, vai desde o despertar de memórias que pareciam adormecidas pelo tempo, crescendo uma raiva, quase um estado depressivo, transformando-se na sua aceitação e num estado de paz de espírito.

Diving avança e no piscar de olhos que é feito aquela pop vintage e charmosa, carregada de mistério em She's Looking Good e no som esculpido e complexo, onde é forte a dinâmica entre um enorme manancial de efeitos e samples de sons que parecem ser debitados pela própria natureza em In My Black Book, assim como na grandiosa cândura de Nick's Fault, damos de caras com mais um encadeamento de canções que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador.

O ocaso de Diving acontece em grande estilo ao som do frenesim da guitarra e de uma bateria inebriante adornada por diversos efeitos cósmicos, em I Hope I Won't Die Tomorrow, o epílogo de um álbum onde não existiram regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos, um cenário idílico para os amantes de uma pop que olha de frente para a eletrónica e a dispersa em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico, mas também para aqueles apreciadores do rock progressivo mais experimental e por isso tendencialmente mais enérgico e libertário. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:46
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Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017

MGMT – Little Dark Age

MGMT - Little Dark Age

Pouco mais de quatro anos depois de um homónimo, a dupla norte-americana MGMT formada por Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser, está prestes a regressar aos discos com Little Dark Age, o quarto trabalho destes já veteranos do indie rock psicadélico, que desde o espetacular disco de estreia Oracular Spectacular nos habituaram a uma espécie de rock psicadélico algures entre os Pink Floyd das décadas de sessenta e setenta e uns mais contemporâneos Flaming Lips, mas também com os olhos e ouvidos postos em projetos mais atuais e até, de algum modo, concorrentes, nomeadamente os Tame Impala ou os Animal Collective.

No entanto, parece que desta vez os MGMT vão apostar num ambiente sonoro mais cinzento e eminentemente sintético, fazendo juz ao conteúdo de Little Dark Age, a canção homónima já divulgada do trabalho e que parece ser a banda sonora perfeita para o Halloween que se aproxima. A mesma tem também já um vídeo dirigido por David MacNutt e Nathaniel Axel. Mais de uma década depois da estreia, os MGMT continuam a chegar ao estúdio de mente aberta e dispostos a servir-se de tudo aquilo que é colocado ao seu dispôr para criar músca, sejam instrumentos eletrónicos ou acústicos, para assim fazerem canções cheias de sons poderosos e tortuosos, sintetizadores flutuantes e vozes abafadas. Confere...


autor stipe07 às 20:50
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Noiserv - Dezoito e edição de 00:00:00:00 em vinil.

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Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na bagagem um compêndio de canções que fazem parte dos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless Almost Visible Orchestra,adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's Therehavendo, desde o outono de 2016 mais um compêndio de canções para juntar a esta lista, um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mas um registo que é mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional, de um artista que nos trouxe uma nova forma de compôr e fazer música e que gosta de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera das suas canções e a realidade às vezes tão crua e que ele também sabe tão bem descrever.

Para comemorar um ano de existência, um dos destaques de 00:00:00:00, o tema DEZOITO, que encerra o alinhamento do álbum, acaba de ser editado em single. É uma canção que nos convida à introspeção e a meditar nas consequências dos nosos atos. Nas próprias palavras do músico, serve para se assumir que tudo tem um fim querendo tornar-se eterno e que tudo se reconstrói na inevitabilidade de terminar um dia. O videoclipe que acompanha este edição de DEZOITO em formato single teve realização partilhada com André Tentugal e o apoio da Câmara Municipal do Porto.

Ainda nas comemorações de um ano de existência, 00:00:00:00 acaba ctambém de ser editado em vinil. Num disco que já se conhecia transparente, muitas são emoções que nos transmite agora em doze polegadas girando a quarenta e cinco rotações por minuto.

Noiserv revelou ainda as datas de concertos até final do ano: de Leiria a Braga, passando pela Covilhã, Silves e St. Brieuc em França, terminando já perto do Natal no bonito Teatro Ibérico em Lisboa.

SEX. 27 OUTUBRO - Teatro José Lúcio | Leiria (Portugal)

SEX. 17 NOVEMBRO - Festival Para Gente Sentada | Theatro Circo, Braga (Portugal)

QUI. 23 NOVEMBRO - Festival Y#13 | Teatro das Beiras, Covilhã (Portugal)

SÁB. 25 NOVEMBRO – Teatro Mascarenhas Gregório, Silves (Portugal)

SEX. 01 DEZEMBRO - La Citrouille, St. Brieuc (França)

SEX. 22 DEZEMBRO - Teatro Ibérico, Lisboa (Portugal)

 


autor stipe07 às 13:19
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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

Beck - Colors

Depois de mais de meia década de solidão, o músico que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold e Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos habituou a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras, regressou em 2014 com Morning Phase, o décimo segundo trabalho da sua carreira e que viu a luz do dia por intermédio da Capitol Records. Falo, obviamente, de Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, um cantor e compositor que tantas vezes já mudou de vida como de casaco e que agora, três anos depois desse belo disco, está de regresso com Colors, onze canções que proporcionam mais um novo fôlego na sua carreira, uma espécie de recomeço, depois de nos últimos dois verões ter igualmente surpreendido com dois singles intitulados Dreams e Wow.

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Colors viu a luz do dia a treze de outubro, novamente com o selo Capitol e engane-se quem achar que vai encontrar aqui alguma espécie de continuidade relativamente a Morning Phase. Neste seu novo registo Beck regressa ao trilho da pop mais efervescente, sintética e luminosa, com canções a apelarem às pistas e à criatividade dos remisturadores, como é o caso de Colors, o tema homónimo de abertura e, quase no ocaso, a agitada Up All Night, composição cujas palmas e pausas na batida estão mesmo a pedir um mash-up com um daqueles hinos oitocentistas que todos nós decorámos na adolescência. Depois, ainda nessa toada, surge-nos Dear Life, um tema que sobressai pela luminosidade de um piano e pelo fuzz intermitente de uma guitarra que deve muito aquela estética que além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica, sendo indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas. Beck apenas abranda um pouco no registo já quase no final do alinhamento com Fix Me, uma lindíssima balada onde sobressai um piano que acompanha com mestria aquele efeito mais doce com que o músico costuma adornar a sua voz quando quer transmitir algo mais profundo.

Uma das grandes marcas deste disco é, nitidamente, a riqueza que contém ao nível quer dos arranjos, quer do arsenal instrumental que o autor utiliza para colocar em prática um alinhamento bastante luminoso, agitado e comprometido com os conceitos de festa e diversão. Quer os metais e os loopings sintetizados que circundam a batida inebriante de Seventh Heaven, quer a distorção da guitarra que dá corpo e substância ao rock impulsivo e direto de I'm So Free, fornecem-nos tal evidência comum a dois campos apenas aparentemente opostos, o rock e a eletrónica. E com estas duas canções Beck estabelece também o vasto leque de influências que sempre moldou uma carreira livre de constrangimentos ou de obediência direta a uma determinada bitola sonora mais específica.

Este músico californiano gosta, portanto, de jogar em vários campos e posições e fá-lo com enorme à vontade e sempre com brilho e competência, nunca deixando para trás a guitarra, um dos seus instrumentos de eleição, agora quase sempre eletrificada. O timbre anguloso da mesma a conduzir No Distraction e o efeito mais metálico na já referida Up All Night são dois dos melhores instantes de Colors em que Beck se serve desse instrumento para dar alma e cor aos temas, mas sem fazer dele a principal referência quer da melodia quer do arquétipo sonoro.

O Beck que antes brincava com o sexo (Sexx Laws) ou que gozava com o diabo (Devil's Haircut) sem deixar de em em determinados instantes do seu percurso de fazer uma espécie de ode à ideia romântica de uma vida sossegada, realizada e feliz usando a santa triologia da pop, da folk e da country, regressa em Colors a um território sonoro onde também se sente como peixe na água, oferecendo-nos um som intrincado mas cativante e que contém texturas psicadélicas que, simultanemente, nos alegram e nos conduzem à diversão, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Fica claro em Colors que Beck ainda caminha, sofre, ama, decepciona-se, e chora, mas que vive numa fase favorável e animada. Espero que aprecies a sugestão...

Beck - Colors

01. Colors
02. Seventh Heaven
03. I’m So Free
04. Dear Life
05. No Distraction
06. Dreams (Colors Mix)
07. Wow
08. Up All Night
09. Square One
10. Fix Me
11. Dreams


autor stipe07 às 11:32
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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017

Django Django – Tic Tac Toe

Django Django - Tic Tac Toe

 

Chegam de Edimburgo, na Escócia, têm um irlandês lá pelo meio, atualmente assentaram arrais em Dalston, aquele bairro de Londres onde tudo acontece, chamam-se Django Django e são um nome que este blogue tem acompanhado com toda a atenção na última meia década. Depois de se terem estreado nos discos em janeiro de 2012 com um trabalho homónimo muito bem aceite pela crítica e nomeado para um Mercury Prize nesse mesmo ano, a banda, formada por Dave Maclean, Vincent Neff, Tommy Grace e Jimmy Dixon, regressou em 2015 com o excelente Born Under Saturn, e agora, no início de 2018, a vinte e seis de janeiro, via Ribbon Music, irá regressar aos lançamentos discográficos com Marble Skies, um alinhamento de dez canções certamente feitas com uma pop angulosa proposta por quatro músicos que, entre muitas outras coisas, tocam baixo, guitarra, bateria e cantam, sendo isto praticamente a única coisa que têm em comum com qualquer outra banda emergente no cenário alternativo atual.

Tic Tac Toe é o primeiro single extraído de Marble Skies, uma canção assente numa percussão tribal, acompanhada por uma guitarra com um delicioso efeito hipnótico da guitarra e um baixo vigoroso e já com direito a um curioso vídeo realizado por John Maclean, membro dos carismáticos The Beta Band. É um filme que aprentemente podia debruçar-se sobre a era dos jogos de arcada, sobre um tempo que parece nunca chegar para nada, sobre o ódio e o amor, o horror ea felicidade, mas que é simplesmente sobre um homem que precisa de comprar algum leite para fazer juntar à sua chávena de chá. Confere...


autor stipe07 às 15:12
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Domingo, 15 de Outubro de 2017

Wild Beasts – Punk Drunk And Trembling

Wild Beasts - Punk Drunk And Trembling

Aproximadamente um ano após o excelente Boy King, que tinha sido já um notável sucessor de Present Tense e da obra prima Smother (2011), o quarteto britânico Wild Beasts acaba de anunciar a separação para tristeza dos inúmeros fãs que têm não só na Europa mas também do outro lado do atlântico. Para encerrar as hostilidades o grupo vai editar um EP daqui a alguns dias com três canções, das quais já se conhece o tema homónimo. Além disso, o grupo também anunciou três concertos de despedida, todos em Inglaterra.

Em Punk Drunk and Trembling, além de impressionar a simbiose entre a distorção das guitarras e um conjunto de referências que piscam o olho a alguns fragmentos mais preponderantes da eletrónica atual, também impressiona o modo como os The Wild Beasts não descuram uma forte presença da synthpop típica dos anos oitenta, de forma equilibrada e não demasiado vintage, aspetos que fazem da canção um excelente aperitivo para um EP que não deverá de deixar de conter o charme inconfundível e o pulsar tremendamente climático, subtil e insinuante de um projeto que chega ao fim no auge da sua maturidade. Confere...


autor stipe07 às 20:28
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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017

Noel Gallagher’s High Flying Birds – Holy Mountain

Noel Gallagher's High Flying Birds - Holy Mountain

O ideário sonoro dos gloriosos anos noventa está ainda bem presente entre nós após duas décadas desse período aúreo de movimentos musicais incríveis como a britpop que, do lado de cá do atlântico, fez na altura frente ao grunge e ao indie rock norte americano, num período temporal que massificou definitivamente o acesso global à música. E os Oasis foram um dos nomes fundamentais da arte musical em Terras de Sua Majestade nessa época, liderados pelos irmãos Gallagher que continuam a fazer questão de alimentar uma relação lendariamente conturbada. E agora fazem-no através das suas carreiras a solo, com ambos a editarem discos em nome próprio no ocaso de 2017. O primeiro foi Liam, o mais novo, com o seu registo de estreia As You Were e agora chega a vez de Noel, juntamente com os seus High Flying Birds, através de um trabalho intitulado Who Built the Moon?, que irá ver a luz do dia já em novembro.

Holy Mountain é o primeiro single divulgado de Who Built The Moon?, uma canção impetuosa e com uma vasta miríade de influências, que vão da britpop, ao rock mais ácido e experimental setentista, passando pelo rock alternativo da década seguinte e aquela toada pop algo sintética do mesmo período, com um espírito bastante festivo e dançante. Confere...


autor stipe07 às 21:35
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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Fink - Resurgam

Três anos depois do excelente álbum Hard Believer, o projeto Fink de Fin Greenall (voz, guitarra), um músico britânico com quarenta e cinco anos, natural de Bristol e que, deambulando entre Londres e Berlim, vai-se destacando não só como músico, mas também como compositor e produtor para outros projetos, está de volta com Resurgam, dez canções que viram a luz do dia no final de setembro e que catapultam este projeto para um nível qualitativo de excelência numa carreira sempre a subir, disco após disco.

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O título deste novo disco de Fink é inspirado numa inscrição de origem latina que o autor encontrou numa igreja quase milenar de Cornwall, sua cidade natal e cujo espírito e significado faz-se sentir, transversalmente, ao longo de todo o alinhamento, produzido pelo carismático Flood (PJ Harvey, U2, Foals, Warpaint, The Killers) e gravado nos estúdios Assault & Battery Studios, que este produtor partilha com Alan Moulder no norte de Londres.

Num projeto em que os dois maiores trunfos são a belíssima voz de Fin e o magnífico trabalho instrumental, principalmente de Tim Thornton, à frente da bateria e da guitarra, ficamos logo agarrados ao disco com Resurgam, o tema homónimo de abertura, feito de uma melodia que tem por base uma bateria e a voz de Fink impregnada de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de um teclado e algumas cordas. Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco essencialmente acústico, vincadamente experimental e orgânico e com uma forte toada blues. Depois, no clima envolvente de Day 22, bastante influenciado por alguns arranjos de sopros inebriantes e na sumptuosa delicadeza do piano que baliza Cracks Appear, ao qual vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de uma guitarra eletrificada, percebe-se que há não só um maior arrojo pop relativamente a Hard Believer, mas também a assunção por parte do autor de que a opção por um alinhamento sinuoso e cativante e que nos convide frequentemente à introspeção e à reflexão sobre o mundo moderno, acaba por ser a opção certa não só para conseguir materializar os melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, mas também para chegar a um número ainda maior de ouvintes que ainda não tiveram a oportunidade de se deliciar com a filosofia estilística deste artista tremendamente dotado.

Na verdade, além dos temas já citados, não faltam neste disco, vários outros exemplos do forte cariz eclético e heterogéneo do cardápio de Fink. Se o transbordar de um sentimento algo angustiante e sentido à boleia do piano em Word to The Wise e da viola em Not Everything Was Better In The Past mostram um lado do músico algo inquietante e a suplicar por um outro patamar de serenidade, já a subtil clareza da batida sincopada que alimenta a sempre crescente The Determined Cut e a suavidade contínua e algo subtil de Godhead oferecem-nos, em oposição, um Fink mais sorridente e esperançoso, um exímio e lúcido contador de histórias que servem a qualquer comum dos mortais.

Resurgam está recheado de sons inteligentes e solidamente construídos, que nos emergem em ambientes carregados de ritmos e estruturas sonoras muitas vezes falsamente minimalistas e que têm como grande atributo poderem facilmente fazer-nos acreditar que a música pode ser realmente um veículo para o encontro do bem e da felicidade coletivas. Espero que aprecies a sugestão...

Fink - Resurgam

01. Resurgam
02. Day 22
03. Cracks Appear
04. Word To The Wise
05. Not Everything Was Better In The Past
06. The Determined Cut
07. Godhead
08. This Isn’t A Mistake
09. Covering Your Tracks
10. There’s Just Something About You


autor stipe07 às 21:25
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Domingo, 8 de Outubro de 2017

The Clientele - Music For The Age Of Miracles

Alasdair MacLean e Anthony Harmer conhecem-se e tocaram juntos em meados dos anos noventa mas perderam contacto. Actualmente, vivem a pouca distância e a sugestão duma sessão experimental juntos levou a que Anthony fizesse os arranjos das músicas de MacLean e isso aconteceu até terem músicas suficientes para um disco. MacLean perguntou a James Hornsey (baixo) e Mark Keen (bateria, piano e percussão) se queriam fazer um novo disco de The Clientele e assim nasceu Music For The Age Of Miracles, o primeiro disco em sete anos desta banda mítica do indie rock psicadélico das últimas duas décadas, um alinhamento de doze canções abrigado pela Tapete Records.

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Logo em The Neighbour, no esplendor de uma viola acústica à qual se junta, pouco depois do início do tema, a congénere elétrica, mas também violinos e uma bateria pulsante, ficamos com a certeza que nos aguarda uma sequência eloquente e grandiosa, proporcionada por um projeto com uma linguagem sonora que até já foi influenciada por sonoridades mais cruas e até próximas do punk, mas que hoje subsiste, de modo bastante particular, à sombra de uma folk pop encharcada com melancolia e romance. De facto, em Music for The Age Of Miracles, MacLean e Harmer procuraram um som mais imediato e acessível do que os trabalhos antecessores, mas igualmente profundo, sedutor e comunicativo.

Depois desse início prometedor, no piano enternecedor do instante instrumental Lyra In April percebe-se a busca de um ambiente intimista e poético, com Lunar Days, logo a seguir, a cimentar essa demanda e, consequentemente, o ambiente geral de um disco que instrumentalmente olha para as cordas com amor e até alguma sofreguidão, mas que também pede às teclas e à bateria para darem o melhor de si na criação do tal ambiente sedutor e envolvente.

Music For The Age Of Miracles está, portanto, repleto de momentos elegantes, bonitos e que merecem dedicada audição, no modo como impressionam e cativam. A progressão simples inicial dos acordes da arrebatadora Falling Asleep, os curiosos efeitos percussivos e depois, em opsição, alguns arranjos deslumbrantes no final, praticularmente ricos, numa das canções mais pessoais do registo, são um excelente tónico para quem quiser realmente deixar-se envolver pela riqueza estilística actual destes The Clientele. Na sequência,o requinte percurssivo e o solo de trompete a cargo de Leon Beckenham em Everything You See Tonight Is Different From Itself, assim como a melodia doce e aditiva de Everyone You Meet, também têm a capacidade de mostrar uma faceta dos The Clientele algo inédita, porque residindo num universo algo sombrio e entalhado numa forte teia emocional amargurada, demonstram e ampliam, desta vez, a capacidade para compôrem, em simultâneo, temas com um elevado teor introspetivo, mas também plenos de cor, luminosidade e optimismo. Depois, instantes curiosos como o som do vento captado no exterior da casa do realizador Derek Jarman em North Circular Days, dão um cariz ainda mais abrangente e rico à filosofia criativa que norteou a concepção do trabalho.

Álbum muito bem produzido, sem lacunas, com elevada coerência e sequencialidade, Music for The Age Of Miracles firma uma posição forte dos The Clientele na classe das bandas que atingiram uma posição de relevo no universo sonoro em que se inserem, apostando em canções extremamente simples e outras que soam mais ricas e trabalhadas, sempre com um intenso charme a apoderar-se invariavelmente de todas elas. Espero que aprecies a sugestão...

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1. The Neighbour
2. Lyra in April
3. Lunar Days
4. Falling Asleep
5. Everything You See Tonight Is Different From Itself
6. Lyra in October
7. Everyone You Meet
8. The Circus
9. Constellations Echo Lanes
10. The Museum of Fog
11. North Circular Days
12. The Age of Miracles


autor stipe07 às 21:58
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Sexta-feira, 6 de Outubro de 2017

Liam Gallagher – As You Were

O ideário sonoro dos gloriosos anos noventa está ainda bem presentes entre nós após duas décadas desse período aúreo de movimentos musicais incríveis como a britpop que, do lado de cá do atlântico, fez na altura frente ao grunge e ao indie rock norte americano, num período temporal que massificou definitivamente o acesso global à música. E os Oasis foram um dos nomes fundamentais da arte musical em Terras de Sua Majestade nessa época, liderados pelos irmãos Gallagher que continuam a fazer questão de alimentar uma relação lendariamente conturbada. E agora fazem-no através das suas carreiras a solo, com ambos a editarem discos em nome próprio no ocaso de 2017. O primeiro foi Liam, o mais novo, com o seu registo de estreia; Chama-se As You Were e contém doze canções que devem também parte do seu cunho identitário a Greg Kurstin, produtor que além de ter salvo a carreira dos Foo Fighters à cerca de uma década, também ajudou a impulsionar nomes como Sia ou Adele e assina seis das doze músicas deste disco. O outro produtor de As You Were é Dan Grech-Marguerat, que também transita entre a pop e o rock e tem nomes como Lana Del Rey ou os The Vaccines no seu currículo. Já agora, a vinte e quatro de novembro será a vez de Noel regressar aos lançamentos discográficos com um trabalho intitulado Who Built the Moon?.

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Espontaneidade e risco foram duas permissas que Liam certamente teve em conta quando idealizou o conteúdo de As You Were. Logo no rock que tem tanto de incisivo como nostálgico de Wall Of Glass percebe-se que o mais novo dos manos Gallagher mantém intacto o modo emotivo como replica algumas das marcas identitárias do indie rock que povoa o nosso subconsciente e que forjaram parte importante da história da música dos finais do século passado, numa canção cujas distorções e variações percurssivas  transportam consigo muita dessa herança, mas com um espírito renovado e mais contemporâneo. Depois, no dedilhar da viola que conduz Paper Crown, no muro de guitarras que afaga a acusticidade inicial de Bold e no clima impetuoso de Greedy Soul Liam firma essa ideia de espontaneidade e liberdade, conseguindo, por um lado, o indispensável apelo radiofónico e aquele som de estádio que precisa para sustentar com firmeza a promoção ao vivo do registo e, por outro, uma elevada bitola qualitativa no que concerne à demonstração da sua capacidade intuitiva de criar trechos melódicos quer apelativos quer criativos.

Claramente feliz com a liberdade musical ilimitada que uma carreira a solo lhe permite, Liam Gallagher expôe o habitual modelo de canção assente na primazia das cordas das guitarras, no que concerne ao processo de condução melódica, mas está também reservada à bateria e ao baixo um papel mais que acessório e secundário. Se logo nas cordas da já citada Bold e em Universal Gleam é fácil recordarmos o hino Wonderwall e se When I'm In Need deve muito ao clima pop psicadélico gerado pelos Fab Four já o fulgor de I Get By e o rock sujo e empoeirado de You Better Run têm aquela toada épica e gloriosa que os Oasis tanto gostavam de explorar e que o efeito mais contemporâneo do baixo nos dois temas atualiza com notável precisão, cabendo a estes temas funcionarem como uma espécie de cone sonoro por onde acaba por circular o restante alinhamento que, como se vê, tem impressa uma marca identitária única e facilmente identificável.

As You Were é um disco algo crú mas que não deixa também de estar impecavelmente produzido e pronto para ser cantado por multidões que irão decorar estas letras até à exaustão, pensado e idealizado por um dos melhores compositores e cantores ingleses das últimas duas décadas e ao qual o indie rock britânico tanto deve. Espero que aprecies a sugestão...

Liam Gallagher - As You Were

01. Wall Of Glass
02. Bold
03. Greedy Soul
04. Paper Crown
05. For What It’s Worth
06. When I’m In Need
07. You Better Run
08. I Get By
09. Chinatown
00. Come Back To Me
11. Universal Gleam
12. I’ve All I Need


autor stipe07 às 21:30
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