Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

The War On Drugs - Thinking Of A Place

 

Os The War On Drugs de Adam Gradunciel já eram sinónimo de saudade na redação de Man On The Moon, até porque não davam sinais de vida desde o excelente Lost In The Dream, editado há cerca de três anos. Refiro-me a um projeto norte americano cuja sonoridade descomprometida e apimentada com pequenos delírios acústicos foi aos poucos transformando-se numa referência para vários artistas em início de carreira e que está de regresso em 2017 com um novo registo de originais. Mas para já, enquanto o novo disco não chega, Gradunciel produziu especialmente para o Record Store Day deste ano Thinking Of A Place, um tema que encarna onze minutos que são uma verdadeira vibe psicadélica e poeticamente melancólica, com uma progressão interessante e onde vão sendo adicionados diversos arranjos, sintetizadores a batidas que adornam as guitarras e a voz, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte. Confere...


autor stipe07 às 13:19
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Quarta-feira, 26 de Abril de 2017

Galo Cant’Às Duas - Os Anjos Também Cantam

Moita, no concelho de Castro Daire, é um ponto geográfico nevrálgico fulcral para o projeto Galo Cant’às Duas, uma dupla natural de Viseu, formada por Hugo Cardoso e Gonçalo Alegre e que tocou pela primeira vez nesse local, de modo espontâneo, durante um encontro de artistas. Nesse primeiro concerto, o improviso foi uma constante, com a bateria, percussões e o contrabaixo a serem os instrumentos escolhidos para uma exploração de sonoridades que, desde logo, firmaram uma enorme química entre os dois músicos.

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Inspirados por esse momento único, Hugo e Gonçalo arregaçaram as mangas e começaram a compor pouco tempo depois, ao mesmo tempo que procuravam dar concertos, sempre com a percussão e o contrabaixo na linha da frente do processo de construção sonora. A guitarra e o baixo elétrico acabam por ser dois ingredientes adicionados a uma receita que tem visado, desde este prometedor arranque, a criação de um elo de ligação firme entre duas mentes disponíveis a utilizar a música como um veículo privilegiado para a construção de histórias, mais do que a impressão de um rótulo objetivo relativamente a um género musical específico.

O desejo de gravar um disco de estreia acabou por ser um passo óbvio para os Galo Cant'às Duas e para isso refugiaram-se, com a ajuda de Miguel Abelaira, durante uma semana nos estúdios HAUS com Makoto Yagyu e Fábio Jevelim para gravar, produzir e misturar Os Anjos Também Cantam, nome desse trabalho lançado pela Blitz Records e distribuído pela prestigiada Sony Music Entertainment.

O disco arranca com Marcha dos que voam, a primeira amostra divulgada, uma canção que plasma a inegável ousadia e mestria instrumental da dupla, que pôe um olho no rock progressivo e outro num salutar experimentalismo psicadélico e depois chega Respira, uma composição que impressona pelo efeito inicial das cordas, livres e expansivas, parceiras ideais da bateria para uma viagem de descoberta de um leque variado de extruturas e emoções que se vão sobrepondo e antecipando diversas quebras e mudanças de ritmo e fulgor. Depois, num curioso efeito agudo, na distorção de uma flauta que amiúde corta e rebarba e no potente riff do baixo que marca o pendor de Processo Entre Viagens e, no ocaso, a aparição da voz que afirma apenas e só, mas de modo convincente, Seremos todos nada, para que te convenças, abraçada por uma melodia sintetizada frenética, em Aparição, encerram pouco mais de trinta minutos de um registo que é um dos mais desafiantes, sensoriais, inusitados e multifacetados do cenário musical indie e alternativo nacional de 2017. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 13:15
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Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

Gorilla Cult - Mothership

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Nick Vincent, Tobias Cramér, Leo Hansson Nilson, Jakob Samani  e Edvin Arleskär são os Gorilla Cut, um quinteto sueco oriundo de Estocolmo e que acaba de divulgar um tema intitulado Mothership. Este é um de vários singles que o projeto pretende lançar durante este ano e que já tem direito a um curioso vídeo realizado pelo coletivo visual Vector3. Para a conceção do registo visual foram usadas impressões 3D e imagens captadas pela câmara de uma Xbox Kinect. 

No que diz concerne ao conteúdo sonoro do tema, o mesmo surpreende pela sonoridade inicial atmosférica, que vai-se desenvolvendo e nos envolvendo, com vários elementos típicos do krautrock e do post punk a darem ao tema uma dinâmica e um brilho psicadélico incomum. Confere...


autor stipe07 às 22:03
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Sexta-feira, 21 de Abril de 2017

Trêsporcento - Território Desconhecido

Quase cinco anos depois do excelente Quadro, os lisboetas Trêsporcento, deTiago Esteves (voz e guitarra), Lourenço Cordeiro (guitarra), Salvador Carvalho (baixo), Pedro Pedro (guitarrista) e António Moura (baterista), parecem apostados em fazer de 2017 mais um ano memorável na já respeitável carreira de um dos projetos essenciais do universo indie sonoro nacional. Para isso contam com Território Desconhecido, o terceiro e novo álbum do grupo, que viu a luz do dia a sete de abril último.

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Gravado desde Junho passado até ao início deste ano, misturado por Carlos Jorge Vales e masterizado por Miguel Pinheiro Marques, Território Desconhecido conta com a participação especial de Flak (Rádio Macau, Micro Audio Waves), que produziu e gravou o disco no Estúdio do Olival, à excepção das baterias que foram captadas por Manuel San Payo.

Logo em O Sonho, tema que abre o alinhamento de Território Desconhecido e a concretização de um desejo antigo da banda de compôr uma canção em que o refrão fosse um simples instrumental, fica vincada uma salutar ideia de maturidade, numa canção atual e que nos mostra uns Trêsporcento fiéis a si próprios e a trilharem de modo assertivo e criativo aquele percurso sonoro que sempre os norteou, assente numa indie pop aberta e luminosa e sempre cantada em português.

Depois da porta para esse Território Desconhecido se abrir de modo opulente e magnâmino, somos surpreendidos em Um Grande Passo pela exuberância contida mas firme de uma flauta transversal, que, aliando-se às cordas, recosta-nos para o fundo daquele fiel cadeirão onde bocejamos as nossas agruras amorosas. Mas pouco depois e logo a seguir à luminosidade incontida dos punhos fechados que conduzem Tempos Modernos, somos salvos pelo ambiente intimista de Stoner, canção que parecendo levitar num oásis de detalhes eletrónicos, contém um suave travo vintage, ao nível dos arranjos da guitarra e dos detalhes vocais, à herança da nossa música mais tradicional.

Até ao ocaso de Território Desconhecido nunca nos sentimos defraudados pela audição de todo este receituário inédito no panorama sonoro nacional atual e, à medida que o alinhamento prossegue, conseguimos, com indubitável clareza, perceber os diferentes elementos sonoros que vão sendo adicionados e que esculpem as canções, com as guitarras, melodicamente sempre muito próximas da voz e alguns arranjos sintéticos a sobressairem, não porque ficam na primeira fila daquilo que se escuta, mas porque suportam aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que uma canção toma e nas sensações que transmite. Quer na arrebatadora simplicidade das cordas de Cabeça Ocupada, canção com um grau de emotividade extrovertida ímpar, ou no devaneio rock de A Ciência, assim como, numa faceta oposta, no posicionamento clássico do dedilhar da viola que constrói a melodia de Papa Figos, tema que homenageia o famoso vinho da Casa Ferreirinha, mesmo havendo várias abordagens díspares a um território sonoro impecavelmente delimitado, é possível irmos, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa espécie de indie rock pop folk feito por mestres impregnados com um intenso bom gosto e que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um charme ainda maior pela peça em si que este disco representa.

Escutar os Trêsporcento atualmente é um elixir revitalizador para o espírito, aconchega a alma e faz esquecer, nem que seja por breves instantes, aquelas atribulações que de algum modo nos afligem. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:36
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Quarta-feira, 19 de Abril de 2017

Glass Vaults - Bleached Blonde

Os Glass Vaults são uma banda oriunda de Wellington, na Nova Zelândia e em cujo regaço melancolia e lisergia caminham lado a lado, duas asas montadas em canções que nos oferecem paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos e a voz de Larsen que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta. E tudo isto sente-se com profundo detalhe, numa banda que por vir dos antípodas parece carregar nos seus ombros o peso do mundo inteiro e não se importar nada com isso, algo que nos esclareceu com veemência Sojourn, o longa duração de estreia destes Glass Vaults, editado em 2015 à boleia da Flying Out e que sucedeu a Glass (2010) e Into Clear (2011), dois eps que colocaram logo alguma crítica em sobressalto.

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Agora, quase dois anos depois desse auspicioso início de carreira no formato longa duração, o trio está de regresso aos discos com The New Happy, um trabalho que irá ver a luz do dia a doze de maio através de Melodic Records e de cujo alinhamento já se conheceu, há alguns dias, um tema intitulado Brooklyn e agora uma segunda composição intitulada Bleached Blonde. Esta última é uma belísima composição marada por uma percussão de elevado cariz étnico, cruzada por um efeito de uma guitarra plena de swing, um verdadeiro festim de cor e alegoria, onde tudo é filtrado de modo a reproduzir toda a magnificiência que costuma marcar as propostas sonoras de uns Glass Vaults que impressionam pela orgânica e pelo forte cariz sensorial. Parece confirmar-se que New Happy será um disco com um som esculpido e complexo e com um encadeamento que nos obrigará a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. Confere...


autor stipe07 às 21:39
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Terça-feira, 18 de Abril de 2017

Flagship – The Electric Man

Oriundos de Charlotte, na Carolina do Norte, os Flagship de Drake Margolnick e Michael Finster são já um caso sério no panorama indie norte-americano e arriscam-se, com The Electric Man, o seu novo registo de originais, a atravessar novas fronteiras e a receberem justo reconhecimento junto de um novo público, também do lado de cá do atlântico. Editado através da Bright Antenna Records e produzido pelo reputado e insuspeito Joey Waronker (Beck, Brandon Flowers, Yeasayer, Atoms for Peace, Air), este é um trabalho que nos oferece uma maravilhosa jornada sonora, capaz de nos levar em várias viagens de ida e volta, da luz à escuridão, abrigados por onze canções assentes num rock atmosférico de elevada intensidade e superior calibre.

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Exímios a criar e replicar melodias bastante aditivas e com forte sentido pop, estes Flagship conseguiram compôr algumas verdadeiras pérolas neste seu segundo registo de originais, bastante inspirado na morte, em 2015, de Grant Harding, que fez parte da formação incial deste projeto. Assim, se Midnight contém aquela epicidade épica de forte cariz sentimental que fez escola nos anos oitenta do século passado, já a viola que introduz Hurricane e o modo como a bateria e um efeito subtil e metálico da guitarra a ela se juntam, fazem-nos erguer o queixo sem receio numa qualquer avenida apinhada de gente que deambula sem destino. Depois, quando o baixo e o sintetizador de Mexican Jackpot piscam os olhos aquele indie rock contemporâneo leve e sorridente e quando The Ladder nos mostra a faceta mais progressiva e ruidosa da dupla, fica claramente plasmada a filosofia de um alinhamento onde sentimentalismo e grandiosidade andam permanentemente de mãos dadas e com um propósito bem definido e pensado; Fazer o ouvinte olhar para o que está diante de si e ter a noção de que, por muito agreste que a vida pareça hoje, o amanhã contém sempre uma infinitude de oportunidades e caminhos por desvendar.

Para os Flagship escrever e cantar sobre eventos importantes e marcantes da sua existência não tem de ser necessariamente um exercício reflexivo de assimilação eminentemente intimista. Nota-se que sentem-se realizados e completos a gritar ao mundo inteiro as suas agruras e inquietações, mas também as alegrias e realizações que vão conquistando, como se quisessem deixar, de modo bem vincado, não só o modo como as suas experiências pessoais se refletem na personalidade de cada um, mas também a ousadia de quererem alertar e aconselhar quem se predispuser a deixar-se levar pela sua vastidão encantatória e que exala deste The Electric Man. Escuta-se as cordas de Burn It Up e o modo como depois uma intensa miríade instrumental se sobrepôe a elas, ou a curiosa rugosidade melancólica do sintetizador que conduz 100 Lives e percebe-se claramente que a melhor forma de exorcizar fantasmas é, se calhar, assustá-los com o nosso próprio âmago. Espero que aprecies a sugestão...

Flagship - The Electric Man

01. Mexican Jackpot
02. Midnight
03. The Ladder
04. Burn It Up
05. 100 Lives
06. In The Rain
07. China Star Man
08. Hurricane
09. The Electric Man
10. Faded
11. It’ll All Work Out


autor stipe07 às 23:14
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Terça-feira, 11 de Abril de 2017

Future Islands – The Far Field

Disco que teve início de incubação janeiro de 2016, altura em que o trio composto por Samuel T. Herring (vocalista e letrista), William Cashion (baixo e guitarra) e  Gerrit Whelmers (teclado) começou a escrevê-lo na Carolina do Norte, The Far Field é o quinto e novo registo de originais dos Future Islands, doze canções que este projeto oriundo de Baltimore foi testando em concertos dados com nomes falsos e que viram a luz do dia a sete de abril último,à boleia da 4AD.

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Banda com uma carreira já bem cimentada no panorama índie contemporâneo, não só por causa da elevada bitola qualitativa do cardápio sonoro que credita, mas também por causa do carisma de Samuel Herring, um agitador nato, fabuloso dançarino e um dos melhores frontmen da atualidade, os Future Islands chegam ao quinto disco numa fase central da carreira e com a percepçao clara de que este é o momento certo de assaltarem, de uma vez por todas, os lugares de topo do panorama sonoro em que se movimentam. O baixo de Alladin e a melodia sintetizada que deambulam em redor dele e os restantes arranjos percussivos, num resultado final eloquente, algo etéreo e contemplativo e de elevada amplitude e luminosidade, acabam por ser ingredientes que se repetem noutras canções e que alicercam as permissas fundamentais de um alinhamento que olha de modo guloso e anguloso para a pop sintetizada oitocentista, movida a néons e plumas, mas que também não descura um olhar em frente, ao abarcar detalhes e arranjos que definem muita da melhor eletrónica que se vai escutando atualmente.

The Far Field faz, portanto, uma espécie de mescla entre o melhor retro e vintage que a pop contém na sua herança identitária e que teve a penúltima década do século passado como período mais feliz, mas basta escutar-se o modo como o refrão de Time On Her Side abraça o céu e a terra sem se perceber onde termina e acaba essa copúla, ou o modo luxuriante como o já referido baixo e o sintetizador se unem ao tom grave da voz em Cave, para não haver dúvidas que estes Future Islands apontam neste seu novo registo algumas novas matrizes para precisar uma nova definição de pop, que juntando rock e eletrónica, não renegue o rico passado que contém, mas que saiba como continuar a conjugar dois mundos que sempre pareceram como água e azeite, mas que aifnal podem tocar-se, envolver-se e emocionarmos sem hver fornteitras claras, nessa simbiose, relativamente a cada um dos dois territórios referidos.

Com Shadows a ser aquela canção que nos leva aos confins do universo, embalados pela voz de Debbie Harry e por um punho cerrado que nos impele sem receio de encontro aos nossos sonhos, The Far Field é um disco que, mesmo nos momentos em que apresenta uma superior percentagem de risco e um certo experimentalismo psicadélico, como nos sopros e no flash agudo da lânguida Beauty Of The Road, ou nos efeitos percussivos metálicos que rugem no fundo de North Star, assim como no groove libidinoso e festivo do baixo que conduz o frenesim algo endiabrado de Day Glow Fire, contém, por excelência, um ambiente algo reflexivo e intimista, mas também uma abundância de fragmentos sonoros cheios de vida e cor, dispostos de modo orgânico e enérgico, com a sua audição a oferecer-nos uma viagem ao passado e ao futuro, com aquela sensualidade que apela diretamente às emoções e que acaba por colocar um enorme e excitante ponto de interrogação nos fãs e apreciadores da banda relativamente ao seu futuro sonoro. Espero que aprecies a sugestão...

Future Islands - The Far Field

01. Aladdin
02. Time On Her Side
03. Ran
04. Beauty Of The Road
05. Cave
06. Through The Roses
07. North Star
08. Ancient Water
09. Candles
10. Day Glow Fire
11. Shadows
12. Black Rose


autor stipe07 às 18:28
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Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

Fujiya And Miyagi – Fujiya And Miyagi

Com já uma década e meia de atividade e assumindo-se, meia dúzia de discos depois, como um dos projetos mais relevantes do cenário indie britânico, pelo modo exímio como misturam alguns dos melhores aspetos do rock alternativo com a eletrónica de cariz mais progressivo, os Fujiya And Miyagi resolveram em 2016 deixar um pouco de lado o habitual formato álbum para se dedicarem à edição de dois EPs, mas depressa regressaram à primeira forma com um homónimo que, diga-se de passagem, acaba por ser uma espécie de súmula desses anteriores lançamentos, que mostraram que este quarteto está cada vez mais apostado numa relação estreita entre o krautrock inaugurado nos anos setenta e as tendências atuais da pop movida a sintetizadores, sem nunca descurar a presença do baixo e da guitarra no processo de criação.

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Esta estética sonora muito peculiar e genuína foi abraçada logo em 2003, quando Steve Lewis e David Best, os membros iniciais do projeto que integrava o conceito de Fujiya (uma marca de equipamentos de som) e Miyagi (o mentor de Daniel-San em Karate Kid), se estrearam. E registo após registo, ela contém uma cada vez maior bitola qualitativa, assente num espaço de delicioso diálogo com heranças e referências de outros tempos, algo que Outstripping (The Speed Of Light), um dos grandes destaques deste Fujiya And Miyagi e que foi single de abertura de EP2, plasma claramente, ao remeter-nos para a sintetização da década de oitenta, no período aúreo de uns Pet Shop Boys ou dos New Order e Swoon eleva, através da simbiose entre as batidas, a voz sussurrada de Best e o groove de um teclado.

Olhando para o restante conteúdo deste registo e continuando a fazê-lo numa óptica de homogeneidade e de junção dos eps acima referidos, importa conferir ainda que se Serotonin Rushes nos remete para a eletrónica alemã, com o baixo e as guitarras a não esbaterem uma declarada essência vintage, mas a acabarem por encontrar eco em muitas propostas indie atuais que também se movem, com mestria, na mesma miríade de influências, também há que destacar a elegância do groove e do ritmo dos teclados que balançam entre a pista de dança e paisagens cotemplativas em Extended Dance Mix. Este tema é um excelente mote para percebermos o atual estado criativo do grupo e o porquê de serem já uma referência devido ao jogo que estabelecem entre o baixo e as guitarras no meio das batidas, com o charme de Freudian Slips, uma canção que cresce apoiada em batidas sincopadas e que clama por um momento de êxtase que nunca chega, a desfazer ainda mais todas as dúvidas em relação a essa constatação.

Neste novo registo homónimo dos Fujiya And Miyagi estamos perante uma súmula interessante e bem idealizada de todo o conteúdo que sustentou a eletrónica nos últimos trinta anos, atráves de canções pop bem estruturadas, devidamente adocicadas com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, tudo envolto com a habitual pulsão rítmica que carateriza a personalidade deste quarteto, que criou mais um conjunto de alinhamentos consistente, carregados de referências assertivas e que constituem um novo marco no percurso deste projeto essencial do panorama da eletrónica do séxculo XXI. Espero que aprecies a sugestão...

Fujiya And Miyagi - Fujiya And Miyagi

01. Magnesium Flares
02. Serotonin Rushes (Single Version)
03. Solitaire
04. To The Last Beat Of My Heart
05. Extended Dance Mix
06. Outstripping (The Speed Of Light)
07. Swoon
08. Freudian Slips
09. Impossible Objects Of Desire
10. Synthetic Symphonies
11. R.S.I.
12. Impossible Objects Of Desire (Radio Edit)


autor stipe07 às 22:29
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Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Father John Misty - Pure Comedy

Father John Misty já foi visto como um reverendo barbudo e cabeludo, que vagueava pela noite americana a pregar o evangelho segundo Neil Young. Encharcado, pegava no violão e cantava sobre cenas bíblicas, Jesus e João Batista e a solidão. Hoje, este ser único não é só um artista, é uma personagem criada e interpretada por Josh Tillman, antigo baterista dos Fleet Foxes, e com uma já respeitável carreira a solo, que acaba de ver um novo capítulo. O mais recente registo discográfico de Joshua Tillman chama-se Pure Comedy, chega aos escaparates hoje, dia sete de abril e assume-se como um portentoso documento sonoro, uma ode aquele lado mais charmoso e clássico da pop que quer ser máquina de transmissão de tudo aquilo que o amor enquanto evidência feliz ou palco dos mais inquietantes e perigosos devaneios oferece, quer sejam realidades empíricas e fisicamente passíveis de provocar reparo ou dano, ou sensações psiquícas que muitas vezes incendeiam, para o bem ou para o mal, até o ser mais empedrenido que habita à face da terra.

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Num disco preenchido então, e como não podia deixar de ser, com canções de amor bonitas e sentidas, as mesmas encontram-se repletas de orquestrações opulentas e com um grau de refinamento classicista incomensurávelmente belo. Chega a ser inquietante o modo impressivo e realista como Joshua Tillman se senta ao piano ou coloca a viola no regaço e toca e canta emotivamente sobre as agruras, anseios, inquietações inerentes à condição humana, mas também as motivações e os desejos de quem usa o coração como veículo privilegiado de condução, orientação e definição de algumas das metas imprescindíveis na sua existência. E, como é do senso comum, somos muitos aqueles que nos deixamos conduzir, quase sempre, pelo coração em vez da razão. E se há momentos em que desconfiamos que seria bem melhor a materialização de opções mais racionais e até, quem talvez não saiba o que diz, conscientes, a música de Father John Misty é aquele tónico que nos deixa acreditar que pode ser possível confiar que o nosso modus operandi também poderá ser válido na obtenção dos melhores caminhos e atalhos principais e secundários para a suprema felicidade ou, em último caso, para a redenção pessoal.

É particularmente arrepiante o modo como no piano do tema homónimo, já com um maravilhoso vídeo realizado por Matthew Daniel Siskin, este verdadeiro sex symbol indie e estrela improvável faz uma sátira feroz e irónica à América atual, numa canção de inegável beleza e melancolia, que se não é a reinvenção da roda contém uma saudável dose de letargia que garante sucessivas audições, por dias a fio. Logo a abrir o disco, acaba por ser um dos mais belos exemplos do modo como Tillman serve-se do piano para expressar sentimentos que podem causar algum desconforto na mente dos mais desconfiados sobre as suas reais intenções, além de afagarem, com notável eficácia, as dores de quem se predispõe a seguir sem concessões a sua doutrina. E mais adiante, em Things That Would Have Been Helpful To Know Before The Revolution, essas mesmas teclas conseguem fazer-nos debruçar, numa fase inicial, de encontro ao nosso âmago, para depois, juntamente com um edifício instrumental heterogéneo e exuberante, fazer-nos desabrochar de novo, mas agora com uma postura final mais firme e confiante.

Mas as cordas também são um veículo imprescindível para o arquétipo sonoro de Tillman e se em Ballad Of The Dying Man entrelaçam-se com o piano para juntos conjurarem juras de amor mútuo e inseparável, já em Total Entertainment Forever constroem, novamente juntos, uma peça sonora vigorosa e pulsante, duas sensações luminosas ampliadas pela presença do trompete, que intercala maravilhosamente com a voz, numa mescla que permite um suave levitar, tal é o rol de emoções que transmite e a intensidade das mesmas. 

Até ao ocaso do disco, Father John Misty não abranda no sermão e na afabilidade com que nos faz espontaneamente refletir sobre a nossa perene existência. E da osmose contemplativa de Birdie, canção que nos faz divagar ao sabor de uma fina corrente de uma enigmática luz que dela exala, ao sentido sabor a despedida de uma cidade que não deixa ninguém indiferente, em Leaving LA, passando pelo profundo sabor a redenção que transborda de When The God OF Love Returns There ll Be Hell To Pay, são vários os momentos altos de um alinhamento que não deixa também de conter um estrondoso frenesim sensual e que aponta novos faróis a um dos artistas mais distintos e criativos da pop atual e que hoje e como nunca o fez antes, instiga, hipnotiza e emociona. 

Sedutor, cativante, profundamente engenhoso e com todos os atributos para ser um verdadeiro diabo vestido de anjo, Tillman aprofunda neste seu novo trabalho, que é já, claramente, um dos melhores discos do ano, o refinado e oportuno sentido de humor que tão bem o carateriza e a sagacidade das suas letras, cada vez mais inteligentes e enigmáticas. E Father John Misty leva a cabo esta demanda com um elevado sentido críptico e desafiante, já que não é óbvia, em alguns instantes, a descodificação célere das suas reais intenções relativamente a todos aqueles que se deixam inebriar pelos seus sermões e fazer parte de um rebanho que se assanha sempre que o pastor investe no seu tema recorrente, o amor. Espero que aprecies a sugestão...

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1. Pure Comedy
2. Total Entertainment Forever
3. Things It Would Have Been Helpful to Know Before the Revolution
4. Ballad of the Dying Man
5. Birdie
6. Leaving LA
7. A Bigger Paper Bag
8. When the God of Love Returns There'll Be Hell to Pay
9. Smoochie
10. Two Wildly Different Perspectives
11. The Memo
12. So I'm Growing Old on Magic Mountain
13. In Twenty Years or So


autor stipe07 às 00:01
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Quinta-feira, 6 de Abril de 2017

Tall Ships – Impressions

Depois de uma longa espera de cinco anos, com a ansiedade ampliada devido ao elevado grau qualitativo de Everything Touching, o registo de estreia, já chegou finalmente aos escaparates, via FatCat Records, Impressions, o segundo álbum dos Tall Ships, um projeto britânico natural de Cornwall e formado por Ric Phethean, Matt Parker, Jamie Bush e Jamie Field. São nove canções e duas extra, sustentadas por letras emotivas e uma máquina sonora épica e bem oleada, dominada por guitarras melodicamente inspiradas, uma bateria intensa e graves potentes, o que faz deste disco uma espécie de hino comercial urbano.

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Nem sempre uma estreia auspiciosa nos discos corresponde a uma entrada direta e firme no estrelato e os Tall Ships são um excelente exemplo de tal permissa. Everything Touching foi incensado com uma manancial de críticas positivas não só no Reino Unido, mas também a nível internacional (este blogue também divulgou e analisou o disco) e esperava-se que a banda obtivesse um elevado reconhecimento e um sucesso ímpar, mas a realidade foi bem diferente. Pouco tempo depois do lançamento desse registo os Tall Ships ficaram sem editora e agente, carregados de dúvidas e hesitações quanto ao futuro, amarrados numa perigosa encruzilhada e acabaram por desaparecer do radar, mas não da memória dos fãs mais devotos, nos quais me incluo. Mas, felizmente, o instinto de sobrevivência e a capacidade de superação do grupo foi mais forte que as hesitações e desconfianças de quem mais os deveria apoiar e, cinco anos depois, estão de volta com um alinhamento que além de não defraudar a bitola qualitativa do antecessor, nos oferece uns Tall Ships mais maduros, conscientes e, principalmente, criativos.

Escrito durante este longo hiato e gravado pelo próprio grupo na casa de Jamie Field, Impressions é um fulgurante renascimento, um trabalho que exala talento e emoção e que tem o firme propósito de constituir-se como uma espécie de exlixir para os corações mais inquietos. Se o piano de Home cerra o punho de quem acha que não existe nenhuma saída para o caos em que vive e se Lucille exorciza deixando à tona o melhor lado de um amor que passou mas deixou marcas, já a epicidade eloquente de Road Not Taken e o andamento frenético de Meditations On Loss, assumem-se como vozes de uma consciência que nos diz que a vida é para ser vivida sem ressentimentos e que o passado não deve exercer influência negativa na busca dos sonhos e na materialização daquela esperança que todos temos numa vida ainda melhor. O grande momento de Impressions acaba por ser Will To Life, tema que não poderia ser uma melhor metáfora de tudo aquilo que os Tall Ships viveram nos anos mais recentes, já que se inspira na teoria de um filósofo alemão que defende que quando demasiada energia negativa se acumula no seio de um coletivo mas mesmo assim ele não se separa, então mais dia menos dia, o melhor deles acaba por vir à tona de novo.

Disco que sobressai pelo ambiente geral fortemente emotivo e, na concretização do mesmo, por alguns detalhes e ideias critivas que aliam, muitas vezes, alguns momentos tranquilos com outros onde a velocidade com que a banda explora e executa, em várias direções dita regras, e Lost & Found é um tema que mostra bem essa antítese, Impressions está cheio de melodias bastante aditivas e merece rasgados elogios. Há uma ferocidade muitas vezes descarada, bastante peso no pedal de amplificação, mas tudo é feito com impacto, com mestria e de modo contagiante. Os Tall Ships sabem fazer canções excitantes e que se entrelaçam até atingirem uma espécie de clímax vertiginoso, o que faz de Impressions um disco forte, com substância, muito orgânico e com um conteúdo excelente para fazer deste projeto britânico novamente referência. Espero que aprecies a sugestão...

Tall Ships - Impressions

01. Road Not Taken
02. Will To Life
03. Petrichor
04. Home
05. Lucille
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