Terça-feira, 15 de Agosto de 2017

The Magnetic Fields - 50 Song Memoir

Cinco anos depois do consistente Love At The Bottom Of The Sea, os The Magnetic Fields de Stephen Merritt regressaram aos discos este ano com 50 Song Memoir, através da conceituada Nonesuch Records. Trata-se de mais um álbum conceptual, dividido em cinco discos, um por cada década, cerca de duas horas e meia de música idealizada por Merritt, que começou a escrever e a compor as cinquenta canções do registo em 2015, ano em que fez cinquenta anos de vida, com cada um dos temas a debruçar-se sobre cada um desses anos e a servir de crónica do mesmo. Merritt canta em todas as cinquenta canções do trabalho e tocou mais de cem instrumentos durante a sua gravação. Já agora, no final do século passado os The Magnetic Fields tinham editado o seu primeiro trabalho conceptual, um triplo álbum com sessenta e nove canções de amor e as suas diversas formas de se manifestar e a forma com a mente tremendamente irónica de Merritt olhava na altura para este sentimento.

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Naturais de Boston, no Massachusetts, os The Magnetic Fields são um dos segredos mais bem guardados da pop e neste disco produzido pelo próprio Merritt, secundado por Thomas Bartlett e Charles Newman, transformaram memórias longínquas e recentes do líder da banda para elaborarem uma curiosa biografia sonora, onde diferentes histórias e personagens, verdadeiras e fictícias, se entrelaçam e de modo cronológico.

Escutar 50 Song Memoir é como assistir ao crescimento quer biológico quer psicológico de Merritt e nele não faltam as habituais referências, geralmente amargas, quer a desilusões amorosas, exemplarmente retratadas em Lover's Lies, mas também aos típicos conflitos interiores que se produzem durante a juventude (I'm Sad!) ou a visão que o autor foi tendo do mundo que o rodeia e das transformações que nele foram acontecendo. Danceteria, Rock’n’Roll Will Ruin Your Life, Hustle 76’, How to Play the Synthesizer e Danceteria, plasmam o modo como o músico assistiu às transformações que a música sofreu durante as décadas de setenta e oitenta do século passado e como as mesmas ajudaram a alterar mentalidades, nomeadamente no que concerne a aspetos tão díspares como a liberdade sexual ou a igualdade entre géneros. Judy Garland é outro tema que se debruça sobre o exterior sociológico de Merritt ao versar sobre a morte da atriz norte-americana que dá nome à canção.

Disco onde predomina uma sonoridade eminentemente clássica e geralmente acústica e de forte pendor orgânico, como é apanágio nos The Magnetic Fields, 50 Song Memoir também não deixou de lado os sintetizadores que a partir da última década do século passado tornaram-se ativo importante no processo de criação sonora do grupo. Assim, se a gentileza e cândura luminosa das cordas de A Cat Called Dionysus ou os violinos de Ethan Frome garantem frescura e leveza ao disco, já os efeitos luminosos do teclado de How I Failed Ethic ou a rugosidade sintética de Foxx And I, oferecem ao registo instantes que provam essa busca de uma necessária contemporaneidade, com o rock lo-fi de The Blizzard of ’78 e de Weird Diseases e o experimetalismo lisérgico de Surfin’ a servirem de complemento e a equilibrarem um alinhamento que privilegia a heterogeneidade e a diversidade sonora e, ao fazê-lo com o típico humor e versatilidade instrumental de Merritt, acaba por contar uma outra história, aquela que descreve os vários territórios sonoros que fizeram escola no cenário indie norte-americano nas últimas décadas. Espero que aprecies a sugestão...

The Magnetic Fields - 50 Song Memoir

CD 1
01. ’66: Wonder Where I’m From
02. ’67: Come Back As A Cockroach
03. ’68: A Cat Called Dionysus
04. ’69: Judy Garland
05. ’70: They’re Killing Children Over There
06. ’71: I Think I’ll Make Another World
07. ’72: Eye Contact
08. ’73: It Could Have Been Paradise
09. ’74: No
10. ’75: My Mama Ain’t

CD 2
01. ’76: Hustle 76
02. ’77: Life Ain’t All Bad
03. ’78: The Blizzard Of ’78
04. ’79: Rock’n’Roll Will Ruin Your Life
05. ’80: London by Jetpack
06. ’81: How To Play The Synthesizer
07. ’82: Happy Beeping
08. ’83: Foxx And I
09. ’84: Danceteria!
10. ’85: Why I Am Not A Teenager

CD 3
01. ’86: How I Failed Ethics
02. ’87: At The Pyramid
03. ’88: Ethan Frome
04. ’89: The 1989 Musical Marching Zoo
05. ’90: Dreaming In Tetris
06. ’91: The Day I Finally…
07. ’92: Weird Diseases
08. ’93: Me And Fred And Dave And Ted
09. ’94: Haven’t Got A Penny
10. ’95: A Serious Mistake

CD 4
01. ’96: I’m Sad!
02. ’97: Eurodisco Trio
03. ’98: Lovers’ Lies
04. ’99: Fathers In The Clouds
05. ’00: Ghosts Of The Marathon Dancers
06. ’01: Have You Seen It In The Snow?
07. ’02: Be True To Your Bar
08. ’03: The Ex And I
09. ’04: Cold-Blooded Man
10. ’05: Never Again

CD 5
01. ’06: “Quotes”
02. ’07: In The Snow White Cottages
03. ’08: Surfin’
04. ’09: Till You Come Back To Me
05. ’10: 20,000 Leagues Under The Sea
06. ’11: Stupid Tears
07. ’12: You Can Never Go Back To New York
08. ’13: Big Enough For Both Of Us
09. ’14: I Wish I Had Pictures
10. ’15: Somebody’s Fetish


autor stipe07 às 09:52
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Domingo, 13 de Agosto de 2017

Vagabon - Infinite Worlds

Camaronesa de nascimento e a viver em Nova Iorque, Laetitia Tamko é, desde 2014, Vagabon, uma autora, cantora, multi-instrumentista e compositora que escreve canções que parecem servir para ilustrar uma multiplicidade de mundos e emoções com uma filosofia muito própria e que se amplia após sucessivas audições, tal é o vício que ela provoca em quem se deixa imbuir pela sua cartilha sonora e aceita abstarir-se de tudo aquilo que o rodeia enquanto a ouve, nomeadamente as oito canções de Infinite Worlds, o seu registo de estreia, editado já este ano à boleia da Father/Daughter Records.

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Amante da música tradicional camaronesa, mas também atualizada quanto às novas tendências indie, em Infinite Worlds Laetitia revela-nos, com enorme fluidez e expressividade, a singluridade do seu registo vocal e a sua luminosidade e clarividência instrumental e melódica, em canções que começaram a ver o seu arquétipo desenhado desde 2014, ano em que começou a fazer circular algumas demos, de modo físico e digital, por editoras independentes. Uma cassete intitulada Persian Garden viu mesmo a luz do dia nesse mesmo ano, via Miscreant Records, um compêndio lo-fi onde a autora plasmou, à boleia da guitarra e da voz, os fundamentos básicos da sua filosofia sonora, que agora, três anos depois, também chama a si o sintetizador e a bateria.

Assim, dentro de um indie rock pulsante e onde não falta uma curiosa toada punk, explicíta e gloriosamente inspirada em 100 Years, o que temos em Infinite Worlds são composições com uma energia muito própria e que acabam por exalar também, em determinados momentos, a herança identitária africana de Tamko, já que se debruçam sobre a mudança da família da autora dos Camarões para os Estados Unidos e o choque cultural e as dificuldades de adaptação de toda a prole à nova realidade civilizacional e, mais especificamente, da autora ao sistema escolar norte-americano. São temas repletos de colagens eletrónicas com elevada dose de hipnotismo, que são depois adornados por uma bateria intensa e riffs de guitarra rugosos, contrabalançados pela doçura e inocência da sua voz, como fica explícito logo no single Embers, mas que também mudam bruscamente de direção, para uma toada mais acústica e contemplativa como é o caso do piscar de olhos simultâneo ao R&B e ao rock progressivo em Fear & Force e que acabam também por conseguir, através de várias nuances interpretativas, oscilar entre estes dois universos. O mesmo sucede, numa outra abordagem, em Minneapolis, canção repleta de alterações de tonalidade e euforia, ao nível da eletrificação das cordas, mas também rítmicas.

De modo sujo e empoeirado e pleno de memórias de um passado marcante e feito de mudanças, notavelmente autoral na crueza sentimental e orgânica de Cleaning House, em Infinite WorldsVagabon acaba por fazer uma espécie de reciclagem tecnológica e estética de tudo aquilo que sonoramente a inspira, fazendo-o de modo intimista e natural e de modo a refletir não só uma vontade expressa de experimentar, mas principalmente de estabelecer a sua própria identidade, que também tem um lado solidário no modo como tenta ser uma voz de incentivo e de guia para todos aqueles que hoje precisam de sair do seu habitat natural para sobreviver ou realizar sonhos e acabam, com frequência, por se deparar com uma realidade que coloca mais obstáculos do que portas a uma vivência plena e realizada. As raparigas incomuns, que não são celebradas e as mulheres de cor, são, como referiu recentemente à Pitchfork, os seus principais alvos. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 16:30
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Sábado, 12 de Agosto de 2017

Said The Whale – Nothing Makes Me Happy (Feat. WILLA)

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Os Said the Whale de Vancouver, no Canadá, regressaram aos discos no início deste ano com As Long As Your Eyes Are Wide e agora, alguns meses depois, divulgam um novo single que não faz parte do alinhamento desse registo. A canção initula-se Nothing Makes Me Happy e foi escrita a meias pelo grupo e por Ali Milner, amiga da banda e que canta a coberto do nome WILLA.

Nothing Makes Me Happy é um festim luminoso de forte índole sintetizada, cerca de quatro minutos que mostram o som claramente um indie rock mas com pegadas de folk, country e muita pop, onde é possível a apreciar delicadas harmonias vocais, pianos, guitarras limpas e um imenso impressionismo na escrita de uma canção que se debruça sobre o modo como as gerações mais jovens vivem obcecadas e presas à tecnologia. Confere...


autor stipe07 às 10:34
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Quinta-feira, 10 de Agosto de 2017

Mura Masa - Mura Masa

No sul de Inglaterra, em pleno canal da Mancha, situa-se a minúscula ilha de Guernsey, terra natal de Alex Crossan, um músico nascido a cinco de abril de mil novecentos e noventa e seis e que desde muito cedo começou a utlizar a composição musical e o DJing como principal refúgio para a natural sensação de isolamento que sempre sentiu e de modo a materializar também um forte desejo de sair do meio do atlântico e passar viver em Londres. Ele assina a sua música como Mura Masa (nome de um sabre japonês) e estreou-se recentemente nos discos com um homónimo, editado à boleia da Polydor Records e que conta com várias participações especiais de relevo, nomeadamente Damon Albarn, Charli XCX e A$AP Rocky, entre outros.

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Produtor, compositor e multi-instrumentista, Alex Crossan começou a ser notado pela crítica quando em setembro do ano passado apresentou ao mundo Lovesick, um dos temas deste seu álbum de estreia e que conta com a voz de A$AP. A partir daí a ansiedade por novas canções por parte de uma já interessante legião de fãs foi aumentando até ficar finalmente satisfeita com estas treze canções que, do rap à eletrónica, passando pela pop ambiental, o hip-hop, o house tropical, o dubstep e o próprio jazz, abraçam uma multiplicidade de estilos e tendências sonoras que fazem deste Mura Masa um dos discos mais interessantes e multifacetados do momento. 

Caldo sonoro, mas também multicultural, Mura Masa tem instantes que nos incitam à pista de dança e a deixar extravasar o nosso lado mais libidinoso, que irá certamente deliciar-se com a batida afro de Nuggets ou o clima envolvente particularmente sensual do efeito metálico sintético que conduz All Around the World e outros em que predomina um clima de maior introspeção, com particular destaque para o intimismo de Blue, canção que ganha um charme muito próprio devido ao modo como as vozes de Alex e Albarn se entrelaçam. E este jogo entre estas duas vozes contém uma ainda maior simbologia porque encerra um disco que instrumentalmente, entre os vários estilos que cruzam as treze canções, acaba por firmar a atmosfera de um álbum que obriga-nos a esperar o inesperado e a ouvi-lo em constante sobressalto, excitados pela sensualidade de algumas letras e por nunca sabermos muito bem o que poderá vir a seguir. E um dos temas que mais me impressionou e fez-me crer que realmente o inesperado está sempre ao virar da esquina, foi Nothing Else! e a abordagem vocal algo minimalista mais impressiva de Jamie Lidell ao universo mais negro do r&b, o grande detalhe que sustenta a soul essa canção. Mas também merecem, na minha opinião, especial referência o cardápio instrumental sintético que trespassa o frenesim de Helpline e a luminosidade harmónica de Second 2 None.

Mura Masa plasma com particular eloquência e impressiva criatividade a míriade sonora que influencia o seu autor e leva-nos facilmente a admirar o mesmo pelo bom gosto com que navega de influência em influência e acaba, com essa viagem descomprometida, mas inspirada, por construir algo inédito e a sua própria marca sonora identitária, que faz de si um dos produtores mais interessantes da nova pop contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

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1.Messy Love
2. Nuggets (feat. Bonzai)
3. Love$Ick (feat. A$AP Rocky)
4. 1 Night (feat. Charli XCX)
5. All Around the World (feat. Desiigner)
6. give me the ground
7. What If I Go?
8. Firefly (feat. NAO)
9. Nothing Else! (feat. Jamie Lidell)
10. Helpline (feat. Tom Tripp)
11. Second 2 None (feat. Christine and the Queens)
12. Who Is It Gonna B (feat. A.K. Paul)
13. Blu (feat. Damon Albarn)


autor stipe07 às 14:09
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Quarta-feira, 9 de Agosto de 2017

DRLNG - Black Blue

Foto de Drlng Band.

Depois do extraordinário EP Icarus, editado em 2014, os DRLNG, uma banda de Boston formada por Eliza Brown (voz), Martin Newman (guitarras) e James Newman (baixo) das cinzas dos míticos Plumerai, têm lançado uma série de temas em formato single, sendo o mais recente Black Blue, uma canção que conta com as participações especiais de Danny Chavis nas guitarras e Hayato Nakao na programação, membros dos nova iorquinos The Veldt.
Black Blue são pouco mais de cinco minutos que apostam numa fusão do indie rock mais melancólico e sombrio com alguns detalhes da folk americana e da pop. A voz pura e límpida de Eliza é um trunfo explorado positivamente até à exaustão e que ganha um realce ainda maior quando as guitarras algo turvas de Martin têm a capacidade de proporcionar uma aúrea algo mística e ampliada, não só à voz de Eliza, como também, no fundo, à própria mensagem da canção.
Nesta composição conseguimos dissecar diferentes vias e infuências, já que, ao mesmo tempo que há uma paisagem sonora que transparece calma e serenidade, também existe na guitarra uma tensão constante, numa melodia amigável e algo psicadélica, que se arrasta até ao final num longo diálogo entre o efeito metálico e diferentes dinâmicas percussivas.
Quer Black Blue, quer os dois singles já editados antes deste, See It All e Cobra, estão disponíveis para audição e download na plataforma bandcamp do projeto.Confere...


autor stipe07 às 02:16
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Terça-feira, 8 de Agosto de 2017

Fink – Cracks Appear

Fink - Cracks Appear

Três anos depois do excelente álbum Hard Believer, o projeto Fink de Fin Greenall (voz, guitarra), um músico britânico com quarenta e cinco anos, natural de Bristol e que, deambulando entre Londres e Berlim, vai-se destacando não só como músico, mas também como compositor e produtor para outros projetos, está de volta com Resurgam, dez canções que vão ver a luz do dia em setembro próximo.

Cracks Appear é o primeiro tema divulgado de Resurgam, uma composição que tem por base uma bateria e umas teclas impregnadas de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de uma guitarra eletrificada Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco que, apesar de um aparente maior arrojo pop relativamente a Hard Believer, será essencialmente acústico, vincadamente experimental e claramente dominado por cordas com uma forte toada blues.

O título deste novo disco de Fink é inspirado numa inscrição de origem latina que Greenall encontrou numa igreja quase milenar de Cornwall, sua cidade natal e cujo espírito e significado faz-se sentir, transversalmente, ao longo de todo o alinhamento, produzido pelo carismático Flood (PJ Harvey, U2, Foals, Warpaint, The Killers) e gravado nos estúdios Assault & Battery Studios, que este produtor partilha com Alan Moulder no norte de Londres. Confere...


autor stipe07 às 00:11
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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

Belle And Sebastian – We Were Beautiful

Belle And Sebastian - We Were Beautiful

Os escoceses Belle & Sebastian parecem já ter sucessor para o aclamado álbum Girls In Peacetime Want To Dance, um disco editado pela banda no início de 2015 e que tendo sido produzido pelo aclamado  Ben H. Allen (Animal Collective, Washed Out), estava recheado de versos confessionais que falam da infância do vocalista e da necessidade que muitas vezes sentimos de regressar às origens para dar um novo impulso à nossa existência.

Gravado em Glasgow, cidade-natal da banda, e produzido pela própria juntamente com Brian McNeill, We Were Beautiful é o novo tema divulgado pelo quarteto, uma canção que conduz-nos de volta ao indie pop mais orelhudo, com aquele requinte vintage que revive os gloriosos anos oitenta e que, por isso, é uma excelente porta de entrada para um futuro alinhamento que será, certamente, instrumentalmente irrepreensível. Confere...


autor stipe07 às 14:33
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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

Arcade Fire - Everything Now

Quase quatro anos depois do excelente Reflektor e de dois discos a solo de Will Butler, os canadianos Arcade Fire aproveitaram a tomada de posse de Donald Trump e os seus devaneios para apresentarem ao mundo o seu novo álbum, mais uma inflexão sonora no rumo delineado pelo projeto no disco anterior e, tematicamente, também um claro manifesto político e de protesto claro, parece-me, ao novo rumo tomado pelo país vizinho, além da já habitual abordagem sociológica aos novos dilemas da contemporaneidade de cariz mais urbano e tecnológico em que a dita sociedade ocidental mais desenvolvida vive.

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Apesar do groove punk de Infinite Content, a primeira premissa que me parece clara após a audição deste Everything Now é a certeza de que os Arcade Fire estão cada vez mais distantes do rock impetuoso dos primórdios. Se no anterior Reflektor o grupo ofereceu-nos um trabalho mais acessível e direto que os antecessores, conseguindo manter o habitual encanto algo misterioso e místico que sempre marcou os discos desta banda canadiana, mas longe de funerais, da poesia barroca e de histórias de subúrbios, definindo-se pela vontade de fazer algo diferente e pôr-nos a dançar, desta vez, com a pista de dança ainda em ponto de mira e a manutenção da tonalidade da escrita de Butler e Chassagne, acabamos por, em vários momentos, nomeadamente em Peter Pan, darmos por nós naquele limbo onde, há mínima escorregadela, podemos cair para um lado mais obscuro e depressivo. 

Seja como for, os Arcade Fire apostam, definitivamente, na preponderância de sonoridades luminosas, com o formato eminemtemente pop a ser definitivamente relegado para primeiro plano e com o grupo a ter uma nova aúrea, completamente remodelada, mas sem deixar de lado como já referi, o rock, impecavelmente passado a lustro nas guitarras e na tonalidade aguda de Régine que acompanham a batida eletro do discosound setentista de Signs Of Life, mas também no efeito metálico que dá brilho à soul de Electric Blue e, com laivos de epicidade eletrónica extrema, no fuzz oitocentista de Creature Comfort. Depois, esta espécie de revisitação catálogo da história do rock nos últimos trinta anos, no seu formato mais pop, visita a obra de gigantes como David Bowie no toque de distinção dado pela percurssão em God Good Damn ou os U2 no rock de arena de Put Your Money On Me. As cançoes que acabam por suscitar uma aproximação evidente a ambientes mais nativos são, na minha opinião, o tratado de world music chamado Chemistry e Peter Pan, com a primeira a ir beber aos ares do caribe e a segunda a destacar-se pela fantástica percussão e pelos ritmos quentes e africanos.

Everything Now talvez seja a sequência musical mais arriscada da carreira dos Arcade Fire, já que não encontra quase paralelo nos trabalhos anteriores, excepto na tal abordagem a um clima mais pop à semelhança do antecessor e a permanência do típico ambiente quase religioso que a escrita das canções ainda criam, desta vez com a tal vertente política também muito presente. Com períodos introspetivos e outros de plena exaltação, é um disco altamente preciso e controlado, pensado ao mínimo detalhe e que podendo, para muitos fãs, não ir ao encontro das enormes expetativas que sobre ele recaiam, é, no entanto, na minha opinião, mais um salto qualitativo em frente na carreira dos Arcade Fire, principalmente por ter colocado, mais uma vez um enorme ponto de interrogação nos fãs e apreciadores da banda relativamente ao futuro sonoro do grupo. Espero que aprecies a sugestão...

Arcade Fire - Everything Now

01. Everything_Now (Continued)
02. Everything Now
03. Signs Of Life
04. Creature Comfort
05. Peter Pan
06. Chemistry
07. Infinite Content
08. Infinite_Content
09. Electric Blue
10. Good God Damn
11. Put Your Money On Me
12. We Dont Deserve Love
13. Everything Now (Continued)


autor stipe07 às 15:00
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Quarta-feira, 26 de Julho de 2017

Waxahatchee - Out In The Storm

Acaba de chegar aos escaparates à boleia da Merge Records, Out In The Storm, o novo álbum do projeto Waxahatchee de Katie Crutchfield, sucessor do excelente Ivy Tripp (2015), dez canções produzidas por John Agnello e pela própria Katie e que lançam definitivamente este quarteto feminino nas enigmáticas profundezas de um indie rock de forte pendor lo fi, muito próximo de algumas das melhores propostas que surgiram dentro desse espetro sonoro em finais do século passado.

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A presença de John Agnello na produção deste disco, um génio que já colocou as unhas em álbuns dos Sonic Youth, terá contribuido decisivamente para o ambiente sonoro de um disco que logo em Never Been Wrong expõe muitos dos seus atributos; riffs de guitarra que têm tanto de explosivo como de melódico, quebras e alterações rítmicas constantes e um baixo que não se coibe de mostrar fulgor e, muitas vezes, de assumir, solitariamente, a condução melódica de parte das canções.

Terceiro álbum dos Waxahatchee, Out In The Storm exala, assim, um elvado despudor relativamente a convenções estilísticas ou cuidados ao nível sonoro que busquem a limpidez e o polimento. Em 8 Ball, mesmo que exista um dedilhar de cordas mais luminoso em certos instantes, o baixo anda sempre por ali, a debitar uma salutar sujidade e as constantes acelerações e paragens da bateria fazem adivinhar que a qualquer momento poderá acontecer uma qualquer explosão sónica, carregada de riffs e distorções. A seguir, a batida seca e frenética da bateria de Silver, a eletrificação constante da guitarra e um registo vocal ecoante, cimentam ainda mais a impressão inicial de este ser um disco de pura essência rock, comandado por espíritos livre de arquétipos, mas também contestatários no modo como parecem querer rebelar-se contra a tendência atual de criar discos que tenham sempre na linha da frente uma perspetiva puramente radiofónica em detrimento de uma condução criativa que obedeça em primeiro lugar, aos gostos pessoais e à veia criativa dos artistas.

Percebe-se que estas Waxahatchee não se regem pelo convencional, mas apenas por uma espécie de informalidade criativa e que, ao contrário do que sucede muitas vezes, não exala um exacerbado experimentalismo, já que os temas são, na sua essência, sempre muito diretos, mesmo quando no pós punk de Recite Remorse e na suavidade acústica de A Little More e de Sparks Fly, numa abordagem eminentemente clássica, calcorreiam territórios mais ambientais, ou no baixo impulsivo de Hear You e na guitarra rebarbante de No Question existe uma notória abordagem ao rock de cariz mais progressivo, ruidoso e monumental.

Enganadoramente simplistas, as Waxahatchee oferecem-nos neste Out In The Storm uma saudável espontaneidade, num alinhamento alicerçado em belíssimas letras entrelaçadas com deliciosos acordes e melodias construídas com os típicos instrumentos do indie rock tipicamente lo fi. Estas evidências desarmam completamente as Waxahatchee de todo aquele mistério, tantas vezes artificial, em que muitas bandas femininas apreciam se envolver, para mostrarem, com ousadia, a verdadeira personalidade destas quatro intérpretes genuinas e preciosas. Espero que aprecies a sugestão...

Waxahatchee - Out In The Storm

01. Never Been Wrong
02. 8 Ball
03. Silver
04. Recite Remorse
05. Sparks Fly
06. Brass Beam
07. Hear You
08. A Little More
09. No Question
10. Fade


autor stipe07 às 16:56
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Terça-feira, 25 de Julho de 2017

Toro Y Moi - Boo Boo

Toro Y Moy é o extraordinário projeto a solo de Chazwick Bundick, um músico e produtor norte americano, natural de Columbia, na Carolina do Sul e um dos nomes mais importantes do movimento chillwave atual, fruto de uma curta mas intensa carreira, iniciada em 2009 e onde tem flutuado num oceano de reverberações etéreas e essencialmente caseiras. Sempre em busca da instabilidade, o produtor conseguiu no experimental Causers of This, de 2010, compilar fisicamente algumas das suas invenções sonoras e esse disco tornou-se imediatamente numa referência do género musical acima citado, ao lado de trabalhos como Life of Leisure dos Washed Out e Psychic Chasms de Neon Indian.

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Depois dessa estreia auspiciosa, no ano seguinte, em 2011, surgiu Underneath The Pine, o sucessor e a leveza da estreia amadureceu e ganhou contornos mais definidos,com vozes transformadas e diferentes camadas sonoras sobrepostas, ficando claro que, a partir desse instante, Toro Y Moy ficaria ainda mais íntimo da pop, mas sem abandonar as suas origens. A psicadelia, o rock e a eletrónica começaram a surgir, quase sempre numa toada lo fi, nascendo assim as bases de Anything In Return, o terceiro disco de Chazwick, lançado no início de 2013. Dois anos depois chegou What For?, o quarto tomo da sua carreira, a piscar o olho ao hip hop e ao R&B mais retro, assim como ao discosound dos anos oitenta, fruto da sua relação musical com Tyler The Creator e Frank Ocean, e agora, o capítulo mais recente desta saga sonora é Boo Boo, um tomo de doze canções lançado a sete de julho através da Carpak Records e que além de aprofundar uma já cimentada curiosa relação com a eletrónica, também muito presente no seu outro projeto paralelo intitulado Les Sins, também olha com particular ênfase para territórios um pouco mais ambientais e um pouco cósmicos, como se percebe logo nos flashes sintetizados que rodeiam a batida e o baixo de Mirage.

Disco que transmite uma falsa sensação de minimalismo, já que é vasta a míriade instrumental que o sustenta é, em muitos instantes, pouco percetível, Boo Boo convivepacificamente com a filosofia sonora que acompanha a tendência atual de quem se dedica a este espetro sonoro que é olhar para as raízes deixadas noutros tempos e readaptá-las, dando-lhes uma nova roupagem, mais moderna e que acompanhe a evolução tecnológica. Assim, se nos teclados fluorescentes e nas oscilações rítmicas de Monalisa ou no requinte melancólico com que em You And I, Toro Y Moi nos dá as mãos, para nos levar com ele rumo às profundezas de um imenso oceano de hipnotismo e letargia, com elevada carga poética, percebe-se o olhar curioso para os anos oitenta, mas de um ponto de vista bastante contemporâneo, já nos ecos de Pavement ou no efeito do baixo de Show, Toro Y Moi procurou perservar o mais intacta possível a essência vintage que o inspirou. Depois, pérolas como o fuzz vocal particularmente assertivo e o ambiente cinematográfico que escorre do doce mel minimal a que sabe a percussão sintetizada de Windows e de Labyrinth e o charme sedutor e intrigante do piano de Girl Like You, conferem ao disco uma fulgor e uma essência intensamente pop, mas fazendo-o de modo a convocar para uma espécie de orgia encapotada outros sub-géneros deste género sonoro.

Boo Boo é um disco onde tudo se sustenta de maneira adulta, como se o R&B de Frank Ocean e até detalhes de veteranos como Prince se derretessem no meio de sintetizadores e batidas irregulares, comprovando, uma vez mais, a força de Bundick e um fôlego renovado no modo como este artista estabelece uma multiplicidade de novos caminhos, testando sonoridades e experimentações sem recear ser apontado de ser uma espécie de terrorista sonoro. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Mirage
02. No Show
03. Mona Lisa
04. Pavement
05. Don’t Try
06. Windows
07. Embarcadero
08. Girl Like You
09. You and I
10. Labyrinth
11. Inside My Head
12. W.I.W.W.T.W.


autor stipe07 às 14:35
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