Terça-feira, 24 de Maio de 2016

Damien Jurado - Visions Of Us On The Land

Lançado no passado mês de março pela Secretly Canadian, Visions Of Us On The Land é o novo compêndio de canções do norte americanos Damien Jurado e encerra uma trilogia iniciada em 2012 com Maraqopa, disco ao qual se seguiu Brothers and Sisters of the Eternal Son, dois anos depois.  Este Visions Of Us On The Land foi  produzido por Richard Swift e confirma Damien Jurado como um dos nomes fundamentais da folk norte americana e um dos artistas que melhor tem sabido preservar algumas das caraterísticas mais genuínas de um cancioneiro que dá enorme protagonismo ao timbre acentuado e rugoso das cordas para dissertar crónicas de uma América profunda e muitas vezes oculta, não só para os estrangeiros, mas também para muitos nativos que desde sempre se habituaram à rotina e aos hábitos de algumas das metrópoles mais frenéticas e avançadas do mundo, construídas num país onde ainda é possível encontrar enormes pegadas de ancestralidade e que inspiram calorosamente Jurado.

Este Visions Of Us On The Land é, portanto, uma homenagem profunda aquela América feita de índios e cowboys, mas também de pioneiros, viajantes e exploradores, uma narrativa vibrante onde vozes e instrumentos compôem um painel muito impressivo que nos permite viajar no tempo. E nessa demanda podemos ir até às montanhas rochosas do Utah, à neve do Alasca, ao sol da Califórnia e ao pó do deserto texano ou aos desfiladeiros de Yellowstone, à medida que apreciamos descrições vivas e intensas de cenários que muitas vezes só vemos em filmes.

Assim, e citando alguns dos instantes mais impressivos de um alinhamento que é, no seu todo, um retrato vivo, se Mellow Blue Polka Dot nos coloca bem no centro de um acampamento índio, já o rock psicadélico setentista de Lon Bella senta-nos ao volante de um descapotável em plena Route 66, sem destino fixo, enquanto QACHINA deixa-nos apreciar deslumbre paisagístico de montanhas verdejantes, com fontes de água pura ainda intactas e onde ursos, águias, lobos e veados coabitam pacificamente, sem nunca terem sentido a presença humana.

O alinhamento prossegue e não há como evitar uma enorme sensação de conforto ou esconder o sorriso perante o excelente registo vocal que conduz ONALASKA, o êxtase percussivo carregado de sol da inebriante Walrus, a majestosidade melódica de Exit 353, a cândura e a inocência de Queen Anne ou o aconchegante dedilhar da viola da noturna e introspetiva On The Land Blues, outros exemplos da excelência de um disco que, sendo já o décimo segundo da carreira de Damien Jurado, é um dos momentos maiores da sua carreira, pricncipalmente pelo modo como este músico se coneta com o solo que diariamente pisa e o honra e preserva, mostrando-nos, numa jornada evocativa, o melhor que tem e que sente pelo seu país. Espero que aprecies a sugestão...

Damien Jurado - Visions Of Us On The Land

01. November 20

02. Mellow Blue Polka Dot
03. QACHINA
04. Lon Bella
05. Sam And Davy
06. Prisms
07. ONALASKA
08. TAQOMA
09. On The Land Blues
10. Walrus
11. Exit 353
12. Cinco De Tomorrow
13. And Loraine
14. A.M. AM.
15. Queen Anne
16. Orphans In The Key Of E
17. Kola


autor stipe07 às 21:29
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Terça-feira, 17 de Maio de 2016

The Weatherman - Eyeglasses for the masses

Gravado nos estúdios Hertzcontrol em Caminha por Marco Lima, produzido pelo próprio e por e Alexandre Almeida, e misturado nos SoundHill Studios no Porto por João André, Eyeglasses For The Masses é o quarto e novo registo de originais de The Weatherman, o pseudónimo artístico criado em 2006 pelo multi-instrumentalista portuense Alexandre Monteiro e um projecto pop rock versátil e multifacetado, cujo universo pop e psicadélico nos remete para um mundo sonoro onde reina a nostalgia dos anos sessenta e onde nomes como os The Beatles, claramente audíveis na cândura de Now & Then, ou os Beach Boys, homenageados a preceito em Endless Expectations, são referências incontornáveis, além de algumas marcas identitárias da pop e da eletrónica atual.

Masterizado em Los Angeles pela mão do galardoado Brian Lucey (Artic Monkeys, Black Keys, The Shins, Beck, Sigur Ros, entre outros), Eyeglasses For The Masses assinala uma década de carreira de um músico que sempre demonstrou ser um inspirado e comovente escritor de canções e que, desta vez, quis, de acordo com o press release do lançamento, mover tudo e todos com o poder de uma grande canção. De facto, apoiado pela enorme mestria com que manipula, principalmente, as teclas de um piano, The Weatherman dá-nos a mão e convida-nos a penetrar sem hesitações num disco que faz de nós, inicialmente estranhos numa terra estranha, acabados de chegar ou prontos para partir, num alinhamento que funciona como um campo de sacos cheios de memórias onde a vida se refugia ou fica presa, quando o amor nos resolve pregar, mais uma vez, uma enorme partida.

Tal como esse amor, esta é uma viagem empolgante, onde tudo começa e acaba, instigados pela motivação de canções tão felizes como All The In Between e outras capazes de manipular a nossa mente fragilizada e entorpecida para o lado mais positivo da existência humana, algo que sucede intuitivamente a quem se deixar embrenhar pela monumentalidade instrumental de A Kind Of A Bliss, canção que nos oferece uma sensação de liberdade incomensurável, com o bónus de expirar do nosso âmago toda a cegueira, vertigem, ou abismo, que a solidão tantas vezes nos proporciona.

Parece-me que para quem recentemente ficou só e sente medo que essa fatalidade se prolongue no tempo, algo que nem sempre está nas nossas mãos evitar, este é um álbum que pode indicar pistas seguras para que tal não suceda e que nos pode mostrar o que há do outro lado do vidro que reflete a nossa existência, agora algo perdida. Se tantas vezes nos esquecemos que aquilo que é esta fragilidade que é visível, principalmente aos outros, pode ser apenas aparente, o grito de esperança que desembrulhamos em Unpack My Mind, mostra-nos que muitas vezes depende da nossa força interior o encontro, ou não, de uma nova felicidade, que tantas vezes, por conformismo ou pessimismo, julgamos inatingível.

Mesmo que o ideário global do autor, ao idealizar Eyeglasses For the Masses, não tenha tido esta premissa de busca e reencontro do lado mais positivo e colorido da existência e da felicidade, não há como resistir a esse forte apelo, algumas vezes bastante emotivo, em onze canções onde se cruzam pessoas e factos reais, que nos ensinam que há escolhas que dependem exclusivamente de nós e que nunca devemos condicionar o nosso acesso ao amor devido à nossa religião, estatuto social ou género. One Of These Days, tudo ficará novamente no sítio certo, nem que isso signifique a nossa vida precise de ser completamente virada do avesso. Espero que aprecies a sugestão...

At The In Between

To The Universe

A Kind Of Bliss

Now & Then

Eyeglasses For The Masses

Endless Expectations

Unpack My Mind

Ice II

One Of These Days

Good Dreaming

Call All Monkeys (bonus track)


autor stipe07 às 21:22
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Quarta-feira, 11 de Maio de 2016

Joana Barra Vaz - A Demora

Depois de Tanto Faz, o primeiro single divulgado de Mergulho Em Loba, o próximo disco de Joana Barra Vaz, que deverá ver a luz do dia lá para setembro, A Demora é o novo tema divulgado por esta cantora e compositora, ao mesmo tempo que nos é dado também a conhecer o vídeo, realizado em conjunto com Maria João Marques. 

A Demora é um lindíssimo tema, que se destaca pelo ambiente aconchegante e acolhedor proporcionado pela indulgência das cordas, cujos arranjos se passeiam exuberantemente em redor da melodia e de um registo vocal belo e envolvente. A canção foi gravada entre os Estudios Iá e na SMUP e conta com pré-produção e arranjos de David Pires, da própria Joana Barra Vaz e da banda F l u me, tendo sido produzido por Luís Nunes e pela autora. Confere...

 


autor stipe07 às 22:40
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Domingo, 8 de Maio de 2016

Astronauts - End Cods

Astronauts é um projeto musical encabeçado pelo londrino Dan Carney e que se estreou em pleno 2014 com Hollow Ponds, a extraordinária primeira etapa da nova vida musical de um músico e compositor que fez carreira nos lendários Dark Captain, que se destacaram com o belíssimo Dead Legs & Alibis e que se dedicou a essas dez canções num período particularmente conturbado da sua vida pessoal. Hollow Ponds viu a luz do dia por intermédio da Lo Recordings e tem já, finalmente, sucessor. End Cods é o título do novo registo de originais de Astronauts, onze fabulosas canções que viram a luz do dia a seis de maio último, também à boleia da Lo Recordings e que nos oferecem uma filosofia sonora muito própria, onde intensidade sentimental e sobriedade instrumental se juntam, para permitir que, ao longo da sua audição, nos possamos sentir profundamente tocados por uma nobreza única, que arrebata e salpica com suores quentes todos os poros do nosso ser.

Astronauts é um nome feliz para um projeto que servindo-se de uma instrumentação orgânica bem real e terrena, ao ser tocada por Dan Carney, parece inspirar-se num universo exterior, sendo possível imaginar o autor a tocar devidamente equipado com um fato hermético que lhe permite transmitir uma simultaneamente implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica.

As cordas que conduzem a magnificiência melódica de Recondition e o clima intenso, implacável e imersivo de Civil Engineer, são uma solarenga porta entreaberta para este End Codes, que prossegue, penetrando pelos ouvidos e flutuando por todas as células do nosso corpo, encarnando uma simbiose única entre ouvinte e interlocutor, caso o primeiro tenha um coração limpo e aberto a deixar-se envolver por aquela causa maior que é o amor, o eixo principal da temática lírica destes temas abolutamente inebriantes.

A indulgente percussão que abraça uma rugosa melancolia em Dead Snare, os efeitos metálicos sibilantes, as cordas que se passeiam exuberantemente em redor da melodia e um registo vocal em falsete belissimamente acompanhado por coros envolventes, de You Can Turn It Off, canção que se abriga à sombra de uma folk etérea de superior calibre, reservada e contida na medida certa, mas inultrapassável no caudal de emoções que arrasta à sua passagem, são mais duas excelentes rampas de lançamento para acedermos à dimensão superior onde Astronauts nos senta e dois pilares na sensação qusse carnal de que este disco é, claramente, uma daquelas preciosidades que devemos guardar com carinho num cantinho especial do nosso coração.

End Codes é já um marco discográfico neste ano, concebido, idealizado e suspirado por um músico que merece, com inatacável evidência, que a pureza e altivez de sentimentos que reflete nas suas canções, tão doce e meiga na despedida que todos experimentamos uma vez na vida e que recordamos sem esforço em When It's Gone, sejam absorvidos, contemplados e experimentados fisicamente pelo maior número possível de ouvintes.

Dan Carney é um mestre da introspeção que todos precisamos de fazer periodicamente, aquela que resulta porque vai direita ao âmago, de punhos cerrados, com garra e fibra, sem falsos atalhos e cansativos clichês. Além de refletir sabiamente sobre o mundo moderno, Astronauts fá-lo materializando os melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, tornando-nos novamente cúmplices das suas angústias e incertezas, enquanto sobrepõe texturas, sopros e composições contemplativas, que criam uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades e um refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual. Espero que aprecies a sugestão...

Astronauts - End Codes

01. Recondition
02. Civil Engineer
03. Dead Snare
04. You Can Turn It Off
05. A Break In The Code, A Cork In The Stream
06. When It’s Gone
07. Split Screen
08. Hider
09. Breakout
10. Newest Line
11. Skeleton


autor stipe07 às 14:23
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Sexta-feira, 6 de Maio de 2016

The Loafing Heroes - The Baron in the Trees

Com a tenda montada em Lisboa mas com músicos oriundos de diferentes países e proveniências, os The Loafing Heroes são um encontro internacional de ideias musicais de vários países liderado pelo vocalista e guitarrista Bartholomew Ryan (Irlanda), ao qual se juntam Giulia Gallina (Itália) na voz e concertina, João Tordo (Portugal) no contrabaixo, Judith Retzlik (Alemanha) no violino, xilofone e trompete, Jaime McGill (Estados Unidos) no clarinete baixo, e João Abreu (Portugal) na percussão. Hoje chegou aos escaparates The Baron in the Trees, o quinto registo de originais do cardápio do projeto, doze canções buriladas durante dois anos e que misturam lindos poemas com pop, folk, world music e até alguns detalhes típicos da música dita mais erudita e pitadas de blues e jazz, detalhes que se abastecem de uma voz sentida, dedilhares de cordas vibrantes e emotivos, sopros sublimes e a percussão, o contrabaixo e o violino a darem substância e cor às melodias.

A curiosa explicação para o nome deste projeto foi divulgada pelos próprios numa excelente entrevista que podes conferir logo após esta crítica e baseia-se nos loafing heroes de Milan Kundera, heróis errantes que têm direito a tal distinção por serem pessoas que vivem a vida com aparente vulgaridade, mas que vão-se fortalecendo e orientando a sua demanda terrena através de valores comuns e que entroncam no sentimento maior chamado amor.

Num disco abissal, produzido pelo berlinense Tad Klimp, canções como a meiga Loyal To Your Killer, a feminina Gypsy Waltz e a enleante e sedutora Gates Of Gloom, assim como a narrativa impressiva que conduz God's Spies ou a imensidão épica que exala de um espantoso edifício sonoro, simultanamente conciso e onírico, chamado Javali, que abriga um homem só, que ajudado por uma maravilhosa guitarra, murmura sobre o fim do amor, debruçam-se em histórias que podem ser apropriadas por todos nós, já que além desse sentimento maior, também abarcam o tema da perda e da regeneração constante do ser humano, conforme afirmam os próprios The Loafing Heroes, que não esquecem a escrita de nomes tão díspares como Calvino ou Pessoa como outros exemplos inspiradores.

Escutar The Baron In The Trees, um disco melodicamente bastante sedutor, é descobrir um magnífico psicotrópico mental verdadeiramente eficaz e aditivo, sem falsos pressupostos, intenso e genuíno. O seu alinhamento tem um valor natural e genuíno e não precisa de uma análise demasiado profunda para o percebermos, até porque um dos seus grandes atributos, enquanto disco, é não ser demasiado intrincado ou redundante no que concerne aos arranjos e ao arsenal instrumental de que se serve, algo que só demonstra a relevância destes The Loafing Heroes no universo nacional atual, um coletivo em constante mutação, que regressou em grande, com contemporaneidade, consistência e excelência. Espero que aprecies a sugestão...

O Outro Lado

Gypsy Waltz

Collapsing Star

Crossing Roads

Nightsongs

Loyal To Your Killer

Gates Of Gloom

Rag & Bone

Caitlin Maude

Soul

God's Spies

Javali

Antes de nos debruçarmos com algum cuidado no conteúdo de The Baron In The Trees, o vosso novo registo discográfico, começo com uma questão clichê… Como é que nasceu este projeto, já com vários discos em carteira, com músicos de diferentes origens e tão cosmopolita?

Não é o primeiro registo... a banda já tem cinco discos! A banda surgiu quando o vocalista e compositor principal, Bartholomew Ryan, estava na Dinamarca – juntou-se com outros músicos e formaram os Loafing Heroes, banda de inspiração errante, vagabunda, com variadíssimas formações até chegar à formação que tem hoje. Depois passou por Berlim e, finalmente, Lisboa, onde toca com uma italiana, um português, uma alemã, um inglês, uma americana...o projecto nasceu da vontade de fundir música com poesia e literatura, a inspiração vem de Milan Kundera, que fala dos “loafing heroes” de outrora, heróis que erram pela vida sem propósito aparente, assimilando tudo.

Com canções que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da folk, mas onde não faltam pitadas de blues e jazz e que se abastecem de uma voz sentida, dedilhares de cordas vibrantes e emotivos, sopros sublimes e a percussão, o contrabaixo e o violino a darem substância e cor às melodias, The Baron In The Trees é, na minha opinião, uma coleção de canções particularmente inspirada. Que tipo de anseios e expetativas criaram para este novo passo do vosso já notável percurso?

Algum anseio, alguma expectativa, mas quase nenhuma, isto é, sabemos que temos canções muito bonitas mas também sabemos que o mundo está “saturado” de informação, que há milhões de bandas por aí fora e que é difícil “quebrar” o mainstream e fazer música como nós fazemos – bonita, simples nas harmonias mas complexa nos arranjos, música que parece vir de outro tempo mas “aterra” em 2016 sem necessidade de ser cool, hip ou trendy. Por isso as expectativas não são de grandes sucessos nem de aplauso constante, mas de irmos encontrando aqueles que se identificam connosco neste caminho e de ir fazendo música que toque o coração das pessoas, inspirada pelos grandes prosadores e contadores que a humanidade conheceu – de Italo Calvino a Fernando Pessoa, tudo vai passando por aqui.

Olhando um pouco para a lírica das canções, predomina a escrita na primeira pessoa e, também por isso, parece-me ter havido uma opção pouco ficcional e quase autobiográfica, em vez da criação, na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais os The Loafing Heroes nunca teriam à partida de se comprometer. Acertei na mouche ou o meu tiro foi completamente ao lado?

Há elementos naturais e reais e outros ficcionados. As canções contam muitas histórias, quase todas elas relacionadas com o tema da perda e da regeneração constante do ser humano. O álbum anterior, Crossing the Threshold, apontava neste sentido: uma fronteira atravessada e um novo começo, no limiar de uma descoberta sobre o amor, os outros, o nosso destino no mundo. As histórias contadas vêm complementar estes temas abundantes na nossa música. Sim, há personagens – como o solitário em “Javali” que denuncia o fim do amor, ou a enigmática personagem feminina em Gypsy Waltz, que tenta seduzir um homem para o enfeitiçar; ou alguém perdido numa floresta, em “Soul”, acometido do vazio existencial e prestando atenção aos animais que encontra; mas todas estas histórias cabem na Grande História humana, a da procura de sentido.

Confesso que o que mais me agradou na audição de The Baron In The Trees foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma riqueza e uma exuberância ímpares. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, aquilo que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final, ou houve alterações de fundo ao longo do processo? Em que se inspiraram para criar as melodias?

As melodias foram sendo construídas ao longo de dois anos, dois anos e meio. O produtor, Tad Klimp, que veio de Berlim para fazer o disco, teve muita influência nesta riqueza e subtilieza do disco, que nos parece muito bonito mas sem ser excessivo – tudo está na conta certa. Foi isto em que pensámos inicialmente? Sim, sabíamos que tínhamos músicos tecnicamente excepcionais e outros músicos que, sem ser de excepção, têm uma sensibilidade muito própria para temas folk e indie, muito identificados com a banda. É uma mistura curiosa de instinto e técnica o que produz esta arte muito particular dos Loafing Heroes. Não somos uma banda normal nesse sentido – o que fazemos é raro porque mistura arte, técnica, literatura e orquestrações cuidadas, tudo dentro da estética folk que podia vir directamente do final dos anos 60.

Sempre senti uma enorme curiosidade em perceber como se processa a dinâmica no processo de criação melódica. Numa banda com vários elementos, geralmente há sempre uma espécie de regime ditatorial (no bom sentido), com um líder que domina a parte da escrita e, eventualmente, também da criação das melodias, podendo os restantes músicos intervir na escolha dos arranjos instrumentais. Como é a química nos The Loafing Heroes? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou um de vocês domina melhor essa componente?

Há um “elemento dominador”, o Bartholomew Ryan, que escreve a grande parte das canções e portanto vamos trabalhando a partir das estruturas que ele envia para todos os outros. Mas há canções que surgiram de ensaios, como “Javali”, por exemplo, que partiu de um riff de guitarra muito simples e foi construída a partir daí; ou Caitlin Maude, que a Giulia Gallina inventou ao piano e, no disco, surge sobre outra forma. Há um lado espontâneo, sim, cada vez mais, e menos “dependência” de um único criador, mas continua a ser um trabalho mais de laboratório do Bartholomew, por vezes, e um trabalho de banda, por outras.

Adoro a canção Javali, um longo tema que sabe a despedida, cheio de nuances e com uma guitarra que me encheu as medidas. E o grupo, tem um tema preferido em The Baron In The Trees?

Sim, todos concordamos que essa é a nossa preferida: Javali. Teve uma geração espontânea dentro do grupo e todos adoramos a canção. Representa este álbum na perfeição.

The Baron In The Trees foi produzido pela própria banda, com o apoio de Tad Klimp. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?

Depois do último álbum, que tinha sido de estúdio, decidimos que íamos gravar em casa – o produtor, Tad Klimp (um génio!) foi “marcado” com um ano de antecedência. E  a gravação foi muito bonita, tudo feito em casa com aparelhos vintage dos anos 70, microfones antigos, etc. Daí o som tão bonito do álbum.

Para terminar, em relação à apresentação e divulgação de The Baron In The Trees, onde podemos ver os The Loafing Heroes a tocar num futuro próximo?

Musicbox no dia 6 de Maio, FNAC Oeiras no dia 7 de Maio e NOS Alive no dia 8 de Julho!


autor stipe07 às 21:24
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Terça-feira, 3 de Maio de 2016

The Weatherman realiza concerto para macacos

A mostrar 1.pngA mostrar 1.pngNo próximo dia dezasseis de maio vai acontecer no jardim zoológico da Maia um concerto que terá tanto de inusitado como de imperdível. The Weatherman, o pseudónimo artístico criado em 2006 pelo multi-instrumentalista portuense Alexandre Monteiro e um projecto pop rock versátil e multifacetado, está de regresso aos discos com Eyeglasses for the Masses, um álbum editado a vinte e nove de Abril e que será alvo de crítica neste espaço muito em breve e vai tocar nesse espaço com um propósito muito especial.

(pic by Morsa)

Um dos singles de Eyeglasses for the Masses é Calling all Monkeys e, de acordo com o press release do evento, The Weatherman irá tocar para os macacos que vivem nesse espaço com a intenção declarada de chamar a atenção para os erros da Humanidade,(...) e apontar falhas à nossa demanda que perspectiva o mundo enquanto sítio melhor. Este evento será transmitido em directo no canal de Youtube do músico.

The Weatherman estreou-se nos lançamentos discográficos em 2006 com Cruisin’ Alaska, ao qual se sucedeu Jamboree Park at the Milky Way (2009), e um homónimo, em 2013, antes deste Eyeglasses for the Masses, um trabalho que nos remete para um universo pop e psicadélico, diversificado e versátil, onde reina a nostalgia dos anos sessenta e onde nomes como The Beatles ou Beach Boys são referências incontornáveis, além de algumas marcas identitárias da eletrónica atual.


autor stipe07 às 14:03
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Sábado, 30 de Abril de 2016

Band Of Horses – Casual Party

Band Of Horses - Casual Party

É já em junho que chega aos escaparates Why Are You Ok, o novo disco dos norte americanos Band Of Horses, um trabalho produzido por Rick Rubin e sucessor do aclamado Mirage Rock, um álbum editado já em 2012.

Casual Party é o primeiro avanço divulgado de Why Are You Ok, uma canção com uma exuberância instrumental ímpar e um frenesim melódico bastante impressivo, que faz antever um trabalho cheio de interseções entre guitarras e sintetizadores, criadas por uns Band Of Horses que são já hoje um dos grupos mais respeitáveis do cenário rock do país natal e que chegam ao quinto disco a cimentar as referências sonoras que durante quase uma década têm sido essenciais para o grupo, sem aparente sinal de desgaste. Confere...


autor stipe07 às 14:06
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Quinta-feira, 28 de Abril de 2016

PJ Harvey - The Hope Six Demolition Project

Let England Shake (2011), o último registo de originais da britânica PJ Harvey, já tem, finalmente, sucessor. As onze canções que fazem parte do alinhamento de The Hope Six Demolition Project viram a luz do dia a quinze de abril à boleia da Island Records e marcam o regresso de PJ Harvey a territórios sonoros mais elétricos, crus e rugosos, um retorno que, quanto a mim, se saúda.

Nono disco da carreira de Pj Harvey, The Hope Six Demolition Project não pode ser analisado autonomamente relativamente ao antecessor Let England Shake, apesar da inflexão sonora acima referida, mais que não seja pela abordagem política das novas canções desta autora e que se basearam em alguns factos atuais, mas também outros que sucederam há um século, na primeira guerra mundial. O produtor Flood e o realizador Seamus Murphy tiveram uma importante palavra a dizer neste aspecto, com o resultado final a ser um interessante e contemprâneo retrato de uma Inglaterra cada vez mais cosmopolita e que vive atualmente em aparente contradição, já que não renega orgulhosamente só as suas raízes e tradições, ao mesmo tempo que pretende ser um baluarte e referência na integração de diferentes culturas e povos na sua sociedade.

Viagens a acampamentos de refugiados e a destinos tão díspares como Afeganistão, Kosovo ou Wasghington, fizeram parte do cardápio que inspirou The Hope Six Demolition Project, um álbum que é, claramente, um documentário sobre uma realidade que está na ordem do dia e sobre o qual PJ Harvey se debruça com particular emoção lirica e um arrojo e uma crueza sonora que já faziam falta no catálogo mais recente da autora. Na verdade, logo na imponência de The Community Of Hope, percebemos qual é o edifício sonoro que vai sustentar o disco, um agregado de influências que vão do rock cinematográfico de A Line In The Sand ao blues mais cru, exemplarmente expresso na sombria e seca Chain Of Keys e no ritmo de Orange Monkey, passando por alguns tiques da folk ancestral, audíveis em River Anacostia e do próprio punk e que a bateria marcial de Ministry of Defense amplia.

Álbum claramente interventivo, declaradamente político e avassalador no modo como espelha o mundo atual e alguns dos seus maiores flagelos, The Hope Six Demolition Project é um documento obrigatório para todos aqueles que apreciam PJ Harvey, mas também para quem só agora se predispõe a explorar o seu catálogo, não só porque comprova a boa forma de uma artista relevante, mas também porque prova como ela sabe honrar e preservar o seu espólio e acrescentar-lhe novos acertos e estéticas, com uma bitola qualitativa elevadíssima. Espero que aprecies a sugestão...

PJ Harvey - The Hope Six Demolition Project

01. The Community Of Hope
02. The Ministry Of Defence
03. A Line In The Sand
04. Chain Of Keys
05. River Anacostia
06. Near The Memorials To Vietnam And Lincoln
07. The Orange Monkey
08. Medicinals
09. The Ministry Of Social Affairs
10. The Wheel
11. Dollar, Dollar


autor stipe07 às 23:02
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Terça-feira, 12 de Abril de 2016

Benjamim - Volkswagen & Doc. Auto Rádio

Depois do Walter Benjamin, o Luis Nunes resolveu ser só Benjamim, escrever em português, montar arraiais na pacatez de Alvito, deixando Londres para trás e nessa linda vila alentejana montou um estúdio de gravação, por onde têm passado alguns músicos e projetos nacionais que têm merecido amplo destaque por cá, neste espaço de crítica e divulgação sonora.

(pic Gonçalo Pôla)

Benjamim também abriu as hostilidades em relação à sua nova carreira a solo e Auto Rádio, um dos melhores discos nacionais de 2015, foi o primeiro passo de um percurso cheio de anseios e expectativas e que até resultou numa espécie de Volta a Portugal, materializada numa sequência de concertos de norte a sul do nosso país, durante trinta e três dias seguidos e que, nas palavras do próprio Benjamim, foi a digressão mais extensa e intensa que já aconteceu em Portugal, tendo passado por festas populares, associações culturais, festivais, bares, esplanadas, no meio da rua, num castelo, coretos e tabernas onde o músico tocou para todos os tipos de público que se pode encontrar. Gonçalo Pôla, amigo do músico, encarregou-se do registo foto-videográfico desta empreitada e elaborou um diário de estrada, um documento visual e sonoro precioso, não só para a percepção mais nítida do conteúdo musical e conceptual de Auto Rádio, mas também como documento de estudo de uma outra realidade muitas vezes ignorada do universo dos concertos no nosso país e de como é possível conceber espectáculos de música nos locais mais inusitados.

Agora, na primavera de 2016, este documento visual terá direito a edição na forma de documentário, acompanhado pelo lançamento, em formato single, de Volkswagen, um dos destaques maiores do conteúdo sonoro de Auto Rádio e uma canção que, num abrir e fechar de olhos e do nostálgico ao glorioso, oferece-nos uma espécie de indie-folk-surf-suburbano, feito por um dos mestres nacionais de um estilo sonoro com nuances e características muito particulares. A antestreia deste documentário acontece a 20 de Maio no Cinema Ideal, em Lisboa. Confere...


autor stipe07 às 16:24
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Segunda-feira, 11 de Abril de 2016

Doug Tuttle – It Calls On Me

Rochester, no estado de New Hampshire, é o refúgio bucólico de Doug Tuttle, um extroardinário músico e cantautor norte americano, de regresso aos discos à boleia da Trouble In Mind Records, com It Calls On Me, uma deliciosa jornada sonora por algumas das paisagens mais significativas da indie pop contemporânea, abastecida por uma simbiose entre folk e psicadelia ímpar, devido ao modo como este compositor domina a guitarra e através dela plasma sentimentos e sensações ricos e com particular intensidade e emoção.

Incisivo a expôr os dilemas e as agruras da vida comuns à maioria dos mortais, mas também as alegrias e as recompensas que a existência terrena nos pode proporcionar, Doug Tuttle reflete, na sua música, o seu posicionamento relativamente ao mundo em que vive e vivemos, duas realidades diferentes, mas no seu caso paralelas, porque caminham a par e passo, não fosse este músico profundamente autobiográfico e auto reflexivo, servindo-se da música que cria para expiar os seus pecados mas também para comungar com o ouvinte os prazeres que experimenta.

É assim a música de Doug Tuttle, que em apenas vinte e oito minutos consegue ser rico nas descrições que nos faz, quer da sua existência quer do que observa. A jovialidade pop da guitarra e o fuzz que a complementa, em A Place For You, dá o mote para um alinhamento perfeito para quem procura música que inspire a desafiar o destino e a procurar novos sonhos e anseios que não se quer deixar de experimentar um dia. Depois, o frenesim empolgante de It Calls On Me, o tema homónimo, oferece-nos gratuitamente um exercício de aceitação plena de um estado de consciência sobre uma vida em constante rebuliço, mas constante no modo como lida com os diferentes sentimentos e emoções e assim abre um disco com canções que mostram esse Doug Tuttle reflexivo, mas também auto confiante.

Quase sem se dar por isso, as canções sucedem-se e se Make Good Time mostra o músico embarcado numa viagem lisérgica, patente na instrumentação e numa letra que rompe com propostas mais intimistas, apresentando-o cada vez menos tímido e mais grandioso, já These Times e Painted Eyes embarcam-nos numa odisseia rumo aquela América profundo que sente uma constante necessidade de fuga aos padrões sociais e aos cânones pré estabelecidos, mas nem sempre tem o espírito e a ousadia para o conseguir. Uma espécie de exercício auto-crítico e reflexivo que, paralelamente, também nos oferece uma incrível viagem ao rock psicadélico da década de setenta, mantendo-se o derrame de versos extensos e quase descritivos dos habituais acontecimentos quotidianos, sempre com um olhar para o mundo físico e não apenas para uma exposição de emoções intrínsecas.

Daí em diante não faltam momentos em que prevalece essa sensação nada abstrata, que mostra um músico que procura sempre deixar o seu ambiente para caminhar pelo mundo real, algo audível nas imensas passagens instrumentais, quase sempre feitas com o simples dedilhar de cordas eletrificadas, plenas de fuzz e distorção, que pintam instantes que podem ser possíveis pontos de reflexão silenciosa, que todos experimentamos diariamente e que nos dizem muitas vezes bastante mais e de modo superiormente sábio, do que conversas de circunstância com quem nos é próximo mas tem apenas um conhecimento circunstancial e superficial do nosso âmago.

It Calls On Me é um excelente disco, principalmente pelo modo como manifesta instrumentalmente experiências de vida sincera, sendo uma intensa jornada espiritual que merece ser apreciada e saboreada em plenitude, enquanto discute melancolicamente sobre o amor, a saudade e outras futilidades diárias, à sombra de narrativas criadas por um músico que prova ser capaz de observar o tempo passar e de ser capaz de descrever cada mínimo aspecto sobre ele. Espero que aprecies a sugestão...

Doug Tuttle - It Calls On Me

01. A Place For You
02. It Calls On Me
03. Make Good Time
04. These Times
05. Painted Eye
06. Falling To Believe
07. On Your Way
08. Saturday-Sunday
09. Where You Will Go


autor stipe07 às 18:51
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