Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Astronauts - Four Songs EP

Astronauts é um projeto musical encabeçado pelo londrino Dan Carney. um músico e compositor que fez carreira nos lendários Dark Captain e que divulguei recentemente por causa de Hollow Ponds o extraordinário disco de estreia desta nova vida musical de um homem que guarda no seu universo sonoro teclas, cordas e baquetas mas, acima de tudo, um tremendo bom gosto e uma capacidade ímpar para compôr canções que só poderão ser devidamente apreciadas se estivermos dispostos a fazê-lo equipados com um fato hermético que nos permita captar a simultaneamente implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica que elas possuem e transmitem.

Já a preparar o sucessor de Hollw Ponds, Four Songs EP acontece numa lógica de querer encerrar um capítulo extenso e intenso da vida de Carney, que se inspirou em algumas experiências traumáticas pessoais recentes para compôr esse álbum, nomeadamente uma fratura grave de uma perna que o fez sofrer bastante e o prendeu a uma cama de hospital durtante um longo período. As quatro canções deste EP são como que sobras dessa obra maior, mas não ficam a dever nada em termos qualitativos ao alinhamento do disco. Comprovam a efervescência com que Astronauts se serve do krautrock e da dream pop e ampliam ainda mais a sensação de bom gosto que experimentamos ao escutá-las, criadas por um compositor que, com um pé na folk e outro na pop e com a mente também a convergir para um certo experimentalismo, tem o comportamento típico de quem não acredita em qualquer regra na busca pela perfeição.

Only Son, o tema que abre o EP, é um fantástico instante sonoro e o último tema divulgado pelo músico que aborda diretamente a fratura do pé que o apoquentou. simultaneamente claustrufóbica e épica e fortemente melódica, é uma música inspiradora e vibrante, com arranjos deslumbrantes e que não poupa na materialização dos melhores atributos que Carney guarda na sua bagagem sonora, tornando-nos cúmplices das suas angústias e incertezas.

Lion Tamer é um pouco mais introspetiva e melancólica e conta com um dedilhar de guitarra que casa na perfeição com uns lindíssimos arranjos de metais, algo que confere à canção um clima particularmente charmoso e contemplativo. A voz em coro dá mais corpo à canção e à medida que a mesma cresce, com o aumento da distorção e do ritmo da percurssão, que replicam uma melodia repetitiva, parece que levantamos voo com ela sem qualquer receio de olhar para trás e de nos deixarmos levar pelo cariz fortemente hipnótico da mesma.

Os dois últimos temas do EP mostram um Carney ainda mais resguardado, mas a potenciar ao máximo a capacidade que possui de nos deslumbrar e, de modo algo inédito, a provar que também há uma elevada dose de sensualidade e suavidade na tonalidade das canções que interpreta. Se a planante e eterea Think On (2003) faz, um elogio sincro a Elliot Smith, um dos seus heróis, Death From The Stars é um pequeno instrumental onde acorda de uma viola se entrelaça com alguns efeitos edepois nos transporta numa viagem rumo ao revivalismo dos anos oitenta que nos traz brisas bastante aprazíveis.

Four Songs é um EP rico e arrojado, que aponta em diferentes direções sonoras, apesar de haver um estilo vincado que pode catalogar o cardápio sonoro apresentado. O trabalho tem um fio condutor óbvio, assente em alguma da melhor indie pop contemporânea, mas uma das suas particularidades é conseguir, sem fugir muito desta bitola, englobar diferentes aspetos e detalhes de outras raízes musicais, num pacote cheio de paisagens sonoras que contam histórias que a voz de Dan sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:03
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Terça-feira, 28 de Outubro de 2014

Belle & Sebastian – Party Line

Belle & Sebastian - "Party Line"

Já se sabe desde setembro que os escoceses Belle & Sebastian estão de regresso aos discos com um novo álbum. Esse trabalho irá chamar-se Girls In Peacetime Want To Dance e verá a luz do dia a vinte de janeiro através da Matador Records, sendo o primeiro da banda em quatro anos, desde Write About Love.

Hoje foi divulgado o primeiro single de Girls In Peacetime Want To Dance; A canção chama-se Party Line e conduz-nos de volta ao indie pop mais orelhudo, com aquele requinte vintage que revive os gloriosos anos oitenta. Confere...


autor stipe07 às 18:25
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Sábado, 25 de Outubro de 2014

DRLNG - Icarus EP

Os Plumerai juntaram-se em 2011 para fazer música e assim nasceu uma banda em Boston formada por Eliza Brown (voz), Martin Newman (guitarras), James Newman (baixo) e Mickey Vershbow (bateria). Agora, três anos depois, alguns dos integrantes dessa banda resolveram dar vida a um novo projeto paralelo intitulado DRLNG (darling), que se estreou no passado dia dezasseis de outubro com um EP intitulado Icarus, disponível numa edição limitada em vinil de 12" e no bandcamp e soundcloud do projeto.
Gravado por Alex Gracia-Rivera nos estudios Mystic Valey, um dos poucos estúdios americanos que usa ainda apenas e só equipamento analógico, este EP contém quatro excelentes canções que apostam numa fusão do indie rock mais melancólico e sombrio com alguns detalhes da folk americana e da pop. A voz pura e límpida de Eliza é um trunfo explorado positivamente até à exaustão e que ganha um realce ainda maior quando as guitarras algo turvas de Martin têm a capacidade de proporcionar uma aúrea algo mística e ampliada, não só à voz de Eliza, como também, no fundo, à própria mensagem das canções.

Icarus, o tema homónimo, permite-nos desde logo dissecar diferentes vias e infuências, já que, ao mesmo tempo que há uma paisagem sonora que transparece calma e serenidade, também existe na guitarra uma tensão constante, numa melodia amigável e algo psicadélica, que se arrasta até ao final num longo diálogo entre a distorção e o timbre do baixo. My Gipsy tem um formato intímo e marcadamente nostálgico e Playground Punk usa a bateria para brincar com os nossos sentidos, sempre à espera do momento certo para explodir. Para o ocaso ficou Seattle, um tema cantado em francês e onde o fio condutor parece incialmente ser o jazz e a folk, mas com o indie rock mais progressivo a ser o grande suporte de uma canção que mostra uns DRLNG que parecem também querer apostar, no futuro, em ambientes sonoros mais ruidosos.

Há uma enorme sensação de conforto durante a audição de Icarus, possibilitada por uma atmosfera rítmica e sonora claramente orientada para permitir aos autores expressarem-se de forma melancólica e, desse modo, exaltarem cenários e sensações que se expressam com particular envolvência e que expõem sentimentos com genuína entrega e sensibilidade extrema. Este EP tem uma expressividade única e claramente intencional, que abrange, de forma reconfortante, o espaço onde é ouvido, como se fosse um manto que permanece sempre cativante, mas também feliz e carregado de esperança. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 20:14
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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

Allah-Las – Worship The Sun

Naturais de Los Angeles, os norte americanos Allah-Las são Miles, Pedrum, Spencer e Matt e têm um novo disco intitulado Worship The Sun, um trabalho lançado por intermédio da Innovative Leisure no último dia dezasseis de setembro e que sucede a um homónimo que foi o disco de estreia da banda, editado em 2012.

Os Allah-Las estão atrasados ou adiantados quase meio século, depende da perspetiva que cada um possa ter acerca do conteúdo sonoro que replicam. Se na década de sessenta seriam certamente considerados como uma banda vanguardista e na linha da frente e um exemplo a seguir, na segunda década do século XXI conseguem exatamente os mesmos pressupostos porque, estando novamente o indie rock lo fi e de cariz mais psicotrópico na ordem do dia, são, na minha modesta opinião, um dos projetos que melhor replica o garage rock dos anos sessenta e a psicadelia da década seguinte.

Depois de terem impressionado com o búzio de Allah-Las, estes californianos mantêm a toada no sucessor e trazem o mesmo horizonte vasto de referências e as inspirações da estreia, mas trabalhadas de forma ainda mais abrangente e eficaz. Levam-nos novamente numa viagem que espelha fielmente o gosto que demonstram relativamente aos primórdios do rock e conseguem apresentar, em simultâneo, algo inovador e diferente, através de uma sonoridade muito fresca e luminosa, assente numa guitarra vintage, que de Creedance Clearwater Revival a Velvet Underground, passando pelos Lynyrd Skynyrd, faz ainda alguns desvios pelo blues dos primórdios da carreira dos The Rolling Stones e pela irremediável crueza dos The Kinks.

Começa-se a escutar De Vida Voz e cá vamos nós a caminho da praia ao som dos Allah-Las e de volta à pop luminosa dos anos sessenta, aquela pop tão solarenga como o estado norte americano onde a banda reside. E vamos com eles enquanto nos cruzamos com os veraneantes cor de salmão e de arca frigorífica na mão, que lutam interiormente ao chegar ao carro, sem saberem se a limpeza das chinelas deve ser exaustiva, ou se os inúmeros grãos de areia que se vão acumular no tapete junto aos pedais do Mégane justificam um avanço de algumas centenas de metros na fila de veículos que regressam à metrópole. A praia dos Allah-Las, na costa oeste, começa com o pôr do sol e uma fogueira e continua noite dentro até o vidrão ficar cheio e a areia se confundir com as beatas que proliferam, numa festa feita de cor, movimento e muita letargia.

Quem acha que ainda não havia um rock n' roll tresmalhado e robotizado nos anos sessenta ou que a composição psicotrópica dos substantivos aditivos que famigeravam à época pelos estúdios de gravação não permitia grande rigor melódico, ficará certamente impressionado com a contemporaneidade vintage nada contraditória dos acordes sujos de No Werewolf e do groove da guitarra e de uma voz que parece planar sobre Artifact e Recurring, dois dos melhores temas do disco. Depois, o tema homónimo tem um experimentalismo instrumental que se aproxima do blues marcado pela guitarra acústica, além dos metais e de alguns ruídos que assentam muito bem na canção. Had It All, o single já retirado do disco, obedece integralmente à toada revivalista, com um certo travo folk, numa canção que funde Bob Dylan e Jimmy Hendrix, numa sonoridade simultaneamente grandiosa e controlada. Já as cordas de Nothing To Hide e o efeito que as acompanham, assim como a percurssão groove do tema homónimo e os efeitos hipnóticos da guitarra, sustentam duas das mais belas melodias de um disco que até abraça a folk e o country sulista americano em Better Than Mine

Uma das canções mais curiosas do álbum é 501-415, a peça mais psicadélica e sintética do disco e com um timbre pouco usual, estado aqui o momento mais experimental de um trabalho que mesmo nos momentos puramente instrumentais, como Ferus Gallery, Yemeni Jade e a já citada No Werewolf, não desilude.

Buffalo Nickel tem o melhor refrão de Worship The Sun, uma balada que obedece à sonoridade pop dos anos sessenta e Follow You Down tem um experimentalismo instrumental que se aproxima do blues marcado pelo baixo e pelas guitarras, além dos metais e de alguns ruídos que assentam muito bem na canção, uma atmosfera que se repeate no surf rock de Every Girl, uma forma muito luminosa e festiva de encerrar um disco que feito de referências bem estabelecidas e com uma arquitetura musical que garante aos Allah-Las a impressão firme da sua sonoridade típica e ainda permite terem margem de manobra para futuras experimentações.

Worship The Sun é, como de algum modo já referi, coerente com vários discos que têm revivido os sons outrora desgastados das décadas de sessenta e setenta e é uma viagem ao passado sem se desligar das novidades e marcas do presente. É um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva esta banda californiana. É um disco vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências antigas. Espero que aprecies a sugestão...

Allah-Las - Worship The Sun

01. De Vida Voz
02. Had It All
03. Artifact
04. Ferus Gallery
05. Recurring
06. Nothing To Hide
07. Buffalo Nickel
08. Follow You Down
09. 501-415
10. Yemeni Jade
11. Worship The Sun
12. Better Than Mine
13. No Werewolf
14. Every Girl


autor stipe07 às 22:15
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Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

Brass Wires Orchestra - Cornerstone

Gravado nos Black Sheep Studios por Makoto Yagyu (PAUS) e Fábio Jevelim (PAUS) e masterizado nos Abbey Road Studios (Londres) por Frank Arkwright (responsável pela masterização também do álbum Neon Bible, dos Arcade Fire), Cornerstone é o novo disco dos Brass Wires Orchestra, um coletivo nacional formado por Miguel da Bernarda, Afonso Lagarto, Rui Gil, Luís Grade Ferreira, Zé Valério, Nuno Faria, António Fontes, Tiago Rosa, António Vasconcelos, nove músicos que formam uma verdadeira orquestra folk que aposta numa fusão de elementos da indie, da pop, da folk e até da eletrónica, tudo assente em melodias luminosas feitas com linhas de guitarra delicadas e arranjos particularmente deslumbrantes e cheios de luz, amiúde dominados pelos instrumentos de sopro, que criam paisagens sonoras bastante peculiares.

A expetativa em redor de Cornerstone começou a fervilhar no universo indie nacional, na sequência de uma série de concertos que, tendo acontecido sem o objetivo de elevar a banda para um patamar profissional, revelaram, desde logo, alguns temas que acabariam por se tornar em hinos incontornáveis nos concertos da banda, como é o caso de Tears of Liberty ou Wash My Soul. Impulsionados certamente também por tal impacto, estes músicos decidiram, em boa hora, dar o passo seguinte e a verdade é que este disco é já um marco num ano que está a ser extraordinário e de definitiva afirmação para o cenário musical indie e alternativo português.

Cornerstone é uma belíssima coleção de dez originais feitos com melodias hipnotizantes que conseguem misturar os mais inusitados instrumentos com incrível mestria e com a secção de sopros a ser um elemento importante para criar a energia contagiante e a alegria que estes Brass Wires Orchestra transmitem nas suas canções. São composições sonoras carregadas de texturas, criadas através da justaposição de diferentes camadas de instrumentos e sons, uma conjugação com um elevado cariz contemporâneo e atual, apesar do forte revivalismo que este espetro sonoro sempre encerra. O resultado final é verdadeiramente vibrante e com uma energia bastante particular, numa banda que parece não querer olhar apenas para o universo tipicamente folk, mas também abraçar, através de alguns traços sonoros caraterísticos, as facetas mais soul e blues do próprio indie rock.

Cornerstone tem vários momentos altos e deles não posso deixar passar em claro, por exemplo, os dois tremas já referidos, nomeadamente a sensibilidade de Wash My Soul, o tema de abertura e o ritmo frenético e as cordas inebriantes de Tears Of Liberty, uma canção que cabe na algibeira de todos aqueles que já viveram amores desencontrados e não correspondidos. Depois, ainda há People & Humans, uma canção com uma energia diferente das restantes e que demonstra a versatilidade que os Brass Wires Orchestra já demonstram possuir e Time, um tema que plasma a enorme capacidade que o coletivo possui para escrever canções que tocam fundo e que transmitem mensagens profundas e particularmente bonitas. No final, The Life I Chose é um dos temas mais curiosos do disco, um título feliz para uma música criada por uma banda que sabe bem qual o caminho sonoro que pretende decalcar e sobre o qual se debruça, assim como sobre outros aspetos importantes da banda e deste trabalho, numa entrevista que me concedeu e que aparece transcrita já a seguir. 

Há definitivamente algo de especial nestes Brass Wires Orchestra e na originalidade com que usam aspetos clássicos da folk para criar um som cheio de frescura e vitalidade, mas onde também há espaço para composições melancólicas, com um acabamento bucólico e, por isso, atrativo para quem procura sonoridades mais festivas e descomplicadas. Espero que aprecies a sugestão...

Depois do sucesso alcançado em vários concertos e que revelaram alguns temas vossos que são já hinos incontornáveis, começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as vossas expetativas para Cornerstone?

Não temos grandes expectativas, queremos apenas a possibilidade de andar por aí a divulgar o nosso trabalho.

Brass Wires Orchestra é um coletivo de nove músicos, certamente de diferentes escolas musicais e origens e com gostos diversificados. Como se consegue colocar ordem na casa e colocar todos a remar no mesmo sentido?

É mais fácil do que se possa pensar. Nós adoptámos linhas estéticas que nos permitem comunicar e compor sempre para o mesmo sentido. 

Como surgiu a possibilidade de gravar o disco nos Black Sheep Studios, com Makoto Yagyu e Fábio Jevelim?

Nós sempre ensaiámos nos BlackSheep Studios, foi um passo natural gravarmos lá com o Makoto e com o Fábio.

Cornerstone foi masterizado nos míticos Abbey Road Studio, em Londres, pelo inigualável Frank Arkwright, que já colocou as mãos em álbuns de nomes tão importantes como os Arcade Fire. Que peso teve este produtor no resultado final?

É sempre de peso ter o selo de qualidade do Frank e dos Abbey Road Studios.

Olhando agora para o conteúdo de Cornerstone, confesso que o que mais me agradou na audição do álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, na originalidade com que usam aspetos clássicos da folk para criar um som cheio de uma frescura e que tem tanta vitalidade . No fundo, em termos de ambiente sonoro, que idealizaram para o álbum inicialmente? E o resultado final correspondeu ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

A nossa visão manteve-se sempre a mesma durante o processo. Com o tempo fomos limando alguns arranjos e escolhas melódicas.

Mesmo nos temas novos já se nota alguma maturidade no que toca a subtileza de arranjos. É uma preocupação nossa.

Além de ter apreciado a riqueza instrumental e também a criatividade com que selecionaram os arranjos, gostei particularmente do cenário melódico destas vossas novas canções, que achei particularmente bonito. Em que se inspiram para criar as melodias? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou as melodias são criadas individualmente, ou quase nota a nota, todos juntos e depois existe um processo de agregação?

O processo inicia-se com trabalho de casa. Depois sim, no estúdio de ensaio, trabalhos a base já existente.

Cada elemento é responsável pela sua melodia e surgem de forma muito natural e espontânea. 

Até que ponto é correto dizer que a secção de sopros da banda é o elemento fulcral e decisivo de toda esta trama?

Não seria muito acertado, porque apesar de estarem presentes em todos os temas, são tão importantes como qualquer outro instrumento, são é mais barulhentos.

Confesso que fiquei particularmente surpreso e agradado com o bom gosto do artwork de Cornerstone. Há algo de conceptual e alguma relação direta com o conteúdo lírico e sonoro?

O artwork foi pensado com cuidado, o seu imaginário remete para uma estética com a qual nos identificamos. O responsável foi o Tiago Albuquerque.

Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantarem em inglês e a opção será para se manter?

O inglês é para se manter. Todas as nossas referências cantam em inglês e o compositor das músicas, o Miguel, estudou numa escola inglesa e portanto é-lhe mais natural escrever em inglês do que em português.

O que vos move é apenas esta folk feita de composições melancólicas, com um acabamento bucólico, mas também alegre e descomplicado ou gostariam ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico dos Brass Wires Orchestra?

Exploramos cada vez mais sonoridades diferentes. Elementos eletrónicos, pedais de efeitos, etc.

Achamos que o próximo trabalho vai surpreender muita gente pela positiva.


autor stipe07 às 18:09
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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Engineers - Always Returning

Formados atualmente pelo multi-instrumentista Mark Peters, o aclamado músico e produtor alemão Ulrich Schnauss e pelo baterista londrino e compositor Matthew Linley, os Engineers têm criado belíssimas texturas sonoras na última decada e são já um nome de referência no universo da eletrónica de cariz mais ambiental e experimental. Estrearam-se em 2005 com um homónimo que lhes apontou logo imensos holofotes e quatro anos depois, com Three Fact Fader atingiram um estatuto enorme que, no ano seguinte, em 2010, com In Praise Of More, solidificaram definitivamente essa visão, com um enorme grau de brilhantismo. Esse foi o ano em que Ulrich Schnauss juntou-se aos Engineers e Always Returning é o novo passo na carreira de um projeto que parece não encontrar fronteiras dentro daquela pop eletrónica que explora paisagens sonoras expressionistas, através das teclas do sintetizador e de uma percurssão orgânica, as grandes referências instrumentais neste processo de justaposição de vários elementos sonoros.

Com o tema Fight or Flight disponibilizado pela editora Kscope para download gratuíto, Always Returning oscila entre temas puramente instrumentais e outros que não dispensam a presença da voz,  em dez canções que consolidam a maturidade de um grupo que sabe estabelecer entre os seus membros um diálogo feliz e profícuo, em busca do melhor contraste entre as diferentes referências sonoras que orientam o grupo, acabando por as sublimar com mestria e fazer com que se destaque a emoção com que a música criada pelos Engineers consegue transportar bonitos sentimentos.

Always Returning é um disco mutante, que cria um universo quase obscuro em torno de si e que se vai transformando à medida que avançamos na sua audição, que surpreende a cada instante. Da guitarra picada de Bless The Painter, que busca uma psicadelia que se lança sobre o avanço lento mas infatigável de um corpo eletrónico que também usa a voz como camada sonora e que, depois, em Searched for Answers e Smoke & Mirrors, parece que se deixou envolver por uma bolha de hélio passada a lustro pelo rock alternativo dos anos oitenta, ao eco sintetizado e incrivelmente épico de Fight Or Flight, o disco é um manancial de diferentes géneros sonoros e faz uma espécie de súmula da história da música dos últimos quarenta anos.

O auge desta revisão eufórica acontece quando Always Returning desperta-nos para uns Pink Floyd imaginários e futuristas ao som de It Rings So True  e Smiling Back, uns Pink Floyd que certamente não se importariam de ter sido manipulados digitalmente há trinta anos atrás se fosse este o resultado final dessa apropriação. O próprio rock melódico mais barroco, ou a típica folk pop melancólica aparecem em temas como Drive Your Car ou Innsbruck, uma sequência impregnada com uma beleza e uma complexidade tal que merece ser apreciada com alguma devoção e faz-nos sentir vontade, no fim, de carregar novamente no play e voltar ao início dos dois temas. A melancolia das duas canções é comandada por um som de guitarra, que aliado a outras cordas e ao piano, dão um tom fortemente denso e contemplativo aos temas e, no caso de Drive Your Car, a voz de Mark consegue trazer a oscilação necessária para transparecer uma elevada veia sentimental.

Há uma forte dinâmica criativa no seio deste projeto e apesar das diferentes origens musicais, nenhum estilo domina claramente e o efeito é o de várias abordagens sonoras, igualmente magistrais, numa conversa coerente que celebra a natureza dinâmica da combinação instrumental e explora um método de abordagem criativa, que permite a concordância e a discordância, por sua vez. Do rock clássico, passando pela chillwave e a eletrónica ambiental, este alinhamento impressiona pela atmosfera densa e pastosa mas libertadora e esotérica que transporta. Always Returning é um disco muito experimentalista naquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas. Mas tem também uma estrutura sólida e uma harmonia constante. É estranho mas pode também não o ser. É a música no seu melhor. Espero que aprecies a sugestão...

Bless the Painter
Fight or Flight (Download)
It Rings So True
Drive Your Car
Innsbruck
Searched for Answers
Smiling Back
A Million Voices
Smoke and Mirrors
Always Returning

 


autor stipe07 às 21:31
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Sábado, 4 de Outubro de 2014

Cloud Castle Lake - Dandelion EP

Para quem aprecia aquela simbiose já clássica entre o post rock amiúde visceral e quase sempre etéreo dos islandeses Sigur Rós, com o indie rock progressivo dos Radiohead, irá certamente apreciar Dandelion, o novo EP dos Cloud Castle Lake, uma banda irlandesa, natural de Dublin e formada por Brendan William Jenkinson, Rory O'Connor e Daniel McAuley. Dandelion chegou aos escaparates a dezanove de setembro, por intermédio da Happy Valley.

Sync, o tema de abertura deste EP e single do mesmo é uma excelente porta de entrada para uma curta mas intensa viagem sonora, proporcionada por quatro canções vibrantes e pulsantes, que sabem a triunfalismo e celebração. Este tema, com os instrumentos de sopro de mãos dadas com o piano e um belíssimo falsete a construirem a primeira camada do seu edifício sonoro, que depois recebe uma percurssão orgânica suave que vai ser, adiante, comprimida pelas cordas do baixo, à boa maneira da sonoridade típica dos Radiohead no período In Rainbows,deixa dentro de nós uma incrível sensação de euforia, mas controlada, proporcionada pela forma poética como se sente que a delicadeza e a candura procuram equilibrar-se com a agressividade e a rispidez, enquanto se assiste a um combate fraticida entre estes dois opostos.

Os tambores e a bateria de A Wolf Howling ampliam esta compilação dramática e, de repente, somos subjugados para um conto fantástico, cheio de criaturas sobrenaturais que se degladiam entre si enquanto replicam algumas das melhores nuances do indie rock progressivo, ao mesmo tempo que, com o seu estilo único, Daniel McAuley tira-nos o fôlego com o seu falsete fortemente emotivo, que deixa-nos muitas vezes sem reação e toca profundamente o coração.

A toada abranda um pouco, mas mantém-se aquele ar sombrio e algo misterioso em Mothcloud, à medida que o dedilhar de uma guitarra acústica e o falsete de Daniel recebem uma secção inteira de instrumentos de sopro e a distorção de uma guitarra que poderia ser tocada pelo arco de violoncelo de Jón Þór Birgisson. Este cenário melódico pinta uma belíssima paleta de cores sonoras e cria uma atmosfera envolvente, suave e apaixonada que se prolonga em Dandelion, canção onde as cordas sobressaiem e que, por isso, tem uma toada um pouco mais folk que as restantes. É um instante perfeito para nos resgatar, lentamente, do mundo mágico para onde fomos sugados, para voltarmos sãos e salvos a uma realidade que é, tantas vezes, tão melancólica e sombria, mas igualmente graciosa como estas quatro canções, depois de cerca de vinte minutos de incontrolada euforia, que, se formos justos, mereceram a nossa mais sincera devoção.. Espero que aprecies a sugestão...

Sync

A Wolf Howling

Mothcloud

Dandelion


autor stipe07 às 20:57
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Sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

So Cow - The Long Con

Oriundos de Galway, os irlandeses So Cow são Peter O'Shea, Jonny White e Brian Kelly, um trio que aposta na receita simples mas aditiva que suporta o indie rock de garagem, fazendo-o com um interessante grau de diversão, boa disposição, humor e empatia. Produzido por Greg Saunier, dos Deerhoof, The Long Con é o novo disco do trio, um trabalho que chegou aos escaparates a dezasseis de setembro por intermédio da Goner.

Os So Cow são mais uma daquelas bandas que procura ser simples e assertiva na fórmula enquanto revivem o espírito instaurado nas composições e nos registos memoráveis lançados entre as décadas de setenta e oitenta e que usam artifícios caseiros de gravação, métricas instrumentais similares e até mesmo temáticas bem relacionadas com o que definiu esse período, numa simbiose entre garage rockpós punk e rock clássico.

The Long Con começa com a intrépida Get Down Off That Thing e a partir daí o pé raramente alivia o acelerador, quer da bateria quer da distorção das guitarras. Logo depois chega Science Fiction, um dos singles já retirados do disco e um dos momentos altos de The Long Con. Esta canção tem no punk e no rock de garagem feito com guitarras cheias de distorção, mas melodicamente muito ricas, as suas traves mestras e nela, mas também, por exemplo, em Vigilanti Cura, percebe-se que os So Cow sabem como pegar na sonoridade que escolheram com elevada mestria e também com uma forte componente experimental.

Sugar Factory é um dos temas mais curiosos do disco; Não foge à sonoridade geral do mesmo, mas há o delicioso detalhe de um instrumento de sopro típico da Irlanda que dá à canção uma toada folk muito interessante, sem deixar de ser concentrada no uso das guitarras, o grande ponto de acerto e movimento desta e das diferentes composições do alinhamento. Essas guitarras têm o acompanhamento exemplar do baixo, nomeadamente em I Want Out que consegue aproximar-se de uma sonoridade que mistura momentos mais luminosos de uns Clash ou Ramones, com uma faceta algo adolescente dos Sonic Youth.

A aproximação à psicadelia não fica por aqui e em Say Hello o baixo volta a dar um ar da sua graça enquanto as guitarras aproximam-se do surf rock típico da década de sessenta e a canção consegue fazer-nos visualizar enormes pranchas de surf em plena pradaria irlandesa.

The Long Con incorpora a sonoridade crua, rápida e típica da que tomou conta do tal cenário lo fi inaugurado há mais de três décadas. Em pouco mais de meia hora estes quatro músicos apresentam-nos uma sucessão incrível de canções que são potenciais sucessos e singles, canções que parecem ter viajado no tempo e amadurecido até se tornarem naquilo que são.

Nostálgico e ao mesmo tempo carregado de referências recentes, The Long Con usa letras simples e guitarras aditivas, sendo claro o compromisso assumido dos So Cow de não produzirem algo demasiado sério, acertado e maduro, mas canções que querem brincar com os nossos ouvidos, sujá-los com ruídos intermináveis e assim, proporcionarem uma audição leve e divertida. Espero que aprecies a sugestão...

01 – Get Down off That Thing
02 – Science Fiction
03 – Sugar Factory
04 – Operating at a Loss
05 – I Want Out
06 – Vigilanti Cura
07 – Say Hello
08 – Turning into You
09 – To Be Confirmed
10 – Guess Who’s Dead
11 – The Other One
12 – Second Last Line of the National Anthem
13 – Barry Richardson


autor stipe07 às 21:05
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Domingo, 28 de Setembro de 2014

Roadkill Ghost Choir – In Tongues

Oriundos de Deland, na Flórida, os norte americanos Roadkill Ghost Choir de Andrew Shepard, Zach Shepard, Maxx Shepard, Stephen Garza e Kiffy Myers, estrearam-se no passado dia vinte e cinco de agosto nos discos com In Tongues, um trabalho que viu a luz do dia por intermédio da Greatest Hiss Records e que foi gravado com a ajuda do produtor Dough Boehm (Girls, Dr. Dog), em Athens, na Georgia e no estúdio da banda localizado na sua terra natal.

Com concertos recentes em festivais tão emblemáticos como Bonnaroo e Lollapalooza, estes Roadkill Ghost Choir começam a ganhar um lugar de relevo no panorama indie norte americano, muito por causa do conteúdo deste In Tongues que, pelos vistos, também se inspirou bastante na vida de uma banda na estrada, em plena digressão e do sentimento de solidão e de distanciamento do mundo real que os músicos tantas vezes sentem, quando estão fora de casa e do seu habitat natural por um longo período de tempo.

In Tongues contém dez canções que combinam elementos clássicos da pop e do rock americano, de forma a criar um som com melodias apelativas, através de uma mistura de diferentes personalidades, todas com enorme talento e capazes de criar excelentes canções. Os músicos, vários deles irmãos, que compôem esta banda fizeram um excelente trabalho que cresce quanto mais nos habituamos a ele; Há uma dinâmica entre os instrumentos de sopro, a percurssão e as guitarras que o sustenta e, na verdade, a componente instrumental conhece poucos entraves e expande-se com interessante fluídez. O trompete acaba por ser um significativo detalhe para a envolvência do disco, um instrumento que em Hwy define mesmo o processo de construção melódica, mas é o banjo o protagonista maior de um cardápio instrumental que não renega a replicação de vários subgéneros da pop que se misturam com o clássico rock e que fazem deste trabalho uma verdadeira súmula de algumas das melhores caraterísticas do ideário sonoro de terras do Tio Sam.

A particularidade que estes Roadkill Ghost Choir parecem ter de conseguirem soar simultaneamente familiares e únicos é um aspeto que brota do conteúdo geral de um disco que, conseguindo passear entre uma instrumentação eminentemente acústica e clássica (I Could See Everything), onde se inclui um baixo amiúde esplendoroso (A Blow To The Head), com a contemporaneidade do sintetizador e da guitarra elétrica (Down & Out), origina algo vibrante e com uma energia bastante particular, numa banda que parece não ter nunca qualquer receio em deixar o universo tipicamente folk para abraçar, através de alguns traços sonoros caraterísticos do próprio post punk, o indie rock mais épico. Apesar de as canções serem conduzidas pela guitarra, expandem-se e ganham vida devido ao critério que orientou a escolha dos restantes instrumentos e à forma como a voz de Andrew se posiciona e se destaca à medida que canta sobre o presente, a melancolia e o cariz tantas vezes éfemero dos sentimentos, ou seja, o existencialismo e as perceções humanas.

Há definitivamente algo de especial nestes Roadkill Ghost Choir e na originalidade com que usam aspetos clássicos da folk e do rock norte americano contemporâneo para criar um som cheio de frescura e vitalidade, apresentando em In Tongues um pacote sonoro cheio de groove e de paisagens sonoras que contam histórias que a voz de Andrew Shepard sabe muito bem como encaixar. Espero que aprecies a sugestão... 

Roadkill Ghost Choir - In Tongues

01. Slow Knife
02. HWY
03. Down And Out
04. A Blow To The Head
05. I Could See Everything
06. No Enemy
07. Womb
08. Lazarus, You’ve Been Dreaming
09. Dead Friend
10. See You Soon


autor stipe07 às 21:10
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Quinta-feira, 25 de Setembro de 2014

Pedro Lucas - A Porta do Amor

Pedro Lucas nasceu em Lisboa em 1987. Toca com os Velhos desde os 19 anos. Entre 2009 e 2013 colaborou também, ao vivo ou em estúdio, com os Salto e com o Manuel Fúria, entre outros. Em 2011 lançou pela Optimus Discos Não há crianças em Las Vegas, um EP onde era vocalista, compositor e produtor, assinando como Lucas Bora-Bora.

Agora, depois de quinze pequenos concertos de apresentação, chegou o momento de Pedro Lucas divulgar A Porta do Amor, o seu mais recente single. Este tema antecede Águas Livres, o longa duração de estreia do músico, um disco gravado durante o ano de 2013 e produzido por Walter Benjamim e gravado entre Londres e Alvito, no Alentejo, num processo que, segundo o press release do lançamento deste tema, foi apelidado pelo Pedro de carinhosamente vagaroso e que, também por isso, será uma edição limitada,  em formato livro, numerada e datada, toda desenhada e encadernada pelo próprio autor.

Ainda de acordo com a nota de imprensa, o disco reúne as melhores dez canções que Pedro Lucas foi compondo paralelamente à sua actividade com os Velhos (a sua banda), Nuno Lucas e outros amigos. No registo encontra-se uma ligação clara à herança da canção de língua portuguesa, tratada com um certo vagar brasileiro, narrativo por vezes, e com um espírito clássico: dos arranjos, do álbum completo, da balada sincera, das histórias de amor.

O vídeo desta canção foi realizado por Tomás Magalhães. Acompanhado por uma banda de amigos, Pedro Lucas apresentará o novo disco ao vivo na Casa Independente a 24 de Outubro, no Porto no Cinema Passos Manuel a 31 de Outubro e em Guimarães no Centro Cultural de Vila Flor a 1 de Novembro. O álbum estará à venda nos concertos estando também disponível nas plataformas digitais e para download na página oficial do músico. Confere...


autor stipe07 às 13:33
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