Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Andrew Bird – Things Are Really Great Here, Sort Of…

Apelidado de mestre do assobio, multi-instrumentista e cantor, Andrew Bird é um dos maiores cantautores da atualidade e coleciona já uma mão cheia de álbuns que são pedaços de música intemporais. Este músico americano nascido em Chicago tem vivido um período de composição bastante intenso; Em março de 2012 divulguei o excelente Break It Yourself, no final desse ano lançou Hands Of Glory, mais um álbum, em 2013 uma série de EPs e agora, no verão de 2014 presenteia-nos com mais uma coleção de canções, dez versões de temas dos Handsome Family, do casal Sparks, uma dupla de referência do cenário alt-country. Things Are Really Great Here, Sort Off... foi lançado pelo selo Mom + Pop Records e serve para complementar uma discografia já bastante rica, que assenta numa lógica de continuidade e onde a habitual simplicidade da sua música fica mais uma vez patente.

Things Are Really Great Here, Sort Of..., foi gravado com a ajuda dos Hands of Glory, um grupo de músicos que Andrew juntou quando gravou o disco com esse nome e que continuam a acompanhá-lo aso vivo e em estúdio. Os Handsome Family sempre foram uma referência para Bird que tocou no disco In The Air (2000) desse projeto e no Weather Symptoms (2003), um trabalho do seu cardápio, já tinha feito uma versão de Don't Be Scared, um dos temas mais importantes da carreira dos Handsome Family.

A essência dos temas dos Handsome Family recriados por Bird não é abalada nestas novas roupagens, mas há um cuidado nos arranjos, criados por um músico conhecido pela arte de tocar o violino, mas que sabe dosear os vários instrumentos que fazem parte do seu arsenal particular e onde também gosta de incluir a sua própria voz. Esse registo vocal de um dos simbolos atuais da folk norte americana, capaz de propôr diferentes registos e papéis com a mesma eficácia e brilhantismo, firma-se cada vez mais como uma das marcas identitárias da sua arte e em Things Are Really Great Here, Sort Of... há vários exemplos de canções que soam como novas e ganham uma maior personalidade e solidez devido ao rgisto vocal de Andrew. É como se, de algum modo e sem maldade, Bird se apropriasse dessas canções e com graciosidade, charme e estilo e fizesse de temas como Far From Any Road (Be My Hand) ou My Sister’s Tiny Hands momentos cuja audição se recomenda naqueles dias primaveris em que o sol tímido começa a dar um ar da sua graça e, quase sem pedir licença, aquece o nosso coração e faz-nos acreditar em dias melhores.

A folk sempre foi um estilo sonoro olhado com um certo preconceito, mas este disco é um excelente compêndio para todos aqueles que colocam reservas em relação a esta sonoridade, poderem alterar os conceitos menos positivos sobre a mesma, alem de ser mais um instante precioso na discografia de um músico notável e uma forma curiosa de nos sentirmos impelidos a conhecer melhor a discografia exemplar dos Hansome Family. Espero que aprecies a sugestão...

Andrew Bird - Things Are Really Great Here, Sort Of...

01. Cathedral In The Dell
02. Tin Foiled
03. Giant Of Illinois
04. So Much Wine, Merry Christmas
05. My Sister’s Tiny Hands
06. The Sad Milkman
07. Don’t Be Scared
08. Frogs Singing
09. Drunk By Noon
10. Far From Any Road (Be My Hand)


autor stipe07 às 09:48
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Terça-feira, 22 de Julho de 2014

Craft Spells - Nausea

Oriundos de São Francisco, na Califórnia e formados por Justin Paul Vallesteros, Jack Doyle Smith, Javier Suarez e Andy Lum, os norte americanos Craft Spells estão de regresso aos discos Nausea, um trabalho que viu a luz do dia a dez de junho por intermédio da Captured Tracks e que sucede a Idle Labor, o disco de estreia dos Craft Spells, lançado em 2011 e ao EP Gallery, editado no ano seguinte.


Os Craft Spells são mais um daqueles projetos que aposta numa indie pop com um cariz tipicamente lo fi e shoegaze, plasmada em composições recheadas com aquele encanto vintage, relaxante e atmosférico.  Os anos oitenta e a psicadelia de décadas anteriores preenchem o disco e ao longo da audição de Nausea percebemos que o álbum reforça a capacidade de Vallesteros e seus parceiros em promover novos conceitos dentro da mesma composição acolhedora da estreia, à medida que entregamos os ouvidos a um disco fresco e hipnótico e assente numa chillwave simples, bonita e dançável, nem que o façamos no nosso íntimo e para nós mesmos.

Nausea é, portanto, um compêndio de onze canções construídas em redor de uma bateria eletrónica, guitarras e sintetizadores às vezes pouco percetíveis mas que dão o tempero ideal às composições, algumas delas verdadeiros tratados de dream pop, carregadas de detalhes deliciosos, principalmente na forma como as guitarras ocupam todas as lacunas do disco, um esforço que sobressai em alguns temas de maior duração, nomeadamente a apaixonante Komorebi e a lisérgica Changing Faces, mas com a luminosa e divertida Twirl ou mesmo a espiral sonora de Laughing for My Life a serem bons exemplos da mestria com que os Craft Spells tocam para criar uma obra equilibrada e assertiva.

Disponibilizado para download gratuito no soundcloud da editora, Breaking The Angle Against The Tide é o primeiro single divulgado de Nausea, um grandioso tratado musical de indie rock e outro destaque de um trabalho que teve uma difícil gestação e que ganhou vida depois de Vallesteros ter confessado estar a atravessar um período difícil em termos criativos, que fez com que o próprio se tivesse isolado do mundo, de modo a reencontrar-se, apenas acompanhado pela música de Haroumi Hosono e Yukihiro Takahashi, a dupla dos Yellow Magic Orchestra e que acabaram por ser uma influência decisiva em Nausea.

Liricamente mais direto e incisivo e menos inocente e idealista que o disco de estreia, Nausea fala sobre o amor e fá-lo já de forma madura e consciente e que nos conquista, por se servir de uma sonoridade envolvente e sedutora e mesmo nas instrumentais Instrumental e Still Fields (October 10, 1987) percebe-se que o amor está lá e que as melodias foram criadas tendo em conta esse sentimento único. No entanto, Komorebi é, talvez, a canção onde esta temática vibra de forma mais vincada e apaixonada, com o cruzamento entre uma melodia hipnótica e cativante com uma letra profunda e consistente, a ganhar contornos verdadeiramente únicos.

Ouvir Nausea é acompanhar os Craft Spells numa curiosa viagem orbitral, mas a uma altitude ainda não muito considerável, numa espécie de posição limbo, já que a maior parte das canções, apesar da forte componente etérea, são simples, concisas e diretas, mas sentidas na forma como resgatam as confissões amorosas de Vallesteros e as nossas, caso partilhemos da mesma compreensão sentimental. Espero que aprecies a sugestão...

Craft Spells - Nausea

01. Nausea
02. Komorebi
03. Changing Faces
04. Instrumental
05. Dwindle
06. Twirl
07. Laughing For My Life
08. First Snow
09. If I Could
10. Breaking The Angle Against The Tide
11. Still Fields (October 10, 1987)

 


autor stipe07 às 21:44
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Segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Field Report - Wings

Os norte americanos Field Report são de Milwaukee e liderados Chris Porterfield, a quem se junta Travis Whitty e Shane Leonard. O grupo não divulgava nenhuma canção desde 2012, mas vão regressar aos discos a 7 de outubro com Marigolden, através da Partisan Records.

Wings é o primeiro single divulgado do disco, um tema que fala de complicada relação de Chris com o álcool, além de refletir sobre a sua vida atribulada, muito por causa das constantes digressões a que um músico está sujeito. Confere...


autor stipe07 às 21:24
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Terça-feira, 8 de Julho de 2014

The Fresh And Onlys – House Of Spirits

Lançado através da Mexican Summer, House Of Spirits é o novo disco dos The Fresh & Onlys, um trabalho que sucede a  Long Slow Dance (2012) e ao EP Soothsayer (2013),  sendo já o quinto disco da carreira de um grupo que nasceu em 2008, natural de São Francisco e formado por Tim Cohen, Shayde Sartin, Wymond Miles e Kyle Gibson.

House Of Spirits é mais uma firme coleção de dez canções que mantêm os The Fresh & Onlys fiéis a um fio condutor, que exploram até à exaustão e com particular sentido criativo. É um filão que abraça todos os detalhes que o indie rock, na sua vertente mais pura e noise, lado a lado com a folk com um elevado pendor psicadélico.

Em relação a Long Slow Dance, o antecessor, House Of Spirits acaba por ter um elevado foco no rock, devido a um maior protagonismo das guitarras e canções como Who Let The DevilAnimal of One e April Fools são as que mais se aproximam desse registo, principalmente pelas letras e pela voz de Tim Cohen, que várias vezes nos remete para a nostalgia sombria dos anos oitenta.

O sabor a novidade é algo bem audível logo na canção que abre o disco, a empoeirada Home Is Where? e, logo a seguir, no single Who Let The Devil. No entanto, apesar da distorção e do cariz lo fi de vários arranjos, o controle e a harmonia estão sempre presentes, mesmo em Bells Of Paonia, o tema mais experimental do disco, uma balada que assenta num reverb de guitarra, conjugado com um teclado épico e com um registo bastante adoçicado na voz de Tim Cohen, um dos principais atributos desta banda. Esse cariz inventivo também é notório na envolvente Candy, uma canção com uma belíssima base melódica assente em belos acordes de cordas que se entrelaçam com samples de teclado e arranjos de sopro e também em Madness, um tema que progride da eletrónica até distorções hipnotizantes e que impressionam quem conhece o catálogo deste grupo norte americano.

Durante a audição do álbum é notória uma certa leveza nas canções, uma enorme busca do simples e do prático, o presentir que terá existido uma elevada fluidez no processo de construção melódica e honestidade na escrita e inserção das letras e, por isso, o resultado final acaba, na minha opinião, por ser bastante assertivo e agradável. House Of spirits é uma viagem criativa e experimental que faz uma espécie de súmula das referências noise, folk e psicadélicas, através de um som leve e cativante, com texturas psicadélicas que, simultanemente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

The Fresh And Onlys - House Of Spirits

01. Home Is Where?
02. Who Let The Devil
03. Bells Of Paonia
04. Animal Of One
05. I’m Awake
06. Hummingbird
07. April Fools
08. Ballerina
09. Candy
10. Madness

 


autor stipe07 às 18:27
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Segunda-feira, 7 de Julho de 2014

James – La Petite Mort

Depois de em 2008 terem surpreendido com o retorno aos lançamentos discográficos após um anunciado fim de carreira, com Hey Ma, os James de Tim Booth, Jim Glennie (baixo), Larry Gott (guitarra), Saul Davies (guitarra, violino), Mark Hunter (teclados), David Baynton-Power (bateria) e Andy Diagram (trompete), estão de regresso aos trabalhos de estúdio com La Petite Mort, o décimo terceiro longa duração deste coletivo britânico, natural de Manchester. La Petite Mort foi produzido por Max Dingel (The Killers, Muse, White Lies) e escrito em Manchester, Lisboa, Atenas e nas Highlands escocesas, tendo a morte da mãe de Tim Booth, uma referência importante da sua vida, servido de mote para o conteúdo lírico e emocional de dez canções que lidam com a mortalidade, mas sem aquele cariz fatalista e sombrio que frequentemente lhe é atribuido.

Conhecemos Tim Booth há três décadas, já o ouvimos cantar sobre imensas temáticas e muitos de nós apropriaram-se de vários dos seus poemas e canções para expressar sentimentos e enviar mensagens a pessoas queridas, mas é curioso começar a ouvir este disco e, logo em Walk Like You, escutarmos um Booth que declama com sentimento que ainda não o conhecemos verdadeiramente e que tem muito maisdentro de si para nos revelar. Percebe--se logo o cariz autobiográfico do disco e fica claro que o mesmo é uma forma honesta e sentida de exorcização de uma perca certamente traumática, mas que deve ser vivida, sustentada, acima de tudo, pelas boas memórias e recordações que o músico guarda dentro de si da mãe.

Nome maior da pop independente dos últimos 30 anos e detentores de mais de vinte singles que alcançaram o top britânico, os James testemunharam todos os movimentos musicais que foram aparecendo em Inglaterra e foram sempre uma alternativa credível, por exemplo, à britpop e seguem ainda firmes no seu caminho, iniciado quando na primeira metade da década de oitenta foram apontados como os candidatos maiores a dar sequência à herança inolvidável dos The Smiths.

Em La Petite Mort é procurado um equilíbrio entre o charme inconfundível das guitarras que carimbam o ADN dos James com o indie rock que agrada às gerações mais recentes e onde abunda uma primazia dos sintetizadores e teclados com timbres variados, em deterimento das guitarras, talvez em busca de uma toada comercial e de um lado mais radiofónico e menos sombrio e melancólico. A presença de Max Dingel na produção é o tiro certeiro nessa demanda, apesar de não ser justo descurar a herança que nomes como Gil Norton ou Brian Eno, figuras ilustres que já produziram discos dos James, ainda têm na sonoridade do grupo.

Este encaixe de novas tendências proorcionado por Max fica plasmado logo na já referida Walk Like You, uma canção onde os efeitos e os pianos ajudam as guitarras a fazer brilhar a voz vintage, mas ainda em excelente forma de Booth. Depois, Curse Curse está pronta para fazer vibrar grandes plateias, com os sintetizadores e o baixo, juntamente com a percurssão a conduzirem a canção. O rock alternativo dos anos noventa é o fio condutor de Moving OnGone Baby Gone exala U2 por todos os poros sonoros e Frozen Britain tem alguns detalhes que nos convidam a uma pequena e discreta visita às pistas de dança mais alternativas.

Uma das sequências mais interessantes de La Petite Mort é constituida pela balada Bitter Virtue, uma canção introspetiva e melancólica onde a voz de Booth assenta na perfeição, à qual se segue All In My Mind, o clássico tema orquestral conduzido pelo piano, com alguns detalhes das cordas e do trompete a darem à canção um clima romântico e sensível único e tipicamente James. A sequência termina com o mesmo piano, mas agora a tocar numa espécie de looping crescente, em Quicken The Dead, uma canção que é depois adornada por lindíssimos coros, pela mesma secção de sopro e por cordas implícitas mas deslumbrantes.

La Petite Mort chega ao ocaso com a sentida e confessional All I'm Saying e com a herança dos The Smiths vincada em Whistleblowers e, no fim, percebemos que acabámos de escutar um disco feito com bonitas melodias e cheio de detalhes que mostram que os James ainda estão em plena forma e conhecem a fórmula correta para continuar a deslumbrar-nos com o clássico indie rock harmonioso, vigoroso e singelo a que sempre nos habituaram, fazendo-nos inspirar fundo e suspirar de alívio porque, felizmente, há bandas que, pura e simplesmente, não desistem. Espero que aprecies a sugestão...

James - La Petite Mort

01. Walk Like You
02. Curse Curse
03. Moving On
04. Gone Baby Gone
05. Frozen Britain
06. Interrogation
07. Bitter Virtue
08. All In My Mind
09. Quicken The Dead
10. All I’m Saying


autor stipe07 às 21:21
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2014

First Aid Kit – Stay Gold

A Suécia foi sempre berço de projetos graciosos e embalados por doces linhas instrumentais, letras mágicas e vocalistas dotados de vozes hipnoticamente suaves. Hoje regresso à dupla feminina First Aid Kit, formada pelas manas Johanna e Klara Söderberg e talvez uma das melhores personificações de toda esta subtileza e amenas sensações que percorrem a produção musical da fervilhante Estocolmo. Dois anos depois de terem editado, The Lion’s Roar, o sempre difícil segundo disco, elas estão de regresso com Stay Gold, o terceiro álbum lançado pela dupla, no passado dia dez de junho através da Columbia Records e que mantém a força da tal pop distinta, plasmada no título do álbum e em toda a estrutura sonora que o compõe.

Depois de terem começado a carreira em 2008 com uma cover dos Fleet Foxes e de se terem estreado esse ano nos lançamentos com The Big Black & The Blue, ao terceiro disco as First Aid Kit comprovam que estão no auge da sua maturidade e do crescimento musical, na forma como exploram uma sonoridade mais sóbria e adulta, criando um catálogo sonoro envolvente, climático e tocado pela melancolia.

A instrumentação volta a ter como pano de fundo a música folk e a herança da América do Norte, mas as novidades que provam o referido elevado índice de maturidade são díspares. Antes de mais, é audível a procura de uma sonoridade ainda mais intimista e reservada, com um suspiro algo abafado e menos expansivo; Logo na primeira canção, em My Silver Lining, sente-se um elevado teor emotivo, possibilitado não só pela letra, mas também pelo peso da componente instrumental. Esse é, aliás, o outro fator relevante que justifica o fato de Stay Gold ser um verdadeiro passo em frente no aumento dos índices qualitativos do catálogo das duas irmãs, justificado pelo uso de alguns arranjos inéditos, dos quais se destacam uma flauta que, em The Bell, nos remete para influências da música celta.

Os coros do tema homónimo e, principalmente, a voz proeminente que domina Cedar Lane, em oposição à enorme cândura de uma letra que transborda fragilidade em todas as sílabas e versos (How could I break away from you?), são outras manifestações audíveis e concretas deste jogo dual em que Stay Gold encarreira, à medida que o alinhamento escorre pelos nossos ouvidos e esta mistura de força e fragilidade, nas vozes, na letra e no insturmentação, se equilibra de forma vincada e segura.

E por falar no registo vocal, o jogo de vozes entre ambas as protagonistas é, mais uma vez, um dos aspetos que mais sobressai e a produção está melhor do que nunca, com a banda a aperfeiçoar tudo o que já havia mostrado anteriormente, também na componente lírica e sem violar a essência das First Aid Kit, que adoram afogar-se em metáforas sobre o amor, a saudade, a dor e a mudança, no fundo tudo aquilo que tantas vezes nos provoca angústia e que precisa de ser musicalmente desabafado através de uma sonoridade simultaneamente frágil e sensível, mas também segura e equilibrada. 

Stay Gold será sempre um marco importante na carreira das First Aid Kit independentemente da composição do seu catálogo sonoro definitivo, não só pela forma como apresentam de forma mais sombria e introspetiva a sua visão sobre os temas que sempre tocaram estas duas irmãs, mas, principalmente, pelo forma madura e sincera como tentam conquistar o coração de quem as escuta com melodias doces e que despertam sentimentos que muitas vezes são apenas visíveis numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

First Aid Kit - Stay Gold

01. My Silver Lining

02. Master Pretender
03. Stay Gold
04. Cedar Lane
05. Shattered And Hollow
06. The Bell
07. Waitress Song
08. Fleeting One
09. Heaven Knows
10. A Long Time Ago

 


autor stipe07 às 22:41
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Sábado, 28 de Junho de 2014

Strand of Oaks - Heal

Goshen, no estado de Indiana, é o porto de abrigo do norte americano Timothy Showalter, o grande mentor do projeto Strand Of Oaks que, com quinze anos, no sotão de sua casa, se sentiu alienado do resto do mundo e percebeu que a música seria a sua cura e a composição sonora a alquimia que lhe permitiria exorcizar todos os seus medos, problemas eangúsitas. Esta é a ideia que suporta Goshen '97, o tema de abertura de Heal (cura), um disco que acaba de surpreender o universo sonoro, um compêndio de dez belíssimas canções, editado no passado dia vinte e quatro por intermédio da Dead Oceans.

Década e meia depois dessa visão, Timothy é hoje uma espécie de reverendo barbudo e cabeludo, que vagueia pela noite americana a pregar o evangelho segundo Neil Young ou Devendra Banhart; Encharcado, pega no piano, na viola elétrica e em sintetizadores cheios de efeitos e canta sobre tudo aquilo que o impeliu para o mundo da música, mas também sobre viagens sem destino, o amor, o desapego às coisas terrenas e a solidão.

O aparecimento de Devendra Banhart no começo da década passada teve uma importância única para o resgate das influências hippies bem como o fortalecimento de um som de oposição ao que propunham as guitarras típicas da cena indie norte americana, principalmente o que era construído em Brooklyn, Nova Iorque. Strand Of Oaks é mais um novo nome que arrisca, com sucesso, a mergulhar fundo na psicadelia folk que definiu a música dos anos sessenta, mas apoiado num som montado em cima de um imenso cardápio sonoro e musical que, de mãos dadas com uma produção irrepreensível, nos aproxima do que de melhor propõe a música independente americana contemporânea.

É curioso atravessar as pontes que Timothy construiu em Heal, tendo sempre como permissa a busca de uma súmula de referências noise, folk e psicadélicas. Ele consegue ir do caraterístico punk rock feito com um baixo proeminente e guitarras simultaneamente sombrias e carregadas de distorção, como se escuta em For Me ou na homónima Heal, até a uma toada mais pop que em Plymouth e Wait For Love, o tema que encerra de forma magnífica o disco, servem-se do mesmo baixo, mas agora acompanhado por um piano épico e sedutor, adornado por camadas sonoras ricas em detalhes implícitos, mas que nunca ofuscam o desejo de serem as cordas do baixo, na primeira, e as teclas do piano, na segunda, as pedras de toque para expor sentimentos com genuína entrega e sensibilidade extrema.

Heal tem uma atmosfera viciante e introspetiva, é um disco que se ouve de punhos cerrados com a convicção plena que tem conteúdo e que o mesmo, ao impelir-nos à reflexão interior, pode dar um pequeno contributo para que aconteça algo que faça o bem a nós próprios. É um disco que exala certeza e coerência nas opções sonoras que replica, um emaranhado de antigas nostalgias e novas tendências, que reproduzem toda a força neo hippie que preenche cada instante de um álbum tipicamente rock, mas que também se deixa consumir abertamente tanto pela música country como pela soul, referências que percorrem também algumas das dez canções e expandem os territórios deste artista verdadeiramente singular. A simbiose entre estes dois géneros possibilita que frequentemente se encontrem, como em Shut In, canção que explora ambas as referências de igual forma e prova que há uma feliz aproximação com o cancioneiro norte americano, suportado na herança de Bruce Springsteen.

Heal é um trabalho que, do vintage ao contemporâneo, consegue encantar-nos e fazer-nos imergir na intimidade de um Timothy sereno e bucólico, através de uma viagem cheia de versos intimistas que flutuam livremente, um compêndio de várias narrativas onde convive uma míriade alargada de sentimentos que, da angústia à euforia, conseguem ajudar-nos a conhecer melhor a essência do autor. É um disco simultaneamente amplo e conciso sobre as experiências do músico, mas também sobre o presente, a velhice, o isolamento, a melancolia e o cariz tantas vezes éfemero dos sentimentos, em suma, sobre a inquietação sentimental, o existencialismo e as perceções humanas, fecundadas numa espécie de penumbra sintética, onde a habitual riqueza instrumental da folk não foi descurada, mas com a eletrónica a ser também uma das forças motrizes que dá vida aos cerca de quarenta minutos que este disco dura. Obrigado ao Ricardo Fernandes pela dica e pela presença constante neste espaço e espero que aprecies a nossa sugestão...

1. Goshen '97
2. HEAL
3. Same Emotions
4. Shut In
5. Woke Up To The Light
6. JM
7. Plymouth
8. Mirage Year
9. For Me
10. Wait For Love


autor stipe07 às 14:32
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Sexta-feira, 27 de Junho de 2014

Thee Oh Sees - Drop

Depois de ter anunciado que os The Oh Sees de John Dwyer estariam numa espécie de período sabático e que Dwyer estava concentrado num novo projeto a solo chamado Damaged Bug, a banda surpreendeu, mostrou-se ativa e tem um novo disco lançado. O novo álbum desta banda onde a Dwyer se junta a roliça Brigid Dawson, chama-se Drop e viu a luz do dia a dezanove de abril, o último Record Store Day, através da Castle Face, a editora do prório Dwyer.

Penetrating Eye, o visceral tema de abertura de Drop, foi o primeiro single do álbum divulgado e depois da introdução sombria, a canção explode em cordas eletrificadas que clamam por um enorme sentido de urgência e caos, um incómodo sadio que não nos deixa duvidar acerca da manutenção do ADN dos Thee Oh Sees ao longo dos poucos mai de trinta minutos que duram as nove cançoes do disco, que curiosamente conclui com a balada The Lens, uma canção que surpreende pelos belíssimos arranjos orquestrais, onde não faltam inéditos instrumentos de sopro.

Oriundo do sempre profícuo cenário musical de São Francisco, uma cidade onde reside um verdadeiro manancial de bandas e projetos que assumem o gosto por sonoridades alternativas e onde sobressaiem nomes como Ty Segall ou Mikal Cronin, os Thee Oh Sees são outra referência local obrigatória e um dos grupos mais bem sucedidos do cenário indie norte americano. Já agora, Cronin participa em Drop, assim como Chris Woodhouse, Greer McGettrick e Casafis, outros intervenientes ativos do atual indie rock alternativo norte americano.

A viverem um período de intensa criação musical e aditar em média um disco por ano, apesar do tal anúncio de pausa, em Drop o casal continua a espicaçar ainda mais o arsenal instrumental que guarda no estúdio, com uma visão um pouco mais domesticada das guitarras relativamente a Floating Coffin ou Carrion Crawler/The Dream, dois antecessores da banda, mas ainda a transbordar de fuzz e de distorção, numa viagem que leva-nos do noise, ao grunge, passando pelo punk, o rock psicadélico, o surf rock e o rock lo fi típico da década de noventa, à medida que se sucedem canções simples, mas verdadeiramente capazes de empolgar os ouvintes.

Mas Drop não vive só das guitarras; Basta escutar-se o baixo em Savage Victory e em Transparent World para se perceber a importância que este instrumento também tem para a exploração de um som alongado, além de ser um factor decisivo para o abraço constante que junta o punk com a psicadelia, de modo a criar uma atmosfera verdadeiramente nostálgica e hipnotizante.

Escuta-se Drop e a sensação que fica é que os The Oh Sees atravessaram novamente as barreiras do tempo até uns vinte anos atrás mas, ao mesmo tempo, mantêm-se joviais e coerentes. Para delírio dos fiéis seguidores, o grupo de São Francisco mantém a sua insana cartilha de garage folk e rock blues com uma capacidade inventiva que se pronuncia instantaneamente, através de um desejo inato de proporcionar o habitual encantamento sem o natural desgaste da contínua replicação do óbvio. A verdade é que o som deles é uma espécie de roleta russa e um caldeirão de originalidade, que acaba por transportar o ouvinte para uma espécie de bad trip musical, através de um veículo sonoro que se move através de uma sucessão de loopings bizarros, mas ainda assim dançantes. Espero que aprecies a sugestão... 

01 – Penetrating Eye
02 – Encrypted Bounce (A Queer Song)
03 – Savage Victory
04 – Put Some Reverb on My Brother
05 – Drop
06 – Camera
07 – The Kings Nose
08 – Transparent World
09 – The Lens


autor stipe07 às 17:27
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Quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Hallelujah The Hills – Have You Ever Done Something Evil?

Os Hallelujah The Hills são uma banda indie de Boston, no Massachusetts, formada em 2005 e com Ryan Walsh, Joseph Marrett, Ryan Connelly, Briant Rutledge e Nicholas Ward na formação. Depois de Collective Psychsis Begone (2007) e Colonial Drones (2009), conheci-os em 2012 com No One Knows What Happens Next, um disco disponível para download gratuito no bandcamp da banda e agora, dois anos depois, regressaram aos lançamentos discográficos, no passado dia treze de maio, com Have You Ever Done Something Evil?, um álbum que contou com as participações especiais de Madeline Forster e Dave Drago, tendo sido gravado nos estúdios 1809 Studios, em Nova Iorque e produzido pela própria banda e Dave Drago.

Os Hallelujah The Hills são mais um daqueles bons exemplos de uma banda que aposta em discos que procuram reviver o espírito instaurado nas composições e registos memoráveis lançados entre as décadas de setenta e oitenta, álbuns que usam, quase sempre, artifícios caseiros de gravação, métricas instrumentais similares e até mesmo temáticas bem relacionadas com o que definiu esse período e que é hoje a génese daquilo a que chamamos indie rock alternativo. No fundo, baseiam-se numa simbiose entre garage rockpós punk e rock clássico.
Esta banda de Boston incorpora uma sonoridade crua, rápida e típica da que tomou conta do tal cenário lo fi inaugurado há mais de três décadas, mas também não descura o uso de arranjos que vão beber à herança radiante da folk. As cordas de Home Movies e de Pick Up An Old Phone, o primeiro single retirado do disco, a distorção subsequente nos dois temas e a secção de sopros do primeiro, transportam-nos para o âmago do cancioneiro norte americano e a aproximação a ambientes mais psicadélicos pressente-se em A Domestic Zone e em Do You Have Romantic Courage. O single é uma canção que deve a sua pujança à bateria e ao baixo, instrumentos com os quais a voz de Ryan encaixa na perfeição, algo sublimado com os coros que preenchem o refrão.
Mas o som dos Hallelujah The Hills também é capaz de ir à costa oeste, com o cariz lo fi mais típico da Califórnia a prevalecer em temas como We Are What We Say We Are, onde as guitarras aproximam-se particularmente do surf rock típico da década de sessenta.
Have You Ever Done Something Evil? é um disco concentrado no uso das guitarras, o grande ponto de acerto e movimento das diferentes composições. Essas guitarras têm o acompanhamento exemplar do baixo, que se destaca particularmente em Destroy This Poem e em The Possible Nows, canções que parecem ter viajado no tempo e amadurecido até se tornarem naquilo que são.
Nostálgico e ao mesmo tempo carregado de referências recentes, Have You Ever Done Something Evil? usa letras simples e guitarras aditivas, sendo clara a capacidade deste quinteto norte-americano em apresentar um som duradouro e sempre próximo do ouvinte, experiência que tem-se repetido à medida que cresce o catálogo da banda, que vai compilando com música, história, cultura, saberes e tradições, num pacote sonoro cheio de groove e de paisagens sonoras que contam histórias que a voz de Ryan sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Espero que aprecies a sugestão...

Hallelujah The Hills - Have You Ever Done Something Evil

01. We Are What We Say We Are
02. Try This Instead
03. Destroy This Poem
04. Do You Have Romantic Courage?
05. I Stand Corrected
06. Home Movies
07. A Domestic Zone
08. Pick Up An Old Phone
09. The Possible Nows
10. MCMLIV (Continuity Error)
11. Phenomenonology
12. You Got Fooled

 


autor stipe07 às 22:00
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Sexta-feira, 20 de Junho de 2014

Mimicking Birds – Eons

Nate Lacy, Aaron Hanson, Adam Trachsel são o trio que constitui os Mimicking Birds, uma banda norte americana de Portland, no Oregon, que acaba de surpreender com Eons, um traablho editado no passado da treze de maio através da Glacial Pace Records, estando o single Bloodlines disponivel para download gratuíto.

A introdução de Eons, com o efeito da guitarra e a batida de Memorabilia e uma melodia cinematográfica, prepara-nos para a entrada num universo muito peculiar, que ganha uma vida intensa e fica logo colocado a nú, sem truques, no dedilhar da viola de Acting Your Age e nos efeitos sintetizados borbulhantes e coloridos que a acompanham. Os Mimicking Birds apostam num universo feito por um indie rock que se cruza com detalhes típicos da folk e que só faz sentido se pulsar em torno de uma expressão melancólica acústica que este trio norte americano sabe muto bem interpretar, na senda de nomes como os Phosphorescent, os Wilco, os The War On Drugs ou os Lambchop, bandas que sabem hoje, na minha opinião, melhor que ninguém, como interpretar.

Eons é um trabalho que cresce quanto mais nos habituamos a ele; Há uma dinâmica entre sintetizadores e guitarras que o sustenta, mas a componente instrumental conhece poucos entraves e expande-se com interessante fluídez. A voz também se cruza elegantemente com os instrumentos e elementos como a lua, o sol, animais e cenários campestres apoderam-se da obra com extrema delicadeza. O disco é uma bela exposição sonora de sons e emoções, um trabalho bem mais expansivo e épico que o antecessor homónimo, que tinha uma elevada componente lo fi.

Um dos aspetos mais interessantes de Eons é a complexidade instrumental que suporta cada uma das canções, com alguns sons a serem quase impercetíveis, mas essenciais para a cadência e a vibração, com o baixo e a percussão a serem, talvez, o elemento estruturalmente dominante da esmagadora maioria das canções. Muitas vezes o dedilhar da viola é aquele detalhe que acaba por ser a cereja no topo do bolo de várias composições, cada uma delas com algo distinto.

Do excelente trabalho de guitarra que se escuta em Night Light e no rock de Spent Winter à abordagem mais eletrónica de Water Under Burned Bridges, ou da mais ambiental Seeing Eye Dog, Eons está cheio de exaltações melancólicas, cenários e sensações que se expressam com particular envolvência e que expõem sentimentos com genuína entrega e sensibilidade extrema. É impossível ouvir o single Bloodlines e não nos sentirmos profundamente tocados pela delicadeza e pela fragilidade que a canção transmite

O disco termina com a belissima e catártica Moving On e nesse epílogo percebemos que escutámos uma ode à América profunda e à ideia romântica de uma vida sossegada, realizada e feliz usando a santa triologia da pop, da folk e do rock. A receita é extremamente assertiva e eficaz e o disco reluz porque assenta num som leve e cativante e contém texturas delicadas que, simultaneamente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

Mimicking Birds - Eons

01. Memorabilia
02. Acting Your Age
03. Owl Hoots
04. Spent Winter
05. Bloodlines
06. Night Light
07. Water Under Burned Bridges
08. Wormholes
09. Seeing Eye Dog
10. Moving On

 


autor stipe07 às 22:09
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Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

Gui Amabis - Trabalhos Carnívoros

Lançado no início desta semana por cá, apesar de já ter sido editado há mais de umano no Brasil, Trabalhos Carnívoros é o novo disco do músico brasileiro Gui Amabis, um trabalho muito bonito e o sucessor de Memórias Luso/Africanas, o seu primeiro disco a solo, editado em 2011 e que, na altura, contou com a participação de Céu, Tulipa Ruiz, Criolo, Lucas Santtana e Tiganá e que tinha uma ligação muito especial com Portugal, até pelas raízes maternas do músico.

Esta ligação de Gui a Portugal ampliou-se quando recebeu o convite de Rita Redshoes para produzir o seu novo disco, Life Is A Second Of Love, uma experiência que, de acordo com a entrevista que Gui me concedeu e que podes conferir adiante, foi  um enorme sucesso porque gostou muito de trabalhar com a Rita, uma artista incrível, muito focada e assertiva.

Trabalhos Carnívoros é um disco mais introspetivo que o anterior, um álbum onde Amabis assume todas as vozes e se afirma como cantor e compositor. O disco demorou cerca de três meses a ser gravado e a produção foi feita em parceira com Regis Damasceno (Cidadão Instigado). A dupla escolheu as músicas, os tons, a sonoridade e andamento e depois convidou Samuel Fraga (bateria) e Dustan Gallas (guitarra) para completar os arranjos.

De acordo com o artista, cada canção tem uma inspiração, mas tem duas coisas ou situações que o inspiraram, caminhar e se banhar. É um disco de paisagens sonoras e imagéticas, retratos de certos momentos da sua vida e por vezes escreve pra tentar entender as coisas que sente.

Do samba ao rock, passando por alguns detalhes típicos da folk e da bossa nova, Gui assume-se como um autor versátil num disco que presenteia-nos com um amplo panorama de descobertas sonoras que faz com que o álbum seja uma espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito da novidade. Assim que o disco começa somos rapidamente absorvido pelo mundo caleidoscópico de Gui, um universo cheio de cores e sons que nos causam espanto, devido à impressionante quantidade de detalhes que Amabis coloca a cirandar quase livremente por trás de cada uma das canções que transbordam do disco. Ainda mais diversificado é o conjunto de ritmos, sons e incontáveis referências que borbulham enquanto se desenvolve Trabalhos Carnívoros; Sejam a pop agradável, nostálgica e nada descartável de Merece Quem Aceita e Pena Mais Que Perfeita, as pequenas transições pelo jazz e pela tal bossa nova em Trabalhos Carnívoros, o samba e a blues em Tiro e Um Bom Filme, ou mesmo todo o clima caliente de Consulta Mental, tudo se ouve como se estivessemos a fazer um grande passeio por diferentes épocas, estilos e preferências musicais.

Amabis dá as mãos a um emaranhado de referências que têm como elemento agregador a busca de um clima sonoro com uma elevado cariz ambiental, mas que não deixa de ser acolhedor, animado e otimista, muito por culpa de cordas luminosas e de alguns arranjos proporcionados por instrumentos de sopro que abrem janelas que nos permitem contemplar canções recheadas de versos intrigantes, instigadores e particularmente melódicos. Domina Trabalhos Carnívoros um som essencialmente bucólico, épico e melancólico, que pode servir de banda sonora para um mundo paralelo cheio de seres fantásticos e criaturas sobrenaturais, como ilustra a capa de um disco que exalta a carne e vê nela uma harmoniosa fonte de conhecimento e inspiração musical e espiritual de toda a espécie, de todos os tempos ou apenas de hoje. Trabalhos Carnívoros representa uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único. 

Além dos seus trabalhos de autor, Gui Amabis produziu grandes discos no Brasil tais como Vagarosa (2009) e Caravana Sereia Bloom (2012) da cantora Céu, São Matheus não é um lugar assim tão longe (2008) de Rodrigo Campos, Sonantes (2008) da banda Sonantes formado por ele, Rica Amabis, Pupillo, Dengue e Céu. Gui também trabalhou em várias bandas sonoras para filmes e séries de TV como: Collateral (2003), Lord of War (2004), Quincas Berro D'água (2010), Perfect Stranger (2007) Giovanni Improtta (2013), Bruna Surfistinha (2011), Filhos do Carnaval (2009) e Cidade dos Homens (2003). Confere abaixo a entrevista que Gui Amabis me concedeu e espero que aprecies a sugestão...

 

 

Depois do sucesso alcançado em 2011 com Memórias Luso/Africanas, o disco de estreia e onde ficaram logo patentes as tuas fortes ligações a Portugal, regressou aos lançamentos em 2012 com Trabalhos Carnívoros. Começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as expetativas para este novo trabalho?

Gui- Meu pai, desde que eu era um menino, sempre me dizia para não ter expectativas, pois a frustração seria quase certa, era uma espécie de doutrina, já que sempre fui um menino ansioso. Mas eu teimo em ter, acho que os portugueses vão entender minha poesia e sonoridade, e espero que as sintam também.

 

E, já agora, como nasceu esta forte ligação a Portugal e porque demorou o disco cerca de  dois anos a chegar a este lado do Atlântico?

Gui -Minha ligação com Portugal vem por conta da minha mãe, ela é filha de dois portugueses que emigraram pro Brasil no entre guerras. Essa avó, Firmina dos Prazeres Machado Cabral, foi a única com quem convivi, ajudou a me criar. Sinto que tenho valores parecidos com os daqui, além da genética. Lanço este disco somente agora por uma razão prática, somente neste momento um selo europeu se interessou.

 

Confesso que o que mais me agradou na audição de Trabalhos Carnívoros foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, que idealizaste para o álbum inicialmente? E o resultado final correspondeu ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Gui -Meu processo é uma constante mudança, até sentir que tudo faça sentido. Concordo consigo a respeito da sonoridade, tem muitos detalhes e melodias escondidas, tem que se ouvir muitas vezes para perceber. Mas ao mesmo tempo tento sempre limpar ao máximo os meus arranjos, deixando soar apenas o que é necessário. Neste caso tinha algumas melodias e ritmos nos ouvidos antes de começar a gravar, mas pra mim um arranjo é um organismo vivo, eu gosto que os músicos tragam ideias e que as coloquem em prática, portanto, cada um que entra muda a história.

 

Além de ter apreciado a riqueza instrumental, quer orgânica, quer eletrónica, e também a criatividade com que selecionaste os arranjos, gostei particularmente do cenário melódico destas tuas novas canções, que achei particularmente bonito. Em que te inspiras para criar as melodias? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions, ou as melodias são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?

Gui -Geralmente começo a compor pela letra, uma frase me vem à cabeça, geralmente com uma melodia implícita. Depois vem o trabalho de completar a mensagem que a frase carrega e achar o complemento melódico. Para mim é como se fosse um quebra-cabeças, um jogo. Mas a letra, para mim, carrega a sua melodia.

 

Em que te inspiras no processo de escrita das letras? Escreves muito na segunda pessoa... Trabalhos Carnívoros é um disco conceptual?

Gui -Cada canção tem uma inspiração, mas tem duas coisas ou situações que me inspiram, caminhar e me banhar, por incrível que pareça. Não acho que seja um disco conceptual, sinto que seja um disco de paisagens sonoras e imagéticas. São retratos de certos momentos da minha vida, por vezes escrevo pra tentar entender as coisas que sinto.

 

Também achei curiosa a forma como satirizas no conteúdo e constróis as rimas e a métrica dos teus poemas, na forma e parece perfeita a colagem à componente melódica. Qual a percentagem de inspiração e transpiração em tudo isto?

Gui -Pra mim cada frase carrega a sua melodia, eu preciso de silêncio e concentração pra conseguir ouvir. Depois do encontro desta fagulha vem o trabalho de composição propriamente dito, criar outras frases, e suas melodias, e que essas façam sentido em conjunto com a inicial. Às vezes este processo demora, já cheguei a ficar mais de um ano pra terminar uma música, e ainda hoje quero mudar… 

 

Confesso que fiquei particularmente surpreso com a simplicidade do artwork de Trabalhos Carnívoros, da autoria de Rafael Grampá. Como surgiu a ideia?

Gui -Conheci  Grampá em 2004 e ficamos amigos e atentos ao trabalho um do outro. Assim que terminei meu disco sabia que ele era quem ia fazer a capa. Mostrei o disco e ele veio com tudo pronto. Foi estranho, muito rápido e acertado. Sinto que foi como umas das minhas frases, que aparecem do nada, como se não fossem minhas. Foi um presente…

 

Pena mais que perfeita. teve direito a um excelente vídeo, dirigido por Júlio Andrade e o já citado Rafael Grampá, além de contar com a presença do ator Daniel Oliveira. Como surgiu a oportunidade de trabalhar com nomes tão importantes e a inspiração para o conteúdo tão interessante e intenso deste vídeo?

Gui -Pois este foi outro presente, um dia recebi um telefonema do Júlio Andrade dizendo que iam fazer um clipe pra uma música minha e que precisavam da minha ajuda.  Júlio e Grampá moravam na mesma casa e Daniel é um amigo próximo dos dois. Cheguei lá e já estavam todos prontos pra filmar, foi tudo captado num dia e depois me enviaram pronto. Não dei opinião nenhuma, achei que a música era suficiente, sabia que estava lidando com gente muito talentosa.

 

Na verdade, pelo que li, costuma rodear-se de outros artistas nos discos. Em trabalhos Carnívoros divide a produção do disco, e duas canções (Pena Mais que Perfeita Menino Horrível), com o também multi-instrumentista Regis Damasceno e com Dengue, baixista da Nação Zumbi, que toca na faixa Consulta Mental, composta em parceria consigo. Como consegue, também na vertente musical, agregar à sua volta nomes tão ilustres?

Gui -Valorizo muito meus parceiros e a parceria em si. Sou uma pessoa que se preocupa com a música e me sinto um cara de sorte por conseguir encontrar essas pessoas. Somos todos amantes da música, acho que é isso que nos une.

 

Tens um largo historial como produtor e compositor de bandas sonoras, além dos teus discos. Sendo letrista, cantor, compositor e produtor, qual destas vertentes te dá mais gozo explorar?

Gui -Gosto de todas elas, me sinto feliz em qualquer uma destas posições. Ultimamente tenho gostado muito de tocar ao vivo e cantar. Gosto muito da minha banda (Regis Damasceno - Baixo, Dustan Gallas - Guitarra, Richard Ribeiro - Vibrafone e Samuel Fraga - Bateria), me divirto muito nos ensaios e concertos. 

 

O que move Amabis é apenas uma espécie de folk e indie pop experimental, com travos de samba, jazz e blues, ou gostarias ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do seu futuro discográfico?

Gui -Já aí tem muita coisa. Não faço planos neste sentido, procuro escutar o que está ao meu alcance, espero que a música me traga esta surpresa.

 

Quais são as três bandas ou projetos atuais que mais admiras?

Gui -Cidadão Instigado, Siba e Kid Koala.

 

Quando é que podemos ouvir estas músicas ao vivo por cá?

Gui -Dia 08/07 faço um pequeno concerto na Casa Independente com uma formação quase acústica. Tiago Maia e Rita Redshoes vão-me acompanhar nesta noite. 

 

Não posso terminar sem te perguntar... Como surgiu a oportunidade de trabalhar com a Rita Redshoes e produzir Life Is A Second Love, o último disco dela?

Gui -Foi mais uma destas surpresas, recebi um email da Rita me convidando para este trabalho e aceitei porque gostei muito da voz e da sonoridade. Ela conheceu meu som quando escutou uma faixa do último disco da Céu “Caravana Sereia Bloom”, registro que produzi. Gostei muito de trabalhar com a Rita, é uma música incrível.  Muito focada e assertiva. Durante o processo conheci músicos incríveis. Gostei tanto que voltei para terminar meu terceiro disco aqui, já gravei um quarteto de cordas e devo gravar voz ainda este mês. 


autor stipe07 às 16:34
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Quarta-feira, 18 de Junho de 2014

Joseph Arthur – Lou

Lançado no passado dia treze de maio por intermédio da Vanguard Records, Lou é o novo disco de Joseph Arthur, um álbum de tributo a Lou Reed e que conta com as participações especiais de Mike Mills e Peter Buck, dos R.E.M..

Génio da indie folk e multi-instrumentista de créditos firmados, Arthur era amigo de Lou Reed, um artista fundamental na história da música dos últimos quarenta anos e que, como certamente todos se recordam, faleceu o ano passado. Lou é uma homenagem a essa figura incontornável da história do rock e a coletânea inclui doze originais de Reed interpretados por Arthur, sem nenhum instrumento elétrico, apenas com a voz, o piano e a viola a sustentarem as canções.

Com especial destaque para a versão de Walk On The Wild Side, talvez o tema mais conhecido da carreira de Lou Reed, mas onde também se incluem belíssimas versões de temas como Heroin ou as menos conhecidas Magic and Loss ou Coney Island Baby, Lou faz uma bonita e emocional súmula da carreira desse artista, em forma de homenagem profundamente sincera, com as próprias opções instrumentais de Arthur a serem fundamentais para realçar o cariz intimista e singelo de canções cm arranjos e letras que falam por si, que conseguiram sobreviver irosamente à erosão dos anos e que neste nova roupagem soam mais ainda atuais e profundamente harmoniosas. São, no fundo, novas pinturas sonoras, carregadas de imagens evocativas de outros tempos, pintadas com melodias acústicas bastante virtuosas e cheias de luz e arrumadas com arranjos meticulosos e lúcidos, que provam a sensibilidade de Arthur para expressar a sua profunda admiração por Reed.

Em Lou ecoam os clássicos com os quais Reed cresceu, cheios de letras assombrosas e camadas delicadas do sons e ritmos. Em termos de letras, aquela espécie de fantasmagoria típica de Reed impregna a poesia das canções e esta homenagem de Arthur é um compêndio extraordinário que nos recorda tempos idos, sonhos e um músico especial que não está mais aqui, mas que ainda existe na nossa memória e no coração de muitos de nós. Espero que aprecies a sugestão...

Joseph Arthur - Lou

01. Walk On The Wild Side
02. Sword Of Damocles
03. Stephanie Says
04. Heroin
05. NYC Man
06. Satellite Of Love
07. Dirty Blvd.
08. Pale Blue Eyes
09. Magic And Loss
10. Men Of Good Fortune
11. Wild Child
12. Coney Island Baby

 


autor stipe07 às 16:53
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Terça-feira, 17 de Junho de 2014

Sharon Van Etten – Are We There

Sharon Van Etten é resistente e não desiste. Apaixonada, persistente e impulsiva, é uma mulher madura que não desiste de perseguir os seus sonhos mais verdadeiros e raramente se envergonha por amar e por usar a música como forma de exorcizar os seus fantasmas e dar vida aos seus maiores devaneios. Lançado no passado dia vinte e seis de maio pela insuspeita Jagjaguwar, Are We There é mais um capítulo desta sua saga pessoal, o quarto álbum da carreira de uma cantora e compositora que com uma mão na indie folk e a outra no rock alternativo, letra após letra, verso após verso, abre-se connosco enquanto discute consigo mesma e coloca-nos na primeira fila de uma vida, a sua, que acontece mesmo ali, diante de nós.


Produzido pela propria SharonAre We There sucede ao aclamado Tramp, um trabalho que foi produzido por Aaron Dessner, dos The National e que, tendo sido tão elogiado, houve quem achasse que a bitola qualitativa do mesmo deveu-se, apenas e só, ao leque de convidados que Sharon agregou em seu redor nesse disco. Desta vez ela resolveu tomar as rédeas de todas as etapas do álbum e superou, na minha opinião tudo aquilo que já tinha conseguido apresentar no seu catálogo.

Escuta-se Are We There e o que mais impressiona é uma enorme sensação de sinceridade e o cariz fortemente genuíno das canções. A cantora construiu belíssimas melodias pop que se entrelaçaram com as letras e com a sua voz marcante com enorme mestria e, ao mesmo tempo, palpita uma notória sensação institntiva, como se ela tivesse deixado fluir livremente tudo aquilo que sente e assim potenciado a possibilidade de nos emocionarmos genuinamente com estas canções.

Sente-se que Sharon deu tudo, que não se escondeu nem se poupou, melodicamente e sentimentalmente e, por isso, todas as canções causam impacto e estão carregadas de sentimento. Ela foi simples e assertiva, sem deixar de nos tocar e de construir algo que podemos usar para explicar as nossas próprias angústias e dores. Ao repetir frases e expressões com a mesma melodia, mas onde uma única palavra é trocada ou adicionada, mudando todo o sentido da frase inicial, conseguiu transmitir uma sensação de continuidade de raciocínio, de passagem de tempo, com destaque, nesta estratégia, para o que propôs em Our Love.

Há uma fluidez nos arranjos que eleva para patamares de excelência essa importante vertente e do trompete de Tarifa ao piano descomunal de I Love You But I'm Lost ou I Know, passando pela percussão épca de You Know Me Well, tudo é equilibrado, faz sentido e ajuda a criar a imagem de uma Sharon com um coração quente mas com os pés bem firmes na terra, no Tennessee onde nasceu e para onde voltou recentemente, o local onde ela se sente mais confiante e sedutora, mas, nem por isso, menos densa.

Em Are We There, Sharon Van Etten torna claro que, às vezes, mais difícil do que murmurar sobre o amor é enfrentar o amor em si e aceitar o cariz frequentemente finito do mesmo, enquanto sentimento com contornos tantas vezes ambíguos e irracionais. O amor tem múltiplas facetas e este disco serve para nos nos ensinar como abrir o sotão onde guardamos as nossas dores e receios. Muitas vezes, vivemos uma vida inteira sem tocar nele com receio dos fantasmas que possamos despertar. Talvez seja mais fácil fazê-lo ao som deste disco. A única certeza do amor é mesmo ser sempre incerto. Espero que aprecies a sugestão...

Sharon Van Etten - Are We There

01. Afraid Of Nothing
02. Taking Chances
03. Your Love Is Killing Me
04. Our Love
05. Tarifa
06. I Love You But I’m Lost
07. You Know Me Well
08. Break Me
09. Nothing Will Change
10. I Know
11. Every Time The Sun Comes Up


autor stipe07 às 22:37
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Segunda-feira, 16 de Junho de 2014

Kishi Bashi – Lighght

 

Lançado no passado dia treze de maio, Lighght é o novo disco de Kishi Bashi, um multi-intrumentista de Athens, na Georgia e colaborador de nomes tão conhecidos como Regina Spektor e os Of Montreal e que se aventurou a solo em 2012 pela mão da Joyful Noise, com 151a, disco que era um enorme e generoso festim de alegria e descomprometimento, tal como acontece com este sucessor que viu a luz do dia por intermédio da mesma etiqueta.

Kaoru Ishibashi é o verdadeiro nome de um artista de ascendência japonesa, que começou a chamar a atenção em 2011, com apresentações surpreendentes, onde cantava e tocava violino e acrescentava uma caixa de batidas e sintetizadores, agregando novos e diferentes elementos e fazendo incursões em diversas sonoridades. Conhecido pela sua profunda veia inventiva, Kishi Bashi aposta num micro género da pop, uma espécie de ramificação barroca ou orquestral desse género musical, uma variante que vive em função de violinos, de arranjos claramente pomposos e cheios de luz e de vozes cristalinas, com o falsete a ser uma opção óbvia e constante.

O violino é mesmo o fio condutor de Lighght e a introdutória Debut – Impromptu e o single Philosophize In It! Chemicalize With It!, abrem o disco de forma a que ninguém tenha a mínima dúvida acerca de qual é o instrumento predileto de Bashi. Mas não é só da folk orgânica que o violino propicia que este trabalho vive e as batidas de The Ballad Of Mr. Steak e a melodia épica e exuberante de Carry on Phenomenon, mostram um Bashi impulsivo e direto, mas emotivo e cheio de vontade de nos pôr a dançar. Mesmo nos instantes mais melancólicos e introspetivos, como na dupla Hahaha e In Fantasia, não há lugar para a amargura e o sofrimento.

A música de Kishi Bashi tem muita da universalidade própria daquelas canções que aparecem em anúncios comerciais e que servem, por isso mesmo, para passar mensagens positivas e sedutoras e este músico acaba por ser exímio na forma como se apodera da música pop para pintar nela as suas cores prediletas de forma memorável e também influenciado pela música árabe e oriental. Assim, Lighght contém belos momentos com vocalizações e dedilhados de instrumentos variados que preenchem o som impecavelmente. Mas o músico também experimenta gravações ao avesso e arranjos etéreos, com tiques de new age, dando a cada uma das onze músicas uma sonoridade diferente e onde coloca, com particular mestria, elementos orgânicos lado a lado com pormenores eletrónicos deliciosos.

A audição deste disco faz-nos sentir que estamos a degustar a própria música, como se cada garfada que damos na canção nos fizesse sentir todos os elementos de textura, cheiros e sabores da mesma. Salvo uma ou outra excepção, a pop barroca de Lighght transmite a sensação de que os dias bons estão aqui para durar e que nada de mal pode acontecer enquanto se escuta todo este otimismo algo ingénuo e definitivamente extravagante, onde cabe o luxo, a grandiosidade e uma intemporal sensação de imunidade a tudo o que possa ser sombrio e perturbador. Este álbum impressiona pela forma como foi concebido, com tanto cuidado e criatividade, sustenta uma aura de felicidade, mesmo nos momentos mais contidos e prova que Kishi Bashi é um músico inventivo, de rara sensibilidade e que não tem medo de fazer as coisas da forma que acredita. Espero que aprecies a sugestão...

Kishi Bashi - Lighght

01. Debut – Impromptu
02. Philosophize In It! Chemicalize With It!
03. The Ballad Of Mr. Steak
04. Carry on Phenomenon
05. Bittersweet Genesis For Him AND Her
06. Impromptu No 1
07. Q&A
08. Once Upon A Lucid Dream (In Afrikaans)
09. Hahaha Pt. 1
10. Hahaha Pt. 2
11. In Fantasia

 


autor stipe07 às 21:45
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Sexta-feira, 13 de Junho de 2014

Papercuts – Life Among The Savages

Editado no passado dia doze de maio por intermédio da Easy Sound Recording Co., Life Among The Savages é o novo longa duração dos Papercuts, um projeto musical oriundo de São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos da América, liderado por Jason Robert Quever e que só não é um típico projeto a solo porque conta com a ajuda constante dos músicos David Enos, Frankie Koeller e Graham Hill, entre outros.

Desde o já longínquo ano de 2000 que os Papercuts dão cartas no universo indie rock na sua vertente mais pura e na folk com um pendor algo psicadélico e, dentro destes dois pilares, sempre se mantiveram fiéis a um fio condutor que exploram, até à exaustão e com particular sentido criativo. Still Knocking At The Door abre Life Among The Savages e percebe-se, imediatamente, com o clima sonoro que se escuta, abrilhantado pelo faslete de Jason, que há aqui atributos suficientes para afirmar que os Papercuts serão uma das bandas mais menosprezadas do cenário indie atual.

Mestres na construção de melodias, ao quinto disco os Papercuts aprimoram o habitual cruzamento feliz que costumam encetar entre elas e a voz, com a escolha assertiva dos arranjos a nunca ofuscar o brilho que as cordas sempre tiveram no catálogo dos Papercuts. Assim, em pouco mais de meia hora, as nove canções de Life Among The Savages juntam as típicas cordas da folk com riffs de guitarra cheios de distorção e alguns arranjos sintéticos, onde não falta uma componente lo fi e ruidosa, detalhes preciosos que ajudam a conferir uma tonalidade psicadélica a um disco cheio de personalidade, com uma produção cuidada e que nos aproxima do que de melhor propõe a música independente americana contemporânea.

O tema homónimo é um bom exemplo de como na indie folk também cabem elementos menos clássicos e mais ruidosos, com o sintetizador a conferir à canção um sugestivo pendor pop e que melodicamente cola-se com enorme mestria ao nosso ouvido. No entanto, há outros momentos que merecem amplo destaque e um deles é, sem dúvida, o jogo de cruzamentos entre o baixo das cordas e da viola no início de Staring At The Bright Lights, uma canção que sobressai no alinhamento devido à sua duração e à toada lenta que hipnotiza pelo clima denso e sombrio, mas épico, potenciado pelo aumento progressivo do nível de distorção da guitarra.

Até ao final do disco, também não pode ser ignorado o grande momento folk do disco encarnado por Family Portrait, o piano jovial e vintage de Easter Morning, a dedicatória sentida e feliz, sustentada pelo dedilhar sóbrio, mas emocionado e cheio de luz de Psychic Friends e Afterlife Blues, um tema que nos remete para o universo dos The Smiths, em especial no que diz respeito aos arranjos das cordas e à secção rítmica. O disco encerra com Tourist, uma canção monumental e com um forte cariz orquestral que nos leva numa viagem a um passado algo distante, até aos meandros da mais radiante psicadelia que os Led Zeppelin nos deixaram como herança e onde a voz de Jason atinge o auge interpretativo

A receita de Life Among The Savages é extremamente assertiva e eficaz. Entre cordas, um baixo vibrante, o falsete de Jason, uma bateria pujante, arranjos luminosos e simultaneamente lo fi e guitarras experimentais, o disco reluz porque assenta num som leve e cativante e contém texturas psicadélicas que, simultaneamente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Escutar este disco acaba por ser uma viagem criativa e experimental que faz uma espécie de súmula das tais referências noise, folk e psicadélicas. Espero que aprecies a sugestão...

Papercuts - Life Among The Savages

01. Still Knocking At The Door
02. New Body
03. Life Among The Savages
04. Staring At The Bright Lights
05. Family Portrait
06. Easter Morning
07. Psychic Friends
08. Afterlife Blues
09. Tourist

 


autor stipe07 às 18:15
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Quinta-feira, 12 de Junho de 2014

The Pains Of Being Pure At Heart – Days Of Abandon

Depois do homónimo registo de estreia edtiado em 2009 e do aclamado sucessor, Belong, lançado dois anos depois, a mesma fórmula assertiva que propõe verdadeiros tratados de indie pop açucarada, épica e cheia de luz, é a pedra de toque que sustenta o alinhamento de Days Of Abandon, o novo disco do projeto The Pains Of Being Pure At Heart, de Kip Berman e que, segundo o próprio, é um disco alegre e cheio de luz, apesar de, em determinadas canções, abordar temas sombrios e menos otimistas, com o lado mais complicado do amor e as experiências típicas de jovens adultos a serem o pão que sustenta versos confessionais que crescem em cima de massas acolhedoras de ruídos.

Oriundo de Nova Iorque, Berman consegue realmente ser um prodígio na criação de canções que estando envolvidas por um embrulho melódico animado, debruçam-se sobre sentimentos plasmados em letras às vezes amarguradas, um pouco à imagem da dicotomia e deste contraste agridoce de uma cidade que nunca dorme, mas que, apesar dessa constante animação, também é conhecida por albergar histórias de vida trágicas e por nem sempre corresponder aos desejos de quem aí procura o sonho americano.

Com uma mão na indie pop e a outra no noise e no shoegaze vintage, reinventado com particular mestria há uns trinta anos, The Pains Of Being Pure At Heart debruça-se sobre a melancolia e a nostalgia com canções cheias de ritmo e de audição simples, daquelas que provocam um inevitável sorriso, mesmo em quem vive momentos de menor predisposição para apreciar música alegre, com ritmo e luz. Kelly, uma canção que carrega consigo a herança dos The Smiths e Eurydice são dois temas que nos fazem abanar a anca quase sem nos apercebermos e que nos arrancam um sorriso que será sempre espontâneo.

Impecavelmente produzido, Days Of Abandon impressiona pela limpidez e pela forma divertida como Berman apresenta um novo conjunto de referências e propôe uma estética sonora livre de complicações e arranjos desnecessários. É uma espécie se som pop instantâneo, daquele que se coloca no leitor e basta clicar play, sem adicionar mais ingredientes â mente que a possiblitem absorver com detalhe e nitidez um alinhamento de dez canções que não distorcem em nada a herança que o projeto deixou nos dois discos anteriores e que são uma doce exaltação da dream pop que caminha de mãos dadas com a psicadelia e até com um certo experimentalismo, que temas como Simple and Sure ou A Teenager In love claramente demonstram.

Days Of Abandon começa e termina em poucos instantes, quase sem darmos por isso. E, pelo meio, passaram cerca de quarenta minutos cheios de boas melodias e de confissões (The Asp In My Chest), memórias que The Pains Of Being Pure At Heart foi armazenando num espaço familiar e doce, transformado em disco por um dos vocalistas e guitarristas mais interessantes e promissores do cenário indie e alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão... 

The Pains Of Being Pure At Heart - Days Of Abandon

01. Art Smock
02. Simple And Sure
03. Kelly
04. Beautiful You
05. Coral And Gold
06. Eurydice
07. Masokissed
08. Until The Sun Explodes
09. Life After Life
10. The Asp At My Chest

 


autor stipe07 às 17:51
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Segunda-feira, 9 de Junho de 2014

And The Giraffe - Yellow Dog Blues

Naturais de Gainsville, na Flórida, Nick Roberts e Josh Morris são os grandes suportes do projeto And The Giraffe, cuja sonoridade se insere na indie folk e que me faz lembrar bandas como os The Postal Service e Belle & Sebastian. Ao vivo e nas sessões de gravação costumam fazer-se acompanhar por John Gentile e pelo baterista Bryan Tewell.

Enquanto não editam um novo registo de originais criaram uma cover para o clássico Yellow Dog Blues, um original de W.C. Handy. Esta versão foi criada para um evento patrocinado pelo Studio 360, produzida por Joshua Morris e está disponível para download. Confere...

Ever since Miss Susan Johnson lost her Jockey Lee
There has been so much excitement and more to be

You can hear her moanin, moanin night and morn
I wonder where my easy rider’s gone

Cablegrams come of sympathy, telegrams go of inquiry
Letters come from down in ‘Bam and everywhere that Uncle Sam
Is even the ruler of delivery

All day the phone rings, but it’s not for me
At last good tidings fill my heart with glee
This message comes, oh from Tennessee

Dear Sue, your easy rider struck this burg today
On a southbound rattler sidedoor Pullman car
I seen him here and he was on the hog

Easy rider’s gotta stay away
So he had to vamp it, but the hike ain’t far
He’s gone where the Southern cross the Yellow Dog


autor stipe07 às 13:11
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Sábado, 7 de Junho de 2014

Yuko – Long Sleeves Cause Accidents

Lançado pela Unday Records a sete de abril último, Long Sleeves Cause Accidents é o mais recente disco dos belgas Yuko, uma banda que se divide por Ghent e Bruxelas e formada por Kristof (voz, guitarra), Karen (bateria, percussão), Jasper (guitarras) e Thomas (baixo). Long Sleeves Cause Accidents está disponível para audição na aplicação Spotify


A frase Long Sleeves Cause Accidents era usada como forma de aviso durante a II Guerra Mundial quando a mão de obra masculina foi substituida por mulheres nas fábricas, devido à partida de soldados para a linha a frente e um título feliz para um disco que resulta do trabalho árduo de Kristof Deneijs, o grande cérebro dos Yuko, incubado nos novos estúdios da banda e que viu finalmente a luz, três anos após As If We Were Dancing, o antecessor. Long Sleeves Cause Accidents é uma coleção de nove canções com uma sonoridade única e peculiar, paisagens sonoras que do post rock mais barroco à típica pop nórdica, estão impregnadas com uma beleza e uma complexidade tal que merecem ser apreciadas com alguma devoção e fazem-nos sentir vontade, no fim, de carregar novamente no play e voltar ao início.

O baixo de Dive! e a sonoridade orquestral e épica que vai crescendo em seu redor, conduz-nos logo para um lugar umas vezes calmo outras mais agitado, mas certamente distante, que consegue também ser alcançado muito por influência de uma voz que, algures entre Jónsi e Thom Yorke, parece conversar connosco. A melancolia de While You Figure Things Out é comandada por um som de guitarra, que aliado a outras cordas e ao piano, dão um tom fortemente denso e contemplativo à canção e juntamente com os timbres de voz de Casper, consegue trazer a oscilação necessária para transparecer mais sentimentos, fazendo dela mais um momento obrigatório de contemplar em Long Sleeve Cause Accidents. O groove de You Took A Swing At Me faz uma simbiose cuidada entre o jazz e a folk pop melancólica mais negra e introspetiva, com ritmos e batidas feitos com detalhes da eletrónica e que mesmo acompanhado por uma variada secção de metais, não colocam em causa uma faceta algo acústica. de uma canção cheia de otimismo (And I konw, you're not a disaster).

O momento alto do disco chega com First Impression, um dos singles já retirados deste álbum e que impressiona pelo tambor da percussão que, juntamente com o baixo, fazem a canção mudar constantemente de velocidade, preparando o caminho para as guitarras e a definir um rock melódico extasiante, que conta ainda com um baixo insistente e um desempenho fortemente emocional por parte de Casper. A beleza contagiante e a limpidez do dedilhar da guitarra e da voz em Usually You Are Mine, elevam os Yuko à dimensão de mestres da folk acústica, ampliada quando um coro gospel a exalar blues por todos os poros emerge de um sono profundo e converte-se num portento de sensibilidade e optimismo, a transbordar de amor, o mesmo amor sincero e às vezes sofrido que alimenta as distorções das guitarras, o ênfase da bateria e os lamentos do indie rock alternativo que cobre Justine Part 1.

Até ao fim impressiona ainda o post rock de She Keeps Me Thin, mas o que importa salientar mesmo é o constante sobreposição de texturas, sopros e composições jazzísticas contemplativas, uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades, um refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual. Long Sleeves Cause Accidents é um disco que tem como maiores trunfos uma escrita maravilhosa e os sublimes arranjos orquestrais que o sustentam e quando o disco chega ao fim ficamos com a sensação que acabou-nos de passar pelos ouvidos algo muito bonito, denso e profundo e que, por tudo isso, deixou marcas muito positivas e sintomas claros de algum deslumbramento perante a obra. Espero que aprecies a sugestão... 

Yuko - Long Sleeves Cause Accidents

01. Dive!

02. While You Figure Things Out
03. You Took A Swing At Me
04. First Impression
05. Usually You Are Mine
06. Justine Part 1
07. The Idealist
08. She Keeps Me Thin
09. A Couple Of Months On The Couch

 


autor stipe07 às 18:36
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Segunda-feira, 2 de Junho de 2014

Gruff Rhys – American Interior

Gruffydd Maredudd Bowen Rhys, nascido em 18 de julho de 1970, é um músico do País de Gales conhecido tanto pela sua carreira a solo como pela sua presença nos Super Furry Animals, banda que obteve relativo sucesso na década de noventa. Paralelo ao eficiente trabalho com os Super Furry Animals, Gruff Rhys também tem uma bem sucedida carreira a solo onde testa novas fórmulas, um pouco diferentes do rock alternativo com toques de psicodelia da banda.

A aventura a solo deste músico começou em 2005 com Yr Atal Genhedlaeth, um disco divertido e cantado inteiramente no idioma galês. Dois anos depois, com Candylion, o músico atinge ainda maior notoriedade com esse projeto que a crítica descreve como delicado e repleto de bons arranjos e onde se destaca também a participação especial do grupo de post rock Explosions in The Sky, além da produção impecável de Mario Caldato Jr, que já trabalhou com os Beastie Boys e os Planet Hemp, entre outros. Em 2011, com Hotel Shampoo, Gruff apostou em composições certinhas feitas a partir de melodias pop e uma instrumentação bastante cuidada, que exalava uma pop pura e descontraída por quase todos os poros. Três anos depois o galês está de regresso com American Interior, a banda sonora de um filme onde Rhys é também o ator principal e embarca numa viagem musical pela América repetindo a aventura do explorador e seu antepassado, John Evans, no século XVIII.

gruff rhys

John Evans partiu em 1792 em busca de uma tribo de índios americanos que julgava ser composta por seguidores de Madoc, o príncipe galês que a lenda diz ter embarcado para a América trezentos anos antes da viagem de Cristóvão Colombo. Gruff Rhys, acompanhado por Dylan Goch, que com ele assume a realização de American Interior (depois de já terem realizado juntos Separado!, em 2010), e pelo avatar do explorador com um metro de altura, partem para o interior da América e percorrem o caminho de Evans, tentando juntar as peças da vida misteriosa desta figura a quem se deve um dos primeiros mapas do Rio Missouri. Pelo caminho vão dando palestras e concertos, pesquisando os arquivos, a geografia e as gentes locais e compondo o álbum que resulta desta mesma viagem.

Este disco, lançado no passado dia cinco de maio na etiqueta Turnstile, é um projeto multimédia que prevê também a publicação de um livro e um filme, ambos com o mesmo nome do disco, para que, através da fusão de diferentes plataformas seja possível criar uma experiência multi-sensorial que conte a incrível história real de John Evans.

As treze canções de American Interior são o resultado esperado quando um relato histórico de viagens de exploração de território se une a um universo de sons psicadélicos. Há diversos instrumentais e logo em American Exterior, com os sintetizadores, é dado o mote que depois com o piano, a voz sintetizada e a percussão de American Interior. A típica soul e a folk norte americana invade os nossos ouvidos em 100 Unread Message, uma música que, por si só, é já uma verdadeira viagem pela América, com arranjos acústicos particularmente deslumbrantes e cheios de luz.

A partir daí mergulhamos fundo na psicadelia folk que definiu a música dos anos sessenta, com American Interior a aproximar-se frequentemente de uma musicalidade calcada em antigas nostalgias, num disco que se deixa consumir abertamente tanto pela música country como pela soulnuma simbiose entre a pop e o indie rock com estes dois géneros, num processo que possibilita que eles se encontrem, como em The Wheter (Or Not) e The Last Conquistador, canções onde a folk, na primeira e a soul na segunda, são referências exploradas de igual forma, o que prova que há uma tentativa descarada, mas feliz, de aproximação com o cancioneiro norte americano

Ao longo do disco, umas vezes somos embalados e outras dançamos ao som de simples acordes, várias vezes dispostos em várias camadas sonoras, com uma naturalidade que impressiona os mais incautos, à semelhança da naturalidade com que a voz do Rhys encaixa na melodia das canções. Percebe-se com naturalidade que o músico mantém-se inventivo, principalmente quando converte o que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico.

America Interior é, sem dúvida, um trabalho coeso, dinâmico e concetual e um marco na trajetória deste músico. O melhor exemplo dessa aproximação com um resultado temático está na condução pop do single homónimo, mas tão grande quanto o território que carrega no título, America Interior transporta um infinito catálogo de sons e díspares referências que parecem alinhar-se apenas na cabeça e nos inventos nada óbvios de Rhys. Espero que aprecies a sugestão...

Gruff Rhys - American Interior

01. American Exterior
02. American Interior
03. 100 Unread Messages
04. The Whether (Or Not)
05. The Last Conquistador
06. Lost Tribes
07. Liberty (Is Where We’ll Be)
08. Allweddellau Allweddol
09. The Swamp
10. lolo
11. Walk Into the Wilderness
12. Year Of The Dog
13. Tiger’s Tale

 


autor stipe07 às 19:01
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Terça-feira, 27 de Maio de 2014

Cervelet - Janeiro

Oriundos de  Jaboticabal, no estado de São Paulo, uma cidade de setenta mil habitantes, fundada por portugueses e onde prosperam cinco universidades, os brasileiros Cervelet de Guto Cornaccioni, Iuri Nogueira, Tiko Previato e Vitor Marini, são uma banda que diz misturar cerveja com música, poesia e liberdade e que, por isso, se considera a banda mais estranha da cidade! Ou não... Canções de Passagem é o disco de estreia dos Cervelet, um trabalho disponivel para download gratuito na página oficial da banda e que divulguei por cá há algumas semanas.

Regresso aos Cervelet para divulgar que a banda acaba de lançar o video de Janeiro, um dos destaques de Canções de Passagem. Escrita por Tiko Previato, a canção dá vida a um poema lindíssimo e assenta numa instrumentação radiante que pende ora para a folk, ora para a indie pop adocicada e acessível.

O video de Janeiro foi dirigido por Deivide Leme em parceria com Priscila Pina e o tema está disponível para download no soundcloud dos Cervelet. Confere...

Quando o Sol bateu e trouxe, enfim
A luz que faltava pra ver
Todo caminho é uma canção
Livre e sublime como o ar
Estávamos presos em outra dimensão
Tínhamos vendas pra calar
Nossas verdades são nossas manhãs
Simples e calmas pra enxergar além


autor stipe07 às 12:44
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Sábado, 24 de Maio de 2014

Birch House – The Thaw EP

Birch House é o  projeto musical de Greg Bothwell, um músico norte americano oriundo de Windsor, no Connecticut e The Thaw o seu mais recente trabalho, um EP com sete canções disponível no bandcamp de Birch House, gratuitamente, mas com a possibilidade de doares um valor pelo mesmo.

Influenciado por nomes tão distintos como Bon Iver ou os prórios The National, Birch House aposta  numa indie folk quase sempre com um cariz clássico, introspetivo e acústico, típica de uma América profunda. Mais do que outros músicos, bandas ou projetos, Greg parece ser influenciado pelas paisagens simultaneamente espetaculares e melancólicas de uma América cosmopolita, mas com locais onde ainda se vive séculos de isolamento e dificuldades e onde reside uma população, com traços peculiares de caráter, bem expressos na cândura orgânica e introspetiva das suas canções.

Nest, uma canção que evoca John Cale, Where Books Grow Old, ou o piano guiado pelo acorde minimal de guitarra de A Thousand Miles Into The Sea, são os três temas do EP que, com uma toada fortemente acústica, melhor retratam esta imagem pictórica que a música de Birch House nos sugere, mas há outros temas mais transparentes e cheios de cor.

O EP abre com o single I Retreat!, uma canção aberta e expansiva, assente em cordas alegres e luminosas e num sintetizador, que é detalhe único num EP eminentemente orgânico. Esta maior abertura mantém-se em Sleeping In Silk e aprimora-se ainda mais na já citada Nest.

A música de Birch House é uma espécie de pintura sonora carregada de imagens evocativas, pintadas com melodias acústicas bastante virtuosas e cheias de cor e arrumadas com arranjos meticulosos e lúcidos, que provam a sensibilidade de Greg para expressar pura e metaforicamente a fragilidade humana. E não restam dúvidas que ele combina com uma perfeição raramente ouvida a música pop com sonoridades mais clássicas. Espero que aprecies a sugestão...

Birch House - The Thaw

01. Retreat!
02. Sleeping In Silk
03. Past, Present, Future
04. Nest
05. Where Books Grow Old
06. A Thousand Miles Into The Sea
07. I Was Here


autor stipe07 às 21:44
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Sexta-feira, 23 de Maio de 2014

Oliver Wilde - Red Tide Opal In The Loose End Womb

Natural de Bristol e funcionário numa loja de discos, o cantor, produtor e compositor Oliver Wilde captou a atenção da imprensa musical especializada britânica quando lançou o ano passado A Brief Introduction To Unnatural Lightyears, o seu disco de estreia, rotulado como um verdadeiro tratado de pop psicadélica e que lhe valeu comparações com nomes tão relevantes como Mark Linkous ou Bradford Cox. Cerca de um ano depois Oliver está de regresso com um novo disco intitulado Red Tide Opal In The Loose End Womb, um trabalho que viu a luz do dia a cinco de maio através da Howling Owl Records


A Brief Introduction To Unnatural Lightyears, provocou um impacto intenso numa vasta legião de críticos musicais e ficou nas listas dos melhores de muitos deles, curiosamente como uma espécie de segredo bem guardado, que poucos quiseram revelar, o que fez com que Oliver Wilde se mantivesse internacionalmente na penumbra, como um tesouro escondido, mas que agora, com Red Tide Opal In The Loose End Womb, já não é possível mais ocultar.

As doze canções deste seu novo álbum mantêm a elevada bitola qualitativa do disco de estreia e estão cheias de melodias únicas, onde vagueiam e pairam letras sofisticadas, que criam imagens oníricas e sensíveis, às quais Oliver dá vida e reproduz impecavelmente com a sua voz única e sussurrada, mas que tem algo de profundo e celestial. O amor, a solidão, o abandono, a vida e a morte, servem-lhe como assunto e, sendo conceitos relacionados com a crueza da realidade, falam do universo de um jovem adulto, fazendo-o de forma a deixar-nos com um enorme sorriso nos lábios quando somos confrontados com a beleza melódica de que este artista se serve para atingir tal desiderato. 

On This Morning foi o primeiro avanço divulgado do disco e depois chegou a vez de Play & Be Saved. Destaques maiores do disco juntamente com a épica e animada Stomach Full Of Cats, são exemplos exuberantes, cheios de arranjos que, juntamente com a voz de Wilde, dão um cariz efervescente, melancólico e onírico a três temas cheios do brilho e da cor transversais a todo o alinhamento de Red Tide Opal In The Loose End Womb. Essa atmosfera única e vibrante é construída por Oliver tendo por base as cordas, às quais vai adicionando mantos de sons eletrónicos e samplers, de forma a que na sua música palpite uma evidente psicadelia pop que ressuscita com elevado charme com as típicas orquestrações do universo sonoro lo fi .

Ouvir a música de Wilde é passear por um universo feito de exaltações melancólicas, ao som de uma receita que recorta e sobrepõe uma sujidade sonora apenas aparente, para criar melodias únicas e coloridas, detalhes que oferecem ao estilo de Oliver wilde o tal cariz pop lo fi, fortemente emocional e, longe de óbvio, à medida que cruza a folk eletrónica com a pop lo fi, de forma particularmente sofisticada e emotiva. Red Tide Opal In The Loose End Womb é uma da melhores surpresas da primeira metade de 2014. Espero que aprecies a sugestão...


1. On This Morning
2. Stomach Full of Cats
3. St. Elmo's Fire
4. Say Yes To Ewans
5. Plume
6. Smiler
7. Play & Be Saved
8. Pull
9. Rest Less
10. Balance Out 
11. Night In Time Lapse (Somewhere Safe)
12. Vessel


autor stipe07 às 22:12
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Quinta-feira, 22 de Maio de 2014

Douga - The Silent Well

Naturais de Manchester e liderados pelo multi-instrumentista Johnny Winbolt-Lewis, aos quais se junta John Waddington (baixo e teclas) e o violinista e guitarrista convidado DBH, os Douga são uma banda de indie rock que mistura a psicadelia com alguns dos melhores detalhes do rock experimental contemporâneo. Editaram no passado dia dezanove de maio, através da Do Make Merge Records, The Silent Well, o disco de estreia do grupo, gravado nos estúdios BlueSCI, em Trafford, com a ajuda de Raúl Carreño. 

A peculiar e distinta receita de The Silent Well acaba por ser eficaz e quer a fórmula, quer as intenções conceptuais do disco, ficam claras, desde o início. As nove canções polidas do álbum assentam nos riffs de guitarra viscerais de Johnny, nas batidas pulsantes, um baixo muitas vezes frenético e em sintetizadores muito direcionados para o krautrock, mas também há cordas que convidam ao recolhimento e à reflexão profunda.

Kids Of Tomorrow, o single que está a lançar esta banda para a ribalta, tem uma atmosfera única e pode ser caraterizado como um instante de indie rock psicadélico verdadeiramente extraordinário, assente numa melodia grandiosa e espacial, envolvida em camadas de guitarras distorcidas e sintetizadores incisivos e luminosos. Esta canção está disponível para download gratuito e deixou-me a salivar de há dois meses para cá por este disco de estreia dos Douga, que não defraudou as expetativas. Logo a seguir, Still Waters aponta para caminhos ainda mais experimentais e simultaneamente etéreos, com a primazia das cordas  e da acústica a mostrar uns Douga fortemente ecléticos e inspirados na criação de melodias que se entranham com invulgar mestria nos nossos ouvidos, mesmo quando, um pouco à frente, a guitarra elétrica distorce-as dando-lhes um teor ainda mais grandioso e épico. Há um segredo muito bem guardado em Chains, uma canção que começa com o dedilhar de uma viola e que depois sobre, de degrau em degrau, até uma espécie de climax, enquanto recebe vários efeitos sintetizados e a bateria aumenta a batida.

Por falar em bateria, não é possível deixar passar em claro o som peculiar da bateria eletrónica que se escuta em Blue Is Nothing, uma das canções mais profundas de The Silent Well e onde nos podemos deitar numa nuvem de sons sintéticos que criam uma melodia hipnotica, porque é repetitiva, mas muito bonita, irresistivel e reconfortante. É delicioso escutar esta música e perceber, detalhadamente, o arsenal de efeitos e sons que vão sendo acrescentados ao longo de quase sete minutos que são uma verdadeira espiral sonora que nos prende até ao final.

Em The Silent Well é possível aceder a canções oriundas de uma outra dimensão musical, com uma assumida e inconfundível pompa sinfónica, típica das propostas indie de terras de Sua Majestade e sem nunca descurar as mais básicas tentações pop e onde tudo soa utopicamente perfeito.

Há uma beleza enigmática nas composições dos Douga feita com belas orquestrações que vivem e respiram lado a lado com as distorções e arranjos mais agressivos. Durante a audição sente-se todo o esmero e a paciência dos Douga em acertar os mínimos detalhes de um disco onde, das guitarras que escorrem ao longo de todo o trabalho, passando pelos arranjos de cordas, pianos, efeitos e vozes, tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração audível tivesse um motivo para se posicionar dessa forma. Ao mesmo tempo em que é possível absorver a obra como um todo, entregar-se aos pequenos detalhes que preenchem o trabalho é outro resultado da mais pura satisfação, como se os Douga projetassem inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção, assentes num misto de pop, psicadelia, rock progressivo e soul. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:49
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Terça-feira, 20 de Maio de 2014

Coves – Soft Friday

Formados pela dupla Beck Wood, a vocalista e John Ridgard, o guitarrista, os britânicos Coves são uma das novas sensações do cenário indie de terras de Sua Majestade, devido a Soft Friday, o disco de estreia, editado no passado dia trinta e um de março por intermédio da Nettwerk Music Group.

No início dos ano noventa a expansão do rock alternativo e o surgimento do grunge levaram o fenómeno cultural musical a um novo patamar de desenvolvimento e os Coves parecem apostados em tentar uma simbiose sonora que tenha uma forte componente nostálgica e que agregue ruídos, tiques e melodias de várias décadas. Da música pop dos anos sessenta e oitenta e do rock lo fi da década de noventa, passando pelo experimentalismo pop da primeira década do novo século, tudo funciona como um grande pano de fundo do trabalho dos Coves.

Soft Friday está impecavelmente produzido e envolto numa aúrea de mistério muito sedutora, através da feliz mistura entre guitarras e sintetizadores, que têm na componente melódica, eminentemente romântica e introspetiva, uma correspondência clara com letras sombrias e pouco otimistas, com a própria voz de Beck a acentuar todo este cenário algo sofrido.

A dupla personalidade também é característica do projeto, inscrita num estado sentimental indeciso, ora leve, ora devastado e bastante evidente, nomeadamente quando misturam o som sessentista com a dream pop da atualidade e o som progressivo algo que, por exemplo, Beatings claramente demonstra ao congregar inicialmente uma vasta riqueza instrumental com a produção retro e alguns arranjos tipicamente folk e depois, na reta final, ao deixar a distorção das guitarras tomar conta da canção.

O reforço desta abordagem heterogénea também se sente em Wake Up, canção assente numa eletrónica de cariz eminentemente rock, muitas vezes misturada com detalhes caraterísticos da pop, ou seja, feita com sons sintetizados, ressuscitados muitas vezes nos anos oitenta ou no trip-hop da década seguinte, misturados com guitarras com um apreciável nível de distorção e batidas e elementos da percussão que dão um certo travo obscuro ao clima geral.

O ponto alto do álbum chega com Cast A Shadow, uma bela melodia, com arranjos que dão à canção uma densidade particularmente rica e detalhada e, no fim, ficamos com a sensação que escutámos uma banda que tem uma capacidade impar para nos afundar num colchão de sons que satirizam a eletrónica retro e, simultaneamente, mostrar-nos algumas pistas em relação ao futuro próximo de parte da eletrónica. Espero que aprecies a sugestão...  

Coves - Soft Friday

01. Fall Out Of Love
02. Honeybee
03. Beatings
04. Last Desire
05. Let The Sun Go
06. No Ladder
07. Cast A Shadow
08. Fool For You
09. Bad Kick To The Heart
10. Wake Up

 


autor stipe07 às 21:56
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Segunda-feira, 19 de Maio de 2014

Woods – With Light And With Love

Editado no passado dia quinze de abril através da Woodsist, etiqueta da própria banda, With Light And With Love é o sétimo tomo da carreira discográfica dos Woods, uma banda norte americana oriunda do efervescente bairro de Brooklyn, bem no epicentro da cidade que nunca dorme e liderada por Jeremy Earl.

A carreira dos Woods impressiona pelas aparentes inflexões sonoras que vão propondo à medida que publicam um novo alinhamento de canções mas, na verdade, eles sempre se mantiveram fiéis a um fio condutor, mas do qual exploram, até à exaustão e com particular sentido criativo, todos os detalhes que o indie rock, na sua vertente mais pura e noise e a folk com um elevado pendor psicadélico permitem. Estes são os grandes pilares que, juntamente com o típico falsete de Jeremy, orientam o som dos Woods e, na verdade, estando presentes com elevada qualidade em With Light And With Love, servem para comprovar que estes Woods são, talvez, uma das bandas mais menosprezadas do cenário indie atual.

As dez canções de With Light And With Love juntam então as típicas cordas da folk com riffs de guitarra cheios de distorção e alguns arranjos sintéticos com uma forte componente lo fi e ruidosa, que ajudam a conferir uma tonalidade psicadélica a um disco cheio de personalidade, com uma produção cuidada e que nos aproxima do que de melhor propõe a música independente americana contemporânea.

Gravado em casa do líder da banda, este álbum terá certamente obrigado a algum investimento de material já que, quem conhece a discografia dos Woods, percebe que ao longo do tempo tem melhorado a qualidade do som do grupo, que soa cada vez mais limpo e atrativo, mas sem perder aquele charme noise que é tão caraterístico dos Woods.

O disco começa num clima ameno e relaxante com Shepherd e depois Shinning e, mais adiante, Leaves Like Glass serão as duas canções que mais facilmente chegarão às massas, exemplares sonoros com arranjos deliciosos, com um sugestivo pendor pop e que melodicamente colam-se com enorme mestria ao nosso ouvido. No entanto, há outros momentos que merecem amplo destaque e um deles é, sem dúvida, o tema homónimo que, além de sobressair do alinhamento devido àc sua longa duração, contém solos de guitarra com riffs marcantes, num clima denso e sombrio, mas épico. Acaba por ser uma viagem criativa e experimental que faz uma espécie de súmula das tais referências noise, folk e psicadélicas. Também não pode ser ignorado o grande momento folk do disco encarnado por Twin Steps, Full Moon e Moving to The Left, o tema que, além do homónimo, nos remete para o universo dos The Flaming Lips, em especial no que diz respeito ao baixo e à secção rítmica.

Em suma, a receita de With Light And With Love é extremamente assertiva e eficaz. Entre cordas, um baixo vibrante, o tal falsete, uma bateria pujante, arranjos luminosos e simultaneamente lo fi e guitarras experimentais, o disco reluz porque assenta num som leve e cativante e contém texturas psicadélicas que, simultanemente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

Woods - With Light And With Love

01. Shepherd
02. Shining
03. With Light And With Love
04. Moving To The Left
05. New Light
06. Leaves Like Glass
07. Twin Steps
08. Full Moon
09. Only The Lonely
10. Feather Man

 


autor stipe07 às 23:15
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