Quinta-feira, 28 de Abril de 2016

PJ Harvey - The Hope Six Demolition Project

Let England Shake (2011), o último registo de originais da britânica PJ Harvey, já tem, finalmente, sucessor. As onze canções que fazem parte do alinhamento de The Hope Six Demolition Project viram a luz do dia a quinze de abril à boleia da Island Records e marcam o regresso de PJ Harvey a territórios sonoros mais elétricos, crus e rugosos, um retorno que, quanto a mim, se saúda.

Nono disco da carreira de Pj Harvey, The Hope Six Demolition Project não pode ser analisado autonomamente relativamente ao antecessor Let England Shake, apesar da inflexão sonora acima referida, mais que não seja pela abordagem política das novas canções desta autora e que se basearam em alguns factos atuais, mas também outros que sucederam há um século, na primeira guerra mundial. O produtor Flood e o realizador Seamus Murphy tiveram uma importante palavra a dizer neste aspecto, com o resultado final a ser um interessante e contemprâneo retrato de uma Inglaterra cada vez mais cosmopolita e que vive atualmente em aparente contradição, já que não renega orgulhosamente só as suas raízes e tradições, ao mesmo tempo que pretende ser um baluarte e referência na integração de diferentes culturas e povos na sua sociedade.

Viagens a acampamentos de refugiados e a destinos tão díspares como Afeganistão, Kosovo ou Wasghington, fizeram parte do cardápio que inspirou The Hope Six Demolition Project, um álbum que é, claramente, um documentário sobre uma realidade que está na ordem do dia e sobre o qual PJ Harvey se debruça com particular emoção lirica e um arrojo e uma crueza sonora que já faziam falta no catálogo mais recente da autora. Na verdade, logo na imponência de The Community Of Hope, percebemos qual é o edifício sonoro que vai sustentar o disco, um agregado de influências que vão do rock cinematográfico de A Line In The Sand ao blues mais cru, exemplarmente expresso na sombria e seca Chain Of Keys e no ritmo de Orange Monkey, passando por alguns tiques da folk ancestral, audíveis em River Anacostia e do próprio punk e que a bateria marcial de Ministry of Defense amplia.

Álbum claramente interventivo, declaradamente político e avassalador no modo como espelha o mundo atual e alguns dos seus maiores flagelos, The Hope Six Demolition Project é um documento obrigatório para todos aqueles que apreciam PJ Harvey, mas também para quem só agora se predispõe a explorar o seu catálogo, não só porque comprova a boa forma de uma artista relevante, mas também porque prova como ela sabe honrar e preservar o seu espólio e acrescentar-lhe novos acertos e estéticas, com uma bitola qualitativa elevadíssima. Espero que aprecies a sugestão...

PJ Harvey - The Hope Six Demolition Project

01. The Community Of Hope
02. The Ministry Of Defence
03. A Line In The Sand
04. Chain Of Keys
05. River Anacostia
06. Near The Memorials To Vietnam And Lincoln
07. The Orange Monkey
08. Medicinals
09. The Ministry Of Social Affairs
10. The Wheel
11. Dollar, Dollar


autor stipe07 às 23:02
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Terça-feira, 12 de Abril de 2016

Benjamim - Volkswagen & Doc. Auto Rádio

Depois do Walter Benjamin, o Luis Nunes resolveu ser só Benjamim, escrever em português, montar arraiais na pacatez de Alvito, deixando Londres para trás e nessa linda vila alentejana montou um estúdio de gravação, por onde têm passado alguns músicos e projetos nacionais que têm merecido amplo destaque por cá, neste espaço de crítica e divulgação sonora.

(pic Gonçalo Pôla)

Benjamim também abriu as hostilidades em relação à sua nova carreira a solo e Auto Rádio, um dos melhores discos nacionais de 2015, foi o primeiro passo de um percurso cheio de anseios e expectativas e que até resultou numa espécie de Volta a Portugal, materializada numa sequência de concertos de norte a sul do nosso país, durante trinta e três dias seguidos e que, nas palavras do próprio Benjamim, foi a digressão mais extensa e intensa que já aconteceu em Portugal, tendo passado por festas populares, associações culturais, festivais, bares, esplanadas, no meio da rua, num castelo, coretos e tabernas onde o músico tocou para todos os tipos de público que se pode encontrar. Gonçalo Pôla, amigo do músico, encarregou-se do registo foto-videográfico desta empreitada e elaborou um diário de estrada, um documento visual e sonoro precioso, não só para a percepção mais nítida do conteúdo musical e conceptual de Auto Rádio, mas também como documento de estudo de uma outra realidade muitas vezes ignorada do universo dos concertos no nosso país e de como é possível conceber espectáculos de música nos locais mais inusitados.

Agora, na primavera de 2016, este documento visual terá direito a edição na forma de documentário, acompanhado pelo lançamento, em formato single, de Volkswagen, um dos destaques maiores do conteúdo sonoro de Auto Rádio e uma canção que, num abrir e fechar de olhos e do nostálgico ao glorioso, oferece-nos uma espécie de indie-folk-surf-suburbano, feito por um dos mestres nacionais de um estilo sonoro com nuances e características muito particulares. A antestreia deste documentário acontece a 20 de Maio no Cinema Ideal, em Lisboa. Confere...


autor stipe07 às 16:24
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Segunda-feira, 11 de Abril de 2016

Doug Tuttle – It Calls On Me

Rochester, no estado de New Hampshire, é o refúgio bucólico de Doug Tuttle, um extroardinário músico e cantautor norte americano, de regresso aos discos à boleia da Trouble In Mind Records, com It Calls On Me, uma deliciosa jornada sonora por algumas das paisagens mais significativas da indie pop contemporânea, abastecida por uma simbiose entre folk e psicadelia ímpar, devido ao modo como este compositor domina a guitarra e através dela plasma sentimentos e sensações ricos e com particular intensidade e emoção.

Incisivo a expôr os dilemas e as agruras da vida comuns à maioria dos mortais, mas também as alegrias e as recompensas que a existência terrena nos pode proporcionar, Doug Tuttle reflete, na sua música, o seu posicionamento relativamente ao mundo em que vive e vivemos, duas realidades diferentes, mas no seu caso paralelas, porque caminham a par e passo, não fosse este músico profundamente autobiográfico e auto reflexivo, servindo-se da música que cria para expiar os seus pecados mas também para comungar com o ouvinte os prazeres que experimenta.

É assim a música de Doug Tuttle, que em apenas vinte e oito minutos consegue ser rico nas descrições que nos faz, quer da sua existência quer do que observa. A jovialidade pop da guitarra e o fuzz que a complementa, em A Place For You, dá o mote para um alinhamento perfeito para quem procura música que inspire a desafiar o destino e a procurar novos sonhos e anseios que não se quer deixar de experimentar um dia. Depois, o frenesim empolgante de It Calls On Me, o tema homónimo, oferece-nos gratuitamente um exercício de aceitação plena de um estado de consciência sobre uma vida em constante rebuliço, mas constante no modo como lida com os diferentes sentimentos e emoções e assim abre um disco com canções que mostram esse Doug Tuttle reflexivo, mas também auto confiante.

Quase sem se dar por isso, as canções sucedem-se e se Make Good Time mostra o músico embarcado numa viagem lisérgica, patente na instrumentação e numa letra que rompe com propostas mais intimistas, apresentando-o cada vez menos tímido e mais grandioso, já These Times e Painted Eyes embarcam-nos numa odisseia rumo aquela América profundo que sente uma constante necessidade de fuga aos padrões sociais e aos cânones pré estabelecidos, mas nem sempre tem o espírito e a ousadia para o conseguir. Uma espécie de exercício auto-crítico e reflexivo que, paralelamente, também nos oferece uma incrível viagem ao rock psicadélico da década de setenta, mantendo-se o derrame de versos extensos e quase descritivos dos habituais acontecimentos quotidianos, sempre com um olhar para o mundo físico e não apenas para uma exposição de emoções intrínsecas.

Daí em diante não faltam momentos em que prevalece essa sensação nada abstrata, que mostra um músico que procura sempre deixar o seu ambiente para caminhar pelo mundo real, algo audível nas imensas passagens instrumentais, quase sempre feitas com o simples dedilhar de cordas eletrificadas, plenas de fuzz e distorção, que pintam instantes que podem ser possíveis pontos de reflexão silenciosa, que todos experimentamos diariamente e que nos dizem muitas vezes bastante mais e de modo superiormente sábio, do que conversas de circunstância com quem nos é próximo mas tem apenas um conhecimento circunstancial e superficial do nosso âmago.

It Calls On Me é um excelente disco, principalmente pelo modo como manifesta instrumentalmente experiências de vida sincera, sendo uma intensa jornada espiritual que merece ser apreciada e saboreada em plenitude, enquanto discute melancolicamente sobre o amor, a saudade e outras futilidades diárias, à sombra de narrativas criadas por um músico que prova ser capaz de observar o tempo passar e de ser capaz de descrever cada mínimo aspecto sobre ele. Espero que aprecies a sugestão...

Doug Tuttle - It Calls On Me

01. A Place For You
02. It Calls On Me
03. Make Good Time
04. These Times
05. Painted Eye
06. Falling To Believe
07. On Your Way
08. Saturday-Sunday
09. Where You Will Go


autor stipe07 às 18:51
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Terça-feira, 5 de Abril de 2016

Scott Orr - Everything

Natural de Hamilton, no Ontário, o canadiano Scott Orr regressou em março último aos lançamentos discográficos com Everything, o quinto registo de originais da sua carreira e, mais uma vez, com a chancela da editora independente Other Songs Music Co.. Gravado num sotão no último meio ano, Everything marca o regresso do autor ao seu universo pessoal, através da habitual folk intimista, nostálgica e contemplativa que carateriza o seu catálogo, já que debruça-se sobre o final de um relacionamento que manteve durante dezasseis anos e, de algum modo, exorciza vários fantasmas que assolaram a sua vida pessoal mais recente.

O modo virtuoso como Orr consegue expôr-se e colocar-nos na primeira fila do exemplar exercício de catarse que é Everything, fica logo plasmado em By The Way, canção agridoce que abre com cândura, inspiração e apurada veia criativa um disco que explora a fundo as diversas possibilidades sonoras das cordas, acústicas e delicadamente eletrificadas, fazendo-o com uma tonalidade única e uma capacidade incomum, possível porque este músico é exímio no seu manuseamento e no modo como dele se serve para transmitir sentimentos e emoções com uma crueza e uma profundidade simultaneamente vigorosas e profundas.

Sempre com a folk na mira, como referi anteriormente, mas com um inconfundível travo pop a incubar da mente incansável de um músico maduro e capaz de nos fazer despertar aquelas recordações que guardamos no canto mais recôndito do nosso íntimo e que em tempos nos proporcionaram momentos reais e concretos de verdadeira e sentida felicidade, ou, no sentido oposto, de angústia e depressão e a necessitarem de urgente exercicío de exorcização para que consigamos seguir em frente, Orr é capaz de nos colocar a olhar o sol de frente com um enorme sorriso nos lábios, com a àspera Kids ou a delicada Soulmating, mas também desafia o nosso lado mais sombrio e os nossos maiores fantasmas no convite que nos endereça à consciência do estado atual do nosso lado mais carnal em Always Everything e no desarme total que torna inerte o lado mais humano do nosso peito na realista e racional Try to Be Good. Mesmo quando Scott Orr comete o pecado da gula e se liga um pouco mais à corrente em The Devil, fá-lo com um açúcar muito próprio e um pulsar particularmente emotivo e rico em sentimento, não deixando assim, em nenhum instante de Everything, de ser eficaz na materialização concreta de melodias que vivem à sombra de uma herança natural claramente definida e que, na minha opinião, atinge um estado superior de consciência e profundidade nos acordes únicos e lindíssimos da confessional Hundred Thousand Times.

Everything é alma e emoção e como documento sonoro ajuda-nos a mapear as nossas memórias e ensina-nos a cruzar os labirintos que sustentam todas as recordações que temos guardadas, para que possamos pegar naquelas que nos fazem bem, sempre que nos apetecer. Basta deixarmo-nos levar pelos ecos vigorosos do falsete do autor, para sermos automaticamente confrontados com a nossa natureza, à boleia de uma sensação curiosa e reconfortante, que transforma-se, em alguns instantes, numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia. Espero que aprecies a sugestão...

Scott Orr - Everything

01. By The Way
02. I’ll Do Anything
03. Soulmating
04. Undeniable
05. Still Waiting
06. Kids
07. The Devil
08. Try To Be Good
09. Hundred Thousand Times
10. Always Everything


autor stipe07 às 22:12
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Segunda-feira, 4 de Abril de 2016

Astronauts - You Can Turn It Off

Astronauts é um projeto musical encabeçado pelo londrino Dan Carney e que se estreou em pleno 2014 com Hollow Ponds, a extraordinária primeira etapa da nova vida musical de um músico e compositor que fez carreira nos lendários Dark Captain, que se destacaram com o belíssimo Dead Legs & Alibis e que se dedicou a estas dez canções num período particularmente conturbado da sua vida pessoal. Hollow Ponds viu a luz do dia por intermédio da Lo Recordings e tem já, finalmente, sucessor.

Astronauts é um nome feliz para um projeto que servindo-se de uma instrumentação orgânica bem real e terrena, ao ser tocada por Dan Carney, parece inspirar-se num universo exterior, sendo possível imaginar o autor a tocar devidamente equipado com um fato hermético que lhe permite transmitir uma simultaneamente implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica. Tal ficou recentemente muito bem plasmado em Civil Engineer, o primeiro avanço para End Codes, o tal novo disco de Astronauts, que irá ver a luz do dia a seis de maio e a receita repete-se, felizmente, em You Can Turn It Off, o segundo tema retirado de End Codes e que terá edição no final desta semana, em formato single, composição que tem como lado b uma singular mistura da autoria do aclamado projeto Grasscut.

Canção que se abriga à sombra de uma folk etérea de superior calibre e mais reservada e contida do que o single anterior, You Can Turn It Off é mais uma excelente rampa de lançamento para acedermos à dimensão superior onde Astronauts nos senta, já que o metálico efeito sibilante constante, as cordas que se passeiam exuberantemente em redor da melodia, e um registo vocal em falsete belissimamente acompanhado por coros envolventes, fazem deste tema uma daquelas preciosidades que devemos guardar com carinho num cantinho especial do nosso coração.

Adivinha-se pois mais um disco em que Dan Carney se entregará à introspeção e além de refletir sabiamente sobre o mundo moderno, irá fazê-lo materializando os melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, tornando-nos novamente cúmplices das suas angústias e incertezas, enquanto sobrepõe texturas, sopros e composições contemplativas, que criam uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades e um refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual. Confere...


autor stipe07 às 17:25
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Quarta-feira, 23 de Março de 2016

Violent Femmes – We Can Do Anything

Há bandas que resistem com firmeza ao definitivo ocaso e os norte americanos Violent Femmes são um excelente exemplo de um grupo que sabe como ir observando as novas tendências para depois, no momento certo, voltar a dar sinais de vida, o que, no caso, provoca sempre enorme burburinho e, tendo em conta o conteúdo habitual, enorme alegria e agitação. Editado no passado dia quatro à boleia da conceituada PIAS, We Can Do Anything é o novo compêndio de canções deste projeto liderado por Gordon Gano e o primeiro em quinze anos, após o bastante recomendável Freak Magnet (2000).

Nono disco da carreira dos Violent Femmes, We Can Do Anything é um excelente regresso da banda de Milwaukee e se canções como Traveling Solves Everything, a divertida I Could Be Anything, ou Memory mantêm intacta aquela faceta humorística que tipifica os Violent Femmes, agregada a uma folk com elevada estética punk, com a guitarra e as violas a piscarem sempre o olho ao blues e a alguns dos detalhes mais eminentes da música celta, já o clima mais acústico do baixo de What You Really Mean, uma canção escrita por Cynthia Gayneau, irmã de Gordon Gano, ou I'm Not Done, equilibram as contas, enquanto nos remetem para a típica américa profunda, tão bem descrita na discografia de ícones do calibre de um Bob Dylan ou Johnny Cash.

Produzido por Jeff Hamilton e misturado por John Agnello (responsável por discos dos Sonic Youth e dos Dinosaur Jr.) e Kevin Hearn, dos The Barenaked Ladies, artista que também fez a capa e toca guitarra e teclas em algumas canções do disco e gravado em várias cidades americanas, este é um álbum equilibrado, rico em detalhes preciosos e momentos de elevada vibração e intensidade, com a habitual produção rugosa e crua a fazer-se notar logo no timbre seco das cordas da já referida Memory, aquela caraterística que tão bem conhecemos dos Violent Femmes e que, independentemente da vivacidade ou da mensagem de cada canção, assim como dos subgéneros do indie rock que abraça, mantém-se sempre intata e bem audível.

We Can Do Anything acaba por ser um feliz regresso às origens e ao extraordinário disco homónimo de 1993, sendo capaz não só de nos fazer reavivar extraordinárias memórias desse tempo incrível, como até captar novos seguidores para um género sonoro de difícil aceitação, mas que tem seguidores fiéis e devotos que receberão de braços abertos e com uma enorme vontade de dançar este novo trabalho dos Violent Femmes. Espero que aprecies a sugestão...

Violent Femmes - We Can Do Anything

01. Memory
02. I Could Be Anything
03. Issues
04. Holy Ghost
05. What You Really Mean
06. Foothills
07. Traveling Solves Everything
08. Big Car
09. Untrue Love
10. I’m Not Done


autor stipe07 às 21:49
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Segunda-feira, 21 de Março de 2016

The Magnetic North – Prospect Of Skelmersdale

É das terras gélidas da Ilha de Orkney, localizada ao largo do Norte da Escócia, que vem o som dos The Magnetic North, uma banda que descobri há quase quatro anos por causa de Orkney: Symphony of the Magnetic North, o registo de estreia do projeto, um trabalho que me colocou em contato direto com um som incrível e uma pop atmosférica vibrante. Erland Cooper, Hannah Peel e Simon Tong formam o grupo e Prospect Of Skelmersdale, lançado no passado dia dezoito, à boleia da Full Time Hobby, é o novo registo de originais do trio.

Prospect Of Skelmersdale é mais um registo sonoro que abraça uma forte componente cinematográfica, já que contém canções que, à semelhança do trabalho de estreia, mergulham na história, cultura e geografia da ilha de Orkney, como se percebe logo nos samples vocais de Jai Guru Deve. A partir dessa permissa, ótimos arranjos clássicos, feitos com samples, teclados, cordas exuberantes e uma percussão minimal mas omnipresente e vozes que parece que são cantadas junto ao nosso ouvido, constituem o arsenal que os os The Magnetic North usam para criar melodias com uma elevada componente orquestral, bastante percetível, por exemplo, em Pennylands e que nos permite imaginá-los a tocar devidamente equipados com um fato hermético que lhes fornece a simultaneamente implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica que a ilha onde residem certamente transmite. Os arranjos metálicos, os violinos e as variações rítmicas de A Death In The Woods e os samples vocais de Sandy Lane, entrelaçados com a luminosidade desarmante das teclas e o voo descontrolado de uma flauta, fazem deste tema uma daquelas preciosidades que devemos guardar com carinho num cantinho especial do nosso coração e, num prisma diferente, o dedilhar da guitarra e os efeitos mais rugosos e térreos de Cergy-Pontoise, firmam um charme que atinge o auge em The Silver Birch, canção com uma secção de cordas particularmente inspirada e a receber um abraço sentido de uma secção de metais que nos embala e paralisa, em pouco mais de três minutos de suster verdadeiramente a respiração.

Com um pé na folk e outro na pop e com a mente também a convergir para um certo experimentalismo, típico de quem não acredita em qualquer regra na busca pela perfeição, os The Magnetic North são exímios em recriar sonoramente alguns dos aspetos mais vincados do local de origem, quer naturais, quer humanos, enquanto procuram preservar essas raízes num documento musical que possa transmitir às gerações futuras toda uma herança de uma ilha com caraterísticas muito próprias e únicas, enquanto refletem sobre si e a influência do mundo moderno no seu meio, não poupando na materialização dos melhores atributos que guardam na sua bagagem sonora e tornando-nos cúmplices das suas memórias e celebrações, mas também angústias e incertezas. A constante sobreposição de texturas, sopros e composições contemplativas, ao longo do alinhamento de Prospect Of Skelmersdale, criaram uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades, um refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual. Acaba por ser um disco muito sincero e bonito, mas também denso e profundo e que, também por isso, deixa marcas muito positivas e sintomas claros de deslumbramento perante a obra. Espero que aprecies a sugestão...

The Magnetic North - Prospect Of Skelmersdale

01. Jai Guru Dev
02. Pennylands
03. A Death In The Woods
04. Sandy Lane
05. Signs
06. Little Jerusalem
07. Remains Of Elmer
08. Cergy-Pontoise
09. Exit
10. The Silver Birch
11. Northway/Southway
12. Run Of The Mill


autor stipe07 às 10:22
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Terça-feira, 8 de Março de 2016

Eleanor Friedberger – New View

A cidade que nunca dorme é o habitat natural de Eleanor Friedberger, de regresso aos lançamentos discográficos com New View, onze canções que viram a luz do dia a vinte e dois de janeiro, através da Frenchkiss Records e que voltam a deliciar-nos com uma simbiose feliz entre as vertentes mais clássicas e alternativas do rock, com a folk a fazer a ponte entre dois universos que, replicados em baladas como Open Season e na luminosa Your World quase se fundem, sem fronteiras claramente definidas, o que faz deste registo uma coleção de canções que superou, na minha opinião, tudo aquilo que a autora já tinha conseguido apresentar no seu catálogo.

pic by Philip Cosores

Gravado do outro lado do continente americano, na cidade dos anjos, New View contém esse aspeto mais solarengo e descontraído da costa do pacífico, em oposição à maior frieza do atlântico que banha a costa leste de onde provém. Esta é logo uma das impressões mais fortes do terceiro registo a solo de uma mulher apaixonada, persistente e impulsiva, que não desiste de perseguir os seus sonhos mais verdadeiros e raramente se envergonha por amar e por usar a música como forma de exorcizar os seus fantasmas e dar vida aos seus maiores devaneios, ela que já foi namorada, por exemplo, de Britt Daniel ds Spoon e Alex Kapranos, vocalista dos Franz Ferdinand. Esta atração pelo lado mais afetivo da música transparece nas suas canções, que letra após letra, verso após verso, servem para a autora abrir-se connosco enquanto discute consigo mesma e coloca-nos na primeira fila de uma vida, a sua, que acontece mesmo ali, diante de nós.

Na verdade, escuta-se New View e o que mais impressiona é uma enorme sensação de sinceridade e o cariz fortemente genuíno das canções. A cantora construiu belíssimas melodias que se entrelaçaram com as letras e com a sua voz marcante com enorme mestria e, ao mesmo tempo, palpita uma notória sensação instintiva, como se ela tivesse deixado fluir livremente tudo aquilo que sente e assim potenciado a possibilidade de nos emocionarmos genuinamente com estas canções. A cândura folk desarmante de Never Is A Long Time e o sussurro de uma voz que nos adverte para as adversidades e os contratempos da vida e o piano deambulante e a brisa jazzística que sobressai da percussão de Cathy, With The Curly Hair, numa canção sobre o lado mais espontâneo e impulsivo do amor, são duas faces desta mesma moeda chamada sinceridade, provando que neste disco Eleanor deu tudo, não se escondeu nem se poupou, melodicamente e sentimentalmente e, por isso, este é um alinhamento que causa impacto e está carregado de sentimento. Ela foi simples e assertiva, sem deixar de nos tocar e de construir algo que podemos usar para explicar as nossas próprias angústias e dores.

No ocaso do disco, a monumentalidade das teclas de A Long Walk clarifica que às vezes mais difícil do que murmurar sobre o amor é enfrentar o amor em si e aceitar o cariz frequentemente finito do mesmo, enquanto sentimento com contornos tantas vezes ambíguos e irracionais. O amor tem múltiplas facetas e este disco serve para nos nos ensinar como abrir o sotão onde guardamos as nossas dores e receios. Muitas vezes, vivemos uma vida inteira sem tocar nele com receio dos fantasmas que possamos despertar. Talvez seja mais fácil fazê-lo ao som deste disco. A única certeza do amor é mesmo ser sempre incerto. Espero que aprecies a sugestão...

Eleanor Friedberger - New View

01. He Didn’t Mention His Mother
02. Open Season
03. Sweetest Girl
04. Your Word
05. Because I Asked You
06. Never Is A Long Time
07. Cathy With The Curly Hair
08. Two Versions Of Tomorrow
09. All Known Things
10. Does Turquoise Work?
11. A Long Walk


autor stipe07 às 18:48
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Segunda-feira, 7 de Março de 2016

Youthless - This Glorious no Age

O londrino Sebastiano Ferranti e o nova iorquino Alex Klimovitsky são a dupla que abraça um extraordinário projeto sonoro sedeado em Lisboa intitulado Youthless, que se estreia hoje mesmo nos discos com This Glorious No Age, dezassete canções disponíveis através da NOS Discos em Portugal e da Club.the.mamoth / Kartel em Inglaterra e que nos oferecem um indie rock com uma singularidade bastante vincada, que conjugado com um abstracismo lírico incomum, estabelece um paralelismo entre uma curiosa obsessão da dupla por tudo aquilo que é elétrico, nomeadamente o modo como a descoberta da eletricidade provocou um caudal massivo de alterações no mundo que nos rodeia e na sociedade em que vivemos e o quanto isso tem de glorioso e de frenético.

Desde que se mostraram ao mundo, de modo mais convicto, com alguns temas que fazem parte do alinhamento deste This Glorious No Age, os Youthless têm tido um percurso fulminante em termos de crescimento, visibilidade e aceitação, com enormes elogios em vários blogues e estações de rádio, quer por cá, quer em Inglaterra e este This Glorious No Age, misturado por Justin Garrish (Vampire Weekend, The Strokes, Weezer) e gravado por Chris Common, Pedro Cruz e a própria banda em vários estúdios caseiros e sótãos entre Lisboa, Sintra e Cascais e que conta com a participação de nomes tão importantes como Francisco Ferreira (Capitão Fausto, Bispo), João Pereira (Riding Pânico, LaMa), Chris Common (These Arms are Snakes, Le Butcherettes), Francisca Cortesão (Minta and the Brook Trout) e Duarte Ornelas, acaba por ser o cluminar deste percurso ascendente que, desde o EP Telemachy, em 2009, procura fazer uma espécie de súmula histórica de um rock heterogéneo e abrangente, que da folk à psicadelia, passando por sonoridades mais progressivas, aborda, de acordo com os autores, temáticas como a desintegração do velho mundo, a viagem rumo a terreno incerto, pesadelos, esperanças de ascensão e a obsessão pelo passado e pelo futuro, sempre com um duplo significado, por um lado muito pessoal, circunstancial, e, por outro, universal e mitológico.

A entrevista que os Youthless amavelmente me concederam e que podes conferir após esta análise, explica sucintamente a abordagem da dupla ao mundo em que vivemos e a sua visão muito própria do mesmo, através daquilo que eles definem como um eu universal, já que houve uma opção claramente ficcional de escreverem sobre aquilo que os rodeia, mas inventando histórias e personagens imaginárias, atrás das quais podem, de certo modo, refugiar-se, sem terem de se comprometer, com pensadores como Marshal Mcluhen e Guy Debord e outros mais contemporâneos, nomeadamente Jaron Lanier e David Graeber, a serem referências obrigatórias, mas também as experiências muito pessoais, algumas bastante curiosas, como irão perceber, de cada um dos músicos.

Cheio de canções intensas e que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da pop, da new wave e do indie rock psicadélico, com um travo glam fortemente eletrificado, This Glorious No Age assenta em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas e onde não falta um piscar de olhos ao punk e ao garage rock. Depois, a eletrónica tem também uma palavra importante a dizer, já que os sintetizadores conduzem, frequentemente, o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona por um certo charme vintage e um indisfarçável groove. Finalmente, a bateria cola todos estes elementos com uma coerência exemplar e a voz, muitas vezes sintetizada, mas quase sempre sentida e imponente, dá substância e cor às melodias, com todos estes detalhes a subsistirem à sombra de uma feliz simbiose entre a riqueza dos arranjos e a energia e imponência com que eles surgem nas músicas. Há também que realçar o modo como os diferentes temas se interligam, quase sempre através da guitarra, sendo intercalados, frequentemente, com diversos instrumentais, ricos ao nível de efeitos e samples e que fazem todo o sentido no modo como estão colocados. No caso de Holy Ghost e Fuck Buttons and Knobs, são expressivamente intensos e este é outro aspeto importante e que também ajuda a oferecer à sonoridade geral do disco uma sensação festiva e solarenga, mas também fortemente reflexiva e filosófica.

Em suma, num alinhamento de canções com uma sonoridade impar, é possível absorver This Glorious No Age como um todo, mas entregar-se aos pequenos detalhes que preenchem o disco é outro resultado da mais pura satisfação, como se os Youthless quisessem projetar inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção do alinhamento, sempre com uma assumida pompa sinfónica e eletrificada de modo inconfundível. Falo-vos de uma janela imensa de luz, energia e cor, que nos convida a espreitar para um mundo envolvido por uma psicadelia luminosa, fortemente urbana, mística, mas igualmente descontraída e jovial, como a luz que refracta no prisma, ou os últimos raios de luz que enchem a íris numa tarde de verão, sob a influência e o calor das leis universais. Espero que aprecies a sugestão...

Sail On

Death of the Tyrannosaurus Rex

Golden Spoon

Neu Wave Suicide

Smersh

Mechanical Bride

Silver Apples

Attention

Pale Horse and Rider

Lightning Bolt

Skull and Bones

Black Keys White Lights

High Places

Holy Ghost

This Glorious No Age

Fuck Buttons and Knobs

Lucky Dragons

Antes de nos debruçarmos com algum cuidado no conteúdo de This Glorious No Age, o vosso novo registo discográfico, começo com uma questão clichê... Como é que nasceu este projeto?

O Sab e eu conhecemo-nos desde os 14 anos, quando andámos juntos no Instituto Espanhol de Lisboa em Dafundo. Sempre fomos saltando entre países, eu principalmente entre NY e Lisboa e Sab entre Londres e Lisboa. Em 2009 estávamos cá a tocar numa banda que tínhamos desde miúdos, os Three and a Quarter (com o nosso querido amigo Guillermo Landin), e nos tempos mortos desses ensaios começámos os Youthless com uma brincadeira para fazer barulho e rirmo-nos um pouco. Eu era guitarrista e queria aprender a tocar bateria e o Sab queria tentar usar o baixo como se fosse um lead guitar e fazer ambientes sónicos e big riffs à patrão. Mas logo desde o primeiro ensaio começaram a sair muitas músicas e a coisa foi crescendo. No princípio era só no gozo, só queríamos tentar tocar covers mal feitas dos Black Sabbath.                                                      

Desde que se mostraram ao mundo de modo mais convicto, com alguns temas que fazem parte do alinhamento deste This Glorious No Age, a verdade é que o vosso percurso tem sido fulminante em termos de crescimento, visibilidade e aceitação, com enormes elogios em vários blogues e estações de rádio, quer por cá, quer em Inglaterra. Como foi conciliar este percurso ascendente com o processo de conclusão da rodela e que expectativas criaram para a mesma? Querem que This Glorious No Age vos leve até onde? 

A verdade é que o nosso percurso como banda tem sido um pouco estranho. Desde que começámos a banda muita coisa aconteceu muito de repente. Depois do nosso segundo concerto como banda fomos convidados a tocar em Londres e aí a editar com uma editora inglesa. Ao mesmo tempo, o Henrique Amarro convidou-nos para fazer um EP através Optimus Discos e a Enchufada pegou em nós para fazer alguns singles. As coisas cresceram até em 2010, tivémos bastante sorte e sucesso num tour que fizemos no UK e muitos blogs começaram a interessar-se pela banda. Um até nos chamou a melhor nova promessa do ano. Foi nesse momento que começámos a trabalhar este disco e desenvolvemos o conceito e a temática, mas nesse momento eu tive uma lesão muito grave nas costas e nos anos seguintes a minha participação na banda ficou muito limitada. Finalmente, fiquei estou melhor e o disco ficou acabado. De certa forma sentimos que estávamos a começar do zero outra vez, e não tínhamos expectativas muito concretas. Queríamos só editar o trabalho porque este disco é muito pessoal e importante para nós, e depois disso vermos o que acontece. Mas ao mesmo tempo, como dizes, a recepção dos primeiros singles tem sido espectacular e já estamos a tocar no UK outra vez e a receber amor pelo disco cá em Portugal. Isso tudo é uma alegria mas tentamos não fazer planos para o futuro e apenas ir vendo onde é que as coisas nos levam.                                              

Acho que This Glorious No Age é um título fantástico e bastante apelativo. Sendo possível estabelecer um paralelismo entre este nome e a vossa curiosa obsessão, digamos assim, por tudo aquilo que é elétrico (algo que a vossa música tão bem plasma), já que a descoberta da eletricidade provocou um caudal massivo de alterações no mundo que nos rodeia e na sociedade em que vivemos, ao ponto de vivermos numa era que tem algo de glorioso, no sentido do frenético, acham que esta vossa expressão sintetiza, de algum modo, o alinhamento?

Não acho que a nível de som ou composição a nossa música seja particularmente futurista, ou até que seja um bom espelho da actualidade, se calhar porque esteticamente sinto que o atual está a mudar a cada milisegundo. Mas sim, acho que depois de falar com muitos amigos, e agora até com alguns jornalistas sobre as temas e ideias que abordamos no disco, parecem ser temáticas bastante universais. Parece que em toda esta loucura e caos do presente há uma experiência bastante comum que estamos a viver todos juntos, mais ou menos conscientemente, e acho que as músicas são um bom registo disso. Dos medos, estimulações, conclusões e experiências que esta fase da transição de um mundo para outro está a causar em nós.

A que se deve o gosto por tudo aquilo que vos moveu na conceção lírica e sonora do disco, nomeadamente a desintegração do velho mundo, a viagem rumo a terreno incerto, pesadelos, esperanças de ascensão, como as ferramentas moldam o construtor, e a nossa obsessão pelo passado e pelo futuro... num duplo significado, por um lado muito pessoal, circunstancial, e, por outro, universal e mitológico., conforme consta do press release do lançamento?

A nível da estrutura inicial, a história do velho mundo pré-eléctrico a converter-se lentamente no novo mundo de abstração digital... isso veio de ideias que eu estava a desenvolver inspiradas em coisas que estava a ler do Marshal Mcluhen e Guy Debord e outros pensadores contemporâneos como Jaron Lanier e David Graeber. Hoje em dia acho que muitos de nós culpamos os males do mundo moderno no capitalismo, mas sempre senti que o capitalismo e o dinheiro em si, eram sintomas, não são a raiz dos problemas da civilização ocidental. E as ideias de Mcluhen de certa forma explicam a desintegração de certas formas de coexistir em sociedade uns com os outros, por causa das tecnologias que criamos e as amputações que nós fazemos ao psíquico. Em relação às letras em si, são todas baseadas em eventos ou temas muito pessoais. Um é sobre o final de um namoro. Outro é sobre uma experiência verdadeira que tive ao encontrar uma pessoa desconhecida que estava a morrer e tentar salvar essa pessoa. Mas escrevo sobre estas experiencias através da lente da estrutura e ideias das quais mencionei antes. Assim que tudo se converte em alegoria e metáfora.    

Com canções intensas e que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da pop, da new wave e do indie rock psicadélico, com um travo glam fortemente eletrificado, assente em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas, onde não falta um piscar de olhos ao punk e ao garage rock e sintetizações impregnadas com indisfarçável groove, com a bateria a colar todos estes elementos com uma coerência exemplar e uma voz muitas vezes sintetizada, mas quase sempre sentida e imponente, a dar substância e cor às melodias, This Glorious No Age, foi composto de acordo com as vossas preferências, ou também tiveram o foco permanentemente ligado na vertente mais comercial? No fundo, em termos de ambiente sonoro, o que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Nunca nos focamos no comercial, tentamos escrever o que estamos a sentir no momento. As nossas influências nunca entram de maneira directa nas composições mas sim, obviamente, ouvem-se. Acho que tínhamos umas ideais de como queríamos que o disco soasse... sempre gostámos de usar o ruído e feedback como mais um elemento ambiental, e queríamos arranjos mais complexos e quase narrativas... tipo as vozes dos miúdos e os teclados. Mas também tentámos manter-nos bastante fiéis a como as músicas soam ao vivo e a verdade é que como agora tocamos as músicas há mais tempo, acho que muitas delas ganham ainda mais ao vivo.                              

Confesso que algo que me agradou na audição de This Glorious No Age foi uma feliz simbiose entre a riqueza dos arranjos e a energia e imponência com que eles surgem nas músicas, além do modo como foram interligando os diferentes temas, quase sempre através da guitarra, intercalando-os, frequentemente, com diversos instrumentais, ricos ao nível de efeitos e samples, que fazem todo o sentido no modo como estão colocados e que, no caso de Holy Ghost e Fuck Buttons and Knobs, são expressivamente intensos, diga-se... E todos estes aspetos, na minha opinião, conferem à sonoridade geral do disco uma sensação festiva e solarenga, mas também fortemente reflexiva e filosófica. Concordam?

Sim, exactamente… Há um lado de banda que existe desde sempre, que é energia e a alegria de estar a fazer música juntos, e de eu e Sab convivermos através disso. Mas agora, com este disco acho que também conseguimos tocar em lados mais reflexivos e estranhos e se calhar interessantes. Nos intervalos como dizes, muitas vezes as intenções eram narrativas (como o som de feedback que parecem cavalos no Pale Horse and Rider, que usámos como símbolo dos quatro cavalos da morte a aparecerem na terra mesmo antes da grande “tempestade” que é representado pela música “Lightning Bolt” e às vezes eram mais abstratas e só pelo gozo do som em si.                                               

Apesar do esplendor das guitarras, a eletrónica tem também uma palavra importante a dizer, já que os sintetizadores conduzem, frequentemente, o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona por um certo charme vintage. Como é a química nos Youthless? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou um de vocês domina melhor essa componente?

Quase todas as nossas composições surgem de improvisos que fazemos juntos (às vezes trazemos ideias ou composições já feitas mas é menos usual)... e normalmente durante esses momentos também surge a ideia atrás da música (a semente da qual depois vem a letra). Mas ao nível dos arranjos, às vezes depois vemos o que a música precisa e vamos moldando e mudando a coisa até gostarmos. Os sintetizadores foram assim, porque as melodias nestas músicas eram um pouco mais complexas e frágeis que outras músicas nossas do passado, por isso achámos que ganhavam muito com acordes e pads que o baixo não conseguia fazer. De certa forma, eram sons e texturas que já ouvíamos na nossa cabeça enquanto compúnhamos as músicas, mas que só se materializaram com a ajuda dos nossos amigos teclistas.

Olhando um pouco novamente para a escrita das canções, em temas como o homónimo This Glorious No Age ou Black Keys White Lights, só para citar dois exemplos, parece-me ter havido uma opção claramente ficcional de escreverem sobre aquilo que vos rodeia, mas inventando histórias e personagens imaginárias, atrás das quais podem, de certo modo, refugiar-se, sem terem de se comprometer... Acertei na mouche ou o meu tiro foi completamente ao lado?

Sim, está bastante certo. As letras são todas sobre experiâncias e observações muito pessoais mas filtradas pelo conceito e estrutura/ história do LP. Por isso, em vez de escrever de um ponto de vista “eu” escrevo quase como se fosse um “eu” universal, ou um “eu” imaginário, exactamente como disseste.                                         

Golden Spoon é um tema particularmente imponente, grandioso, mas adoro o ambiente sonoro de Lucky Dragons. E o grupo, tem um tema preferido em This Glorious No Age                                                  

Para mim pessoalmente vai sempre mudando. A nível de letra acho que Lucky Dragons é o mais elegante de certa forma, mas musicalmente não tenho preferência, às vezes gostamos mais de uma ou outra depende de como sai num concerto ou ensaio.

This Glorious no Age foi produzido por Justin Garrish e gravado por Chris Common, Pedro Cruz, além de vocês, tendo contado com as participações especiais de referências do cenário indie nacional, nomeadamente Francisco Ferreira, João Pereira, Francisca Cortesão e Duarte Ornelas. Como foi o processo de adesão de músicos tão ilustres para a vossa causa?                                     

Justin Gerrish misturou o disco, que para nós foi uma benção muito grande porque acho que foi um disco bastante difícil de misturar por causa de todas as faixas de ruído que usámos em cada música. Nós é que produzimos o disco sozinhos mas com o input musical desta gente toda que lhe acrescentou tanto! Foi uma grande riqueza e honra para nós termos esta gente toda a participar. Muitos já eram amigos com quem tocávamos antes do disco, e o resto ficaram amigos, agora sentimos que temos uma família musical além de só nós os dois. E sempre foi fácil e divertido, foi só convidá-los para a cave do Sebastiano, ou com o Duarte Ornelas fomos até ao Black Sheep Studios, e depois improvisávamos e compartilhávamos ideias.

Como estão a decorrer os concertos de apresentação do disco? E onde podemos ver os Youthless a tocar num futuro próximo?

- 11 de Março, Musicbox, Lisboa

- 12 de Março, Maus Hábitos, Porto

- 18 de Março, Texas Bar, Leiria

- 19 de Março, Salão Brazil, Coimbra

- 1 de Abril, Stairway Club, Cascais

- 15 de Abril, Pouca Terra, Barreiro

- 16 de Abril, Play-Doc, Galiza

- 23 de Abril, Fnac Braga

- 23 de Abril, Convento do Carmo, Braga


autor stipe07 às 18:35
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Quinta-feira, 3 de Março de 2016

Living Hour – Living Hour

O bucolismo de Winnipeg é o poiso dos Living Hour, um projeto sonoro canadiano que acaba de se estrear nos discos com um homónimo, editado a dezanove de fevereiro último através da conceituada Lefse Records e que em oito canções nos oferece uma revisão bastante contemporânea de toda a herança que o indie rock de cariz mais melancólico, ambiental e lo fi nos deixou até hoje, com fundamentos que remontam à psicadelia que começou a fazer escola na década de sessenta do século passado.

Atraídos por um passado que é hoje alvo de revisão constante por um grande número de bandas oriundas da América do Norte, estes Living Hour têm uma visão bastante atmosférica e contemplativa do rock alternativo dominado por guitarras plenas de distorção, mas particularmente melódicas. Juntando a isso um registo vocal ecoante e uma panóplia infinita de efeitos sintetizados, que dão vida a um clima bastante sentimental, ampliado por letras consistentes, que confortam e destroiem o coração num mesmo verso, está apresentado o contexto geral que norteia este alinhamento.

O lugar onde tocam estes Living Hour é assumidamente retro, com canções do calibre da efusiva Seagull ou da mais resguardada This Is The Place, os dois maiores destaques de Living Hour, a exalarem uma mansidão folk rock psicadélica incomum e capaz de nos envolver num torpor intenso. É uma sonoridade que parece estar presa num qualquer transítor há várias décadas, finalmente libertada com o aconchego que a evolução tecnológica destes dias permite, tendo ficado disponível algures numa solarenga praia, com vista para um vasto oceano de questões existenciais, que entre o arrojado e o denso, oferece-nos uma estadia de magia e delicadeza invulgares.

Contemplar este disco de estreia dos Living Hour exige a absorção plena e dedicada de uma assumida grandiosidade celestial, onde o ruído se confunde com charme, uma simbiose à qual é impossível ficar indiferente, imbuída de uma salutar complexidade que coloca os autores rumo à típica pop que se situa num patamar superior de abrangência. Espero que aprecies a sugestão...

Living Hour - Living Hour

01. Summer Smog
02. Seagull
03. This Is The Place
04. Steady Glazed Eyes
05. There Is No Substance Between
06. Mind Goodbyes
07. Miss Emerald Green
08. Feel Shy


autor stipe07 às 17:10
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