Quarta-feira, 24 de Maio de 2017

Mac Demarco - This Old Dog

O canadiano Mac Demarco está de regresso aos discos com This Old Dog, treze canções abrigadas à sombra da Captured tracks e que mantendo aquela vibe um pouco descontraída e informal e o carisma irónico e bem humorado que carateriza o cardápio sonoro deste autor, transparecem, desta vez, uma faceta um pouco mais humana, séria e melancólica que o habitual.

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O indie rock de cariz eminentemente lo fi e que em Mac Demarco sustenta grande parte do seu adn em acordes de violas simples e solarengos e em algumas distorções inspiradas, continua a ser o sustento fundamental de This Old Dog, uma herança feliz que a profundidade emocional do modo como voz e guitarra se entrelaçam em Sister, canção com um final repentino que incomoda, mas também que a indulgência perene dos acordes de Dreams For Yesterday, o classicismo pop setentista de Baby You’re Out e a harmónica que ciranda por Wolf in Sheep’s Clothes, salvaguardam com notável mestria e, de modo algo inédito neste artista, com uma dimensão introspetiva pouco usual.

Mas os sintetizadores também estão cada vez mais presentes na dinâmica estilística de Demarco, principalmente desde que se tornaram num elemento chave de recriação sonora em Some Other Ones, um dos álbuns mais injustiçados da carreira do músico. E neste seu novo tomo também foram preponderantes em determinados momentos, na recriação da atmosfera conceptual pretendida. Assim, em This Old Dog, o sintetizador ameno com certo travo épico e saudosista de Watching Him Fade Away, o modo como surpreende no devaneio vintage que as teclas incorporam na curiosa On The Level e, em oposição, o posicionamento do mesmo na cândura suave da lindíssima melodia que conduz For The First Time, são três esclarecedores exemplos do modo como as teclas, mesmo parecendo estar um pouco na sombra das guitarras, são, atualmente, uma ferramenta intimamente ligada à maneira como Demarco oferece despojadamente a sua música.

Disco com uma personalidade muito própria e bastante vincada, This Old Dog renova o modo particular como Mac Demarco costuma apresentar-se aos seus seguidores, oferecendo um pouco mais de si, na medida em que expôe com maior clareza sentimentos e opiniões sobre eventos e factos quotidianos que testemunha ou protagoniza, mas também mostrando uma superior dose de maturidade que acaba por deixar a sua carreira numa espécie de encruzilhada, no sentido positivo do termo. Aguarda-se, seneramente, os próximos discos para saber se esta inflexão temática terá continuidade ou foi apenas um ligeiro e bem sucedido desvio. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 00:25
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Terça-feira, 16 de Maio de 2017

Tomara - Coffee And Toast

Será no final do verão, lá para setembro, que chegará aos escaparates Favourite Ghost, o disco de estreia do projeto Tomara da autoria de Filipe Monteiro, um músico que começou por estudar Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes e que trabalhou em vídeos e na parte visual de concertos de nomes como os já extintos Da Weasel, mas também com Paulo Furtado, David Fonseca, Rita Redshoes, António Zambujo e Márcia.

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Filipe Monteiro olha para o mundo que o rodeia com uma assertividade incomum, referindo que o mesmo se constrói de exercícios filosóficos que se transformam em tratados lançados para o barulho dos nossos dias e que é importante, vestirmo-nos, se de sapiência formos ricos, do que vale a pena. Este acaba por ser o mote para um álbum que certamente fará uma reflexão crítica bastante pessoal de uma contemporaneidade comum a todos nós, mas que pode ser observada e analisada com diferentes olhares e através de diversos ângulos, sendo o de Filipe claramente aquele que privilegia a componente visual e a musicalidade dessa mesma abordagem.

O balanço suave das teclas, as guitarras efusivas e a bateria marcante de Coffee And Toast, a primeira amostra divulgada de Favourite Ghost, remetem-nos exatamente para esse universo impressivo, em que a música possibilita a formulação de um ideário e uma trama passíveis de desfilar pela nossa mente, neste caso explicada pelo próprio autor como uma canção que narra de forma bela e redentora dias em que a felicidade foi, circunstancialmente, mergulhada num qualquer nevoeiro desordenado e difícil, quase penumbroso. mas com a música a voltar a colocar tudo nos eixos, já que devido a ela o amor emerge ressoante. Confere o tema e o vídeo do mesmo, da autoria do próprio Filipe C. Monteiro...


autor stipe07 às 14:11
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Terça-feira, 9 de Maio de 2017

Perfume Genius - No Shape

Cerca de dois anos e meio depois do excelente Too Bright, Mike Hadreas, aka Perfume Genius, está de regresso aos lançamentos discográficos com No Shape, o quarto álbum da carreira de um dos nomes mais excitantes do cenário musical alternativo, um alinhamento de treze canções editado através da conceituada Matador Records, gravado em Los Angeles e produzido por Blake Mills (Fiona Apple, Alabama Shakes, Laura Marling).

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Este músico norte-americano natural de Seattle anda há quase uma década a oferecer-nos momentos sonoros que, sendo essencialmente soturnos e abertamente sofridos, ampliam continuamente, disco após disco, as suas virtudes como cantor e criador de canções impregnadas com uma rara honestidade, já que são profundamente autobiográficas e, ao invés de nos suscitarem a formulação de um julgamento acerca das opções pessoais do artista e da forma vincada como as expõe, optam por nos oferecer esperança enquanto se relacionam connosco com elevada empatia.

No Shape, o novo trabalho de Perfume Genius, não foge de tais permissas, proporcionando-nos mais um emotivo e exigente encontro com o âmago do autor e toda a intrincada teia relacional que ele estabelece com um mundo nem sempre disposto a aceitar abertamente a diferença e a busca de caminhos menos habituais para o encontro da felicidade plena. E, num registo com várias canções que abordam a relação de Hadreas com Alan Wyffels, o seu namorado de sempre e colaborador musical, quando o músico dialoga connosco coloca sempre em cima da mesa emoção e delicadeza em simultâneo, o que acaba por provocar, quase sempre, um misto de tristeza e admiração do lado de cá. Este No Shape segue tal rumo porque sendo devidamente assimilado, espanta pelo seu realismo e provoca aquela lágrima fácil, tal é a profundidade com que relata histórias e eventos de ambos e que suscitam tudo menos indiferença.

Esta trama revela-se logo no início do disco com o registo quase à capella de Otherside, apenas acompanhado pelo dedilhar perene de três teclas do piano, a provocar inquietude e até um certo embaraço e depois Slip Away revela-se uma daquela canções em que se confere um retrato sincero de sentimentos, um tema que pode bem fazer parte de um manual de auto ajuda para quem procura forças para superar os percalços de uma vida que possa estar emocionalmente destruída.

Disco bastante dominado por uma voz que se faz acompanhar, geralmente, por esse ilustre piano, mas também por sintetizadores, que amiúde dão as mãos a  diferentes elementos percussivos e a violinos, errantes na subversão religiosa de Just Like Love e fulgurantes no profundo e intenso muro de lamentações a que sabe Choir, No Shape também não renega a crueza acústica e orgânica das cordas, exuberantes na encantadora Valley e mais rugosas e impulsivas, mas detalhisticamente ricas, em No Wreath, canção onde  a questão da identidade de géneros é abordada de modo explícito, nomeadamente o conflito permanente do artista entre aquela que é a sua dimensão física e a sua identidade enquanto ser humano realizado e feliz (I’m gonna peel off every weight, Until my body gives way, And shuts up). Aliás, esta é uma questão muito em voga no meio artístico norte-americano,com as questões da transsexualidade a serem cada vez mais arma de arremesso contra a opressão da direita mais conservadora.

Nada subtil, confiante, decidido e até, em certos momentos, algo descarado, Hadreas renova em No Shape o seu firme propósito de utilizar a música não apenas como um veículo de manifestação artística, mas, principalmente, como um refúgio explícito para uma narrativa que, sendo feita quase sempre na primeira pessoa, materializa o desejo de alguém que já confessou não conseguir fazer música se ela não falar sobre si próprio e que amiúde admite guardar ainda muitos segredos dentro de si. Os timbres distorcidos e a dinâmica melosa e emotiva e vintage de Die 4 You, são talvez o perfeito exemplo da forma como Mike criou neste trabalho, através de um aparato tecnológico mais ou menos amplo, caminhos de expressão musical inéditos na sua discografia e novas formas de se revelar a quem quiser conhecer a sua personalidade.

Se nos apraz partir nesta viagem de descoberta da mente de um homem cheio de particularidades, devemos estar também imbuídos da consciência de que temos, com igual respeito e apreço, de conhecer o lado mais obscuro da sua personalidade, um verdadeiro manancial que se em alguns provoca um sentimento de repulsa, noutros causa uma atração intensa, como se o uso da dor para transformar a intimidade de alguém em algo universal fosse afinal uma das estratégias mais bem sucedidas de abordar de modo genuíno as relações e a fragilidade humana. No Shape lança os holofotes não só sobre Mike, mas também sobre nós próprios, já que ajuda ao contacto e à tomada de consciência de muito do que guardamos dentro de nós e tantas vezes nos recusamos a aceitar e passamos a vida inteira a renegar. Espero que aprecies a sugestão...

Perfume Genius - No Shape

01. Otherside
02. Slip Away
03. Just Like Love
04. Go Ahead
05. Valley
06. Wreath
07. Every Night
08. Choir
09. Die 4 You
10. Sides
11. Braid
12. Run Me Through
13. Alan


autor stipe07 às 21:39
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Quarta-feira, 3 de Maio de 2017

Feist - Pleasure

Seis anos depois de Metals, o seu último registo de originais, a canadiana Feist regressou em 2017 aos discos com Pleasure, um compêndio de onze canções gravado ao longo de três meses, entre Stinston Beach, Nova Iorque e Paris. Pleasure foi produzido pela própria autora, com a ajuda dos habituais colaboradores Renaud Letang e Mocky e chegou aos escaparates a vinte e oito de abril, à boleia da Interscope Records.

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Descrito pela própria autora e compositora como um trabalho em que a mesma explorou até aos limites todas as emoções que foi sentindo nos anos mais recentes e onde sensações de solidão, vergonha, rejeição, perca e até falta de auto-estima foram presença assídua, Pleasure teve como single de apresentação o tema homónimo, uma canção que impressiona pela tonalidade rock, simultaneamente agreste e sedutora, confirmando que Feist, além de excelente compositora, é também uma das guitarristas mais versáteis da atualidade. E através desse chamariz percebemos logo que nos últimos anos muita coisa mudou na carreira desta canadiana ex Broken Social Scene, cada vez mais íntima da típica rugosidade, visceralidade e sujidade do rock e do blues, em detrimento da luminosidade pop e do jogo intrincado e floral que muitas vezes estabeleceu, com algum conforto e elevado acerto, nos primeiros discos, nomeadamente no estreante Monarch (1999), entre diferentes espetros da pop e da folk

Seja como for, aquilo que não mudou em Feist ao longo de todo este tempo foi a beleza da sua voz, irrepreensível na emotividade ao longo de todo o disco e particularmente expressiva e acutilante no já referido single Pleasure, num registo vocal que também serve de eficaz contraponto à simplicidade melódica desse tema. Mas se há canções que me causaram impacto particularmente positivo foram Any Party e, principalmente, A Man Is Not His Song, composições que bem no centro nevrálgico do alinhamento de Pleasure, ao serem triunfalmente exaltadas pelo posicionamento vocal de várias vozes em coro e por sonoramente apostarem todas as fichas numa filosofia estilística de elevado cariz lo fi, não só vão de encontro aquelas que são as minhas mais recentes preferências dentro do universo pop, mas também porque firmam indelevelmente a nova chancela identitária de Feist.

Pleasure relembra-nos com clareza por que razão Feist continua a ser um sopro de frescura no universo pop, mais que não seja pelo modo como se reinventa sem colocar em causa quer os seus desígnios enquanto cantora e compositora quer pela eficácia na preservação do seu exército de seguidores devotos que vão conseguindo moldar-se e aconchegar-se a cada nova inflexão que planeia e executa. Ela já não traz permanentemente debaixo do braço o conforto da guitarra acústica e o seu piano acutilante, mas mantêm-nos sob encantamento, mesmo ligada de modo mais vincado à corrente, ao ponto de ainda ser uma das artistas que maior peso sentimental, paz de espírito e sensação de distância do mundo nos confere, através dos seus álbuns. Espero que aprecies a sugestão...

Feist - Pleasure

01. Pleasure
02. I Wish I Didn’t Miss You
03. Get Not High, Get Not Low
04. Lost Dreams
05. Any Party
06. A Man Is Not His Song
07. The Wind
08. Century (Feat. Jarvis Cocker)
09. Baby Be Simple
10. I’m Not Running Away
11. Young Up


autor stipe07 às 22:19
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Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

Tashaki Miyaki – The Dream

A vocalista Lucy Miyaki e o guitarrista Tashaki formam o núcleo duro dos Tashaki Miyaki, uma banda oriunda de Los Angeles que navega nas águas turvas e profundas da dream pop de pendor psicadélico e que acaba de se estrear no formato longa duração com The Dream, um lindíssimo tomo de canções patrocinadas pela Metropolis Records, produzido por Paige Stark, misturado por Dan Horne (Cass McCombs, Allah-Las) e que com as participações especiais de Joel Jerome (Cherry Glazerr, La Sera, Dios) e do multi-instrumentista Jon Brion. São canções que nos embalam e incitam de um modo muito particular e lisérgico, já que comprovam o quanto estes Tashaki Miyaki são incomparáveis e mestres na criação de uma atmosfera densa, mas particularmente sensual e hipnótica.

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Com uma sonoridade cada vez mais sóbria e adulta, Lucy e Tashaki criaram em The Dream um catálogo sonoro envolvente, climático e tocado pela melancolia, que atinge o seu auge, na minha opinião, na pop luminosa e pueril de Cool Runnings, uma daquelas canções que se não se embranha no imediato é porque existe algo de errado no nosso âmago no que concerne à capacidade de absorver emoção e fervor. Mas logo em City e, de modo mais vincado, em Girls On T.V., a dupla apresenta uma instrumentação que tem como pano de fundo essencial o clássico rock abarcado pela típica herança da América do Norte, que serve-se de guitarras sobriamente eletrificadas e distorcidas para obter uma mistura sem fronteiras definidas, entre esse grande universo sonoro e o blues, a folk, e, implicitamente, alguns pilares fundamentais da eletrónica ambiental, com o bónus de ser audível, neles a procura de uma sonoridade ainda mais intimista e reservada, como se quisesse replicar-se, no seu todo, com um suspiro algo abafado e o menos expansivo possível.

No inconfundível dedilhar das notas de Anyone But You e na sobriedade dos arranjos de Facts Of Life, conferimos mais dois notáveis exemplos de como se sente neste álbum uma superior carga emotiva. Além disso, a voz adocicada de Lucy, que parece pairar, em praticamente todo o disco, numa frágil nuvem de algodão, faz juz à cândura de uma odisseia poética que transborda fragilidade em todas as sílabas e versos que sustentam as canções. Esta voz, quando em Get It Right replica um registo mais grave sem colocar em causa o elevado pendor lisérgico da cantora, é mais uma manifestação audível e concreta do jogo dual que os Tashaki Miyaki conseguem oferecer ao ouvinte, entre força e fragilidade, dois aspetos que nas vozes, na letra e na instrumentação, se equilibram de forma vincada e segura.

The Dream é, em suma, um compêndio sonoro que surpreende pelo bom gosto como apresenta de forma sombria e introspetiva, mas superiormente frágil e sedutora, a visão dos Tashaki Miyaki sobre alguns temas que sempre tocaram a dupla, mas, principalmente, pela forma madura e sincera como tentam conquistar o coração de quem os escuta com melodias doces e que despertam sentimentos que muitas vezes são apenas visíveis numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

Tashaki Miyaki - The Dream

01. L.A.P.D. Prelude
02. City
03. Girls On T.V.
04. Out Of My Head
05. Anyone But You
06. Cool Runnings
07. Tell Me
08. Facts Of Life
09. Keep Me In Mind
10. Get It Right
11. Somethin Is Better Than Nothin
12. L.A.P.D. Finale
13. L.A.P.D.


autor stipe07 às 14:56
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Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

The War On Drugs - Thinking Of A Place

 

Os The War On Drugs de Adam Gradunciel já eram sinónimo de saudade na redação de Man On The Moon, até porque não davam sinais de vida desde o excelente Lost In The Dream, editado há cerca de três anos. Refiro-me a um projeto norte americano cuja sonoridade descomprometida e apimentada com pequenos delírios acústicos foi aos poucos transformando-se numa referência para vários artistas em início de carreira e que está de regresso em 2017 com um novo registo de originais. Mas para já, enquanto o novo disco não chega, Gradunciel produziu especialmente para o Record Store Day deste ano Thinking Of A Place, um tema que encarna onze minutos que são uma verdadeira vibe psicadélica e poeticamente melancólica, com uma progressão interessante e onde vão sendo adicionados diversos arranjos, sintetizadores a batidas que adornam as guitarras e a voz, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte. Confere...


autor stipe07 às 13:19
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Sexta-feira, 21 de Abril de 2017

Trêsporcento - Território Desconhecido

Quase cinco anos depois do excelente Quadro, os lisboetas Trêsporcento, deTiago Esteves (voz e guitarra), Lourenço Cordeiro (guitarra), Salvador Carvalho (baixo), Pedro Pedro (guitarrista) e António Moura (baterista), parecem apostados em fazer de 2017 mais um ano memorável na já respeitável carreira de um dos projetos essenciais do universo indie sonoro nacional. Para isso contam com Território Desconhecido, o terceiro e novo álbum do grupo, que viu a luz do dia a sete de abril último.

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Gravado desde Junho passado até ao início deste ano, misturado por Carlos Jorge Vales e masterizado por Miguel Pinheiro Marques, Território Desconhecido conta com a participação especial de Flak (Rádio Macau, Micro Audio Waves), que produziu e gravou o disco no Estúdio do Olival, à excepção das baterias que foram captadas por Manuel San Payo.

Logo em O Sonho, tema que abre o alinhamento de Território Desconhecido e a concretização de um desejo antigo da banda de compôr uma canção em que o refrão fosse um simples instrumental, fica vincada uma salutar ideia de maturidade, numa canção atual e que nos mostra uns Trêsporcento fiéis a si próprios e a trilharem de modo assertivo e criativo aquele percurso sonoro que sempre os norteou, assente numa indie pop aberta e luminosa e sempre cantada em português.

Depois da porta para esse Território Desconhecido se abrir de modo opulente e magnâmino, somos surpreendidos em Um Grande Passo pela exuberância contida mas firme de uma flauta transversal, que, aliando-se às cordas, recosta-nos para o fundo daquele fiel cadeirão onde bocejamos as nossas agruras amorosas. Mas pouco depois e logo a seguir à luminosidade incontida dos punhos fechados que conduzem Tempos Modernos, somos salvos pelo ambiente intimista de Stoner, canção que parecendo levitar num oásis de detalhes eletrónicos, contém um suave travo vintage, ao nível dos arranjos da guitarra e dos detalhes vocais, à herança da nossa música mais tradicional.

Até ao ocaso de Território Desconhecido nunca nos sentimos defraudados pela audição de todo este receituário inédito no panorama sonoro nacional atual e, à medida que o alinhamento prossegue, conseguimos, com indubitável clareza, perceber os diferentes elementos sonoros que vão sendo adicionados e que esculpem as canções, com as guitarras, melodicamente sempre muito próximas da voz e alguns arranjos sintéticos a sobressairem, não porque ficam na primeira fila daquilo que se escuta, mas porque suportam aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que uma canção toma e nas sensações que transmite. Quer na arrebatadora simplicidade das cordas de Cabeça Ocupada, canção com um grau de emotividade extrovertida ímpar, ou no devaneio rock de A Ciência, assim como, numa faceta oposta, no posicionamento clássico do dedilhar da viola que constrói a melodia de Papa Figos, tema que homenageia o famoso vinho da Casa Ferreirinha, mesmo havendo várias abordagens díspares a um território sonoro impecavelmente delimitado, é possível irmos, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa espécie de indie rock pop folk feito por mestres impregnados com um intenso bom gosto e que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um charme ainda maior pela peça em si que este disco representa.

Escutar os Trêsporcento atualmente é um elixir revitalizador para o espírito, aconchega a alma e faz esquecer, nem que seja por breves instantes, aquelas atribulações que de algum modo nos afligem. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:36
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Quarta-feira, 19 de Abril de 2017

Glass Vaults - Bleached Blonde

Os Glass Vaults são uma banda oriunda de Wellington, na Nova Zelândia e em cujo regaço melancolia e lisergia caminham lado a lado, duas asas montadas em canções que nos oferecem paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos e a voz de Larsen que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta. E tudo isto sente-se com profundo detalhe, numa banda que por vir dos antípodas parece carregar nos seus ombros o peso do mundo inteiro e não se importar nada com isso, algo que nos esclareceu com veemência Sojourn, o longa duração de estreia destes Glass Vaults, editado em 2015 à boleia da Flying Out e que sucedeu a Glass (2010) e Into Clear (2011), dois eps que colocaram logo alguma crítica em sobressalto.

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Agora, quase dois anos depois desse auspicioso início de carreira no formato longa duração, o trio está de regresso aos discos com The New Happy, um trabalho que irá ver a luz do dia a doze de maio através de Melodic Records e de cujo alinhamento já se conheceu, há alguns dias, um tema intitulado Brooklyn e agora uma segunda composição intitulada Bleached Blonde. Esta última é uma belísima composição marada por uma percussão de elevado cariz étnico, cruzada por um efeito de uma guitarra plena de swing, um verdadeiro festim de cor e alegoria, onde tudo é filtrado de modo a reproduzir toda a magnificiência que costuma marcar as propostas sonoras de uns Glass Vaults que impressionam pela orgânica e pelo forte cariz sensorial. Parece confirmar-se que New Happy será um disco com um som esculpido e complexo e com um encadeamento que nos obrigará a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. Confere...


autor stipe07 às 21:39
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Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Father John Misty - Pure Comedy

Father John Misty já foi visto como um reverendo barbudo e cabeludo, que vagueava pela noite americana a pregar o evangelho segundo Neil Young. Encharcado, pegava no violão e cantava sobre cenas bíblicas, Jesus e João Batista e a solidão. Hoje, este ser único não é só um artista, é uma personagem criada e interpretada por Josh Tillman, antigo baterista dos Fleet Foxes, e com uma já respeitável carreira a solo, que acaba de ver um novo capítulo. O mais recente registo discográfico de Joshua Tillman chama-se Pure Comedy, chega aos escaparates hoje, dia sete de abril e assume-se como um portentoso documento sonoro, uma ode aquele lado mais charmoso e clássico da pop que quer ser máquina de transmissão de tudo aquilo que o amor enquanto evidência feliz ou palco dos mais inquietantes e perigosos devaneios oferece, quer sejam realidades empíricas e fisicamente passíveis de provocar reparo ou dano, ou sensações psiquícas que muitas vezes incendeiam, para o bem ou para o mal, até o ser mais empedrenido que habita à face da terra.

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Num disco preenchido então, e como não podia deixar de ser, com canções de amor bonitas e sentidas, as mesmas encontram-se repletas de orquestrações opulentas e com um grau de refinamento classicista incomensurávelmente belo. Chega a ser inquietante o modo impressivo e realista como Joshua Tillman se senta ao piano ou coloca a viola no regaço e toca e canta emotivamente sobre as agruras, anseios, inquietações inerentes à condição humana, mas também as motivações e os desejos de quem usa o coração como veículo privilegiado de condução, orientação e definição de algumas das metas imprescindíveis na sua existência. E, como é do senso comum, somos muitos aqueles que nos deixamos conduzir, quase sempre, pelo coração em vez da razão. E se há momentos em que desconfiamos que seria bem melhor a materialização de opções mais racionais e até, quem talvez não saiba o que diz, conscientes, a música de Father John Misty é aquele tónico que nos deixa acreditar que pode ser possível confiar que o nosso modus operandi também poderá ser válido na obtenção dos melhores caminhos e atalhos principais e secundários para a suprema felicidade ou, em último caso, para a redenção pessoal.

É particularmente arrepiante o modo como no piano do tema homónimo, já com um maravilhoso vídeo realizado por Matthew Daniel Siskin, este verdadeiro sex symbol indie e estrela improvável faz uma sátira feroz e irónica à América atual, numa canção de inegável beleza e melancolia, que se não é a reinvenção da roda contém uma saudável dose de letargia que garante sucessivas audições, por dias a fio. Logo a abrir o disco, acaba por ser um dos mais belos exemplos do modo como Tillman serve-se do piano para expressar sentimentos que podem causar algum desconforto na mente dos mais desconfiados sobre as suas reais intenções, além de afagarem, com notável eficácia, as dores de quem se predispõe a seguir sem concessões a sua doutrina. E mais adiante, em Things That Would Have Been Helpful To Know Before The Revolution, essas mesmas teclas conseguem fazer-nos debruçar, numa fase inicial, de encontro ao nosso âmago, para depois, juntamente com um edifício instrumental heterogéneo e exuberante, fazer-nos desabrochar de novo, mas agora com uma postura final mais firme e confiante.

Mas as cordas também são um veículo imprescindível para o arquétipo sonoro de Tillman e se em Ballad Of The Dying Man entrelaçam-se com o piano para juntos conjurarem juras de amor mútuo e inseparável, já em Total Entertainment Forever constroem, novamente juntos, uma peça sonora vigorosa e pulsante, duas sensações luminosas ampliadas pela presença do trompete, que intercala maravilhosamente com a voz, numa mescla que permite um suave levitar, tal é o rol de emoções que transmite e a intensidade das mesmas. 

Até ao ocaso do disco, Father John Misty não abranda no sermão e na afabilidade com que nos faz espontaneamente refletir sobre a nossa perene existência. E da osmose contemplativa de Birdie, canção que nos faz divagar ao sabor de uma fina corrente de uma enigmática luz que dela exala, ao sentido sabor a despedida de uma cidade que não deixa ninguém indiferente, em Leaving LA, passando pelo profundo sabor a redenção que transborda de When The God OF Love Returns There ll Be Hell To Pay, são vários os momentos altos de um alinhamento que não deixa também de conter um estrondoso frenesim sensual e que aponta novos faróis a um dos artistas mais distintos e criativos da pop atual e que hoje e como nunca o fez antes, instiga, hipnotiza e emociona. 

Sedutor, cativante, profundamente engenhoso e com todos os atributos para ser um verdadeiro diabo vestido de anjo, Tillman aprofunda neste seu novo trabalho, que é já, claramente, um dos melhores discos do ano, o refinado e oportuno sentido de humor que tão bem o carateriza e a sagacidade das suas letras, cada vez mais inteligentes e enigmáticas. E Father John Misty leva a cabo esta demanda com um elevado sentido críptico e desafiante, já que não é óbvia, em alguns instantes, a descodificação célere das suas reais intenções relativamente a todos aqueles que se deixam inebriar pelos seus sermões e fazer parte de um rebanho que se assanha sempre que o pastor investe no seu tema recorrente, o amor. Espero que aprecies a sugestão...

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1. Pure Comedy
2. Total Entertainment Forever
3. Things It Would Have Been Helpful to Know Before the Revolution
4. Ballad of the Dying Man
5. Birdie
6. Leaving LA
7. A Bigger Paper Bag
8. When the God of Love Returns There'll Be Hell to Pay
9. Smoochie
10. Two Wildly Different Perspectives
11. The Memo
12. So I'm Growing Old on Magic Mountain
13. In Twenty Years or So


autor stipe07 às 00:01
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Terça-feira, 28 de Março de 2017

Mark Kozelek – Night Talks EP

Mark Kozelek, o cérebro por trás do projeto Sun Kil Moon (referência a um boxeur coreano, morto aos vinte e três anos), é um verdadeiro workaholic, um artista que em duas décadas e meia de carreira já gravou mais de quarenta discos, se à banda atual juntarmos os seus trabalhos a solo e o papel fundamental que teve nos míticos Red House Painters. Este músico simplesmente não pára e entra em 2017 a explorar ao máximo algumas das melhores virtudes de Common as Light and Love Are Red Valleys of Bloodo seu último registo de originais. E fá-lo através de Night Talks, um novo ep de cinco canções.

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Este pequeno compêndio de canções conta no seu alinhamento com uma versão acústica de I Love Portugal, um dos pontos altos de Common as Light and Love Are Red Valleys of Blood, além de uma cover de Famous Blue Raincoat, um original de Bob Dylan, outra de Pretty Little Flowers, de Kath Bloom, um original homónimo e um curioso inédito intitulado Astronomy, em que Kozelek disserta sobre Trump e os novos traumas de uma América cada vez mais confusa e dividida (And as the adults talked about colonoscopies and stints and arteries and cholesterol medications, suddenly we looked around and we lost the children off to the rooms in their own little worlds doing whatever it is that children get into, while us old people talk about old boring people things like Trump banning flights into the United States, and we watch it on TV, series like Eugene Levy’s “Schitt’s Creek,” and my God, my dad snores pretty loud when he falls asleep).

Lançado através da Caldo Verde Records, etiqueta do próprio Mark KozelekNight Talks é um belíssimo tratado de folk acústica onde a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave e canções como as já mencionadas Astronomy ou a versão acústica de I Love Portugal, são exemplos extraordinários de temas que transbordam uma majestosa e luminosa melancolia.

Se os Red House Painters eram uma instituição da expressão indie, a solo Mark Kozelek afirma-se como um compositor com uma sonoridade ainda mais frágil e cândida e neste Night Talks, à semelhança do que tem feito nos últimos registos, é a guitarra com cordas de nylon usada com mestria, que logo no tema homónimo consegue enriquecer as harmonias sem complicar, criando um ambiente sonoro descontraído e algo minimal, mas extremamente rico. E à medida que a sua voz se estende pelas melodias desta e das outras canções, sem pressas ou amarras, solidão, melancolia e inadaptação aos cânones sociais estabelecidos desfilam por letras que versam sobre estes e outros temas comuns, algo que até nem é de estranhar já que é normal encontrar Kozelek, a antítese de uma estrela rock, numa loja da esquina, a fazer a sua vida rotineira, como um cidadão comum.

Kozelek tem como virtude maior o facto de compor valendo-se, acima de tudo, das suas próprias experiências. É curioso, intenso e impressivo o modo como escreve assumindo-se como cobaia dos seus próprios pensamentos, além de servir-se da família, dos amigos, das namoradas, de figuras políticas de relevo e ícones da cultura pop também como testemunhas e referências do seu cardápio, quer lírico quer sonoro, sempre com um resultado final avassalador e tremendamente reflexivo. Espero que aprecies a sugestão...

Mark Kozelek - Night Talks

01. Night Talks
02. I Love Portugal (Acoustic Version)
03. Astronomy
04. Pretty Little Flowers (Feat. Kath Bloom)
05. Famous Blue Raincoat


autor stipe07 às 22:12
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