Sábado, 4 de Julho de 2015

Grasscut - Everyone Was A Bird

​Oriundos de Brighton, os britânicos Grasscut são uma dupla formada por Andrew Phillips e Marcus O’Dair e estão de regresso aos discos com Everyone Was A Bird, o terceiro tomo da carreira do projeto, editado através da Lo Recordings. Se coube essencialmente a Phillips escrever, cantar, produzir e tocar piano, guitarra, baixo, sintetizador, Everyone Was A Bird acabou por ser o trabalho da dupla onde Marcus teve, até agora, um papel mais ativo, já que também toca piano e baixo na maior parte das canções.

Fortemente cinematográficos e imersivos, submergidos num mundo quase subterrâneo de onde debitam música através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco das melodias e dão asas às emoções que exalam desde as profundezas desse refúgio bucólico e denso onde certamente se embrenharam, pelo menos na imaginação, para criar estas oito nove músicas que acresecentam ao seu já notável cardápio, os Grasscut impressionam pela orgânica e pelo forte cariz sensorial das suas canções. Os feitos que borbulham de Islander, canção inspirada numa zona chamada Jersey onde Phillips cresceu e o mapa conciso que o tema cria do espaço escuro e fundo onde este disco foi criado, subsistem à custa de uma mistura feliz entre a eletrónica mais introspetiva e minimal e alguns dos mais preciosos detalhes do post rock, onde não faltam belíssimos violinos, particulamrnte ativos também em Radar. Depois, as teclas do piano, um baixo sempre vibrante e lindísiimas letras, algumas delas inspiradas na obra de Robert Macfarlane, autor do clássico Landmarks, Mountains of the Mind, The Wild Places and The Old Ways, são outros elementos sonoros do álbum que o emblezam particularmente.

Everyone Was A Bird fala do passado dos antepassados desta dupla, é uma busca muito particular das origens e da identidade de ambos, enquanto procuram replicar sonoramente as paisagens naturais onde habitaram os seus antecessores; Escutam-se os sons naturais de Curlews, o piano vintage que conduz a melodia e o registo vocal em coro num assombroso registo em falsete, para pintarmos sem grande dificuldade na nossa mente a tela paisagistíca que inspirou os Grasscut, onde não faltam ribeiros cheios de vida, manhãs dominadas pelo nevoeiro e um frio intenso e revigorante e uma fauna muito particular, com a curiosidade de, num patamar inferior, suportando este quadro idílico, estar o tal universo submerso, escuro e entalhado qase no ventre da terra mãe, expirando por um buraco cravado no solo poeirento toda esta vida feita música, que tanto pode estar ainda em Jersey, como já no estuário de Mawddach, no País de Gales, região de origem da família de Philips e onde a maioria da mesma ainda reside, ou a própria Brighton, que inspirou o conteúdo particularmente profundo e emotivo da balada Snowdown, cantada por Elisabeth Nygård e da pensativa e reflexiva, mas também épica The Field.

O momento mais emocionante, extorvertido e grandioso de Everyone Was A Bird acaba por ser o final com Red Kite, tema onde os Grasscut parecem já querer projetar-se para uma dimensão superior,  numa canção cheia de detalhes e sons fortemente apelativos e luminosos, aprofundando a relação intensa que existe neste disco entre música e uma componente mais visual, ao que não será alheio o trabalho de Phillips como criador de bandas sonoras, sendo bom exemplo a sua participação, por intermédio de outro quarteto de que faz parte, no aclamado documentário Piper Alpha: Fire In The Night, que relata os trágicos acontecientos ocorridos no Mar do Norte em Julho de 1988, quando um incêndio numa plataforma petrolífera tirou a vida a cento e sessenta e sete trabalhadores e a elaboração de uma série de filmes de paisagens naturais, da autoria de Roger Hyams e do fotógrafo Pedr Browne, para acompanahrem cada um dos oito temas de Everyone Was A Bird, nomeadamente quando forem tocados ao vivo, sendo projetados durante os concertos dos Grasscut.

Com as participações especiais nas vozes da já referida Elisabeth Nygård, de Adrian Crowley e de Seamus Fogarty e de Aram Zarikian na bateria, Emma Smith e Vince Sipprell nas cordas, Everyone Was A Bird é uma arrebatadora coleção de trechos sonoros cuja soma resulta numa grande melodia linda e inquietante, que nos faz imaginar a beleza daquelas ilhas sem grande esforço e quem se deixar contagiar pela melancolia destes Grasscut será transportado rapidamente para o gélido norte das ilhas britânicas, talvez acompanhado por uma xícara bem quente de chá. Espero que aprecies a sugestão...

Grasscut - Everyone Was A Bird

01. Islander
02. Radar
03. Curlews
04. Fallswater
05. Halflife
06. Snowdown
07. The Field
08. Red Kite


autor stipe07 às 18:35
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|

Eliot Sumner – After Dark

Eliot Sumner - After Dark

Com o ocaso do projeto I Blame Coco, Eliot Sumner virou definitivamente agulhas para o seu projeto a solo que deverá ver o disco de estreia ainda antes do final deste ano. After Dark é o primeiro single divulgado desse álbum e nela, a voz andrógena de Eliot é coberta por uma nuvem de sintetizadores, guitarras precisas e batidas que moldam uma melodia cujo clima soturno apela claramente à pop dos anos oitenta.

No vídeo, captado num estúdio pouco iluminado, a cantora surge com os colegas de banda, todos separados por estações, num ambiente repleto de luzes coloridas e projeções frenéticas que ajudam a ampliar o tom sombrio da canção. Confere...


autor stipe07 às 18:22
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sexta-feira, 3 de Julho de 2015

The Black Lamps – The Black Lamps

Greg Firth, Dean Ormston, Lyndon Scarfe e Liam Stewart são os The Black Lamps, uma banda inglesa oriunda de Barnsley e no ativo desde 2006, com uma já apreciável atividade, sempre com sonoridades adjacentes ao indie rock mais sombrio no ponto de mira. No início deste ano editaram um homónimo, através da Of National Importance Records, dez canções produzidas e misturadas pelos próprios The Black Lamps e masterizadas por Tom Woodhead.

Trio cheio de nomes consagrados do cenário indie punk local, com alguns músicos a andarem nestas andanças há mais de três décadas e com atividades paralelas mas que não deixam de ter a música como referência importante (Liam gere uma empresa local de manufatura de t-shirts, Greg é designer industrial e Dean artista gráfico e ilustrador), os The Black Lamps são um nome respeitado e este homónimo o culminar de vários anos de trabalho, momentos de apatia e outros de enorme produtividade, atuações ao vivo e gravações esporádicas e planeadas, num resultado final sóbrio e elegante, coberto por aqulea aúrea nostálgica e enevoada que só as bandas britânicas sabem criar.

Com os conterrâneos Cure e Joy Division a encabeçar as influências declaradas da sonoridade dos The Black Lamps, mas também com os sintetizadores dos New Order a ditaram lei, logo em The Archivist, The Black Lamps exala esse agradável sabor nostálgico ao dealbar dos anos oitenta. Casa Disco, o segundo tema, homenageia uma loja de discos local entretanto encerrada e as guitarras contêm essa familiariedade com o indie rock de cariz mais alternativo e que aposta no revivalismo de outras épocas, nomeadamente os primórdios do punk rock mais sombrio.

A voz de Liam ganha plano de destaque maior sempre que procura acompanhar um esqueleto instrumental melancólico, fazendo-o com particular audácia na subtil Awnkward e no universo algo sombrio e fortemente entalhado numa forte teia emocional amargurada que rodeia Low Hanging Fruit. Em The Smoking Party, mesmo com maior reverb, volta a não descolar no grau de emotividade que coloca na sua interpretação vocal, exemplarmente acompanhado pelas exuberância das cordas e em Gene Pool tem ao seu lado uma percurssão coesa e bastante ritmada.

Até ao ocaso de The Black Lamps torna-se imprescindível e especial deleitar os nossos ouvidos com o ritmo sempre crescente, num álbum muito bem produzido, sem lacunas, com elevada coerência e sequencialidade e que é, sobretudo, um exercício de audição individual das canções. Mesmo ignorados por meio mundo, os The Black Lamps aproveitam o facto de estarem no apogeu da carreira e do grau de maturidade de todos os seus membros, para criar um disco fantástico, emocionante, vigoroso e comunicativo e que merecia uma maior projeção. Talvez seja desta vez que conseguem quebrar o enguiço de quem insiste em querer catalogar com injusto menosprezo alguns projetos que procuraram replicar apenas, ao longo da carreira, zonas de conforto, mesmo que o façam com elevada bitola qualitativa. Espero que aprecies a sugestão...

The Black Lamps - The Black Lamps

01. The Archivist
02. Casa Disco
03. Colour 8
04. The Smoking Party
05. Awkward
06. Planets
07. Are There No More Surprises?
08. Low Hanging Fruit
09. Gene Pool
10. Scissors, Paper, Stone


autor stipe07 às 14:33
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|

The Libertines – Gunga Din

The Libertines - Gunga Din

Onze anos depois do último registo de originais, os britânicos The Libertines, de Peter Doherty e Carl Barât, têm finalmente um novo trabalho na calha. Anthems for Doomed Youth chega aos escaparates em setembro, via Harvest, e Gunga Din é o primeiro single divulgado.

A canção inspira-se num poema do século XIX com o mesmo nome da autoria de Rudyard Kipling e o vídeo, realizado por Roger Sargent, mostra o quarteto a deambular pelas ruas do Red Light District, na Tailândia. Confere...

 


autor stipe07 às 10:04
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Quinta-feira, 2 de Julho de 2015

Cold Weather Company – Somewhere New

Brian Curry, Jeff Petescia e Steve Shimchick são os Cold Weather Company, um trio norte americano oriundo de New Brunswick, em Nova Jersey, que se estreou nos discos no início deste ano com Somewhere New, treze canções que viram a luz do dia logo em janeiro e que foram captadas em quartos, caves e até numa cabine, gravadas e misturadas por Ralph Nicastro dos Boxed Wine.

É a mais genuína herança sonora da América profunda que preenche o código genético destes Cold Weather Company, abastecido por cordas, que servem como um veículo privilegiado de expressão da criatividade e de manifestação de sentimentos e emoções. Este coletivo mergulha fundo na psicadelia folk que definiu a música dos anos sessenta, mas mais do que se aproximar de uma musicalidade calcada em antigas nostalgias, este trio deixa-se consumir abertamente tanto pela música country como pela soul, referências que percorrem cada uma destas treze canções e expandem os territórios deste grupo da costa leste. A simbiose entre os dois géneros possibilita que eles se encontrem, como em Steer, canção que explora ambas as referências de igual forma e prova que há uma tentativa descarada de aproximação com o cancioneiro norte americano, estratégia que o ambiente acústico de Fellow In The North, o piano de Unlocked, a luminosidade do dedilhar de Jasmine ou a pronúncia grave das notas de Fall Low denunciam de forma declarada.

Há em Somewhere New uma capacidade subtil de incorporar um sentimento universal e quase filosófico de crença em algo novo, diferente e, por isso, conforme indica o título, substancialmente melhor. Nas letras os Cold Weather Company assumem uma postura quase religiosa, com muitas das canções a refletirem sobre fé e crenças, num disco bucólico e nostálgico que o aproxima de outros grandes representantes da cena folk atual, com os Fleet Foxes, ou os The Decemberists a serem, cdertamente, referências óbvias. A própria subtileza vocal de Brian Curry parece rondar em várias canções Colin Meloy, uma aproximação que, por exemplo, em Horizon Fire, resulta num doce retrato do que seria a música pop há umas cinco décadas. Esta calma acaba por definir a estrutura geral de Somewhere New, com a busca de delicadeza e um altivo controle da espontaniedade a serem, para já, uma imagem de marca destes Cold Weather Company.

Na estreia, este trio norte americano utiliza a santa triologia da pop, da folk e da country de forma extremamente assertiva e eficaz, num resultado final que reluz porque assenta num som leve e cativante e contém texturas psicadélicas que simultanemente nos alegram e nos conduzem à introspeção, com uma sobriedade distinta e focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

Cold Weather Company - Somewhere New

01. Horizon Fire
02. Fellow In The North
03. Steer
04. Inside Your Eyes
05. Someone Else
06. Hey Bodham Dae / What Do I Do
07. Garden
08. Unlocked
09. Jasmine
10. Tumbling
11. Recollection
12. Fall Low
13. Seafarer


autor stipe07 às 22:00
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|

Beach House - Sparks

Beach House - Sparks

É já a vinte e oito de agosto que chega às lojas, através da Sub Pop, Depression Cherry, o quinto álbum da dupla Beach House e Sparks é o primeiro single divulgado do sucessor do aclamado Bloom

Com uma sonoridade simples e nebulosa, bastante melódica e etérea, assente em sintetizadores assertivos e ruidosos e guitarras com efeitos recheados de eco, os Beach House mantêm, em Sparks, intacta a sua aura melancólica e mágica, que vive em redor da voz doce de Victoria Legrand e da mestria instrumental de Alex Scally e se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado, com My Bloody Valentine, Rocketship e Slowdive a serem recordados com alguma nitidez neste tema. Confere...


autor stipe07 às 16:37
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|

DIV I DED - Late Awakening

A dezassete de julho chega aos escaparates Born To Sleep, o disco de estreia dos DIV I DED, um projeto checo criado pelo multi-instrumentista Filip Helštýn em 2013, juntamente com a vocalista Viktorie Marksová e que faz já parte da insuspeita e espetacular editora, Fleeting Youth Records, uma etiqueta essencial para os amantes do rock e do punk, sedeada em Austin, no Texas.

Inspirados pela pop melancólica simples e intrigante, feita com aquele intimismo romântico que integra uma espantosa solidez de estruturas, num misto de euforia e contemplação e adornada com arranjos sintetizados e orgânicos muito subtis mas capazes de amenizar a típica crueza das guitarras, os DIV I DED também piscam o olho ao punk rock em Late Awakening, o primeiro single divulgado de Born To Sleep, um tema que exala um charme melódico que impressiona pela atmosfera densa e pastosa mas libertadora e esotérica que transporta. Confere...


autor stipe07 às 16:25
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Quarta-feira, 1 de Julho de 2015

André Barros - Soundtracks Vol. I

Estudante de direito, André Barros resolveu, em boa hora, aprender a tocar piano, de modo autodidata e numa idade considerada por muitos como tardia mas que, pelos vistos, tendo em conta a beleza da tua música, resultou na perfeição. O passo seguinte, acabou por ser estudar produção musical e para isso rumou à Islândia para trabalhar alguns meses no Sundlaugin Studio dos Sigur Rós, uma das minhas bandas preferidas, num espaço que eu adorava visitar.

Particularmente apaixonado por música instrumental, André Barros sempre adorou escutar bandas sonoras e a facilidade com que tocou um dos temas de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, de Yann Tiersen, num piano acústico de uma amiga, acabou por ser o click final para o arranque de uma carreira, feita muitas vezes de improviso e que acaba de ter um enorme fòlego intitulado Soundtracks Vol. I, o seu rerceiro registo de originais e que, gravado entre Lisboa e Paço de Arcos, viu a luz do dia a dezoito de maio, por intermédio da Omnichord Records.

Soundtracks Vol. I contém, entre outros, os temas do filme Our Father, de Linda Palmer, que renderam ao autor um galardão para melhor banda sonora no Los Angeles Independent Film Festival Awards e que, depois de ter alcançado boas críticas e alguns prémios em vários festivais, chegou também à edição de 2015 do Festival de Cannes.

Músico de excelência e exímio criador de arranjos, quer de teclas quer de cordas, em Soundtracks Vol. 1 André Barros oferece-nos vários temas criados essencialmente para curtas metragens e documentários, com Between Waves a ser a única canção que não é da sua autoria. Refiro-me a um tema de Yuchiro Nakano, com arranjos da autoria de André Barros e que fez parte de uma curta-metragem com o mesmo nome. Depois, há também uma excelente composição intitulada Gambiarras, que conta com a participação especial do escritor Valter Hugo Mãe, que escreveu um poema que o próprio leu, além de uma canção intitulada Flowers On Your Skin, criada propositadamente para o espetáculo de dança contemporânea Short Street Stories.
Trabalho comtemplativo, relaxante e intimista, Soundtracks Vol. I é um admirável compêndio de trechos sonoros, feitos com cordas e pianos que se unem entre si com uma confiança avassaladora, tornando-se absolutamente recompensadores pelo modo como nos transmitem uma paz de espírito genuína, ao memso tempo que conseguem ajudar-nos a materializar visualmente os diferentes cenários que as composições pretendem recriar nos diferentes filmes em que são utilizados. Este é um documento sonoro invulgar, mas particularmente belo, capaz de colocar o ouvinte no meio da ação dos filmes e documentários que utilizam as várias composições do alinhamento, contemplando-os usando o sentido da audição e depois, o próprio olfato e a visão, já que esta é, na minha opinião, música com cheiros e cores muito próprios.

Não só no conceito que pretendeu, pelos vistos, criar sons tendo em conta a trama que se desenrola no grande ecrã, sons do momento e, por isso irrepetíveis, mas também na materialização, onde não faltam instantes sonoros subtis proporcionados por alguns arranjos que, confesso, só uma audição atenta com headphones me permitiu conferir, já que alguns são audíveis de forma quase impercetível, percebe-se que a sonoridade geral de Soundtracks Vol. 1 exala uma sensação, quanto a mim, vincadamente experimental e tem tudo o que é necessário para, finalmente, o André Barros ter o reconhecimento público que merece. Confere a entrevista que André Barros concedeu a Man On The Moon e espero que aprecies a sugestão...

Gravado em Lisboa e em Paço de Arcos, Soundtracks Vol. 1 é um documento sonoro invulgar, mas particularmente belo, capaz de colocar o ouvinte no meio da ação dos filmes e documentários que utilizam as várias composições do alinhamento, contemplando-os usando o sentido da audição e depois, o próprio olfato e a visão, já que esta é, na minha opinião, música com cheiros e cores muito próprios. Como surgiu a ideia de gravar um disco assim?

Agradeço imenso estas palavras! Diria que não houve, inicialmente, qualquer intenção de gravar um disco assim pois aquando da composição das várias bandas sonoras a que estes temas pertencem (portanto, desde final de 2013) eu não antevia que, juntamente com a editora, viríamos posteriormente a tomar a decisão de os compilar num CD e passar a ter esta mostra do meu trabalho nesta área dividida por volumes. No entanto, depois de termos os temas prontos, depois de terminadas as bandas sonoras, tudo fez sentido e dado que continuarei a trabalhar com afinco neste mundo da música para imagem, então que melhor forma de o partilhar com o público do que criar estas compilações ao longo do tempo?

Pessoalmente, penso que Soundtracks Vol. 1  tem tudo o que é necessário para, finalmente, o André Barros ter o reconhecimento público que merece. Quais são, antes de mais, as tuas expetativas para este teu novo fôlego no teu projeto a solo?

É extraordinário sentir isso, e sinto-me muito grato por até hoje ter recebido um bom feedback deste trabalho de que tanto me orgulho. Espero tão somente que possa continuar a partilhar as minhas criações com as pessoas, seja gravando mais bandas sonoras, seja pelos concertos, seja pelo lançamento de um novo álbum de originais (que não para filmes). Para o fazer, certamente que terei de influenciar positivamente quem escuta o meu trabalho para que possa ter as condições para continuar, e estou convicto de não defraudarei as expectativas de quem, tão gentilmente, tem seguido o meu percurso.

Ouvir Soundtracks Vol. 1 foi, para mim, um exercício muito agradável e reconfortante que tenho intenção de repetir imensas vezes, confesso. Intrigante e melancólico, é realmente um documento que não tem apenas as teclas do piano como protagonistas maiores do processo melódico, com as cordas, quer de violas, quer de violinos, a serem, também, parte integrante e de pleno direito das emoções que os diversos temas transmitem. Esta supremacia do cariz fortemente orgânico e vivo que esta miríade instrumental constituída por teclas e cordas por natureza confere à música que replica, corresponde ao que pretendeste transmitir sonoramente neste trabalho?

Sem dúvida! Estes temas, todos eles, vivem muito da intenção aquando da sua interpretação, e não apenas de todo o aparato técnico que montamos quando os criamos em estúdio. Este é um aspecto crucial que influenciará certamente a escuta atenta de quem põe o disco a tocar, é também um aspecto que vou tentando aprimorar a cada trabalho que vou produzindo, sendo que por vezes se pode tornar um desafio enorme partilhar com os músicos exactamente a intenção que pretendo que coloquem em cada frase, mas tudo isto é uma aprendizagem e felizmente vejo-me rodeado de músicos bem talentosos e maduros, apesar da sua (nossa!) juventude!

Em traços gerais, como foram sendo selecionados os filmes e documentários onde se podem escutar estas canções? Recebeste convites para participares na banda-sonora ou tu próprio abordaste alguns realizadores com essa intenção?

Até agora, todos os filmes nos quais tive o prazer de participar com o meu trabalho (tirando somente produções para filmes institucionais e corporativos/publicidade) surgiram graças ao meu trabalho de pesquisa (uma parte fundamental da minha actividade!) que desenvolvo incessantemente, procurando projectos de filmes em fases de pré-produção para os quais acha uma futura possibilidade de vir a integrar enquanto compositor. Uma vez captado o interesse de um realizador/produtores, desenvolvo os contactos por forma a mostrar que consigo atingir a sonoridade que pretendem, enviando demos com base em guiões ou outro material já disponível, até que (nos casos em que fui bem sucedido) recebo a confirmação do outro lado para integrar oficialmente a equipa de produção.

Não só no conceito que pretendeu, pelos vistos, criar sons tendo em conta a trama que se desenrola no grande ecrã, sons do momento e, por isso irrepetíveis, mas também na materialização, onde não faltam instantes sonoros subtis proporcionados por alguns arranjos que, confesso, só uma audição atenta com headphones me permitiu conferir, já que alguns são audíveis de forma quase impercetível, percebe-se que a sonoridade geral de Soundtracks Vol. 1 exala uma sensação, quanto a mim, vincadamente experimental. Houve, desde o início do processo de gravação, uma rigidez no que concerne às opções que estavam definidas, nomeadamente o tipo de sons a captar no piano e a misturar com as cordas e as vozes, ou durante o processo houve abertura para modelar ideias à medida que o barro se foi moldando?

Sim, há sempre uma certa flexibilidade que me dão durante o processo de amadurecimento dos temas, e que me permite experimentar novos sons ou novos efeitos que poderão enriquecer o resultado final do trabalho. Acredito que tais pormenores, e claro muitos deles apenas perceptíveis se escutados atentamente, acabam por contribuir para uma identidade mais vincada de cada projecto, ajudando-me a enriquecer e a complementar uma melodia.

Além de ter apreciado a riqueza sonora natural, gostei particularmente do cenário melódico das canções, que achei muito bonito. Em que te inspiras para criar as melodias?

Muito obrigado! De facto, tento sempre que o meu trabalho tenha uma boa estrutura melódica pois acabou por ser esta a razão que me levou a entrar no universo da música, da composição... é muito inglório atribuir a este ou outro aspecto/acontecimento o papel de  fonte de inspiração pois será sempre uma resposta subjectiva e incompleta, na medida em que sinto que há uma infinidade de factores de certamente contribuirão para a génese do meu trabalho de composição, muitos deles claramente intuitivos e difíceis de racionalizar!

Valter Hugo Mãe escreveu propositadamente o poema de Gambiarras, um tema em que ele próprio também colabora com a voz. Como surgiu a possibilidade de trabalhar com este escritor ilustre no disco? De quem partiu a iniciativa desta colaboração?

Eu conheci o Valter e enderecei-lhe o convite, sendo que já vinha a amadurecer este tema há algum tempo, e com ele também a ideia de cruzar a poesia (ainda que não declamada, apenas lida) com o este meu trabalho. E quem melhor do que o Valter, que aliás tem imensas colaborações com projectos musicais, para me ajudar a concretizar este devaneio?

Adoro a composição Wounds Of Waziristan, por sinal o single do disco. O André tem um tema preferido em Soundtracks Vol. 1?

É-me sempre difícil responder a esta questão, pois tenho muito carinho por todos os temas do álbum... mas se realmente tivesse de eleger um e distingui-lo como uma espécie de “single” do disco, de facto escolheria precisamente o Wounds of Waziristan pois trata-se do primeiro tema que alguma vez compus para filme, logo terá sempre um espaço especial no meu trajecto e nas minhas memórias!

Em relação ao futuro, após Soundtracks Vol. 1, já está definido o próximo passo na tua carreira?

Continuar a trabalhar nesta área das bandas sonoras pois, para além de me dar imenso prazer, dá-me também um certo conforto financeiro para que me possa continuar a aventurar sem receios nesta indústria! Continuar com os concertos de apresentação tanto deste álbum como do anterior e ir pensando em temas para um eventual álbum a solo (isto é, que não de temas para bandas sonoras).

Em tempos, quando estudavas Direito, resolveste aprender a tocar piano, pelos vistos de modo autodidata, numa idade que muitos podem considerar tardia mas que, pelos vistos, tendo em conta a beleza da tua música, resultou na perfeição. Como se deu esse click?

Sim! Agradeço a simpatia. Eu já ouvia imensa música instrumental e nomeadamente de bandas sonoras pela altura em que estava perto de terminar o curso de Direito, pelo que um dia lembrei-me de tentar tocar um dos temas da banda sonora do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” de Yann Tiersen... pesquisei no Youtube como tocar o tema e pedi a uma amiga que me deixasse tentar fazê-lo num piano acústico que ela tinha em casa. Quando percebi que o fiz com relativa facilidade, apaixonei-me de imediato pelo toque e pela sonoridade do piano, daí até comprar um piano digital passaram uns dias e desde logo me aventurei no improviso até construir os meus temas!

Depois, o passo seguinte, acabou por ser estudar produção musical e para isso rumaste à Islândia para trabalhar alguns meses no Sundlaugin Studio dos Sigur Rós, uma das minhas bandas preferidas, num espaço que eu adorava visitar. Como é, em traços gerais, o ambiente nesse estúdio? Como foi essa experiência?

Sim, estive naquele estúdio maravilhoso durante 3 meses, no Verão de 2012. Foi uma experiência inesquecível, aprendi imenso, contactei com músicos e técnicos extraordinários e seria ridículo não dizer que foi o concretizar de um sonho poder partilhar aquele ambiente com músicos e projectos que tanto admiro. São todos extremamente profissionais e pessoas muito dedicados a esta arte. Reina a calma e a boa disposição e procura-se sempre a perfeição sonora respeitando-se todo e cada instrumento e músico para que transpareça nas gravações a paixão que se sente pelo que fazem.

 


autor stipe07 às 21:32
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|

Paper Beat Scissors - Go On

Vocalista, compositor e instrumentista, Tim Crabtree é o lider dos Paper Beat Scissors, um projeto que chega de Halifax, no Canadá e que se prepara para lançar um novo registo de originais intitulado Go On. Esse álbum vai ser editado no próximo dia catorze de agosto, através da Forward Music Group/Ferryhouse, depois do disco de estreia, um homónimo lançado em 2012, que foi dissecado por cá.

Go On, o tema homónimo do segundo disco de Paper Beat Scissors e primeiro avanço divulgado do trabalho, disponível para download gratuíto, é mais um exemplo feliz desta visão poética em que as tesouras representam a agressão e o papel algo suave e delicado mas, no caso deste projeto, a delicadeza e a candura vencem a agressividade e a rispidez, se as canções de Paper Beat Scissors servirem de banda sonora durante o combate fraticida entre estes dois opostos.

Go On é uma compilação dramática de uma folk que nos tira o fôlego, com um falsete que nos deixa sem reação e toca profundamente no nosso coração e um dedilhar de uma guitarra acústica, que depois recebe pequenos detalhes sonoros e que aqui fazem toda a diferença, demonstrando a abundância de talento de Crabtree, que se prepara, certamente, para nos deliciar com mais uma belíssima paleta de cores sonoras, com uma atmosfera envolvente, suave e apaixonada. Confere...


autor stipe07 às 21:29
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Terça-feira, 30 de Junho de 2015

Muse – Drones

Os britânicos Muse de Matthew Bellamy, Dominic Howard e Rich Costey estão de regresso aos discos com Drones, o sétimo trabalho da banda e que teve o pontapé de saída em Vancouver, no início de 2014. De acordo com o líder da banda, Drones é uma metáfora moderna sobre o que é perder a empatia através da tecnologia moderna representada pelos drones, acresecentando que é possível na verdade fazer coisas horríveis com controle remoto, a grandes distâncias, sem sentir nenhuma consequência, ou até não se sentir responsável de qualquer modo.

Produzido por John Lange, Drones obedece à essência que tornou os Muse uma das maiores bandas de rock alternativo da atualidade, assente numa mescla de ficção e surrealismo, à boleia dos peculiares falsetes de Bellamy e um som poderoso e épico, feito de guitarras com arranjos carregados de distorção e que têm em Psycho um dos melhores momentos da carreira do grupo, um baixo rugoso e uma percussão vigorosa e amiúde um piano elétrico que, no caso deste disco, tem um protagonismo interessante na balada Mercy. No entanto, Drones é um regresso dos trio às origens e a um espetro mais sombrio e orgânico depois do piscar de olhos à eletrónica no antecessor The 2nd Law

Com dez músicas e dois outros momentos sonoros, uma de um sargento exasperado com alguns cadetes, bem ao estilo do The Wall, do Pink Floyd e o outro um trecho de um discurso do presidente Kennedy, Drones é, também nestes detalhes, uma revisão nostálgica, mas feliz, do passado mais gloroiso dos Muse, mas é, acima de tudo, um passo em frente dos autores rumo à alegoria do amor pela música como um agregado de guitarras melodiosas de mãos dadas com uma voz capaz de converter uma arena inteira a uma causa que, neste caso, pretende alertar, como já foi referido, para os perigos escondidos pelos mais recentes desenvolvimentos tecnológicos e o modo como são utilizados na guerra moderna, utilizando o amor como uma metáfora gloriosa, num mundo cada vez mais familiarizado com a violência e, desse modo, mais perto e intímo da sua própria ruína.

Nos Muse a música é a materialização sonora de uma postura intervencionista, quase sempre encabeçada por Bellamy, que frequentemente dá a cara em algumas campanhas sociais. O longo épico cheio de climas e mudanças de direção, ruídos e silêncio, chamado The Globalist, é uma materialização contundente deste vigoroso olhar sobre o mundo global, mas a frenética Reapers, os efeitos e as sirenes de Revolt e a cinematográfica e sombria Aftermath também desempenham com notável precisão essa visão musical habilidosa que mistura estéticas de períodos temporais diferentes, tornando-as atuais e inovadoras, ao mesmo tempo que cimentam o som padrão do trio. Espero que aprecies a sugestão...

Muse - Drones

01. Dead Inside
02. [Drill Sergeant]
03. Psycho
04. Mercy
05. Reapers
06. The Handler
07. [JFK]
08. Defector
09. Revolt
10. Aftermath
11. The Globalist
12. Drones


autor stipe07 às 16:14
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|

eu...

Powered by...

stipe07

Em escuta...

Facebook

Twitter

Twitter

Bloglovin

Man On The Moon - Paivense FM (99.5)

Julho 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


posts recentes

Grasscut - Everyone Was A...

Eliot Sumner – After Dark

The Black Lamps – The Bla...

The Libertines – Gunga Di...

Cold Weather Company – So...

Beach House - Sparks

DIV I DED - Late Awakenin...

André Barros - Soundtrack...

Paper Beat Scissors - Go ...

Muse – Drones

Kissing Party - Justine v...

Gengahr – A Dream Outside

LUVV - Teenage Love

Howling - Sacred Ground

Kathryn Calder – Kathryn ...

Spray Paint - Punters On...

Numbers Are Futile - Sunl...

Teen Daze – Morning World

Of Monsters And Men - Ben...

PINS - Wild Nights

X-Files

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

take a look...

Procura...

 

Visitors (since 31.05.12)

blogs SAPO

subscrever feeds