Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2015

In Tall Buildings - Driver

Já foi finalmente editado Driver, um dos trabalhos mais aguardados por cá no início de 2015 e que viu a luz do dia a dezassete de fevereiro através da Western Vinyl. Este disco é da autoria de Erik Hall, um músico e compositor de Pilsen, nos arredores de Chicago, por detrás do projeto In Tall Buildings, que, de acordo com o próprio, compõe inspirado por duas dicas filosóficas, uma de Allen Ginsburg (First thought, best thought) e a outra da autoria de Kurt Vonnegut (Edit yourself, mercilessly). Se a teoria de Ginsburg apela à primazia do instintivo e da naturalidade e da crueza, acima de tudo, já as palavras de Vonnegut parecem instar à constante insatisfação e à busca permanente da perfeição, considerando-se cada criação como algo inacabado e que pode ser alvo de melhorias e alterações. Driver foi produzido entre a casa de Hall e uma quinta em Leelanau County, no Michigan.

A música de Erik Hall vive um pouco desta aparente dicotomia, já que quando assina In Tall Buildings propôe e cria paisagens sonoras simples e amenas, de algum modo descomplicadas e acessíveis, mas que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto na forma como constrói as melodias, deixando sempre margem de manobra para que nos possamos apropriar das suas canções e dar-lhes o nosso próprio sentido. Aquela folk acústica, que em determinados instantes pisca o olho a um certo travo psicadélico, é, portanto, a trave mestra de Driver, competente na forma como abarca diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e como mistura harmoniosamente a exuberância acústica das cordas com a voz grave, mas suave e confessional de Hall, sendo este um álbum ameno, íntimo, cuidadosamente produzido e arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Ficamos logo agarrados ao disco com Bawl Cry Wal, o tema de abertura, feito de uma melodia que tem por base a bateria e umas cordas impregnadas de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de um teclado. Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco essencialmente acústico, vincadamente experimental e dominado por cordas com uma forte toada blues. Logo depois, All You Pine, apesar de menos ritmada, segue a mesma dinâmica que sustenta um alinhamento sinuoso e cativante, que nos convida frequentemente à introspeção e à reflexão sobre o mundo moderno e onde Hall não poupa na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, com Unmistakable, o segundo single, a surpreender pouco depois, não só pelo título da canção, sem dúvida uma opção feliz para mais um registo sonoro de dificil catalogação, mas também pela sonoridade pop claramente urbana, mais eletrónica,perfeita no modo como o baixo e a batida se cruzam com o sintetizador. 

Pouco depois, ao sermos presenteados com I'll Be Up Soon, percebemos que In Tall Buildings também manipula com mestria os típicos suspiros sensuais que a subtil eletrificação da guitarra e uma batida lenta e marcada proporcionam e que há uma elevada dose de sensualidade e suavidade na tonalidade das canções que interpretam. Por exemplo, em When You See Me Fall um efeito em espiral e melodicamente hipnótico e o modo com a voz com ele se entrelaça e o dedilhar deambulante de Aloft são outros dois momentos que trazem brisas bastante aprazíveis ao ouvinte.

O auge do disco chega com a atmosfera simultaneamente íntima e vibrante do single Flare Gun, um tema que está já na minha lista das melhores do ano e isso deve-se à forma particular como as cordas deambulam alegremente pela melodia e dão à canção uma sensação intrincada e fortemente espiritual, um ideal de leveza e cor constantes, como se ela transmitisse todas as sensações positivas e os raios de luz que fazem falta aos nosso dias, agora algo frios e sombrios.

Rico e arrojado, que aponta em diferentes direções sonoras, apesar de haver um estilo vincado que pode catalogar o cardápio sonoro apresentado, Driver tem um fio condutor óbvio, assente em alguma da melhor indie pop contemporânea, mas uma das suas particularidades é conseguir, sem fugir muito desta bitola, englobar diferentes aspetos e detalhes de outras raízes musicais, num pacote cheio de paisagens sonoras que contam histórias que a voz de Hall sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Este é um álbum essencial, recheado de paisagens sonoras simples e amenas, de algum modo descomplicadas e acessíveis, mas que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

Bawl Cry Wail

All You Pine

Exiled

Unmistakable

Aloft

Flare Gun

I'll Be Up Soon

Cedarspeak

When You See Me Fall

Pouring Out


autor stipe07 às 19:24
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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2015

Father John Misty – I Love You, Honeybear

Father John Misty já foi visto como um reverendo barbudo e cabeludo, que vagueava pela noite americana a pregar o evangelho segundo Neil Young. Encharcado, pegava no violão e cantava sobre cenas bíblicas, Jesus e João Batista e a solidão. Hoje, Father John Misty não é só um artista, é uma personagem criada e interpretada por Josh Tillman, antigo baterista dos Fleet Foxes, que tinha uma vida bastante regrada e obscura, mas que hoje vive apaixonado e feliz com esse maravilhoso novo estado de alma.

Tillman já tinha lançado a partir de 2005 uma série de EPs e um álbum em 2010, entanto, só após a rescisão com os Fleet Foxes e uma assinatura com a Sub Pop, é que o seu projeto a solo ganhou pujança, tendo-se juntando, assim, todos os ingredientes para a chegada de Fear Fun, um álbum editado na primavera de 2012 com estrondo. Agora, quase três anos depois, Fear Fun já tem sucessor, uma coleção de onze canções intitulada I Love You, Honeybear, que documentam o seu novo status, mas que não deixam de condensar ainda um certo sarcasmo feroz e melancolia, com um resultado que se não é a reinvenção da roda contém uma saudável dose de letargia que garante sucessivas audições, por dias a fio.

Sedutor, cativante, profundamente engenhoso e com todos os atributos para ser um verdadeiro diabo vestido de anjo, Tillman serve-se das cordas para expressar sentimentos que se causam algum desconforto na mente dos mais desconfiados sobre as suas reais intenções, afaga com notável eficácia as dores de quem se predispõe a seguir sem concessões a sua doutrina.

Agora a viver em Nova Orleães, depois de anos escaldado pelo sol californiano e, como referi, entretanto apaixonado, nomeadamente pela fotógrafa Emma Elizabeth Garr, hoje Emma Elizabeth Tillman, Tillman escreve neste disco sobre o amor, mas não de modo a documentar apenas e só este seu novo estado pessoal, preferindo falar sobre si próprio e o modo como a sua intimidade de certa forma se modificou devido ao amor, procurando fazer canções de amor bonitas, sentidas, repletas de orquestrações opulentas e com algumas baladas que, no caso de When You’re Smiling And Astride Me são conduzidas por um belíssimo piano num registo clássico e fortemente emocional.

Com um pé em Nashville (I Love You, Honeybear) e outro na mexicana Valladolid (Chateau Lobby #4 (In C For Two Virgins)), o músico aprofunda neste seu segundo trabalho o senso de humor e a sagacidade das suas letras, cada vez mais inteligentes e enigmáticas, com um elevado sentido críptico, até, não sendo óbvia a descodificação célere das suas reais intenções relativamente a todos aqueles que se deixam inebriar pelos seus sermões e fazer parte de um rebanho que se assanha sempre que o pastor investe no tema recorrente deste trabalho, o amor. E Tillman fá-lo por vias pouco convencionais (I just love the kind of woman who can walk over a man), mesmo quando também embarca no auto elogio direto, com temas como Bored in the USA ou The Ideal Husband, a mostrarem ter aquela estrela certeira chamada aúrea, capaz de conduzir todos os holofotes para que incidam sobre si.

As canções de Father John Misty possuem, inevitavelmente, uma característica narrativa, nostálgica e sempre com aquela aura fantasiosa de uma era longínqua do rádio e da indústria fonográfica. Sentimo-nos em casa e bastante acolhidos ao som de temas como Strange Encounter e Nothing Good Ever Happens at Goddam Thirsty Crow e preciosidades como a já citada When You’re Smiling and Astride Me e os sintetizadores de True Affection são geniais no modo como plasmam um folk rock muito ternurento que mesmo escondido no seio de um humor mórbido e feito de alguma desolação emocional têm tudo para fazer de Tillmam um verdadeiro sex symbol indie e estrela improvável, ainda por cima apaixonado como um bebé, carente de afetividade constante, como tão bem mostra a capa retratando-o como o pequeno Cristo barbudo no colo de Maria, rodeado por pequenas criaturas que poderão personificar todos aqueles demonios que o cercam, prontos a colocar em causa o seu novo mundo cor-de-rosa, à primeira oortunidade. Será que irão conseguir? Espero que aprecies a sugestão...

Father John Misty - I Love You, Honeybear

01. I Love You, Honeybear
02. Chateau Lobby #4 (In C For Two Virgins)
03. True Affection
04. The Night Josh Tillman Came To Our Apt.
05. When You’re Smiling And Astride Me
06. Nothing Good Ever Happens At The Goddamn Thirsty Crow
07. Strange Encounter
08. The Ideal Husband
09. Bored In The USA
10. Holy Shit
11. TI Went To The Store One Day


autor stipe07 às 22:20
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Domingo, 22 de Fevereiro de 2015

Wilco - Alpha Mike Foxtrot: Rare Tracks 1994-2014:

Os Wilco são uma banda de rock alternativo liderada pelo carismático Jeff Tweedy, natural de Chicago, no Illinois. Formaram-se em 1994 tendo como ponto de partida a banda de country alternativo Uncle Tupelo e enquanto não regressam ao estúdio para gravar mais alguns originais, resolveram editar, através da Nonesuch Records, What’s Your 20? Essential Tracks 1994-2014. Na sequência desse lançamento, comemorativo dos vinte anos de carreira dos Wilco, acabou também por incubar Alpha Mike Foxtrot: Rare Tracks 1994-2014, uma caixa com quatro discos que contêm nada menos que setenta e sete temas, incluindo raridades, remisturas e gravações ao vivo, pedaços da vida dos Wilco essenciais para compreender o legado da banda em toda a sua plenitude.

Depois de terem lançado The Whole Love, o oitavo disco de originais, através da dBpm Records, há cerca de dois anos, os Wilco acharam que seria altura de revisitar a carreira de modo exaustivo e What’s Your 20? Essential Tracks 1994-2014 fá-lo com elevado acerto através de um alinhamento que deixa pouca margem para crítica, num trabalho que só fica completo com estes quatro tomos de Alpha Mike Foxtrot: Rare Tracks 1994-2014.

O amor, a paixão e as suas travessuras, nas quais se incluem críticas mais ou menos veladas a uma América contemporânea cada vez menos socialmente justa e refém dos seus medos, sempre foram temáticas bastante importantes para Jeff Tweedy que, servindo-se dos Wilco, sempre surpreendeu pelo modo como foi diversificando a sua abordagem a estes conceitos ao longo de duas décadas. Do repentismo sincero e inconsciente de Wilco A.M., ao trato leve e sublime em Sky Blue Sky, passando pela imersão em vários psicoativos sentimentais em Yankee Hotel Foxtrot, ou fazendo uma primeira súmula de como sentem e vibram com sentimentos tão intensos, tentada em The Whole Love, os Wilco nunca conseguiram, felizmente, a desejada caricatura definida, numa história, às vezes barulhenta e intensa, outras mais introspetiva e carregada de soul.

Estas raridades acabam por ser fundamentais para se entender o cariz experimental e fortemente melódico de um grupo que geralmente sustentou as suas criações em magníficos arranjos de cordas, sempre acompnhados por uma percussão coerente e intuitiva e detalhes tão charmosos como xilofones, outros metais, ou as teclas de um piano, um forte entusiasmo lírico e, principalmente, uma notável disponibilidade para nos fazerem pensar, mexendo com os nossos sentimentos e tentando dar-nos pistas para uma vida mais feliz. Espero que aprecies a sugestão...

 

Disc one:
01. Childlike and Evergreen (Demo)
02. Someone Else’s Song (Demo)
03. Passenger Side (Demo)
04. Promising
05. The T.B. is Whipping Me – with Syd Straw
06. I Must Be High (Live)
07. Casino Queen (Live)
08. Who Were You Thinking Of (Live)
09. I Am Not Willing
10. Burned
11. Blasting Fonda
12. Thirteen
13. Don’t You Honey Me
14. The Lonely 1 (White Hen version)
15. No More Poetry
16. Box Full of Letters (Live)
17. Red-Eyed and Blue (Live)
18. Forget the Flowers (Live)
19. Sunken Treasure (Live)
20.Monday (Demo)

Disc two:
01. Passenger Side (Live)
02. Outtasite (Outta Mind) (Live)
03. I Got You (At the End of the Century) (Live)
04. Outta Mind (Outta Site) (Live)
05. James Alley Blues – with Roger McGuinn (Live)
06. At My Window Sad and Lonely (Jeff Tweedy solo)
07. California Stars (Live)
08. One Hundred Years From Now
09. A Shot in the Arm (Remix)
10. ELT (King Size demo)
11. Nothing’severgonnastandinmyway (again) (Dave Kahne Remix)
12. She’s a Jar (Austin demo)
13. Tried and True
14. Student Loan Stereo
15. True Love Will Find You in the End
16. I’m Always in Love (Solo acoustic live)
17. Via Chicago (Austin Demo)
18. Can’t Stand It (Live)
19. Airline to Heaven (Alternate)
20. Any Major Dude Will Tell You

Disc three:
01. I’m the Man Who Loves You (Live)
02. The Good Part
03. Cars Can’t Escape
04. Camera
05. Handshake Drugs (First version)
06. A Magazine Called Sunset
07. Bob Dylan’s 49th Beard
08. Woodgrain
09. More Like the Moon
10. Let Me Come Home
11. Old Maid
12. Hummingbird (Alternate)
13. Spiders (Kidsmoke) (Live)
14. Hell is Chrome (Live)
15. At Least That’s What You Said (Live)
16. The Late Greats (Live)
17. Just a Kid – with The Blisters
18. Kicking Television

Disc four:
01. Panthers
02. Theologians (Live)
03. Another Man’s Done Gone (Live)
04. I’m a Wheel (Live)
05. How to Fight Loneliness (Live)
06. One True Vine
07. The Thanks I Get
08. Let’s Not Get Carried Away
09. Hate it Here (Live)
10. Impossible Germany (Live)
11. I Shall Be Released – with Fleet Foxes (Live)
12. What Light (Live)
13. Jesus, Etc. – with Andrew Bird (Live)
14. Glad It’s Over
15. Dark Neon
16. The Jolly Banker
17. Unlikely Japan
18. You and I – with Feist (Live)
19. I Love my Label


autor stipe07 às 21:46
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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015

José González – Vestiges And Claws

Depois de se ter mostrado um jovem platónico e apaixonado em Veneer (2003), ou um cru e empírico observador da vida em Our Nature (2007), o sueco José González está de regresso e de mãos dadas com ambientes sonoros mais intimistas, à boleia de Vestiges And Claws, uma coleção de dez temas gravados na sua casa em Gotemburgo e que têm na folk acústica, que em determinados instantes pisca o olho a um certo travo psicadélico, as suas traves mestras. Refiro-me a canções competentes na forma como abarcam diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e que misturam harmoniosamente a exuberância acústica das cordas com a voz grave, mas suave e confessional de González, sendo este um álbum ameno, íntimo e cuidadosamente produzido pelo próprio autor e arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Com instantes como Stories We Build, Stories We Tell ou Leaf Off/The Cave, capazes de nos envolver num clima doce e reconfortante, mas também festivo, Vestiges And Claws sobrevive à sombra de arranjos bem feitos, que prendem a atenção, alternando entre climas calmos e agitados, conseguidos através da combinação da guitarra com outros sons e detalhes, quase sempre precurssivos, mas que nunca roubam às cordas o merecido protagonismo.

Cm uma dúzia de anos de carreira, com os Junip a serem também parte fundamental da sua existência musical, González mostra-se, ao terceiro tomo da carreira a solo, mais maduro e consciente do mundo que o rodeia, de certo modo, num estágio superior de sapiência que lhe permite utilizar o seu habitual espírito acústico para colocar-se à boleia de arranjos de cordas tensos, dramáticos e melódicos e contar histórias que o materializam na forma de um conselheiro espiritual sincero e firme e que tem a ousadia de nos querer guiar pelo melhor caminho, sem mostrar um superior pretensiosismo ou tiques desnecessários de superioridade. O sermão que nos oferece no tema homónimo é só um exemplo desta sua vontade de nos fazer refletir, com o romantismo de With The Ink of Ghost, ou a cândura da maravilhosa Let It Carry You (com a percussão feita por uma clave, um instrumento habitual na sua discografia), assim como os sussurros de The Florest a confrontarem-nos com a nossa natureza, uma sensação curiosa e reconfortante que ambientada pelos assobios rústicos de Vessel transforma-se numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia.

Every Age, o primeiro single retirado de Vestiges And Claws, também materializa esta demanda reflexiva que nos é servida por um sábio que surpreende pelo parco mas suficiente e profundo vocabulário que preenche a sua cartilha, sempre aberto às mais variadas interpretações (Some things change, some things remain, We don't choose where we're born, We don't choose in what pocket or form, But we can learn to know Ourselves on this globe in the void). Este acaba por ser um dos momentos líricos mais bonitos de toda a carreira de GonzálezLeaf Off/ The Cave, o segundo single do disco, obedece igualmente a este conceito da progressiva evolução existencial, rcordando-nos que nunca dvemos descurar os conselhos dos mais velhos, essenciais para que a vida seja vivida em plenitude e não apenas como um ponto de passagem esperado e rotineiro (Let the life lead you out).

Se a calma nos transmite sabedoria, ela não se reflete em passividade. José González diz à sua maneira em What Will que as garras e os vestígios do título do disco são os elementos que muitas vezes sobram após a nossa luta diária constante, enquanto os lindíssimos acordes do tema dão-nos a motivação necessária para acreditarmos que vale a pena esse sacrifício desgastante, desde que resulte na tal vivência existencial plena e verdadeiramente feliz.

Se o hinduismo acredita na existência de um estado transitório entre a morte e o ressurreição, onde a nossa alma recupera a divinidade perdida no nascimento, pode-se dizer que a música deste sueco nos concede a mesma sensação no modo como nos renova espiritualmente e nos acalma enquanto transmite sabedoria. Em Vestiges & Claws, o músico emociona, inspira e ilumina, levando-nos para um lugar calmo e pacífico, onde podemos fugir da velocidade, do caos e da ansiedade da vida moderna, um lugar que, independente de géneros ou estilos, definitivamente só existe na música. Espero que aprecies a sugestão...

José González - Vestiges And Claws

01. With The Ink Of A Ghost
02. Let It Carry You
03. Stories We Build, Stories We Tell
04. The Forest
05. Leaf Off / The Cave
06. Every Age
07. What Will
08. Vissel
09. Afterglow
10. Open Book


autor stipe07 às 14:22
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Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2015

Pond – Man It Feels Like Space Again

São Francisco, na Califórnia e Perth na Austrália, são os dois grande polos atuais do indie rock piscadélico e, oriundos do último, os Pond de Nick Allbrook, Jay Watson, Joseph Ryan, Jamie Terry, um verdadeiro projeto paralelo dos Tame Impala, um dos nomes maiores do género e uma banda obrigatória para todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se deliciam com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

Produzido por Kevin Parker, Man It Feels Like Space Again é o sexto álbum dos Pond, um trabalho lançado no passado dia vinte e três de janeiro por intermédio da Modular e que tem no fuzz rock a sua pedra de toque, talvez a expressão mais feliz para caraterizar o caldeirão sonoro que os Pond reservam para nós e que logo na imponência de Waiting Around For Grace e no festim grandioso de Elvi´s Flaming Star, fica claramente plasmado.

As guitarras são, como seria de esperar, o combustível que inflama os raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro dos Pond, feitas de acordes rápidos, distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez. Mas a receita também se compôe com sintetizadores munidos de um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias, uma secção rítmica feita com um baixo pulsante e uma bateria com um forte cariz étnico, que é várias vezes literalmente cortada a meio por riffs de guitarra, numa sobreposição instrumental em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa busca de acessibilidade que, por exemplo, Hobo Rocket, o antecessor, não continha tanto, apesar da excelência do seu conteúdo. A delicada sensibilidade das cordas que suporta a cândida melodia do belíssimo instante de folk psicadélica chamado Holding Out For You e a monumentalidade comovente de Sitting Up On Our Crane são dois extraordinários tratados sonors que resgatam e incendeiam o mais frio e empedrenido coração que se atravesse e plasmam, além do vasto espetro instrumental presente no disco, a capacidade que estes Pond também têm para compôr peças sonoras melancólicas e transformar o ruidoso em melodioso com elevada estética pop

A energia contagiante do eletropunk blues enérgico e libertário, que escorre por todos os poros de Zond, o mais recente single retirado de Man It Feels Like Space Again, um tema que assenta numa voz viciante e numa espiral de sons sintetizados, fortemente lisérgicos e aditivos é, em sentido oposto, outro exemplo claro de toda a amálgama cuidadosamente concebida pelos Pond, ampliada pelo video que é mais uma viagem alucinante filmada por Johnny Mackay, que criou um cenário de artifícios caseiros e adereços imperfeitos, colagens de fundos pintados à mão e um guarda-roupa, no mínimo, original. Já agora, torna-se obrigatório visualizar os videos dos Pond e perceber a forte ligação que existe sempre entre eles e a música, visto estarmos na preença de um coletivo que dá enorme importância à componente visual da sua música, algo que a banda desenhada do artwork do disco também exemplifica.

O álbum avança e depois de em Heroic Shart sermos invadidos por um efeito vocal reverberado que ecoa e paralisa, no meio de uma amálgama assente numa programação sintetizada de forte cariz experimental, Man It Feels Like Space Again prossegue a sua demanda triunfal na insanidade desconstrutiva e psicadélica em que alicerçam as camadas de sons que dão vida a Outside Is The Right Side, canção extremamente dançavel, já que mistura R&B, pop, hip-hopelectrónica, com noção de equilíbrio e um limbo perfeito. Neste instante, quando damos por nós, já completamente consumidos pelo arsenal infinito de efeitos, flashes e ruídos que correram impecavelmente atrás da percussão orgânica e bem vincada que sustentou esse tema, percebemos que não há escapatória possível desta ode imensa de celebração do lado mais estratosférico, descomplicado e animado da vida.

É impossível escutar este trabalho e ficarmos imóveis no recanto mais aconchegante que geralmente nos abriga; Torna-se indispensável deixar que o nosso corpo absorva todas as sensações inebriantes que este disco oferece gratuitamente e, repetindo o exercício sensorial várias vezes, permitirmos que depois se liberte o imenso potencial de energia que estas composições recheadas de marcas sonoras rudes, suaves, pastosas, imponentes, divertidas e expressivas, às vezes relacionadas com vozes convertidas em sons e letras e que atuam de forma propositadamente instrumental proporcionam. Aqui tudo é dissolvido de forma tão aproximada e homogénea, que Man It Feels Like Space Again está longe de revelar todos os seus segredos logo na primeira audição. Por exemplo, o ritmo lento e claramente acústico inicial de Medicine Hat é algo enganador porque a canção é subitamente alvo de um intenso upgrade sonoro, fortemente lisérgico, cósmico e imponente, deixando-nos em suspense relativamente ao que resta ouvir da composição e que acaba por ser uma forte cabeçada que nos agita a mente na forma de um riff melódico assombroso, carregado de distorção e perfeitamente diabólico. O tema homónimo, um imenso instante de rock progressivo, onde os Pond gastam todas as fichas e despejam os trunfos que alicerçam a sua estrutura sonora complexa, é uma canção que sabe claramente a despedida, num cenário verdadeiramente complexo, vibrante e repleto de efeitos maquinais que proporcionam sensações únicas.

Já com um acervo único e peculiar e que resulta da consciência que os músicos que compôem este coletivo têm das transformações que abastecem a música psicadélica atual, os Pond são umbilicalmente responsáveis por praticamente tudo aquilo que move e se move neste género e já se assumiram como referências essenciais para tantos outros. Querendo estar mais perto do grande público e serem comercialmente mais acessíveis, nesta parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que é Man It Feels Like Space Again, além de não colocarem em causa a sua própria integridade sonora ou descurarem a essência do projeto, propôem mais um tratado de natureza hermética e não se cansando de quebrar todas as regras e até de desafiar as mais elementares do bom senso que, no campo musical, quase exigem que se mantenha intocável a excelência, conseguem conquistar novas plateias com distinção. Os Pond sabem como impressionar pelo arrojo e mesmo que incomodem em determinados instantes da audição, mostram-se geniais no modo como dão vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Pond - Man It Feels Like Space Again

01. Waiting Around For Grace
02. Elvis’ Flaming Star
03. Holding Out For You
04. Zond
05. Heroic Shart
06. Sitting Up On Our Crane
07. Outside Is The Right Side
08. Medicine Hat
09. Man It Feels Like Space Again


autor stipe07 às 21:11
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2015

Sufjan Stevens - No Shade In The Shadow Of The Cross

"No Shade In The Shadow Of The Cross"

Primeiro avanço para Carrie & Lowell, o próximo álbum do norte americano Sufjan Stevens, No Shade In The Shadow Of The Cross, marca o retorno do músico à folk mais intimista, nostálgica e contemplativa, depois de uma década onde deambulou entre o caótico, o esquizofrénico e o genial em discos tão importantes como Illinoise ou The Age Of Adz.

Mais negro, sombrio e recatado, Sufjan volta a reinventar-se sem deixar de ser ele próprio, num disco que irá ver a luz do dia a trinta e um de março através da Asthmatic Kitty. Confere...


autor stipe07 às 18:42
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Sábado, 14 de Fevereiro de 2015

Other Lives - Reconfiguration

Other Lives - Reconfiguration

Os norte americanos Other Lives de Jesse Tabish (piano, guitarra, voz) Jonathon Mooney (piano, violino, guitarra, percussão, trompete) e Josh Onstott (baixo, teclados, percussão, guitarra, voz) estão prestes a quebrar um hiato algo prolongado, já que a última edição discográfica foi um EP em meados de 2012 e um longa duração em 2011.

Rituals, o novo disco desta banda de Oklahoma, chega aos escaparates no início de maio e Reconfiguration, o fabuloso primeiro avanço, antecipa um trabalho muito rico e intrincado instrumentalmente, nomeadamente ao nível da percussão, mas com sintetizadores atmosféricos, um piano sedutor e até um violino a fazerem parte do arquétipo sonoro deste tema. Confere...

 


autor stipe07 às 14:40
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Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2015

Ghastly Menace - Songs of Ghastly Menace

Liderados por Andy Schroeder e Chris Geick, os norte americanos Ghastly Menace pretendem conquistar o universo sonoro alternativo com um indie rock orquestral, feito de uma dose extra de guitarras e versos simultaneamente épicos e acessíveis, com o acrescento de arranjos onde contrastam elementos acústicos e elétricos e que deitam por terra qualquer sintoma de monotonia e repetição ao longo da audição.

ghastly10

Produzido por Nigel Dennis, o disco de estreia deste coletivo de Chicago chegou aos escaparates a vinte e sete de janeiro através da etiqueta The Record Machine e logo que foi divulgado Closing, o primeiro avanço, uma canção sobre aquilo que se sente quando há uma decisão a tomar e, apesar de muitas vezes haver um caminho óbvio, há sempre outras opções que podem ser ponderadas, percebeu-se imediatamente que este quinteto tem um dom especial para criar composições sonoras com um encanto algo misterioso e místico.

Logo no indie rock vigoroso de 80s, os Ghastly Menace criam alicerces musicais e sentimentais fortes com quem se predispôs à escuta do disco, porque a canção prende, nomeadamente no modo como consegue um equilíbrio cuidado entre o charme inconfundível das guitarras que carimbam o ADN do grupo com o indie pop rock que agrada às gerações mais recentes e onde abunda uma primazia dos sintetizadores e teclados com timbres variados. A inclusão destes efeitos sintetizados, que incluem um curioso flash no já citado single Closing, talvez sejam consequência da busca de uma toada comercial e de um lado mais radiofónico e menos sombrio e melancólico do que aquele que as letras destas canções à primeira vista pressupôem. Seja como for, este encaixe de novas tendências é muito claro no piano deste tema e, mais adiante, na espiral de efeitos que controlam as guitarras, elétrica e acústica, na majestosa On Our Way, e em Real Life, canção onde os efeitos de voz e a percurssão ajudam o fuzz das guitarras a fazer brilhar alguns detalhes feitos por um teclado, que dão um encanto único à canção. Este tema e o piano verdadeiramente desarmante da pop sinfónica de She Won't Stay For Long, conjugado com uma voz incrivelmente doce e sedutora, estão prontas para fazer vibrar grandes plateias, com os sintetizadores e o baixo, juntamente com a guitarra e a percurssão, a conduzirem estas canções, com variações de ritmo e paragens que farão as delícas de qualquer operador de luzes durante um concerto da banda.

Uma das sequências mais interessantes de Songs of Ghastly Menace é constituida pela balada Living Together, uma canção que oscila entre a pop mais experimental e progressiva e uma certa folk e onde a voz de Andy Schroeder assenta na perfeição, à qual se segue While You're Here, o clássico tema orquestral também vincadamente experimental, conduzido pelo sintetizador, com alguns detalhes de uma guitarra e outros efeitos da percurssão a darem à canção um clima romântico e sensível único, ingénuo e peculiar.

Até ao final, o piano volta a destacar-se em Shadow Song com a particularidade de replicar um som em tudo semelhante ao banjo, num dos temas de pendor mais cláassico do disco e o baixo de Wait é uma das melhores surpresas do alinhamento. Já Children exala o lado mais extrovertido dos Ghastly Menace por todos os poros sonoros e tem alguns detalhes que, no ocaso do alinhamento, nos convencem definitivamente que Songs Of Ghastly Menace é abrangente no modo como cruza a leveza onírica da dream pop, bem presente no esplendor da vertente acústica das cordas, com a típica eletrificação que plasma o cariz mais rugoso do rock alternativo, ao mesmo tempo que são convocados outros espetros sonoros, mais progressivos e experimentais. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:30
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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015

Sugiro... XLVII

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autor stipe07 às 13:26
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015

A Jigsaw - No True Magic

Os A Jigsaw de João Rui e Jorri  andam por cá há mais de uma década e gostam de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera das suas canções e esta realidade às vezes tão crua que eles também sabem tão bem descrever, enquanto embalam os nossos ouvidos com simples acordes, várias vezes dispostos em várias camadas sonoras, com uma naturalidade que impressiona os mais incautos, à semelhança da naturalidade com que a nossa realidade encaixa na melodia das canções.

No True Magic é a mais recente obra prima dos A Jigsaw, um disco particular, que deve também ser admirado tendo em conta a parte lírica; todas escritas em inglês, as canções são pequenas narrativas, algumas delas algo inusitadas e com uma lógica que aparentemente procura suscitar o aparente e o impossível.

No True Magic aborda a questão da mortalidade e a imortalidade como o milagre maior e a diferença entre magia e ilusão, como se a explicação de um truque quebrasse de algum modo o encanto que aquilo que não podemos explicar racionalmente geralmente nos provoca. Pareceu-me então que No True Magic é uma tentativa de desmontar a morte e torná-la mais acessível e menos mística e que a beleza das texturas sonoras que o trabalho contém provocam a sensação que existe um certo encanto na morte, na ideia de mortalidade e que é esse imponderável da vida que nos leva a querermos viver sempre intensamente.

De acordo com o press release do lançamento, em 1817, o poeta e filósofo Samuel Taylor Coleridge cunhou o termo “willing suspension of disbelief” que na abordagem da literatura permitiria ao leitor a suspensão do julgamento da implausibilidade de uma determinada narrativa. Com este álbum, os a jigsaw aceitam que a religião é, frequentemente, o melhor refúgio e abrigo que encontramos para ficarmos face a face com a receita mais indicada para o convivio com essa certeza, ao memso tempo que nos dão pistas sobre como aceitarmos os termos da nossa mortalidade.

Em No True Magic, os A Jigsaw souberam, mais uma vez, convocar um excelente elenco de músicos e formar uma verdadeira orquestra folk que se aperaltou com a melhor farpela e subiu ao cimo daquele estrado de madeira, com algumas ripas rachadas, mesmo ali ao lado de um balcão onde escorre o melhor néctar do Tenessee, condenado a descer por gargantas secas e protegidas com lenços empoeirados e marcados por uma vida de perigos e demandas. Alimentam e o aquecem o ambiente em redor apostando numa fusão de elementos da indie, da pop e da folk, que dão vida a melodias luminosas, feitas com cordas delicadas e arranjos particularmente deslumbrantes e cheios de luz, amiúde dominados também por instrumentos de sopro e por metais, que criam paisagens sonoras bastante peculiares.

Em onze composições sonoras carregadas de texturas, criadas através da justaposição de diferentes camadas de instrumentos e sons, podemos saborear uma conjugação com um elevado cariz contemporâneo e atual, apesar do forte revivalismo que a música dos A Jigsaw transporta sempre consigo. O resultado final é, como esta dupla já nos habituou, verdadeiramente vibrante e com uma energia bastante particular, numa banda que parece não querer olhar apenas para o universo tipicamente folk, mas também abraçar, através de alguns traços sonoros caraterísticos, as facetas mais soul e blues do próprio indie rock.

Se no tema homónimo ficamos imediatamente convencidos e conscientes do irrepreensível charme que nos espera e que seduz pela forma genuína e simples como os A Jigsaw lidam com os nossos medos e fantasmas, enquanto retratam eventos e relacionamentos de um quotidiano rotineiro, a folk adoçicada de Black Jewelled Moon, com uma irrepreensível articulação entre as vozes de João Rui e de Carla Torgerson, transborda uma luminosa e majestosa melancolia, num belíssimo tratado de folk acústica onde a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave que deslumbra e corrói, mesmo os corações mais empenedridos.

Ao terceiro tema deixamos de ficar do lado de fora e são-nos finalmente abertas de par em par as portas do poeirento saloon, um antro de vício e luxúria, em plena aridez do deserto mojave, mas que poderia ser também a tasca da Dona Matilde, algures entre Serpa e o Redondo. Embalados pelo blues fumarento, arrastado e fortemente sensual de Without The Prize, pouco depois, em Midnight Rain, já estamos (in)comodamente instalados na primeira mesa que encontramos, onde, enquanto olhamos em redor, reavivamos toda a carambola de emoções que habitam no lado mais agreste do nosso coração (How is your love with the people down below?).

O disco prossegue e em Them Fine Bullets somos trespassados pela bala mais luzidia e certeira do tambor do cano, depois de termos sido convocados pelo para um duelo, mesmo ali, do lado de fora do estabelecimento comercial, onde confrontámos aquele nosso maior medo que todos guardamos cá dentro, o que nos abate e nos acolhe e que é, quase sempre, a incontornável e inevitável morte (But I have the need of nothing, so I'll take them fine bullets to my grave). Tides Of Winter é o momento dramático em que sentimos o último sopro libertário e somos conduzidos ao além numa marcha dramática que devolve ao pó o que é do pó, para assim podermos aceder finalmente, em Gates of Hell, ao instante do juízo final, onde decidimos se queremos realmente deixar que as agruras do amor e desta vida nos dominem, ou se queremos ser nós a tomar as rédeas do nosso próprio destino e viver uma vida plena (I'm counting the days of trust lost with fate, and since you've been praying outside the wrong gate, Let me tell you brother heaven is just a word. Oh you've been looming by the gates of hell).

Até ao ocaso, refeitos e com uma segunda oportunidade guardada secretamente na algibeira do colete coçado, junto ao relógio de corda que conta em sentido contrário o tempo que falta para encararmos novamente o nosso destino, Bring Them Roses é uma canção que cabe nessa algibeira e na de todos aqueles que já viveram amores desencontrados e não correspondidos, com o alinhamento a encerrar com Hardly My Prayer, canção que plasma a enorme capacidade que esta dupla possui para escrever canções que tocam fundo e que transmitem mensagens profundas e particularmente bonitas.

Há definitivamente algo de especial nestes A Jigsaw e na originalidade com que usam aspetos clássicos da folk para criar um som cheio de frescura e vitalidade, mas onde também há espaço para composições melancólicas, com um acabamento bucólico e onde sa sensualidade feminina e o lado mais rugoso e áspero da masculinidade, muitas vezes se fundem e se confundem, em canções desprovidas de género e carregadas de emoções e sentimentos.

No True Magic é, por tudo isto e muito mais, outro marco numa época de extraordinária e definitiva afirmação do cenário musical indie e alternativo português. Confere, já a seguir, a entrevista que a dupla me concedeu e espero que aprecies a sugestão...

Com uma carreira já cimentada de uma década, iniciada com o EP From Underskin e depois do sucesso alcançado em 2011 com Drunken Sailors & Happy Pirates, regressam aos lançamentos com No True Magic, onze canções ambiciosas, impecavelmente produzidas e com um brilho raro e inédito no panorama nacional. Começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as vossas expetativas para este novo trabalho?

Creio que a melhor expressão seria a expectativa da continuidade. Tanto da continuidade da aceitação das nossas canções por quem já conhece o nosso trabalho como também a continuidade no acto de levar as nossas canções a cada vez mais pessoas de cada vez que temos um álbum novo. Isto porque as nossas expectativas em relação ao álbum já foram atendidas assim que ele ficou finalizado.

Confesso que o que mais me agradou na audição do álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral de No True Magic uma clara sensação de riqueza e bom gosto. Em termos de ambiente sonoro, o que idealizaram para o álbum inicialmente correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Há sempre coisas que se alteram entre a génese da criação das canções e depois o formato final que assumem nos álbuns. Faz tudo parte de um processo de refinamento da canção até que fiquemos satisfeito. Esses detalhes que vão surgindo são intencionais. Aliás como o é tudo neste álbum. Não existe nada nele sem uma forte razão para sustentar a sua inclusão no álbum. Um exemplo de uma canção que se transfigurou desde o momento da sua criação foi a tides of winter que inicialmente tinha sido pensada como uma peça com um arranjo simples e despido de instrumentações e acabou por se tornar a música que mais instrumentos tem neste álbum. Seriam necessários cerca de 50 músicos no mínimo para apresentar essa canção ao vivo tal como ela se encontra na gravação patente no álbum.

Além de ter apreciado a riqueza instrumental das cordas, dos sopros e da percussão, onde não faltam instrumentos como o violino, a harpa e uma trompa francesa e também a criatividade com que selecionaram os arranjos, também gostei particularmente do cenário melódico destas vossas novas canções, que achei particularmente bonito. Em que se inspiram para criar as melodias? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou as melodias são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?

O momento da criação pode ser um momento solitário. E com isto refiro-me à primeira centelha de uma melodia por exemplo. Mas só consideramos a música como aproximada de uma versão final do que será a partir do momento em que a experimentamos em conjunto e em que discutimos qual a ideia que cada um de nós os dois tem acerca do caminho a seguir com determinada música. Portanto acaba por ser um pouco a soma dos dois. Agora de onde vem a inspiração será porventura uma pergunta de difícil resposta pois não se sabe ao certo de onde advém essa magia. Mas algo que temos perfeita consciência é do trabalho imenso que nos aguarda se nos agrada aquela tal centelha. E é trabalho ansiado.

De acordo com vocês, True Magic aborda a questão da mortalidade e a imortalidade como o milagre maior e a diferença entre magia e ilusão, como se a explicação de um truque quebrasse de algum modo o encanto que aquilo que não podemos explicar racionalmente geralmente nos provoca. No True Magic é uma tentativa de desmontar a morte e torná-la mais acessível e menos mística? A beleza das vossas texturas sonoras quase que provoca a sensação que existe um certo encanto na morte, na ideia de mortalidade e que é esse imponderável da vida que nos leva a querermos viver sempre intensamente. Qual é, no fundo, a grande mensagem que querem transmitir neste disco?

A mensagem acaba por ser a consciencialização dessa mortalidade e dos artifícios de que nos munimos para fingir o seu esquecimento. Quanto ao que fazer com essa informação ou conhecimento a todos os instantes, isso será algo com o qual cada pessoa tem de lidar e para o qual este álbum não será ajuda. Ele é ajuda apenas no caminho até essa consciência.

Aproveitando a deixa... Como está neste momento a vossa relação com Deus? E com os dEUS belgas, de tom Barman, que inspiraram, através de uma das suas canções (Jigsaw You), o título do vosso projecto?

Seremos porventura ateus religiosos ou religiosamente ateus? Temos uma opinião e uma relação com esse Deus relativamente oposta. Contudo certo será que temos um bom punhado de perguntas para Lhe fazer. Quanto à relação com os dEUS já foi melhor. Isto em relação ao trabalho actual deles, já que em relação a álbuns como In a Bar Under The Sea, esses deixaram a sua marca de tal forma que a sua intemporalidade obriga a uma boa relação com esses.

No True Magic foi produzido pela própria banda. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?

Em boa verdade e exceptuando o nosso primeiro álbum Letters From The Boatman, devido à nossa inexperiência do trabalho de estúdio na altura, todos os nossos álbuns desde então foram sempre produzidos por nós pois a nossa visão acerca da estética musical é de tal forma certa em relação a como queremos que fique o álbum que não poderia ser de outra forma. A única diferença é que desta vez não há uma co-produção e assumimos a inteira responsabilidade desse "trabalho" nos créditos do álbum.

Adoro a canção Black Jewelled Moon. Os A Jigsaw têm um tema preferido em No True Magic?

Creio que o tema favorito de ambos é No True Magic. Não a música mas o álbum. Isto porque escrevemos e gravámos mais canções do que aquelas que estão no álbum. As 11 que chegaram ao álbum são as nossas favoritas. As outras ainda que partilhem da mesma devoção da nossa parte não encontraram lugar nesta primeira edição mas que irão certamente ver a luz do dia no futuro tal como já havia sido planeado.

Já agora, como surgiu a possibilidade de contar com a voz de Carla Torgerson neste tema?

Esta possibilidade foi criada por nós quando decidimos escrever esta canção para a Carla interpretar. Decidimos criar uma narrativa que envolvesse um papel feminino que teria que ser interpretado por ela e mais ninguém. Cada uma das palavras foi pensada para a sua voz. Isto é também fruto de uma paixão que nutríamos pela sua voz desde que a ouvimos no dueto Travelling Light dos Tindersticks há cerca de vinte anos no seu segundo álbum. Assim que terminámos a escrita da canção falámos com o Chris Eckman (vocalista dos Walkabouts) que nos deu o contacto da Carla e assim conseguimos falar com ela. Claro que à data em que decidimos escrever a canção para a Carla não sabíamos se ela iria aceitar ou sequer se alguma vez a iria ouvir. Foi um salto de fé que correu muito bem porque ela adorou a canção e de imediato acedeu a participar na mesma. E ainda que falemos da não existência de magia verdadeira. Quando recebemos as gravações da Carla que foram efectuadas em Seattle pelo Glenn Slater, foi um momento verdadeiramente mágico para nós.

Este disco conta com outras participações especiais de relevo, nomeadamente Susana Serra (violino), Gito Lima, Pedro Serra, Guilherme Pimenta, na bateria, Hugo Fernandes e Laurent Rossi, entre outros. São amigos com quem quiseram sempre trabalhar, ou profissionais que foram contactando devido ao seu valor artístico? Em suma, como foi possível congregar nomes tão ilustres à tua volta?

As participações nos nossos álbuns são sempre e em primeiro lugar fruto da admiração que nutrimos pela arte de quem decidimos convidar. E nisso já sabemos à partida que serão boas participações pois conhecemos o trabalho deles. Posto isto é natural que hajam casos que se diferenciam como o caso do convite da Susana Ribeiro que é tão devido à sua arte como envolve um lado emocional pelo facto de ter feito parte dos a a jigsaw ( e em boa verdade o seu coração está de tal forma entrelaçado no nosso que nunca deixará de fazer parte ainda que não presente). Nenhuma outra pessoa poderia ter escrito aquele violino nem nós o aceitaríamos. Temos também casos como o do Gito Lima que desde o nosso segundo álbum que tem gravado sempre o contrabaixo de um tema por álbum e que para além disso neste No True Magic é o responsável pelo design gráfico. O Pedro Serra faz parte agora da banda de suporte que criamos para levar este álbum para a estrada: a The Great Moonshiners Band, tal como o caso do Guilherme Pimenta que nós acompanha na estrada há cerca de três anos. Ou seja, volta aqui também a haver uma razão por detrás de tudo.

Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantarem em inglês e a opção será para se manter?

A razão principal foi o facto de ter iniciado os meus estudos anglo-saxonicos desde tenra idade e o inglês se ter tornado assim uma segunda língua tão natural como o Português. Em ultima análise a culpa de cantarmos inglês é dos meus pais por me terem proporcionado essa educação. E sendo que é uma opção que já dura há 15 anos, no âmbito de a A Jigsaw seria impossível ser de outra forma. Faz parte da nossa identidade.

O que vos vai mover sempre será a folk, o blues e a pop experimental ou gostariam ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico dos A Jigsaw?

Saber o que nos vai mover daqui a 20 anos é um exercício no campo da futurologia experimental. Mas certamente que haverá sempre uma relação umbilical com o folk ou blues independentemente do comprimento desse cordão. Nas palavras do Willie Dixon "os blues são as raízes e tudo o resto são os frutos". Saber daqui a 20 anos quanto distamos das raízes é um exercício fútil. Mas mantendo-nos fiéis a essa máxima do Dixon, não estaremos muito longe. Temos ideias para projectos futuros nossos onde exploramos outro tipo de sonoridades mas que, e mais uma vez, são unidos por essa consciência de proximidade da raiz comum. Os blues.


autor stipe07 às 20:51
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