Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

!!! - Shake The Shudder

Lançado no passado dia dezanove através da Warp Records, Shake The Shudder é o novo tomo discográfico dos norte-americanos !!! (Chk Chk Chk), um coletivo liderado por Nick Offer, ao qual se juntam atualmente Mario Andreoni, Dan Gorman, Paul Quattrone e Rafael Cohen. Este é o sétimo disco da carreira de um dos nomes fundamentais do punk rock do novo milénio e talvez um dos melhores trabalhos da carreira deste grupo já com duas décadas de vida, formado em 1995 das cinzas dos míticos  Black Liquorice e dos Popesmashers.

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Salvo algumas excepções de nomeada, nomeadamente nomes como os LCD Soundsystem, The Juan Maclean, os The Rapture ou os próprios Thee Oh Sees, o espetro sonoro em que os !!! (Chk Chk Chk) se movimentam ganhou um fôlego enorme no início deste século, mas tem vindo a perder terreno no seio do rock alternativo. É um receituário que serve-se, geralmente, de linhas de baixo encorpadas, riffs de guitarra pulsantes e batidas muitas vezes sintetizadas com o intuíto de fazer dançar todos aqueles que gostam de abanar a anca mas deprezam terrenos sonoros como o house, o discosound e afins. Hoje em dia, além do anunciado regresso da banda de James Murphy aos discos e da manutenção da pujança do coletivo liderado por John Dwyer, os !!! (Chk Chk Chk) serão talvez o projeto que ainda se consegue manter nas luzes da ribalta e assumir um protagonismo na defesa dos interesses de uma sonoridade que, sendo bem burilada é, sem dúvida, uma das mais atrativas no universo do rock.

A miscelânea assertiva entre rock e eletrónica que os !!! (Chk Chk Chk) nos oferecem neste Shake The Shudder, fica plasmada logo desde o início. Se o ligeiro travo R&B de The One2 é uma daquelas típicas canções de início de festa, com o falsete vocal e a batida seca a puxarem-nos sedutoramente para debaixo da bola de espelhos, depois o domínio do rock faz-se sentir em Dancing Is The Best Revenge, tema onde sobressai um aditivo refrão e que é conduzido por uma simples linha de baixo, acompanhada por uma bateria enleante e guitarras insinuantes, com a eletrónica a tomar as rédeas de NRGQ, canção adornada por guitarras de inspiração oitocentista e onde a voz de Lea Lea aprimora o travo vintage de um tema onde cabedal e lantejoulas se misturam sem pudor. E, logo nesse arranque ficam desfeitas todas as dúvidas sobre a boa forma dos !!! (Chk Chk Chk) e o modo como ainda nos fazem dançar e vibrar com ímpeto, quase até à exaustão, além de serem canções que plasmam o enorme talento de Nick Offer, quer como escritor quer como compositor e, principalmente, como agitador.

A partir daí, no sintético groove negro de Things Get Hard, na afirmação do baixo como verdadeira locomotiva do som dos !!! (Chk Chk Chk) no pós punk de Throw Yourself In The River e no modo inédito como o trombone desafia a acidez dos outros arranjos que vagueiam pela espetacular melodia que sustenta R Rated Pictures, espraia-se nos nossos ouvidos e vibra de alto a baixo um álbum que não serve para as pistas de dança convencionais, mas que é perfeito para quem pretende abanar a anca ao som de uma sonoridade um pouco mais ortodoxa e exigente, mas tanto ou mais recompensadora. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 00:40
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Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Girlpool - Powerplant

As norte americanas Girlpool são Cleo Tucker e Harmony Tavidad, uma dupla de jovens adolescentes californianas que se juntou em 2013 para fazer música e que se estreou dois anos depois nos discos com o excelente Before The World Was Big. Era um alinhamento de canções com uma forte componente autobiográfica e cuja temática, expetavelmente, se debruçava sobre os típicos dilemas existenciais de duas jovens que partilham um olhar muito próprio acerca da feminilidade e que não se coibem de, além da componente reflexiva, também expor experiências e factos vividos. Era um disco com uma sonoridade algo minimal, já que o baixo e a guitarra eram os dois únicos suportes de canções eminentemente introspetivas e com uma tonalidade bastante suave. Agora, dois anos depois, as Girlpool regressam com Powerplant, um disco que mantendo o mesmo conceito estilístico e sonoro, amplia, no entanto, os horizontes da dupla, que se apresenta mais madura e com novos arranjos e detalhes que vale a pena conferir.

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Powerplant abre com 123, uma canção que começa por impressionar pelo modo como Tucker e Tavidad dialogam vocalmente e que depois se torna vigorosa e até algo visceral, marcando-se, logo aí, uma clara diferença, em termos de ruído, com o conteúdo geral do disco de estreia. E depois, basta escutar atentamente o sereno dedilhar inicial da viola da conflituosa Sleepness e o modo como ela se eletrifica, para se tornar óbvio que houve aqui um propósito inicial de marcar a diferença com o antecessor, através de um som mais rugoso e encorpado. Seja como for, a melancolia sedutora que vagueia pelo efeito metálico da guitarra de Your Heart, canção sobre as habituais peripécias de um casal, ou a angústia latente nas variações rítmicas e na distorção de It Gets More Blue, elucidam-nos que Powerplant segue o objetivo claro desta fase inicial da carreira das Girlpool e que é, numa atitude confessional, aproximarem-se o mais possível daquilo que são as vivências habituais de qualquer um de nós que passou ou está a passar por aquela idade em que o amor é ainda um grande mistério e que para ser bem minimamente entendido opta-se, muitas vezes, pelo mecanismo tentativa vs erro até que este mistério chamado amor fique menos nebuloso. 

Álbum com uma intimidade muito própria e com um ambiente bastante acolhedor, Powerplant impressiona pelo efeito de espelho que poderá ter em quem o escuta de modo dedicado, ao mesmo tempo que reforça um estilo sonoro e uma abordagem ao indie rock com algumas caraterísticas bem marcadas e difíceis de encontrar em outros projetos similares. A simplicidade do baixo e da guitarra, o modo e a rapidez como esta transita do acústico ao elétrico e o recurso constante às vozes em coro são bons exemplos do modo assertivo com que as Girlpool nos incitam à reflexão. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 00:06
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Terça-feira, 23 de Maio de 2017

Sleep Party People – The Sun Will Open Its Core

Sleep Party People - The Sun Will Open Its Core

Lingering, o novo registo de originais dos projeto Sleep Party People do dinamarquês Brian Batz, chega aos escaparates a dois de junho, à boleia da Joyful Noise Recordings e não receio arriscar que poderá muito bem ser um dos melhores discos de 2017. O álbum contará com as participações especiais de Peter Silberman dos The Antlers e Beth Hirsch que emprestou a sua voz a alguns dos temas mais emblemáticos de Moon Safari, a obra-prima dos franceses Air.

Construída em redor de um muro sónico de batidas e sons sintetizados plenos de luz e harmonia, The Sun Will Open Its Core é o mais recente single divulgado de Lingering, canção onde mais uma vez Batz olha para o interior da alma e incita os nossos desejos mais profundos, como se cavasse e alfinetasse um sentimento em nós, impulsionado por uma filosofia sonora que explora uma miríade instrumental alargada e onde a vertente experimental assume uma superior preponderância ao nível da exploração do conteúdo melódico. Na canção a letra também é um elemento vital, tantas vezes o veículo privilegiado de transmissão da angústia que frequentemente invade Batz. Confere...


autor stipe07 às 09:42
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Domingo, 14 de Maio de 2017

Glass Vaults – The New Happy

Os Glass Vaults  de Richard Larsen, Rowan Pierce e Bevan Smith são uma banda oriunda de Wellington, na Nova Zelândia e em cujo regaço melancolia e lisergia caminham lado a lado, duas asas montadas em canções que nos oferecem paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos e a voz de Larsen que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta. E tudo isto sente-se com profundo detalhe, numa banda que por vir dos antípodas parece carregar nos seus ombros o peso do mundo inteiro e não se importar nada com isso, algo que nos esclareceu com veemência Sojourn, o longa duração de estreia destes Glass Vaults, editado em 2015 à boleia da Flying Out e que sucedeu a Glass (2010) e Into Clear (2011), dois eps que colocaram logo alguma crítica em sobressalto.

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Agora, quase dois anos depois desse auspicioso início de carreira no formato longa duração, o trio está de regresso aos discos com The New Happy, um trabalho que viu a luz do dia ontem, doze de maio, através de Melodic Records, gravado em três dias e que além dos três músicos da banda, contou ainda com as participações especiais de Daniel Whitaker, Ben Bro and Hikurangi Schaverien-Kaa. Este é um álbum com um som esculpido e complexo e com um encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador, até porque estamos em presença de um registo que corre muito bem o risco de ser um dos melhores do ano.

Logo no groove mágico e melancólico que trespassa a guitarra e os efeitos rugosos da lo fi Mindreader e no funk alegre, divertido e requintado de Ms Woolley, percebemos, com clareza, que este é um disco especial, não só no modo como privilegia uma sensibilidade pop inédita, que em alguns momentos é atingida com um forte cariz épico e monumental, mas também no largo espetro de cruzamentos que executa entre a eletrónica ambiental e um rock de cariz mais experimental e alternativo, uma filosofia sonora que poderá resultar para o ouvinte na possibilidade de obter um completo alheamento de tudo aquilo que o preocupa ou o pode afetar em seu redor.

Ao surgir Brooklyn, canção que é um verdadeiro festim de cor e alegoria, uma espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo e onde tudo é filtrado de modo a reproduzir toda a magnificiência deste e de outro mundo de modo fortemente cinematográfico e imersivo, num resultado final que impressiona pela orgânica e pelo forte cariz sensorial, ficamos definitivamente seduzidos por um daqueles registos discográficos onde a personalidade de cada uma das canções do alinhamento demora um pouco a revelar-se nos nossos ouvidos, mas onde é incrivelmente compensador experimentar sucessivas audições para destrinçar os detalhes precisos que contém e a produção impecável e intrincada que sustenta a bitola qualitativa de um catálogo de canções incubado por um grupo a viver no pico da sua produção criativa.

The New Happy prossegue e enquanto Savant nos oferece uma secção percurssiva de metais com uma exuberância vintage enérgica e marcial, em Rewind e, principalmente, no tema homónimo, os efeitos circenses e o efeito em eco de uma guitarra que parece ser capaz de reproduzir toda a magnificiência deste e de outro mundo num qualquer arraial bucólico de aldeia, atestam, mais uma vez, a facilidade com que estes Glass Vaults mudam de cenário com uma naturalidade invulgar, sem colocarem em causa a homogeneidade de um alinhamento rico e muitas vezes surreal. De referir que essas composições foram intercaladas por Sojourn, canção que deu nome ao disco de estreia e onde parece que os Glass Vaults tocam içados no topo monte Aoraki, o ponto mais alto da Nova Zelândia, de onde debitam esta canção arrebatadora através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco da melodia e dão asas às emoções que exalam desde o sopé desse refúgio bucólico e denso, onde certamente se embrenharam, pelo menos na imaginação, para criar quase oito minutos que impressionam pela orgânica e pelo forte cariz sensorial. A mesma receita, mas de modo ainda mais barroco e hipnótico, repete-se em Bleached Blonde, um desfile inebriante que impressiona pela grandiosidade, patente nos samples, nos teclados e nos sintetizadores livres de constrangimentos, não havendo regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos. Depois, no ocaso, o minimalismo contagiante em que se sustenta Halaah Ha!, mais um tema que nos desarma devido ao registo vocal e ao banquete percussivo que contém é outro extraodinário exemplo do modo como esta banda é capaz de ser genuína a manipular o sintético e a tornar tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico.

Disco quase indecifrável e com uma linguagem pouco usual mas merecedora de devoção, The New Happy é capaz de projetar nos nossos ouvidos uma tela cheia de sonhos e sensações, com nuances variadas e harmonias magistrais que muitas vezes apenas pequenos detalhes ou amplos arranjos conseguem proporcionar. Na verdade, estes Glass Vaults oferecem-nos gratuitamente a possibilidade de usarmos a sua música para expor dentro de nós sentimentos de alegria e exaltação, mas também de arrepio e um certo torpor perante a grandiosidade de uma receita sonora cujos fundamentos lhes foram revelados em sonhos, já que só eles conseguem descodificar com notável precisão o seu conteúdo. Espero que aprecies a sugestão...

Glass Vaults - The New Happy

01. Mindreader
02. Ms Woolley
03. Brooklyn
04. Savant
05. Sojourn
06. Rewind
07. The New Happy
08. Bleached Blonde
09. Halaah Ha!


autor stipe07 às 00:20
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Sábado, 13 de Maio de 2017

Sleep Party People – Fainting Spell

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Lingering, o novo registo de originais dos projeto Sleep Party People do dinamarquês Brian Btaz, chega aos escaparates a dois de junho, à boleia da Joyful Noise Recordings e não receio arriscar que poderá muito bem ser um dos melhores discos de 2017. O álbum contará com as participações especiais de Peter Silberman dos The Antlers e Beth Hirsch que emprestou a sua voz a alguns dos temas mais emblemáticos de Moon Safari, a obra-prima dos franceses Air.

Construída em redor de um muro sónico de sons sintetizados plenos de luz e harmonia, ao qual depois se junta uma guitarra pulsante, Fainting Spell é o primeiro single divulgado de Lingering, canção que nos faz sentir um pouco estranhos no meio de nós mesmos, um, ninguém e cem mil. A voz de Batz olha, mais uma vez, para o interior da alma e incita os nossos desejos mais profundos, como se cavasse e alfinetasse um sentimento em nós, impulsionado por uma filosofia sonora que explora uma miríade instrumental alargada e onde a vertente experimental assume uma superior preponderância ao nível da exploração do conteúdo melódico. Na canção a letra também é um elemento vital, tantas vezes o veículo privilegiado de transmissão da angústia que frequentemente invade Batz. Confere...

Sleep Party People - Fainting Spell


autor stipe07 às 00:18
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Sexta-feira, 12 de Maio de 2017

Slowdive - Slowdive

Mestres e pioneiros do shoegaze e uma referência ímpar do indie rock alternativo de final do século passado, os britânicos Slowdive voltam vinte e dois anos depois de Pygmalion (1995) a dar sinais de vida com um disco homónimo que viu a luz do dia a cinco de maio e que contém oito maravilhosas canções e um lindíssimo artwork inspirado na animação Heaven And Heart Magic, datada de 1957 e da autoria de Harry Smith.

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O guitarrista e vocalista dos Slowdive, Neil Halstead, tinha já dito recentemente que a banda depois de se reunir novamente em 2014 para dar alguns concertos estava a trabalhar em novas canções, por isso esta era uma novidade já aguardada, mas que não deixa de causar um certo espanto e uma forte impressão em todos aqueles que certamente ainda se recordam desse objeto de culto que foi Pygmalion, um trabalho que à época não encontrou espaço de afirmação devido à asfixia causada pela britpop, com nomes como os Oasis, Suede ou Blur a viverem em pleno auge e, de certo modo, a secarem tudo em seu redor. Agora, a segunda metade da segunda década deste novo século acaba por ser perfeita para a assimilação deste indie rock mais contemplativo, melancólico e atmosférico, mas mesmo assim incisivo, não só porque é uma sonoridade que vai ao encontro daquilo que são hoje importantes premissas de quem acompanha as novidades deste espetro sonoro, mas também porque, num período de algum marasmo, esta tem sido uma estética que tem encontrado bom acolhimento junto do público.

Mestres da melancolia aconchegante, os Slowdive emergem-nos num universo muito próprio e no qual só penetra verdadeiramente quem se predispuser a se deixar absorver pela sua cartilha. E o arquétipo sonoro de tal ambiente firma-se num falso minimalismo, onde da criteriosa seleção de efeitos da guitarra, à densidade do baixo, passando por uma ímpar subtileza percussiva e um exemplar cariz lo fi na produção, são diversos os elementos que costuram e solidificam um som muito homogéneo e subtil e, também por isso, bastante intenso e catalizador.

Escuta-se o verso Give Me Your Heart em Slomo e chega logo o momento de todas as decisões; Submetemo-nos a este pedido e embarcamos numa demanda doutrinal que sabemos, à partida, que não nos vai deixar indiferentes e iguais, ou a escuta de Slowdive é feita em modo ruído de fundo ou até deixada de lado? Acaba por ser difícil resistir ao encanto de tal convite e depois, impulsionados pela nebulosa pujança de Star Roving, uma daquelas canções cujas diversas camadas de som impelem ao cerrar de punhos, pelo encanto etéreo que a dupla Fraser e Guthrie nos proporcionam em Don't Know Why e pelo doce balanço da guitarra que conduz Sugar For The Pill, ficamos certos que a opção tomada foi, como seria de esperar, a mais certeira.

Até ao ocaso de Slowdive, no cariz mais experimental dos efeitos que adornam Everyone Knows, na deliciosa ode ao amor que justifica a filosofia subjacente a No Longer Making Time, uma canção onde a interação entre o baixo e a bateria fica muito perto de atingir os píncaros, na crueza orgânica e hipnótica de Go Get It e no modo como o piano embeleza toda a subtileza que fica impressa no rasto de Falling Ashes, fica atestada a segurança, o vigor e o modo ponderado e criativamente superior como este grupo britânico entra nesta sua segunda vida em estúdio para compôr e criar um arquétipo sonoro que não tem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual.

Disco muito desejado por todos os seguidores e não só e que quebra um longo hiato, Slowdive é um lugar mágico para onde podemos canalizar muitos dos nossos maiores dilemas, porque tem um toque de lustro de forte pendor introspetivo, livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor, num disco que, no seu todo, contém uma atmosfera densa e pastosa, mas libertadora e esotérica. Acaba por ser um compêndio de canções que nos obriga a observar como é viver num mundo onde o amor é tantas vezes protagonista, mas onde também subsistem outros eventos e emoções capazes de nos transformar positivamente. Espero que aprecies a sugestão...

Slowdive - Sugar For The Pill

01. Slomo
02. Star Roving
03. Don’t Know Why
04. Sugar For The Pill
05. Everyone Knows
06. No Longer Making Time
07. Go Get It
08. Falling Ashes


autor stipe07 às 00:10
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Segunda-feira, 8 de Maio de 2017

Grizzly Bear – Three Rings

Grizzly Bear - Three Rings

Até parece mentira, mas já foi em 2004 que Horn of Plenty estreou os nova iorquinos Grizzly Bear de Edward Dros, Daniel Rossen, Christopher Bear e Chris Taylor nos lançamentos musicais. Na época, o disco passou despercebido e até há quem não o inclua na discografia oficial da banda, até porque foi composto inteiramente pelo vocalista, Edward Dros, com apenas algumas contribuições do baterista, Christopher Bear. Agora, quase década e meia depois, irá chegar finalmente, o quinto disco dos Grizzly Bear, editado a dezoito de setembro através da Warp Records e já cinco anos depois do antecessor, o excelente Shields.

Three Rings é o primeiro single divulgado desse novo registo do quarteto norte-americano, ainda sem data de lançamento definida, uma canção que acaba por refletir muita da melancolia que era exposta nos primórdios da carreira dos Grizzly Bear, algo que se infere da camada de ruídos experimentais e compostos acinzentados que sustentam o tema, com o acrescento de arranjos onde contrastam elementos acústicos e elétricos e que deitam por terra qualquer sintoma de monotonia e repetição. Confere...


autor stipe07 às 21:38
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Sábado, 6 de Maio de 2017

POND - The Weather

Depois do excelente Man It Feels Like Space Again (2015), os australianos POND de Nick Allbrook, baixista dos Tame Impala, estão de regresso aos discos em 2017 com The Weather, um álbum que viu a luz do dia através da Marathon Artists e idealizado por uma banda obrigatória para todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se deliciam com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um projeto.

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A expressão rock cósmico talvez seja feliz para catalogar o caldeirão sonoro que os POND reservam para nós cada vez que entram em estúdio para compor. E o receituário habitual destes australianos inclui guitarras alimentadas por um combustível eletrificado que inflama raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro do ideário sonoro do grupo, feitas, geralmente, de acordes rápidos, distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez e que desta vez estão mais acompanhadas do que nunca por sintetizadores munidos de um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias. Para compor o ramalhete não falta ainda uma secção rítmica feita com um baixo pulsante e uma bateria com um forte cariz étnico, numa sobreposição instrumental em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa busca de acessibilidade

The Weather inicia com 3000 Megatons, um vendaval de lisergia fortemente sintética apenas equiparável ao que realmente sucederia se o mundo sofresse as consequências da deflagração de tal quantidade de pólvora, mas o clima é logo amainado pela delicada sensibilidade das cordas que suportam a monumentalidade comovente de Sweep Me Off My Feet, canção que resgata e incendeia o mais frio e empedrenido coração que se atravesse. Depois, a leveza contagiante de Paint Me Silver, que proporciona-nos um instante de eletrofolk psicadélica, mais habitual na outra banda de Allbrook, o eletropunk blues enérgico e libertário de Colder Than Ice e, principalmente, a esmagadora monumentalidade da viagem esotérica setentista proporcionada pelas duas metades que compôem Edge Of The World, ampliam a sensação de euforia e de celebração de um alinhamento que tanto ecoa e paralisa, no meio de uma amálgama assente numa programação sintetizada de forte cariz experimental, como nos faz querer que se dançarmos sem pudor acabaremos por embarcar numa demanda triunfal de insanidade desconstrutiva e psicadélica, cientes de que ao som dos POND não há escapatória possível desta ode imensa de celebração do lado mais estratosférico, descomplicado e animado da vida.

Torna-se, pois, indispensável deixar que o nosso corpo absorva todas as sensações inebriantes que este disco oferece gratuitamente e, repetindo o exercício sensorial várias vezes, permitirmos que depois se liberte o imenso potencial de energia que estas composições recheadas de marcas sonoras rudes, suaves, pastosas, imponentes, divertidas e expressivas, às vezes relacionadas com vozes convertidas em sons e letras e que atuam de forma propositadamente instrumental proporcionam. Aqui tudo é dissolvido de forma tão aproximada e apaixonada, que The Weather está longe de revelar todos os seus segredos logo na primeira audição. Por exemplo, a fina ironia, quer melódica quer lírica, do ambiente cósmico de All I Want For Xmas (Is A Tascam 388), permite-nos diferentes interpretações acerca do verdadeiro sentido genuíno do Natal enquanto celebração da fraternidade ou um enorme pretexto puramente comercial. Depois, o frenesim descontrolado inicial de A/B, na forma de um riff melódico assombroso, carregado de distorção e perfeitamente diabólico, é algo enganador já que a canção é subitamente alvo de um intenso downgrade sonoro, fortemente lisérgico, cósmico e imponente, deixando-nos em suspense relativamente ao que resta ouvir da composição, embalados por um piano e uma voz distorcida que clamam por um anjo que nos agita a mente. Finalmente, o tema homónimo parece um simples devaneio sonoro minimalista, mas acaba por constituir-se num imenso instante de rock progressivo, onde os POND gastam todas as fichas e despejam os trunfos que alicerçam a sua estrutura sonora complexa, numa canção que sabe claramente a despedida, num cenário verdadeiramente complexo, vibrante e repleto de efeitos maquinais e orgânicos que proporcionam sensações únicas.

Já com um acervo único e peculiar e que resulta da consciência que os músicos que compôem este coletivo têm das transformações que abastecem a música psicadélica atual, os POND são umbilicalmente responsáveis por praticamente tudo aquilo que move e se move neste género e já se assumiram como referências essenciais para tantos outros. Querendo estar mais perto do grande público e serem comercialmente mais acessíveis, nesta parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que é The Weather, além de não colocarem em causa a sua própria integridade sonora ou descurarem a essência do projeto, propôem mais um tratado de natureza hermética e não se cansando de quebrar todas as regras e até de desafiar as mais elementares do bom senso que, no campo musical, quase exigem que se mantenha intocável a excelência, conseguem conquistar novas plateias com distinção. Os POND sabem como impressionar pelo arrojo e mesmo que incomodem em determinados instantes da audição, mostram-se geniais no modo como dão vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Pond - The Weather

01. 30000 Megatons
02. Sweep Me Off My Feet
03. Paint Me Silver
04. Colder Than Ice
05. Edge Of The World, Pt. 1
06. A / B
07. Zen Automaton
08. All I Want For Xmas (Is A Tascam 388)
09. Edge Of The World, Pt. 2
10. The Weather

 


autor stipe07 às 13:44
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Terça-feira, 2 de Maio de 2017

Gorillaz - Humanz

Já está nos escaparates Humanz, o mais recente disco dos Gorillaz de 2-D, Murdoc, Noodle e Russel, um trabalho produzido pelo próprio Damon Albarn e primeiro da banda desde The Fall (2011). O registo viu a luz do dia a vinte e oito de abril e tem dezanove canções e seis interlúdios, que incluem a participação especial de nomes tão relevantes como Mavis Staples, Carly Simon, Grace Jones, De La Soul, Jehnny Beth das Savages, Pusha T, Danny Brown, Vince Staples, Kelela e D.R.A.M., entre outros. Humanz foi gravado em cinco locais diferentes, nomeadamente Londres, Paris, Nova Iorque, Chicago e na Jamaica.

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Primeiro registo de canções desde o já longínquo The Fall (2011), Humanz é um sólido passo dos Gorillaz rumo a uma zona de conforto sonora cada vez mais afastada das experimentações iniciais do projeto que, tendo sempre a eletrónica, o hip-hop e o R&B em ponto de mira, num universo eminentemente pop, também chegou a olhar para o rock com uma certa gula. Mas este rock parece cada vez mais afastado do ponto concetual nevrálgico do projeto, com as outras vertentes que sustentam muita da pop que é mais apreciada nos dias de hoje, principalmente do lado de lá do atlântico, a serem colocadas na linha da frente. Tal opção não é inédita e, dando só um outro exemplo, no início deste século não estaria propriamente no horizonte dos fãs mais puristas dos The Flaming Lips verem Wayne Coyne a convidar uma artista do espetro sonoro de uma Miley Cyrus e ter um papel de relevo num álbum desta banda de Oklahoma e a verdade é que hoje essa parceria é uma óbvia mais valia para esse grupo.

Quem, como eu, considera Demon Days um dos melhores álbuns da primeira década deste século, talvez olhe para este Humanz e veja, à primeira audição, poucas evidências da sonoridade que ficou impressa pelos Gorillaz nessa estreia. Mas talvez as semelhanças sejam mais do que as óbvias e, doze anos depois, 2017 marque mais um capítulo seguro numa linha de continuidade que, tendo como referência fundamental todo o espetro pop contemporâneo, busque uma filosofia de experimentação contínua, livre de constrangimentos e com um alvo bem definido em cada registo. E não há dúvida que o hip-hop foi, desta vez, o parceiro privilegiado da eletrónica, num alinhamento onde abundam as participações especiais, mas onde a voz de Albarn continua a ser inconfundível e um delicioso apontamento de charme, seneridade e harmonia, numa multiplicidade e heterogeneidade de registos, quase sempre abruptos, graves, determinados, contestadores e buliçosos, não fosse este um álbum concetual que disserta sobre alguns dos principais dilemas e tiros nos pés que a sociedade contemporânea insiste em dar nos dias de hoje, com o Brexit, em Hallellujah Money, Trump e o aquecimento global em vários temas e o racismo, em Ascension, com o rapper Vince Staples, a serem apenas alguns exemplos desta gigantesta sátira em tom crítico. Seja como for, apesar de todo o ambiente fortemente político e de alerta e intervenção que marca Humanz, o alinhamento encerra com outra improbabilidade, ao ser possível escutar, em We Got The Power, os antigos inimigos de estimação Damon Albarn e Noel Gallagher a cantarem em uníssono We got the power to be loving each other. No matter what happens, we’ve got the power to do that. Afinam ainda há esperança para todos nós. Espero que aprecies a sugestão...

Gorillaz - Humanz

CD 1
01. Intro: I Switched My Robot Off
02. Ascension (Feat. Vince Staples)
03. Strobelite (Feat. Peven Everett)
04. Saturnz Barz (Feat. Popcaan)
05. Momentz (Feat. De La Soul)
06. Interlude: The Non-Conformist Oath
07. Submission (Feat. Danny Brown And Kelela)
08. Charger (Feat. Grace Jones)
09. Interlude: Elevator Going Up
10. Andromeda (Feat. D.R.A.M.)
11. Busted And Blue
12. Interlude: Talk Radio
13. Carnival (Feat. Anthony Hamilton)
14. Let Me Out (Feat. Mavis Staples And Pusha T)
15. Interlude: Penthouse
16. Sex Murder Party (Feat. Jamie Principle And Zebra Katz)
17. She’s My Collar (Feat. Kali Uchis)
18. Interlude: The Elephant
19. Halleujah Money (Feat. Benjamin Clementine)
20. We Got The Power (Feat. Jehnny Beth)

CD 2
01. Interlude: New World
02. The Apprentice (Feat. Rag’n’Bone Man, Ray BLK, Zebra Katz)
03. Halfway To The Halfway House (Feat. Peven Everett)
04. Out Of Body (Feat. Imani Vonsha, Kilo Kish, Zebra Katz)
05. Ticker Tape (Feat. Carly Simon, Kali Uchis)
06. Circle Of Friendz (Feat. Brandon Markell Holmes)


autor stipe07 às 14:43
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Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

Tashaki Miyaki – The Dream

A vocalista Lucy Miyaki e o guitarrista Tashaki formam o núcleo duro dos Tashaki Miyaki, uma banda oriunda de Los Angeles que navega nas águas turvas e profundas da dream pop de pendor psicadélico e que acaba de se estrear no formato longa duração com The Dream, um lindíssimo tomo de canções patrocinadas pela Metropolis Records, produzido por Paige Stark, misturado por Dan Horne (Cass McCombs, Allah-Las) e que com as participações especiais de Joel Jerome (Cherry Glazerr, La Sera, Dios) e do multi-instrumentista Jon Brion. São canções que nos embalam e incitam de um modo muito particular e lisérgico, já que comprovam o quanto estes Tashaki Miyaki são incomparáveis e mestres na criação de uma atmosfera densa, mas particularmente sensual e hipnótica.

Resultado de imagem para Tashaki Miyaki 2017

Com uma sonoridade cada vez mais sóbria e adulta, Lucy e Tashaki criaram em The Dream um catálogo sonoro envolvente, climático e tocado pela melancolia, que atinge o seu auge, na minha opinião, na pop luminosa e pueril de Cool Runnings, uma daquelas canções que se não se embranha no imediato é porque existe algo de errado no nosso âmago no que concerne à capacidade de absorver emoção e fervor. Mas logo em City e, de modo mais vincado, em Girls On T.V., a dupla apresenta uma instrumentação que tem como pano de fundo essencial o clássico rock abarcado pela típica herança da América do Norte, que serve-se de guitarras sobriamente eletrificadas e distorcidas para obter uma mistura sem fronteiras definidas, entre esse grande universo sonoro e o blues, a folk, e, implicitamente, alguns pilares fundamentais da eletrónica ambiental, com o bónus de ser audível, neles a procura de uma sonoridade ainda mais intimista e reservada, como se quisesse replicar-se, no seu todo, com um suspiro algo abafado e o menos expansivo possível.

No inconfundível dedilhar das notas de Anyone But You e na sobriedade dos arranjos de Facts Of Life, conferimos mais dois notáveis exemplos de como se sente neste álbum uma superior carga emotiva. Além disso, a voz adocicada de Lucy, que parece pairar, em praticamente todo o disco, numa frágil nuvem de algodão, faz juz à cândura de uma odisseia poética que transborda fragilidade em todas as sílabas e versos que sustentam as canções. Esta voz, quando em Get It Right replica um registo mais grave sem colocar em causa o elevado pendor lisérgico da cantora, é mais uma manifestação audível e concreta do jogo dual que os Tashaki Miyaki conseguem oferecer ao ouvinte, entre força e fragilidade, dois aspetos que nas vozes, na letra e na instrumentação, se equilibram de forma vincada e segura.

The Dream é, em suma, um compêndio sonoro que surpreende pelo bom gosto como apresenta de forma sombria e introspetiva, mas superiormente frágil e sedutora, a visão dos Tashaki Miyaki sobre alguns temas que sempre tocaram a dupla, mas, principalmente, pela forma madura e sincera como tentam conquistar o coração de quem os escuta com melodias doces e que despertam sentimentos que muitas vezes são apenas visíveis numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

Tashaki Miyaki - The Dream

01. L.A.P.D. Prelude
02. City
03. Girls On T.V.
04. Out Of My Head
05. Anyone But You
06. Cool Runnings
07. Tell Me
08. Facts Of Life
09. Keep Me In Mind
10. Get It Right
11. Somethin Is Better Than Nothin
12. L.A.P.D. Finale
13. L.A.P.D.


autor stipe07 às 14:56
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