Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2017

Dutch Uncles – Big Balloon

Cerca de dois anos após o excelente O Shudder, os britânicos Dutch Uncles estão de regresso aos discos com Big Balloon e novamente sob a chancela da insuspeita Memphis Industries, Falo de um registo discográfico intenso, charmoso e e efusivo, incubado por este quarteto sedeado em Marple e atualmente formado por Duncan Wallis, Andy Proudfoot, Robin Richards e Peter Broadhead e que é já o quinto álbum da carreira de um projeto que deu o ponto de partida em 2009 com um homónimo editado pela Tapete Records e que com Cadenza e Out Of Touch In The Wild, conseguiu começar a ser olhado pela crítica com particular devoção, sendo ainda hoje um dos melhores segredos do universo sonoro indie e alternativo.

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Ainda mais inebriantes, musculados e seguros do que aquilo que mostraram em O Shudder, neste Big Balloon os Dutch Uncles mostram porque chegaram a um ponto da carreira em que não era mais possível abrigarem-se apenas à sombra de uma certa penumbra e de um limitado nicho de fiéis seguidores. Aceitaram essa fatalidade sem receios e arregaçaram as mangas de modo a compôr canções que pudessem, com mérito próprio, extravasar as anteriores fronteiras e assim atingirem, finalmente, uma projeção superior e universal. Logo na guitarra serpenteante que conduz o tema homónimo essa permissa fica expressa de modo indelével e com o fulgor pop oitocentista de Baskin' é ainda mais vincada, com o disco a não defraudar, logo à partida, quem, como eu, estava à espera de uma proposta sonora ambiciosa e sofisticada, criada por uns Dutch Uncles que sempre souberam provar conhecer os melhores atalhos para aprimorar uma queda acentuada para a vertente experimental, mas sem descurar a oferta de canções acessíveis à maioria dos ouvidos, com o período aúreo da pop europeia de final do século passado em ponto de mira.

O piano de Combo Box acaba por ser mais uma acha preciosa para a fogueira de esplendor e sofisticação que define a filosofia sonora dos Dutch Uncles, assim como o efeito sintetizado de Hiccup ou a linha melódica que introduz a epicidade visceral de Streetlight, três dos melhores momentos de Big Balloon e que comprovam que nem só das cordas vive este quarteto, mas também das teclas que, quer num campo orgânico ou com um perfil mais sintético, são também um ingrediente primordial para o grupo. Já em Oh Yeah, se o sintetizador também assume a batuta, a bateria chama para si os holofotes no modo como define o andamento da canção e a alma e a alegria que dela transborda. Depois, em Sink, apesar da distorção da guitarra ser esplendorosa, a bateria ganha de novo relevo pelo modo como se abriga claramente na herança da synthpop típica dos anos oitenta, que, como se percebe, e já referi, está fortemente representada na vertente instrumental, mas também no próprio clima vocal. O registo vocal em falsete de Duncan, algo emotivo,que ajuda à aproximação entre a banda e o ouvinte, ao mesmo tempo que confere a densidade correta às letras, ajudando a que o conjunto final de muitas canções tenha vida e um pulsar que não nos passa despercebido, vai de encontro à habitual estética dos Dutch Uncles que têm abraçado, também através da voz, a simbiose entre pop vintage e contemporânea e ajudado imenso ao seu enriquecimento, pelo modo inédito como olham para o passado sem se deixarem seduzir demasiado por ele.

Disco com uma sonoridade muito particular e com um balanço temporal equilibrado que apresenta uma mescla de referências que ganham vida de mãos dadas com a ponte entre o presente e o passado, quer pelo modo curioso como a voz é reproduzida, mas também pela disposição das cordas e das teclas nas melodias e o uso do reverb, Big Balloon abre-se de par em par como uma enorme janela de luz, cimentando a firmeza sonora identitária dos Dutch Uncles, que atingem com estas dez canções o momento mais alto da sua já respeitável carreira. Espero que aprecies a sugestão...

Dutch Uncles - Big Balloon

01. Big Balloon
02. Baskin’
03. Combo Box
04. Same Plane Dream
05. Achameleon
06. Hiccup
07. Streetlight
08. Oh Yeah
09. Sink
10. Overton


autor stipe07 às 16:07
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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2017

Elbow – Little Fictions

Uma das bandas fundamentais do cenário indie das duas últimas décadas são, com toda a justiça, os britânicos Elbow de Guy Garvey, uma banda natural de uma pequena localidade inglesa chamada Salford e de regresso aos discos com Little Fictions, dez canções que acabam de ver a luz do dia à boleia da Polydor Records em parceria com a Concord Records. Este é o trabalho discográfico de um grupo honesto, coeso e com uma fleuma muito própria e sua, que busca no panorama internacional o mesmo reconhecimento que já tem, como projeto de topo, em terras de sua majestade.

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Donos de um som épico, eloquente e que exige dedicação, os Elbow chegam a Little Fictions a verbalizar sonoramente uma necessidade quase biológica de nos elucidar como enfrentar a habitual ressaca emocional que os normais eventos de uma vida em sociedade nos dias de hoje provocam no equilíbrio emocional de qualquer mortal, razão pela qual são um daqueles grupos com os quais tanta gente acaba por se identificar, principalmente quem, de modo mais ou menos devoto, vai procurando destrinçar a escrita apurada de Garvey e que no antecessor, The Take Off And Landing Of Everything, editado na primavera de 2014, atingiu contornos particularmente intimistas, por ser ter debruçado na separação, à altura, do músico com a escritora Emma Jane Unsworth.

Cada vez mais maduro e sempre a fazer questão de ser profundo e poético na hora de cantar a vida, mesmo que ela tenha menos altos que baixos, como quem precisa de viver um período menos positivo e de quebrar para voltar a unir, este quinteto mantem a sonoridade elaborada que o carateriza, mas tem aqui talvez o momento mais alto da sua carreira depois do maravilhoso The Seldom Seen Kid (2008). Na verdade, os Elbow acertaram novamente e criaram mais um disco bonito e emotivo, cheio de sentimentos que refletem não só os ditos desabafos de Garvey, mas também a forma como ele entende o mundo hoje e as rápidas mudanças que sucedem, onde parece não haver tempo para cada um de nós parar e refletir um pouco sobre o seu momento e o que pode alterar, procurar, ou lutar por, para ser um pouco mais feliz. Canções como a optimista e orquestral Magnificient (She Says), a luminosidade intimista e charmosa de Gentle Storm, a cândura arrebatadora que transborda da emotiva All Disco ou a sedutora reflexão acerca de um adeus que nunca termina, plasmada em K2constituem a banda sonora ideal para essa paragem momentânea, que para todos nós deveria ser obrigatória e que pode muito bem servir-se de Little Fictions, deixando-o ali a tocar, a meio volume e em pano de fundo.

Sempre encantadores, aditivos e simultaneamente amplos e grandiosos e detalhados e impressivos no modo como falam e cantam sobre o amor, no fundo a grande força motriz de toda a pafernália de sensações e acontecimentos que fui descrevendo até aqui, os Elbow provam em Little Fictions que estão num elevado e excitante momento criativo e intactos e genuínos a expôr-se e a desarmar-nos. Afirmo-o convictamente porque este disco tem alguns momentos que, sendo devidamente absorvidos, não deixarão de nos provocar aquelas reações físicas que muitas vezes tentamos refrear, porque há quem considere que a cena dos sentimentalismos, do sorriso sem razão aparente e das lágrimas felizes ou infelizes (e aqui há as duas possibilidades) é só para os fracos de coração e de espírito. Quanto a mim, o verdadeiro e o mais recompensador é exatamente o contrário e aqueles que se expôem assim, é que são os fortes... E a música dos Elbow, disco após disco, tem-me ajudado a perceber nas últimas duas décadas como cimentar e vivenciar esta minha certeza, da qual não me envergonho minimamente. Espero que aprecies a sugestão...

Elbow - Little Fictions

01. Magnificent (She Says)
02. Gentle Storm
03. Trust The Sun
04. All Disco
05. Head For Supplies
06. Firebrand And Angel
07. K2
08. Montparnasse
09. Little Fictions
10. Kindling


autor stipe07 às 21:45
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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017

The XX - I See You

Terminou há poucos dias uma longa espera relativamente a novidades dos The XX, após o aclamado Coexist, um longa duração lançado pelo grupo, à boleia da Young Turks, já há quatro anos e que tem finalmente sucessor. O terceiro álbum do trio foi editado com o mesmo selo Young Turks e chama-se I See You. O disco tem um alinhamento de dez canções, gravadas entre Março de 2014 e Agosto de 2016 em vários sítios como New York, Texas, Reykjavique, Los Angeles e Londres e foi produzido por Jamie Smith e Rodaidh McDonald.

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Ao contrário de outros projetos que muitas vezes se dispersam caso haja um relativo hiato entre discos, o tempo é, sem dúvida, um aliado na curta e bem resolvida trajetória dos The XX. Ocorreram transformações na vida de cada um dos componentes da banda nos últimos anos e, apesar da espera entre cada trabalho, mantém-se o carinho e uma pressão positiva por parte do grande público. Assim, ao terceiro disco os The XX mostram a habitual boa forma, assente numa filosofia sonora muito própria e fortemente identitária e uma saudável disponibilidade para o alargamento do espetro sonoro em que se movimentam e que balança muitas vezes entre a pista de dança e a mais recatada introspeção, como se percebe logo nos dois primeiros temas do alinhamento de I See You. Logo em Dangerous, umas inéditas sirenes e a sedutora batida oferecem-nos maior audácia, relativamente ao anterior catálogo da dupla e depois, em Say Something Loving, aproveitando um sample de Alessi Brothers, a emoção instala-se facilmente em quem se deixar envolver pela beleza melódica do tema.

Percebe-se, pois, logo neste início auspicioso de I SeeYou, que este é mais um registo onde tudo se movimenta como uma massa de som em que o mínimo dá lugar ao todo, ou seja, os detalhes ainda são parte fundamental da funcionalidade e da beleza da obra do trio britânico, mas a diferença, desta vez está na maneira como exploram essa unidade e nas nuances sonoras que interligam as canções. No fundo, a receita é exatamente a do costume, mas a sonoridade foi renovada, tendo cabido ao baterista e produtor Jamie Smith assumir a linha da frente nessa tarefa, nomeadamente quando acerta nas batidas hipnóticas que servem de base para as vozes de Romy e Oliver. Todos estes acertos encontram o seu apogeu no tom pueril e na sonoridade sintética de On Hold, para mim a melhor música do disco, uma canção de amor que tem como atributo maior o diálogo entre Romy e Oliver, dois corações que flutuam no espaço e quando as mãos de ambos se soltam, sem que percebam, e verificam que estão longe demais e já é tarde demais, percebem que só remando para o mesmo lado é que poderão sobreviver a todos os precalços que o amor coloca sempre.

No restante alinhamento de I See You, o incrível poema que abastece a nuvem emotiva em que paira Performance e o incisivo espairecer que nos suscita Test Me, por um lado e o estrondoso frenesim sensual plasmado em I Dare You, por outro, insistem nesta já descrita indisfarçável filosofia de um álbum que quer fazer juz a uma herança e apontar, em simultâneo, novos faróis a um dos projetos mais distintos e criativos da pop atual e que ao terceiro disco continua a instigar, hipnotizar e emocionar. Espero que aprecies a sugestão...

The XX - On Hold

01. Dangerous
02. Say Something Loving
03. Lips
04. A Violent Noise
05. Performance
06. Replica
07. Brave For You
08. On Hold
09. I Dare You
10. Test Me


autor stipe07 às 15:37
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017

Temples – Strange Or Be Forgotten

Temples - Strange Or Be Forgotten

Naturais de Kettering, no Reino Unido, os Temples são uma banda de rock psicadélico formada por James Edward Bagshaw (vocalista e guitarrista), Thomas Edison Warsmley (baixista), Sam Toms (baterista) e Adam Smith (teclista e guitarrista) e que se estreou nos discos em 2014 com o excelente Sun Structures, um trabalho que viu a luz do dia através da Fat Possum. Agora, três anos depois e abrigados pela mesma etiqueta, os Temples irão dar a conhecer ao mundo o seu sempre difícil segundo disco, um álbum intitulado Volcano e que chegará aos escaparates no início de março.

Strange Or Be Forgotten é o primeiro single conhecido de Volcano, pouco mais de quatro minutos de pura lisergia sonora, que numa espécie de cruzamento entre Tame Impala e MGMT, nos oferecem um desfile de electricidade e de fuzz, rematado pela belíssima voz etérea de James e uma secção rítmica assertiva, sendo a bateria uma das importantes mais valias deste tema. A canção tem tudo para se tornar num verdadeiro clássico que incorpora o melhor do rock psicadélico dos anos sessenta. Confere...


autor stipe07 às 12:16
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Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2016

American Wrestlers - Goodbye Terrible Youth

American Wrestlers é um projeto liderado por Gary McClure, um escocês que vive atualmente nos Estados Unidos, em St. Louis, no estado do Missouri. A ele juntam-se, atualmente, Ian Reitz (baixo), Josh Van Hoorebeke (bateria) e Bridgette Imperial (teclados). Tendo Gary crescido em Glasgow, no país natal, mudou-se há alguns anos para Manchester, na vizinha Inglaterra, onde conheceu a sua futura esposa, com quem se mudou, entretanto, para o outro lado do Atlântico.

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Depois de em Manchester ter feito parte dos míticos Working For A Nuclear Free City, juntamente com o produtor Philip Kay, um projeto que chegou a entrar em digressão nos Estados Unidos e a chamar a atenção da crítica e a ser alvo de algumas nomeações, a verdade é que nunca conseguiu fugir do universo mais underground acabando por implodir.

Já no lado de lá do atlântico, Gary começou a compôr e a gravar numa mesa Tascam de oito pistas e assim nasceram os American Wrestlers. O projeto deu um grande passo em frente, ao assinar pela insuspeita Fat Possum e daí até ao disco de estreia, um homónimo editado na primavera do ano passado, foi um pequeno passo. American Wrestlers impressionou pelo ambiente sonoro com um teor lo fi algo futurista, devido à distorção e à orgânica do ruído em que assentavam grande parte das canções, onde não faltavam alguns arranjos claramente jazzísticos e uma voz num registo em falsete, com um certo reverb que acentuava o charme rugoso da mesma.

Se essa estreia, já na prateleira lá de casa, nos oferecia uma viagem que nos remetia para a gloriosa época do rock independente, sem rodeios, medos ou concessões, proporcionada por um autor com um espírito aberto e criativo, o sucessor, um trabalho intitulado Goodbye Terrible Youth e que viu a luz do dia em meados de novembro, cimenta essa filosofia vencedora. Mas no modo como, logo em Vote Tatcher, o sintetizador se relaciona com o fuzz da guitarra, esclarece-nos que à segunda rodada Gary libertou-se de uma certa timidez introspetiva, para se apresentar mais luminoso e expressivo. Aliás, isso também percebe-se em Give Up, a primeira amostra divulgada, canção que impressiona pela melodia frenética em que assenta e que oscila entre o épico e o hipnótico, o lo-fi e o hi-fi, com a repetitiva linha de guitarra a oferecer um realce ainda maior ao refrão e as oscilações no volume a transformarem a canção num hino pop, que funciona como um verdadeiro psicoativo sentimental com uma caricatura claramente definida e que agrega, de certo modo, todas as referências internas presentes na sonoridade de American Wrestlers, mas com superior abrangência e cor.

Na verdade, o quarto onde McClure compôs o registo de estreia transformou-se num grande palco, sem colocar em causa aquele clima algo misterioso que define este projeto American Wrestlers, mas oferecendo ao ouvinte uma maior multiplicidade de detalhes e caraterísticas dos vários espetros sonoros que definem o indie rock alternativo. O grunge que exala de So Long, o crescente frenesim psicadélico que nos envolve em Hello, Dear, o fuzz inebriante do baixo de Someone Far Away e o modo como o riff da guitarra ácido e extremamente melódico rebarba de alto a baixo a secção rítmica de Terrible Youth, permitem-nos contemplar todo este charme rugoso que os American Wrestlers replicam hoje melhor que ninguém e dão-nos o mote para um álbum curioso e desafiante, que impressiona pela forma livre e espontânea como os vários instrumentos, mas em especial as guitarras, se expressam, guiadas pela nostalgia e pelas emoções que Gary pretende transmitir. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 23:15
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Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2016

Tim Burgess And Peter Gordon – Same Language, Different Worlds

Foi já a dois de setembro e à boleia da O Genesis que chegou aos escaparates Same Language, Different Worlds, um tomo de nove canções que resulta de uma colaboração profícua entre Tim Burgess, vocalista dos The Charlatans e o mítico Peter Gordon, que já na casa dos sessenta anos, continua a ser um mestre do rock experimental, tendo feito parte dos créditos de discos dos The Love of Life Orchestra, Laurie Anderson e The Flying Lizards, entre outros. Os dois músicos conheceram-se em Nova Iorque, no já longínquo ano de 2012 e desde então começaram a incubar e a gravar estas canções que contam com a participação especial de Ernie Books (participou com Arthur Russel no primeiro álbum dos Modern Lovers), Peter Zummo (trombone), Mustafa Ahmed (congas) e Nik Voyd (DFA) e são inspiradas no trabalho que em tempos Gordon desenvolveu com os já referidos The Love Of Life Orchestra, um dos nomes mais relevantes do catálogo da DFA de Peter Murphy.

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Quem estiver à espera de encontrar nestas novas canções a típica sonoridade dos The Charlatans, banda que na década de noventa misturou o rock clássico com sonoridades mais experimentais, encabeçando um verdadeiro motim sonoro, para regozijo da agitada juventude britânica, sempre sedenta de novas experiências e daquela efervescência que o clima local não proporciona e que acaba por ser a música, muitas vezes, a ter esse papel agitador e impulsivo, desengane-se, porque o que temos neste Same Language, Different Worlds é uma exploração de paisagens sonoras que, obedecendo também a um conceito estilístico eminentemente experimental, procuram recriar um ambiente futurista algo glam, mas sem deixar de acomodar-nos temporalmente nas mais recentes tendências. O single Begin não terá sido escolhido de modo inocente para abrir o alinhamento, já que a forte sintetização do teclado, entrelaçada com o timbre soturno da voz de Burgess e o estrilho agudo de uma guitarra planante, plasmam essa convivência entre aqueles que são hoje alguns dos traços mais vincados da pop eletrónica e os novos horizontes que se vão colocando ao próprio rock

No restante alinhamento do disco, não pode passar em claro a soul negra de Say, o luminoso e aquático single Ocean Terminus, o groove pop que sobrevive da fusão entre saxofone e batidas em Around e Being Unguarded, com esse mesmo saxofone a transmitir uma alma incrível à irónica Tracks Of My Past e o tributo ao rock dos anos quarenta deste século feito em com Temperature High, tema onde a vasta miríade de arranjos orgânicos impressiona, assim como alguns instrumentos de percussão algo inéditos,com destaque para o bongo. Quer estas quer as restantes canções são uma resoluta declaração de sobrevivência misturada com a reflexão que esta dupla certamente faz sobre o seu som e o modo como o viveram nos mais variados projetos em que se envolveram e em como ele pode sobreviver imaculado à passagem do tempo e deixar marcas impressivas para o futuro próximo. Same Language, Different Worlds é, em suma, um excelente trabalho de rock mutante, que dá vida a letras impressivas e inspiradas, num disco atemporal e revivalista, porque é de hoje, mas pode vir a ser novamente editado lá para 2040. Espero que aprecies a sugestão...

Tim Burgess And Peter Gordon - Same Language, Different Worlds

01. Begin
02. Say
03. Around
04. Being Unguarded
05. Ocean Terminus
06. Temperature High
07. Like I Already Do
08. Tracks Of My Past
09. Oh Men


autor stipe07 às 18:23
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Sábado, 26 de Novembro de 2016

TOY – Clear Shot

Uma das bandas fundamentais de indie rock psicadélico são os londrinos TOY de Tom Dougall (voz e guitarras), Dominic O'Dair (guitarras), Maxim Barron (baixo e voz), Max Oscarnold (sintetizadores e modulação) e Charlie Salvidge (bateria e voz). Depois de um espetacular disco homónimo de estreia e de um sucessor intitulado Join The Dots, os TOY estão de regresso aos discos com Clear Shot, dez canções que chegaram aos escaparates a vinte e oito de outubro por intermédio da Heavenly Recordings e produzidas por David Wrench.

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Claramente o disco mais arriscado e eclético da carreira dos já consagrados TOY, Clear Shot é um grandioso passo em frente na carreira de uma das bandas mais menosprezadas do cenário psicadélico atual e que são tantas vezes injustamente considerados como uma cópia dos The Horrors quando, na verdade, apesar da amizade que une os dois coletivos, têm tão pouco em comum, pelo menos no aspeto sonoro. Aqui, ao longo de dez canções assiste-se a uma bem sucedida simbiose entre alguns elementos fundamentais da pop mais harmoniosa com o fuzz lisérgico que costuma caraterizar o ambiente sónica deste quinteto que, logo no tema homónimo, cerra os punhos e embrenha-nos numa viagem inebriante por décadas passadas, principalmente o krautrock dos anos setenta.

Mas, como o tal ecletismo acima referido é a pedra basilar de Clear Shot, depois de aberto o alinhamento, começa o desfile eloquente de um leque alargado de sonoridades que incluem também o punk, o psicadelismo e o post rock. Canções do calibre de Fast Silver, uma inebriante viagem psicadélica, onde merece particular realce a voz de Tom Dougall que denota aquela encantadora fragilidade que emociona qualquer mortal, ainda mais quando é acompanhada por um instrumental épico e marcante, ou as variações rítmicas e de tempo que encarreiram a majestosidade de Another Dimension, assim como o dramatismo sensual e bastante revelador de Cinema e o cenário tenebroso fortemente hipnótico dos acordes progressivos de Jungle Games, uma canção capaz de revirar e repôr no sítio mentes inquietas por não terem um rumo, são alguns dos momentos maiores de um trabalho com a dupla capacidade de plasmar, como sempre, algo único e distinto e que, por isso, consegue agradar aos fiéis seguidores e, eventualmente, alargar o leque de ouvidos que procuram aprimorar-se e deliciar-se junto deste estilo musical tão peculiar.

Disco que não nos deixa aterrar de imediato e, pelo contrário, eleva-nos ainda mais alto e ao encontro do típico universo flutuante e inebriante em que assenta a psicadelia, Clear Shot levanta o queixo e empina o nariz, mas também denota aquela encantadora fragilidade que emociona qualquer mortal, demonstrando que os TOY tricotam as agulhas certas num rumo discográfico enleante, que tem trilhado percursos sonoros interessantes, mas sempre pintados por uma psicadelia que escorre, principalmente, nas guitarras, cimentando o cliché que diz que gostar de TOY continua a ser, cada vez mais, uma simples questão de bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

TOY - Clear Shot

01. Clear Shot
02. Another Dimension
03. Fast Silver
04. I’m Still Believing
05. Clouds That Cover The Sun
06. Jungle Games
07. Dream Orchestrator
08. We Will Disperse
09. Spirits Don’t Lie
10. Cinema


autor stipe07 às 15:44
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Domingo, 13 de Novembro de 2016

The XX – On Hold

The XX - On Hold

Terminou há poucos dias uma longa espera relativamente a novidades dos The XX, após o aclamado Coexist, um longa duração lançado pelo grupo, à boleia da Young Turks, já há quatro anos e que tem finalmente sucessor. O terceiro álbum do trio será editado a treze de Janeiro de 2017 com o mesmo selo Young Turks e chamar-se-á I See You. O disco terá um alinhamento de dez canções, gravadas entre Março de 2014 e Agosto de 2016 em vários sítios como New York, Texas, Reykjavique, Los Angeles e Londres e foi produzido pot Jamie Smith e Rodaidh McDonald.

On Hold é o mais recente tema divulgado desse novo disco de Romy Madley Croft, Oliver Sim e Jamie Smith (a baixista Baria Qureshi deixou o grupo ainda em 2009) uma lindíssima composição, certamente das melhores que este projeto já criou e que faz jus à imagem de marca dos The XX. É uma canção de amor que tem como atributo maior o diálogo entre Romy e Oliver, dois corações que flutuam no espaço e quando as mãos de ambos se soltam, sem que percebam, e verificam que estão longe demais e já é tarde demais, percebem que só remando para o mesmo lado é que poderão sobreviver a todos os precalços que o amor coloca sempre. Confere...


autor stipe07 às 19:24
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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016

Two Door Cinema Club – Gameshow

Os irlandeses Two Door Cinema Club, de Alex Trimble, Kevin Baird e Sam Halliday, estão de regresso aos discos com Gameshow, dez canções que quebram um hiato de quatro anos do projeto, fazendo-o à boleia da Parlophone Records. Este é o terceiro disco da banda, sucedendo ao muito aclamado Beacon (2012) e a Tourist History (2010), o disco de estreia.

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Produzido por Jacknife Lee, um profissional procurado por nomes tão conceituados como R.E.M., Snow Patrol e U2 e exímio em recriar sonoridades amplas, mas que não coloquem em causa a rugosidade típica do rock, no sentido mais puro do termo, Gameshow é um glossário de diversas estéticas sonoras onde, mais uma vez e como tem sido norma em projetos contemporâneos que procuram assumir uma posição relevante no universo sonoro em que subsistem, se procura uma simbiose entre algumas das mais recentes tendências da eletrónica, constantemente a piscar o olho aos gloriosos anos oitenta e o rock de cariz mais progressivo, que começou a surgir em força, principalmente do outro lado do atlântico, a partir da segunda metade do século passado. Em canções como o single Are We Ready? (Wreck), o primeiro avanço divulgado de Gameshow e nos sintetizadores de Ordinary, é possível perceber esta fórmula simbiótica, com o primeiro tema a mostrar-nos que está de regresso aquele fluxo planante das guitarras, típico de um trio onde tudo flui para impressionar e levar os ouvintes a entregarem-se aos encantos e à dança involuntária que conseguem imprimir ao ideário sonoro das suas canções e com o segundo a mostrar como o baixo é um elemento preponderante de produção melódica no seio destes Two Door Cinema Club. Depois, há aqui canções que oscilam, declaradamente, para um dos dois lados da barricada; Assim, se o tema homónimo é um tratado de indie rock assumidamente cru e minimal e o jogo de cordas de Fever segue na mesma linha, já Je Vivens De La, deixa os estádios de lado e procura entricheirar-se com altivez nos PAs dos clubes mais inn do momento.

Gameshow não é o disco que vai salvar as nossas vidas ou modificá-las drasticamente, mas vai-te fazer dançar de forma bem humorada e continuar a fazer sobressair estes Two Door Cinema Club em relação à concorrência. Espero que aprecies a sugestão...

Two Door Cinema Club - Gameshow

01. Are We Ready? (Wreck)
02. Bad Decisions
03. Ordinary
04. Gameshow
05. Lavender
06. Fever
07. Invincible
08. Good Morning
09. Surgery
10. Je Viens De La


autor stipe07 às 20:52
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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2016

Fujiya And Miyagi – EP1 & EP2

Com já uma década e meia de atividade e assumindo-se, cinco discos depois, como um dos projetos mais relevantes do cenário indie britânico, pelo modo exímio como misturam alguns dos melhores aspetos do rock alternativo com a eletrónica de cariz mais progressivo, os Fujiya And Miyagi resolveram deixar um pouco de lado o habitual formato álbum para se dedicarem à edição de três EPs, espaçados quase por um ano, com o conteúdo dos dois primeiros já conhecido e a merecerem, desde já, cuidada análise.

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Assim, se EP1 viu a luz do dia em finais de maio último e o EP2 ontem mesmo, já o EP3 chegará aos escaparates no início de 2017. E pelo conteúdo dos dois primeiros alinhamentos, fica claro que este quarteto está cada vez mais apostado numa relação estreita entre o krautrock inaugurado nos anos setenta e as tendências atuais da pop movida a sintetizadores, sem nunca descurar a presença do baixo e da guitarra no processo de criação. É uma estética sonora abraçada logo em 2003, quando Steve Lewis e David Best, os membros iniciais do projeto que integrava o conceito de Fujiya (uma marca de equipamentos de som) e Miyagi (o mentor de Daniel-San em Karate Kid), se estrearam e que contém cada vez maior bitola qualitativa, assente num espaço de delicioso diálogo com heranças e referências de outros tempos, algo que Outstripping (The Speed Of Light), o single de abertura de EP2, plasma claramente ao remeter-nos para a sintetização da década de oitenta, no período aúreo de uns Pet Shop Boys ou dos New Order e Swoon eleva, através da simbiose entre as batidas, a voz sussurrada de Best e o groove de um teclado.

Olhando para o restante conteúdo dos dois Eps e continuando a fazê-lo num todo, sem os separar, importa referir ainda que se Serotonin Rushes nos remete para a eletrónica alemã, com o baixo e as guitarras a não esbaterem uma declarada essência vintage, mas a acabarem por encontrar eco em muitas propostas indie atuais que também se movem, com mestria, na mesma miríade de influências, também há que destacar a elegância do groove e do ritmo dos teclados que balançam entre a pista de dança e paisagens cotemplativas em Extended Dance Mix. Este tema é um excelente mote para percebermos o atual estado criativo do grupo e o porquê de serem já uma referência devido ao jogo que estabelecem entre o baixo e as guitarras no meio das batidas, com o charme de Freudian Slips, uma canção que cresce apoiada em batidas sincopadas e que clama por um momento de êxtase que nunca chega, a desfazer ainda mais todas as dúvidas em relação a essa constatação.

Estamos perante uma súmula interessante e bem idealizada de todo o conteúdo que sustentou a eletrónica nos últimos trinta anos, atráves de canções pop bem estruturadas, devidamente adocicadas com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, tudo envolto com a habitual pulsão rítmica que carateriza a personalidade deste quarteto, que criou mais um conjunto de alinhamentos consistente, carregados de referências assertivas e que constituem um novo marco no percurso deste projeto essencial do panorama da eletrónica do séxculo XXI. Espero que aprecies a sugestão...

Fujiya And Miyagi - EP1

01. Serotonin Rushes
02. To The Last Beat Of My Heart
03. Freudian Slips
04. Magnesium Flares

Fujiya And Miyagi - EP2

01. Outstripping (The Speed Of Light)
02. R.S.I.
03. Swoon
04. Extended Dance Mix


autor stipe07 às 17:44
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