Quarta-feira, 22 de Junho de 2016

The Invisible – Patience

A dez de Junho último e à boleia da Ninja Tune chegou aos escaparates Patience, o terceiro registo de estúdio do trio londrino The Invisible de Dave Okumu, nove canções sustentadas numa eletrónica apurada, construídas em redor de sintetizadores inspiradas na luxuosa pop dos anos oitenta, como se percebe logo no clima melancólico e simultaneamente sedutor de So Well, tema que conta com a participação especial da cantora Jessie Ware e onde quer ela quer Okumu dialogam, teatralizando uma complexa e inebriante relação amorosa.

Os anos oitenta foram marcantes para a história da música contemporânea e serão sempre alvo de inspiração e revisão, principalmente por ter sido o período em que os sintetizadores foram definitivamente chamados para a linha da frente no processo de composição melódica, por parte de bandas e projetos que afirmaram a pop às massas e colocaram o rock num espetro mais alternativo. Essa pop polida dos anos oitenta, feita com sintetizadores carregados de efeitos e com um ar sempre solene, acaba por definir a essência e o dramatismo deste projeto, que nos propôe uma coleção de canções assentes em teclados com a esperada pompa e circunstância aveludada que enfeita as melodias que debitam.

Impecavelmente produzido, Patience arremessa para os nossos ouvidos toda uma herança luxuosa, com vários destaques, ao nivel instrumental, que importa realçar; Além da beleza do tema de abertura já descrito, não posso deixar de destacar o groove efusiante de Save You, canção que contém um forte apelo às pistas de dança e, na sequência, Best Of Me, tema como alguns elementos percurssivos curiosos, entrelaçados com um rugoso teclado, com a voz de Okumu, num registo grave, a mostrar todos os seus atributos e abrangência e um lado humano peculiar, que se mostra como um trunfo maior neste alinhamento. Esta é uma voz impregnada com sensações imponentes e redentoras, como se percebe em Memories, um dos melhores instantes de Patience, canção onde o efeito vocal em eco cristaliza e amplia um fabuloso baixo, que passeia uma dose incontida de egocentrismo, de braço dado com teclados épicos.

Vocalmente, a cereja no topo do bolo de Patience acaba por ser o lote de participações especiais, escolhidas com acerto e de modo a potenciar o ideário sonoro e estilístico pretendido para o álbum. Além de Jessie Ware no tema já referido, em Different, Rosie Lowe é uma peça essencial para dar vida e cor a um refrão marcante, numa canção que é uma ode declarada ao melhor R&B contemporâneo, conduzido por guitarras plenas de groove, cordas dinâmicas e uma percussão bastante festiva, onde não faltam efeitos metálicos e de palmas. Este tema é um monumento de sensualidade, pensado para dançar num ambiente quente e charmoso e, logo depois, em Love Me Again, esse efeito amplia-se numa canção onde é novamente o R&B a ditar as regras e que conta com Anna Calvi. Mais uma vez, a presença dessa voz feminina, neste caso bastante intensa e até algo ternurenta, acaba por ser um extraordinário complemento ao propósito acolhedor e intencional de um alinhamento que quer brincar com a subtileza e o mistério que envolve as relações, daquela maneira alegre, mas também profunda e exótica  que se espera delas, sempre com um bom gosto e uma intensidade sentimental únicas. Espero que aprecies a sugestão...

The Invisible - Patience

01. So Well
02. Save You
03. Best Of Me
04. Life’s Dancers
05. Different (Feat. Rosie Lowe)
06. Love Me Again (Feat. Anna Calvi)
07. Memories
08. Believe In Yourself
09. K Town Sunset (Feat. Connan Mockasin)


autor stipe07 às 22:05
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Domingo, 12 de Junho de 2016

Anohni - Hopelessness

Anunciado com pompa e circunstância há alguns meses, nomeadamente através da divulgação do avanço 4 Degrees, ganhou finalmente vida o projeto Anohni liderado pelo cantor Antony Hegarty, que assina uma já notável carreira a solo sob a capa de Antony and the Johnsons. Hopelessness é o registo de estreia deste projeto, onze canções onde uma acentuada melancolia sustenta um verdadeiro exercício de catarse, uma espécie de análise psicanalítica, sustentada musicalmente por um autor e compositor que não se escusa a mostrar o seu lado mais íntimo e pessoal sempre que oferece ao público mais uma surpreendente coleção de composições sonoras.

A música eletrónica no seu estado mais puro e obedecendo às tendências mias atuais, que não se coibem de esclar alguns detalhes orgânicos e crus, é o principal suporte de Hopelessness, um disco exemplarmente produzido por Oneohtrix Point Never e Hudson Mohawke e que tem em canções como Drone Bomb MeDon't Love You ou Why Did You Seperate Me From the Earth os seus melhores instantes, canções que plasmam a profunda cumplicidade emocional entre a escrita do músico e o modo como o mesmo nos desafia, já que não é de imediata absorção toda a emotividade que ele consegue transbordar, na sua narrativa, quer lírica, quer sonora.

Ao contrário do que é usal sob a capa de Antony, não é só a voz e o piano que, em Hopelessness e no projeto Anohni, merecem plano de destaque. Imagine-se que o próprio ruído é aqui utilizado para potenciar os lamentos e as angústias do autor, que grita e afirma, quer o seu lado mais clássico, quer a sua definitiva obsessão por uma superior e ímpar grandiosidade instrumental, onde não faltam saxofones, trompetes e violinos, além de uma percussão imponente, que dão a este excelente álbum uma toada sentimental indisfarçável. É uma espécie de eletropop épico e barroco e mais uma maravilhosa viagem pelos cantos mais obscuros da mente deste notável autor. Espero que aprecies a sugestão...

ANOHNI - Hopelessness

01. Drone Bomb Me
02. 4 Degrees
03. Watch Me
04. Execution
05. I Don’t Love You Anymore
06. Obama
07. Violent Men
08. Why Did You Separate Me From The Earth?
09. Crisis
10. Hopelessness
11. Marrow


autor stipe07 às 22:00
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Segunda-feira, 6 de Junho de 2016

Beck - Wow

Beck - Wow

Depois de mais de meia de solidão, o músico que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold e Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos habituou a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras, regressou em 2014 com dois discos, um deles chamado Morning Phase, o décimo segundo da sua carreira e que viu a luz do dia por intermédio da Capitol Records. Falo, obviamente, de Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, um cantor e compositor que tantas vezes já mudou de vida como de casaco e que agora, com a divulgação de um novo single intitulado Wow, se prepara, com um novo fôlego na sua carreira, para mais um recomeço, depois de no verão passado ter igualmente surpreendido com outro single intitulado Dreams.

Entre o hip-hop e o R&B, Wow deverá fazer parte do alinhamento do próximo disco de Beck e, de acordo com o músico, o sucessor de Morning Phase será um trabalho completamente diferente e misturará garage rock com dance music. Assim, além de ter sido uma enorme surpresa, esta canção merece destaque porque nela Beck colaborou com vários ilustradores, designers gráficos e artistas, nomeadamente o português Bráulio Amado. Este designer gráfico vive em Brooklyn, Nova Iorque e foi, juntamente com o realizador Jimmy Turrell, co-responsável pela direcção de arte do tema. Confere...


autor stipe07 às 23:59
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2016

Porches – Pool

Foi em fevereiro que regressou aos lançamentos discográficos um dos projetos mais interessantes da pop alternativa nova iorquino da última meia década. Refiro-me aos Porches de Aaron Maine, grupo já com seis discos em carteira, sendo o último Pool, doze canções efusiantes e impregnadas com um entusiasmo ímpar, que da pop mais clássica ao jazz, passando pelo R&B, a eletrónica e o rock mais rugoso, abarca um alargado leque de influências e detalhes, que merecem atenção e audição dedicadas.

O sintetizador abafado de Underwater faz-nos submergir, de imediato, para um mundo em que, como o título do álbum sugere, festa e água se confundem, numa teia que nos enrola e nos pode deixar completamente inertos e submissos. Aliás, o charme inebriante da batida de Braid e, mais adiante, das teclas do introspetivo R&B que alimenta o tema homónimo, dão-nos as mãos e conduzem-nos para um canto onde somos completamente seduzidos e dominados por um mundo onde estamos rodeados de biquinos curvilíneos e troncos delineados, um cenáro idílico para quem tem aquilo a que usualmente e duvidosamente chamam bom gosto e glamour.

Pool prossegue, quase sem darmos por isso e a cândura retro de Glow e a exuberância e majestosidade de Be Apart, conferida pelo modo como a guitarra e os sintetizadores se cruzam nesse tema, não permitem que vacilemos na demanda por um cruzar de olhares que será certamente fatal, mesmo que, logo depois e em oposição, o trompete descarado, a bateria empolgante e o piano com uma tonalidade mais nostálgica, reflexiva e introvertida de Shaver, nos faça acordar um pouco enquanto nos oferece esta eficaz oscilação e simbiose entre os dois mundos sonoros onde estes Porches se movem, com elevada  mestria, criatividade, heterogeneidade e confiança.

Não é possível deixar para trás Pool sem referir e enfatizar o modo como a voz de Maine dá relevo a tons mais agudos e a emoção que transborda, intensae efusiva em Shape, por exemplo, em pouco mais de trinta minutos que plasmam uns Porches a procurar um cada vez maior ecletismo e a tentar estabelecer um óbvio progresso relativamente à receita instrumental de outrora. Mais do que carisma e a explosão de sons, cores e versos marcantes, impressiona neste alinhamento o modo como os Porches exploram territórios menos imediatos e emotivamente mais intrincados e abrangentes e estes nova iorquinos parecem perceber que as grandes bandas atingem elevados patamares quando se reinventam-se permanentemente e exploram diferentes campos musicais. Espero que aprecies a sugestão...

Porches. - Pool

01. Underwater
02. Braid
03. Be Apart
04. Mood
05. Hour
06. Even The Shadow
07. Pool
08. Glow
09. Car
10. Shaver
11. Shape
12. Security


autor stipe07 às 21:31
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Sábado, 28 de Maio de 2016

Metronomy – Old Skool

Metronomy - Old Skool

Dois anos depois de Love Letters, os britânicos Metronomy de Joe Mount estão prestes a regressar aos discos com Summer 08, um álbum que irá ver a luz do dia já a um de julho e que será, certamente, um dos acontecimentos musicais do próximo verão.

Como o nome do tema indica, Old Skool, um dos avanços já divulgados de Summer 08, impressiona pelo clima retro proporcionado pelo funk da batida, um baixo bastante vigoroso e vários arranjos metálicos, aspectos que conferem à canção uma curiosa mescla entre indie rock, eletrónica e hip-hop, numa espécie de fusão entre Daft Punk e Beastie Boys, impressão ampliada por um sintetizador que obedece a uma lógica sonora próxima do chamado discosound, particularmente efusiva e que tem feito escola desde a alvorada dos oitentas, mas com um elevado toque de modernidade, num ambiente algo psicadélico e que apela claramente às pistas de dança. Confere...


autor stipe07 às 14:45
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2016

Mira, Un Lobo! - Heart Beats Slow

Esplendor, exuberância e sentimento, são adjetivos que me assaltaram com insistência o pensamento durante as várias audições de Heart Beats Slow, o refúgio sonoro lançado recentemente pela Tapete Records e criado pelo lisboeta Luís F. de Sousa, que assina a sua música como Mira, Un Lobo!. É um disco com dez canções que apostam as fichas todas na voz eclética do autor, conjugada com arranjos bastante melódicos, refrões simples e versos contundentes, uma estrutura inicial depois suportada por uma invulgar criatividade no manuseamento dos sintetizadores e que está explícita, por exemplo, na intensidade do trip hop de Newborn Killers, mas também por algumas cordas, elétricas e acústicas. É um compêndio sonoro de forte cariz fortemente ambiental, uma verdadeira espiral pop onde não falta também um marcante estilo percurssivo.

Sustentado por uma propensão certamente inata para a feliz sobreposição de várias camadas de sopros sintetizados, mas também inspirado no modo como é capaz de utilizar o simples dedilhar de uma viola para instigar Sliced Guitar, uma das melhores canções deste disco, em Heart Beats Slow Mira, Un Lobo! filtra tudo de modo bastante orgânico, amplo e rugoso, numa linha vincadamente experimental. São canções que se sustentam numa receita particularmente minimal, mas profunda e crua, que cria um universo fortemente cinematográfico e imersivo. A verdade é que parece haver momentos em que o autor toca submergido num mundo subterrâneo, de onde debita sons através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco das melodias e dão asas às emoções que exala desde as profundezas desse refúgio bucólico e denso onde certamente se embrenhou. A tecla do piano que introduz Like Punching Glass é, por si só, um marco impressivo desta fórmula, mas Tramadol ou Serotonin também demonstram-no, dois temas que parecem ter vida própria, com os seus efeitos a parecer que foram esculpidos e debitados pela própria natureza. E logo depois, assistir ao modo como progride o edifício instrumental que anima Suffocation, obriga a um exercício exigente de percepção, mas que além de ser fortemente revelador é claramente recompensador.

A mesma receita, mas de modo ainda mais grandioso e hipnótico, repete-se em We're Not Far, canção que impressiona pela cândura inicial dos efeitos que manipulam a voz, que funciona e sussurra também como membro pleno do arsenal instrumental, mas que depois se desenvolve e simultaneamente nos envolve, numa espiral de sentimento e grandiosidade, patente também no no frenesim do sintetizador e numa bateria inebriante, não havendo, como se percebe, regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos.

De facto, este Mira, Un Lobo! é mais um bom exemplo de um músico capaz de ser genuíno no modo como manipula o sintético, de modo a dar-lhe vida e a retirar aquela faceta algo rígida que a eletrónica muitas vezes intui, convertendo tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos ou linhas melódicas dispersas em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico. Os constantes flashes metálicos projetados pelas teclas em várias direções criam um cenário idílico, não faltando, inclusive, no tema homónimo, uma deliciosa pitada psicadélica a escorrer por todos os seus poros, potenciando a incontestável beleza e coerência de um álbum que nos catapulta rumo a um universo invulgarmente empolgante e sensorial, que da eletrónica, à pop, passando pelo rock progressivo cria uma relação simbiótica bastante sedutora, um disco entalhado no ventre da terra mãe e de onde brotou para se tornar na banda sonora perfeita de um território tremendamente sensorial, assente numa arrebatadora coleção de trechos sonoros cuja soma resulta numa grande obra linda e inquietante. Espero que aprecies a sugestão...

1. Tramadol
2. Newborn Killers
3. Serotonin
4. Suffocation
5. Sliced Guitar
6. We're Not Far
7. Like Punching Glass
8. Spaceman
9. Heart Beats Slow
10. Introduction


autor stipe07 às 23:05
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Domingo, 22 de Maio de 2016

Glass Animals – Life Itself

Glass Animals - Life Itself

Depois de Zaba (2014), o disco de estreia, os britânicos Glass Animals vão regressar brevemente aos discos com How To Be A Human Being e Life Itself é o primeiro avanço divulgado do álbum. Esta canção é rica em detalhes e contém um groove muito genuíno, com uma atmosfera dançante, onde encaixa indie popfolkhip-hop e electrónica, com noção de equilíbrio e um limbo perfeito, que nos faz descobrir a complexidade do tema à medida que o vamos ouvindo de forma viciante. Confere...


autor stipe07 às 19:22
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Segunda-feira, 9 de Maio de 2016

Radiohead - A Moon Shaped Pool

Depois de vários dias de suspense e que incluiram um apagão total de toda a atividade social da banda nas redes sociais e na internet, terminou finalmente a espera e já é possível ao comum dos mortais deslumbrar-se com A Moon Shaped Pool, o novo álbum da carreira dos Radiohead, verdadeiros Fab Five do novo milénio, não só porque estão criativamente sempre prontos a derrubar barreiras e a surpreender com o inesperado, mas também porque, disco após disco, acabam por estabelecer novos paradigmas e bitolas pelas quais se vão depois reger tantas bandas e projetos contemporâneos que devem o seu valor ao facto de terem este quinteto de Oxford na linha da frente das suas maiores influências.

Disco para já apenas lançado em formato digital, mas que terá direito a formato fisico lá para meados de junho, através da XL Recordings, A Moon Shaped Pool abre-se diante de nós com enorme deslumbre e vibração, à boleia de Burn The Witch, canção com uma dimensão sonora particularmente épica e orquestral, guiada por um cardápio de cordas bastante abrasivo e com o típico ambiente soturno que a banda tão bem recriou há quase uma década em In Rainbows e que liricamente também se situa num terreno muito confortável para Yorke, que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nú algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia.

A sociedade contemporânea e, principalmente, a evolução tecnológica que nem sempre respeita o ritmo biológico de um planeta que tem dificuldade em assimilar e adaptar-se ao modo como apenas uma espécie, possuindo o dom único da inteligência, coloca em causa todo um equilíbrio natural, é, então, um manancial para a escrita de Yorke. E neste A Moon Shaped Pool, a nave espacial que se despenha entre os efeitos inebriantes e a guitarra que se insinua em Decks Dark, a soul arrepiante das cordas que encoraja um homem que quer partir estrada fora guiado por um espírito maior em Desert Island Disk ou o passageiro que sai de um comboio num destino ao acaso hipnotizado pela gentileza das teclas e pelos violinos que se elevam ao alto em Glass Eyes, são apenas três exemplos do modo como metaforicamente, ou indo diretamente ao assunto, este incomparável poeta nos recorda como poderá ser drástico viver em permanentemente desafio com a natureza, sem ter em conta o nosso verdadeiro lugar e posição, no seio da mesma.

Deixando um pouco de lado o ideário lírico destas canções e olhando para a vertente sonora deste disco, uma das maiores curiosidades de A Moon Shaped Pool e, na minha opinião, um dos seus principais trunfos, é não ter o maior despudor em apresentar uns Radiohead conceptualmente situados, nesta fase da carreira, numa espécie de encruzilhada. A eletrónica é uma realidade muito presente no passado mais recente, quer da banda, quer do projeto a solo de Thom Yorke e, neste álbum, se por um lado podemos apreciar aquele bucolismo típico do grupo em Present Tense e no clima inquietante de Daydreaming, canção onde somos forçados a enfrentar o lado mais melancólico, etéreo e introspetivo dos Radiohead, conduzidos por um faustoso instante sonoro, onde sintetizadores e efeitos futuristas se cruzam, numa melodia cheia de humanidade e emoção, já Ful Stop, usando armas muito parecidas, mas acelerando a batida, abusando de alguns efeitos abrasivos e adicionando uma linha de guitarra ligeiramente aguda e uma bateria que parece rodar sobre si própria, acaba por mostrar uma outra faceta desta apenas aparente dúvida existencial em que vivem hoje os Radiohead. O próprio jogo que se estabelece entre a bateria, o baixo e a voz planante de Yorke, sobreposta por camadas e, mais tarde, a junção de um teclado sintetizado retro em Identikit, mais outro tema que aborda a propensão humana para a perca, é nova preciosa acha para a fogueira que ilumina a abrangência estilística do adn sonoro atual dos Radiohead. No fundo, esta espécie de dicotomia entre um lado mais orgânico e outro mais sintético, também expressa, inicialmente com luminosidade, frescura e cor na viola e nos efeitos borbulhantes de The Numbers e depois, ainda nessa música, no espiral quase incontrolada de cordas de violinos, sopros, metais e guitarras que dela se apoderam, acaba por atestar a segurança, o vigor e o modo ponderado e criativamente superior como este grupo britânico entra hoje em estúdio para compôr e criar um arquétipo sonoro que não tem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual.

Disco muito desejado por todos os seguidores e não só e que quebra um longo hiato de praticamente meia década, A Moon Shaped Pool é um lugar mágico para onde podemos canalizar muitos dos nossos maiores dilemas, porque tem um toque de lustro de forte pendor introspetivo, livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor, num disco que, no seu todo, contém uma atmosfera densa e pastosa, mas libertadora e esotérica. Acaba por ser um compêndio de canções que nos obriga a observar como é viver num mundo onde somos a espécie dominante e protagonista, mas também observadora de outros eventos e emoções, um trabalho experimentalista naquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas, como tão bem prova a fabulosa e surpreendente versão de True Love Waits, uma das mais bonitas canções que a banda compôs e que tocou ao vivo pela primeira vez já no longínquo ano de 1995. Espero que aprecies a sugestão...

Radiohead - A Moon Shaped Pool

01. Burn The Witch
02. Daydreaming
03. Decks Dark
04. Desert Island Disk
05. Ful Stop
06. Glass Eyes
07. Identikit
08. The Numbers
09. Present Tense
10. Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief
11. True Love Waits


autor stipe07 às 00:02
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2016

Yeasayer - Amen and Goodbye

Desde o notável Fragrant World, disco editado já no longínquo ano de 2012, que os nova iorquinos Yeasayer se mantinham num silêncio que já começava a preocupar os seguidores deste projeto sonoro verdadeiramente inovador e bastante recomendável. Mas esse compêndio de onze canções, das quais se destacavam composições tão inebriantes como Henrietta ou Longevity, já tem finalmente sucessor, um álbum intitulado Amen and Goodbye, editado a um de abril através da insuspeita Mute e, como logo nos mostrou I Am Chemistry, o primeiro single divulgado das treze composições que constam do seu alinhamento, é um disco que reforça não só o caraterístico romantismo lisérgico do projeto, mas também consolida a veia instável e experimental de uns Yeasayer cada vez mais apostados em colocar as fichas todas numa pop de forte cariz eletrónico, mas bastante recomendável, principalmente no modo como se mistura com alguns dos aspetos mais relevantes do típico indie rock alternativo.

A exuberância e majestosidade não só do single acima referido, mas também do modo como a guitarra e os sintetizadores se cruzam em Silly Me e em Dead Sea Scrolls e, em oposição, o piano de Uma e a tonalidade mais rock e, também por isso, mais nostálgica, reflexiva e introvertida de Cold Night, o meu tema preferido do disco, oferecem-nos esta eficaz oscilação e simbiose entre os dois mundos sonoros onde os Yeasayer se movem, com cada vez maior mestria, criatividade, heterogeneidade, charme e bom gosto.

O registo vocal inédito de Chris Keating é já uma imagem de marca deste grupo nova iorquino e neste Amen and Goodbye oferece-nos alguns dos melhores instantes da sua interpretação nos Yeasayer, não só em I Am Chemistry, mas também no ênfase que dá a tons mais agudos em Gerson's Whistle e na emoção que transborda em Divine Simulacrum.

Neste Amen and Goodbye fica claro que os Yeasayer continuam a procurar um cada vez maior ecletismo e a tentar estabelecer um óbvio distanciamento relativamente à receita instrumental de outrora. Mais do que carisma e a explosão de sons, cores e versos marcantes de Odd Blood (2010), por exemplo, a ideia é explorar territórios menos imediatos e emotivamente mais intrincados e abrangentes, até porque estes nova iorquinos já perceberam que as grandes bandas atingem elevados patamares quando não se abrigam permanentemente em fórmulas bem sucedidas, mas procuram reinventar-se e explorar outros campos musicais. Espero que aprecies a sugestão...

Yeasayer - Amen And Goodbye

01. Daughters Of Cain
02. I Am Chemistry
03. Silly Me
04. Half Asleep
05. Dead Sea Scrolls
06. Prophecy Gun
07. Computer Canticle 1
08. Divine Simulacrum
09. Child Prodigy
10. Gerson’s Whistle
11. Uma
12. Cold Night
13. Amen And Goodbye


autor stipe07 às 21:08
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Sábado, 9 de Abril de 2016

Teleman – Brilliant Sanity

Nascidos das cinzas dos Pete & The Pirates, um quinteto de Reading que editou dois excelentes discos no final da década passada, os britânicos Teleman são o vocalista Tommy Sanders, o seu irmão Johnny (teclados), o baixista Peter Cattermoul e o baterista Hiro Amamiya. Depois de Breakfast, o fantástico disco de estreia desta banda que é já um dos grandes destaques do catálogo da insuspeita Moshi Moshi Records, o quarteto está de regresso com Brilliant Sanity, onze excelentes canções, gravadas em Londres com método e enorme profissionalismo, segundo rezam as crónicas e produzidas por Dan Carey.

Da cândura de Glory Hallelujah à imponência de Canvas Shoe, os Teleman fazem, no segundo disco do seu cardápio, mais uma súmula interessante e bem idealizada de todo o conteúdo que sustentou a eletrónica nos últimos trinta anos, atráves de canções pop bem estruturadas, devidamente adocicadas com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, tudo envolto com uma pulsão rítmica que carateriza a personalidade deste quarteto, que criou neste álbum um novo alinhamento consistente e carregado de referências assertivas.

O baixo de Düsseldorf, o primeiro single divulgado do disco, merece, por si só, a audição deste álbum, com um punhado de outras notáveis canções, que mostram um notável recorte clássico e uma paleta colorida, leve, fresca e animada de paisagens instrumentais e líricas. Delas destaco também a delicadeza de Superglue e o charme único do tema homónimo, além dos arranjos envolventes e sofisticados e da sensibilidade melódica muito aprazível de canções como Fall In Time, ou Tangerine, composições que intercalam uma excelente interpretação vocal de Tommy Sanders com um trabalho instrumental habilidoso da restante banda, repleto de sons modulados e camadas sonoras sintetizadas que conferem à toada geral de Brilliant Sanity um clima espectral.

Ao segundo registo, os Teleman oferecem-nos mais um disco que consegue transmitir, com uma precisão notável, sentimentos que frequentemente são um exclusivo dos cantos mais recônditos da nossa alma, através de uma fresca coleção de canções pop que caem muito bem neste início de primavera que teima em manter-se um pouco na penumbra. Espero que aprecies a sugestão...

Teleman - Brilliant Sanity

01. Düsseldorf
02. Fall In Time
03. Glory Hallelujah
04. Brilliant Sanity
05. Superglue
06. Canvas Shoe
07. Tangerine
08. English Architecture
09. Melrose
10. Drop Out
11. Devil In My Shoe


autor stipe07 às 15:07
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