Domingo, 21 de Dezembro de 2014

Scarlet Chives - This Is Protection

Oriundos de Copenhaga e formados por Maria Mortensen, Brian Batz, Peter Esben, Rasmus Lindahl e Daniel Kolind, os dinamarqueses Scarlet Chives regressaram este ano aos discos com This Is Protection, um trabalho que viu a luz do dia a dez de setembro, através da Riot Factory e que sobrevive graças ao típico indie pop nórdico, assente em melodias alimentadas por texturas eletrónicas sintetizadas com um elevado pendor shoegaze, que dão vida a letras geralmente sombrias e com elevado cariz introspetivo, que conseguem ser para os Scarlet Chives um veículo privilegiado de transmissão da angústia que frequentemente os invade, até porque falam muito da necessidade que todos temos de nos proteger dos outros e, principalmente, dos nossos próprios medos.

As canções dos Scarlet Chives localizam-se, muitas vezes, entre o sono e o estado de consciência, não só por causa do esplendor instrumental, mas, principalmente, por serem adornadas pela belíssima voz de Maria Mortensen, que num registo em tudo semelhante a uma diva chamada Kate Bush, consegue facilmente transmitir-nos praticamente todas as sensações possíveis e improváveis de existir no pensamento do humano. Maria consegue olhar para o interior da nossa alma e incita os nossos desejos mais profundos, como se cavasse e alfinetasse um sentimento em nós, ajudada por melodias que exploram uma miríade alargada de instrumentos e sons e onde a vertente experimental assume uma superior preponderância ao nível da exploração do conteúdo melódico que compôe.

A melancolia é um conceito vital e preponderante para os Scarlet Chives e está claramente plasmada não só nessa voz inconfundível, mas também nas nas notas do piano e do sintetizador, nos efeitos e numa percussão que, sendo muitas vezes vigorosa, não prejudica a perceção clara daquele momento em que se dorme, mas se está também acordado. Mesmo na sequência proposta por Sohn e Others Are The Force, em que o grupo pisca o olho ao rock progressivo e embala para uma espiral ruidosa que parece querer fugir, a qualquer instante, do mais absoluto controle, há um evidente equilíbrio sonoro, que permite as sensações típicas de um sono calmo coabitar com a natural euforia subjacente ao caos, muitas vezes apenas visível numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser.

Canções como a sensual Hunting, a claustrufóbica The Rooms Are Too Small, o inquietante single Timber Will Fall, a sedutora Bigger Than The Tall, e a melancólica Some Days Stay, comprovam que estamos perante um coletivo maduro e assertivo, que parece apostado em sair um pouco do casulo instrospetivo e da timidez que tantas vezes enclausura os projetos provenientes do norte da Europa, já que consegue recriar um ambiente sonoro luminoso, colorido e expansivo, mas que não descura a essência enigmática e sombria que alicerça o seu ADN. Espero que aprecies a sugestão...

Scarlet Chives - This is Protection (2013)

01 Hunting 5:08
02 The Rooms Are Too Small 4:22
03 Timber Will Fall 4:43
04 Bigger Than The Tall 3:38
05 Sohn 6:22
06 Others Are The Force 2:58
07 Show The Rest 4:24
08 Some Days Stay 5:34
09 Lift 4:29
10 Eyes Go Dim 6:27


autor stipe07 às 18:52
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Sábado, 20 de Dezembro de 2014

Stumbleine - Infinite Overcast

Depois de em dezembro de 2013 Stumbleine ter editado o EP Things Don't Sparkle Like they Used To, agora, sensivelmente um ano depois, este músico britânico está de volta com Infinite Overcast, uma coleção de nove novas canções, disponivel no seu bandcamp gratuitamente ou com a possibilidade de doares um valor pela mesma.

Infinite Overcast é mais um compêndio de canções com a habitual sensibilidade rara que este músico cria, verdadeiros achados que merecem a maior divulgação possivel, não só porque a eletrónica em que Stumbleine aposta tem uma vertente mais calma, melódica e clássica do que habitual, ou seja, é algo inédita, possui uma sua bela voz que casa muito bem com as viagens climáticas e etéreas que compôe.

Infinite Overcast são então novas canções, algumas delas apenas instrumentais, que criam ambientes etéreos e lo fi, através de sons misteriosos, samples vocais e batidas sintetizadas. Às vezes sente-se alguma soul, numa toada chillwave e shoegaze que podes obter por um preço simbólico no Bandcamp da banda, assim como a restante discografia de um projeto que acho que vale a pena conhecer e conferir.

Stumbleine - Infinite Overcast

01. Adora Skyline

02. Thawn
03. Skeksis
04. Abacus
05. Exit Sandman
06. The Great Flood
07. Camber (Feat. Steffaloo)
08. Brunette


autor stipe07 às 22:24
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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014

Canopies - Maximize Your Faith

Foi a nove de dezembro, através da Forged Artifacts, que chegou aos escaparates Maximize Your Faith, o primeiro longa duração dos norte americanos Canopies, um coletivo do Milwaukee, no Wisconsin, que se estreou em maio de 2011 com um EP homónimo e que constrói paisagens sonoras verdadeiramente deslumbrantes, sempre com a synth pop e uma elevada dose de psicadelia a orientarem o processo de composição.

Assim que foi divulgado Choose Your Own Adventure, o primeiro avanço para Maximize Your Faith, uma canção que vive de uma linha de guitarra inebriante e à volta da qual borbulham detalhes e efeitos inspirados, percebeu-se, desde logo, que estes Canopies orbitram em redor do indie rock de cariz mais melódico e que aposta no revivalismo de outras épocas. Este é o código genético de uma banda fiel aos princípios que estiveram na génese da sua formação e Maximize Your Faith tresanda essa honestidade desde o início, como se percebe na toada épica e luminosa de Getting Older, ampliada por um sintetizador que conduz a canção e impregnado com uma forte componente vintage.

Como se percebe, logo a seguir, na dança que se estabelece entre a guitarra e os teclados de New Memories, ou, mais adiante, nos efeitos do teclado que borbulham em The Year Of Jubilee, o disco também exala uma apreciável veia experimentalista, com a adição destes detalhes que vão sendo disparados ao longo das canções e fazerem balançá-las entre o indie rock luminoso e épico e aquela toada mais sensível e sombria, que o rock alternativo dos anos oitenta ajudou a disseminar e que as guitarras e a percurssão do baixo e da bateria de The Plunderers And The Pillagers ou de Enter Pure / Exit Pure também replicam, revisitam e resumem.

A voz parece ser um trunfo importante para os Canopies, já que não descola de um elevado e constante grau de emotividade que é colocada na interpretação que, ao longo do disco, evidencia uma elevada elasticidade e a capacidade de reproduzir diferentes registos e dessa forma atingir um significativo plano de destaque.

Recheado de sensações positivas, plasmadas em temas expansivos e, ao mesmo tempo, imbuídas por um forte caráter intimista, Maximize Your Faith são dez canções dominadas pelo rock festivo e solarengo, mas onde a eletrónica tem também uma palavra importante a dizer, já que os sintetizadores conduzem, quase sempre, o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona pelo charme vintage. Os riffs de guitarra harmoniosos e a percurssão vincada de temas como Sparkle And Hum e Miss You Now, além de outros já citados, abrem-nos uma janela imensa de luz e cor e convidam-nos a espreitar para um mundo envolvido por uma psicadelia luminosa, fortemente urbana, mística, mas igualmente descontraída e jovial, que está sempre presente durante os cerca de quarenta minutos que dura o disco. Espero que aprecies a sugestão...

Canopies - Maximize Our Faith

01. Getting Older
02. New Memories
03. The Plunderers And The Pillagers
04. Enter Pure / Exit Pure
05. Miss You Now
06. Choose Yer Own Adventure
07. The Year Of Jubilee
08. Sparkle And Hum
09. All That’s Left Is All We Need
10. Deliverance


autor stipe07 às 14:15
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Sábado, 13 de Dezembro de 2014

OLD - Dude

Oriundas de Malmö, as suecas OLD são uma das novas referências da etiqueta Adrian Recordings, uma editora importante no universo sonoro nórdico e que contém nomes tão importantes como os Yast, VED, Hey Elbow, Andreas Tilliander e The Bear Quartet, entre outros.

Editado no passado dia dez de dezembro, Dude é o novo single das OLD, que contém ainda uma segunda versão da canção da autoria de Vanessa Liftig, uma produtora natural de Gotemburgo que, por exemplo, recentemente trabalhou com os consagrados Wu Tang Clan. Esta canção vem na sequência de vários concertos e de aturado trabalho de estúdio das OLD com o produtor Joakim Lindberg, nos estúdios Studio Möllan em Malmö, o que significa que 2015 trará um novo EP, que tem neste tema Dude o seu primeiro avanço. Recordo que as OLD estrearam-se no início deste ano nos lançamentos com o animado single Knee Hang Gang, ao qual se seguiu um EP com quatro canções intitulado Old Ladies Die Young. Confere...


autor stipe07 às 14:00
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Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2014

Cairobi - Zoraide

Cairobi

Com músicos da Inglaterra, México, Itália e Áustria, mas baseados atualmente em Londres, os Cairobi são Giorgio Poti, Salvador Garza, Stefan Miksch, Alessandro Marrosu e Aurelien Bernard, um coletivo prestes a lançar-se nos lançamentos discográficos com Distante Fire, um EP que vai ver a luz do dia a dezasseis de fevereiro do próximo ano.

Zoraide é a canção que abre o alinhamento de Distante Fire, uma junção sónica e psicadélica de um verdadeiro caldeirão instrumental e melódico, um momento de pura experimentação, assente numa colagem de várias mantas de retalhos que nem sempre se preocupam com a coerência melódica e que, por isso e por ser extremamente dançável, deverá ser objeto do maior deleite e admiração. Esta é, acreditem, uma canção que desperta-nos para um paraíso de glória e esplendor e subjuga momentaneamente qualquer atribulação que nesse instante nos apoquente. Confere...


autor stipe07 às 18:28
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Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2014

Sunbears! – Future Sounds

Oriundos de Jacksonville, na Flórida e formados por Jonathan Berlin, Jared Bowser, Walter Hill e Jordan Allen Davis, os norte americanos Sunbears! estão de regresso aos discos com Future Sounds, um trabalho editado no passado dia onze de novembro através da New Granada Records e o segundo da carreira de um coletivo que aposta no indie rock psicadélico, amplo, luminoso e orquestral.

Future Sounds faz juz ao nome, com o seu conteúdo sonoro embutido numa aúrea psicadélica vintage, luxuriante e orquestral, com um forte sentido melódico e um experimentalismo que se saúda sempre, principalmente quando se tenta gravitar em torno de difrents conceitos sonoros e esferas musicais, como é claramente o caso destes Sunbears!, pelos vistos capazes de compôr um tratado sonoro tão autêntico e intenso como How Do You Go Forward??, uma das canções mais excitantes do disco.

Escrevendo com uma certa dose de surrealismo, como se pede a projetos que se situam neste espetro sonoro (I dreamed a dream that I dreamt you) e colocando o epicentro emocional das letras nas dúvidas existenciais que muitas vezes assolam a nossa existência e que a psicotropia frequentemente é a principal fonte de resposta para as mesmas (How can we explain the trouble we cause?), os Sunbears! tanto abraçam a herança pop mais nostálgica e com um elevado pendor sinfónico (Don't Take Many Things), como navegam nas águas turvas do rock progressivo (I'm Feelin' Low), fazendo-o com semelhante ligeireza e sempre com uma onda expressiva relacionada com o espaço sideral, que não dispensa em alguns momentos alguns travos de krautrock.

Se as guitarras e o reverb da voz em Overspiritualized servem na perfeição para despertar mentes ressacadas, a hipnótica Laughing Girl!, o single retirado de Future Sounds, desperta-nos para um paraíso de glória e esplendor e subjuga momentaneamente qualquer atribulação que nesse instante nos apoquente. E estes são apenas dois exemplos de um alinhamento que plasma nestes Sunbears! a capacidade que têm de atrair, quem se predispõe a tentar entendê-los, para cenários complexos, mas repletos de sensações únicas e que eles conseguem muito bem transmitir.

Servindo-se das cordas acústicas, exemplarmente replicadas em A Sad Case of Hypersomnia e de um vasto arsenal de efeitos quando as mesmas são eletrificadas, de arranjos e detalhes sintetizados quase sempre a apontar baterias na direção do espaço sideral, Future Sounds contém um cardápio instrumental bastante diversificado e prova que os Sunbears! entram no estúdio de mente aberta e dispostos a servir-se de tudo aquilo que é colocado ao seu dispor para criar música. Consegui-lo é ser agraciado pelo dom de se fazer a música que se quer e ser-se ouvido com particular devoção e estes norte americanos conseguem-no com uma quase pueril simplicidade, ao mesmo tempo que mostram capacidade para reinventar, reformular ou simplesmente replicar o que de melhor tem o indie rock psicadélico nos dias de hoje para nos oferecer. Assim, Future Sounds é um trabalho que faz uma espécie de simbiose entre a pop e o experimentalismo, temperado com variadas referências típicas do shoegaze e da psicadelia e carregadas de ácidos, um caldeirão sonoro feito por um coletivo que sabe melhor do que ninguém como recortar, picotar e colar o que de melhor existe no chamado electropsicadelismo. Espero que aprecies a sugestão...

Sunbears! - Future Sounds

01. Future Sounds

02. He’s a Lie! He’s Not Real!
03. I’m Feelin’ Low
04. Don’t Take Too Many Things
05. Overspiritualized
06. How Do You Go Forward??
07. Now You’re Gone
08. I Dreamed a Dream (That I Dreamt You)
09. Laughing Girl!
10. A Sad Case of Hypersomnia
11. Love (Breaks All Sadness)


autor stipe07 às 22:12
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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2014

TV On The Radio - Seeds

Editado no passado dia dezoito de novembro por intermédio da Harvest Records, Seeds é o quinto áçbum de estudio dos norte americanos TV On The Radio, uma banda atualmente formada por Tunde Adebimpe, David Sitek, Kyp Malone e Jaleel Bunton. Produzido por Dave Sitek, um elemento chave da banda, Seeds é o primeiro disco dos Tv On The Radio editado após a morte de Gerard Smith, o baixista do grupo, em 2011 e, tal como o título do disco, contém doze canões que encarnam um desejo claro de renovação, explorando novas referências dentro de um universo sonoro que aposta na fusão de rock, com a pop, a soul e o funk, de uma forma direta, mas também densa e sombria e marcadamente experimental.

Os TV On The Radio carregam já uma aúrea que faz deles referência máxima e foco de atenção, cada vez que dão um sinal de vida, devido a uma carreira de mais de uma década qualitativamente elevada e que fez já deles um dos nomes fundamentais do indie rock do novo século. O desaparecimento de um músico fundamental no processo criativo do núcleo duro do grupo como era Smith, poderia ter sido uma machadada irreparável para o futuro discográfico do grupo, mas a verdade é que os TV On The Radio souberam aguardar o tempo necessário para chorar devidamente a perca e olhar em frente, fazendo aquilo que certamente o companheiro desejaria se o pudesse expressar.

Escuta-se Seeds e logo desde o ritmo frenético de Quartz e as batidas sinteticas que aí se escutam, percebe-se que os TV On The Radio pretendem marcar novamente território no que concerne à criação de experiências sonoras inéditas e que poderão ser futuramente referencial importante para outros projetos. Portanto, há um elevado teor experimental em Seeds, que plasma uma saudável incerteza, ironicamente reconfortante, relativamente ao que poderá reservar o futuro deste grupo nova iorquino, mas é natural a sensação de prazer que qualquer conhecedor profundo da carreira do grupo sente ao escutar este trabalho.

Acaba por ser natural expressarmos aquilo que sentimos acerca de Seeds, exalando uma excitante sensação de alívio, porque se mantém intocável a vontade e a capacidade criativa do quarteto para renovar o ambiente particular dos TV On The Radio, cada vez mais longe do rock alternativo que começou a surgir nos anos setenta, do século XX e a começar de olhar com outra atençao para a década seguinte. O cariz cada vez mais sintético da percussão, que usa batidas eletrónicas e arranjos metálicos é um sinal claro desse avanço, onde Dave Sitek tem a maior quota da responsabilidade, mas os arranjos sombrios de Careful You, os ritmos propulsivos de Ride, a batida de Right Now ou as guitarras e a secção de sopros de Could You demonstram. 

O ambiente sonoro empolgante e ritmado de Lazerray e o som de fundo orquestralmente rico de Dancing Choose e Repetition, o single já retirado de Seeds e cujo cideo conta com as participações de Karen Gillan e Paul 'Pee-Wee Herman' Reubens, são mais duas tentativas bem sucedidas de oferecer algo de inovador. Por outro lado, as guitarras distorcidas de Winter, o excelente refrão de Test Pilot e o ambiente sonoro progressivo de Love Stained, são os temas qie melhor salvaguardam a herança sonora do grupo.

Num álbum homogéneo e impecavelmente produzido, dominado pelo amor mas implacavelmente marcado pela dor da perda, sobressai um forte sinal de esperança e de renascimento, em doze temas que são sementes que vão provavelmente conquistar para os TV On The Radio novos públicos. Espero que aprecies a sugestão...

TV On The Radio - Seeds

01. Quartz
02. Careful You
03. Could You
04. Happy Idiot
05. Test Pilot
06. Love Stained
07. Ride
08. Right Now
09. Winter
10. Lazerray
11. Trouble
12. Seeds


autor stipe07 às 18:20
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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2014

Sondre Lerche – Please

Sondre Lerche é um músico, cantor e compositor norueguês que vive em Brooklyn, Nova Iorque e que também se tem notabilizado pela composição de bandas sonoras, além do seu trabalho a solo. Please é o seu mais recente registo de originais, um trabalho que viu a luz do dia recentemente, por intermédio da Mona Records e que aposta numa pop que entre o nostálgico e o esplendoroso, tem algo de profundamente dramático e atrativo. Ao longo de dez músicas, Please oferece-nos um trabalho diversificado, acessível, com melodias orelhudas e que foi alvo de uma produção aberta e notoriamente inspirada.

When crimes are passionate, can love be separate?, questiona-nos Sondre Lerche no meio da toada ritmada e cheia de groove de Bad Law, ao mesmo tempo que damos por nós a abanar as pernas ao ritmo da música e a tentar perceber porque é que uma pop tão orelhuda e exuberante tem de se apresentar perante nós com um grau de exigência particularmente elevado, no que diz respeito à perceção que devemos ter da mensagem que o tema nos transmite. Depois, as cordas e a percussão de Crickets e o looping contínuo da guitarra em Legends, surpreendem pela toada mais rock, mas que não pode ser acusada de deturpar a essência do disco, já que essa procura de outros caminhos não resvala, como às vezes sucede, para algo qualitativamente menor. Apesar de Bad Law ser o single já extraído de Please, essas duas canções que se seguem não lhe ficam a dever em termos de notoriedade e potencial de airplay.

Quando, em At Times We Live Alone, Sondre abranda instrumentalmente, apesar da secção de sopros e dos metais que aqui se escutam, mantém-se num nível elevado porque aprimora o seu registo vocal, inaugurando um grave à Sinatra, em oposição clara à exuberância do falsete que nos prendeu em Bad Law e que acabava por ser, na minha opinião, mais um detalhe a juntar à homenagem que o artista pretendeu fazer com esse tema ao período aúreo que a pop eletrónica viveu há três décadas.

Após a distorção de uma guitarra tomar conta do já esperado clima nostálgico de Sentimentalist, o ambiente de festa regressa em Lucifer e com ele os sons inteligentes e solidamente construídos, que nos emergem num universo carregado de batidas e ritmos que não deixam de exalar um certo erotismo, que se sentem novamente quando em After The Exorcism a bateria sincopada e com uma batida tribal, muito bem acompanhada por uma linha melodica de guitarra deliciosa, faz dessa canção uma festa pop, psicadélica e sensual.

Este cruzamento assertivo entre o rock e a pop mantém-se até ao final do alinhamento, com o baixo a ter, finalmente, o protagonismo que merece em At A Loss for Words e o sintetizador a tomar conta de Logging Off, outros exemplos que provam que este artista norueguês coloca, com particular mestria, elementos orgânicos lado a lado com pormenores eletrónicos deliciosos.

A música de Sondre Lerche aposta nesta relação simbiótica, feita com batidas e guitarras acomodadas pelo baixo e por um sintetizador aveludado que se esconde atrás dos ritmos, para a criação de canções que procuram ser orelhudas, de assimilação imediata e fazer o ouvinte dançar, quase sem se aperceber, apesar de não descurar as suas pretensões emotivas, porque é tudo conjugado de uma forma simples, mas eficaz.

Please é um compêndio musical fresco e luminoso, com substância e onde cabem todos os sonhos, criado por um músico impulsivo e direto, mas emotivo e cheio de vontade de nos pôr a dançar. Mesmo nos instantes mais melancólicos e introspetivos, não há lugar para a amargura e o sofrimento e o que transborda das canções são mensagens positivas e sedutoras. Sondre Lorche é exímio na forma como se apodera da música pop para pintar nela as suas cores prediletas de forma memorável, com um otimismo algo ingénuo e definitivamente extravagante, onde cabe o luxo, a grandiosidade e uma intemporal sensação de imunidade a tudo o que possa ser sombrio e perturbador. Please impressiona não só pela produção musical, mas principalmente porque sustenta uma áurea de felicidade, mesmo nos momentos mais contidos e prova que este norueguês é um músico inventivo, de rara sensibilidade e que não tem medo de fazer as coisas da forma que acredita. Espero que aprecies a sugestão...

Sondre Lerche - Please

01. Bad Law
02. Crickets
03. Legends
04. At Times We Live Alone
05. Sentimentalist
06. Lucifer
07. After The Exorcism
08. At A Loss For Words
09. Lucky Guy
10. Logging off


autor stipe07 às 19:27
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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

YACHT - Where Does The Disco? EP

Compositores, escultores, filósofos, ativistas e músicos, os YACHT (Young Americans Challenging High Technology) são um projeto concetual sedeado em Los Angeles, mas consideram Marfa, no Texas, a sua casa espiritual. No entanto, o projeto nasceu em 2002, em Portland, sendo nesta espécie de utópico triângulo das Bermudas em pleno Oeste dos Estados Unidos da América que se move um grupo que começou por servir como um veículo para Jona Bechtolt, que escreve sobre ciência, cultura e tecnologia num blogue chamado Universe, divulgar o seu trabalho em diversas áreas, qe vão da pesquisa científica à música, obviamente. Em 2008 Claire L. Evans juntou-se a Jona e já foi juntos que gravaram e publicaram em 2009  o aclamado See The Mystery Lights, na tal localidade texana chamada Marfa, ao qual se seguiu, em 2011, Shangri-la, um disco sobre a utopia, a distopia e tudo o que fica no meio. Entretanto, Bobby Birdman e Jeffrey Brodsky, amigos de Jona e Claire, já se juntaram aos YACHT, compondo a banda nas atuações ao vivo.

Com cinco discos já lançados através de editoras tão proeminentes como a DFA Records, a Marriage Records, ou a States Rights Records, onde se estrearam, os YACHT são já considerados como uma das bandas norte americanas mais criativas, principalmente por causa dos concertos, tendo já tocado em lugares tão díspares como museus, galerias de arte, barcos, casas de banho e até numa zona rural da China e das remisturas inconfundíveis, tendo já desmantelado canções de Snoop Dogg, Kings of Leon, Phoenix, Neon Indian, Stereolab, RATATAT, Classixx e muitos outros.

Um Ep com quatro temas chamado Where Does The Disco? é a mais recente novidades dos YACHT, com a última canção do alinhamento a ser uma remistura da autoria de Jerome LOL do tema homónimo, que fala sobre o amor e os CDs (Compact Disc). Assente numa batida retro sintetizada, com efeitos que disparam em diferentes direções e com um timbre sintético na voz que lhe dá uma toada que tem tanto de sexy como de robótico, Where Does The Disco? parece ser a banda sonora perfeita para uma odisseia espacial, congeminada algures no início da década de oitenta e do período aúreo do disco sound. A viagem interestelar continua em Works Like Magic, que avança agora cerca de duas décadas, até aquele período em que no início deste século, em Nova Iorque, as guitarras e o baixo começaram a dar as mãos aos sintetizadores e à eletrónica e a invadir as pistas de dança do mundo inteiro. O tema fala do fascínio que a tecnologia e a realidade virtual provocam no ser humano e como existe uma ligação estreita entre  sexo e a tecnologia; We argue that sex and technology coexist in our present: we touch, we push buttons, we seek intimacy in screens. When we connect, it works like magic, afirmou recentemente Jona sobre o tema.

Terminal Beach é uma canção diferente das antecessoras. Mantêm-se os flashes de efeitos vários, mas aqui é o indie rock quem mais ordena, feito com guitarras acomodadas em diversas camadas, uma melodia orelhuda, uma bateria bem marcada e uma postura vocal a fazer recordar divas dos anos setenta como Blondie ou Debbie Harry. O resultado final é um verdadeiro e imenso hino indie rock.

Quanto à remistura do tema homónimo do disco da autoria de Jerome Lol, o autor confere um ambiente mais negro e místico ao tema, quando amplia a percussão, dando-lhe uma tonalidade algo grave, acentuada por alguns elementos novos como o som de xilofones e da bateria.

Neste EP os YACHT continuam a dar vida à fusão única que alimentam entre o talento musical que possuem e o mundo tecnológico, propondo mais um punhado de canções que exploram a eletrónica e o indie rock de modo a serem simultaneamente abrangentes, versáteis e acessíveis ao grande público, sempre com as pistas de dança debaixo de olho. Where Does The Disco? está disponivel atualmente apenas no formato digital, através da Downtown Records, mas haverá uma edição especial física, à venda durante a próxima digressão da banda que se irá chamar Where Does This Disco? Tour. Confere...

Where Does This Disco

Works Like Magic

Terminal Beach

Where Does This Disco (Jerome LOL Remix)


autor stipe07 às 22:06
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Domingo, 23 de Novembro de 2014

heklAa - My Name Is John Murdoch

Alsaciano de nascimento, mas inspirado sonoramente por latitudes mais a norte, Sébastien Touraton é um francês apaixonado pela islândia, além de um músico talentoso que adora post rock. Líder do projeto heklAa, o nome de um vulcão islandês, tem um novo álbum intitulado My Name Is John Murdoch, um trabalho inspirado em Dark City, um dos filmes preferidos de Sébastien, mas com referências a outras fitas, nomeadamente o Batman de Tim Burton.

O autor do disco nega que My Name Is John Murdoch seja uma banda sonora alternativa de Dark City mas, na verdade, tendo o filme na mente e escutado estas canções, é possivel fazer um paralelismo entre as duas obras, até porque o alinhamento de nove canções procura recriar o filme, com cada tema a servir como banda sonora de um capítulo da trama, descrita abaixo pelo próprio autor do disco.

heklAa começou a trabalhar no álbum há cerca de dois anos e ideias e sentimentos como a nostalgia, o fim precoce da inocência e a auto-descoberta estão muito presentes nas canções que trespassam esses conceitos para algumas personagens do filme, à medida que a história se desenrola.

Com uma forte componente instrumental e com a voz a servir esencialmente como suporte narrativo, My Name Is John Murdoch tem momentos coloridos e cheios de emoção e, ao mesmo tempo, instantes que se tornam profundamente pensativos, nostálgicos e melancólicos. No entanto, é nos instantes em que o autor pretende recriar uma aúrea mais sombria e dramática que sobressai a sua capacidade de composição e a grandiosidade instrumental que não descura praticamente nenhuma secção ou classe de instrumentos. Das cordas, acústicas e eletrificadas, à percussão, passando pelos instrumentos de sopro, arranjos com metais e efeitos sintetizados que replicam sons de diversas proveniências, Sébastien conseguiu atingir o pleno orquestral e com isso fazer com que My Name Is john Murdoch criasse uma impressionante sensação de beleza e de efeitos contrastantes dentro de nós, além da possibilidade de podermos visualizar a trama.

Claramente apaixonado pela música erudita, heklAa foi corajoso na ideia e no modo como a colocou em prática, apropriando-se de uma forma de experimentação sonora e musical algo inédita, o que atesta a sua enorme capacidade para pintar verdadeiras telas sonoras cheias de vida e cor, utilizando uma fórmula básica que serve de combustível a nuances variadas e harmonias magistrais, onde tudo se orienta de forma controlada, em nove canções avassaladoras e marcantes, claramente à altura do enredo que procuram musicar. Espero que aprecies a sugestão...

The Story.
The movie tells the story of John Murdoch, a music journalist, expert of Miles Davis’ work. After years, he comes back in sirenZ, the big city where he grew up, to cover a set of jazz concerts. As he is walking along the main street, he has the strange feeling that nothing is like it used to be. Did the city change so much? Did he change so much? Did time just go by?

(Episode 1: The Dark City of sirenZ) A whole series of events is going to intensify his conviction that something is wrong: that beautiful woman he meets in the “Hopper’s bar”; he does not know any Selina Kyle, but he could swear that he knows that woman, like a reminiscence from yesteryears, he knows that he had dinner once with her, that they have spent the night after that together, too. (Episode 2: L’Inconnue ) There is also this original recording of Miles Davis’ soundtrack for “Elevator of the Gallows” that he finds in an old music store; as an expert, he knows full well that this milestone in jazz was celebrated in 1958. “Générique”, the perfection of music according to John, this permanent catchy tune in his head could not be just a creation of his own mind. But, the calendar in the store still indicates that John is living in the year 1946… Last but not least, in place of Miles Davis’ music, John discovers a recording made by a Louis Malville who introduces himself as a French movie director. Louis reveals that sirenZ is a shameless lie, a Dark City like many others, where nothing is real. (Générique)

Nothing? What about Shell Beach, this sunny happy place of his childhood, where he used to fly a kite or go sailing and fishing with his father? So many memories of brighter times… (Episode 5: Remembering Shell Beach)
After days of investigating, at last, John finds out the truth, as he is walking by a souvenir shop. Behind the window, a glass snow ball representing sirenZ. He understands, terrified, that this is not just a trinket for tourists, but reality: The city is lying in the depths of the sea, under a giant bell. (Episode 3: The Dome) Shell Beach does exist, but only in his head, nothing more than pretty pictures in a photo album. Why? When? How? John will never get the answer. (Episode 4: Dance with the Shadows)
John’s world has collapsed. (Ep 7: Say hurray! ‘cause it’s the End of the World!). Now that he knows the whole truth, what comes next? Should he tell everything and run the risk of becoming a curse, an incurable decease for everyone in the city? Should he just live a normal, quiet life by the woman he loves? No, he will not be a tragic hero. He knows who he is. (Episode 6: My name is John Murdoch). Selina is waiting for him. (Epilogue).

 


autor stipe07 às 19:07
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