Quarta-feira, 22 de Julho de 2015

Outfit – Slowness

Lançado a dezasseis de junho pela Memphis Industries e composto enquanto a banda se encontrava disseminada por dois paises e três cidades, Slowness é o segundo álbum dos Outfit, um quinteto britânico oriundo de Liverpool e formado por Thomas Gorton, Nicholas Hunt, Christopher Hutchinson, David Berger e Andrew Hunt. Slowness sucede a Performance, o disco de estreia dos Outfit, editado em 2013 e, com um olhar angular mas bastante contemporâneo sobre a pop dos anos oitenta, oferece-nos uns Outfit revigorados e iluminados por um som amplo, adulto e bastante atmosférico, algo que se pode conferir logo no piano e nos efeitos de New Air. Esta é  uma fórmula criativa, onde as teclas têm evidente destaque, mas assente, substancialmente, na primazia das guitarras e onde algumas texturas downtempo misturam-se com vozes inebriantes, cheias de alma e da típica e envolvente soul britânica.

A música dos Outfit tem corpo, alma e substância. É para ser encarada e apreciada sem reservas e exige uma análise detalhística, à boleia de todos os nossos sentidos, para que se torne compensadora a sua audição. Não é possível assimilar convenientemente a beleza poética e angelical de Happy Birthday ou o ritmo frenético e a conjugação feliz entre distorções e piano em Smart Thing se Slowness servir, apenas e só, como banda sonora casual de um instante normal e rotineiro da nossa existência. E o que se percepciona, procurando uma análise mais alargada deste cardápio, é que o conteúdo profundo destes dois temas e, por exemplo, os efeitos sintetizados de Boy, não são nada mais nada menos do que duas faces praticamente opostas de uma mesma moeda cunhada com sofisticação e que tem tudo para às vezes poder sensibilizar particularmente os mais incautos.

Mas há outros exemplos do modo hermético e ambicioso como os Outfit se movimentam dentro do espetro sonoro com que se identificam; Os sons abrasivos e os detalhes de alguns samples de Cold Light Home e o modo implícito como o piano os moldam, sem colocar em causa a grandiosidade dessa canção, assim como o luxuoso e luminoso andamento pop de On The Water On The Way evidenciam um notório e aprimorado sentido estético e a junção sónica e algo psicadélica de um verdadeiro caldeirão instrumental e melódico. Já Genderless, um momento de pura experimentação, assente numa colagem de várias mantas de retalhos que nem sempre se preocupam com a coerência melódica e que, por isso, deve ser objeto do maior deleite e admiração, é outro extraordinário exemplo do paraíso de glória e esplendor que os Outfit procuraram recriar no seu segundo disco e que subjuga momentaneamente qualquer atribulação que no instante da sua audição nos apoquente.

Em Slowness houve claramente uma enorme atenção aos detalhes, notando-se um relevante trabalho de produção e a busca por uma cosmética cuidada e precisa na escolha dos melhores arranjos. Também por isso, este é um disco reflexivo e indutor de sensações intrincadas e profundas e nele os Outfit consagram-se como banda relevante no espetro da indie pop de cariz mais eletrónico e, mais importante que isso, dão-nos pistas preciosas sobre como permitir que o nosso íntimo sobreviva e se mantenha íntegro neste mundo tão estranho. Espero que aprecies a sugestão...

Outfit - Slowness

01. New Air
02. Slowness
03. Smart Thing
04. Boy
05. Happy Birthday
06. Wind Or Vertigo
07. Genderless
08. Framed
09. On The Water, On The Way
10. Cold Light Home
11. Swam Out


autor stipe07 às 22:24
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Segunda-feira, 20 de Julho de 2015

The Go! Team - The Scene Between

Os britânicos The Go! Team de Ian Parton editaram no passdo mês de março o tão ansiado sucessor do aclamado Rolling Blackouts (2011). Esse novo trabalho chama-se The Scene Between, viu a luz do dia através do selo Memphis Industries e, no seu todo, é um compêndio de pop lo-fi colorido, repleto de influências orelhudas, amplo e luminoso e suficientemente cativante, em termos melódicos.

Composto quase na íntegra e produzido pelo próprio Ian Parton, um músico que faz praticamente tudo no projeto exceto cantar, The Scene Between explora diversos territórios sonoros de modo expansivo, com uma sonoridade muito própria e particularmente abrasiva, plasmada logo na épica What D'You Say?, com a produção a refrear claramente tonalidades graves em benefício da típica agudez adocicada tão cara a alguns dos requisitos essenciais da dream pop.

Conhecidos pela mestria com que aglomeram sons anárquicos, distintos e, à primeira vista, incompatíveis, sem deturparem o tradicional formato canção, desta vez os The Go! Team procuraram, sem renegar raízes, romper um pouco com o estilo habitual e, alargando os horizontes até um presente que, no universo do rock alternativo, aposta cada vez mais na eletrónica, colocaram todas as fichas em guitarras angulares, intensas e frenéticas em temas como Waking The Jetstream e feitas de distorções e aberturas distintas, claramente audíveis em Her Last Wave e num baixo com o impacto apenas necessário, com a bateria a colar todos estes elementos, com uma coerência exemplar, fazendo-o de modo extraordinário em Catch Me on the Rebound. Uma multiplicidade de arranjos sintetizados particularmente inspirados e refrescantes, que em Blowtorch definem mesmo o arquétipo sonoro do tema, também destacam-se no trabalho, onde se encaixam letras orelhudas e que causam impacto a quem se dedicar à sua assimilação.

Disco para ser disfrutado no momento e que vale, principalmente, pelo seu imediatismo, monumentalidade e jovialidade The Scene Between são, portanto, doze canções dominadas pelo rock festivo e solarengo e pelo toque delicioso da dream pop, mas onde a eletrónica tem também uma palavra importante a dizer, já que, apesar do papel fundamental da guitarra na arquitetura sonora dos temas, os sintetizadores conduzem também o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona pelo equilíbrio perfeito entre a contemporaneidade e um certo charme vintage. Espero que aprecies a sugestão...

 

01 What D'You Say?
02 The Scene Between
03 Waking the Jetstream
04 Rolodex the Seasons
05 Blowtorch
06 Did You Know?
07 Gaffa Tape Bikini
08 Catch Me on the Rebound
09 The Floating Felt Tip
10 Her Last Wave
11 The Art of Getting By (Song For Heaven's Gate)
12 Reason Left to Destroy

 


autor stipe07 às 10:31
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Quinta-feira, 16 de Julho de 2015

Son Lux – Bones

Editado no passado dia vinte e três de junho, Bones é o novo trabalho dos Son Lux, um trio oriundo de Nova Iorque liderado por Ryan Lott e ao qual se juntam, ao vivo, Rafiq Bhatia e Ian Change. Falo de um projeto que sobrevive à luz de uma indie pop eletrónica de forte cariz ambiental, feita com uma míriade imensa de instrumentos e elaboradas cenografias sonoras, que transcendem as noções de género e fronteira, sem nunca se perder de vista a ideia da canção.

Bones, o quarto álbum da carreira dos Son Lux, é um excelente exemplo de como um disco feito quase exclusivamente com uma instrumentalização baseada em software informático, pode também criar canções com vida, substância e com um elevado pendor orgânico. A eletrónica é aqui um elemento preponderante e a presença de outros instrumentos serve apenas para ampliar o contraste e acrescentar novas cores a estes temas, que são, quase todos, muito cativantes. 

Logo a abrir e após a enigmática intro Breat In, o esplendor de Change Is Everything dá-nos a certeza que estamos perante um álbum épico e cheio de luz. Isso sucede também devido à forma emotiva como Ryan canta a canção, um atributo precioso para dar ao tema essa vertente grandiosa. A míriade instrumental desse tema inclui arranjos com sons de sinos e uma percussão abrasiva e, logo a seguir, os flashes vigorosos da bateria eletrónica de Flight, adornados por samples de flautas e xilofones digitais, comprovam o virtuosismo de Son Lux em frente do computador e o seu génio na criação de texturas sonoras.

No restante alinhamento de Bones percebe-se uma maior dinâmica estrutural das canções relativamente aos trabalhos anteriores, um novo espírito mais superlativo, mas sem haver perda de controle, apesar de Lott arriscar frequentemente não só em variações rítmicas, mas também em densidade e volume, numa mesma canção. O rigor hipnótico do efeitos de You Don't Know Me e os flashes de cordas e as palmas, a toada tribal de Undone adornada depois por uma guitarra cristalina, ou a percussão exórica e cavernosa de Now I Want, são bons exemplos desta riqueza compositória claramente intuitiva e cerebral, que origina uma espécie de eletrónica minimalista mas ampliada até ao máximo do seu potencial. Já a melancolia de White Lies, que se desbrava num misto de euforia e contemplação, à medida que os diferentes efeitos vão-se revezando na linha da frente da estrutura melódica da composição e a espantosa solidez de I Am The Others, uma canção com diferentes linhas agrestes mas que exalam um intimismo romântico bastante peculiar, além de serem excelentes exemplos do que melhor se vai ouvindo na eletrónica atual, são mais dois temas que aprimoram eficazmente a atmosfera sonora de um grupo com uma direção sonora que às vezes parece recuar duas décadas, no modo como cruza sintetizadores e vozes com uma forte toada nostálgica e contemplativa.

Simples e intrigante, fortemente hermético e fechado num casulo muito próprio, Bones está revestido com uma eletrónica que exige particular dedicação, mas que recompensa quem se atreve a descobrir os seus recantos mais profundos e a procurar desbravar os territórios sonoros que decalca. Espero que aprecies a sugestão... 

Son Lux - You Don't Know Me

01. Breathe In
02. Change Is Everything
03. Flight
04. You Don’t Know Me
05. This Time
06. I Am The Others
07. Your Day Will Come
08. Undone
09. White Lies
10. Now I Want
11. Breathe Out


autor stipe07 às 21:15
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2015

The New Division – Gemini

Os The New Division são uma banda de Riverside, nos arredores Los Angeles, formada em 2005 por John Kunkel, ao qual se juntam, ao vivo, Brock Woolsey, Michael Janz,Mark Michalski e Alex Gonzales. Falei deles em finais de 2011 por causa de Shadows, o disco de estreia deste projeto que, como se percebe, é obra da mente criativa de Kunkel. Já o ano passado voltei a aflorar os The New Division devido a Together We Shine, um trabalho que viu a luz do dia por intermédio da etiqueta Division 87 na primavera desse ano e agora, catorze meses depois, Gemini é o novo compêndio sonoro do grupo, treze canções com alguma da melhor pop new wave que se pode escutar atualmente.

O revivalismo punk rock dos anos oitenta, combinado com a eletrónica mais influente dessa época, razão pela qual não será alheia a inserção das palavras New (Order) e (Joy) Division no nome, é a grande força motriz do processo de criação musical de Kunkel, um músico bastante interessando por esse período musical e que procura replicar com uma contemporaneidade que se saúda, plasmada, por exemplo, no inedetismo de alguns efeitos sintetizados, piscando o olho a uma sonoridade pop, luminosa e expansiva, certamente em busca de um elevado sucesso comercial e de ampliar a sua rede de ouvintes e seguidores, além do nicho de seguidores que têm acompanhado o percurso da banda com particular devoção.

Assim, Gemini impressiona, desde logo, pela qualidade da produção, da autoria do próprio Kunkel coadjuvado por F.J. DeSanto e pela aposta firme na criação de um som límpido e que entre o revivalismo e algumas intenções futuristas, agrada e seduz, até pelo forte apelo às pistas de dança. Estamos na presença de um álbum cuidadosamente trabalhado, onde as influências são bem claras e canções como a vigorosa Senseless, a pulsante Iris, a retro Introspective ou a sombria e mais orgânica Alive, foram certamente pensadas para o airplay, baseando-se numa pop épica e conduzida por teclados sintéticos que dão vida a refrões orelhudos e melodias que se colam ao ouvido com particular ênfase.

Apesar do dedilhar de cordas que abastece a melodia de Golden Winter Child e das distorções da épica Murder Shock, as guitarras dominam cada vez menos o processo de criação melódica dos The New Division e neste Gemini os sintetizadores e os efeitos da bateria eletrónica assumem os comandos, com temas como Copycat ou Eyes a olharem de frente para aquela pop nórdica fortemente sentimental que os A-Ha recriaram com mestria no tal período temporal que entusiasma Kunkel.

Não é novidade nenhuma dizer-se que a música enquanto forma de arte é um fenómeno onde quem inova sonoramente pode encontrar aí o caminho para o sucesso. No entanto, penso que esta manifestação artística também é um fenómeno cíclico e que as bandas e artistas que buscam elementos retro de outras décadas para recriar um estilo próprio também poderão encontrar a chave para o sucesso. Exemplos que procuram seguir esta doutrina são bem comuns nos dias de hoje são bem comuns e, ao terceiro disco, já não restam dúvidas que os The New Division escolheram a inesquecível década da ascensão da música eletrónica para sustentar a sua carreira discográfica. Espero que aprecies a sugestão...

The New Division - Gemini

01. ii.
02. Killer
03. Gemini
04. Senseless
05. Iris
06. Introspective
07. i.
08. Alive
09. Golden Winter Child
10. Copycat
11. Eyes
12. Murder Shock
13. Bloom


autor stipe07 às 20:54
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Quarta-feira, 8 de Julho de 2015

Everything Everything - Get to Heaven

Depois de Man Alive (2010) e Arc (2013), os britânicos Everything Everything de Jonathan Higgs, Jeremy Pritchard, Alex Robertshaw e Michael Spearman estão de regresso aos discos com Get To Heaven, um álbum que viu a luz do dia a quinze de junho e que foi produzido pelo consagrado Stuart Price (Kylie Minogue, The Killers e Scissor Sisters), sendo o curioso artwork da autoria do ilustrador neozelandês Andrew Archer e que pretende sintetizar a temática de um disco que se debruça sobre o modo como a política e a religião nos consomem nos dias de hoje e como, de algum modo, agridem a nossa essência se nos deixarmos seduzir por estes estímulos exteriores de modo exacerbado e inconsciente.

Piscando o olho a um vasto leque de influências que vão da dream pop ao rock progressivo, passando pela eletrónica, o R&B e o indie rock contemporâneo, os Everything Everything chegam ao terceiro disco depois de um refinado e cuidadoso processo de corte e costura de todo o espetro musical que os seduz e que os sintetizadores e os efeitos inebriantes da guitarra de To The Blade desde logo anunciam. Depois, o indie rock de Regret, feito com uma percussão vincada, um baixo pleno de groove, uma guitarra particularmente melódica e um registo vocal em falsete exemplarmente replicado por Higgs, não foi uma escolha nada inocente para avanço no formato single de Get To Heaven, já que é uma canção marcante, cheia de personalidade e que antecipou um disco prometedor. Mas, antes desse tema, o piano de Distant Past e a postura vocal próxima do hip-hop, além de elevarem o clima festivo do disco, logo no início, para um patamar elevado de agitação e euforia, acaba por nos convidar à interação com o seu conteúdo, num trabalho que não deixa ninguém indiferente e que se percebe, desde logo, que não é para ser escutado como banda sonora casual, mas como escolha propositada para colorir um ambiente certamente empolgante e animado.

Com a voz dramática e estimulante de Higgs a ser, frequentemente, o sal que tempera devidamente a alma das canções que, como é o caso de Distant Past, escorrem sobre o modo como a evolução humana é hoje feita de extremismos, por um lado e um isolamento cada vez maior do indíviduo, enquanto pessoa cada vez mais fria e mecanizada, nesta aldeia global, Get to Heaven vive bastante desta aparente contradição entre a seriedade lírica e a espontaneidade e luminosidade melódica. Agregando uma variedade interessante de instrumentos e arranjos curiosos e até, em alguns casos, investidos de um certo requinte, como é o caso das bongas e as palmas do tema homónimo, a batida minimal de Fortune 500, ou os divertidos sintetizadores de Hapsburg Lippp, Get To Heaven merece relevo pelo modo como joga conosco com a sua paleta de cores fortes e psicadélicas, que entre a pop e a eletrónica, remexem em praticamente tudo o que se situa entre estes dois postes dando à banda uma identidade muito própria, já que se os Everything Everything são, realmente, uma banda parecida com tantas outras, talvez sejam poucas as que conseguem ser uma alternativa viável e sedutora para um espetro sonoro já tão explorado como aquele em que este quarteto britânico se move.

Disco divertido, indutor, frenético e provocante, Get to Heaven é um passo seguro e maduro dos Everything Everything rumo ao estrelato, um agregado interessante e improvável de análise psicológica e sociológica do estado atual do mundo, mas que pode sempre encontrar algum conforto e até, quem sabe, a esperada redenção e salvação nas pistas de dança espalhadas pelo mundo inteiro. Talvez possa ser a música o elemento conciliador e libertador das civilizações e os Everything Everything parecem querer voluntariar-se para levar a cabo essa cruzada inolvidável. Espero que aprecies a sugestão...

Everything Everything - Get To Heaven

CD 1
01. To The Blade
02. Distant Past
03. Get To Heaven
04. Regret
05. Spring / Sun / Winter / Dread
06. The Wheel (Is Turning Now)
07. Fortune 500
08. Blast Doors
09. Zero Pharaoh
10. No Reptiles
11. Warm Healer

CD 2
01. We Sleep In Pairs
02. Hapsburg Lippp
03. President Heartbeat
04. Brainchild
05. Yuppie Supper
06. Only As Good As My God


autor stipe07 às 14:17
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Segunda-feira, 6 de Julho de 2015

Kubalove - Trouble

Algures entre os Goldfrapp e os M83 situam-se os Kubalove um projeto de eletropop sedeado em Londres e que faz já parte do cardápio da Lost In The Manor.

O pop funk sintetizado melódico e com um forte apelo às pistas de dança de Trouble, uma canção que se debruça sobre a pressão e o desejo que muitos de nós sentem relativamente aos impulsos imediatos que a sociedade contemporânea nos oferece constantemente é a proposta sonora mais recente deste projeto liderado por uma cantora que a coberto da sua sensualidade nos inebria com particular mestria. Confere...


autor stipe07 às 14:40
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Sábado, 27 de Junho de 2015

Howling - Sacred Ground

Escuta-se o piano suplicante, a batida minimal e o agudo de uma voz particularmente sedutora em Signs, o tema de abertura de Sacred Ground e fica logo claro na nossa mente que RY X e Frank Wiedemann, a dupla berlinense que assina a sua música como Howling, aposta numa mistura entre o indie rock e a eletrónica ambiental, cheia de soul e sentimento. Disco de estreia deste projeto, Sacred Ground é um emaranhado intenso e particularmente melódico de sons que nos elevam para um patamar elevado, principalmente quando deixam à vista todo aquele mel que nos remete para indie pop de há trinta anos atrás, quase sempre através de efeitos sintetizados futuristas que trazem consigo sons melancólicos de outras décadas, assim como todo o clima sentimental do passado e as letras consistentes, que confortavam e destruiam o coração num mesmo verso.

Mas não é só de eletrónica que se alimenta este álbum que tem a chancela da  Monkeytown Records. Stole The Night, o single de apresentação do disco, sustenta-se num baixo mágico e profundamente sedutor, em redor do qual se entrelaça uma teia imensa de sons que parecem planar e divagar enquanto nos hipnotizam.

Numa simbiose perfeita entre batida e efeito sintetizado, X Machina é uma bolha de hélio que nos provoca um saudável torpor, que de algum modo apenas é interrompido em Litmus, aquela canção que todos os grandes discos têm e que também serve para exaltar a qualidade dos mesmos, principalmente quando se agregam em seu redor o rumo sonoro geral do trabalho, que neste caso além dos aspetos sonoros já descritos, acumula, devido ao orgão, um charme melódico que impressiona pela atmosfera densa e pastosa mas libertadora e esotérica que transporta. Estas duas canções, o techno minimal de Short Line e Forest, dois temas com flashes de efeitos que disparam em diferentes direções e onde o jogo de vozes merece dedicada audição e os efeitos metálicos borbulhantes de Zürich, que parecem ter sido criados no meio de uma floresta suspensa no ceú por duas nuvens carregadas de poeira e que, tocando-se entre si, criam aquele som típico da agulha a ranger no vinil, definem a elevada bitola qualitativa destes Howling e o encontro feliz que proporcionam entre o minimalismo que se usufrui num relaxante sofá e a house music. Já a viagem orbitral, mas a uma altitude pouco espacial, numa espécie de limbo, que nos oferece o edifício ambiental declaradamente fresco e dançável da chillwave de Quartz, os detalhes acústicos das cordas de Howling e o entorpecimento inebriante de Lullaby, mostram que Sacred Ground é um álbum relaxante, de paisagens frias e tranquilas e que resultou de  percurso feito com uma electrónica de matriz mais paisagista que transcende a lógica da canção pop de formato mais clássico e que nunca deixa de lado aquela pulsão rítmica que cativa o corpo para a pista de dança.

Sacred Ground faz dos Howling novos mestres do espetro sonoro em que procuram impôr-se, já que cheios de charme, fortemente sedutores e com um elevado bom gosto, mesmo nos momentos mais soturnos e melancólicos, criam canções que apesar de poderem ser fortemente emotivas e terem a tendência de nos fazer debruçar em sonhos por realizar, acrescentam novas cores no nosso ouvido, usando como arma de arremesso uma eletrónica simples e intrigante, feita de intimismo romântico que integra uma espantosa solidez de estruturas, num misto de euforia e contemplação. Espero que aprecies a sugestão... 

Howling - Sacred Ground

01. Signs
02. Stole The Night
03. Interlude I
04. X Machina
05. Litmus
06. Zürich
07. Short Line
08. Quartz
09. Interlude II
10. Forest
11. Howling
12. Lullaby


autor stipe07 às 22:07
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Terça-feira, 23 de Junho de 2015

Numbers Are Futile - Sunlight On Black Horizon

Os Numbers Are Futile são Δ ☼ ❍ e Δ Π Δ, um português e um grego sedeados em Edimburgo, na Escócia e representados pela insuspeita Song By Toad, Records, de Matthew Young. Sunlight On Black Horizon é o disco de estreia deste projeto, um trabalho editado a dezoito de maio, disponivel em formato vinil e digital, com oito canções guiadas por uma percussão exemplar e samples únicos, que sobrevivem num universo subsónico e contrastante, com a voz a flutuar em redor, numa banda sonora que fala de sonhos, de liberdade e de redenção.

Um dos maiores trunfos deste conjunto de canções está na decisão da dupla em abordar a míriade sonora que fez sempre parte dos gostos músicais de ambos e do universo cultural em que cresceram, com pontos de encontro óbvios e onde as herançashelénica e românica são referências óbvias. The Great Chimera é um oásis de cor e luz que entre as sete colinas de Lisboa e o Pártenon nos oferece algumas das caraterísticas fundamentais world music, chillwave, dream pop, new age e de outras sonoridades mais clássicas e experimentais, que se multiplicam ao longo do alinhamento de Sunlight On Black Horizon.

Acaba por ser viciante experimentar ouvir o disco várias vezes e ir catalogando mentalmente os universos sonoros abordados e estimulante perceber como eles se relacionam e se fundem nas canções. Este constante sobressalto e variedade sonora ficam ainda mais enriquecidos quando se constatam as diferenças na forma de cantar de Δ ☼ ❍ e o encanto etéreo e celestial com que os dois músicos comunicam entre si.

Logo a abrir, a já citada The Great Chimera sustenta-se nuns teclados que criam uma atmosfera envolvente e bastante quente e depois We Float parece querer remeter a raça humana para as suas origens aquáticas, com os tambores a explicarem que, inevitavelmente, somos criações da natureza e a ela nos devemos manter ligados. O som que emanam nesta canção tem uma toada épica, que se mantém em Monster, ampliada aqui por instrumentos de sopro, mais uma exemplo da percussão fenomenal e bastante diversificada que estes Numbers Are Futile debitam e que, neste caso, vai-se construindo aos poucos, através de uma sequência rítmica bastante moderna.
Como seria de esperar, os teclados são cruciais no amenizar da gravidade dos tambores e das batidas e têm um papel fundamental no que toca à criação de um ambiente confortável e familiar para o ouvinte. Em Oblivion Days, um dedilhar hipnótico de duas ou três teclas e a inserção dos tambores de modo paticularmente pujante e grandioso, quase a meio do tema, provam como estes Numbers Are Futile são mestres na instrumentação, na forma como tocam e como conjugam todos os instrumentos, não deixando de ser estimulante conferir esta sonoridade única e que evoca ambientes seculares enquanto que, simultaneamente, soa de uma forma tão nova e tão refrescante.
Até ao ocaso, não há como não nos sentirmos tocados pelos inéditos samples vocais de In The Fields que, juntamente com as notas que são tocadas, evocam um ambiente um pouco mais obscuro, como se a canção ilustrasse um culto secreto, ou um ritual. Depois, se o orgão de Doomsday Blues parece conter a chave que abre a porta do paraíso, já os teclados hipnóticos de The Threat puxam-nos, mais uma vez, para uma cavernosa obscuridade orgânica, assim como o ópio percurssivo que alimenta Vice > Reason. Estes temas constroem a sequência mais emotiva e ruidosa do disco que, quando termina, faz-nos sentr que a escuta de Sunlight On Black Horizon é, fundamentalmente, uma experiência semelhante à audição de um monólogo de Zeus no seu próprio templo, em oito canções onde somos levados e elevados ao mesmo nível dos templos mais altos da mitologia grega. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:49
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Quarta-feira, 17 de Junho de 2015

La Garçonne - As Days Go By

La Garçonne é o projeto a solo de Ranya Dube uma cantora, compositora e produtora canadiana, natural de Whistler e que se estreou nos discos a vinte e seis de maio com As Days Go By. Este trabalho viu a luz dia em formato digital e cassete através da True Horror Music de Jason Sheppard.

Com um Macbook Pro debaixo do braço e uma mente particularmente inventiva e criativa, Ranya cria música em redor de um eletropop que se cruza com o post punk e a new wave, uma sonoridade predominantemente sintética, muito à imagem do que propôem atualmente nomes tão fundamentais no género, como os Chromatics, Glass Candy ou Zola Jesus.

I'm On Punch foi o primeiro avanço divulgado de As Days Go By, mais de quatro minutos disponibilizados para download gratuíto e que plasmavam o enorme charme e bom gosto deste diamante sonoro ainda em bruto, que viu o ano passado um tema seu inserido na banda sonora do aclamado filme independente de terror Starry Eyes e que foi já o principal motivo para a criação da True Horror Music. Mas, da climática e envolvente Zebra Kids, tema com uma batida grave bastante aditiva, à etérea e contemplativa Social Misfits, canção com um baixo implícito a conduzir a melodia, passando pela amplitude luminosa particularmente sedutora de Crimson Bolt, são vários os instantes sonoros deste trabalho que contém uma natureza contagiante e que revivem o que de melhor se podia escutar há uns bons trinta anos, propostos por uma autora bastante criativa e vocalmente inspirada.

Em suma, As Days Go By vive afundado num colchão de sons eletrónicos que satirizam uma eletrónica retro, feita com VHS. Escutar o seu alinhamento é participar num passeio divertido e, ao mesmo tempo, introspetivo, cheio de charme e bom gosto, por um percurso sonoro que replica o que de melhor foi feito numa época em que era proporcional o abuso da cópula entre os sintetizadores e o spray para o cabelo, servindo também para mostrar o futuro próximo de parte da eletrónica. Espero que aprecies a sugestão...

1. Intro
2. I'm On Punch
3. Geeks After Dark
4. Crimson Bolt
5. Social Misfits view
6. Super Hero view
7. Zebra Kids
8. Vestibule
9. As Days Go By
10. As Days Go By (Alternate Mix) (bonus)



autor stipe07 às 23:08
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Segunda-feira, 15 de Junho de 2015

Beck - Dreams

Beck - Dreams

Depois de seis anos de solidão, o músico que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold e Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos habituou a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras, regressou em 2014 com dois discos, um deles chamado Morning Phase, o décimo segundo da sua carreira e que viu a luz do dia por intermédio da Capitol Records. Falo, obviamente, de Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, um cantor e compositor que tantas vezes já mudou de vida como de casaco e que agora, com a divulgação de um novo single intitulado Dreams, se prepara, com um novo fôlego na sua carreira, para mais um recomeço.

O lançamento de Dreams, canção que fará parte do alinhamento do próximo disco de Beck, coincide com o regresso do cantor aos palcos, com o próximo espetáculo a ser já na próxima quinta-feira, dia dezoito, em Londres, com os The Strokes. De acordo com Beck, o sucessor de Morning Phase será um trabalho completamente diferente e misturará garage rock com dance music. Confere...


autor stipe07 às 19:12
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