Sexta-feira, 15 de Abril de 2016

Yeasayer - Amen and Goodbye

Desde o notável Fragrant World, disco editado já no longínquo ano de 2012, que os nova iorquinos Yeasayer se mantinham num silêncio que já começava a preocupar os seguidores deste projeto sonoro verdadeiramente inovador e bastante recomendável. Mas esse compêndio de onze canções, das quais se destacavam composições tão inebriantes como Henrietta ou Longevity, já tem finalmente sucessor, um álbum intitulado Amen and Goodbye, editado a um de abril através da insuspeita Mute e, como logo nos mostrou I Am Chemistry, o primeiro single divulgado das treze composições que constam do seu alinhamento, é um disco que reforça não só o caraterístico romantismo lisérgico do projeto, mas também consolida a veia instável e experimental de uns Yeasayer cada vez mais apostados em colocar as fichas todas numa pop de forte cariz eletrónico, mas bastante recomendável, principalmente no modo como se mistura com alguns dos aspetos mais relevantes do típico indie rock alternativo.

A exuberância e majestosidade não só do single acima referido, mas também do modo como a guitarra e os sintetizadores se cruzam em Silly Me e em Dead Sea Scrolls e, em oposição, o piano de Uma e a tonalidade mais rock e, também por isso, mais nostálgica, reflexiva e introvertida de Cold Night, o meu tema preferido do disco, oferecem-nos esta eficaz oscilação e simbiose entre os dois mundos sonoros onde os Yeasayer se movem, com cada vez maior mestria, criatividade, heterogeneidade, charme e bom gosto.

O registo vocal inédito de Chris Keating é já uma imagem de marca deste grupo nova iorquino e neste Amen and Goodbye oferece-nos alguns dos melhores instantes da sua interpretação nos Yeasayer, não só em I Am Chemistry, mas também no ênfase que dá a tons mais agudos em Gerson's Whistle e na emoção que transborda em Divine Simulacrum.

Neste Amen and Goodbye fica claro que os Yeasayer continuam a procurar um cada vez maior ecletismo e a tentar estabelecer um óbvio distanciamento relativamente à receita instrumental de outrora. Mais do que carisma e a explosão de sons, cores e versos marcantes de Odd Blood (2010), por exemplo, a ideia é explorar territórios menos imediatos e emotivamente mais intrincados e abrangentes, até porque estes nova iorquinos já perceberam que as grandes bandas atingem elevados patamares quando não se abrigam permanentemente em fórmulas bem sucedidas, mas procuram reinventar-se e explorar outros campos musicais. Espero que aprecies a sugestão...

Yeasayer - Amen And Goodbye

01. Daughters Of Cain
02. I Am Chemistry
03. Silly Me
04. Half Asleep
05. Dead Sea Scrolls
06. Prophecy Gun
07. Computer Canticle 1
08. Divine Simulacrum
09. Child Prodigy
10. Gerson’s Whistle
11. Uma
12. Cold Night
13. Amen And Goodbye


autor stipe07 às 21:08
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Sábado, 9 de Abril de 2016

Teleman – Brilliant Sanity

Nascidos das cinzas dos Pete & The Pirates, um quinteto de Reading que editou dois excelentes discos no final da década passada, os britânicos Teleman são o vocalista Tommy Sanders, o seu irmão Johnny (teclados), o baixista Peter Cattermoul e o baterista Hiro Amamiya. Depois de Breakfast, o fantástico disco de estreia desta banda que é já um dos grandes destaques do catálogo da insuspeita Moshi Moshi Records, o quarteto está de regresso com Brilliant Sanity, onze excelentes canções, gravadas em Londres com método e enorme profissionalismo, segundo rezam as crónicas e produzidas por Dan Carey.

Da cândura de Glory Hallelujah à imponência de Canvas Shoe, os Teleman fazem, no segundo disco do seu cardápio, mais uma súmula interessante e bem idealizada de todo o conteúdo que sustentou a eletrónica nos últimos trinta anos, atráves de canções pop bem estruturadas, devidamente adocicadas com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, tudo envolto com uma pulsão rítmica que carateriza a personalidade deste quarteto, que criou neste álbum um novo alinhamento consistente e carregado de referências assertivas.

O baixo de Düsseldorf, o primeiro single divulgado do disco, merece, por si só, a audição deste álbum, com um punhado de outras notáveis canções, que mostram um notável recorte clássico e uma paleta colorida, leve, fresca e animada de paisagens instrumentais e líricas. Delas destaco também a delicadeza de Superglue e o charme único do tema homónimo, além dos arranjos envolventes e sofisticados e da sensibilidade melódica muito aprazível de canções como Fall In Time, ou Tangerine, composições que intercalam uma excelente interpretação vocal de Tommy Sanders com um trabalho instrumental habilidoso da restante banda, repleto de sons modulados e camadas sonoras sintetizadas que conferem à toada geral de Brilliant Sanity um clima espectral.

Ao segundo registo, os Teleman oferecem-nos mais um disco que consegue transmitir, com uma precisão notável, sentimentos que frequentemente são um exclusivo dos cantos mais recônditos da nossa alma, através de uma fresca coleção de canções pop que caem muito bem neste início de primavera que teima em manter-se um pouco na penumbra. Espero que aprecies a sugestão...

Teleman - Brilliant Sanity

01. Düsseldorf
02. Fall In Time
03. Glory Hallelujah
04. Brilliant Sanity
05. Superglue
06. Canvas Shoe
07. Tangerine
08. English Architecture
09. Melrose
10. Drop Out
11. Devil In My Shoe


autor stipe07 às 15:07
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Quinta-feira, 31 de Março de 2016

Inca Gold – Rewilder

Existe mais uma banda a merecer a maior atenção possível de quem aprecia escutar canções que contenham uma abrangência pop bastante atual, que da eletrónica ao rock progressivo, impressione pela forma subtil como, ao criar um ambiente muito próprio e único através da forma como se sustenta instrumentalmente, albergue diferentes géneros sonoros. Chamam-se Inca Gold, têm Londres como o seu poiso natural e Rewilder é o nome do disco de estreia, um trabalho disponível na plataforma bandcamp do grupo, com a possibilidade de doares um valor pelo mesmo, ou de o obteres gratuitamente.

Sendo, na sua essência, um álbum mutante, pelo modo como abarca um leque alargado de estilos, Rewilder cria um universo que até parece algo obscuro, mas essa é uma percepção que se vai transformando à medida que avançamos na sua audição, que surpreende a cada instante. Logo no início, os sintetizadores e o falsete impecável de Desert Rats, assim como o groove do baixo e da bateria e os efeitos radiososos e a melodia intensa, abrem-nos portas para um alinhamento de canções que não deixa ninguém indiferente. Logo de seguida, o ritmo e os efeitos da pulsante Dark Skies firmam a primeira impressão positiva e consubstanciam uma verdadeira entrada a matar num registo de forte pendor hipnótico, ora catártico devido à batida, ora em busca de uma psicadelia que, muitas vezes, só um baixo picado a lançar-se sobre o avanço infatigável de todo o corpo eletrónico que sustenta as canções e que também usa a voz como camada sonora, consegue proporcionar.

A partir daí, no groove sedutor da tonalidade étnica de Hollow Shade e Pillars e na linha rugosa mas surpreendentemente delicada da guitarra que conduz Flutar, assim como no experimentalismo algo jazzístico de Ascend, canção que nos arrasta para um oasis de melancolia fortemente contemplativo e sugestivo e no curioso torpor rítmico e solarengo da frenética e exuberante Hologram, assistimos, consumidos e absortos, a uma verdadeira revisão histórica da pop dos últimos vinte anos, uma revisão eufórica que, no geral, está envolvida por um toque de lustro livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor.

Rewilder é um compêndio de canções que, no seu todo, contém uma atmosfera densa e pastosa, mas libertadora e esotérica. Baseado no indie rock, mas misturado com tiques da eletrónica, hip hop, dubstep e reggae e o que mais apetecer a quem agora se dedica a esta mistura de sonoridades do passado com as ilimitadas possibilidades técnicas que o desenvolvimento tecnológico proporciona e disponibiliza aos produtores e compositores, acaba por ser um disco muito experimentalista naquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas. Mas tem também uma estrutura sólida e uma harmonia constante. É estranho mas pode também não o ser. É a música no seu melhor. Espero que aprecies a sugestão...

Inca Gold - Rewilder

01. Desert Rats
02. Dark Skies
03. Hollow Shade
04. Flutar
05. Pillars
06. Ascend
07. Hologram
08. Energise
09. Farewell


autor stipe07 às 22:08
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Segunda-feira, 28 de Março de 2016

James – Girl At The End Of The World

Há bandas que resistem com firmeza ao definitivo ocaso e os britânicos James de Tim Booth, Jim Glennie (baixo), Larry Gott (guitarra), Saul Davies (guitarra, violino), Mark Hunter (teclados), David Baynton-Power (bateria) e Andy Diagram (trompete), são um excelente exemplo de um grupo que depois de um adeus anunciado com toda a pompa a circunstância, após uma carreira recheada de sucessos e uma popuplaridade enorme por cá, resolveu dar um novo fôlego ao projeto, uma segunda vida que se iniciou em 2008 com Hey Ma, e tem mais um novo capítulo no historial, pronto a ser apreciado por todos aqueles que, como é o meu caso, acompanham o grupo há mais de vinte anos.

james

Girl At The End Of The World, o décimo quarto longa duração dos James, sucede a La Petite Mort e foi produzido por Max Dingel (The Killers, Muse, White Lies), tendo sido escrito e gravado na Escócia e terminado nos estúdios Rak Studios, em St. John's Wood, Londres, contendo doze canções que lidam com o amor e toda a envolvência emocional que este sentimento provoca em quem procura vivênciá-lo com a maior plenitude possível.

Conhecemos Tim Booth há três décadas, já o ouvimos cantar sobre imensas temáticas e muitos de nós apropriaram-se de vários dos seus poemas e canções para expressar sentimentos e enviar mensagens a pessoas queridas, mas é curioso começar a ouvir este disco e perceber, logo em Bitch, que o músico ainda tem intata a capacidade de encarnar outras personagens, de forma bastante plausível, mesmo que sejam do sexo oposto. E neste tema fá-lo de modo bastante convincente,  à boleia de um baixo rugoso e encorpado, atravessado por flashes sintetizados particularmente inspirados, duas das imagens sonoras mais relevantes de Girl At The End Of The World, um disco que, como tem sido hábito nesta segunda vida dos James, procura um equilíbrio entre o charme inconfundível das guitarras que carimbam o ADN dos James com o indie rock que agrada às gerações mais recentes e onde abunda uma primazia dos sintetizadores e teclados com timbres variados, em deterimento das guitarras, talvez em busca de uma toada comercial e de um lado mais radiofónico e menos sombrio e melancólico. A presença de Max Dingel na produção é o tiro certeiro nessa demanda, apesar de não ser justo descurar a herança que nomes como Gil Norton ou Brian Eno, figuras ilustres que já produziram discos dos James, ainda têm na sonoridade do grupo.

Um clima bastante festivo é outra imagem impressiva deste alinhamento, que exala optimismo e luz em praticamente todos os temas. A pop feita alegoria em Waking e a dinâmica de To My Surprise, são dois claros exemplos disso, sendo a última uma canção onde os efeitos e as variações da bateria ajudam as guitarras a fazer brilhar a voz vintage, mas ainda em excelente forma de Booth. Essa excelente forma vocal é ampliada pelo excelente acompanhamento que a mesma faz ao piano em Attention e ao sintetizador na contemplativa Dear John, um dos melhores momentos melódicos do disco, o clássico tema orquestral, com alguns detalhes a darem à canção um clima romântico e sensível único e tipicamente James. Depois, se no clima acústico de Feet Of Clay existem alguns pormenores que nos remetem para os primórdios do grupo, nomeadamente para certos instantes de Laid, já a manta sintética que abastece Surfer's Song e as guitarras de Catapult exalam U2 por todos os poros sonoros, com Move Down South e Alvin a conterem alguns detalhes que nos convidam a uma pequena e discreta visita às pistas de dança mais alternativas, nomeadamente o tal baixo pulsante e vigoroso.

Nomes maiores da pop independente das últimas décadas e detentores de mais de vinte singles que alcançaram o top britânico, os James testemunharam todos os movimentos musicais que foram aparecendo em Inglaterra e foram sempre uma alternativa credível, por exemplo, à britpop. E a verdade é que seguem ainda firmes no seu caminho, a reboque de mais um disco feito com bonitas melodias e cheio de detalhes que mostram que os James ainda estão em plena forma e conhecem a fórmula correta para continuar a deslumbrar-nos com o clássico indie rock harmonioso, vigoroso e singelo a que sempre nos habituaram, fazendo-nos inspirar fundo e suspirar de alívio porque, felizmente, há bandas que, pura e simplesmente, não desistem. Espero que aprecies a sugestão...

James - Girl At The End Of The World

01. Bitch
02. To My Surprise
03. Nothing But Love
04. Attention
05. Dear John
06. Feet Of Clay
07. Surfer’s Song
08. Catapult
09. Move Down South
10. Alvin
11. Waking
12. Girl At The End Of The World


autor stipe07 às 11:19
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Sexta-feira, 18 de Março de 2016

Is Tropical – Black Anything

Três anos depois do espantoso I'm Leaving, os londrinos Is Tropical, um quarteto constituido por ☮ ☯ † e ∞, estão de regresso aos discos com Black Anything, um álbum que viu a luz do dia a onze de março e que foi sendo revelado através do lançamento de alguns temas em formato vinil e digital, disponíveis na Axis Mundi Records. São essas edições prévias que também fazem de Black Antyhing um disco conceptual, já que foi captado na estrada durante a digressão de I'm Leaving e esses temas representam cada um dos cinco continentes onde foram gravadas e por onde o grupo passou.

Modular e ambicioso e produzido por Luke Smith (Foals, Depeche Mode), Black Anything liga-nos logo à corrente com os sintetizadores, as batidas irregulares alimentadas pela eletrónica e as vocalizações robotizadas aceleradas de Lights On e com uma guitarra abrasiva que vai trespassando a bateria sintética que suporta a languidez indisfarçável de Crawl. Já Cruise Control mantém o ênfase numa sintetização bastante vincada e numa percussão que abraça as tendências mais atuais da pop, prosseguindo o desfilar de sons, melodias e ritmos, criados por uns Is Tropical cada vez mais abertos e  ecléticos, mas também acessíveis e definitivamente longe do desconforto lo fi dos primórdios do projeto.

A primeira impressão que trespassa de Black Anything é mesmo esta ideia de renovação, assente em arranjos mais luminosos e que clamam a todo o instante por uma explosão sonora, mesmo em composições como Follow The Sun e Now Stop, que gozam de uma riqueza estilística ímpar. Se a primeira abriga-se num ordenado caos, onde cada fragmento tem um tempo certo e uma localização e tonalidade exatas, seja debitado por um instrumento orgânico ou resultado de uma programação sintetizada, prosseguindo, durante quase três minutos, numa demanda triunfal rumo a uma salutar insanidade desconstrutiva e psicadélica, já Now Stop contém um groove intenso e um inconfundível perfume jazzístico, bastante aditivo e que termina num arsenal infinito de efeitos, flashes e ruídos que correram impecavelmente atrás da percussão orgânica e bem vincada que sustentou o tema. E, quanto a mim, é na sequência destas duas composições que se confere o âmago de Black Anything, tornando-o verdadeiramente fiável na garantia da expansão do número de fãs e admiradores do grupo.

Além das composições já referidas, a imponência vocal dos coros de Fall, mas, acima de tudo, as inesperadas cordas que conduzem a cândura pop de Say e o groove magnético que conduz a batida eletroclash de Believe, denotando criatividade e capacidade destes Is Tropical em criar melodias capazes de fugir do óbvio, comprovam que este é um registo cheio de boas canções, quase todas muito bem estruturadas e que abrirá certamente novas portas, em termos de opções sonoras, um trunfo imparável para o amadurecimento e sucesso musical futuro do grupo. Espero que aprecies a sugestão...

Is Tropical - Black Anything

01. Lights On
02. Crawl
03. Cruise Control
04. Fall
05. On My Way
06. Follow the Sun
07. Non Stop
08. Say
09. Believe
10. What You Want


autor stipe07 às 21:04
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Quinta-feira, 17 de Março de 2016

School Of Seven Bells – SVIIB

Lançado no passado dia doze à boleia da Vagrant Records, SVIIB é o novo registo de originais dos norte americanos School Of Seven Bells, uma dupla oriunda de Brooklyn, em Nova Iorque e formada por Alejandra de la Deheza e Benjamin Curtis, os elementos que restam de um projeto que encerra as hostilidades com estas nove canções que homenageiam Benjamim Curtis, um antigo membro do grupo que faleceu em 2013, vítima de um linfoma.

SVIIB é um portento de indie rock, mas misturado com algumas das melhores tendências atuais da eletrónica, que tem andado às voltas, curiosamente, com o período aúreo dos anos setenta e oitenta do século passado. A mistura de melodias épicas, expansivas e luxuriantes, suportadas por guitarras com aberturas e riffs angulares e sintetizadores plenos de efeitos agudos e estratosféricos, que parecem planar em redor das cordas, são uma receita que tem feito escola recentemente e que estes School Of Seven Bells não renegam, como se percebe logo na maginficiência de Ablaze. A serenidade de My Heart ajuda a equilibrar um pouco e a colocar águna na fervura, depois de tão eloquente abertura, mas mantém-se o espírito sonoro que usa e abusa da sintetização, com a própria percussão a ser fornecida por uma bateria eletrónica que, no caso desta composição, dá a cadência certa a uma letra que aborda muito a questão do passado e da despedida.

O disco prossegue, e se A Thousand Times More nos mostra que este projeto também sabem como abordar com eficácia aquele lado mais reflexivo do chamado rock progressivo, depois de Open Your Eyes ter-nos feito viajar por universos mais etéreos e contemplativos, típicos de um R&B que procura exalar sedução e charme por todos os poros, já Elias e Signals vagueiam por um cosmos distante e transportam-nos rumo a um registo mais experimental, onde detalhes feitos de batidas irregulares e alguns flashes atestam a firmeza da fórmula que serviu de base a SVIIB.

Disco cheio de paisagens que impressionam pela atmosfera densa e pastosa mas libertadora e esotérica que transporta, SVIIB é uma despedida competente de um projeto que ficou a dever um pouco mais a si próprio e aos fiéis seguidores, mas não deixa de ser um adeus sentido e que se justifica, tendo em conta o historial mais recente dos School Of Seven Bells. Seja como for, é bom o suave torpor que os teclados de This Is Our Time facilmente provocam, enquanto deixamos para trás uma banda que não deixa de ser uma marca importante na história da música eletrónica contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

School Of Seven Bells - SVIIB

01. Ablaze
02. On My Heart
03. Open Your Eyes
04. A Thousand Times More
05. Elias
06. Signals
07. Music Takes Me
08. Confusion
09. This Is Our Time


autor stipe07 às 21:27
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Terça-feira, 15 de Março de 2016

The 1975 – I like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It

Depois do sucesso de The 1975, o disco homónimo de estreia dos The 1975 de Matt Healy, um trabalho editado em 2013, já está nos escaparates I Like It When You Sleep For You Are So Beautiful Yet So Unaware of It, dezassete canções que viram a luz de fevereiro à boleia da Polydor Records.

O mar, um estranho som de estúdio, um eco que aumenta e termina repentinamente, um teclado vulcanizado, um coro distorcido e metais quase impercetíveis, escancaram-nos as portas, no tema homónimo, para um disco colorido e multifacetado de uns The 1975 que, como se percebe logo na deslumbrante e divertida Love Me, parecem apostados em deixar para trás o ambiente mais sintético e sombrio do disco homónimo de estreia, privilegiando canções feitas em redor de refrões aditivos e melodias de fácil assimilação, com a vertente comercial a ser um fator importante do processo de composição e assim conseguir chegar já às massas depois de um processo de maturação que lhes foi particularmente favorável, tendo em conta o sucesso de The 1975.

A alteração dos tons cinza da capa do primeiro trabalho para um rosa vincado, sendo um detalhe estético, também realça com intensidade esta inflexão sonora dos The 1975 que, neste sempre difícil segundo disco, abastecem-se de algumas das referências pop dos anos oitenta com forte tendência radiofónica e colocam explicitamente as pistas de dança na mira. Além da riqueza de géneros e estilos bem patente no instrumental Lostmyhead e na sofisticação do agregado sonoro que define Somebody Else, o saboroso piscar de olhos ao melhor R&B norte americano na eletrónica futurista de Loving Someone e nos sopros e na batida da insinuante If I Believe You, o groove indisfarçável que alimenta a percussão de UGH!, uma canção que aborda a dependência da cocaína de Healy e que não deixa a nossa anca despercebida e a exuberância eletropop das cordas, além da cadência da bateria de She's American, são outros exemplos que firmam com notável exatidão este novo farol dos The 1975, em canções que abordam temáticas relacionadas com o sexo, dinheiro e as questões fundamentais da adolescência, ideias transversais a todo o alinhamento de I like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It e que reforçam a superior capacidade inventiva e uma imagem de ecletismo e personalidade que estes The 1975 claramente já possuem. Aliás, a componente lírica é mesmo um dos grandes destaques deste disco, principalmente pelo modo como, além dos tópicos acima referidos, a banda procura elucidar todos aqueles que aspiram a um mundo de fama e glamour, mas que nem sempre corresponde às melhores expetativas criadas, com a religão a ser também um foco de atenção de Healy, nomeadamente em If I Believe You Nana e a complexidade do pensamento humano a merecer igualmente abordagem, tão bem expressa nas teclas, na voz emotiva e nos efeitos enleantes de The Ballad of Me and My Brain.

Sólido, vibrante, eclético e efusivo, I like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It é um disco que nos reaviva as memórias relativamente a uma época em que era proporcional o abuso da cópula entre os sintetizadores e o spray para o cabelo, mas também nos serve para fornecer pistas muito concretas sobre as tendências mais atuais de um rock alternativo cada vez mais disposto a alargar fronteiras e a misturar, sem receio, estilos, géneros e tiques, de modo a criar uma sonoridade pop cada vez mais futurista e que prime pela diferença. Espero que aprecies a sugestão...

The 1975 - UGH!

01. The 1975
02. Love Me
03. UGH!
04. A Change Of Heart
05. She’s American
06. If I Believe You
07. Please Be Naked
08. Lostmyhead
09. The Ballad Of Me And My Brain
10. Somebody Else
11. Loving Someone
12. I like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It
13. The Sound
14. This Must Be My Dream
15. Paris
16. Nana
17. She Lays Down


autor stipe07 às 20:36
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Surma - Maasai

Leiria é o habitat natural de Débora Umbelino, uma cantora e multi-instrumentista de vinte e um anos e que assina a sua música, bastante mais exótica do que o território de origem, como Surma. Esta artista é um dos últimos nomes do já invejável catálogo da Omnichord Records e deverá estrear-se nos discos ainda antes do ocaso de 2016.

Já com um número assinalável de memoráveis concertos em carteira na Península Ibérica, a frequência de um curso de pós-produção audiovisual e a preseça no Hot Clube de Portugal, através da voz e do contrabaixo, Surma acaba de divulgar Maasai, uma canção com uma faceta eminentemente eletrónica e onde teclas, samplers e uma voz absolutamente maravilhosa, nos oferecem uma paisagem sonora bastante contemplativa e tremendamente reflexiva.

Maasai conta com a produção de Emanuel Botelho (ex-Sensible Soccers) e foi misturado e masterizado por Paulo Mouta Pereira (produtor dos Les Crazy Coconuts e músico de David Fonseca). O vídeo, concebido e filmado por Eduardo Brito (que já havia realizado Shoes For Man With No Feet dos First Breath After Coma) conduz-nos, de acordo com o press release do lançamento, numa viagem de procura e desencontro na cidade fantasma de Doel. Confere...

 


autor stipe07 às 18:17
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Segunda-feira, 14 de Março de 2016

The KVB – Of Desire

Nicholas Wood e Kat Day são o núcleo duro dos londrinos The KVB, mais uma banda a apostar na herança do krautrock e do garage rock, aliados com o pós punk britânico dos anos oitenta. Of Desire é o mais recente registo de originais da dupla, um álbum com doze canções com a chancela da Invada Records e que sucede ao aclamado Mirror Being, uma coleção de vários instrumentais e experimentações analógicas que foram sendo captadas pela dupla ao longo da etapa inicial da carreira.

Gravado em Bristol, nos arredores de Londres, Of Desire é um extraordinário registo sonoro em cuja concepção a dupla esmerou-se na construção de composições volumosas e que acabaram por se deixar conduzir por um som denso, atmosférico e sujo, que encontra o seu principal sustento nas guitarras, na bateria e nos sintetizadores, instrumentos que se entrelaçam na construção de canções que espreitam perigosamente uma sonoridade muito próxima da pura psicadelia.

Com vários instantes sonoros relevantes instrumentalmente, nomeadamente o compositório eletrónico que sustenta White Walls, o clima hipnótico do ecos e do som repetitivo das teclas de Silent Wave e a melodia enleante de Never Enough, são apenas três dos vários momentos altos deste agregado, canções onde os sintetizadores também se posicionam numa posição cimeira, apesar da tal primazia das guitarras e onde não falta também um baixo vibrante e que recorda-nos a importância que este instrumento tem para o punk rock mais sombrio, com a diferença que os The KVB conseguem aliar às cordas desse instrumento, cuja gravidade exala ânsia, rispidez e crueza, uma produção cuidada, arranjos subtis e uma utilização bastante assertiva da componente maquinal. In Deep acaba por infletir um pouco as pisadas deixadas pelos temas anteriormente referidos, já que além de conter uma guitarra carregada de fuzz e distorção, insinua os nosso ouvidos com alguns samples impercetíveis mas que conferem ao tema uma toada orgânica inédita, além da abundância de arranjos delicados feitos com metais minimalistas.

Enquanto muitas bandas procuram a inovação na adição de uma vasta miríade de influências e tiques sonoros, que muitas vezes os confundem e dispersam enquanto calcorreiam um caminho que ainda não sabem muito bem para onde os leva, os The KVB parecem ter balizado com notável exatidão o farol que querem para o seu percurso musical, atirando-nos para ambientes eletrónicos onde os teclados têm o maior destaque, construindo diversas camadas sonoras, quase sempre entregue a um espírito desolado e que nos remete para os sons de fundo de uma típica cidade do mundo moderno. Espero que aprecies a sugestão...

The KVB - Of Desire

01. White Walls
02. Night Games
03. Lower Depths
04. Silent Wave
05. Primer
06. Never Enough
07. In Deep
08. Awake
09. V11393
10. Unknown
11. Mirrors
12. Second Encounter


autor stipe07 às 18:49
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Segunda-feira, 7 de Março de 2016

Youthless - This Glorious no Age

O londrino Sebastiano Ferranti e o nova iorquino Alex Klimovitsky são a dupla que abraça um extraordinário projeto sonoro sedeado em Lisboa intitulado Youthless, que se estreia hoje mesmo nos discos com This Glorious No Age, dezassete canções disponíveis através da NOS Discos em Portugal e da Club.the.mamoth / Kartel em Inglaterra e que nos oferecem um indie rock com uma singularidade bastante vincada, que conjugado com um abstracismo lírico incomum, estabelece um paralelismo entre uma curiosa obsessão da dupla por tudo aquilo que é elétrico, nomeadamente o modo como a descoberta da eletricidade provocou um caudal massivo de alterações no mundo que nos rodeia e na sociedade em que vivemos e o quanto isso tem de glorioso e de frenético.

Desde que se mostraram ao mundo, de modo mais convicto, com alguns temas que fazem parte do alinhamento deste This Glorious No Age, os Youthless têm tido um percurso fulminante em termos de crescimento, visibilidade e aceitação, com enormes elogios em vários blogues e estações de rádio, quer por cá, quer em Inglaterra e este This Glorious No Age, misturado por Justin Garrish (Vampire Weekend, The Strokes, Weezer) e gravado por Chris Common, Pedro Cruz e a própria banda em vários estúdios caseiros e sótãos entre Lisboa, Sintra e Cascais e que conta com a participação de nomes tão importantes como Francisco Ferreira (Capitão Fausto, Bispo), João Pereira (Riding Pânico, LaMa), Chris Common (These Arms are Snakes, Le Butcherettes), Francisca Cortesão (Minta and the Brook Trout) e Duarte Ornelas, acaba por ser o cluminar deste percurso ascendente que, desde o EP Telemachy, em 2009, procura fazer uma espécie de súmula histórica de um rock heterogéneo e abrangente, que da folk à psicadelia, passando por sonoridades mais progressivas, aborda, de acordo com os autores, temáticas como a desintegração do velho mundo, a viagem rumo a terreno incerto, pesadelos, esperanças de ascensão e a obsessão pelo passado e pelo futuro, sempre com um duplo significado, por um lado muito pessoal, circunstancial, e, por outro, universal e mitológico.

A entrevista que os Youthless amavelmente me concederam e que podes conferir após esta análise, explica sucintamente a abordagem da dupla ao mundo em que vivemos e a sua visão muito própria do mesmo, através daquilo que eles definem como um eu universal, já que houve uma opção claramente ficcional de escreverem sobre aquilo que os rodeia, mas inventando histórias e personagens imaginárias, atrás das quais podem, de certo modo, refugiar-se, sem terem de se comprometer, com pensadores como Marshal Mcluhen e Guy Debord e outros mais contemporâneos, nomeadamente Jaron Lanier e David Graeber, a serem referências obrigatórias, mas também as experiências muito pessoais, algumas bastante curiosas, como irão perceber, de cada um dos músicos.

Cheio de canções intensas e que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da pop, da new wave e do indie rock psicadélico, com um travo glam fortemente eletrificado, This Glorious No Age assenta em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas e onde não falta um piscar de olhos ao punk e ao garage rock. Depois, a eletrónica tem também uma palavra importante a dizer, já que os sintetizadores conduzem, frequentemente, o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona por um certo charme vintage e um indisfarçável groove. Finalmente, a bateria cola todos estes elementos com uma coerência exemplar e a voz, muitas vezes sintetizada, mas quase sempre sentida e imponente, dá substância e cor às melodias, com todos estes detalhes a subsistirem à sombra de uma feliz simbiose entre a riqueza dos arranjos e a energia e imponência com que eles surgem nas músicas. Há também que realçar o modo como os diferentes temas se interligam, quase sempre através da guitarra, sendo intercalados, frequentemente, com diversos instrumentais, ricos ao nível de efeitos e samples e que fazem todo o sentido no modo como estão colocados. No caso de Holy Ghost e Fuck Buttons and Knobs, são expressivamente intensos e este é outro aspeto importante e que também ajuda a oferecer à sonoridade geral do disco uma sensação festiva e solarenga, mas também fortemente reflexiva e filosófica.

Em suma, num alinhamento de canções com uma sonoridade impar, é possível absorver This Glorious No Age como um todo, mas entregar-se aos pequenos detalhes que preenchem o disco é outro resultado da mais pura satisfação, como se os Youthless quisessem projetar inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção do alinhamento, sempre com uma assumida pompa sinfónica e eletrificada de modo inconfundível. Falo-vos de uma janela imensa de luz, energia e cor, que nos convida a espreitar para um mundo envolvido por uma psicadelia luminosa, fortemente urbana, mística, mas igualmente descontraída e jovial, como a luz que refracta no prisma, ou os últimos raios de luz que enchem a íris numa tarde de verão, sob a influência e o calor das leis universais. Espero que aprecies a sugestão...

Sail On

Death of the Tyrannosaurus Rex

Golden Spoon

Neu Wave Suicide

Smersh

Mechanical Bride

Silver Apples

Attention

Pale Horse and Rider

Lightning Bolt

Skull and Bones

Black Keys White Lights

High Places

Holy Ghost

This Glorious No Age

Fuck Buttons and Knobs

Lucky Dragons

Antes de nos debruçarmos com algum cuidado no conteúdo de This Glorious No Age, o vosso novo registo discográfico, começo com uma questão clichê... Como é que nasceu este projeto?

O Sab e eu conhecemo-nos desde os 14 anos, quando andámos juntos no Instituto Espanhol de Lisboa em Dafundo. Sempre fomos saltando entre países, eu principalmente entre NY e Lisboa e Sab entre Londres e Lisboa. Em 2009 estávamos cá a tocar numa banda que tínhamos desde miúdos, os Three and a Quarter (com o nosso querido amigo Guillermo Landin), e nos tempos mortos desses ensaios começámos os Youthless com uma brincadeira para fazer barulho e rirmo-nos um pouco. Eu era guitarrista e queria aprender a tocar bateria e o Sab queria tentar usar o baixo como se fosse um lead guitar e fazer ambientes sónicos e big riffs à patrão. Mas logo desde o primeiro ensaio começaram a sair muitas músicas e a coisa foi crescendo. No princípio era só no gozo, só queríamos tentar tocar covers mal feitas dos Black Sabbath.                                                      

Desde que se mostraram ao mundo de modo mais convicto, com alguns temas que fazem parte do alinhamento deste This Glorious No Age, a verdade é que o vosso percurso tem sido fulminante em termos de crescimento, visibilidade e aceitação, com enormes elogios em vários blogues e estações de rádio, quer por cá, quer em Inglaterra. Como foi conciliar este percurso ascendente com o processo de conclusão da rodela e que expectativas criaram para a mesma? Querem que This Glorious No Age vos leve até onde? 

A verdade é que o nosso percurso como banda tem sido um pouco estranho. Desde que começámos a banda muita coisa aconteceu muito de repente. Depois do nosso segundo concerto como banda fomos convidados a tocar em Londres e aí a editar com uma editora inglesa. Ao mesmo tempo, o Henrique Amarro convidou-nos para fazer um EP através Optimus Discos e a Enchufada pegou em nós para fazer alguns singles. As coisas cresceram até em 2010, tivémos bastante sorte e sucesso num tour que fizemos no UK e muitos blogs começaram a interessar-se pela banda. Um até nos chamou a melhor nova promessa do ano. Foi nesse momento que começámos a trabalhar este disco e desenvolvemos o conceito e a temática, mas nesse momento eu tive uma lesão muito grave nas costas e nos anos seguintes a minha participação na banda ficou muito limitada. Finalmente, fiquei estou melhor e o disco ficou acabado. De certa forma sentimos que estávamos a começar do zero outra vez, e não tínhamos expectativas muito concretas. Queríamos só editar o trabalho porque este disco é muito pessoal e importante para nós, e depois disso vermos o que acontece. Mas ao mesmo tempo, como dizes, a recepção dos primeiros singles tem sido espectacular e já estamos a tocar no UK outra vez e a receber amor pelo disco cá em Portugal. Isso tudo é uma alegria mas tentamos não fazer planos para o futuro e apenas ir vendo onde é que as coisas nos levam.                                              

Acho que This Glorious No Age é um título fantástico e bastante apelativo. Sendo possível estabelecer um paralelismo entre este nome e a vossa curiosa obsessão, digamos assim, por tudo aquilo que é elétrico (algo que a vossa música tão bem plasma), já que a descoberta da eletricidade provocou um caudal massivo de alterações no mundo que nos rodeia e na sociedade em que vivemos, ao ponto de vivermos numa era que tem algo de glorioso, no sentido do frenético, acham que esta vossa expressão sintetiza, de algum modo, o alinhamento?

Não acho que a nível de som ou composição a nossa música seja particularmente futurista, ou até que seja um bom espelho da actualidade, se calhar porque esteticamente sinto que o atual está a mudar a cada milisegundo. Mas sim, acho que depois de falar com muitos amigos, e agora até com alguns jornalistas sobre as temas e ideias que abordamos no disco, parecem ser temáticas bastante universais. Parece que em toda esta loucura e caos do presente há uma experiência bastante comum que estamos a viver todos juntos, mais ou menos conscientemente, e acho que as músicas são um bom registo disso. Dos medos, estimulações, conclusões e experiências que esta fase da transição de um mundo para outro está a causar em nós.

A que se deve o gosto por tudo aquilo que vos moveu na conceção lírica e sonora do disco, nomeadamente a desintegração do velho mundo, a viagem rumo a terreno incerto, pesadelos, esperanças de ascensão, como as ferramentas moldam o construtor, e a nossa obsessão pelo passado e pelo futuro... num duplo significado, por um lado muito pessoal, circunstancial, e, por outro, universal e mitológico., conforme consta do press release do lançamento?

A nível da estrutura inicial, a história do velho mundo pré-eléctrico a converter-se lentamente no novo mundo de abstração digital... isso veio de ideias que eu estava a desenvolver inspiradas em coisas que estava a ler do Marshal Mcluhen e Guy Debord e outros pensadores contemporâneos como Jaron Lanier e David Graeber. Hoje em dia acho que muitos de nós culpamos os males do mundo moderno no capitalismo, mas sempre senti que o capitalismo e o dinheiro em si, eram sintomas, não são a raiz dos problemas da civilização ocidental. E as ideias de Mcluhen de certa forma explicam a desintegração de certas formas de coexistir em sociedade uns com os outros, por causa das tecnologias que criamos e as amputações que nós fazemos ao psíquico. Em relação às letras em si, são todas baseadas em eventos ou temas muito pessoais. Um é sobre o final de um namoro. Outro é sobre uma experiência verdadeira que tive ao encontrar uma pessoa desconhecida que estava a morrer e tentar salvar essa pessoa. Mas escrevo sobre estas experiencias através da lente da estrutura e ideias das quais mencionei antes. Assim que tudo se converte em alegoria e metáfora.    

Com canções intensas e que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da pop, da new wave e do indie rock psicadélico, com um travo glam fortemente eletrificado, assente em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas, onde não falta um piscar de olhos ao punk e ao garage rock e sintetizações impregnadas com indisfarçável groove, com a bateria a colar todos estes elementos com uma coerência exemplar e uma voz muitas vezes sintetizada, mas quase sempre sentida e imponente, a dar substância e cor às melodias, This Glorious No Age, foi composto de acordo com as vossas preferências, ou também tiveram o foco permanentemente ligado na vertente mais comercial? No fundo, em termos de ambiente sonoro, o que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Nunca nos focamos no comercial, tentamos escrever o que estamos a sentir no momento. As nossas influências nunca entram de maneira directa nas composições mas sim, obviamente, ouvem-se. Acho que tínhamos umas ideais de como queríamos que o disco soasse... sempre gostámos de usar o ruído e feedback como mais um elemento ambiental, e queríamos arranjos mais complexos e quase narrativas... tipo as vozes dos miúdos e os teclados. Mas também tentámos manter-nos bastante fiéis a como as músicas soam ao vivo e a verdade é que como agora tocamos as músicas há mais tempo, acho que muitas delas ganham ainda mais ao vivo.                              

Confesso que algo que me agradou na audição de This Glorious No Age foi uma feliz simbiose entre a riqueza dos arranjos e a energia e imponência com que eles surgem nas músicas, além do modo como foram interligando os diferentes temas, quase sempre através da guitarra, intercalando-os, frequentemente, com diversos instrumentais, ricos ao nível de efeitos e samples, que fazem todo o sentido no modo como estão colocados e que, no caso de Holy Ghost e Fuck Buttons and Knobs, são expressivamente intensos, diga-se... E todos estes aspetos, na minha opinião, conferem à sonoridade geral do disco uma sensação festiva e solarenga, mas também fortemente reflexiva e filosófica. Concordam?

Sim, exactamente… Há um lado de banda que existe desde sempre, que é energia e a alegria de estar a fazer música juntos, e de eu e Sab convivermos através disso. Mas agora, com este disco acho que também conseguimos tocar em lados mais reflexivos e estranhos e se calhar interessantes. Nos intervalos como dizes, muitas vezes as intenções eram narrativas (como o som de feedback que parecem cavalos no Pale Horse and Rider, que usámos como símbolo dos quatro cavalos da morte a aparecerem na terra mesmo antes da grande “tempestade” que é representado pela música “Lightning Bolt” e às vezes eram mais abstratas e só pelo gozo do som em si.                                               

Apesar do esplendor das guitarras, a eletrónica tem também uma palavra importante a dizer, já que os sintetizadores conduzem, frequentemente, o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona por um certo charme vintage. Como é a química nos Youthless? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou um de vocês domina melhor essa componente?

Quase todas as nossas composições surgem de improvisos que fazemos juntos (às vezes trazemos ideias ou composições já feitas mas é menos usual)... e normalmente durante esses momentos também surge a ideia atrás da música (a semente da qual depois vem a letra). Mas ao nível dos arranjos, às vezes depois vemos o que a música precisa e vamos moldando e mudando a coisa até gostarmos. Os sintetizadores foram assim, porque as melodias nestas músicas eram um pouco mais complexas e frágeis que outras músicas nossas do passado, por isso achámos que ganhavam muito com acordes e pads que o baixo não conseguia fazer. De certa forma, eram sons e texturas que já ouvíamos na nossa cabeça enquanto compúnhamos as músicas, mas que só se materializaram com a ajuda dos nossos amigos teclistas.

Olhando um pouco novamente para a escrita das canções, em temas como o homónimo This Glorious No Age ou Black Keys White Lights, só para citar dois exemplos, parece-me ter havido uma opção claramente ficcional de escreverem sobre aquilo que vos rodeia, mas inventando histórias e personagens imaginárias, atrás das quais podem, de certo modo, refugiar-se, sem terem de se comprometer... Acertei na mouche ou o meu tiro foi completamente ao lado?

Sim, está bastante certo. As letras são todas sobre experiâncias e observações muito pessoais mas filtradas pelo conceito e estrutura/ história do LP. Por isso, em vez de escrever de um ponto de vista “eu” escrevo quase como se fosse um “eu” universal, ou um “eu” imaginário, exactamente como disseste.                                         

Golden Spoon é um tema particularmente imponente, grandioso, mas adoro o ambiente sonoro de Lucky Dragons. E o grupo, tem um tema preferido em This Glorious No Age                                                  

Para mim pessoalmente vai sempre mudando. A nível de letra acho que Lucky Dragons é o mais elegante de certa forma, mas musicalmente não tenho preferência, às vezes gostamos mais de uma ou outra depende de como sai num concerto ou ensaio.

This Glorious no Age foi produzido por Justin Garrish e gravado por Chris Common, Pedro Cruz, além de vocês, tendo contado com as participações especiais de referências do cenário indie nacional, nomeadamente Francisco Ferreira, João Pereira, Francisca Cortesão e Duarte Ornelas. Como foi o processo de adesão de músicos tão ilustres para a vossa causa?                                     

Justin Gerrish misturou o disco, que para nós foi uma benção muito grande porque acho que foi um disco bastante difícil de misturar por causa de todas as faixas de ruído que usámos em cada música. Nós é que produzimos o disco sozinhos mas com o input musical desta gente toda que lhe acrescentou tanto! Foi uma grande riqueza e honra para nós termos esta gente toda a participar. Muitos já eram amigos com quem tocávamos antes do disco, e o resto ficaram amigos, agora sentimos que temos uma família musical além de só nós os dois. E sempre foi fácil e divertido, foi só convidá-los para a cave do Sebastiano, ou com o Duarte Ornelas fomos até ao Black Sheep Studios, e depois improvisávamos e compartilhávamos ideias.

Como estão a decorrer os concertos de apresentação do disco? E onde podemos ver os Youthless a tocar num futuro próximo?

- 11 de Março, Musicbox, Lisboa

- 12 de Março, Maus Hábitos, Porto

- 18 de Março, Texas Bar, Leiria

- 19 de Março, Salão Brazil, Coimbra

- 1 de Abril, Stairway Club, Cascais

- 15 de Abril, Pouca Terra, Barreiro

- 16 de Abril, Play-Doc, Galiza

- 23 de Abril, Fnac Braga

- 23 de Abril, Convento do Carmo, Braga


autor stipe07 às 18:35
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