Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2015

In Tall Buildings - Driver

Já foi finalmente editado Driver, um dos trabalhos mais aguardados por cá no início de 2015 e que viu a luz do dia a dezassete de fevereiro através da Western Vinyl. Este disco é da autoria de Erik Hall, um músico e compositor de Pilsen, nos arredores de Chicago, por detrás do projeto In Tall Buildings, que, de acordo com o próprio, compõe inspirado por duas dicas filosóficas, uma de Allen Ginsburg (First thought, best thought) e a outra da autoria de Kurt Vonnegut (Edit yourself, mercilessly). Se a teoria de Ginsburg apela à primazia do instintivo e da naturalidade e da crueza, acima de tudo, já as palavras de Vonnegut parecem instar à constante insatisfação e à busca permanente da perfeição, considerando-se cada criação como algo inacabado e que pode ser alvo de melhorias e alterações. Driver foi produzido entre a casa de Hall e uma quinta em Leelanau County, no Michigan.

A música de Erik Hall vive um pouco desta aparente dicotomia, já que quando assina In Tall Buildings propôe e cria paisagens sonoras simples e amenas, de algum modo descomplicadas e acessíveis, mas que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto na forma como constrói as melodias, deixando sempre margem de manobra para que nos possamos apropriar das suas canções e dar-lhes o nosso próprio sentido. Aquela folk acústica, que em determinados instantes pisca o olho a um certo travo psicadélico, é, portanto, a trave mestra de Driver, competente na forma como abarca diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e como mistura harmoniosamente a exuberância acústica das cordas com a voz grave, mas suave e confessional de Hall, sendo este um álbum ameno, íntimo, cuidadosamente produzido e arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Ficamos logo agarrados ao disco com Bawl Cry Wal, o tema de abertura, feito de uma melodia que tem por base a bateria e umas cordas impregnadas de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de um teclado. Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco essencialmente acústico, vincadamente experimental e dominado por cordas com uma forte toada blues. Logo depois, All You Pine, apesar de menos ritmada, segue a mesma dinâmica que sustenta um alinhamento sinuoso e cativante, que nos convida frequentemente à introspeção e à reflexão sobre o mundo moderno e onde Hall não poupa na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, com Unmistakable, o segundo single, a surpreender pouco depois, não só pelo título da canção, sem dúvida uma opção feliz para mais um registo sonoro de dificil catalogação, mas também pela sonoridade pop claramente urbana, mais eletrónica,perfeita no modo como o baixo e a batida se cruzam com o sintetizador. 

Pouco depois, ao sermos presenteados com I'll Be Up Soon, percebemos que In Tall Buildings também manipula com mestria os típicos suspiros sensuais que a subtil eletrificação da guitarra e uma batida lenta e marcada proporcionam e que há uma elevada dose de sensualidade e suavidade na tonalidade das canções que interpretam. Por exemplo, em When You See Me Fall um efeito em espiral e melodicamente hipnótico e o modo com a voz com ele se entrelaça e o dedilhar deambulante de Aloft são outros dois momentos que trazem brisas bastante aprazíveis ao ouvinte.

O auge do disco chega com a atmosfera simultaneamente íntima e vibrante do single Flare Gun, um tema que está já na minha lista das melhores do ano e isso deve-se à forma particular como as cordas deambulam alegremente pela melodia e dão à canção uma sensação intrincada e fortemente espiritual, um ideal de leveza e cor constantes, como se ela transmitisse todas as sensações positivas e os raios de luz que fazem falta aos nosso dias, agora algo frios e sombrios.

Rico e arrojado, que aponta em diferentes direções sonoras, apesar de haver um estilo vincado que pode catalogar o cardápio sonoro apresentado, Driver tem um fio condutor óbvio, assente em alguma da melhor indie pop contemporânea, mas uma das suas particularidades é conseguir, sem fugir muito desta bitola, englobar diferentes aspetos e detalhes de outras raízes musicais, num pacote cheio de paisagens sonoras que contam histórias que a voz de Hall sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Este é um álbum essencial, recheado de paisagens sonoras simples e amenas, de algum modo descomplicadas e acessíveis, mas que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

Bawl Cry Wail

All You Pine

Exiled

Unmistakable

Aloft

Flare Gun

I'll Be Up Soon

Cedarspeak

When You See Me Fall

Pouring Out


autor stipe07 às 19:24
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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2015

Heavenly Beat – Eucharist

Heavenly Beat é o alter-ego de John Pena, baixista dos Beach Fossils e um nome bastante conhecido e respeitado no cenário musical independente e alternativo. Lançado no final do ano passado, Eucharist é já o terceiro tomo de uma discografia que foi integralmente dissecada por cá; O álbum de estreia do projeto, editado em Julho de 2012, chamava-se Talent e foi divulgado pouco depois, tendo sucedido o mesmo com Prominence, o sempre difícil segundo disco dos Heavenly Beat, lançado, como sempre, através da Captured Tracks, em outubro de 2013.

Acompanham Pena nos Heavenly Beat os músicos Andrew Mailliard e Chris Burke e ao terceiro disco, como a sonoridade do projeto se mantém inalterada, há pouco a acrescentar às análises anteriores. Seja como for, há que realçar que a música deste projeto, inicialmente se estranha, mas depois, com tempo, facilmente se entranha e provoca em nós sensações de prazer e bem estar. Isso acontece porque nos Heavenly Beat John Pena explora as intersecções entre a índie e a electrónica, numa mistura absolutamente tranquilizante, que assenta muito em batidas paradisíacas, que nos fazem ter sempre a sensação que estamos a escutar o disco num local belo e único. É uma música que acaba por funcionar como uma sonora escapadinha homeopática, sem nunca nos deixa esquecer quem somos e o que desejamos da vida, já que estas canções também nos dão tranquilidade e força para lidar com uma realidade em permanente convulsão.

Logo na introdutória Kin ficam plasmada a caritilha sonora do trio e o single Patience reforça a possibilidade de sermos invadidos por um som simultanamente fresco e hipnótico ao longo de doze canções de agulhas viradas para uma dream pop que assenta, com frequência, numa chillwave simples, bonita e dançável, construída em redor de uma bateria com a cadência e a vibração certas e guitarras e sintetizadores que se entrelaçam constantemente de modo a criar o tempero ideal às composições.

Além destas virtudes no campo instrumental e do casamento assertivo entre o dedilhar das cordas e uma matriz sintética na dose certa, um dos maiores segredos destes Heavenly Beat parece-me ser o arranjo melódico que sustenta os temas e a postura vocal, às vezes um pouco lo fi e shoegaze, mas que dá às composições aquele encanto vintage, relaxante e atmosférico.

O fluxo das canções é muito agradável relaxado e mesmo sensual e se um dos grandes destaques de Eucharist é o já citado single Patience, a energia sexual bastante latente na percurssão e no efeito que deambula por Manna e em Covet. Mas o dedilhar das cordas em Head e o modo como a batida é adicionada, acaba por ter também um inegável charme, festivo e viciante, assim como a forma como cresce o sintetizador de Legacy, nomeadamente durante o minuto incial, quando recebe uma batida que funciona impecavelmente em modo palmas de fundo. Também não há como resistir ao esplendor da viola e das castanholas do solarengo e inebriante tema homónimo.

Se Pena vive atualmente numa espécie de encruzilhada relativamente ao melhor rumo a dar a este projeto, anseio que ele se mantenha neste modus operandi indefinidamente, em vez de procurar calcorrear outros terrenos menos luminosos e que possam colocar em causa a integridade que os Heavenly Beat têm vindo a construir a pulso, com uma cadência praticamente anual e que tem já como enorme atributo espelhar com precisão o manto de transição e incerteza que tem invadido o cenário da pop de cariz mais alternativo e independente. Espero que aprecies a sugestão...

Heavenly Beat - Eucharist

01. Kin
02. Patience
03. Manna
04. Faults
05. Head
06. Legacy
07. Covet
08. Eucharist
09. Relevance
10. Beyond
11. Effort
12. Relentless


autor stipe07 às 22:03
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Shirley Said - Salvation (video)

shirleysaid_press_960

Uma das novas apostas da etiqueta Lost In The Manor é a dupla italiana Shirley Said, natural de Latina, nos arredores de Roma e formada por Giulia Scarantino e Simone Bozzato. A eletrónica experimental, que chega a raiar a fronteira do techo minimal, é a pedra de toque destes Shirley Said, uma eletrónica sensual e algo abstrata, mas bastante sofisticada e de forte cariz ambiental.

Depois de terem divulgado o vídeo de Merry Go Round, um filme dirigido e produzido por Gabriel Beretta e com Yin Lee a ficar a cargo da maquilhagem espetacular de Giulia, agora chegou a vez de ser conhecido o filme de Salvation, o lado a de um single que vai ser editado, apenas em formato digital, a vinte e três de março.

Nesta canção tudo se movimenta como uma massa de som em que o mínimo dá lugar ao todo, ou seja, os detalhes são, sem dúvida, parte fundamental da funcionalidade e da beleza da obra da dupla, sendo impecável o modo como exploram essa unidade e as várias nuances sonoras que aplicam, de um modo que instiga, hipnotiza e emociona. Quanto ao video, a junção de paisagens amplas e naturais, com elementos abstratos, funciona como uma metáfora interessante da sonoridade dos Shirley Said que, fazendo juz à descrição deste single acima plasmada, gravita na fusão de dois universos sonoros ambivalentes, onde o sintético e o orgânico se fundem. Confere...


autor stipe07 às 17:55
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Sábado, 21 de Fevereiro de 2015

Vast ‎- Making Evening And Night

Compilação de demos e temas que foram ficando de lado em edições anteriores, Making Evening And Night é o mais recente lançamento dos VAST, um coletivo norte americano dos arredores de Washington liderado por Jon Crosby, que também costuma produzir os discos da banda, ao qual se juntam Michael Cry, Ben Fenton eTabber Millard.

As siglas VAST significam Visual Audio Sensory Theater e o indie rock progressivo e industrial do quarteto é um verdadeiro desafio sensorial para os nosso ouvidos. Com os instrumentos sempre ligados à corrente, muitas vezes em oposição ao forte apelo que Crosby sente relativamente à guitarra acústica durante o processo de composição, existe neste projeto uma forte componente eletrónica, que origina um caldeirão sonoro que encontra no eletro rock uma boa base de definição, cujo espetro se alarga ainda mais devido à postura vocal muito próxima do grunge e do rock clássico.

Depois de um início de carreira bastante ruidoso mas particularmente melódico, que foi inaugurado em 1998 com um homónimo, os registos recentes dos VAST identificam-se mais como um rock acústico, com as atmosferas criadas em April (2007) e Me And You (2009) a darem uma primazia maior a paisagens sonoras mais contemplativas.

Em vinte e dusas canções os VAST fazem uma retrospetiva clara de uma carreira recheada de momentos altos e amplamente destacada e bem sucedida nos Estados Unidos, sendo Making Evening And Night uma porta de entrada perfeita e completamente escancarada para o universo de uma banda com um percurso já sólido e profícuo e feliz a agregar tudo aquilo que tem de melhor o indie rock atual, através de um esqueleto instrumental eminentemente melancólico e só possível de replicar por quem reside num universo algo sombrio e fortemente entalhado numa forte teia emocional amargurada. Espero que aprecies a sugestão...

Vast‎- Making Evening And Night

CD 1
01. Again And Again
02. No One Could Know
03. Where’d You Go?
04. It’s Time
05. Like God
06. Call On Me
07. The Thing They Took
08. They Only Love You When You Die
09. There Is No Tomorrow
10. The Trail Of Tears
11. The Fire Of Love

CD 2
01. Something About You Turns Me On
02. Noise
03. Put Your Lips Around My Generation
04. Diamonds To Coal
05. Whisper My Name
06. Burning Desire
07. Desperate
08. I Would Like It
09. Broken Girl
10. Kimi
11. I Want It Back


autor stipe07 às 15:12
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Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2015

Pond – Man It Feels Like Space Again

São Francisco, na Califórnia e Perth na Austrália, são os dois grande polos atuais do indie rock piscadélico e, oriundos do último, os Pond de Nick Allbrook, Jay Watson, Joseph Ryan, Jamie Terry, um verdadeiro projeto paralelo dos Tame Impala, um dos nomes maiores do género e uma banda obrigatória para todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se deliciam com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

Produzido por Kevin Parker, Man It Feels Like Space Again é o sexto álbum dos Pond, um trabalho lançado no passado dia vinte e três de janeiro por intermédio da Modular e que tem no fuzz rock a sua pedra de toque, talvez a expressão mais feliz para caraterizar o caldeirão sonoro que os Pond reservam para nós e que logo na imponência de Waiting Around For Grace e no festim grandioso de Elvi´s Flaming Star, fica claramente plasmado.

As guitarras são, como seria de esperar, o combustível que inflama os raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro dos Pond, feitas de acordes rápidos, distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez. Mas a receita também se compôe com sintetizadores munidos de um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias, uma secção rítmica feita com um baixo pulsante e uma bateria com um forte cariz étnico, que é várias vezes literalmente cortada a meio por riffs de guitarra, numa sobreposição instrumental em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa busca de acessibilidade que, por exemplo, Hobo Rocket, o antecessor, não continha tanto, apesar da excelência do seu conteúdo. A delicada sensibilidade das cordas que suporta a cândida melodia do belíssimo instante de folk psicadélica chamado Holding Out For You e a monumentalidade comovente de Sitting Up On Our Crane são dois extraordinários tratados sonors que resgatam e incendeiam o mais frio e empedrenido coração que se atravesse e plasmam, além do vasto espetro instrumental presente no disco, a capacidade que estes Pond também têm para compôr peças sonoras melancólicas e transformar o ruidoso em melodioso com elevada estética pop

A energia contagiante do eletropunk blues enérgico e libertário, que escorre por todos os poros de Zond, o mais recente single retirado de Man It Feels Like Space Again, um tema que assenta numa voz viciante e numa espiral de sons sintetizados, fortemente lisérgicos e aditivos é, em sentido oposto, outro exemplo claro de toda a amálgama cuidadosamente concebida pelos Pond, ampliada pelo video que é mais uma viagem alucinante filmada por Johnny Mackay, que criou um cenário de artifícios caseiros e adereços imperfeitos, colagens de fundos pintados à mão e um guarda-roupa, no mínimo, original. Já agora, torna-se obrigatório visualizar os videos dos Pond e perceber a forte ligação que existe sempre entre eles e a música, visto estarmos na preença de um coletivo que dá enorme importância à componente visual da sua música, algo que a banda desenhada do artwork do disco também exemplifica.

O álbum avança e depois de em Heroic Shart sermos invadidos por um efeito vocal reverberado que ecoa e paralisa, no meio de uma amálgama assente numa programação sintetizada de forte cariz experimental, Man It Feels Like Space Again prossegue a sua demanda triunfal na insanidade desconstrutiva e psicadélica em que alicerçam as camadas de sons que dão vida a Outside Is The Right Side, canção extremamente dançavel, já que mistura R&B, pop, hip-hopelectrónica, com noção de equilíbrio e um limbo perfeito. Neste instante, quando damos por nós, já completamente consumidos pelo arsenal infinito de efeitos, flashes e ruídos que correram impecavelmente atrás da percussão orgânica e bem vincada que sustentou esse tema, percebemos que não há escapatória possível desta ode imensa de celebração do lado mais estratosférico, descomplicado e animado da vida.

É impossível escutar este trabalho e ficarmos imóveis no recanto mais aconchegante que geralmente nos abriga; Torna-se indispensável deixar que o nosso corpo absorva todas as sensações inebriantes que este disco oferece gratuitamente e, repetindo o exercício sensorial várias vezes, permitirmos que depois se liberte o imenso potencial de energia que estas composições recheadas de marcas sonoras rudes, suaves, pastosas, imponentes, divertidas e expressivas, às vezes relacionadas com vozes convertidas em sons e letras e que atuam de forma propositadamente instrumental proporcionam. Aqui tudo é dissolvido de forma tão aproximada e homogénea, que Man It Feels Like Space Again está longe de revelar todos os seus segredos logo na primeira audição. Por exemplo, o ritmo lento e claramente acústico inicial de Medicine Hat é algo enganador porque a canção é subitamente alvo de um intenso upgrade sonoro, fortemente lisérgico, cósmico e imponente, deixando-nos em suspense relativamente ao que resta ouvir da composição e que acaba por ser uma forte cabeçada que nos agita a mente na forma de um riff melódico assombroso, carregado de distorção e perfeitamente diabólico. O tema homónimo, um imenso instante de rock progressivo, onde os Pond gastam todas as fichas e despejam os trunfos que alicerçam a sua estrutura sonora complexa, é uma canção que sabe claramente a despedida, num cenário verdadeiramente complexo, vibrante e repleto de efeitos maquinais que proporcionam sensações únicas.

Já com um acervo único e peculiar e que resulta da consciência que os músicos que compôem este coletivo têm das transformações que abastecem a música psicadélica atual, os Pond são umbilicalmente responsáveis por praticamente tudo aquilo que move e se move neste género e já se assumiram como referências essenciais para tantos outros. Querendo estar mais perto do grande público e serem comercialmente mais acessíveis, nesta parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que é Man It Feels Like Space Again, além de não colocarem em causa a sua própria integridade sonora ou descurarem a essência do projeto, propôem mais um tratado de natureza hermética e não se cansando de quebrar todas as regras e até de desafiar as mais elementares do bom senso que, no campo musical, quase exigem que se mantenha intocável a excelência, conseguem conquistar novas plateias com distinção. Os Pond sabem como impressionar pelo arrojo e mesmo que incomodem em determinados instantes da audição, mostram-se geniais no modo como dão vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Pond - Man It Feels Like Space Again

01. Waiting Around For Grace
02. Elvis’ Flaming Star
03. Holding Out For You
04. Zond
05. Heroic Shart
06. Sitting Up On Our Crane
07. Outside Is The Right Side
08. Medicine Hat
09. Man It Feels Like Space Again


autor stipe07 às 21:11
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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2015

Tiny Victories – Haunts

Oriundos de Brooklyn, em Nova Iorque, os norte americanos Tiny Victories são uma dupla formada por Greg Walters e Cason Kelly, uma banda que se estreou recentemente nos discos com Haunts, um álbum com onze canções que sucede ao EP Those Of Us Still Alive, editado em 2012.

Haunts encarna um desejo claro por parte dos Tiny Victories de criar um forte impacto, explorando uma amálgama de referências dentro do universo sonoro que aposta na fusão de rock, com a pop, a soul e o funk, fazendo-o de uma forma direta e com elevado apelo comercial, mas também sem descurar uma vertente mais densa e sombria e marcadamente experimental. Existiu, sem dúvida, um aturado trabalho de produção, nenhum detalhe foi deixado ao acaso e houve sempre a intenção de dar um sentido épico e grandioso às canções, arriscando-se o máximo até à fronteira entre o indie mais comercial e o teste de outras sonoridades, uma receita levada à prática com o firme propósito de criar ambientes sonoros amplos, luminosos e onde a banda projeta inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção.

Oriundos de um universo sonoro bastante peculiar e com os TV On The Radio a serem, certamente, referência fundamental, os Tiny Victories empacotam as sua canções com melodias impregnadas com uma assumida pompa sinfónica e inconfundível, sem nunca descurar as mais básicas tentações pop e onde tudo soa utopicamente perfeito. Do indie rock clássico de Drinking With Your Ghost, ao clima épico, expansivo e luminoso de System e This Revolution, passando pela pop sintetizada de Let It Burn, uma canção dominada por um sintetizador repescado no período aúreo do eletropop dos anos oitenta, não faltam em Haunts instantes que deambulam pela pop mais requintada e pelo rock progressivo cheio de distorções inebriantes, feitas com pedais carregados de reverb e arranjos captados das mais diversas fontes orgânicas e sintéticas.

Com um ambiente sonoro geralmente empolgante e ritmado e um som de fundo orquestralmente rico, Haunts plasma uma saudável incerteza, ironicamente reconfortante, relativamente ao que poderá reservar o futuro deste grupo nova iorquino, mas é natural a sensação de prazer que qualquer conhecedor profundo do espetro sonoro onde eles se situam sente ao escutar este trabalho. Espero que aprecies a sugestão...

Tiny Victories - Haunts

01. Drinking With Your Ghost
02. Scott And Zelda
03. Systems
04. Let It Burn
05. This Revolution
06. Austin, TX
07. Proton Pagoda
08. Life Is Boring
09. Our Lady Of Route 80
10. Justine
11. You’re Gone


autor stipe07 às 19:03
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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2015

Subplots - Autumning

Oriundos de Dublin, na Irlanda, os Subplots são uma dupla formada por Phil Boughton e Daryl Chaney (autor do belíssimo artwork deste disco), que ao vivo conta ainda com o baterista Ross Chaney. Estrearam-se nos discos em 2009 com Nightcycles e finalmente já há sucessor. O novo álbum dos Subplots chama-se Autumning e viu a luz do dia a trinta de janeiro por intermédio da Cableattack!!, podendo ser ainda feita a encomenda da edição limitada em vinil no Bandcamp da banda.

É sabido que a dupla funcionalidade da almofada faz dela um objecto perfeito e versátil. Ainda que convenha à madrugada televisiva impingir a todos os que sofrem de insónias as vantagens de uma oitava maravilha ortopédica, anatómica e à prova de ácaros, as qualidades essenciais são as duas comuns a todas as almofadas: dispor de uma face que se possa encharcar de lágrimas e, caso necessário, de um reverso propício a um sono descansado. O próprio acto amoroso geralmente envolve o ajustamento da nuca a uma almofada, que, a bem do conforto, não deve estar húmida. Isto para esclarecer que este novo trabalho dos Subplots, cumpre impecavelmente o aconchego de uma almofada, mas sem existir uma relação direta entre o seu conteúdo e os sentimentos de desgosto e depressão que, frequentemente clamam pela sua presença. Autumning é adequado a servir os nossos propósitos da auto-medicação, mas também em instantes em que é essencial colocar um travão na euforia e satisfaz, com igual mérito, as nossas necessidades de sermos como a avestruz que enterra a cabeça no chão e as do nostálgico que está sempre disposto a exagerar na celebração quando é abençoado pela bondade alheia ou revive as mais queridas memórias de outrora.

Numa perspectiva ainda mais intimista, a música dos Subplots é associável ao sentimento que se vive durante o impasse entre o aperto de mão e a consumação horizontal. Serve, nesses casos, os propósitos fantasiosos de quem passa a noite de gin na mão a observar a mais decotada das manequins que dançam na pista da discoteca da moda. No pior dos casos, e arrisco aqui um freudismo muito caseiro, a repetição mecanizada dos loops básicos que os Subplots extraem das cordas e das teclas pode até satisfazer uma qualquer necessidade física comum a ambos os sexos, mas mais afeta ao masculino. Ficam a cabo do leitor as restantes ilações.

Autumning oferece-nos instantes em que os instrumentos clamam pela simplicidade e outros em que a teia sonora se diversifica e se expande para dar vida a um conjunto volumoso de versos sinceros, sons acinzentados e um desmoronamento pessoal que nos arrasta sem dó nem piedade para um ambiente que oscila entre a amplitude luminosa da crença e o cariz nostálgico da dúvida e do receio, em canções que tanto podem ser extremamente simples e prezar pelo minimalismo da combinação instrumental que as sustenta, como Wave Collapse, Colourbars ou a percurssão de Escherich, ou soarem mais ricas e trabalhadas, sendo 9/8 ou a esplendorosa Epilogue raros exemplos atuais da tomada de consciência de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes. Aliás, Future Tense, o primeiro avanço divulgado de Autumning, uma obra de arte que balança entre a dream pop e o rock progressivo, delicada e envolvente e que emociona facilmente os mais incautos e de lágrima fácil, já que é alicerçada num piano adulto e jovial, à volta do qual gravita uma voz deslumbrante e uma guitarra que adivinha um clímax sónico com forte sentido de urgência, deixou logo fortes indicações acerca do modo como esta dupla se serve principalmente de guitarras, que parecem amiúde estar assombradas, para criar melodias que circulam ao nosso redor, criando uma atmosfera no mínimo encantadora

Autumning é a página do nosso diário pessoal onde contabilizámos o número de parceiros sexuais, ao elaborar uma lista em que incluimos apenas as iniciais dos seus nomes. Descobrir uma resolução concreta para o seu conteúdo é como tentar diferenciar a cor do céu aquando do anoitecer da tonalidade que este assume pela aurora, sendo a prova irrevogável de que, para compreender o estado atual do que melhor propôe o universo sonoro alternativo é obrigatória a passagem pelo universo Subplots. Espero que aprecies a sugestão...

1. Wave Collapse
2. The Sunken Wild
3. Escherich
4. Colourbars
5. 9/8
6. Future Tense
7. End of Print
8. Follower
9. Epilogue

 


autor stipe07 às 21:14
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Sábado, 7 de Fevereiro de 2015

The Charlatans – Modern Nature

Um dos fenómenos mais consistentes, duradouros e bem sucedidos da britpop são os The Charlatans, de Tim Burgess, ao qual se juntam atualmente o guitarrista Mark Collins, o baixista Martin Blunt e o teclista Tony Rogers. Nascidos no final da década de oitenta e com a estreia nos discos no primeiro ano da seguinte com o clássico Some Friendly, somam já doze álbuns no seu cardápio e um percurso imaculado assente num indie rock anguloso, aditivo e com uma particular veia experimental.

Gravado no estúdio da própria banda, chamado Big Mushroom e lançado no passado dia vinte e seis de janeiro, Modern Nature é o novo trabalho dos The Charlatans e um marco importante para um grupo que foi recentemente colocado há prova, há semelhança do que já tinha sucedido há mais de duas décadas. Quando em 1996 Rob Collins, o primeio teclista da banda, faleceu num acidente de carro, os The Charlatans criaram a sua obra de arte no ano seguinte, intitulada Tellin' Stories; Agora, dois anos após a morte do baterista Jon Brookes devido a doença prolongada, que ainda não tem substituto oficial, a banda decidiu seguir com os planos e recrutou Gabriel Gurnsey dos Factory Floor, Stephen Morris dos New Order e Pete Salisbury dosThe Verve, para a gravação deste novo álbum, três nomes de peso e que contribuiram decisivamente para que chegasse aos escaparates um trabalho com um conteúdo também de elevada qualidade e que plasma os principais atributos do grupo, acima referidos.

A mistura do rock clássico com sonoridades mais experimentais fez escola em finais de década de noventa em terras de Sua Majestade, com os Stone Roses, Primal Scream e estes The Charlatans, entre outros, a encabeçarem um verdaeiro motim, para regozijo da agitada juventude birtãnica, sempre sedenta de novas experiências e daquela efervescência que o clima local não proporciona e que acaba por ser a música, muitas vezes, a ter esse papel agitador e impulsivo.

Modern Nature é o trabalho que atualmente melhor revitaliza e faz o ponto da situação desse movimento, baptizado de Madchester, com onze excelentes exemplares de rock mutante, que dão vida a letras impressivas e inspiradas, num disco atemporal e revivalista, porque é de hoje, mas podia ter sido editado há vinte e cinco anos. Canções como a soul negra de Keep Enough, o luminoso e aquático single So Oh, o groove pop que sobrevive da fusão entre teclado e guitarra em Let The Good Times Be Never Ending, o tributo ao rock dos anos sessenta feito em dose dupla com Keep Enough e Emily, dois temas onde as cordas impressionam, assim como alguns instrumentos de percussão algo inéditos,com destaque para o bongo, são uma resoluta declaração de sobrevivência misturada com a reflexão que os The Charlatans certamente fazem sobre o seu som e como ele pode sobreviver imaculado à passagem do tempo. Por outro lado, as batidas sintéticas de Talking Tones e Trouble Understanding e o piano elétrico e o baixo sinuoso de Come Home Baby dão ao grupo o indispensável cunho atual e moderno e acomodam-nos temporalmente nas mais recentes tendências.

Simultaneamente modernos e revivalistas e naturalmente genuínos, os The Charlatans conseguem dar à carreira um enorme fôlego com este Modern Nature e reúnem os ingredientes necessários para manter a saua base fiel de seguidores e angariar para a causa os mais entusiastas seguidores das novas tendências do indie rock alternativo, superando com distinção mais uma enorme prova de fogo. Espero que aprecies a sugestão... 

The Charlatans - Modern Nature

01. Talking In Tones
02. So Oh
03. Come Home Baby
04. Keep Enough
05. In The Tall Grass
06. Emilie
07. Let The Good Times Be Never Ending
08. I Need You To Know
09. Lean In
10. Trouble Understanding
11. Lot To Say


autor stipe07 às 21:51
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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2015

Yes, Gorillaz Returns

Mais de três anos após o lançamento de The Fall, os Gorillaz de Damon Albarn e Jamie Hewlett deram finalmente indicações concretas de que o regresso poderá estar próximo e que o período de hibernação terá, finalmente, o seu epílogo.

Foi o próprio Jamie Hewlett quem confirmou a novidade no Instagram, com a mensagem de Yes, Gorillaz Returns, precedida de imagens de novos desenhos de Murdoc e Noodle.

Depois de Murdoc, Noodle e os restantes companheiros terem gravado The Fall numa ilha secreta flutuante no Pacífico Sul, onde instalaram o quartel-general da Plastic Beach, feito de detritos, ruínas e restos da humanidade, fica agora a curiosidade para perceber onde será o local de gravação do novo trabalho da banda virtual mais conhecida do planeta e umas das minhas preferidas, que deverá ver a luz do dia lá para 2016.
Em 2014, Damon Albarn lançou o seu primeiro álbum de originais, Everyday Robots , e tinha logo anunciado planos para este novo disco dos Gorillaz, mas também para os fantásticos The Good, The Bad & The Queen. Recordemos dois dos melhores momentos destes dois projetos.

 

 


autor stipe07 às 14:03
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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015

Song By Toad, Records - Magic Beanz!

Magic Beanz! é o título da nova compilação da etiqueta escocesa Song By Toad, Records, um cardápio de canções com alguns dos destaques que a editora vai lançar e divulgar este ano. Disponível para download gratuito na página da etiqueta, o disco contém seis temas, sendo o primeiro o punk rock shoegaze de This Morning We Are Astronauts, um dos destaques de A Distorted Sigh, o trabalho de estreia dos Garden Of Elks, que chegará lá para abril.

Depois dos Garden Of Elks, Magic Beanz! prossegue com a eletrónica etérea e psicadélica de Basketball Land, um dos grandes temas de Place Is, o novo EP dos Le Thug, que tem edição prevista para o dia de São Valentim. A seguir é a vez de Cafe Royal, um lindíssimo instrumental, assente num belo piano, retirado de Be Embrace, You Millions, o novo disco do projeto de Ian Turnbull da Broken Records, que assina este disco como digitalanalogue e que verá a luz do dia, no formato vinil, em março.

Para a reta final da compilação temos Vice Over Reason, uma canção retirada do alinhamento de Sunlight on Black Horizon, o álbum de estreia do projeto Numbers Are Futile, composto por músicos gregos e portugueses e que aposta num som espacial, experimental, psicadélico, barulhento e melódico, que atiça todos os nossos sentidos. Depois há ainda Burial Party, um fantástico instante de indie rock da autoria dos escoceses Plastic Animals, presetes a estrear-se nos discos com Pictures From The Blackout e, para aterrar, BLT, uma nova canção de Passion Pusher, o alter ego sonoro de James Gage, um músico também escocês, natural de Edimburgo e que sobrevive à custa do assertivo clima de um garage rock ligeiro, algo baladeiro e boémio.

Como se percebe, 2015 será um ano em cheio para esta etiqueta liderada pelo meu amigo Matthew Young e estou certo que estes trabalhos serão objeto de revisão e divulgação mais aturadas neste espaço.


autor stipe07 às 21:31
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