Terça-feira, 16 de Maio de 2017

Tomara - Coffee And Toast

Será no final do verão, lá para setembro, que chegará aos escaparates Favourite Ghost, o disco de estreia do projeto Tomara da autoria de Filipe Monteiro, um músico que começou por estudar Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes e que trabalhou em vídeos e na parte visual de concertos de nomes como os já extintos Da Weasel, mas também com Paulo Furtado, David Fonseca, Rita Redshoes, António Zambujo e Márcia.

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Filipe Monteiro olha para o mundo que o rodeia com uma assertividade incomum, referindo que o mesmo se constrói de exercícios filosóficos que se transformam em tratados lançados para o barulho dos nossos dias e que é importante, vestirmo-nos, se de sapiência formos ricos, do que vale a pena. Este acaba por ser o mote para um álbum que certamente fará uma reflexão crítica bastante pessoal de uma contemporaneidade comum a todos nós, mas que pode ser observada e analisada com diferentes olhares e através de diversos ângulos, sendo o de Filipe claramente aquele que privilegia a componente visual e a musicalidade dessa mesma abordagem.

O balanço suave das teclas, as guitarras efusivas e a bateria marcante de Coffee And Toast, a primeira amostra divulgada de Favourite Ghost, remetem-nos exatamente para esse universo impressivo, em que a música possibilita a formulação de um ideário e uma trama passíveis de desfilar pela nossa mente, neste caso explicada pelo próprio autor como uma canção que narra de forma bela e redentora dias em que a felicidade foi, circunstancialmente, mergulhada num qualquer nevoeiro desordenado e difícil, quase penumbroso. mas com a música a voltar a colocar tudo nos eixos, já que devido a ela o amor emerge ressoante. Confere o tema e o vídeo do mesmo, da autoria do próprio Filipe C. Monteiro...


autor stipe07 às 14:11
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Segunda-feira, 15 de Maio de 2017

Ganso - Pá Pá Pá

Os Ganso são Gonçalo Bicudo (Baixo Eléctrico), João Sala (Voz e Teclados), Luís Ricciardi (Guitarra Eléctrica e Piano Eléctrico), Miguel Barreira (Coros e Guitarra Eléctrica) e Thomas Oulman (Coros e Bateria) e Pá Pá Pá o novo registo de originais deste coletivo natural de Lisboa, uma edição abrigada à sombra da insupeita editora Cuca Monga, morada dos Capitão Fausto e outras bandas satélite deste grupo (Bispo, El Salvador), mas também de Luis Severo, outro dos nomes mais profícuos do universo indie pop nacional contemporâneo.

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A audição de Pá Pá Pá transporta-nos, logo à primeira impressão auditiva, para o dealbar do indie rock psicadélico, bem ali nos anos sessenta e setenta, uma abordagem muito em voga atualmente por cá, suportada por guitarras solarengas, plenas de fuzz e vozes geralmente ecoantes e com um certo pendor lo fi. No entanto, um dos maiores atributos dos Ganso neste trabalho, foi terem sabido pegar em possíveis influências que admiram e dar-lhes um cunho muito próprio, uma marca deles, única e distinta. É um indie rock clássico e vibrante e que não dispensando uma sonoridade urbana e clássica contém, como se percebe logo em Conversas Repetidas, algumas nuances rítmicas e percurssivas que nos remetem para o nosso ideário mais tradicional e para alguma da herança deixada por lampejos de uma ruralidade muito nossa e genuína.

Gravado, produzido e misturado pelo Diogo Rodrigues e masterizado pelo Miguel Pinheiro Marques, Pá Pá Pá contém nove temas que se bebem de um trago só e que, se devidamente apreciados, poderão ter um efeito particularmente saboroso e inebriante, num disco excelente para o verão que se aproxima e que se for alvo de repetidas audições permitirá que determinados detalhes e arranjos se tornem cada vez mais nítidos e possam, assim, ser plenamente apreciados.

Depois do excelente mote dado pela já referida canção Conversas Repetidas, entramos por Pá Pá Pá adentro com Grilo do Nilo, uma canção rápida, incisiva e direta, com a habitual toada rock, algo experimental, crua e psicadélica e onde sobressai a insistente repetição do título do disco ao longo do refrão. É mesmo um daqueles temas que convidam à dança espontânea. Mas depois também há um espraiar buliçoso na imponência das cordas e nas teclas que conduzem O Que Há Por Cá, o rock mais boémio e satírico de Brad Pintas, o banquete festivo com guitarras carregadas de fuzz no cardápio instrumental de Quando A Maldita e, de modo mais experimental e progressivo, em Dança de Sabão, instrumental redentor no modo que transpira uma profunda sensação de conforto coletivo por tudo aquilo que Pá Pá Pá certamente ofereceu aos seus criadores.

Pá Pá Pá é o contributo nacional de peso para a equipa formada por aquelas bandas que ajudam a contrariar quem, já por milhares de vezes, anunciou a morte do rock. Podendo, no futuro, abrir novas possibilidades de reinvenção do seu som, atravessando terrenos ainda mais experimentais, etéreos e com alguma dose de eletrónica, os Ganso acabam de se tornar num dos nomes de referência do melhor indie rock alternativo que ilumina o nosso país, um tipo de sonoridade que, pessoalmente, considero bastante apelativa. Espero que apreciem a sugestão...


autor stipe07 às 15:55
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Quinta-feira, 4 de Maio de 2017

Noiserv - Se O Tempo Não Falasse (vídeo)

Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na bagagem um compêndio de canções que fazem parte dos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless Almost Visible Orchestra, adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's Therehavendo, desde o outono do último ano, mais um compêndio de canções para juntar a esta lista. Refiro-me a um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mas um registo que é mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional, de um artista que nos trouxe uma nova forma de compôr e fazer música e que gosta de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera das suas canções e a realidade às vezes tão crua e que ele também sabe tão bem descrever.

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Além dos concertos de promoção de 00:00:00:00, Noiserv também entrou no novo ano a fazer parte do elenco de compositores convidados a criar composições sonoras para a mais recente edição do Festival da Canção. Para o efeito compôs o lindíssimo tema Se O Tempo Não Falasse e contou com a voz de Inês Sousa para dar ainda mais vida à orquestra de sons que adornaram e suportaram um edifício sonoro tão cativante como o mais belo sorriso que aquela criança que tanto amamos nos oferece logo pela manhã, ou a força que tem a luz do sol da primavera com que todos idealizamos de alterar o estado físico do coração mais empedernido e sufocado pelas agruras insensíveis de uma existência comum. Agora, algumas semanas depois do evento, divulgam o vídeo da mesma, com realização e edição de ambos. Confere...

Próximos concertos noiserv de apresentação do disco 00:00:00:00

SEX. 05 de MAIO – Salão Medieval da UMinho, Braga (PT)
SÁB. 06 de MAIO – Teatro Stephens, Marinha Grande (PT)
SEX. 12 de MAIO – Os Artistas, Faro (PT)
SÁB. 13 de MAIO – Teatro Municipal, Portimão (PT)
SÁB. 20 de MAIO – Teatro Académico Gil Vicente [TAGV], Coimbra (PT)
SÁB. 27 de MAIO – Matadero, Madrid (ES)


autor stipe07 às 16:02
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Quarta-feira, 26 de Abril de 2017

Galo Cant’Às Duas - Os Anjos Também Cantam

Moita, no concelho de Castro Daire, é um ponto geográfico nevrálgico fulcral para o projeto Galo Cant’às Duas, uma dupla natural de Viseu, formada por Hugo Cardoso e Gonçalo Alegre e que tocou pela primeira vez nesse local, de modo espontâneo, durante um encontro de artistas. Nesse primeiro concerto, o improviso foi uma constante, com a bateria, percussões e o contrabaixo a serem os instrumentos escolhidos para uma exploração de sonoridades que, desde logo, firmaram uma enorme química entre os dois músicos.

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Inspirados por esse momento único, Hugo e Gonçalo arregaçaram as mangas e começaram a compor pouco tempo depois, ao mesmo tempo que procuravam dar concertos, sempre com a percussão e o contrabaixo na linha da frente do processo de construção sonora. A guitarra e o baixo elétrico acabam por ser dois ingredientes adicionados a uma receita que tem visado, desde este prometedor arranque, a criação de um elo de ligação firme entre duas mentes disponíveis a utilizar a música como um veículo privilegiado para a construção de histórias, mais do que a impressão de um rótulo objetivo relativamente a um género musical específico.

O desejo de gravar um disco de estreia acabou por ser um passo óbvio para os Galo Cant'às Duas e para isso refugiaram-se, com a ajuda de Miguel Abelaira, durante uma semana nos estúdios HAUS com Makoto Yagyu e Fábio Jevelim para gravar, produzir e misturar Os Anjos Também Cantam, nome desse trabalho lançado pela Blitz Records e distribuído pela prestigiada Sony Music Entertainment.

O disco arranca com Marcha dos que voam, a primeira amostra divulgada, uma canção que plasma a inegável ousadia e mestria instrumental da dupla, que pôe um olho no rock progressivo e outro num salutar experimentalismo psicadélico e depois chega Respira, uma composição que impressona pelo efeito inicial das cordas, livres e expansivas, parceiras ideais da bateria para uma viagem de descoberta de um leque variado de extruturas e emoções que se vão sobrepondo e antecipando diversas quebras e mudanças de ritmo e fulgor. Depois, num curioso efeito agudo, na distorção de uma flauta que amiúde corta e rebarba e no potente riff do baixo que marca o pendor de Processo Entre Viagens e, no ocaso, a aparição da voz que afirma apenas e só, mas de modo convincente, Seremos todos nada, para que te convenças, abraçada por uma melodia sintetizada frenética, em Aparição, encerram pouco mais de trinta minutos de um registo que é um dos mais desafiantes, sensoriais, inusitados e multifacetados do cenário musical indie e alternativo nacional de 2017. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 13:15
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Sexta-feira, 21 de Abril de 2017

Trêsporcento - Território Desconhecido

Quase cinco anos depois do excelente Quadro, os lisboetas Trêsporcento, deTiago Esteves (voz e guitarra), Lourenço Cordeiro (guitarra), Salvador Carvalho (baixo), Pedro Pedro (guitarrista) e António Moura (baterista), parecem apostados em fazer de 2017 mais um ano memorável na já respeitável carreira de um dos projetos essenciais do universo indie sonoro nacional. Para isso contam com Território Desconhecido, o terceiro e novo álbum do grupo, que viu a luz do dia a sete de abril último.

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Gravado desde Junho passado até ao início deste ano, misturado por Carlos Jorge Vales e masterizado por Miguel Pinheiro Marques, Território Desconhecido conta com a participação especial de Flak (Rádio Macau, Micro Audio Waves), que produziu e gravou o disco no Estúdio do Olival, à excepção das baterias que foram captadas por Manuel San Payo.

Logo em O Sonho, tema que abre o alinhamento de Território Desconhecido e a concretização de um desejo antigo da banda de compôr uma canção em que o refrão fosse um simples instrumental, fica vincada uma salutar ideia de maturidade, numa canção atual e que nos mostra uns Trêsporcento fiéis a si próprios e a trilharem de modo assertivo e criativo aquele percurso sonoro que sempre os norteou, assente numa indie pop aberta e luminosa e sempre cantada em português.

Depois da porta para esse Território Desconhecido se abrir de modo opulente e magnâmino, somos surpreendidos em Um Grande Passo pela exuberância contida mas firme de uma flauta transversal, que, aliando-se às cordas, recosta-nos para o fundo daquele fiel cadeirão onde bocejamos as nossas agruras amorosas. Mas pouco depois e logo a seguir à luminosidade incontida dos punhos fechados que conduzem Tempos Modernos, somos salvos pelo ambiente intimista de Stoner, canção que parecendo levitar num oásis de detalhes eletrónicos, contém um suave travo vintage, ao nível dos arranjos da guitarra e dos detalhes vocais, à herança da nossa música mais tradicional.

Até ao ocaso de Território Desconhecido nunca nos sentimos defraudados pela audição de todo este receituário inédito no panorama sonoro nacional atual e, à medida que o alinhamento prossegue, conseguimos, com indubitável clareza, perceber os diferentes elementos sonoros que vão sendo adicionados e que esculpem as canções, com as guitarras, melodicamente sempre muito próximas da voz e alguns arranjos sintéticos a sobressairem, não porque ficam na primeira fila daquilo que se escuta, mas porque suportam aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que uma canção toma e nas sensações que transmite. Quer na arrebatadora simplicidade das cordas de Cabeça Ocupada, canção com um grau de emotividade extrovertida ímpar, ou no devaneio rock de A Ciência, assim como, numa faceta oposta, no posicionamento clássico do dedilhar da viola que constrói a melodia de Papa Figos, tema que homenageia o famoso vinho da Casa Ferreirinha, mesmo havendo várias abordagens díspares a um território sonoro impecavelmente delimitado, é possível irmos, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa espécie de indie rock pop folk feito por mestres impregnados com um intenso bom gosto e que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um charme ainda maior pela peça em si que este disco representa.

Escutar os Trêsporcento atualmente é um elixir revitalizador para o espírito, aconchega a alma e faz esquecer, nem que seja por breves instantes, aquelas atribulações que de algum modo nos afligem. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:36
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Terça-feira, 4 de Abril de 2017

oLUDO - Abraço

Estrearam-se em 2009 com Nascituro, disco que incluia o grande sucesso A Minha Grande Culpa, um dos temas mais rodados das rádios nesse ano e que foi escolhido para banda sonora dos separadores do canal Sic Radical. Dois anos depois regressaram aos lançamentos discográficos com Almirante e agora, três anos volvidos, estão de regresso com um álbum intitulado Abraço. Falo dos oLUDO, um coletivo algarvio formado por Davide Anjos, João Baptista, Nuno Campos, Paulo Ferreirim e Luis Leal.

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Álbum que, de acordo com os próprios, procura personificar uma espécie de encruzilhada entre o rock e o indie pop português, Abraço era aguardado por cá com enorme expetativa, ampliada depois de ter chegado à nossa redação o single homónimo. E as expetativas não sairam nada goradas porque ao longo das dez canções do alinhamento de Abraço é possível usufruir de uma verdadeira catarse sonora, porque apesar de transportar a gloriosa e profícua era musical portuguesa do final do século passado, tendo-a, continuamente, em ponto de mira, consegue também, de modo transversal, atingir e plasmar uma marca impressiva de contemporaneidade, fazendo-o com um bom gosto estilístico, quer lírico, quer instrumental, realmente incomum.

O disco arranca e no tema homónimo somos logo sugados para os traços indeléveis que caraterizam o adn pop destes oLUDO, embalados pelas guitarras e por uma postura vocal convincente, dois traços que transbordam ao tal período de exaltação que elevou o rock nacional ao seu período de ouro para, logo depois, na distorção da guitarra que embala o refrão de O Que Não Se Vê e no modo como ela se entrelaça com a percurssão em Sangue E Esperança, sermos confrontados com uma toada ainda mais elétrica e progressiva. Já o andamento profundamente hipnótico de Quero O Que Não Vejo exala uma salutar psicadelia que enriquece significativamente o manancial de estilos, tendências e géneros sonoros de um disco que chega a emocionar de modo profundo, e algo particular até, no dedilhar da viola que conduz aos píncaros a delicada nuvem de emoções que exala da lindíssima canção Alma Que Pensa, um momento sublime deste disco, juntamente com o piano que lacrimeja em Tango para a Ana, duas provas felizes de que a pop não precisa de ser demasiado complicada para ser audível com prazer e para ter a capacidade de fornecer tónicos suficientemente poderosos para mover todas aquelas montanhas que asfixiam o nosso âmago.

Em Abraço percebe-se que no processo de construção das canções houve uma guitarra inspirada que pautou a ordem das mesmas e depois foram surgindo os outros instrumentos e toda a avalanhce de arranjos e trechos melódicos que deram aos temas e à toada geral do registo a roupagem que ele necessitou para ter o brilho, a harmonia e a cor que estes músicos certamente procuraram tentar transmitir, num álbum que cativa e que apela a todos os nossos sentidos, ao mesmo tempo que firma estes oLUDO no lote restrito de projetos ímpares e merecedores de superior devoção no panorama sonoro nacional atual. Confere...


autor stipe07 às 21:55
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Sexta-feira, 31 de Março de 2017

Joana Barra Vaz - Mergulho em Loba

Quando no início do passado mês de setembro foi divulgado o tema Tanto Faz, ficou logo bem patente a enorme emotividade, charme e bom gosto de Mergulho Em Loba, o novo disco de Joana Barra Vaz. Contando com a participação especial vocal de Selma Uamusse na voz, a meias com Joana, uma colaboração que surgiu de uma estreita afinidade entre ambas, essa canção foi, portanto, uma excelente porta de entrada para um alinhamento com mais sete temas e que é mais um capítulo da trilogia f l u m e iniciada com Passeio Pelo Trilho (Ed. Azáfama 2012).

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Na música de Joana Barra Voz tudo é cor, alegria e movimento. O modo como ela se comunica connosco corporalmente, não só através da voz mas também da expressividade com que se embrenha nas diferentes personagens que parecem levitar nas suas canções, fazem desta artista um caso sui generis no panorama musical nacional contemporâneo. Nela, como esse single nos mostra, há muito de uma África que imprimiu no nosso adn traços que nunca se extinguirão, mas basta ouvir as cordas que lacrimejam em Margem de Lá para também se entender como Joana transporta no seu âmago muito daquele melancólico virtuosismo lusitano, decalcado séculos a fios por uma ancestralidade escrita a granito e terra preta. Suite I, a curiosa agregação de composições que abre o disco, acaba por concretizar toda esta mistura que, no fundo, é a síntese identitária deste pequeno retângulo, tão rico em multiculturalidade, luz, alegria e esperança, mas também ainda tão impregnado de tudo aquilo que de bom e menos bom têm a bonomia, o cinzentismo, o desânimo fácil e aquela ideia de fatalismo irracional que tantas vezes nos diz presente.

Personificando um universo bucólico bastante impressivo e sentimentalmente rico, Mergulho em Loba presenteia-nos com uma espécie de súmula de toda uma amálgama de elementos e referências sonoras, como se todo o arsenal instrumental que Joana Barra Vaz utilizou servisse para, no momento certo, assim como uma linha de costura, unir pedaços separados e que precisavam de ser agregados. São oito peças sonoras que nos embalam num casulo de seda, criadas por uma virtuosa que possui uma soul claramente envolvente e uma espiritualidade invulgarmente quente, mas também reflexiva.

Mergulho em Loba foi gravado por Bernardo Barata, que foi assistido por Diogo Rodrigues nos Estudios Iá, Luís Nunes e Joana Barra Vaz na SMUP e conta com a participação dos músicos David Pires (Bateria, Arranjos ritmo e sopros, coro), Ricardo Jacinto (Violoncelo), David Santos (Baixo eléctrico), Ana Nagy (Coros), Mário Amândio (Trombone) e Gabriel Correia (Trompa), tendo sido composto, arranjado, e produzido pela própria Joana Barra Vaz, co-produzido por Luís Nunes e misturado por Tiago Sousa. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:20
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Sábado, 18 de Março de 2017

Cave Story - Trying Not To Try (vídeo)

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Os Cave Story de Pedro Zina (baixo), Ricardo Mendes (bateria) e Gonçalo Formiga (guitarra e voz) andam atualmente em digressão pela Europa e acabam de apresentar um belo vídeo para Trying Not To Try, tema que é um dos grandes destaques de West, disco que esta banda das Caldas da Rainha lançou no ocaso do ano passado.

Idealizado pelo próprio Gonçalo Formiga e realizado por João Pombeiro, o filme que ilustra Trying Not To Try continua a narrativa mais recente da banda, quer estética quer sonora, que aqui coabita com diferentes paisagens mais ou menos conhecidas enquanto nos mostra alguns dos seus melhores atributos sonoros, descritos dentro dos abrangentes limites definidos por um post punk pop experimental de elevado calibre. Confere...


autor stipe07 às 17:32
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Terça-feira, 14 de Março de 2017

Vaarwell - Homebound 456

Foi no passado dia dez de março que os Vaarwell de Margarida Falcão, Ricardo Correia e Luis Monteiro, editaram Homebound 456, um lindíssimo trabalho, o longa duração de estreia de um projeto de indie pop nascido em Lisboa em finais de 2014 e que lançou, em Maio de 2015, Love and Forgiveness, o EP de estreia. É um alinhamento de doze canções gravadas por Joaquim Monte no Namouche Estúdio, misturadas e co-produzidas por Paulo Mouta Pereira e masterizadas por Miguel Pinheiro Marques (SDB Mastering). Para além dos Vaarwell, o disco conta ainda com a participação de Tomás Borralho (Anthony Left) e Diogo Teixeira de Abreu (Lotus Fever) nas baterias, Paulo Mouta Pereira (David Fonseca) no piano e Bernardo Afonso (Lotus Fever) nas teclas. O design foi da responsabilidade d​e​ Manuela Abreu Peixoto.

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Homebound 456 é um porto de abrigo acolhedor, cheio de virtudes e tentações, uma lufada aconchegante que nos protege e embala, tenhamos nós a disposição e o desejo de nos deixarmos contagiar por um compêndio de beleza melódica, lírica e instrumental incomum. A voz da Margarida é, por si só, capaz de fazer parar o relógio ao mais empedernido coração e colocá-lo no rumo certo, mas os arranjos e os instrumentos que sustentam as canções permitem também um suave levitar, tal é o rol de emoções que transmitem e a intensidade das mesmas. Se em Floater a distorção da guitarra calcorreia, sem receio, terrenos mais progressivos com forte sabor ao terreno e ao palpável, já nos metais que cirandam por American Dream a emoção instala-se, com 123 a recalcar toda a recatada introspeção, fortemente contemplativa, que Homebound 456 proporciona. Neste tema, o modo como a guitarra explode, não coloca em causa esta agradável sensação de letargia, servindo até como modo de nos fazer perceber que o que ouvimos é real, existe e foi composto por uma banda bastante assertiva, criativa e inspirada no momento de criar música.

Homebound 456 acaba por ser um registo onde tudo se movimenta como uma massa de som em que o mínimo dá lugar ao todo, ou seja, os detalhes são parte fundamental da funcionalidade e da beleza da filosofia dos Vaarwell e a maneira como exploram essa unidade e como selecionam as nuances sonoras que interligam as canções, contém um charme sedutor difícil de explicar. Aliás, se dúvidas ainda vão subsistindo, as variações ritmícas e o arsenal instrumental de Sheets, o tema que encerra o alinhamento, esclarecem definitivamente o mais céptico. No fundo, a receita é uma mescla efusivamente minimal de alguns detalhes implícitos do clássico rock experimental e lisérgico, com alguns dos principais atributos da eletrónica e da pop atual, com todos estes acertos a encontrarem o seu apogeu no tom pueril e na sonoridade sintética de I Never Leave, I Never Go, para mim a melhor música do disco, uma canção de amor que tem como atributo maior um eco que faz parecer que existem dois corações que flutuam no espaço e quando as mãos de ambos se soltam, sem que percebam, e verificam que estão longe demais e já é tarde demais, percebem que só remando para o mesmo lado é que poderão sobreviver a todos os precalços que o amor coloca sempre. O assunto da canção pode não ter nada a ver com esta ideia, mas foi a isso que ela me soube.

No restante alinhamento de Homebound 456, o incrível poema que abastece a nuvem emotiva em que paira You e o incisivo espairecer que nos suscita a guitarra de Waiting Game, por um lado e o estrondoso frenesim sensual plasmado na simplicidade do tema homónimo, por outro, insistem na já descrita indisfarçável filosofia de um álbum que consegue apontar novos faróis a um dos projetos mais distintos e criativos da pop nacional atual e que logo ao primeiro disco instiga, hipnotiza e emociona. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:38
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Segunda-feira, 13 de Março de 2017

Luis Severo - Luis Severo

Apresentado pela Cuca Monga, Luis Severo é o novo álbum de Luís Severo, um homónimo que sucede ao excelente trabalho Cara d’Anjo. Gravado e produzido em Alvalade com a ajuda de Diogo Rodrigues e de Manuel Palha e masterizado por Eduardo Vinhas no Golden Pony, Luis Severo está disponível no bandcamp desde sexta-feira, dia dez de Março e conta com várias participações especiais de relevo, nomeadamente Teresa Castro, Bia Diniz e Primeira Dama nos coros, Tomás Wallenstein nos violinos, Violeta Azevedo nas flautas e Salvador Seabra na percussão. As fotografias do artwork do disco são da autoria de Francisco Aguiar e Raquel Rodrigues.

Registo bastante tocante e emotivo, contendo uma salutar contemporaneidade lírica e instrumental, proporcionada por um dos nomes maiores da nova música nacional, Luis Severo confirma e potencia uma das certezas maiores do panorama musical luso, que foi em tempos apelidado de Messi do nacional-cançonetismo, por causa de Cara d'Anjo, um trabalho de estreia que plasmou todos os excelentes atributos artísticos deste ex-O Cão da Morte. Assim, em oito canções, muitas delas resultantes de melodias que o músico já guardava no seu âmago, aguardando materialização, há alguns anos, Luis Severo configura uma daquelas armadilhas em que todos nós gostaríamos de cair, caso apreciemos as sensações e o modo como certas canções comunicam connosco. A superior complacência romântica que transborda dos violinos de Amor E Verdade, as reminiscências da melhor pop oitocentista que contemplamos na luminosidade de A Escola, o swing buliçoso das cordas de Planície (tudo igual), ou o frenesim charmoso da guitarra que conduz Boa Companhia, podem muuto bem servir de inspiração para os filmes que na nossa mente podemos produzir com estas canções, sendo este realismo impressivo talvez o atributo maior de um trabalho bastante colorido e diversificado, não só porque é sustentado num arsenal de instrumentos das mais inusitadas proveniências, mas também porque, numa outra perspetiva, pode também mostrar-se absolutamente minimal, incrivelmente simples e estupendamente crú, tal é o modo aberto e desafiante como nos convida a exercitarmos a tal apropriação acima referida.

É curioso constatar o acerto temporal em que Luis Severo chega aos escaparates, fazendo-o em pleno inverno tardio, dando-nos tempo para, vagarosamente, selecionarmos toda a trama, cenários e personagens, que depois desfilarão perante nós na próxima primavera, já que este é um alinhamento perfeito para saborear buliçosamente todos os odores, sensações, cores e flirts que a aproximação regular e anual do sol ao nosso hemisfério sempre suscita. E o verão está também logo ali, em O Olho de Lince. Se ouvirem o tema, vão perceber porquê. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 19:12
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