Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2018

Fugly - Hit A Wall

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Pedro Feio, ou Jimmy, começou o projecto Fugly em 2015 quando se fartou de estar sempre atrás da mesa de mistura e começou a querer subir de vez em quando ao palco. Chamou Rafael Silver e, mais tarde, Nuno Loureiro para juntos formarem este grupo oriundo do Porto, que se estreou ainda esse ano com Morning After, um EP que já tem finalmente sucessor. O primeiro longa duração dos Fugly chama-se Millenial Shit, verá a luz do dia por intermédio da editora O Cão da Garagem e o tema homónimo foi o prmeiro single divulgado do registo, sendo agora a vez de já podermos escutar Hit A Wall, o tema arrebatador e frenético que abre o alinhamento do álbum, feito com uma voz gritante, guitarras a arranhar, baixo galopante e um comboio sem controlo que sai da bateria e já com direito a um excelente vídeo. Confere...

 


autor stipe07 às 12:26
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Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2018

Máquina Del Amor - Disco

É em Braga e numa feliz simbiose entre elementos dos peixe:avião e dos Smix Smox Smux que se encontra a génese dos Máquina Del Amor, um quarteto que já carrega nos braços um fabuloso tomo de canções intitulado Disco. São oito temas impregnados com um rock cru, intenso e maquinal, um rock feito sem limites pré-definidos ou concessões a estreótipos de géneros e estilos e do qual exala uma salutar sensação intuitiva. Nela, improviso instrumental e sensibilidade melódica entrelaçam-se constantemente, sem cânones ou fronteiras rígidas e com uma ímpar homogeneidade, um coito desprovido de qualquer tipo de pudor entre o orgânico e o sintético, que acabou por resultar num registo desconcertante e inigualável no panorama sonoro nacional atual.

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Logo no modo lascivo e de certo modo corrosivo como Karate aborda e conjuga efeitos etéreos, distorções rugosas e uma batida bastante proeminente percebe-se que este álbum não é para ser escutado por quem é adepto de ambientes sonoros mais amenos e delicados. Esta sonoridade algo psicótica não é propriamente confortável para o ouvido, mas esse acaba por ser, curiosamente, um dos maiores atributos destes Máquina Del Amor que, mesmo com essa permissa sempre presente, conseguem oferecer ao ouvinte instantes melódicos atrativos e que vagueiam pela nossa mente sem atropelo, alguns de um modo até tremendamente hipnótico, como é o caso de Mau ou o falso minimalismo coercivo de Carta de Amor e, de um modo ainda mais progressivo, Nova Antiga, composição onde a delicadeza emotiva nunca deixa de fazer mossa, mesmo que à medida que o tema se desenvolve, longos loopings sintetizados e riffs de guitarra alucinogénicos, façam a sua aparição sem qualquer tipo de mácula ou entrave.

Disco é rock puro e duro e que corta e rebarba de alto a baixo. Frenético, labiríntico, sufocante e cerebral, é capaz de nos levar do subsolo aos confins do universo num ápice, sendo proposto por um projeto que estará totalmente alheado, de forma consciente, do que são hoje os os habituais patamares de rugosidade instrumental e estilística de um campo sonoro que permite uma multiplicidade infinita de abordagens, mas que nem sempre aceita de bom grado a busca de atmosferas mais opressivas e desoladoras que o habitual, mesmo que isso seja apenas uma primeira impressão que pode até nem corresponder à real génese do trabalho. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 20:58
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Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2017

Gonçalo - Boavista

Figura de proa dos míticos Long Way To Alasca, Gonçalo Alvarez acaba de estrear o seu projeto a solo no formato disco com Boavista, nove cançoes que sucedem a QUIM, o EP que este músico bracarense lançou em 2014 pela Lovers & Lollypops, a mesma etiqueta que abriga este registo. Este disco chega após uma recente participação com Castello Branco, num projeto com o nome de Mar Nenhum, colaboração proposta e promovida pela webzine Bodyspace e que contou com a participação de vários músicos lusófonos.

Gonçalo (Long Way to Alaska) - Boavista

Gravado e produzido por Gonçalo e João Moreira e com várias participações de relevo, nomeadamente André Simão (La La La Ressonance), Filipe Azevedo (Sensible Soccers), João Moreira, João Pereira (Guilty Ones), Jorge Queijo (Torto), Pedro Oliveira (peixe : avião)  e Sérgio Alves (Marta Ren), Boavista é um raio de luz e de cor que flameja com vigor no inverno cinzento e fusco que tem caraterizado os dias mais recentes. Feito com uma instrumentação diversificada que, numa mesma canção, é capaz de ir do simples dedilhar de um par de cordas até à inserção de uma miríade heterogénea de efeitos sintetizados, cruzados por sopros e percurssão de várias proveniências, Boavista é um caldeirão sonoro vivo e tremendamente comunicativo. Carrosséis, com exuberância e Lorosae, de modo mais contido, mas também contundente, mostram-nos, logo a abrir, o esplendor deste receituário estilístico, uma pop refinada, plena de charme e impressiva porque se deixa enlear quase de modo intuitivo pelas memórias que Gonçalo pretende transmitir a quem se predispuser a ser seu confidente íntimo.

O piano é também figura de proa deste sentido quadro, o rei de vários temas, como é o caso de Pianda, uma espécie de divagar soturno por aquele céu onde os sonhos ganham uma leveza irreal, mas também de Bonanza, canção onde a bateria contrasta, parecendo martelar em visões que desvendam algo misterioso e que não é deste mundo, para depois nos aconchegar em Bravo!, uma canção a conter uma acusticidade inicial um pouco sombria, mas simultaneamente festiva e onde uma viola paira delicadamente enquanto debita uma melodia pop simples e muito elegante, para depois se eletrificar sem pudor, proporcionando-nos uma assombrosa sensação de conforto. Mas é na graciosidade algo pueril de Champagna que ficamos definitivamente ofuscados pelo brilho incomensurável de um registo ímpar que não permite entrelinhas ou hesitações.

Boavista é, em suma, uma espécie de pintura sonora carregada de imagens evocativas, pintadas com melodias bastante virtuosas e arrumadas com arranjos meticulosos e lúcidos, que provam a sensibilidade do autor para expressar pura e metaforicamente a fragilidade humana. Gonçalo combina aqui, com uma perfeição raramente ouvida, a música pop com sonoridades mais progressivas e experimentais, provocando um efeito devastador e que torna este álbum numa espécie de disco híbrido perfeito. Espero que aprecies esta sugestão...

 


autor stipe07 às 15:58
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Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2017

Zed Penguim - Wandering

Foto de ZED PENGUIN.

Matthew Winter, James Metcalfe, Casey Miller e Atzi são os Zed Penguin, banda preparada para se apresentar ao mundo com A Ghost, A Beast, um trabalho que irá ver a luz do dia lá para fevereiro, à boleia da escocesa Song, By Toad Records de Matthew Young.

Wandering é o primeiro single divulgado de A Ghost, A Beast, uma ode acústica e tremendamente sentimental à melancolia, feita à base de cordas com um grau de refinamento classicista incomensuravelmente belo. Escrita por Winter há já alguns anos, após ter sofrido graves ferimentos durante um assalto ao hospital psiquiátrico onde trabalhava, é uma canção que expressa a ideia de isolamento de quem tem dificuldade em encontrar o seu lugar neste mundo e que quando o encontra não resiste a regressar ao casulo anterior. Confere...


autor stipe07 às 17:58
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Quinta-feira, 30 de Novembro de 2017

Jaguwar - Crystal

Uma das novas coqueluches da Tapete Records são os Jaguwar, projeto que nasceu em Berlim, na Alemanha, um trio formado inicialmente por Oyémi e Lemmy em 2012 aos quais se juntou Chris dois anos depois. Editaram dois Eps através da americana Prospect Records e tocaram ao vivo numa série de países como Inglaterra, Dinamarca, França, Sérvia, Alemanha, entre outros, partilhando o palco com nomes tão importantes como os We Were Promised Jetpacks, Japandroids e The Megaphonic Thrift, entre outros.

A estreia na Tapete Records será a doze de janeiro de 2018 com Ringthing, o longa duração de estreia do grupo. São dez canções que nasceram depois de o trio, armado com um impressionante leque de aparelhos de efeitos, guitarras, baixos e amplificadores e apoiado por um prodigioso abastecimento de café e cigarros, ter-se instalado nos estúdios Tritone Studio em Hof, na Baviera. Delas já se conhece Crystal, canção que se insere naquele universo sonoro que mistura rock e pop, com uma toada noise e um elevado pendor shoegaze. Já com direito a vídeo, o tema assenta numa guitarra rugosa e plena de efeitos metálicos, acompanhada por uma bateria falsamente rápida, e esta dupla é a mesma que vai ser depois o grande suporte das canções, em volta da qual gravitarão diferentes arranjos, quer orgânicos, quer sintéticos, geralmente com um teor algo minimal. Confere...


autor stipe07 às 17:05
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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

Fugly - Millenial Shit

Pedro Feio, ou Jimmy, começou o projecto Fugly em 2015 quando se fartou de estar sempre atrás da mesa de mistura e começou a querer subir de vez em quando ao palco. Chamou Rafael Silver e, mais tarde, Nuno Loureiro para juntos formarem este grupo oriundo do Porto, que se estreou ainda esse ano com Morning After, um EP que já tem finalmente sucessor. O primeiro longa duração dos Fugly chama-se Millenial Shit, verá a luz do dia por intermédio da editora O Cão da Garagem e o tema homónimo é o mais recente single divulgado do registo, uma canção também já com direito a um excelente vídeo.

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De acordo com o press release de lançamento deste single e de antecipação do álbum, os FUGLY seguem o seu percurso em busca do caos e da excentricidade frenética do noise e do garage, bem como a cura para a ressaca, sendo omillennials a Geração Y, os jovens nascidos entre os anos 80 e os anos 90, época que culminou na maior taxa de nascimentos per capita. São a voz do emprego precário, dos estágios intermináveis, da abstenção política, dos direitos dos animais, do vegetarianismo, da erradicação dos estigmas populares, da preguiça, do aborrecimento, da legalização da marijuana, dos smartphones, da falta de emoção e capacidades sociais, da depressão antecipada, do controlo hormonal e do capitalismo forçado. Confere...


autor stipe07 às 21:31
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Quinta-feira, 9 de Novembro de 2017

Bruno Pernadas e Ricardo Toscano no palco do CCB.

Bruno Pernadas e Ricardo Toscano são ambos músicos de jazz com formação académica na música clássica. Os dois estarão no palco do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém no próximo dia 15 de Dezembro para encerrar o ciclo CCBeat 2017. O concerto preparado em exclusivo para a ocasião conta com um alinhamento maioritariamente inédito executado por um ensemble de luxo que reúne uma secção rítmica, secção de cordas e naipe de sopros e ainda dois cantores convidados.

Imagem intercalada 1

A abordagem tem como base diversos estilos tais como o jazz, o rock, a música exótica, cinematográfica e erudita, sendo o principal solista Ricardo Toscano no saxofone alto. Nas palavras de Bruno Pernadas, que acumula a direcção musical, na conjunção deste ensemble procura-se aquilo que se assume como identitário de cada instrumento, combinando as diferentes linguagens harmónicas, rítmicas, texturais nos vários momentos que integram o espectáculo.

 De acordo com o músico e compositor, a proposta a apresentar é marcada por uma abordagem dinâmica, forte e ambiciosa que traduz-se num concerto onde a composição e a improvisação ocupam um papel determinante no seu resultado final.

Dois excelentes músicos, o multi-instrumentista e compositor Bruno Pernadas e o saxofonista Ricardo Toscano num encontro singular que transforma esta ocasião em algo surpreendente e certamente memorável.

Bruno Pernadas - composição, guitarra e teclados

Ricardo Toscano - saxofone alto, solista

Afonso Cabral - voz (convidado)

Francisca Cortesão - voz (convidada)

Margarida Campelo - piano, teclados e voz

João Correia - bateria

Nuno Lucas - baixo eléctrico

Diogo Duque - trompete

João Capinha - saxofone

Raimundo Semedo - saxofone

Raquel Merrelho - violoncelo

João de Andrade – violino


autor stipe07 às 21:19
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Quarta-feira, 8 de Novembro de 2017

Dear Telephone - Cut

Inspirados pela curta metragem de Peter Greenway intitulada Dear Phone, realizada em 1976, os Dear Telephone vêem de Barcelos e formaram-se há pouco mais de meia década, tendo na sua formação gente que nos tem sempre mostrado, em todos os projectos em que se envolvem, uma inegável qualidade enquanto músicos e que provam que na música se pode fazer sempre algo de inovador e diferente daquilo que o mainstream habitualmente nos oferece. Falo de Graciela Coelho, André Simão, Pedro Oliveira e Ricardo Cibrão, os membros deste grupo obrigatório no panorama sonoro contemporâneo indie nacional. Em março de 2011 os Dear Telephone estrearam-se com o EP Birth Of A Robot, um conjunto de canções com uma abordagem sonora algo crua, intimista e minimalista e que foi muito bem recebido pela crítica e apresentado ao vivo em algumas das mais importantes salas de espetáculos do país. Mas também chegaram ecos desse EP ao estrangeiro, com os Dear Telephone a fornecerem um tema para a banda sonora do filme brasileiro Contramão de Fabio Menezes e a representarem Portugal em agosto desse ano no evento Music Alliance Pact. Dois anos depois, em 2013, estrearam-se no formato longa-duração com Taxi Ballad, um disco onde mergulharam sem concessões no assumido fascínio pelo quotidiano e suas contradições, no discurso directo e desconcertante das personagens que as vozes encarnam e numa instrumentação dura e sem artifícios. Agora, quase no ocaso de 2017, o grupo minhoto está de regresso aos discos com Cut, um compêndio com nove canções alicerçadas em diferentes linguagens e esferas de influência sonora, um disco que experimenta a pop e pisca o olho ao rock, sempre com mestria e com os ingredientes certos.

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No simultaneamente envolvente e enigmático clima cinematográfico do efeito da guitarra que sustenta Fur e no modo como em Slit é piscado o olho ao rock, num formato eminentemente blues, com mestria e com os ingredientes certos, dos quais se destacam essa tal guitarra que agora se entranha, de forma sofisticada, inteligente a até corajosa, banda e ouvinte entram logo em comunhão íntima, conduzidos por este dois trunfos jogados para cima da mesa pelos primeiros que obrigam, forçosamente, os segundos, naturalmente mais incautos, a conferir o disco até ao fim e, desse modo, a perceberem rapidamente que essa opção algo instintiva acabou por ser tremendamente recompensada.

O compasso firme da bateria de Automatic e o modo como nesse tema essa habilidade percurssiva é acompanhada pela guitarra e por um efeito sintetizado inebriante, a luminosidade optimista e sorridente que transborda de todos os poros do single homónimo Cut e o pendor mais reflexivo e indutor, mas algo psicadélico, de Nighthawks, são outros três exemplos do modo sublime como este álbum nos proporciona uma mistura criativa de ritmos que ao início pode soar algo estranha, mas que com o tempo descobre um delicioso ponto de equilíbrio, com o prazer da audição deste registo a crescer e a entranhar-se sem exigir grande esforço.

Em Cut há uma aparente mas consciente indecisão estilística entre um lado mais pop e radiofónico e outro mais progressivo e lisérgico, um certo assumir de um risco que, por neste caso ter resultado, acaba por ser a maior mais valia de um álbum que finta alguns dos habituais cânones da pop nacional, sem deixar de apresentar temas com instantes melódicos particularmente soporíferos e aditivos e outros que poderão ter um invejável airplay no próprio inconsciente de cada um de nós, ou seja, este é um exemplo típico daquele tipo de discos que muitas vezes sentimos necessidade de ouvir sem motivo aparente, mas com acerteza que esse ato será objeto do maior usufruto. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 22:09
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Segunda-feira, 6 de Novembro de 2017

Martin Carr - New Shapes Of Life

Já chegou aos escaparates New Shapes Of Life, o terceiro capítulo da exuberante obra discográfica do escocês Martin Carr e o segundo do artista editado pela Tapete Records. Este é um trabalho que sucede a The Breaks, um registo lançado em 2014 e onde o artista lidou com os sentimentos de separação do mundo que o rodeia mas, por algum motivo que não entende, ficou mais insatisfeito no final do disco do que quando o tinha começado a compôr e desta vez, quis ir mais fundo.

Martin_Carr_17__Credit_Mary_Wycherley_

Misturado por Greg Harver, um amigo de Martin também escocês mas residente na Nova Zelândia e de Clint Murphy, New Shapes Of Life é fortemente influenciado pela herança de David Bowie e tal sucede porque foi a morte desse ícone da cultura contemporânea que acabou por desencravar um período de crise criativa que Carr estava a viver no ano de 2015. O músico tinha-se refugiado no seu estúdio em Glasgow com o propósito de compôr novas canções, os resultados eram infrutíferos, mas a morte de Bowie despoletou em Carr o desejo de se embrenhar em toda a discografia do artista inglês, assim como em filmes e biografias sobre esse artista e tal experiência ensinou ao escocês a importância de se exprimir através dum determinado meio além de o ter feito refletir sobre a sua vida e nos anos que tinha desperdiçado a viver a vida dum artista mas a negligenciar a arte.

A lírica acabou por ser o ponto de partida das canções, ao contrário do habitual modus operandi de Carr e foi gasta bastante energia nessa componente essencial do processo de construção de uma canção, tendo o artista ido ao limite do seu próprio bem-estar mental, já que foi bastante auto-biográfico durante esse processo. Mas terá valido a pena todo o esforço dispendido já que poemas como o que conduz o tema homónimo ou Future Reflections são apenas dois bons exemplos da superior bitola qualitativa da escrita que se pode conferir neste disco. 

Quanto ao conteúdo sonoro, New Shapes Of Life projeta o autor para um universo sonoro bastante mais dinâmico e expansivo do que os trabalhos antecessores, onde melodias florescentes convivem lado a lado, com enorme frequência, com uma percussão imaculada e exuberante. O rock expansivo e dinâmico de Damocles ou a toda mais atmosférica e etérea de The Main Man acabam por condensar todo o espetro sonoro transversal a um alinhamento muito rico e intrincado instrumentalmente, inclusive ao nível da percussão, mas com os sintetizadores atmosféricos, amiúde um piano sedutor e até alguns sopros a fazerem parte do arquétipo sonoro que definitivamente retira Carr da sua zona de conforto sonora através de um verdadeiro concentrado de soluções melódicas e de arranjos programadas, onde tudo flui de maneira inventiva de modo exuberante e sentido.
Além dos temas já referidos, até ao final, canções como a divagante A Mess Of Everything e o rock épico e pulsante de Three Studies of The Mall Black afagam com notável eficácia as dores de quem se predispõe a seguir sem concessões a doutrina deste autor, plasmada num folk rock muito ternurento, mesmo que às vezes pareça escondido no seio de um humor mórbido e feito de alguma desolação.

Há discos que à primeira audição até causam alguma repulsa e estranheza, mas que depois se entranham com enorme afinco, ou então há aqueles exemplos que logo à primeira audição nos conquistam de forma arrebatadora e visceral. Mas como a própria vida é, quase sempre, muito mais abrangente nos seus momentos do que propriamente a simples análise através de duas bitolas comparativas que tocam opostos, também na música há instantes em que somos assaltados por algo muito maior e mais belo do que a simples soma de duas ou três sensações que nos fazem catalogar e arrumar em determinada prateleira aquilo que escutamos. Álbum fortemente hermético porque que se fecha dentro de um campo muito próprio e por isso particularmente genuíno e emocionalmente pesado, New Shapes Of Life é um bom exemplo de como é possivel apresentar um trabalho artisticamente muito criativo, mesmo que assente a sua sonoridade numa amálgama aparentemente improvável que mistura folk, indie pop e indie rock, com post rock e alguns elementos eletrónicos. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 20:46
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Segunda-feira, 30 de Outubro de 2017

Mano a Mano - Mano a Mano Vol. 2

Os mais atentos ao jazz que se vai fazendo por cá consideram os irmãos André e Bruno Santos, dois guitarristas com um vasto percurso musical, dos melhores intérpretes nacionais desse espetro sonoro na atualidade. E são eles que dão a face pelo projeto Mano a Mano, que se estreou em 2014 nos discos através de uma edição cujo financiamento foi obtido através de uma campanha bem sucedida de crowdfunding e que agora já tem sucessor. Mano a Mano Vol. 2 viu a luz do dia recentemente, onze canções que, de acordo com o press release do lançamento, centram-se num duelo dinâmico de guitarras, um disco cheio de momentos de virtuosismo, elegância e humor, explorando as inúmeras possibilidades deste formato.

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Disco essencialmente acústico, vincadamente experimental e orgânico e com uma forte toada bluesMano a Mano Vol. 2 vive do violão e das guitarras, como referi, mas também conta com o Braguinha/Machete, um instrumento tradicional da Madeira parecido com o cavaquinho, que faz a sua aparição em alguns temas. Como um todo, assenta numa filosofia sonora com uma especificidade muito própria e estreitamente balizada, mas não deixa, por isso, de nos oferecer um alinhamento sinuoso e cativante e que nos convida frequentemente à introspeção e à reflexão e até à dança, imagine-se. Dinah é um bom exemplo desta aparente ambivalência, numa canção que não pode deixar de ser ouvida sem ser acompanhada por um sorridente bater de pés ou um efusivo abanar de ancas, mas que também não deixa de exalar, na onda dos vários dedilhares que se cruzam entre si, a uma ode sobre o mundo moderno, sendo este tema a opção mais certa para percebermos, à partida, o modo como esta dupla é ímpar a materializar os melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora. Depois, através da exploração de várias formas de diversificar os arranjos, usando, por exemplo, processamento de som (reverb, wah-wah, distorção, loops, pitch-shifter e outros), nomeadamente no tema antecessor, o single Super Mario, mas também no espraiar solarengo de A Cadeira, O Baloiço e a Rosa, no frenesim desafiador de Without a Song, na sumptuosa delicadeza que exala das constantes variações de tom em Vignette e no jazzístico arrojo pop a que sabe Nem tudo é o que parece, ficamos esclarecidos acerca de constante inquietação que lateja do diálogo que estes dois músicos estabelecem entre si, sempre a suplicar por um patamar de serenidade que felizmente nunca surge, porque este não é um disco para cativar sem primeiro espicaçar, até porque, mesmo sem letras, não deixa de ser, no seu todo, um exímio e lúcido contador de histórias que servem a qualquer comum dos mortais, deixemo-nos nós absorver por tudo aquilo que as cordas nos sussurram ao ouvido com indesmentível clareza.

Em suma, Mano a Mano Vol. 2 está recheado de sons inteligentes e solidamente construídos, que nos emergem em ambientes carregados de ritmos e estruturas sonoras muitas vezes falsamente minimalistas e que têm como grande atributo poderem facilmente fazer-nos acreditar que mesmo este género de música tão específico e sui generis pode ser também um veículo para o encontro do bem e da felicidade, quer individual quer coletiva. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 20:50
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