Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

Work Drugs – Flaunt The Imperfection

Depois do excelente Louisa, editado em finais de 2015, os Work Drugs, uma dupla de Filadélfia já com um assinalável cardápio e que se mantém bastante ativa e profícua, lançando um disco praticamente todos os anos, além de alguns singles e compilações, desde que se estreou com Blood, em 2010, está de regresso no ocaso deste verão com Flaunt The Imperfection, mais dez canções perfeitas para saborear estes últimos raios de sol mais quentes, enquanto não chega a longa penumbra outunal e o interminável frio e implacável inverno.

Imagem relacionada

Ainda bem que há determinados projetos que se mantêm, por muito ativos e profícuos que sejam, fiéis a uma determinada permissa sonora e os Work Drugs são um bom exemplo disso porque proporcionam-nos sempre aquilo que exatamente procuramos neles, um acervo de canções impregnado com aquela sonoridade pop, um pouco lo fi e shoegaze, numa espécie de mistura entre surf rock e chillwave. E este Flaunt The Imperfection, que conta com as participações especiais de Maxfield Gast no saxofone, Tim Speece na guitarra e Nero Catalano no baixo, é mais um episódio significativo e bem sucedido num já riquíssimo compêndio proporcionado por um dos projetos mais excitantes da pop contemporânea.

Os Work Drugs servem-se, então, mais uma vez e ainda bem, de guitarras cheias de charme, alguns efeitos sintetizados cheios de luz e uma bateria eletrónica bastante insinuante para criar canções que contêm um encanto vintage, relaxante e atmosférico. são composições que além de proporcionarem instantes de relaxamento,também poderão adequar-se a momentos de sedução e a ambientes que exigem uma banda sonora que conjugue charme com uma elevada bitola qualitativa.

Apesar destas virtudes no campo instrumental, um dos maiores segredos destes Work Drugs parece-me ser a postura vocal, às vezes um pouco lo fi e shoegaze, mas que dá às composições aquele encanto vintage, relaxante e atmosférico. Assim, ouvir Flaunt The Imperfection é acompanhar esta dupla norte americana numa espécie de viagem orbitral, mas a uma altitude ainda não muito considerável, numa espécie de posição limbo, já que a maior parte das canções, apesar da forte componente etérea, são simples, concisas, curtas e diretas. Às vezes pressente-se que os Work Drugs não sabem muito bem se queriam que as músicas avançassem para uma sonoridade futurista, ou se tinham a firme intenção de deixá-las a levitar naquela pop típica dos anos oitenta. É certamente nesta aparente indefinição que reside uma importante virtude destes Work  Drugs, uma dupla que espelha com precisão o manto de transição e incerteza que tem invadido o cenário da pop de cariz mais alternativo e independente.

Quando se torna difícil inventar algo novo, a melhor opção poderá passar por baralhar e voltar a dar, de preferência com as cartas muito bem misturadas e os trunfos divididos, talvez num cenário de gravidade zero. Aqui, o charme libidinoso do saxofone de Cheap Shots, a inconfundível toada nostálgico contemplativa de Magic In The Night, o rock impulsivo de Alternative Facts e o delicioso encanto retro de Midnight Emotion, são apenas alguns dos trunfos com que os Work Drugs jogam com quem os escuta para conquistar o apreço de quem se deixar enredar sem dó nem piedade por esta teia sonoroa tremendamente sensorial e emotiva e, por isso, viciante. Espero que aprecies a sugestão...

Work Drugs - Flaunt The Imperfection

01. For The Year
02. Magic In The Night
03. Cheap Shots
04. Tradewinds
05. Flaunt The Imperfection
06. Midnight Emotion
07. Love Higher
08. Alternative Facts
09. Giving Up The Feeling
10. Final Bow


autor stipe07 às 18:06
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sábado, 16 de Setembro de 2017

The Fresh And Onlys – Wolf Lie Down

Lançado através da Sinderlyn Records, House Of Spirits é o novo disco dos The Fresh & Onlys, um trabalho que sucede a Long Slow Dance (2012), ao EP Soothsayer(2013) e ao aclamado House of Spirits (2014) sendo já o sexto disco da carreira de um grupo que nasceu em 2008, natural de São Francisco, na Califórnia e formado por Tim Cohen, ao qual se juntam, atualmente, Shayde Sartin e Kyle Gibson, com James Kim e James Barone a serem os bateristas de serviço em várias canções deste disco.

Resultado de imagem para The Fresh And Onlys 2017

Tim Cohen tem tido um ano de 2017 bastante produtivo. Depois de um disco a solo intitulado Luck Man está de regresso com os seus The Fresh And Onlys à boleia de um álbum com oito canções que mantêm o projeto numa elevada bitola. É um registo composto por excelentes canções que logo a abrir, com o tema homónimo, refletem um indie rock portentoso, com aquela sonoridade tipicamente americana. Mas não é só Wolf Lie Down que nos esclarece acerca do feliz acerto deste alinhamento. Daí em diante não faltam outros instantes onde guitarras plenas de fuzz conduzem melodias cativantes, num som que sabe claramente às suas origens, porque exala um odor que se distingue de imediato, tal é a energia deste fio condutor que explora até à exaustão e com particular sentido criativo um filão que abraça todos os detalhes que o indie rock, na sua vertente mais pura e noise, transporta lado a lado com a folk com um elevado pendor psicadélico.

Se o referido tema homónimo debruça-se sobre alguém que anseia quase desesperadamente por um grande amor,  já Black Widow, a canção que encerra Wolf Lie Down, é uma narrativa profunda sobre o lado mais negro da mente humana, sustentada, curiosamente, numa gentil melodia acústica que serve de contraponto ao ideário lírico da canção. E acaba por ser nesta deriva entre dois pólos que muitas vezes se entroncam e misturam na história de cada um de nós que Cohen se inspira para escrever canções que atingem facilmente o nosso âmago, tal é a autenticidade e impressionismo que transportam. Pelo meio, na subtil indiferença do expermentalismo de Walking Blues, na visita que nos é oferecida ao antigo oeste selvagem na curiosa Becomings ou no charme funky que dá ainda mais cor à cósmica Qualm Of Innocence, ampliada por um coro gospel, nunca nos sentimos aborrecidos à medida que vão desfilando belos acordes de cordas que se entrelaçam com samples de teclado, alguns arranjos de sopros e distorções hipnotizantes que impressionam até quem conhece o catálogo deste grupo norte americano.

É bom perceber que Cohen sente-se cada vez mais confortável e maduro na sua posição de reverendo denunciador de tudo aquilo que hoje cativa e inquieta toda uma geração que, a meio do seu percurso existencial, vê todo um legado de ideiais e valores prestes a esfumar-se no meio de uma sociedade cada vez mais frenética e tecnológica. O cariz orgânico e assumidamente rugoso de Dancing Chair expressa esta espécie de grito de revolta, enquanto agrega, bem no centro do alinhamento de Wolf Lie Down, esta viagem criativa e experimental que faz uma espécie de súmula de variadas referências noise, folk e psicadélicas. Tal é conseguido através de um som leve e cativante e com texturas psicadélicas que, simultaneamente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, sempre com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

The Fresh And Onlys - Wolf Lie Down

01. Wolf Lie Down
02. One Of A Kind
03. Qualm Of Innocence
04. Walking Blues
05. Dancing Chair
06. Impossible Man
07. Becomings
08. Black Widow


autor stipe07 às 12:30
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sexta-feira, 15 de Setembro de 2017

Chad VanGaalen – Light Information

Editado no passado dia oito de setembro, por intermédio da Sub Pop Records, Light Information é o novo trabalho de Chad Van Gaalen, um canadiano natural de Calgary e um músico, autor e compositor de quem já sentia saudades, nomeadamente dos seus devaneios cósmicos. Desaparecido depois de em 2010 ter editado o excelente Diaper Island, andou, pelos vistos, a aprender a usar o pedal steel, além de ter trabalhado na banda desenhada de ficção científica Translated Log Of Inhabitants, surpreendeu a crítica e os fãs três anos depois com o excelente Shrink Dust e agora, no final deste verão, oferece-nos mais trinta e oito minutos de excelente música indelevelmente marcada pela parentalidade, uma novidade feliz na vida do ser humano VanGaalen.

Resultado de imagem para chad vangaalen 2017

Chad é um artista que domina diferentes vertentes e se expressa em múltiplas linguagens artísticas e culturais, sendo a música mais um dos códigos que ele utliza para expressar o mundo próprio em que habita e dar-lhe a vida e a cor, as formas e os símbolos que ele idealizou. Assim, as suas composições refletem, com alguma minúcia, estados de alma e os contextos que definem o seu momento, através de um código específico, tal é a complexidade e a criatividade que estão plasmadas nas suas canções, usando como principal ferramenta alguns dos típicos traços identitários de uma espécie de folk psicadélica, com uma considerável vertente experimental associada. Esta matriz sonora mais aventureira começou a ganhar forma no antecessor de Shrink Dust, o tal Diaper Island, já que antes disso, em Infiniheart (2004) e Soft Airplane (2008), apostou numa sonoridade folk eminentemente acústica e orgânica. Agora, em Light Information, o autor confronta-nos com uma luminosidade algo inédita, mostrando-se vivo e estranhamento empático e exuberante no modo como comunica connosco.

Sendo a eletrónica o terreno onde musicalmente VanGaalen se move com maior conforto, Chad acaba por olhar com mais atenção para a indie pop movida a cordas reluzentes, nomeadamente no modo como em Mind Hijacker's Curse recria uma toada pulsante e algo épica movida através de uma batida enérgica e um efeito sintetizado cósmico a cheirar ao universo de um Bowie por todos os poros e na leveza de Pine and Clover ao oferecer-nos um cândido instante de blues folk acústica particularmente embaladora e intimista. Acabam por ser dois exemplos antagónicos de uma filosofia comum que busca uma maior assertividade no modo como se serve do habitual formato canção para atingir uma maior variedade de fãs, mesmo que em instantes como a soturna psicadelia de Host Body ou a sobriedade acústica mas indisfarcavelmente punk de Faces Lit, o músico se mantenha fiel aos seus genes, reproduzindo aqui alguns dos sons mais orgânicos que podemos escutar no seu cardápio.

Sintetizadores e teclados, são apenas uma pequena parte do arsenal bélico com que ele nos sacode e traduz, na forma de música, a mente criativa que nele vive e que parece, em determinados períodos, ir além daquilo que ele vê, pensa e sente. Se You Fool é um exercício de manifestação óbvia daquilo que nos faz mudar o facto de sermos pais, enquanto coloca já a nú alguns detalhes que justificam o cariz psicadélico e aventureiro que anima Chad, com as guitarras de Broken Bell, apresentadas logo a seguir, a reforça-se o novo enquadramento da obra, cheia de fragmentos de sons sintetizados e distorcidos, versos hipnóticos e vozes com forte pendor lo fi, mas também subtis instantes melódicos de pura subtileza e encantamento. Chega-se ao ocaso e em Static Shape, ao conferirmos uma nuvem de distorções leves e acolhedoras, enquanto a lisergia sintetizada em que se acomodam cria paisagens sonoras verdadeiramente alucinogénicas, ficamos convencidos da enorme beleza e criatividade impressas num disco que buscou novos estímulos, de forma mais ponderada, com todos os arranjos e detalhes a terem sido certamente ponderados de forma muito cuidada, pois só assim se entende o audível aconchego da profusão de sons e de ruídos e poeiras sonoras que o trespassam, sempre com sentido e ordem, já que tudo parece encaixar devidamente e percebe-se diferentes colagens e sobreposições de sons.

Light Information é, portanto, um verdadeiro jogo de texturas e distorções controladas pelos nossos ouvidos. Um passeio pela essência da música psicadélica, idealizado por um inventor de sons que nos canta as subtilezas da sua existência pessoal, mas sem nunca se entregar ao exagero, até porque é explícita a toada experimental que ocupa este compêndio verdadeiramente obrigatório. Espero que aprecies a sugestão...

Chad VanGaalen - Light Information

01. Mind Hijacker’s Curse
02. Locked In The Phase
03. Prep Piano + 770
04. Host Body
05. Mystery Elementals
06. Old Heads
07. Golden Oceans
08. Faces Lit
09. Pine And Clover
10. You Fool
11. Broken Bell
12. Static Shape


autor stipe07 às 13:40
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Segunda-feira, 11 de Setembro de 2017

The National - Sleep Well Beast

Foi no último dia oito que chegou aos escaparates e através da 4AD, Sleep Well Beast, o tão aguardado novo registo de originais dos norte-americanos The National, que sucede a Trouble Will Find Me, o disco que a banda de Matt Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf editou no já longínquo ano de 2013. Sétimo disco da carreira do grupo, Sleep Well Beast foi produzido por Aaron Dessner, com produção adicional de Matt Berninger e Bryce Dessner, misturado por Peter Katis e gravado no estúdio Long Pond em Hudson Valley, Nova Iorque.

Resultado de imagem para The National band 2017

Os The National sempre foram bem aceites e acarinhados por cá devido ao modo como, nos primeiros discos, se tornavam automaticamente nossos amigos e confidentes, não só pela forma como abordavam a tristeza, dando-nos pistas concretas não só na forma de lidar com ela, mas também porque nos mostravam o caminho para a redenção, nem que fosse através da simples lembrança de que amanhã há um novo dia e que a esperança nunca pode esmorecer. E faziam-no apostando as fichas todas na voz grave de Berninger, conjugada com arranjos bastante melódicos, refrões simples e versos acessiveis que, aliando-se a uma orgânica melódica particularmente minimal, mas profunda e crua, nos facultavam tal universo fortemente cinematográfico e imersivo.

Seja por mero capricho, por uma questão de maturidade ou simples espírito aventureiro, a verdade é que tem havido um certo abandono dessa zona de conforto, o que, não colocando em causa a carreira dos The National, tem levado a banda para territórios sonoros menos imediatos e orgânicos, com os sintetizadores e outros arranjos e instrumentos inéditos, a fazerem cada vez mais parte do ideário sonoro do grupo. Desse modo, o primeiro grande elogio que se pode fazer a Sleep Well Beast é que não atira o quinteto nova iorquino para uma possível queda na redudância convencional ou na repetição aborrecida. Portanto, ultimamente, a cada novo lançamento do grupo, mais do que perceber com clareza aquilo que une o alinhamento à herança, convém olhar com atenção para os pontos de ruptura e de diferenciação, algo pertinente desde o antecessor, Trouble Will Find Me. Antes disso a estratégia era claramente outra, já que se Sad Songs for Dirty Lovers  foi a estreia assumida do grupo num contexto mais negro, apesar de não ser o primeiro disco da banda, dois anos depois Alligator trouxe uma maior variedade instrumental e, em 2007, Boxer carimbou a definitiva maturidade e internacionalização do coletivo, além de ter  posicionado na figura do vocalista um personagem que caminhava confortavelmente por cenários que descrevem dores pessoais e escombros sociais. Quanto a High Violet (2010), serviu para colocar ênfase numa toada mais épica e aberta do grupo e demonstrar a capacidade eclética que também têm de compôr, em simultâneo, temas com um elevado teor introspetivo (Conversation 16, Sorrow ou Terrible Love) e verdadeiros hinos de estádio (England,Bloodbuzz Ohio), mas sem defraudar o conceito inicial central.

Agora, ao sétimo álbum, os The National conseguem, em temas como Nobody Else Will Be There ou Walk It Back, regressar ao ambiente desolador que percorrem desde o começo de carreira e, ao mesmo tempo, apresentar as novas nuances instrumentais do seu arquétipo, muito firmadas nas teclas e em diversos dos atuais entalhes entre eletrónica e rock alternativo, que procuram incutir luminosidade e cor ao que aparentemente é sombra e rugosidade. Assim, acaba por ser comum escutar em simultâneo, como é o caso de Born to Beg, instantes em que os instrumentos clamam pela simplicidade, mas que acabam por resvalar para uma teia sonora que se diversifica e se expande para, neste caso, com alguma cor e optimismo, dar vida a um conjunto volumoso de versos sofridos, sons acinzentados e o habitual desmoronamento pessoal que nos arrasta sem dó nem piedade para o usual ambiente sombrio e nostálgico da banda e depois há ainda canções, como Empire Line, que prezam pelo minimalismo da combinação de apenas quatro instrumentos, mas que, no fundo, tornam-se num refúgio bucólico e denso que impressiona pelo forte cariz sensorial. Finalmente, há ainda outras que soam mais ricas e trabalhadas, como The System Only Dreams In total Darkness, talvez o tema do disco que exale com superior precisão o cada vez maior ecletismo de um grupo mais consciente de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes.

Casado e pai de uma filha, Matt afugenta os seus habituais demónios com maior conforto e uma natural aceitação em relação à impossibilidade do total desaparecimento dos mesmos, mesmo que haja atualmente mais instantes e eventos felizes na sua vida pessoal. Não faltam em Sleep Well Beast bons exemplos que nos remetem para uma certa felicidade, digamos assim, que Matt sente por ter finalmente percebido que os problemas, o sofrimento e a dor estarão sempre lá mesmo que a maior constância de eventos felizes seja uma realidade concreta na sua vida. Há como que uma tomada de consciência de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes. Sendo, sonoramente, o disco mais arriscado da carreira do grupo, Sleep Well Beast é, em suma, uma espécie de exercício de redenção, onde o sofrimento é olhado com a habitual inevitabilidade, mas de uma outra perspetiva, mais madura, assertiva e positiva, um compêndio onde os The National firmam a sua posição na classe dos artistas que basicamente só melhoram com o tempo. Espero que aprecies a sugestão...

Resultado de imagem para The National Sleep Well Beast

01. Nobody Else Will Be There (4:39)
02. Day I Die (4:31)
03. Walk It Back (5:59)
04. The System Only Dreams in Total Darkness (3:56)
05. Born to Beg (4:22)
06. Turtleneck (3:00)
07. Empire Line (5:23)
08. I’ll Still Destroy You (5:15)
09. Guilty Party (5:38)
10. Carin at the Liquor Store (3:33)
11. Dark Side of the Gym (4:50)
12. Sleep Well Beast (6:31)


autor stipe07 às 16:52
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017

King Gizzard and the Lizard Wizard - Sketches Of Brunswick East

Quando no início do ano o projeto australiano King Gizzard and the Lizard Wizard de Stu Mackenzie anunciou que iria lançar cinco álbuns em 2017, foram muitos os cépticos que se apressaram a apontar o dedo à impossibilidade deste grupo de rock psicadélico conseguir levar por diante tal desiderato. Mas a verdade é que Sketches Of Brunswick East, treze canções que viram a luz do dia a vinte e cinco de agosto, através da ATO Records, são já o terceiro capítulo desta imponente saga onde detalhes da soul, do jazz, do rock, essencialmente o setentista e sonoridades africanas e até a folk tradicional inglesa se misturam, para dar vida e cor a um alinhamento onde também teve uma importante palavra a dizer Alexander Brettin, outro músico australiano e natural de Brunswick East, bairro dos subúrbios de Melbourne, tal como Stu e fã de Todd Rundgren e Wire, que tem como carapaça pop o projeto Mild High Club.

Resultado de imagem para King Gizzard and the Lizard Wizard 2017

Com os King Gizzard and the Lizard Wizard a contarem já com cerca de uma dezena de discos em carteira, a verdade é que este Sketches Of Brunswick East é já o terceiro trabalho que também conta com a participação dos Mild High Club. E Sketches Of Brunswick East, que também alude ao clássico de Miles Davis, Sketches Of Spainresulta na plenitude, porque é profusamente intensa e feliz esta estreita colaboração entre Stu e Alexander, nomeadamente através da modo como trocam trechos de guitarra acústica, que acabam por servir depois de base a um posterior trabalho de aperfeiçoamento e desenvolvimento por parte dos restantes membros dos King Gizzard and the Lizard Wizard, com o resultado final, mais uma vez, a ser verdadeiramente intenso e contagiante.

O disco inicia com um solo de piano lindíssimo por parte de Brettin, secundado por alguns detalhes percurssivos da autoria do baterista Michael Cavanagh e a partir daí o que se escuta é uma verdadeira espiral entusiasta e multicolorida, que nos colocabem no centro de um tornado que, da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se delicia com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

Se ao longo da audição deste álbum parece evidente que tudo aquilo que se pode escutar, dos arranjos às melodias passando pelos diferentes detalhes e samples, é cuidadosamente pensado. É curioso constatar que a busca do caos também pareceu fazer parte da filosofia dominante no processo de construção do arquétipo das várias canções. O jazz experimental acaba por ser a base, mas é muito redutor uma catalogação tão objetiva já que, obedecendo a uma filosofia firme de controle instrumental, quer a homenagem descarada à melhor bossa nova em You Can Be Your Silhouette, assim como os devaneios dos sopros divagantes de Sketches Of Brunswick East II e o modo como em The Spider And Me as variações rítmicas também sobressaiem devido ao modo como as cordas se entrelaçam com a voz, são apenas alguns exemplos felizes que nos remetem para um espetro muito mais vasto e abrangente, onde diferentes estruturas e influências submergem e se acotovelam, quase em uníssono, para conseguirem destaque entre si. É, em pouco mais de trinta minutos, o espraiar indulgente e sereno de uma prévia colocação numa máquina de lavar, num programa que permitiu uma espécie de rotação e sobreposição constante de tudo aquilo que a herança musical contemporânea, de índole eminentemente psicadélica, foi agregando e assimilando ao longo das últimas cinco décadas.

Mais uma vez os King Gizzard and the Lizard Wizard conseguem facultar-nos um acervo de canções único e peculiar e que resulta, certamente, da consciência que Stu, o grande mentor do projeto, tem das transformações que abastecem a música psicadélica atual, enquanto tenta ligar-nos umbilicalmente aquela que considera ser a melhor lista de referências essenciais na parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que tem inundado os nossos ouvidos ultimamente. Sendo este seu terceiro disco do ano um tratado sonoro de natureza hermética, também não se furta a quebrar algumas regras da pop, nomeadamente na questão da crueza lo fi, e até de desafiar as mais elementares do bom senso, impressionando, assim, pelo arrojo e mostrando-se genial no modo como dá vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Sketches of Brunswick East artwork

01. Sketches Of Brunswick East I
02. Countdown
03. D-Day
04. Tezeta
05. Cranes, Planes, Migraines
06. The Spider And Me
07. Sketches Of Brunswick East II
08. Dusk To Dawn On Lygon Street
09. The Book
10. A Journey To (S)hell
11. Rolling Stoned
12. You Can Be Your Silhouette
13. Sketches Of Brunswick East III


autor stipe07 às 09:27
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Quarta-feira, 6 de Setembro de 2017

Andrew Belle – Dive Deep

O compositor e músico californiano Andrew Belle regressou este verão aos discos com Dive Deep, onze canções escritas e compostas por um dos intérpretes mais importantes da indie pop atual no lado de lá do atlântico, um artista que conhece, com minúcia e destreza, como replicar um ambiente sonoro multicolorido e espetral, sendo claramente influenciado pela paisagem multicultural de Los Angeles, cidade onde Andrew vive atualmente.

Resultado de imagem para andrew belle 2017

O alinhamento de Dive Deep contém um forte cunho impressivo enquanto explora algumas das mais contemporâneas interseções entre pop e eletrónica, através de uma vasta paleta instrumental que dando primazia ao sintetizador não deixa também de recorrer a alguns detalhes e arranjos de índole mais orgânica, em especial os percurssivos.

No clima etéreo e fortemente climático de Horizon e na batida pulsante de Black Clouds encontramos, logo à partida, um som cheio e irrepreensivelmente produzido, repleto de pequenas nuances que nos vão espevitando e nos fazem manter o foco na audição, à medida que Belle explana todos os seus atributos não só como cantor, mas também, e principalmente, como escritor de poemas que servem a todos quantos procuram viver com intensidade e procuram usufruir o que de melhor a vida pode proporcionar.

Depois de um excelente ano em 2013, que teve como momento alto a edição do aclamado disco Black Bear, Andrew perdeu a voz durante dois meses e nesse período sentiu enorme receio de ter de lidar com um futuro sem a música no centro da sua vida. Felizmente recuperou desse grave problema de saúde e este Dive Deep reflete, com honestidade e uma certa exaltação, a alegria que o músico voltou a sentir por ter novamente a capacidade de utilizar os seus atributos vocais para transmitir tudo aquilo que o emociona.

Dive Deep acaba por ser um disco que debruçando-se sobre a normalidade da existência humana e as suas rotinas, procura também vestir a pele de conselheiro na hora de tomar aquelas decisões que tantas vezes definem a ténue fronteira que nos separa do mundo da ignorância e dos medos, do usufruto pleno dos desafios com que somos constantemente confrontados. É um disco de esperança, de coragem, alegre e positivo e que não nos deixa paralisar na indecisão e na dúvida, até porque, conforme indica o tema homónimo, são muitas as vezes em que aquilo que de melhor nos sucede é consequência de um anterior mergulho corajoso no desconhecido e na indecisão. Espero que aprecies a sugestão...

Andrew Belle - Dive Deep

01. Horizon
02. Black Clouds
03. Down
04. Honey And Milk
05. Dive Deep
06. T R N T
07. New York
08. You
09. Hurt Nobody
10. Drought
11. When The End Comes


autor stipe07 às 14:26
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sábado, 2 de Setembro de 2017

LCD Soundsystem – American Dream

Já há alguns meses que não restavam quaisquer dúvidas que 2017 iria ser o ano em que os LCD Soundsystem de James Murphy iriam editar o sucessor de This Is Happening, nomeadamente desde que foram divulgadas na primavera Call The Police e American Dream, os primeiros avanços do novo álbum do grupo nova iorquino e que acaba de ver a luz do dia através da DFA Records do próprio Murphy. São dez canções que em pouco mais de uma hora nos mostram porque devemo-nos sentir verdadeiramente felizes por This Is Happening não ter sido o epílogo da banda, como foi na altura, no início desta segunda década do século XXI, profusamente prometido (It's (really...) Time To Get Away!). E convém referir que este alinhamento deve também algo de significativo a David Bowie, artista com quem Murphy, durante conversas que tinham como objetivo colocar o patrão da DFA a produzir Blackstar, diversas vezes desabafou a saudade que sentia do seu antigo projeto, um sentimento que ele veio a descobrir ser partilhado também por Nancy Whang e Pat Mahoney, outros dois nomes incontornáveis dos LCD. Aliás, a canção que encerra este American Dream, a sombria e minimal Black Screen, debruça-se sobre esta troca afetiva de argumentos entre Bowie e Murphy.

Resultado de imagem para lcd soundsystem 2017

Quando uma nova corrente do indie rock começou a fazer escola no início deste século em Nova Iorque e as guitarras e o baixo começaram a dar as mãos aos sintetizadores e à eletrónica para invadir as pistas de dança do mundo inteiro, os LCD Soundsystem estavam na vanguarda desse movimento e a avalancar outros nomes, nomeadamente os Hot Chip, The Rapture, Cut Copy, !!! (chk chk chk), Radio 4 e Fischerspooner, entre outros, alguns deles abrigados pela própria DFA. E a verdade é que com a primeira saída dos LCD Soundsystem de cena, esse espetro sonoro que tanto sucesso obteve durante cerca de uma década, passou a viver um pouco na penumbra, apesar de nomes recentes como os Orange Cassettes e os próprios Liars parecerem sempre dispostos a levar o garage rock novamente nessa direção com assinalável mestria, sempre dançável e psicadélica. Agora, com este segundo capítulo do projeto de James Murphy e tendo em conta a assombrosa bitola qualitativa de American Dream, os dados estão novamente lançados para que o dance post punk rock volte novamente a estar na linha da frente e em plano de destaque no universo sonoro indie e este grupo volte a ocupar um trono que, no fundo, nunca deixou de lhes pertencer.

American Dream está repleto de composições intensas e melancólicas e que nos possibilitam usufruir de um mosaico declarado de referências, que se centram, essencialmente, numa mescla entre a típica eletrónica underground nova iorquina e o colorido neon dos anos oitenta, havendo inclusive, dentro desta bitola referencial, períodos introspetivos, que depois resvalam para finais épicos e de maior exaltação. Logo nos flashes sintetizados vigorosos e no piano divagante da futurista Baby se percebe que este é um disco que não defraudará toda a herança que traz atrás de si. E depois, no ritmo tribalista deliciosamente anguloso, proporcionado, em grande parte, pelo intenso baixo, de Other Voices, exemplarmente acompanhado pelo habitual efeito vocal ecoante de um James Murphy que canta e declama em simultâneo, somos de imediato transportados para os melhores momentos daquele já algo longínquo disco homónimo que ofereceu aos LCD Soundsystem a rampa de lançamento perfeita para um merecido estrelato.

Com estes dois temas iniciais a fazerem a ponte perfeita entre um glorioso passado e aquilo que os LCD Soundsystem querem continuar a explorar nesta nova demanda, American Dream prossegue numa espécie de balanço entre aquele clima underground que pisca o olho de modo bastante apetecível às pistas e momentos de algum pendor mais reflexivo, nomeadamente acerca do modo como Murphy vê a América que atualmente tanto o inquieta. Assim, se os devaneios rítmicos e o modo como é constantemente amplificada uma das cordas do baixo em Change Yr Mind, ou o festim sintético que transborda por todos os poros da efusiva e lasciva Tonite, são composições que nos fazem abanar a anca mesmo que não haja um firme propósito, apenas e só o facto de ser hora de celebrar. Já na espiral instrumental em que crescem guitarras e bateria em I Used To, ou na cadência algo angustiada do tema homónimo, que talvez procure refletir o modo como o tal sonho americano é hoje apenas uma ilusão sem sentido, sentimo-nos impelidos a procurar entender o modo como Murphy, sendo um dos melhores entertainers da atualidade, é também capaz de se sentir frustrado e desanimado com aquilo que observa ao seu redor. O espetacular baixo e o pendor exaltante dos sintetizadores e da batida crescente de Call The Police, acabam por fazer desta canção uma espécie de tema aglutinador perfeito de todo este receituário, um tema onde é possível descobrir razões para dançar de olhos fechados e a sorrir enquanto se pensa na vida e naquilo que mais nos consome e inquieta.

Disco que exige várias audições para ser devidamente compreendido, até porque vive muito deste apelo constante, mas nem sempre explícito, à festa, American Dream talvez reflita, no fundo, a realidade atual de uma América onde não existem, nos dias de hoje, muitas razões para celebrar ou motivos que inspirem à criação musical que exale, de modo evidente, a gloriosa celebração do que é viver num país que nunca se cansa de apregoar que lidera os destinos do mundo. De um modo mais particular, talvez aquele que mais interesse, ensina-nos que nunca é tarde para recomeçar, que os anos podem passar por nós, mas o nosso espírito pode manter-se amplamente jovial e criativo, mesmo que isso suceda de modo menos intuitivo, mas mais refletido, maduro e consciente. É assim, de certo modo, a melhor descrição que se pode fazer destes renovados LCD Soundsystem como entidade. Espero que aprecies a sugestão...

LCD Soundsystem - American Dream

01. Oh Baby
02. Other Voices
03. I Used To
04. Change Yr Mind
05. How Do You Sleep?
06. Tonite
07. Call The Police
08. American Dream
09. Emotional Haircut
10. Black Screen


autor stipe07 às 15:47
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Quarta-feira, 30 de Agosto de 2017

Liars – TFCF

Poucas bandas se transformaram tanto ao longo da última década como o trio de Nova Iorque chamado Liars e formado originalmente por Angus Andrew, Aaron Hemphill e Julian Gross. Deram início à carreira com uma sonoridade muito perto do noise rock, com experimentações semelhantes ao que fora testado pelos Sonic Youth do início de carreira e até com algumas doses de punk dance e aos poucos foram aproximando-se de uma sonoridade mais amena e introspetiva. O que antes era ruído, distorção e gritos desordenados, passou a debitar algo mais brando, com uma proposta de som muito mais voltada para um resultado atmosférico, definição que passou a imperar com evidência desde o disco homónimo lançado em 2007. Este toque experimental acabou por se manter e WIXIW (pronuncia-se wish you), em 2012, foi o culminar de uma tríade que começou no tal Liars de 2007 e prosseguiu em Sisterworld (2010). Dois anos depois, em 2014, os Liars voltam a apostar numa inflexão sonora com Mess, um disco que apresentava uma mistura nada anárquica, mas bastante heterogénea de todos os vetores sonoros que orientaram, até então, a carreira do trio, um álbum carregado de batidas, com uma base sonora bastante peculiar e climática e com propostas ora banhadas por um doce toque de psicadelia a preto e branco, ora consumidas por um teor ambiental denso e complexo.

Resultado de imagem para liars angus andrew 2017

Mess acabou por ser o disco da ruptura e da implosão de um trio que se desmoronou no meio da inquietude e do tal caos, feito de três visões bastantes diferentes daquele que deveria ser o rumo sonoro mais consistente dos Liars, um trajeto que após dezassete anos de busca incessante de consensos, acabou por atingir o limite do tolerável. Assim, Angus Andrew vê-se isolado, mas não dá baixa da marca registada Liars, preferindo, com o acordo dos ex colegas, continuar a dar sequência ao universo com esse nome, agora a solo, sendo TFCF, o primeiro lançamento discográfico nesta nova realidade do projeto. 

Os Liars sempre criaram um som muito difícil de definir porque misturam eletrónica com rock alternativo, noise rock, avant garde, post punk e outras sonoridades e a verdade é que não se pode afirmar que tenham produzido dois trabalhos semelhantes em termos de sonoridade. Este conceito de ruptura mantém-se em TFCF, o que talvez prove que Angus acabou por conseguir fazer prevalecer sempre, acima de todos, a sua filosofia, apesar da aparente democraticidade e busca de pontos de equilíbrio, como descrevi.

Composto integralmente por Angus, no seu país de origem, a Austrália, numa ilha ao largo de Sidney, acessível apenas por barco, num clima de auto isolamento claramente imposto, TFCF materializa esta oportunidade de ouro que o músico finalmente teve para explanar livremente  os conceitos artísticos com que mais se identifica, procurando, ao mesmo tempo, revitalizar o som Liars, elevando-o para uma nova escala e paradigma de inedetismo até porque, a primeira impressão que se tem logo após a audição deste álbum é que não há nenhum projeto contemporâneo conhecido que possa ser equiparado estilisticamente ao que é apresentado nestas onze canções. Já agora, é curiosa a explicação de Angus para o artwork do disco. Justifica-o afirmando que durante dezassete anos sentiu-se de certo modo casado com Aaron Hemphill, o seu principal parceiro nesta aventura e o último a abandoná-lo (Depois de Mess os Liars chegaram a ser uma dupla durante algum tempo) e agora que ele o deixou, ficou sozinho, apenas com um vestido de noiva (I felt like I was married to Aaron [Hemphill] creatively, and now that he is gone I am alone in my wedding dress).

TFCF acaba por refletir bastante esta nova conjuntura, até porque Angus não se fez rogado na hora de aproveitar algum material sonoro que estava guardado em bruto para o próximo disco do projeto no formato trio e em que Angus e Aaron tinham chegado a trabalhar em conjunto, apesar de, durante esse brainstorming virtual, um estar em los Angeles e o outro em Berlim. No Help Pamphlet, um dos poucos momentos acústicos do álbum e onde a guitarra é protagonista, é clara nesta realidade, com a letra a referir-se diretamente a Aaron (OK, that’s it. Those are all the songs I really like… I hope that you have a really great break. And I’m thinking of you all the time.)

Olhando um pouco para o restante conteúdo do disco, independentemente da abordagem que é feita em cada canção e que varia imenso, a eletrónica é o fio condutor, quase sempre envolvida numa embalagem minimal, embrulhada com vozes e sintetizadores num registo predominantemente grave e ligeiramente distorcido, que cria uma atmosfera sombria, hipnótica e visceral. O clima algo caótico e lo fi de The Grand Delusional personifica, claramente, uma forma de procurar exorcizar o modo angustiante como Angus olha para a nova realidade com que convive, mas depois, quer nas cordas medievas de Cliché Suite, acompanhadas por arranjos que dão um tema um clima spaghetti curioso, quer na batida pulsante, grave e sensual de Staring At Zero e nos seus detalhes metálicos, assim como nos samples ambientais da climática Face To Face With My Face e no folk punk caliedoscópico de No Tree No Branch, o músico liberta-se um pouco das amarras identitárias e oferece-nos algumas nuances curiosas que deverão projetar um pouco aquele que será futuro sonoro dos Liars. O vigor percurssivo de Coins In My Caged Fist, acompanhado por um sintetizador algo agreste, talvez seja o momento de TFCF que mais nos remeta para o passado, mas de um modo feliz porque é um tema que vai beber à fonte de Drums Not Dead, a obra-prima do grupo.

Disco que personifica, sem rodeios, um estado de (in)consciência muito próprio de um autor que vive num momento crucial da sua existência, quer pessoal quer artística, TFCF é um corpo sonoro cheio de especificidades, que precisa e merece ser apreciado de acordo com as regras que ele próprio define, sem ideias pré-concebidas ou expetativas balizadas, até porque, na minha opinião, poderá vir a ser um marco imprescindível para a descrição futura testamental da marca Liars, pois estou certo que agora, depois de exorcizados os fantasmas e definidas as novas pistas, Angus não vai ficar por aqui e vai finalmente poder mostrar, sem ter que dar explicações ou fazer concessões, aquilo que artisiticamente realmente vale. E parece ser muito! Espero que aprecies a sugestão...

Liars - TFCF

01. The Grand Delusional
02. Cliche Suite
03. Staring At Zero
04. No Help Pamphlet
05. Face To Face With My Face
06. Emblems Of Another Story
07. No Tree No Branch
08. Cred Woes
09. Coins In My Caged Fist
10. Ripe Ripe Rot
11. Crying Fountain


autor stipe07 às 14:51
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

We Invented Paris – Catastrophe

Já chegou aos escaparates Catastrophe, o novo álbum dos suiços We Invented Paris, um trabalho que sucede ao excelente Rocket Spaceship Thing que divulguei em 2014 e cujas treze canções catapultam esta banda liderada por Flavian Graber para um novo patamar de excelência dentro de um paradigma sonoro que, numa esfera eminentemente pop, tanto abraça a folk como a eletrónica futurística, mas de forte pendor retro, criando, desta vez, a banda sonora perfeita para aquilo que um realizador cinematográfico dos anos oitenta imaginaria que fosse hoje o nosso planeta, caso tivesse de colocar numa tela as suas visões trinta anos após esse presente.

Resultado de imagem para we invented paris 2017

Começa-se a escutar a atmosfera sintética de Looking Back e o modo como o efeito metálico de uma guitarra vibrante atravessa os teclados para se perceber que estes We Invented Paris são um coletivo que aposta numa sonoridade indie com uma forte cariz épico, feita com melodias que transportam uma enorme carga emocional, também bastante ampliada pela irrepreensível postura vocal de Flavian. É uma sonoridade que revela uma enorme competência e interessante grau de criatividade, no que diz respeito ao processo de criação melódica, o que resulta numa atmosfera invulgar e muito agradável de escutar, à qual não escapa nenhuma das treze canções deste Catastrophe.

Na verdade, quase todas as músicas são singles em potência; Em sequência, o timbre funk do baixo e da bateria e o efeito robotizado da voz em Fuss, a luminosidade dos arranjos e do piano que proporcionam uma faceta algo sensível e cândida a Kaleidoscope, os sintetizadores vintage e os ecos que ressoam em High Tide, o rock inebriante e impulsivo de Air Raid Shelter e do tema homónimo, o piscar de olhos à melhor pop oitocentista nórdica em Storm ou a balada simultaneamente doce e inquietante chamada A Lake In The Morning mostram o quanto as músicas deste disco são heterogéneas e individuais, cada uma com traços próprios e conseguindo, assim, recriarem, em conjunto, uma atmosfera diversificada ao álbum.

Os We Invented Paris acabam por se destacar porque não são muitas bandas que conseguem agregar tantos géneros musicais diferentes num só trabalho. Neles encontramos quase todos os subgéneros da pop e do melhor rock alternativo, tudo tocado com violas que soam eufóricas, guitarras tímidas, mas também inquietantes e arrebatadoras e sintetizadores que não se envergonham de abraçar uma vasta panóplia de efeitos e batidas contagiantes. Não é fácil encontrar no cenário europeu exterior à realidade anglo-saxónica uma banda que mostre um conteúdo musical com tanta carga emocional e maturidade musical e Catastrophe, ao conter tantos momentos graciosos e suaves, com uma delicadeza notável e uma sensibilidade que se destaca, faz destes We Invented Paris uma banda que vale realmente a pena ouvir muitas vezes e aproveitar cada audição de forma diferente, num disco que desperta múltiplas sensações e que demonstra o quanto eles se sentem confortáveis dentro da sonoridade criativa que seguem e replicam. Espero que aprecies a sugestão...

We Invented Paris - Catastrophe

01. Looking Back
02. Fuss
03. Kaleidoscope
04. High Tide
05. Air Raid Shelter
06. Storm
07. Superlove
08. Spiderman
09. Catastrophe
10. Touriste
11. A Lake In The Morning
12. When Did I Stop
13. Arsonist


autor stipe07 às 21:17
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

Everything Everything - A Fever Dream

A Fever Dream é o nome do novo disco dos britânicos Everything Everything, o quarto registo de originais desta banda oriunda de Manchester e que sucede ao aclamado Get to Heaven, o álbum que o quarteto lançou há cerca de dois anos. Depois de terem trabalhado em Get To Heaven com o consagrado Stuart Price (Kylie Minogue, The Killers e Scissor Sisters), neste A Fever Dream contaram, na gravação e produção, com a ajuda de James Ford, habitual colaborador de bandas como os  Arctic Monkeys, Depeche Mode ou os Foals.

Resultado de imagem para everything everything band 2017

Desde 2010 que os Everything Everything abordam a condição humana contemporânea e a espécie de miserabilismo que se tem apoderado de um ocidente onde recentemente o brexit, a mudança política no outro lado do atlântico e o terrorismo são eventos algo traumáticos e que marcam negativamente uma realidade fortemente competitiva, frenética e até egoísta para cada entidade individual que luta por um lugar ao sol. Em suma, os Everything Everything têm sabido estar sintonizados com o absurdo sociológico e político dos nossos tempos, numa carreira bastante marcada por momentos de profunda reflexão sobre aquilo que os rodeia e agora fazem-no novamente, de modo ainda mais incisivo e abrigados numa pop hiperativa e fortemente sintetizada, a filosofia sonora fundamental que sustenta este A Fever Dream, onze canções que mostram o quanto o nosso mundo se parece cada vez mais, na óptica do grupo, um lugar pouco convidativo e demasiado instável, porque está repleto de aramadilhas e ziguezagues. A título de exemplo, se a saída do Reino Unido da União Europeia e o aumento da xenofobia nesse país são retratados em Put Me Together, já Big Game aborda os perigos da propensão humana para o autoritarismo e para o individualismo compulsivos, com ambas as canções a constituirem-se como dois bons exemplos do foco que o grupo coloca nestas questões existenciais.

Os Everything Everything sempre procuram replicar um som intuitivo, mas que também fosse desafiante. E Se Get To Heaven foi, logo à partida, um trabalho brilhante no modo como demorava a entrar no âmago dos fãs, em A Fever Dream a digestão do conteúdo sonoro parece ser mais acessível, mas sem quebrar o encanto que se sente sempre que um alinhamento nos faz o convite inconsciente e viciante para uma nova audição. Esta permissa já ficou de algum modo explícita quando há algumas semanas foi divulgado Can't Do, o single de apresentação, uma canção que piscando o olho a um vasto leque de influências que vão da dream pop ao rock progressivo, passando pela eletrónica e o indie rock contemporâneo, plasma um refinado e cuidadoso processo de corte e costura de todo o espetro musical que seduz o grupo. Tematicamente, é um tema que, de acordo com Jonathan Higgs, o líder dos Everything Everything, pretende alertar as consciência para a noção de normalidade, porque, de acordo com ele, esse é um conceito que ninguém sabe definir com exatidão e, por isso, nenhuma entidade ou indíviduo se pode apropriar do mesmo e apresentar-se como tal e as outras canções confirmam a impressão inicial que o tema causou. A distorção abrasiva da guitarra e as várias nuances rítmicas de Ivory Tower ou o modo como em Run The Numbers passamos, numa fração de segundos, de uma atmosfera contemplativa para um rodopio eletrificado carimbam este modo apenas aparentemente irrefletido de compôr, numa espécie de anarquia minuciosamente planeada que no tema homónimo ganha uma dimensão única devido a um piano cheio de solenidade acompanhado por uma electrónica explosiva feita de beats vincados e o falsete único de Higgs, também extraordinário a refletir uma vincado humor negro à medida que acompanha os sintetizadores de Night Of The Long Knives.

Disco indutor, frenético e provocante, A Fever Dream é um passo seguro e maduro dos Everything Everything rumo ao estrelato, um agregado interessante e improvável de análise psicológica e sociológica do estado atual do mundo, mas que pode sempre encontrar algum conforto e até, quem sabe, a esperada redenção e salvação nas pistas de dança nele espalhadas. Talvez possa ser a música o elemento conciliador e libertador das civilizações e os Everything Everything parecem querer voluntariar-se para levar a cabo essa cruzada inolvidável. Espero que aprecies a sugestão...

Everything Everything - A Fever Dream

01. Night Of The Long Knives
02. Can’t Do
03. Desire
04. Big Game
05. Good Shot, Good Soldier
06. Run The Numbers
07. Put Me Together
08. A Fever Dream
09. Ivory Tower
10. New Deep
11. White Whale


autor stipe07 às 14:52
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|

eu...

Powered by...

stipe07

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Parceria - Portal FB Headliner

Facebook

Man On The Moon - Paivense FM (99.5)

Em escuta...

Twitter

Twitter

Blogs Portugal

Bloglovin

Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

12
13
14

17
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


posts recentes

Work Drugs – Flaunt The I...

The Fresh And Onlys – Wol...

Chad VanGaalen – Light In...

The National - Sleep Well...

King Gizzard and the Liza...

Andrew Belle – Dive Deep

LCD Soundsystem – America...

Liars – TFCF

We Invented Paris – Catas...

Everything Everything - A...

Steven Wilson - To The Bo...

Grizzly Bear – Painted Ru...

Offa Rex - The Queen Of H...

The Magnetic Fields - 50 ...

Vagabon - Infinite Worlds

Mura Masa - Mura Masa

Waxahatchee - Out In The ...

Toro Y Moi - Boo Boo

STRFKR – Vault Vol. 1 & V...

Portugal. The Man – Woods...

X-Files

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

take a look...

I Love...

Os melhores discos de 201...

Astronauts - Civil Engine...

blogs SAPO

subscrever feeds