Terça-feira, 19 de Janeiro de 2016

Tiger Waves – Tippy Beach

Lançado no passado dia dezoito de janeiro e disponível para download no bandcamp da banda, com a possibilidade de doares um valor pelo mesmo, Tippy Beach é o novo compêndio de canções dos Tiger Waves, um projeto oriundo de Austin, no Texas, formado por James Marshall, cientista da NASA no Departamento de Física Teórica Cósmica, natural dessa cidade texana e Reid Comstock, estudante de filosofia oriental nascido em Chicago, ao qual se juntam, atualmente, Tyler Wharen e Joshua Kerl. Ainda sem se conhecerem pessoalmente,  os dois primeiros começaram por trocar música pela internet, depois passaram a sons, maquetas de ruídos, até resolverem juntar-se e compor juntos. Dessa parceria, na primavera de 2011 nasceram oficialmente os Tiger Waves, que se estrearam nos discos pouco depois com Only Good Bands Have Animal Names, álbum lançado em junho desse ano e que deu o pontapé de saída para um percurso discográfico já com alguns momentos relevantes e sonoramente reconfortantes.

As treze canções de Tippy Beach escutam-se com interessante deleite, já que parecem, antes de mais, resultado de um curioso empilhamento de camadas sonoras que começaram por ser pedaços isolados de música e, devido à mestria instrumental de James e Reid, foram sendo acomodadas como um puzzle onde tudo faz de repente o maior sentido quando agregado devidamente, ficando, assim, a parecer, cada vez mais, canções prontas, até atingirem um resultado final que da pop, ao surf rock, passando por alguma psicadelia, cruza a típica sonoridade de uns Beach Boys, apimentada por uma confessada obsessão por mestres do calibre de Phil Spector ou Syd Barrett, duas referências obrigatórias dos Tiger Waves.

A leveza melódica de canções como In Your Head ou o single homónimo e a vibração luminosa das cordas de Salida , o groove veraneante de Spectacle Of You e a cândura dos metais de Look Away, tema que parece ter sido composto propositadamente para um conto de fadas urbano contemporâneo, contrastam com o cariz mais sombrio da intrigante Down The Middle ou da contemplativa Third Term, mas o resultado global soa de modo bastante homogéneo, com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

Em suma, Tippy Beach sabe a uma indisfarçável urbanidade que nos oferece histórias banais que se cruzam numa esquina qualquer de uma cidade onde todos correm sem se perceber muito bem para onde, como ou porquê, apesar de haver um propósito bem definido no meio desse aparente caos, como demosntra a toada eminentemente tranquila e algo épica e sedutora deste alinhamento. Havendo belos instantes sonoros pop onde a instrumentação é colocada em camadas e a voz manipulada como uma espécie de eco, a atmosfera criada é bastante calma e contemplativa, bem à medida de um projeto que se aproxima claramente de algumas referências óbvias de finais do século passado. É um disco que comprova a rara capacidade destes Tiger Waves para manipularem instrumentalmente o sintético, sem descurar o orgânico, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, de modo a oferecer-nos texturas e atmosferas sonoras que, se deixarmos, inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...

Tiger Waves - Tippy Beach

01. Down The Middle
02. In Your Head
03. Spectacle Of You
04. Turns To Sky
05. Stay Inside
06. Salida
07. Sounds (Pt. 1)
08. In Retrograde
09. Look Away
10. Tippy Beach
11. I’m Not That Type Of Man
12. Third Term
13. Take Me Home


autor stipe07 às 21:36
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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2016

Indoor Voices - Auratic EP

Depois de no final de 2011 terem editado Nevers e um ano depois um EP intitulado S/T, os Indoor Voices de Jonathan Relph, Owen Davies, Ryan Gassi, Craig Hopgood e Kate Rogers estão de regresso com Auratic, um novo EP com cinco canções, editado no passado dia quinze de janeiro através da Häxrummet Records e disponivel no bandcamp do projeto em formato digital e com a possiblidade de aquisição de um exemplar em cassete, cuja produção foi limitada a quarenta exemplares. Em Auratic, esta banda de Toronto, no Canadá, contou com a ajuda de Chris Stringer na mistura e de Jeff Elliot na produção de cinco temas que contaram também com as participações especiais de Mihira Lakshman nos violinos e Alisha Erao (Lush Agave e Alligator Indian), Maja Thunberg (Star Horse), Kate Rogers (IV e Kate Rogers Band), Jimena Torres (The Great Wilderness) e Sandra Vu (SISU e Dum Dum Girls) nas vozes.

É algures entre o épico e o lo fi que estes Indoor Voices se sentem confortáveis a dar à luz canções iluminadas por uma fragilidade incrivelmente sedutora, à medida que deixam as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural e assumirem uma faceta algo negra e obscura, para criar um cenário musical tipicamente rock, esculpido com cordas ligas à eletricidade, mas com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

Este desígnio é logo audível na imponência de See Wish e o clima etéreo de Atomic, assim como o modo como, nesta composição de forte cariz orquestral, deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, carregam uma sobriedade sentimental esplendorosa, é outro exemplo feliz do modo como nestes Indoor Voices é possível conferir leves pitadas de shoegaze e post rock, mas nada de muito barulhento ou demasiado experimental.

Na verdade, todos os temas de Auratic têm uma toada eminentemente tranquila e algo de épico e sedutor. Há uma sonoridade muito implícita em relação à eletrónica dos anos oitenta e para mim destacam-se os belos instantes sonoros pop onde a instrumentação é colocada em camadas e a voz manipulada como uma espécie de eco, criando uma atmosfera geral calma e contemplativa, que atinge um elevado pico de magnificiência em What Can I, o meu destaque maior do trabalho.

Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado, Auratic exala o contínuo processo de transformação de uns Indoor Voices que procuram sempre mostrar, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:07
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Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2016

Beliefs – Leaper

Toronto, no Canadá, é o poiso dos Beliefs de Jesse Crowe e Josh Korody, dupla que lançou no passado mês de novembro um compêndio de indie rock absolutamente obrigatório intitulado Leaper, tendo-o feito à boleia da insuspeita Hand Drawn Dracula. É um disco imponente, visionário e empolgante, que assenta no típico indie rock atmosférico, que vai-se desenvolvendo e nos envolvendo, com vários elementos típicos do shoegaze, da dream pop e do post punk lo fi, a conferirem a estes Beliefs uma dinâmica e um brilho psicadélico incomum.

Tidal Wave, o contundente tema que abre este disco, é um exemplo corrosivo, hipnótico e contundente da cartilha sonora que os Beliefs guardam na sua bagagem, com o eco da guitarra a assumir, desde logo, um amplo plano de destaque no processo de condução melódica, eficazmente acompanhada por um baixo vigoroso e uma bateria entusiasmante e luminosa. As mudanças de ritmo com que a mesma abastece 1992 e o modo como acompanham o efeito abrasivo da guitarra, ampliam a perceção fortemente experimental e algo soturna, mas intensa e sedutora, de uma canção que ilustra o quanto certeiros e incisivos os Beliefs conseguiram ser na replicação do ambiente sonoro que escolheram.

À medida que Leaper avança, em composições tão díspares como a etérea Drown ou a caótica e impulsiva Morning Light, torna-se claro que o som destes Beliefs, sendo mais ou menos luminoso, conforme as sensações que cada tema pretende extravasar, é sempre encorpado, decidido e seguro e surpreende o modo como a dupla transforma uma hipotética rispidez visceral em algo de extremamente sedutor e apelativo, com uma naturalidade e espontaneidade curiosas. Depois, escuta-se o rock incisivo de Ghosts e percebe-se não só o modo como o efeito da voz de Jess é um trunfo declarado dos Beliefs, até porque transmite uma sensação de emotividade muito particular e genuína, mas também fica plasmado como determinados arranjos, como aquele que, neste caso, é proporcionado pelo baixo, plasmam com precisão as virtudes técnicas da dupla e o modo como conseguem abarcar vários géneros e estilos do universo sonoro indie e alternativo e comprimi-los em algo genuíno e com uma identidade muito própria. Na verdade, é impossível, ao longo de todo o alinhamento, ficar indiferente à emotividade que transborda do efeito das guitarras, mas também nos atinge no âmago e de modo contundente o modo como os temas progrides, orientados pela secção percussiva, apoiada numa bateria e num baixo que expandem criatividade e arrojo quase sem limites. Parece, frequentemente, que a dupla foi dominada por uma aúrea psicotrópica lisérgica que lhe tolheu os sentidos, para deixar os instrumentos se expressarem livremente, como é o caso do tema homónimo, numa verdadeira espiral de fuzz rock, rugoso, visceral e psicadélico, cheio de efeitos e flashes, uma ordenada onda expressiva relacionada com o espaço sideral, que oscila entre o rock sinfónico e guitarras experimentais, com travos de krautrock.

Há nestes Beliefs uma aúrea de grandiosidade indisfarçável e um notável nível de excelência no modo como conseguem ser nostálgicos reavivando no ouvinte outros projetos que foram preponderantes nas últimas décadas do século passado e na forma como mutam a sua música e adaptam-na a um público ávido de novidades refrescantes, mas que faça recordar os primórdios das primeiras audições musicais que alimentaram o nosso gosto pela música alternativa. Este projeto caminha sobre um trilho aventureiro calcetado com um experimentalismo ousado, que parece não conhecer tabús ou fronteiras e que nos guia propositadamente para um mundo onde reina uma certa megalomania e uma saudável monstruosidade agressiva, aliada a um curioso sentido de estética. Esta cuidada sujidade ruidosa que os Beliefs produzem, concebida com justificado propósito e usando a distorção das guitarras como veículo para a catarse, é feita com uma química interessante e num ambiente simultaneamente denso e dançável, despida de exageros desnecessários, mas que busca claramente a celebração e o apoteótico. Espero que aprecies a sugestão...

Beliefs - Leaper

01. Tidal Wave
02. 1992
03. Colour Of Your Name
04. Drown
05. Leaper
06. Ghosts
07. Morning Light
08. Go Ahead And Sleep
09. Leave With You
10. Swooner


autor stipe07 às 21:05
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Domingo, 3 de Janeiro de 2016

Will Butler - City On A Hill

Um pouco fora de tempo, divulgo uma novo tema do canadiano Will Butler, uma das peças fundamentais da engrenagem do rock chamada Arcade Fire e figura de relevo do universo sonoro indie. Disponível para download gratuito, City On A Hill é o nome dessa canção, uma peça sonora assente num piano particularmente delicado e brilhantemente ingénuo e sedutor, a oferecer-nos um Butler de smoking aprumado, íntimo e profundo, de peito aberto para o mundo, cheio de imagens, metáforas e mistério. Confere...


autor stipe07 às 18:02
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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2015

The High Dials – In The A​.​M. Wilds

Montréal, no Canadá, é o poiso dos The High Dials, banda com uma década de carreira e de regresso aos discos com In The A.M. Wilds, o quinto trabalho do grupo, produzido por Marc Bell e que se inspirou na urbanidade boémia e noturna, que tantas vezes nos oferece o surreal e o inesperado, refletida neste alinhamento com texturas sonoras que privilegiam um punk rock algo sujo e lo fi, mas onde também não faltam texturas eletrónicas particularmente pulsantes e contemporâneas e com um elevado groove e um espírito shoegaze que se saúda.

Neste novo capítulo de uma carreira já com alguns marcos discográficos impressivos, os The High Dials oferecem-nos em canções quase sempre curtas, mas incisivas, um cardápio onde abundam boas letras e arranjos assentes num baixo vibrante, fabuloso em Yestergraves, adornado por uma guitarra jovial e criativa, onde se percebe que há uma forte vertente experimental e uma certa soul e também alguns efeitos e detalhes sintetizados, típicos da pop e do punk dos anos oitenta. A bateria e a secção ritmíca são, quase sempre bastante aceleradas, como se percebe logo na exuberante e luminosa Echoes And Empty Rooms, mas também na festiva e colorida On Again, Off Again. Mas temas como a enigmática Amateur Astronomeur ou a intuitiva Afterparty, canção conduzida por um inédito piano vintage, funcionam como contraponto ao restante conteúdo, graças a um ritmo diferenciado e melodias menos abertas e luminosas, mas claramente profundas e reflexivas. Outro tema com uma tonalidade muito vincada é Evil Twin, composição com uma rugosidade muito própria, onde baixo e sintetizador se cruzam com uma graciosidade incomum, ampliada por algumas cordas que vão deambulando em redor da melodia e que se tornam em excelentes tónicos para  potenciar a capacidade destes The High Dials em soprar na nossa mente e envolvê-la com uma elevada toada emotiva e delicada, fazendo o nosso espírito facilmente levitar e provocando um cocktail delicioso de boas sensações.

Disco com uma atmosfera sonora épica, positiva, sorridente e bastante apelativa, In The A.M. Wilds é um cenario idílico que abarca uma vasta miríade de influências e tiques sonoros, mas que balizam com notável exatidão o farol que ilumina o percurso musical desta banda, que tem sempre algo de novo e refrescante para nos oferecer e que geralmente recordar os primórdios das primeiras audições musicais que alimentaram o nosso gosto pela música alternativa. Espero que aprecies a sugestão....

The High Dials - In The A​.​M. Wilds

01. Echoes And Empty Rooms
02. Desert Tribe
03. Yestergraves
04. Impossible Things
05. The Barroom Fisher King
06. Flower On The Vine
07. Amateur Astronomer
08. D.U.I.
09. On Again, Off Again
10. Afterparty
11. Evil Twin
12. Club Stairs
13. Lake Of Light
14. Blank Spaces On The Map

 


autor stipe07 às 21:04
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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2015

Young Galaxy - Falsework

Os canadianos Young Galaxy de Stephen Ramsay, Catherine McCandless e Matthew Shapiro, regressaram aos discos no final deste mês com Falsework, um álbum produzido por Dan Lissvik e lançado através da conceituada Paper Bag Records e uma autêntica epopeia deste trio na busca de um som cada vez mais dançante, onde não faltam guitarras e sintetizadores posicionados com acerto. Seja como for, também não faltam temas com um clima paticularmente sombrio como é o caso de Factory Flaws, razão pela qual Falsework é um trabalho eclético, multifacetado e cheio de nuances sonoras capazes de cativar qualquer ouvinte.

Definitivamente numa galáxia muito mais distante do que a generalidade das actuais bandas, estes canadianos parecem decididos em voltar a colocar as guitarras na linha da frente e dar-lhes um protagonismo que esteve um pouco afastado de um projeto, mais apostado ultimamente numa faceta eminentemente sintética, nomeadamente depois de Ultramarine (2013), como se percebeu em Body e Factory Flaws, os dois anteriores registos dos Young Galaxy e que precederam esse disco. Ready To Shine, um dos momentos altos do disco, comprova este balanço subtil, mas real, entre diferentes mundos, mas é unânime a presença daquela faceta soul e uma particular alegria e luminosidade, nomeadamente nesta canção, não só patente nas cordas, mas também no próprio registo vocal, um optimismo que se saúda e que enobrece a cartilha sonora do projeto.

Oriundos do continente americano, tal não impede que estes Young Galaxy não olhem com um certo requinte para a pop nórdica dos anos setenta e oitenta e um ambiente de uma certa euforia que teve o auge nos anos oitenta e que muitos de nós recordam com saudade. No entanto, eles convertem a sonoridade dessa época para algo atual, familiar e inovador, ao mesmo tempo, com canções que se prendem aos nossos ouvidos com a mistura lo fi e os sintetizadores que definiam a magia da pop de há trinta anos atrás. Mesmo em momentos mais soturnos e melancólicos, como o acima referido, os Young Galaxy não se entregam por completo à tristeza e também criam canções que apesar de poderem ser fortemente emotivas também servem para dançar.

Falsework navega na luz entre o sintético e o orgânico, em dez canções onde a eletrónica é um elemento preponderante, mas a presença de outros instrumentos serve para ampliar o contraste e acrescentar novas cores a estes temas, que são, quase todos, muito cativantes. É uma eletrónica simples e intrigante, feita de intimismo romântico que integra uma espantosa solidez de estruturas, num misto de euforia e contemplação. Espero que aprecies a sugestão... 

Young Galaxy - Falsework

01. Wear Out The Ground
02. The Night Wants Us To Be Free
03. Factory Flaws
04. Body
05. Ready To Shine
06. Must Be Love
07. We’re No Good
08. Little Wave
09. Lean Into My Love
10. Pressure


autor stipe07 às 20:50
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Terça-feira, 24 de Novembro de 2015

We Are The City – Above Club

Oriundos de Vancouver, os canadianos We Are The City são Cayne McKenzie, David Menzel e Andrew Huculiak, um trio de regresso aos discos com Above Club, depois de já no início deste ano nos ter surpreendido com Violent, um trabalho produzido por Tom Dobrzanski e os próprios We Are The City e que abraçava a indie pop com o rock luxuriante, num ritmo e cadência certas, abraço esse que continha uma certa toada melancólica, alicerçada num salutar experimentalismo que compilava um interessante leque de influências, com uma óbvia filosofia vintage.

Above Club mantém a receita de Violent e neste disco conferimos uma dialética sonora assente numa liberdade de expressão melódica e criativa, que é a pedra de toque de oito canções feitas com guitarras levemente distorcidas e harmoniosas, banhadas pelo sol dos subúrbios e misturadas com arranjos luminosos e com um certo toque psicadélico. Logo na panóplia de efeitos e detalhes de Take Your Picture With Me While You Still Can percebe-se que este trio não está preso e limitado a uma fronteira sonora claramente definida, tateando diferentes espaços e espetros, plasmados em curiosos detalhes que, no caso de Keep On Dancing, tanto podem ser um simples toque num teclado, como uma batida compassada num tambor, à medida que os sintetizadores debitam, sem nexo aparente, variados ruídos que a voz e a guitarra ajudam a acomodar.

Genuínos, ecléticos e criativos, estes We Are The City não se intimidam na hora de compôr e deixam o arsenal instrumental que lhes foi colocado à disposição divagar livremente, compondo temas capazes de nos enredar numa teia de emoções que prendem e desarmam, sem apelo nem agravo, numa parada de cor, festa e alegria, onde terá havido certamente um forte sentimento de comunhão entre os músicos, pelo privilégio de estarem juntos e comporem a músicas que gostam.

Em Heavy As A Brick o trio aponta as agulhas para uma eletrónica algo minimalista, mas acessível, mas mesmo nesse tema a irregularidade da percussão, alguns efeitos metálicos e as variações de ritmo e de intensidade, abastecem uma filosofia sonora bastante aditiva e peculiar, que procura gravitar em torno de diferentes conceitos sonoros e esferas musicais, que transmitem, geralmente, sensações onde a nostalgia do nosso quotidiano facilmente se revê. Aparentemente crua e despida de conteúdo, Cheque Room é uma das canções que melhor condensa este casamento feliz entre dois mundos sonoros que nem sempre coexistem pacificamente, audível no modo como um simples efeito de uma guitarra elétrica, uma percussão estridente e um sintetizador deambulante se cruzam e dão as mãos para nos oferecer uma música perfeita para se ouvir num dia de sol, ali, no exato momento em que começa o nosso fim de semana e ao conduzirmos para casa começamos a sonhar. Mas a amplitude dramática que exala de Kiss Me, Honey também consegue este efeito intenso e algo inebriante.

A sirene estridente, o piano melancólico e o registo vocal sincero e incondicional que abrigam Lovers In All Things e o efeito abrasivo de Sign My Name Like QUEEN são apenas mais dois compêndios de detalhes que colocam a nú o imenso ecletismo destes We Are The City, capazes de nos levar à boleia dos seus pensamentos mais inconfessáveis, enquanto falam emocionadamente sobre o amor, deixando-nos descobrir plenamente a sobriedade sentimental que marca a intensa aúrea vincadamente orgânica e, por isso, fortemente sensual que envolve o trio, já que nestas canções consegues sentir a verdadeira personalidade do agregado sentimental que carateriza este projeto verdadeiramente único.

Ouvimos cada uma das oito músicas de Above Club e conseguimos, com clareza, perceber os diferentes elementos sonoros adicionados e que as esculpiram, com as guitarras a não se situarem sempre na primeira fila daquilo que se escuta, mas a serem o fio condutor que suporta aqueles simples detalhes que fazem toda a diferença no cariz que a canção toma e nas sensações que transmite. Este é um exercício prático claramente bem conseguido de conjugação de diversas camadas de instrumentos, que nos oferecem paisagens grandiosas e significativas, arrebatadores banquetes de sedução, servidas em bandeja de ouro, com um forte entusiasmo lírico que contorna todas as amarras que prendem a nossa alma, apresentando, desse modo, a notável disponibilidade dos We Are The City para nos fazer pensar, mexendo com os nossos sentimentos e tentando dar-nos pistas para uma vida mais feliz. Espero que aprecies a sugestão...

We Are The City - Above Club

01. Take Your Picture With Me While You Still Can
02. Heavy As A Brick
03. Keep on Dancing
04. Sign My Name Like QUEEN
05. Club Music
06. Cheque Room
07. Lovers In All Things
08. Kiss Me, Honey


autor stipe07 às 20:56
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Segunda-feira, 23 de Novembro de 2015

Foreign Diplomats – Princess Flash

Élie Raymond, Antoine Lévesque-Roy, Thomas Bruneau Faubert, Charles Primeau e Emmanuel Vallieres, são os Foreign Diplomats, uma banda canadiana oirunda de Montréal, que acaba de se estrear nos lançamntos discográficos com um compêndio de canções que são já um marco imprescindível e obrigatório neste ano repleto de novidades e registos sonoros qualitativamente incomuns. Gravado nos primeiros meses deste ano, o disco a que me refiro chama-se Princess Flash, foi misturado e produzido por Brian Deck e está disponivel através da Indica Records.

Este quinteto canadiano começa agora a traçar o seu percurso sonoro, mas já tem bem definidas as coordenadas para estilizar canções em cujo regaço festa e lisergia caminham lado a lado. Falo de duas asas que nos fazem levitar ao encontro de paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, um rock e uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos, teclados corrosivos no modo como atentam contra o sossego em que constantemente nos refugiamos e a voz de Élie que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

Se a audição de Princess Flash nos oferece vastas paisagens sonoras, nota-se, rapidamente, num ponto em comum em praticamente todas as suas canções. Começam, geralmente, por uma base instrumental minimal, aquela que vai sustentar o tema até ao seu ocaso, mas depois acontece sempre uma explosão sónica, feita de exuberância e cor, que do território mais negro e encorpado de Lies (Of November), tema que disserta sobre o dia a dia de um serial killer e alguns dos seus pensamentos mais obscuros, ao tribalismo percussivo de Comfort Design, ou o mais animado e até dançável de Queen+King, ocorre sempre num percurso triunfante e seguro, onde abundam guitarras experimentais, uma súmula muitas vezes quase impercetível entre epicidade frenética, crua e impulsiva e sensualidade lasciva, num resultado global borbulhante e colorido.

Bálsamo retemperador perfeito capaz de nos fazer recuperar o fôlego de um dia intenso, Princess Flash ruge nos nossos ouvidos, agita a mente e força-nos a um abanar de ancas intuitivo e capaz de nos libertar de qualquer amarra ou constrangimento que ainda nos domine. E fá-lo conduzido por uma espiral pop onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, através de um som esculpido e complexo, originando um encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. O minimalismo contagiante da guitarra em que se sustenta Lily's Nice Shoes!, mais um tema que nos desarma devido ao registo vocal e ao banquete percussivo que contém e a riqueza sintética que sobressai da tela por onde escorre uma amalgama de efeitos e ruídos, é um extraordinário exemplo do modo como esta banda é capaz de ser genuína a manipular o sintético, de modo a dar-lhe a vida e a retirar aquela faceta algo rígida que a eletrónica muitas vezes intui, convertendo tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico.

Com nuances variadas e harmonias magistrais, em Princess Flash tudo se orienta com o propósito de criar um único bloco de som, fazendo do disco um corpo único e indivisível e com vida própria, com os temas a serem os seus orgãos e membros e a poderem personificar no seu todo um groove e uma ligeireza que fazem estremecer o nosso lado mais libidinoso, servidos em bandeja de ouro por um compêndio aventureiro, mas também comercial, que deve figurar na prateleira daqueles trabalhos que são de escuta essencial para se perceber as novas e mais inspiradas tendências do indie rock contemporâneo, além de ser, claramente, um daqueles discos que exige várias e ponderadas audições, porque cada um dos seus temas esconde texturas, vozes, batidas e mínimas frequências que só são percetíveis seguindo essa premissa. Espero que aprecies a sugestão...

Foreign Diplomats - Princess Flash

01. Lies (Of November)
02. Comfort Design
03. Queen+King
04. Color
05. Flash Sings For Us
06. Lily’s Nice Shoes!
07. Beni Oui Oui
08. Mexico
09. Guns (Of March)
10. Crown
11. Drunk Old Paul (And His Wild Things)


autor stipe07 às 19:13
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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2015

Half Moon Run – Sun Leads Me On

Devon Portielje, Conner Molander, Dylan Phillips, Isaac Symonds são os Half Moon Run, um projeto canadiano oriundo de Montreal e que já faz música desde 2009. Estrearam-se nos discos três anos depois com Dark Eyes e agora, após o mesmo hiato temporal, regressaram à boleia de Sun Leads Me On, o novo registo de originais da banda, editado a vinte e três de outubro pelo selo Glassnote Records.

No seio de um indie rock que tanto pode infletir, em determinados momentos, para a folk como para a própria eletrónica, os Half Moon Run parecem não sentir-se confortáveis com o ideal de continuidade e apostam em pequenos detalhes sonoros que fazem ponte entre dois territórios, numa espécie de simbiose de risco, mas particularmente bem sucedida, entre Radiohead e Fleet Foxes, raramente ouvida nas propostas atuais. Esta fusão assenta em melodias luminosas feitas com linhas de guitarra delicadas e arranjos que criam paisagens sonoras bastante peculiares.

Neste Sun Leads Me On, produzido por Jim Abbiss, o falsete etéreo de Devon é um dos trunfos maiores do alinhamento, como se pecebe desde logo na cândura de Warmest Regards, mas a instrumentação intrincada, os elementos eletrónicos e a própria escrita de algumas canções, exalam uma qualidade hipnótica e aventureira, mas sempre acessível. Os violinos, a bateria insistente e o ambiente progressivo das guitarras de I Can’t Figure Out What’s Going On e os detalhes eletrónicos que vão piscando o olho à guitarra na incandescente Turn Your Love assim como o minimalismo omnipresente da mesma no tema homónimo, são exemplos do modo exemplar como os Half Moon Run complementam a ímpar capacidade vocal do líder da banda, com um arsenal instrumental diversificado e abrangente sempre a postos para criar melodias que recusam ter um comportamento linear, preferindo mostrar-se apoiadas em constantes variações de volume, intensidade e epicidade. As variações de intensidade e ritmo da bateria em It Works Itself Out, assim como a alternância entre detalhes eletrónicos sintetizados e dedilhares acústicos de cordas, nesse mesmo tema, transformam o mesmo numa súmula feliz de todo o ideário intencional destes Half Moon Run e daquilo que os resliza enquanto compositores criativos e intérpretes inspirados.

Melódicos e intencionalmente acessíveis na mesma medida, os Half Moon Run transformaram cada uma das canções de Sun Leads Me On em criações duradouras, ricas em texturas e versos acolhedores que ultrapassam os limites do género, num disco que busca uma abrangência, mas que não resvala para um universo de banalidades sonoras que, em verdade se diga, alimentam há anos a indústria fonográfica. Espero que aprecies a sugestão...

Half Moon Run - Sun Leads Me On

01. Warmest Regards
02. I Can’t Figure Out What’s Going On
03. Consider Yourself
04. Hands in the Garden
05. Turn Your Love
06. Narrow Margins
07. Sun Leads Me On
08. It Works Itself Out
09. Everybody Wants
10. Throes
11. Devil May Care
12. The Debt
13. Trust


autor stipe07 às 18:01
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Sábado, 31 de Outubro de 2015

The Never Surprise – Winters EP

O projeto canadiano The Never Surprise, natural de Vancouver, nasceu em 2011 e começou por resultar de uma colaboração entre David Gaudet e Nick Eakins, que procurava a amibiciosa simbiose entre a folk e o indie rock com alguns detalhes da eletrónica à mistura. O adeus de Eakins ao projeto em 2013 foi um duro golpe, mas não o fim de The Never Surprise, que agora, iluminado pela mente única de Gaudet, acaba de editar um EP com sete canções, disponíveis para audição e download, com a possibilidade de serem obtidas gratuitamente ou doares um valor pelas mesmas, na plataforma bandcamp.

Contando com as importantes contribuições de nomes tão influentes como Adam Nanji (The Belle Game), Andrew Braun (Rococode), Robbie Driscol, (Hannah Georgas) and Niko Friesen (The Zolas), Gaudet conseguiu oferecer-nos, com Winters, um ambiente bastante relaxante. No Dispute, o tema de abertura, é um veículo precioso para a indução imediata do ouvinte neste inverno genuíno e contemplativo. A gentileza da guitarra elétrica e o eco da voz dessa canção são competentes na forma como abarcam diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos, uma mistura harmoniosa a exuberante, mas suave e confessional, que nos oferece um início de audição de Winters ameno, íntimo, mas também arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Daí em diante, o EP sobrevive à sombra de arranjos bem feitos, que prendem a atenção, alternando entre climas calmos e agitados, conseguidos através da combinação da guitarra com outros sons e detalhes, quase sempre precurssivos, mas que nunca roubam às cordas o merecido protagonismo. Por exemplo, se os sussurros do tema homónimo criam uma sensação curiosa e reconfortante que a introdução da bateria não esbate, já os efeitos rústicos de Limousine e o andamento da guitarra em Ocean, transformam a audição do EP numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia.

Winters emociona, inspira e ilumina, levando-nos para um lugar calmo e pacífico, onde podemos fugir da velocidade, do caos e da ansiedade da vida moderna, um lugar que, independente de géneros ou estilos, definitivamente só existe na música. Espero que aprecies a sugestão...

The Never Surprise - Winters

01. No Dispute
02. Winters
03. No Real Me
04. Limousine
05. Ocean
06. Aurelia
07. Picket Line


autor stipe07 às 22:57
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