Terça-feira, 6 de Junho de 2017

Wavves – You’re Welcome

Pouco mais de dois anos após o lançamento de No Life For Me, um disco que resultou de uma parceria com os Cloud Nothings de Dylan Baldi e de um trabalho intitulado V, lançado pela Warner Records, editora com quem divergiram recentemente, os californianos Wavves de Nathan Williams estão de regresso com You're Welcome, o sexto álbum deste grupo com praticamente dez anos de estrada e que, atingindo este marco temporal importante para bandas contemporâneas, angaria já uma certa maturidade em torno de si.

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Editado pelo selo Ghost Ramp, You're Welcome é um atestado de maior abrangência e ecletismo de uns Wavves que sempre tiveram fortes ligações ao universo punk, mas que piscam com cada vez maior assertividade o olho à pop, apesar do riff vigoroso e frenético de Daisy, o tema que abre o alinhamento do registo. Mas depois, no ocaso, na doçura carente de I Love You, uma canção onde é fácil imaginar os Wavves numa praia perto de casa, de prancha na mão e calções bem justos, a piscar os olhos aos fatos de banho que passam e na batida ritmada e no refrão imponente da solarenga Million Enemies, fica registada esta guinada cada vez mais certeira umo a um universo sonoro menos garageiro e lo fi e mais comercial e, de certo modo, com uma outra abrangência no que concerne ao público alvo.

Seja como for, no baixo e nas quebras de ritmo de Animal, no devaneio punk, intenso e lascivo de Exercise ou no sarcasmo percetível nos samples de Come To The Valley, os Wavves continuam a ser fiéis à sua fórmula identitária que, sem grandes segredos, truques intrincados ou artifícios desnecessários, nos proporciona um som nostálgico que, como seria de esperar, contém aquela mescla entre surf music e punk rock que bandas como os The Replacements, os Green Day e até os Blink-182, cultivaram e semearam aos sete ventos, exaustivamente no final do século passado. E convém também esclarecer que é um indie rock incubado na mente de um músico que, parecendo ter maiores e mais firmes intenções comerciais, continua a não demonstrar uma obsessiva preocupação em vir a fazer parte dos compêndios futuros que compilarão nomes e bandas que serviram de referência essencial ao desenvolvimento da pop e do rock alternativo desta década.

Se a música faz parte da indústria do entretenimento, You're Welcome é uma seta apontada diretamente ao centro do alvo desse conceito de animação, através de canções rápidas e incisivas, de acordes simples e facilmente digeriveis, com refrões orelhudos e intensidade melódica suficiente para divertir uma juventude despreocupada, que vive o imediato e que olha para o amanhã como algo longínquo e que merecerá toda a atenção quando se fizer presente. Espero que aprecies a sugestão...

Wavves - You're Welcome

01. Daisy
02. You’re Welcome
03. No Shade
04. Million Enemies
05. Hollowed Out
06. Come To The Valley
07. Animal
08. Stupid In Love
09. Exercise
10. Under
11. Dreams Of Grandeur
12. I Love You


autor stipe07 às 21:30
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Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

!!! - Shake The Shudder

Lançado no passado dia dezanove através da Warp Records, Shake The Shudder é o novo tomo discográfico dos norte-americanos !!! (Chk Chk Chk), um coletivo liderado por Nick Offer, ao qual se juntam atualmente Mario Andreoni, Dan Gorman, Paul Quattrone e Rafael Cohen. Este é o sétimo disco da carreira de um dos nomes fundamentais do punk rock do novo milénio e talvez um dos melhores trabalhos da carreira deste grupo já com duas décadas de vida, formado em 1995 das cinzas dos míticos  Black Liquorice e dos Popesmashers.

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Salvo algumas excepções de nomeada, nomeadamente nomes como os LCD Soundsystem, The Juan Maclean, os The Rapture ou os próprios Thee Oh Sees, o espetro sonoro em que os !!! (Chk Chk Chk) se movimentam ganhou um fôlego enorme no início deste século, mas tem vindo a perder terreno no seio do rock alternativo. É um receituário que serve-se, geralmente, de linhas de baixo encorpadas, riffs de guitarra pulsantes e batidas muitas vezes sintetizadas com o intuíto de fazer dançar todos aqueles que gostam de abanar a anca mas deprezam terrenos sonoros como o house, o discosound e afins. Hoje em dia, além do anunciado regresso da banda de James Murphy aos discos e da manutenção da pujança do coletivo liderado por John Dwyer, os !!! (Chk Chk Chk) serão talvez o projeto que ainda se consegue manter nas luzes da ribalta e assumir um protagonismo na defesa dos interesses de uma sonoridade que, sendo bem burilada é, sem dúvida, uma das mais atrativas no universo do rock.

A miscelânea assertiva entre rock e eletrónica que os !!! (Chk Chk Chk) nos oferecem neste Shake The Shudder, fica plasmada logo desde o início. Se o ligeiro travo R&B de The One2 é uma daquelas típicas canções de início de festa, com o falsete vocal e a batida seca a puxarem-nos sedutoramente para debaixo da bola de espelhos, depois o domínio do rock faz-se sentir em Dancing Is The Best Revenge, tema onde sobressai um aditivo refrão e que é conduzido por uma simples linha de baixo, acompanhada por uma bateria enleante e guitarras insinuantes, com a eletrónica a tomar as rédeas de NRGQ, canção adornada por guitarras de inspiração oitocentista e onde a voz de Lea Lea aprimora o travo vintage de um tema onde cabedal e lantejoulas se misturam sem pudor. E, logo nesse arranque ficam desfeitas todas as dúvidas sobre a boa forma dos !!! (Chk Chk Chk) e o modo como ainda nos fazem dançar e vibrar com ímpeto, quase até à exaustão, além de serem canções que plasmam o enorme talento de Nick Offer, quer como escritor quer como compositor e, principalmente, como agitador.

A partir daí, no sintético groove negro de Things Get Hard, na afirmação do baixo como verdadeira locomotiva do som dos !!! (Chk Chk Chk) no pós punk de Throw Yourself In The River e no modo inédito como o trombone desafia a acidez dos outros arranjos que vagueiam pela espetacular melodia que sustenta R Rated Pictures, espraia-se nos nossos ouvidos e vibra de alto a baixo um álbum que não serve para as pistas de dança convencionais, mas que é perfeito para quem pretende abanar a anca ao som de uma sonoridade um pouco mais ortodoxa e exigente, mas tanto ou mais recompensadora. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 00:40
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Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

Tashaki Miyaki – The Dream

A vocalista Lucy Miyaki e o guitarrista Tashaki formam o núcleo duro dos Tashaki Miyaki, uma banda oriunda de Los Angeles que navega nas águas turvas e profundas da dream pop de pendor psicadélico e que acaba de se estrear no formato longa duração com The Dream, um lindíssimo tomo de canções patrocinadas pela Metropolis Records, produzido por Paige Stark, misturado por Dan Horne (Cass McCombs, Allah-Las) e que com as participações especiais de Joel Jerome (Cherry Glazerr, La Sera, Dios) e do multi-instrumentista Jon Brion. São canções que nos embalam e incitam de um modo muito particular e lisérgico, já que comprovam o quanto estes Tashaki Miyaki são incomparáveis e mestres na criação de uma atmosfera densa, mas particularmente sensual e hipnótica.

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Com uma sonoridade cada vez mais sóbria e adulta, Lucy e Tashaki criaram em The Dream um catálogo sonoro envolvente, climático e tocado pela melancolia, que atinge o seu auge, na minha opinião, na pop luminosa e pueril de Cool Runnings, uma daquelas canções que se não se embranha no imediato é porque existe algo de errado no nosso âmago no que concerne à capacidade de absorver emoção e fervor. Mas logo em City e, de modo mais vincado, em Girls On T.V., a dupla apresenta uma instrumentação que tem como pano de fundo essencial o clássico rock abarcado pela típica herança da América do Norte, que serve-se de guitarras sobriamente eletrificadas e distorcidas para obter uma mistura sem fronteiras definidas, entre esse grande universo sonoro e o blues, a folk, e, implicitamente, alguns pilares fundamentais da eletrónica ambiental, com o bónus de ser audível, neles a procura de uma sonoridade ainda mais intimista e reservada, como se quisesse replicar-se, no seu todo, com um suspiro algo abafado e o menos expansivo possível.

No inconfundível dedilhar das notas de Anyone But You e na sobriedade dos arranjos de Facts Of Life, conferimos mais dois notáveis exemplos de como se sente neste álbum uma superior carga emotiva. Além disso, a voz adocicada de Lucy, que parece pairar, em praticamente todo o disco, numa frágil nuvem de algodão, faz juz à cândura de uma odisseia poética que transborda fragilidade em todas as sílabas e versos que sustentam as canções. Esta voz, quando em Get It Right replica um registo mais grave sem colocar em causa o elevado pendor lisérgico da cantora, é mais uma manifestação audível e concreta do jogo dual que os Tashaki Miyaki conseguem oferecer ao ouvinte, entre força e fragilidade, dois aspetos que nas vozes, na letra e na instrumentação, se equilibram de forma vincada e segura.

The Dream é, em suma, um compêndio sonoro que surpreende pelo bom gosto como apresenta de forma sombria e introspetiva, mas superiormente frágil e sedutora, a visão dos Tashaki Miyaki sobre alguns temas que sempre tocaram a dupla, mas, principalmente, pela forma madura e sincera como tentam conquistar o coração de quem os escuta com melodias doces e que despertam sentimentos que muitas vezes são apenas visíveis numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

Tashaki Miyaki - The Dream

01. L.A.P.D. Prelude
02. City
03. Girls On T.V.
04. Out Of My Head
05. Anyone But You
06. Cool Runnings
07. Tell Me
08. Facts Of Life
09. Keep Me In Mind
10. Get It Right
11. Somethin Is Better Than Nothin
12. L.A.P.D. Finale
13. L.A.P.D.


autor stipe07 às 14:56
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2017

Foxygen - Hang

Com uma salutar obsessão pelos Brian Jonestown Massacre, os Foxygen são hoje estrelas maiores do firmamento indie e estão de regresso aos lançamentos discográficos com Hang, oito canções que são um impressionante passo em frente na carreira de uma dupla natural de Weslake Village, nos arredores de Los Angeles e apaixonada pela sonoridade pop e psicadélica de segunda metade do século passado, um período localizado no tempo e que semeou grandes ideias e nos deu canções inesquecíveis, lançou carreiras e ainda hoje é matéria prima de reflexão para inúmeros projetos.

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Se na estreia, com Take the Kids Off Broadway (disco criado em 2011, mas apenas editado no ano seguinte), os Foxygen procuraram a simbiose de sonoridades que devem muito a nomes tão fundamentais como David Bowie, The Kinks, Velvet Underground, The Beatles e Rolling Stones e se dois anos depois, com uma melhor produção, a cargo de Richard Swift e maior coesão, o sucessor, We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic, trazia o mesmo horizonte vasto de referências e as inspirações da estreia, mas trabalhadas de forma ainda mais abrangente e eficaz e se em 2014 as mais de vinte canções de ...And Star Power alargaram ainda mais os horizontes do projeto, libertando-o definitivamente de qualquer amarra que ainda o pudesse limitar, agora, ao quarto disco, os Foxygen atingem o auge de maturação e refinamento, num alinhamento onde a criatividade se evidencia nas mais diversas formas, fruto de um psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e um sentido de liberdade e prazer juvenil que é suficientemente atual nesta dupla, exatamente por experimentar tantas referências do passado.

Editado pela Jagjaguwar que desde sempre abriga os Foxygen, Hang está cheio de instantes obrigatórios e surpreendentes. Se Follow The Leader é conduzido por aquele charme negro com fortes ligações ao melhor da motown setentista e se a descarada homenagem de Avalon ao rock progressivo e ao clássico Waterloo dos suecos Abba, ajuda a plasmar o modo como Sam France e Jonathan Rado não se envergonham de elevar ao panteão nomes e figuras de outros tempos que sempre os encantaram, principlamente quando houve um aumento no volume de acidez que sempre abasteceu a dupla, já o sintetizador glam e o piano insinuante de Mrs. Adams são um bom exemplo do modo como os Foxygen são geniais a colar e sobrepôr melodias e instrumentos sem perderem o norte e, naturalmente, quase sempre com um tom sexy e algo subtil. Depois, quando a guitarra pulsante entra, a canção começa a tomar um rumo mais rock e sensual, atingindo o auge numa aceleração que é novamente interrompida pela toada anterior, uma espécie de coito interrompido mas que não impede o regresso aos preliminares.

Até ao final, num disco que de Eddie Holland a Smoking Robinson e Martha Reeves, passando pelos britânicos Electric Light Orchestra de Jeff Lynne tem em si impresso aquele espírito nativo único e genuíno, uma típica canção de natal chamada America, que bem precisa de um Pai Natal generoso que a salve dos tempos tenebrosos que vive, um intenso e melancólico tema com forte travo country chamado On Lankershim e Rise Up, talvez a canção que melhor exemplifica a filosofia experimentalista, ao nível instrumental deste projeto, que se aproxima muitas do blues marcado pelo piano e pelas guitarras, além dos metais e de alguns ruídos, são outros instantes que reúnem, também através das letras, todo um manancial de imagens e referências que evocam a era de ouro de Hollywood e, tendo em conta o período temporal acima descrito, principalmente os mágicos anos setenta.

Hang conta com várias participações especiais, entre elas Trey Pollard, Matthew E. White, os The Lemon Twigs e Steven Drozd dos Flaming Lips, músicos experientes e conceituados, que adicionaram há já habitual receita cósmica da dupla, vários ingredientes assertivos, conseguindo-se sintonizar sempre no ambiente certo, sem ferir as naturais susceptibilidades dos gostos musicais que cada um deles trouxe consigo. O resultado é um verdadeiro tratado sonoro carregado de emoção, cor e alegria, uma verdadeira viagem no tempo, mas também um disco intemporal na forma como plasma com elevada dose de criatividade o que de melhor recria atualmente o vintage. Mas Hang também aponta caminhos para o futuro não só da dupla, como de todo um género musical que não se deve esgotar apenas na recriação de algumas das referências fundamentais do passado, mas também subsistir numa demanda constante por algo genuíno e que depois sirva de modelo e de referencial sonoro. O modo como o misticismo exótico dos Foxygen recria a música de outrora, faz já deles um modelo a seguir para outros projetos que queiram trilhar este caminho sinuoso e claramente aditivo, principalmente pelo modo como, não só neste disco, mas mesmo em cada música, conseguem ser transversais e estabelecer pontes entre o passado e o futuro. Espero que aprecies a sugestão...

Foxygen - Hang (2017)

01. Follow the Leader
02. Avalon
03. Mrs. Adams
04. America
05. On Lankershim
06. Upon a Hill
07. Trauma
08. Rise Up


autor stipe07 às 09:19
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Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2017

Porcelain Raft – Microclimate

Depois de Strange Weekend (2012) e Permanent Signal (2013), Remiddi, um italiano nascido em 1972 e a viver em Nova Iorque, está de regresso com o seu projeto Porcelain Raft, fazendo-o à boleia de Microclimate, doze canções gravadas pelo músico em los Angeles, cidade californiana onde também foram misturadas por Chris Coady, tendo sido masterizadas já na costa leste por Heba Kaby.

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Remiddi é, claramente, um caso especial no universo sonoro indie e alternativo, pois pertence a uma geração que sempre se colou a uma sonoridade mais rock ou, pelo menos, algo distante do som típico deste projeto que batizou de Porcelain Raft. Depois do inebriante EP de estreia, Curve, de 2010, e principalmente do EP seguinte, Gone Blind, de 2011, este projeto foi ganhando respeito no seio da crítica devido às colagens eletrónicas, as vozes enigmáticas e o clima soturno das suas composições, com os dois discos anteriores a este Microclimate não só a confirmarem as enormes expetativas de elevada bitola qualitativa do projeto, mas também a alargarem a amplitude e a abrangência sonora do mesmo.

Assim, e porque o cardápio sonoro de Porcelain Raft é cada vez mais heterógeneo e abrangente convém, antes de colocar um olhar e um ouvido clínicos em Microclimate, fazer uma espécie de exercício de auto contextualização e definir sobre que prisma queremos interpretar estas doze canções. Perceber a forma como cada um de nós observa a música pode ser um exercício interessante. Para alguns apenas importa a sonoridade, para outros o importante são as letras e ainda há aqueles que deliram com pequenos pormenores instrumentais. Há ainda quem procure a expressão de sentimentos, se a música te faz deprimir, rir, saltar ou dançar. Se juntarmos a isso o que está na moda, aquilo que são as tendências, tudo se baralha ainda mais. Depende de tudo, como é óbvio. Porcelain Raft está também condicionado, como não podia deixar de ser, por esta visão caleidoscópica da música e acaba por nos contagiar também com tal abrangência.

Portanto, em Microclimate, a primeira pedra do edifício que Porcelain Raft escolheu para sustentar a sua música é aquela dream pop muito colorida e reluzente, ora mais tímida ora mais extrovertida, com as batidas e o clima de Kookaburra e Distant Shore, por exemplo, a colocarem os anos oitenta em ponto de mira e com Rising a perpetuar este olhar de um modo mais introvertido e sentimental. E depois, porque esse também é um aspeto primordial da sua filosofia melódica e interpretativa, deu elevado relevo à sua voz andrógena, que ajuda imenso a que tudo soe mágico e intenso em temros de nitidez no modo com expressa as sensações que a sua escrita pretende transmitir. Em Big Sur, canção inspirada numa localidade com o mesmo nome da Califórnia que Remiddi visitou e que o inspirou para este disco, é exemplar o modo como ele implora a uma terceira pessoa que regresse do casulo onde vive e o acompanhe vida fora e no mundo real, porque tudo irá ficar bem de novo (before you know it, all the answers are on the way).

Microclimate é o termo científico utilizado para designar uma área relativamente pequena cujas condições atmosféricas diferem da zona exterior e que surgem porque há barreiras geomorfológicas ou elementos naturais que confinam tal espaço. Remiddi terá escolhido este título para o seu terceiro álbum porque quer que cada uma das canções do seu alinhamento tenha uma identidade própria e única e que cada uma delas nos transporte para um universo psicossomático diferente e inédito. Missão cumprida. Espero que aprecies a sugestão...

Porcelain Raft - Microclimate

01. The Earth Before Us
02. Distant Shore
03. Big Sur
04. Rolling Over
05. Rising
06. Kookaburra
07. The Greatest View
08. Bring Me To The River
09. Accelerating Curve
10. The Poets Were Right
11. Zero Frame Per Second
12. Inside The White Whale


autor stipe07 às 18:16
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017

Cloud Nothings – Life Without Sound

Depois da parceria com os Wavves de Nathan Williams no disco a meias No Life For Me (2015), os Cloud Nothings de Dylan Baldi, estão de regresso aos lançamentos discográficos com Life Without Sound, nove canções impregnadas com um excelente indie rock lo fi, abrigadas pela insuspeita Carpark Records e um regalo para os ouvidos de todos aqueles que, como eu, seguem com particular devoção este subgénero do indie rock. Este disco foi produzido por John Goodmanson e gravado em El Paso, no Texas.

Trabalho que, na sua génese, é feito de experimentações sujas que procuram conciliar uma componente lo fi com a surf music e o garage rock, numa embalagem caseira e íntima e que não coloque em causa o adn sonoro identitário dos Cloud Nothings, Life Without Sound mostra-se logo à partida, em Up To The Surface, um compêndio onde pujança, crueza e até uma certa monumentalidade caminham de mãos dadas, nas asas de guitarras plenas de momentos melódicos mas também de pura distorção, vozes muitas vezes quase inaudíveis e uma bateria que não receia plasmar, em simultâneo, raiva e quietude, no fundo alguns dos atributos essenciais para a definição justa do tal adn deste grupo e que, nesta nova etapa, atinge um patamar superior de maturidade.

Se aquela jovialidade a tresandar a acne está ainda muito presente no riff de Things Are Right With You e se Darkened Rings está impregnada de loopings e parece querer a todo o instante resvalar para uma ruidosa inconsistência que só costuma ver o ocaso num conveniente fade out, já o dedilhar emotivo de forte odor grunge de Enter Entirely ou o clima pop de Modern Act, canção com um excelente refrão e com os arranjos distribuídos em camadas, que fazem deste tema um momento intenso e obrigatório no disco, provam o modo como estes Cloud Nothings se mostram mais maduros, criativos, incisivos no modo como apresentam o som que deles transborda e crentes das suas capacidades compositórias. Depois, terminar o alinhamento de Life Without Sound de modo quase inesperado, com o enraivecido negrume punk blues algo progressivo de Realize My Fate, acaba por ser a cereja no topo do bolo de um álbum trabalho arrojado e que, apesar do constante noise das guitarras, nunca deixa de conter, até no ocaso, uma sonoridade aberta, acessível e pop.

Álbum, na minha opinião, importante e significativo no modo como reinventa um subgénero do rock alternativo que ultimamente apenas nomes como os conterâneos Ty Segall, Wavves ou The Oh Sees, por um lado e os Deerhunter, por outro, têm sabido defender com mestria, Life Without Sound é um passo nobre e bem sucedido no histórico de uma banda que, sem deixar de ser rugosa, intensa e visceral, procura um brilho mais acessivel e imediato e uma abordagem ao noise mais elástica, orelhuda, angulosa e até radiofónica. Espero que aprecies a sugestão...

Cloud Nothings - Life Without Sound

01. Up To The Surface
02. Things Are Right With You
03. Internal World
04. Darkened Rings
05. Enter Entirely
06. Modern Act
07. Sight Unseen
08. Strange Year
09. Realize My Fate


autor stipe07 às 21:56
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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2017

Doombird – Past Lives

Com raízes em Sacramento, na Califórnia, os norte-americanos Doombird são Ben Edrington, Joe Davancens, Cory Phillips, Kris Anaya e Fernando Oliva, um quinteto que editou em pleno ocaso de 2016 Past Lives, um compêndio de dez canções impregnadas com uma indie pop psicadélica de superior calibre, alicerçadas com intensidade e condimentadas por arranjos e melodias selecionadas com um bom gosto particularmente incomuns.

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Segundo disco deste projeto, Past Lives oferece-nos um manancial de oportunidades de abordagens, tal é a diversidade sonora estilística que contém. E não é preciso ir muito longe na audição do registo para se perceber tal heterogeneidade, que é, nidiscutivelmente, uma súmula de géneros e estilos, mas nada caótica e minuciosamente calculada e pensada.

Logo em Sheers percebe-se o modo assertivo como estes Doombird divagam pela nobre herança da pop oitocentista, conduzidos pela exuberância melódica de um inebriante e épico sintetizador, em redor do qual, quer nesse tema inicial, quer, por exemplo, em The Salt, se entrelaçam as guitarras e uma percussão pulsante. Mas tal efeito vibrante também se mostra impressivo no modo como o baixo e a batida de Fog Rolls In se cruzam com um riff e um flash sintetizado ou, numa outra perspetiva, na alegoria pop oitocentista feita de imponência e de uma elevada dose de sentimentalismo em Dihedral, canção com uma cadência ímpar e que nos leva numa vertiginosa escalada instrumental, rumo a um acolhedor universo, luminoso e melancólico, algures entre a pastosidade dos Radiohead e a fogosidade eletrónica dos Depeche Mode. Numa abordagem um pouco mais introspetiva e intimista, não deve também passar em claro Curtis Park, uma enternecedora balada, capaz de arrebatar o coração mais escondido, lá no canto mais aconchegante do seu quarto.

Compêndio sonoro contundente e feliz no modo como interpreta uma visão muito própria e tremendamente contemporânea do modo como a pop de hoje olha para a sua herança e consegue extraír, de quando em vez, alguns dos seus pilares mais sedutores e firmemente impressivos, Past Lives cria as suas próprias personagens, que passeiam e se desdobram num permanente conflito entre o vintage e o contemporâneo, dando passos seguros ao longo do arquétipo dos temas, quase sempre com um refinamento muito próprio e uma sapiência óbvia. Espero que aprecies a sugestão...

Doombird - Past Lives

01. Sheer
02. Fog Rolls In
03. The Salt
04. Curtis Park
05. Lemma
06. Overflowing
07. Dihedral
08. Commonplace
09. Everything Is Anything
10. Shadow Somber


autor stipe07 às 17:22
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

Andrew Belle – Back For Christmas

Andrew Belle - Back For Christmas

O compositor e músico californiano Andrew Belle compôs e editou um tema de natal para este ano. A canção intitula-se Back For Christmas e está incluída no alinhamento de A Very RELEVANT Christmas, Vol 6, uma edição da publicação Relevant e na qual se incluem, também com composições alusivas a esta quadra festiva, outros nomes imprescindíveis como Kyle Cox, Sleeping At Last, Hoyle e Branches, entre outros.

Esta canção já existe em formato demo desde 2010, mas só agora, no ocaso de 2016, Andrew Belle viu a oportunidade certa para lhe dar os arranjos finais. Ela tem um historial bastante interessante de junção de fragmentos, conforme referiu Belle no release de lançamento: The demo of this song was actually created back in 2010 and I wrote each of the verses at different times over the last six years,” shares Belle. “In the first verse I’m talking about the existence of God, the second is about discovering who he is, and the third verse says, ‘I only got what I can give away,” which is something I’m learning, slowly, as I get older.

Com o ambiente sonoro multicolorido e espetral a ser influenciado pela paisagem multi cultural de Los Angeles, cidade onde Andrew vive atualmente e com um forte cunho impressivo por parte do produtor Chad Copelin (Ben Rector, Sufjan Stevens, Ivan & Alyosha), Back For Christmas explora algumas das mais contemporâneas interseções entre pop e eletrónica enquanto nos oferece um excelente instante sonoro para esta consoada.Confere...


autor stipe07 às 21:09
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Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

The Blank Tapes - Ojos Rojos

Vieram da Califórnia numa máquina do tempo diretamente da década de sessenta, têm passado por esta publicação várias vezes e aterraram no universo indie pela mão da Antenna Farm Records. Chamam-se The Blank Tapes, são liderados por Matt Adams, ao qual se juntam atualmente Spencer Grossman, Will Halsey e Pearl Charles. Depois de em maio de 2014 me terem chamado a atenção com Vacation, um disco gravado por Carlos Arredondo nos estúdios New, Improved Recording, em Oakland e de pouco antes do ocaso desse ano, terem divulgado mais uma coleção de canções, nada mais nada menos que quarenta e três, intitulada Hwy. 9 e de em janeiro de 2015 terem editado Geodesic Home Place, agora, já em 2016, oferecem-nos Ojos Rojos, mais catorze canções de intensidade festiva máxima e que nos levam de volta à pop luminosa dos anos sessenta, aquela pop tão solarenga como o estado norte americano onde Matt reside.

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(pic by Sheva Kafai)

Reviver sonoramente tempos passados parece ser uma das principais permissas da esmagadora maioria dos projetos musicais norte americanos que vêm da costa oeste. Enquanto que às portas do Atlântico procura-se mergulhar o indie rock em novas tendências e sonoridades mais contemporâneas, basta ouvir-se Sexxy Skyype, um dos temas mais inebriantes e festivos de Ojos Rojos para se perceber que do outro lado da route 66, em São Francisco e Los Angeles, os ares do Pacífico fazem o tempo passar mais lentamente, mesmo quando o pedal das guitarras descontrola-se na surf pop de Dance To Dance ou procura ambientes melódicos mais nostálgicos e progressivos, como é o caso de La Baby ou Beach Party.

Matt, o líder do grupo, é apaixonado pela sonoridade pop e psicadélica dos anos sessenta e setenta, dois períodos localizados no tempo e que semearam grandes ideias e nos deram canções inesquecíveis, lançaram carreiras e ainda hoje são matéria prima de reflexão e os The Blank Tapes querem ser guardiões de um som que agrada imenso a todos os veraneantes cor de salmão e de arca frigorífica na mão, que lutam interiormente ao chegar ao carro, sem saberem se a limpeza das chinelas deve ser exaustiva, ou se os inúmeros grãos de areia que se vão acumular no tapete junto aos pedais do Léon justificam um avanço de algumas centenas de metros na fila de veículos que regressam à metrópole.

O disco prossegue e quer no rock n' roll tresmalhado de Spring Break ou no fuzz complacente de Biggest Blunt In Brazil e na cadência suave e profundamente veraneante de Let Me Hear You Rock, fica claro que Ojos Rojos balança entre uma contemporaneidade vintage e um glorioso suadosimo, em canções com referências bem estabelecidas, numa arquitetura musical que garante a Matt a impressão firme da sua sonoridade típica e que lhe continua a dar margem de manobra para várias experimentações transversais e diferentes subgéneros, que da surf pop, ao indie rock psicadélico, passando pela típica folk norte americana, não descuram um sentimento identitário e de herança que o músico guarda certamente dentro de si e que procura ser coerente com vários discos que têm revivido sons antigos.

Ojos Rojos é, portanto, mais uma viagem ao passado sem se desligar das novidades e marcas do presente. É um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva os The Blank Tapes. É um apanhado sonoro vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências do passado. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 16:48
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Sábado, 29 de Outubro de 2016

Mall Walk - Funny Papers

Lançado ontem à boleia da Mount Saint Mountain, masterizado por John McBain e produzido e misturado por Monte Vallier nos estúdios Ruminator Audio em São Francisco, Funny Papers é o título do álbum de estreia dos MALL WALK. Refiro-me a um trio formado por Daniel Brown, Nicholas Clark e Rob I. Miller, oriunda da mesma São Francisco e com um cardápio sonoro impregnado com um manancial de efeitos e distorções alicerçadas em trinta anos de um indie rock feito com guitarras bastante inspiradas, algo que ficou já patente logo em outubro de 2014 com S/T, o EP da banda que de tempos em tempos ainda roda com insistência na redação deste blogue.

Os MALL WALK têm tudo aquilo que é preciso para serem uma banda importante do indie rock psicadélico atual. Têm no sol da Califórnia o refúgio perfeito para explorar um hipnotismo lisérgico, com uma forte dimensão espacial, que carateriza a sua música e, de facto, as dez canções de Funny Papers impressionam pela amplitude do trabalho de produção e a procura de uma textura sonora aberta, melódica e expansiva, dentro de um espetro sonoro onde aquela visceralidade algo sombria, típica do punk, costuma ditar cartas. Esta apenas aparente ambivalência está bem expressa na monumentalidade de Street Drugs and Cartoons, canção onde o próprio rock de cariz mais progressivo também está fortemente impresso, em especial na guitarra que conduz o refrão.

Na verdade, o habitual pendor algo lo fi que muitas vezes é percetivel na própria distorção das guitarras em bandas que apostam neste espetro sonoro relacionado com o indie rock mais cru e o punk rock é, neste trio, substituido por um elevado vigor do baixo e também pela chamada deste instrumento para a linha da frente na arquitetura sonora, que tem, frequentemente, as luzes da ribalta e um maior protagonismo, como se percebe, claramente, em Patches, mas também em Call AgainExhauster, três espetaculares tratados de punk rock aditivos, rugosos e viciantes. Mas a sensibilidade dos solos e riffs da guitarra que exibem linhas e timbres muito comuns no chamado garage rock, também não são descurados e em Sleeping In Shits, mas, principalmente, em Protection Spells acabam por ser aquele complemento perfeito que obriga a que seja justo afirmar que os MALL WALK são corajosos e abertos a um saudável experimentalismo. E essa busca de novos caminhos dentro do espetro sonoro que os baliza e que no caso de Sex Negative pisca o olho à psicadelia setentista, nunca inibe o trio de se manter conciso e direto na visceralidade controlada que quer exalar, enquanto prova elevada competência no modo como separa bem os diferentes sons e os mantêm isolados e em posição de destaque, durante o processo de construção dos diferentes puzzles que dão substância às canções.

Se as linhas de baixo sublimes referidas são exemplos da obediência à herança e ao traço contido nos genes dos MALL WALK, é evidente nas distorções das guitarras um posicionamento melódico direcionado para a busca de canções que causem um elevado efeito soporífero, mas que sejam também acessíveis e do agrado de um público abrangente. Death In Small Increments é o exemplo maior deste passo em frente, uma catarse psicadélica, assente numa bateria inspirada que nos faz dançar em loopings divagantes, uma canção onde os MALL WALK apostam todas as fichas numa explosão de cores e ritmos, que nos oferecem um ambiente simultaneamente denso e dançável, que é um verdadeiro compêndio de punk rock despido de exageros desnecessários, mas apoteótico.

Funny Papers sabe a muito pouco, tal é a hipnose instrumental que nos oferece, pensada para nos levar numa road trip pelo deserto com o sol quente na cabeça, à boleia da santa tríade do rock, uma viagem lisérgica através do tempo em completo transe e hipnose. Da psicadelia, ao garage rock, passando pelo shoegaze e agora também pelo chamado punk rock, são várias as vertentes e influências sonoras que podem descrever a sonoridade dos MALL WALK, que acabam de dar um passo bastante confiante, criativo e luminoso na sua já respeitável carreira. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:39
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