Terça-feira, 16 de Junho de 2015

The Mountain Goats – Beat The Champ

Lançado a sete de abril pela Merge Records e produzido por Brandon Eggleston, Beat The Champ é o décimo quinto álbum dos míticos The Mountain Goats, uma banda norte-americana liderada por John Darnielle e ao qual se juntam atualmente Peter Hughes (baixo) e Jon Wurster (bateria), oriunda de Claremont na Califórnia. Beat The Champ é um disco conceptual, que se debruça sobre a vida ímpar de um lutador de wrestling, apesar de Darnielle, um excelente criador de narrativas, considerar que a temática da morte acaba por se relacionar um pouco mais com os poemas destas canções do que propriamente o desporto referido.

Falar dos The Mountain Goats é quase como fazer referência a uma hipotética carreira a solo de John Darnielle já que é ele a principal mente criativa e grande sonoro e lírico deste grupo. Também ewcritor, o ano passado, em Wolf In The Van, Danielle publicou um livro sobre a história de um recluso de rosto desfigurado e criador de jogos informáticos e que poderia também ter dado origem a uma obra sonora do calibre de Beat The Champ.

O wrestling é um desporto curioso e único e escrever e cantar sobre ele exige  a criação de um clima enérgico, luminoso e particularmente frenético. O indie rock inebriante com pitadas de folk de Choked Out, mas também a riqueza detalhística das cordas e da percussão no single The Legend Of Chavo Guerrero, que nos apresenta o grande protagonista desta narrativa e a relação conturbada que este lutador mexicano viveu na infância com o padrasto, obedecem a essa permissa e fazem-nos imergir sem grande esforço num poeirento pavilhão onde se multiplicam os embates e se joga a vida de atletas que, tantas vezes, além de sangue, suor e lágrimas, também é feita de fama, ego e alguma violência. O proprio uso simbólico de uma máscara, como forma do lutador encarnar uma outra personagem, referida em Animal Mask, assim como a necessidade de dar um lado mais humano a estes protagonistas, mesmo que tal suceda com alguma dose de cinismo, fica expressa em Heel Turn 2, tema que toca na questão filosófica entre morte e vida ao usar a luta livre como pano de fundo e onde inocência e empatia são sentimentos que o ouvinte acaba por sentir quase sem dar por isso.

As referências ao wrestling escorrem por Beat The Champ praticamente até ao seu ocaso e se The Ballad Of Bull Ramos conta a história de um dos grandes nomes deste desporto, Stabbed to Death Outside San Juan relata, de modo quase teatral, a morte do lutador Bruiser Brody, com a letra ser cantada e declamada, muito à imagem de Lou Reed. Depois, merece ainda destaque o punk cigano que escorre das violas de Werewolf Gimmick, uma ode declarada à presença cada vez mais ativa do mundo latino neste desporto, a toada jazzística de Fire Editorial e o minimalismo indie rock, com um implicito travo a Radiohead, que escorre de Luna.

Com a nostalgia acústica de Hair Match termina um alinhamento impregnado de boas letras, com momentos bastante profundos, que parecem carregar uma sabedoria escondida algo paternal, que não compreendemos muito bem, mas que acreditamos que irá fazer sentido, até porque escorrem da suave boca de um excelente contador de histórias que se abriga à sombra de uma folk cheia de fórmulas e histórias maravilhosas e que desta vez utilizou teclados, trompetes e outros instrumentos em praticamente todas as canções, mas também experimentou diferentes estilos, enquanto nos ofereceu a sua visão sobre o mundo da luta livre e do modo como a entende, sem se preocupar com o julgamento do ouvinte sobre as suas opiniões acerca da singluridade do mesmo. Espero que aprecies a sugestão...

The Mountain Goats - Beat The Champ

01. Southwestern Territory
02. The Legend Of Chavo Guerrero
03. Foreign Object
04. Animal Mask
05. Choked Out
06. Heel Turn 2
07. Fire Editorial
08. Stabbed To Death Outside San Juan
09. Werewolf Gimmick
10. Luna
11. Unmasked!
12. The Ballad Of Bull Ramos
13. Hair Match


autor stipe07 às 22:22
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Segunda-feira, 15 de Junho de 2015

My Morning Jacket – The Waterfall

Os norte americanos My Morning Jacket de Jim James já têm sucessor para o aclamado Circuital (2011) e regressaram aos discos a quatro de maio com The Waterfall, um trabalho produzido novamente por Tucker Martine (The Decemberists, Modest Mouse, Neko Case). Gravado maioritariamente em Stinson Beach, na Califórnia, mas também noutros locais como Portland ou a cidade natal da banda e com a luz do dia a ser possível com a chancela da insuspeita ATO Records, em parceria com a Capitol Records, The Waterfall é mais um marco obrigatório na carreira desta banda já veterana mas ainda fundamental no universo sonoro norte americano.

Os My Morning Jacket sempre impressionaram pela amplitude e grandiosidade do seu som e a camada sonora conduzida por teclas de Believe (Nobody Knows) é um notável resguardo que emoldura e carimba com precisão essa herança, não defraudando, logo à partida, os mais fiéis seguidores da banda. Sempre com a cartilha fundamental da melhor folk debaixo do braço e de mente aberta para se irem adaptando às novas tendências, estes já veteranos do indie rock demonstram em 2015 e à boleia desse tema que querem a continuar a ser uma referência e que o cérebro de Jim James se mantém particularmente inventivo e refrescante.

Além deste clássico indie rock orquestral do tema de abertura, há outros géneros sonoros que são bastante caros a estes My Morning Jacket e que demonstram neste disco manter-se intocável a vontade e a capacidade criativa deste quinteto de Louisville, no Kentucky, para a renovação constante do seu ambiente particular, sem colocar em causa as permissas essenciais que identificam e tipificam o seu som específico. Por um lado, há a soul que se mostra inebriante nas guitarras de Compound Fracture e algo smbria na balada Only Memories Remain, mas também essa folk que lhes é tão querida, acústica introspetiva e pastoral em Like A River e a piscar o olho ao tipico blues sulista em Get The Point. Na verdade, quer a soul quer a folk são por aqui os subgéneros dominantes; Acabam por balizar os opostos em que os My Morning Jacket se movem e revelam-nos que The Waterfall jorra perante os nossos ouvidos uma verdadeira jornada sentimental e realística pelos meandros de uma américa cada vez mais cosmopolita e absorvida pelas suas próprias encruzilhadas, uma odisseia heterogénea e multicultural oferecida por um projeto visionário que encarna atualmente um desejo claro de renovação, explorando habituais referências dentro de um universo sonoro muito peculiar e que aposta na fusão de vários elementos de uma forma direta, mas também densa, sombria e marcadamente experimental. A própria psicadelia também faz a sua aparição e até com um certo esplendor, quer em Big Decisions e na pop setentista e lisérgica de Thin Line, mas também em Spring (Among The Living), canção onde o esplendor das cordas distorcidas e os arranjos de percussão inéditos e outros recursos sonoros de cariz orquestral, exprimem um renovado olhar no modo como a banda reflete as tendências atuais mais bem aceites pelo público.

Impecavelmente produzido, particularmente inspirado e situado num elevado nível qualitativo no que concerne à visão caleidoscópica que plasma em relação ao indie rock atual, The Waterfall é rico não só porque não receia abusar dos detalhes que salvaguardam alguns dos melhores aspetos da herança sonora do grupo que concebeu este disco, mas também porque se mostra poderoso no modo como cruza diversos espetros sonoros com impressionante bom gosto e segurança. Percebe-se claramente que os My Morning Jacket apreciam navegar em águas turvas, fazendo-o com impressionante mestria e que se sentem confortáveis ao deixar-se embrenhar num certo caos, sempre controlado e claramente ponderado, rico, exuberante, oferecendo-nos assim canções que borbulham um forte sinal de esperança e de renascimento, sementes que vão provavelmente conquistar para o grupo novos públicos. Espero que aprecies a sugestão...

My Morning Jacket - The Waterfall

01. Believe (Nobody Knows)
02. Compound Fracture
03. Like A River
04. In Its Infancy (The Waterfall)
05. Get The Point
06. Spring (Among The Living)
07. Thin Line
08. Big Decisions
09. Tropics (Erase Traces)
10. Only Memories Remain


autor stipe07 às 21:13
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Terça-feira, 5 de Maio de 2015

Geographer – Ghost Modern

Os Geographer são uma banda natural de São Francisco, na Califórnia, um trio formado por Michael Deni (voz, guitarra), Nathan Blaz (violoncelo, sintetizadores) e Brian Ostreicher (bateria). No verão de 2005, após uma série de mortes na família de Deni, ele deixou Nova Jersey e foi viver para São Francisco. Aí conheceu Blaz e Ostreicher e juntos formaram este grupo que se estreou nos discos em 2008 com Innocent Ghosts. Dois anos depois, em 2010, surgiu o EP Animal Shapes e a vinte e oito de fevereiro Myth, o sempre difícil segundo álbum, através da Modern Art Records. Agora, três anos depois, os Geographer completam a sua triologia inicial com mais um Ghost, neste caso o Ghost Modern, um novo compêndio de doze canções, que viram a luz do dia a vinte e quatro de março atrsvés da Roll Call Records.

A música dos Geographer tem uma sonoridade bastante vincada e a própria formação artística e instrumental dos elementos da banda é muito peculiar, até por causa dos instrumentos que tocam. Reúnem influências de fontes musicais muito díspares e a sonoridade assenta muito no falsete de Deni, acompanhado por sintetizadores, enquanto Blaz e o seu violoncelo clássico dão um toque mais clássico às canções, impregando-as com uma elegância particularmente hipnótica e sedutora

Se o efeito sintetizado luminoso que conduz o single I'm Ready aproxima os Geographer de um espetro mais comercial e acessível, já a toada épica e experimental de Need exige uma dedicação e um gosto mais particulares, que serão ceetamente recompensados, porque é fácil sentirmo-nos absorvidos pelo espírito romântico e melancólico que a banda exala por todos os poros e que em temas como Too Much ou Read Your Palm ganham uma dimensão particularmente efusiva.

O sintetizador volta à carga, carregado de efeitos e flashes que disparam nas mais variadas direções e com um espírito pop vibrante em The Guest e de modo particularmente glam em You Say You Love Me, canção que nos leva numa máquina do tempo até à época em que era proporcional o abuso da cópula entre os sintetizadores e o spray para o cabelo, mas as guitarras também têm uma palavra a dizer no processo de composição de parte do alinhamento, particularmente inspiradas quando, em temas como The Fire Is Coming ou Falling Apart, enrolam-se com os sintetizadores e com a percurssão sintética ou orgânica e cruzam terrenos tantas vezes lavrados por nomes tão díspares como os Arcade Fire, Bruce Springsteen ou Snow Patrol.

Objeto de um fantástico trabalho de produção que conferiu ao disco uma amplitude e uma limpidez sonora que exalta de modo bastante convincente a capacidade criativa de Michael Deni e destes Geographer, quer ao nivel da composição melódica, quer no que concerne aos arranjos e aos detalhes selecionados, Ghost Modern é um trabalho discográfico repleto de luz e emoção, uma paleta sonora bastante inspirada e colorida e que evocando sentimentos positivos e que nos tocam, merece a nossa mais dedicada e atenta audição. Espero que aprecies a sugestão...

Geographer - Ghost Modern

01. Intro
02. I’m Ready
03. Need
04. You Say You Love Me
05. Too Much
06. The Guest
07. Read Your Palm
08. The Fire Is Coming
09. Patience
10. Keep
11. Interlude
12. Falling Apart


autor stipe07 às 20:55
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Segunda-feira, 4 de Maio de 2015

Vinyl Williams - World Soul

Lionel Williams é um músico e artista plástico natural de Los Angeles que assina a sua música como Vinyl Williams, tendo-se estreado nos disco em 2012 com Lemniscate, um trabalho com uma pop de forte índole lo fi, mas com interessante aceitação no seio da crítica.

Três anos depois, Vinyl Williams está de regresso com Into, um álbum que vai ver a luz do dia a vinte e quatro de julho por intermédio da Company Records, a editora de Chazwick Bundick, também conhecido como Toro Y Moi. A pop lisérgica de World Soul é o primeiro single divulgado de Into e mostra um Vinyl Williams absorvido pelas relações nem sempre harmoniosas entre cultura e religião e o conflito interior que a crença, a fé e a constante atração por tudo aquilo que é metafísico tantas vezes provoca no ser humano. O krautrock e a psicadelia acabam também por andar um pouco em redor dos conceitos sonoros de Vinyl Williams, que tem uma visão muito particular e algo surrealista do mundo que o rodeia e que o artwork do single, também da sua autoria, também expressa. Confere...


autor stipe07 às 17:13
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Segunda-feira, 20 de Abril de 2015

Cobalt Cranes – Days In The Sun

Editado em agosto de 2014 pela Lolipop Records, Days In The Sun é o último registo de originais dos Cobalt Cranes, uma banda norte americana oriunda da costa oeste e que tem no seu núcleo duro uma dupla formada por Kate Betuel e Tim Foley que, em apenas oito músicas e quase meia hora de audição, nos oferecem uma viagem lisérgica gratuita rumo à pop luminosa e psicadélica dos anos sessenta, aquela sonoridade tão solarenga como o estado norte americano de onde a banda é oriunda.

Reviver sonoramente tempos passados parece ser uma das principais permissas da esmagadora maioria dos projetos musicais norte amricanos que vêm da costa oeste. Enquanto que às portas do Atlântico procura-se mergulhar o indie rock em novas tendências e sonoridades mais contemprâneas, basta ouvir-se as cordas de Flowers On Your Grave ou o efeito da guitarra de In A Daze ou Dark Star para se perceber que do outro lado da route 66, em São Francisco e Los Angeles, os ares do Pacífico fazem o tempo passar mais lentamente, mesmo quando o pedal das guitarras descontrola-se em Last Horizon ou procura ambientes melódicos mais nostálgicos e progressivos.

Esta sonoridade pop e psicadélica dos anos sessenta e setenta, dois períodos localizados no tempo e que semearam grandes ideias e nos deram canções inesquecíveis, lançaram carreiras e ainda hoje são matéria prima de reflexão e os Cobalt Cranes são genuínos guardiões de um som que deve muito à composição psicotrópica dos substantivos aditivos que famigeravam à época pelos estúdios de gravação, mas que hoje certamente dispensa tais extras, para replicar a contemporaneidade vintage nada contraditória dos acordes sujos e do groove do baixo de Heavy Heart, assim como do experimentalismo instrumental num registo mais progressivo de Sun Down, que se aproxima do blues marcado pela guitarra em Fall In, além da percussão orgânica e de alguns ruídos e vozes de fundo que assentam muito bem na canção.

Cheio de canções com referências bem estabelecidas, numa arquitetura musical que garante aos Cobalt Cranes a impressão firme da a sonoridade típica que também contém margem de manobra para várias experimentações transversais e diferentes subgéneros que da surf pop, ao indie rock psicadélico, passando pela típica folk norte americana, não descuram um sentimento identitário e de herança, Days In The Sun é mais um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva os Cobalt Cranes. É um apanhado sonoro vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar  tantas referências do passado. Espero que aprecies a sugestão...

Cobalt Cranes - Days In The Sun

01. Flowers On Your Grave
02. In A Daze
03. Last Horizon
04. Dark Star
05. Fall In
06. Heavy Heart
07. Sundown
08. Sleepwalk

Website
[mp3 320kbps] ul ob zs uc


autor stipe07 às 19:36
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Segunda-feira, 6 de Abril de 2015

The Blank Tapes - Geodesic Dome Piece

Vieram da Califórnia numa máquina do tempo diretamente da década de sessenta e aterraram no universo indie pela mão da Antenna Farm Records. Chamam-se The Blank Tapes, são liderados por Matt Adams, ao qual se juntam atualmente Spencer Grossman, Will Halsey e Pearl Charles e depois de em maio de 2014 me terem chamado a atenção com Vacation, um disco gravado por Carlos Arredondo nos estúdios New, Improved Recording, em Oakland e de pouco antes do ocaso do último ano, divulgarem mais uma coleção de canções, nada mais nada menos que quarenta e três, intitulada Hwy. 9, agora, a vinte e três de janeiro último, regressaram aos lançamentos discográficos com Geodesic Home Place, treze novas canções que nos levam de volta à pop luminosa dos anos sessenta, aquela pop tão solarenga como o estado norte americano onde Matt reside.

Reviver sonoramente tempos passados parece ser uma das principais permissas da esmagadora maioria dos projetos musicais norte amricanos que vêm da costa oeste. Enquanto que às portas do Atlântico procura-se mergulhar o indie rock em novas tendências e sonoridades mais contemprâneas, basta ouvir-se Slippin' slide, um dos emas mais inebriantes e festivos de Geodesic Dome Piece para se perceber que do outro lado da route 66, em São Francisco e Los Angeles, os ares do Pacífico fazem o tempo passar mais lentamente, mesmo quando o pedal das guitarras descontrola-se em Buff ou procura ambientes melódicos mais nostálgicos e progressivos, como é o caso de Magic Leaves.

Matt, o líder do grupo, é apaixonado pela sonoridade pop e psicadélica dos anos sessenta e setenta, dois períodos localizados no tempo e que semearam grandes ideias e nos deram canções inesquecíveis, lançaram carreiras e ainda hoje são matéria prima de reflexão e os The Blank Tapes querem ser guardiões de um som que agrada imenso a todos os veraneantes cor de salmão e de arca frigorífica na mão, que lutam interiormente ao chegar ao carro, sem saberem se a limpeza das chinelas deve ser exaustiva, ou se os inúmeros grãos de areia que se vão acumular no tapete junto aos pedais do Mégane justificam um avanço de algumas centenas de metros na fila de veículos que regressam à metrópole.

Quem acha que ainda não havia um rock n' roll tresmalhado e robotizado nos anos sessenta ou que a composição psicotrópica dos substantivos aditivos que famigeravam à época pelos estúdios de gravação, ficará certamente impressionado com a contemporaneidade vintage nada contraditória dos acordes sujos e do groove do baixo de So High e dos teclados de Oh My Muzak, assim como do experimentalismo instrumental de For Breakfast, que se aproxima do blues marcado pela guitarra em 4:20, além da percussão orgânica e de alguns ruídos e vozes de fundo que assentam muito bem na canção. A campestre Brown Chicken Brown Cow e a baladeira e sentimental Do You Wanna Get High? mantêm a toada revivalista, com um certo travo surf, em canções com referências bem estabelecidas, numa arquitetura musical que garante a Matt a impressão firme da sua sonoridade típica e que lhes deu margem de manobra para várias experimentações transversais e diferentes subgéneros que da surf pop, ao indie rock psicadélico, passando pela típica folk norte americana, não descuraram um sentimento identitário e de herança que o músico guarda certamente dentro de si e que procura ser coerente com vários discos que têm revivido sons antigos.

Geodesic Dome Piece é, portanto, mais uma viagem ao passado sem se desligar das novidades e marcas do presente. É um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva os The Blank Tapes. É um apanhado sonoro vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar  tantas referências do passado. Espero que aprecies a sugestão...

The Blank Tapes - Geodesic Dome Piece

01. Way Too Stoned
02. Oh My My
03. Buff
04. Magic Leaves
05. For Breakfast
06. So High
07. Oh My Muzak
08. Slippin’ Slide
09. 4:20
10. Brown Chicken Brown Cow
11. Do You Wanna Get High?
12. To Your Dome Piece
13. Do You Wanna Get High (Acoustic Demo)


autor stipe07 às 15:15
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Sábado, 28 de Março de 2015

Wand - Golem

Os Wand são uma banda norte americana, oriunda de Los Angeles e liderada por Cory Hanson, um músico que toca regularmente com Mikal Cronin e os Meatbodies, dois projetos que já foram referenciados em Man On The Moon. Nestes Wand, juntam-se a Cory, Evan Burrows, Daniel Martens e Lee Landey.

Os Wand tocam um indie punk rock psicadélico, progressivo, experimental e fortemente aditivo e Ganglion Reef, o disco de estreia, editado em 2014, foi um marco e uma referência para os amantes do género. Agora, um ano depois, os Wand já têm sucessor pronto; Golem chegou a dezassete de março através da etiqueta In The Red e tem no fuzz rock a sua pedra de toque, talvez a expressão mais feliz para caraterizar o caldeirão sonoro que os Wand reservam para nós e que logo na imponência de The Unexplored Map e no festim grandioso de Self Hynosis In 3 Days, o primeiro single divulgado, fica claramente plasmado. Esta canção é um delicioso exemplar de indie rock astral e vigoroso, um tratado sonoro que ressuscita o que de melhor se pode escutar relativamente ao rock alternativo da última década do século passado, com um upgrade de adição psicotrópica e elevada lisergia.

As guitarras são, naturalmente, o combustível que inflama os raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro dos Wand, feitas de acordes rápidos, distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez. Mas a receita também se compôe com sintetizadores munidos de um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias, uma secção rítmica feita com um baixo pulsante e uma bateria com um forte cariz étnico, que é várias vezes literalmente cortada a meio por riffs de guitarra, numa sobreposição instrumental em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa busca de acessibilidade que se saúda.

O efeito abrasivo de Reaper Invert ao contrastar com o efeito sinistro da guitarra, mostra o enorme acerto de Cory na busca de um som grandioso e simultaneamente acessivel a todos os ouvidos. Melodicamente pattindo em busca de um sentido épico irrepreensível, a canção acaba por funcionar como um excelente interlúdio para Melted Rope, um grandioso instante sonoro psicadélico que ressuscita o glorioso espelndor do rock progressivo que fez escola na década de setenta do século passado e que encontra sequência mais ruidosa e ácida no inenso edifício sonoro pulsante e esplendoroso que alimenta Cave In. A sensibilidade da viola e o efeito da guitarra que trespassa a melodia de alto abaixo na primeira e o fuzz das guitarras e as constantes mudanças de ritmo na segunda, acentuam a monumentalidade de dois extraordinários tratados sonoros que, sendo o núcelo duro de Golem, resgatam e incendeiam o mais frio e empedrenido coração, além de plasmarem o vasto espetro instrumental presente no disco e a capacidade que estes Wand têm para compôr peças sonoras melancólicas e transformar o ruidoso em melodioso com elevada estética pop

A viagem alucinante que a audição de Golem nos oferece prossegue sem intervalos ou concessões e vão-se multiplicando os diferentes efeitos que alimentam as guitarras dos Wand, sempre no limiar daquilo que é humanamente suportável e sonoramente majestoso, sem perca de controle ou equilibrio. Este constante experimentalismo fica novamente plasmado nas águas turvas e sombrias em que navega Flesh Tour e no grunge abrasivo e hipnótico de Floating Head, mas também, e de modo mais vincado, em Planet Golem, canção onde parece valer mesmo tudo e onde não terão havido concessões no que diz respeito às opções tomadas, quer no que diz respeito ao sabor inebriante das guitarras, quer no que que concerne à seleção de ruídos e detalhes de fundo que servem para dar corpo e substância a um clima sonoro intenso e nubloso.

Golem chega ao ocaso com um intenso upgrade sonoro, fortemente lisérgico, cósmico e imponente, chamado The Drift, uma forte cabeçada que nos agita a mente na forma de um riff melódico assombroso, carregado de distorção e perfeitamente diabólico e quando damos por nós, o disco terminou mais ainda estamos completamente consumidos pelo arsenal infinito de efeitos, flashes e ruídos que correram impecavelmente atrás da percussão orgânica e bem vincada que sustenta os Wand e percebemos que não há escapatória possível desta ode imensa de celebração estratosférica. Tens coragem para carregar novamente no play? Eu nem me paercebi que o fiz. Espero que aprecies a sugestão...

Album cover: Wand – Golem (2015)

1. The Unexplored Map
2. Self Hypnosis In 03 Days
3. Reaper Invert
4. Melted Rope
5. Cave In
6. Flesh Tour
7. Floating Head
8. Planet Golem
9. The Drift


autor stipe07 às 20:19
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Quinta-feira, 26 de Março de 2015

Brandon Flowers - Can't Deny My Love

Brandon Flowers - Can't Deny My Love

Vocalista e lider dos The Killers, Brandon Flowers voltou a apontar agulhas para a sua carreira a solo, estando para breve o lançamento du sucessor de Flamingo, o anterior registo do músico, editado em 2010.

Desired Effect irá ver a luz do dia a dezoito de maio e Can't Deny My Love é o primeiro avanço divulgado desse trabalho, uma canção com uma sonoridade diferente do habitual, sendo o produtor Ariel Rechtshaid responsável por essa inflexão, com o próprio Flowers a afirmar que procurou sair da sua habitual zona de conforto, para apostar agora numa sonoridade que não descura as guitarras, mas que coloca o sintetizador na linha da frente do processo de composição melódica. Confere...


autor stipe07 às 11:04
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Quarta-feira, 18 de Março de 2015

Kodak To Graph - ISA

Depois de em agosto de 2013 Mikey Maleki ter andado a editar uma canção por mês, numa longa e bonita jornada que resultou na compilação 2013 Monthly Singles, disponivel para audição e download e que fui dando conta, por cá, durante esse ano, este músico e produtor norte americano de origens iranianas oriundo de Pensacola, na Flórida, atualmente a residir em Los Angeles e que assina a sua música como Kodak To Graph, começou 2015 a participar ativamente na gravação de Oldies, um trabalho também disponivel gratuitamente e que plasma eletrificantes experimentações sonoras. Agora, a dez de março, chegou, finalmente, o seu longa duração de estreia, um disco chamado ISA, também possivel de ser obtido gratuitamente e que é uma verdadeira jornada emotiva e emocional pelos pensamentos, experiências e momentos que se revelaram significativos para o autor nos últimos temps e que o transformaram no músico e pessoa que é hoje.

Maleki sempre gostou de gravar e depois reproduzir sinteticamente sons reais, que capta ao seu redor e que tanto podem ser relacionados com a natureza, nomeadamente o chilrear de aves ou os galhos que se quebram durante um passeio pela floresta, como sons mais citadinos e que reproduzem ruídos habituais num ambiente citadino. Desolation Wilderness é um bom tema para se perceber de que modo funciona esta imagem de marca de Kodak to Graph e igualmente bastante presente no restante alinhamento de ISA. O autor confessa cultivar esse gosto com método porque acha que a inserção desses arranjos nas melodias enriquece-as e funciona, de certa forma, como a componente lírica das suas canções, geralmente instrumentais, dando-lhes uma clara sensação de narrativa e ampliando o propósito que elas têm, que é o de contar histórias concretas e com vida, mesmo que não contenham letras e uma voz que as replique de modo entendível. Quando a voz surge nas canções de Maleki é quase sempre modificada e samplada, funcionando como mais um detalhe sonoro ou outro dos instrumentos que deambulam pelas composições. Los Angeles, tema de tributo à cidade que recentemente acolheu este músico, é um notável exemplo do modo como Maleki utiliza a voz como mero recurso sonoro, no meio de outros detalhes e sons que facilmente nos colocam no meio da movimentada South Vermont rumo a Beverly Hills.

A música de Kodak To Graph exala imenso uma sensação de convite frequente à introspeção e à reflexão sobre o mundo moderno e este produtor não poupa na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, com Belong, o tema de abertura, a surpreender desde logo pelo cariz pop claramente urbano, proporcionado por uma eletrónica manipulada com mestria, não só no modo como o cruza o trompete com a melodia, mas também pelo realce que alguns metais usufruem em determinados momentos da canção. Belong liga-se com Floating através de uma batida minimal que depois parece submergir num mundo aquático e, por isso, sonoramente mais denso e pastoso e se esta conexão entre canções acentua o tal espírito de narrativa sequencial que domina ISA, a opção por arranjos, detalhes, ruídos e métodos de manipulação sonora que se interligam com o título das canções, além de nos fazerem perceber as diversas variáveis que Mike introduz no sintetizador para transmitir uma sensação intrincada e fortemente espiritual. Na verdade, ISA transborda um ideal de leveza e cor constantes, como se o disco transmitisse todas as sensações positivas e os raios de luz que fazem falta aos nossos dias, apesar de, felizmente, serem agora menos frios e sombrios, permitindo-nos escutar uma música bastante sensorial, que parece ter textura, cheiro e flutuações térmicas condizentes com o ritmo, a batida ou o borbulhar de determinados detalhes, aquáticos ou terrenos que facilmente se identificam e que são passíveis de serem confrontados com aspetos reais e palpáveis do meio que nos rodeia. Se a sensibilidade emotiva, minimal e arrepiante de Glaciaa nos obriga a vestir um agasalho bem quente enquanto sobrevoamos os pólos, as já citadas Los Angeles e Belong retratam uma América multicultural e cosmopolita que acolheu e inspira Maleki.

Rico e arrojado e apontando em diferentes direções sonoras, apesar de haver um estilo vincado que pode catalogar o cardápio sonoro apresentado, ISA tem um fio condutor óbvio, assente em alguma da melhor eletrónica contemporânea, mas uma das suas particularidades é conseguir, sem fugir muito desta bitola, oferecer música que se sente e que se vê, englobando diferentes aspetos e detalhes de outras raízes musicais, que podem passar pelo trip hop, a chillwave, o hip hop ou o R&B num pacote que conta histórias que as máquinas de Maleki sabem, melhor do que ninguém, como reporduzir e encaixar. Este é um álbum para ser escutado, visto e sentido, recheado de paisagens sonoras bastante diversificadas, mas de algum modo descomplicadas e acessíveis e que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

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autor stipe07 às 19:14
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Domingo, 15 de Março de 2015

MALL WALK - S/T EP

Abrigados na efervescente Vacant Stare Records, uma fantástica etiqueta de Oakland, na Califórnia, os MALL WALK são Daniel Brown, Nicholas Clark e Rob I. Miller, um trio oriundo dessa cidade norte americana e com um cardápio sonoro impregnado com um manancial de efeitos e distorções alicerçadas em trinta anos de um indie rock feito com guitarras bastante inspiradas, como comprova S/T, o recente EP da banda, um trabalho produzido por Mont Vallier e que viu a luz do dia em formato digital e cassete no passado outono.

Os MALL WALK parecem ter tudo aquilo que é preciso para poderem vir a ser, muito em breve, uma banda importante do indie rock psicadélico atual. Encontraram na Vacant Stare Records o refúgio perfeito para explorar o hipnotismo lisérgico, com uma forte dimensão espacial, que carateriza a sua música e as cinco excelentes canções de S/T impresionam pela amplitude do trabalho de produção e a procura de uma textura sonora aberta, melódica e expansiva. O habitual pendor algo lo fi que muitas vezes é percetivel na própria distorção das guitarras em bandas que apostam neste espetro sonoro relacionado com o indie rock mais cru e o punk rock é, neste trio, substituido por um elevado vigor do baixo e também pela chamada deste instrumento para a linha da frente na arquitetura sonora, que tem, frequentemente, as luzes da ribalta e um maior protagonismo, como se percebe quer em False Living, quer em Teen Missing, dois espetaculares tratados de punk rock aditivos, rugosos e viciantes. E a sensibilidade dos solos e riffs da guitarra, apesar de exibirem linhas e timbres muito comuns no chamado garage rock, acabam por ser aquele complemento perfeito que obriga a que seja justo afirmar que os MALL WALK são corajosos e abertos a um saudável experimentalismo. E essa busca de novos caminhos dentro do espetro sonoro que os baliza e que no caso de Unsold pisca o olho à pop mais melódica e luminosa, nunca os inibe de se manterem concisos e diretos na visceralidade controlada que querem exalar e prova elevada competência no modo como separam bem os diferentes sons e os mantêm isolados e em posição de destaque, durante o processo de construção dos diferentes puzzles que dão substância às canções.

Se, nos temas já citados, as linhas de baixo sublimes de False Living e o efeito da guitarra em Teen Missing são apenas dois exemplos da obediência à herança e ao traço contido nos genes dos MALL WALK, é evidente, noutros casos, o diferente posicionamento melódico da dupla pela busca de canções que causem um elevado efeito soporífero, mas que sejam também mais acessíveis e do agrado de um público mais abrangente. Treadmill é o exemplo maior deste passo em frente, uma catarse psicadélica, assente numa batida inspirada que nos faz dançar em altos e baixos divagantes que formam uma química interessante, uma canção onde os MALL WALK apostam todas as fichas numa explosão de cores e ritmos, que nos oferecem um ambiente simultaneamente denso e dançável, em quase seis minutos que são um verdadeiro compêndio de um punk rock despido de exageros desnecessários, mas apoteótico.

Quando chega ao ocaso a melancólica, melódica e sedutora Pales In Comparison, a única certeza com que ficamos é que S/T sabe a muito pouco, tal é a hipnose instrumental que nos oferece, pensada para nos levar numa road trip pelo deserto com o sol quente na cabeça, à boleia da santa tríade do rock, uma viagem lisérgica através do tempo em completo transe e hipnose. Da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e agora também pelo chamado punk rock, são várias as vertentes e influências sonoras que podem descrever a sonoridade dos MALL WALK, que acabam de dar um passo bastante confiante, criativo e luminoso na sua já respeitável carreira. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 19:24
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