Sábado, 29 de Agosto de 2015

Beach House - Depression Cherry

Ontem chegou às lojas, através da Sub Pop, Depression Cherry, o quinto álbum da dupla Beach House, um projeto sedeado em Baltimore, no Maryland, formado pela francesa Victoria Legrand e pelo norte americano Alex Scally e que anteriormente havia lançado Beach House (2006), Devotion (2008), Teen Dream (2010) e Bloom (2012). Gravado em Bogalusa, no Louisiana, entre catorze de novembro e quinze de janeiro últimos, um período de tempo em que ocorreram as datas que marcam as partidas de John Lennon e Roy Orbison, dois nomes consensuais e influentes no seio da dupla, Depression Cherry assenta numa sonoridade simples e nebulosa, bastante melódica e etérea, plena de sintetizadores assertivos e ruidosos e guitarras com efeitos recheados de eco, que mantêm intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que vive em redor da voz doce de Victoria e da mestria instrumental de Alex e se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado.

Depois do sucesso de Teen Dream e Bloom, seria de esperar que os Beach House mantivessem a progressão sonora e a evolução do contexto comercial que vinham a firmar, optando por um som amplo e ruidoso. Mas aquilo que nos oferece Depression Cherry é uma espécie de retorno às origens, à boleia de nove canções que exalam o contínuo processo de transformação que a dupla procura sempre mostrar, com a marca do indie pop muito presente, mas com uma dose de experimentalismo superior aos dois antecessores citados.

O sintetizador onírico que introduz Levitation e o falsete doce de Victoria que o acompanha, conseguem o efeito pretendido e que o título deste primeiro tema de Depression Cherry encarna. Se realmente pretendemos saborear condignamente este álbum, só nos resta deixarmos a nossa mente e o nosso espírito irem à boleia desta proposta estética assente num clima abstrato e meditativo, presente em praticamente todo o trabalho, com um impacto verdadeiramente colossal e marcante.

Esta pop experimental dos Beach House está cada vez mais elaborada e charmosa. A introdução do fuzz de guitarra nesta canção inicial, ou os devaneios do teclado em Space Song, que marcam o traço melódico do tema, são apenas dois aspetos marcantes desta evolução e todos os detalhes mais eletrificados que nos vão surgindo, nesta e noutras canções, nunca defraudam o ambiente contemplativo fortemente consistente do trabalho. O efeito desse instrumento no single Sparks e, paralelamente, o aparecimento da bateria, além de consolidar essa impressão concetual, sendo balizada pelos sintetizadores, mostra o modo exímio como a dupla consegue que as texturas e as atmosferas que criam, transitem, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquieta todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual.

Há nos Beach House uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida e uma exibição consciente da sua sapiência melódica. Os floreados percussivos do baixo e da bateria de 10:37 e os acordes iniciais épicos e deslumbrantes de PPP são também perfeitos para clarificar essa impressão, não faltando belíssimas letras entrelaçadas com deliciosos acordes, nestas melodias minuciosamente construídas com diversas camadas de instrumentos. E a estranha escuridão das melodias interestelares e a soul da secção rítmica de Wildflower, um tema cantado em jeito de lamúria ou desabafo, encarnam um notório marco de libertação e de experimentação, numa canção onde não terá havido um anseio por cumprir um caderno de encargos alheio, mas que nos agarra pelos colarinhos sem dó nem piedade e que nos suga para um universo pop feito com uma sonoridade tão preciosa, bela, silenciosa e fria, como a paisagem que rodeou os Beach House durante o período de gestação desta e de todas as outras composições de Depression Cherry. Já agora, convém enfatizar que a escrita carrega neste trabalho uma sobriedade sentimental que acaba por servir de contraponto à sonoridade algo sombria e, em alguns instantes, tipicamente lo fi da sonoridade, mas que, na minha modesta opinião, envolve os Beach House numa intensa aúrea sexual, despindo-os de todo aquele mistério, tantas vezes artificial, que os poderia envolver, para mostrar, com ousadia, a verdadeira personalidade da dupla.

Depression Cherry é tudo menos um disco igual a tantos outros ou um compêndio sonoro comum. Nele viajamos bastante acima do solo que pisamos, numa pop com traços de shoegaze e embrulhada numa melancolia épica algo inocente, mas com uma tonalidade muito vincada e que sopra na nossa mente de modo a envolvê-la com uma elevada toada emotiva e delicada, uma receita que faz o nosso espírito facilmente levitar e que provoca um cocktail delicioso de boas sensações.

Enquanto muitas bandas procuram a inovação na adição de uma vasta miríade de influências e tiques sonoros, que muitas vezes os confundem e dispersam enquanto calcorreiam um caminho que ainda não sabem muito bem para onde os leva, os Beach House, ao quinto trabalho, parecem ter balizado com notável exatidão o farol que querem para o seu percurso musical, iluminado por este excelente disco que atesta a maturidade e a capacidade que a dupla possui de replicar a sua sonoridade típica e genuína sem colocar em causa um alto nível de excelência, conseguindo também mutar a sua música, disco após disco, e adaptá-la a um público ávido de novidades, que procura constantemente algo de novo e refrescante e que alimente o seu gosto pela música alternativa. Espero que aprecies a sugestão...

Beach House - Depression Cherry

01. Levitation
02. Sparks
03. Space Song
04. Beyond Love
05. 10:37
06. PPP
07. Wildflower
08. Bluebird


autor stipe07 às 14:08
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Terça-feira, 12 de Maio de 2015

Lower Dens – Escape From Evil

Viu a luz do dia no final de março Escape From Evil, o novo disco dos Lower Dens, uma banda norte americana natural de Baltimore, liderada por Jana Hunter e que em 2010 chamou, de imediato, todos os holofotes para si com o emocionante álbum de estreia Twin-Hand Movement. Em 2012 voltaram a surpreender com Nootropics, e agora, três anos depois, pela mão da Ribbon Music, chega-nos este novo trabalho que se deve ouvir sem expetativas porque aviso desde já que nos irá sugar para uma rede sonora construída com ritmos repetitivos e um emaranhado de sons e imagens etéreas.

Cada vez mais abrangentes e em busca de um universo sonoro mais amplo, consistente e luminoso, um pouco em contraste com o cinza que marcou os registos anteriores, mesmo ao nível visual, os Lower Dens chegam ao terceiro disco em pleno processo de exploração de novas possibilidades melódicas e ritmícas que oferecem ao cardápio do grupo uma maior consolidação e abrangência e cenários estilísticos que abarcam um leque mais aberto de influências, com a eletrónica a ter uma concorrência mais acentuada da dream pop e do post punk no resultado final. Responsável pela produção de Bloom dos Beach House ou Singles dos Future Islands, Chris Coady produziu Escape From Evil e acaba por ser uma figura central nesta nova realidade dos Lower Dens  e onde é clara uma superior espontaneidade e fluidez de processos.

Os sintetizadores luminosos de To Die In L.A. e o modo como o groove das guitarras nos convidam em Non Grata e Company a um abanar de ancas mais ou menos explícito, são apenas três notáveis exemplos desta menor frieza dos Lower Dens e a demanda por ambientes menos amargos e melancólicos em troca da transmissão de sensações mais calorosas, extrovertidas e acolhedoras.

Jana Hunter, a líder e figura principal do projeto, continua a encantar-nos com uma voz que apela diretamente ao nosso intímo e que em canções como a dream pop de Your Heart Still Beating nos desperta para a necessidade de apreciarmos devidamente algumas das nossas memórias e convidando-nos, em praticamente todo este novo alinhamento, a passear por recordações do passado e por pequenas frações de pensamentos individuais que musicadas nos soam próximas, como se as canções quisessem conversar connosco.

Com um imenso arsenal de arranjos, temas e conceitos explorados, Escape From Evil é, sem dúvida, um disco de ruptura, um virar de página sem aparente retorno, uma fuga apenas aparentemente espontânea, porque terá sido certamente devidamente ponderada de uma zona de conforto para um novo manancial de possibilidades que beneficiam o ouvinte ávido pela audição de algo diferente e surpreendente no inesgotável universo da dream pop. Há que saudar, no entanto, na componente lírica, o evidente sentimentalismo confessional e a manutenção da exposição intimista que Jana Hunter continua a não hesitar em partilhar connosco sem qualquer tipo de receio. Espero que aprecies a sugestão... 

Lower Dens - Escape From Evil

01. Sucker’s Shangri-La
02. Ondine
03. To Die In L.A.
04. Quo Vadis
05. Your Heart Still Beating
06. Electric Current
07. I Am The Earth
08. Company
09. Société Anonyme


autor stipe07 às 22:26
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Terça-feira, 7 de Abril de 2015

Dan Deacon - Gliss Riffer

Dan Deacon é um dos artistas mais alternativos do cenário indie atual. Além de colaborar com vários projetos, já lançou nove discos desde 2003 e agora, três anos depois do estupendo America, chegou finalmente aos escaparates Gliss Riffer, um trabalho editado através da Domino Records, que também abriga os Dirty Projectors, os Hot Chip e os Animal Collective, algumas das bandas concorrentes de Dan Deacon.

Dan Deacon é um mestre a manipular ruídos, texturas, massas instrumentais e as mais inusitadas particularidades sonoras. Dono de uma formação musical erudita, ele encontrou na eletrónica uma forma de sobressair e apaixonado pelas mais complexas formas sonoras produzidas, este músico natural de Baltimore acabou por encontrar o seu espaço particular dentro da vanguarda eletrónica que define muita da música norte americana atual. 

Em Gliss Riffer Deacon assume uma postura distinta em relação às bandas que o acompanham na editora e que referi acima. Este disco impressiona pela grandiosidade, logo patente nos samples e nos teclados do single Feel The Lightning e nos sintetizadores inebriantes de Sheathed Wings, não havendo regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos. Deacon é um genuíno e incomparável manipulador do sintético, um génio inventivo que converte tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico.

Não tendo qualquer tipo de preocupação explícita por compôr de modo particularmente comercial e acessível, o que desde logo é um enorme elogio que pode ser feito em relação a este autor, Deacon deixa-se apropriar de todo o arsenal tecnológico que permite que seja colocado à sua disposição e torna-se ele próprio parte integrante de uma orquestra robótica e maquinal que o consome e dele se apropria, para que as canções que todas estas máquinas, que parecem ter vida própria, compôem possam ter uma alma e um elo de ligação com a humanidade, plasmada nas letras confessionais e sinceras e numa voz manipulada de modo a ser também, ela própria, mais um elementos sintético essencial e autónimo. No entanto, uma audição atenta deixa perceber, em certos momentos, aproximações ao cenário musical mais erudito e orgânico que todos reconhecemos quando são os músicos e produtores que dominam totalmente o arsenal instrumental que utilizam.

Se os dois temas já citados e When I Was Done Dying têm alguns arranjos e detalhes percurssivos que lhes dão o tempero acessível da pop, a partir do efeito agudo de Meme Generator, um tema que dá pistas sobre o que poderá ser o futuro do hip-hop e da buzina e da batida tribal de Mind On Fire, o rumo passa a ser outro e várias experiências curiosas apoderam-se das canções, nomeadamente no teclado hipnótico e minimal que conduz Take It to The Max e na desconcertante Learning to Relax, canção que torna claro que o território assumido por Deacon não deixa de unir, amiúde, elementos da música clássica com batidas esquizofénicas e samples ruidosos que tendem inevitavelmente a resultar num resultado de proporções épicas.

Gliss Riffer é, sem dúvida, mais um trabalho coeso, dinâmico e concetual na trajetória discográfica de um produtor que não receia entregar-se de corpo e alma ao mundo das máquinas e numa simbiose corajosa e sem entraves ou inibições, ser aquele detalhe orgânico que dá alma a todas aquelas ligaçoes de fios e transistores que transportam um infinito catálogo de sons e díspares referências que parecem alinhar-se apenas na cabeça e nos inventos nada óbvios de Deacon. Espero que aprecies a sugestão...

01. Feel the Lightning
02. Sheathed Wings
03. When I Was Done Dying
04. Meme Generator
05. Mind On Fire
06. Learning to Relax
07. Take it to the Max
08. Steely Blues


autor stipe07 às 21:25
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Domingo, 22 de Março de 2015

Dead Mellotron – Winter EP

Oriundo de Baltimore, no Maryland, o projeto Dead Mellotron editou no passado mês de dezembro Winter, um EP com cinco canções onde reina um cruzamento feliz entre o rock progressivo e uma dream pop de forte cariz eletrónico, mas onde não falta alguma diversidade, principalmente ao nível das orquestrações e do conteúdo melódico. Intro, a canção de abertura do álbum, plasma essa relação quase simbiótica entre dois universos sonoros que nem sempre coexistem pacificamente, com a fragilidade incrivelmente sedutora de Totaled a mostrar já guitarras e um baixo e uma bateria que seguem a sua dinâmica natural, enquanto assumem uma faceta algo negra e obscura, para criar um instrumental tipicamente rock, esculpido com cordas ligas à eletricidade, mas com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

All Gray aconchega a chegada de uma voz sintetizada, que se confunde, de certo modo, com um simples arranjo instrumental, enquanto olha para o interior da alma e incita os nossos desejos mais profundos, como se cavasse e alfinetasse um sentimento em nós, numa melodia que explora uma miríade mais alargada de instrumentos e sons e onde a vertente experimental assume uma superior preponderância ao nível da exploração do conteúdo melódico que compôe e onde a letra também é um elemento vital, tantas vezes o veículo privilegiado de transmissão da angústia que frequentemente nos invade. Acaba por ser nesta canção que se percebe que a escrita dos Dead Mellotron carrega uma sobriedade sentimental que acaba por servir de contraponto a uma sonoridade algo sombria e, em alguns instantes, tipicamente lo-fi.

Até ao final, a guitarra planante e etérea de Who Else e o sintetizador lisérgico e cósmico por onde deambula Sleepover, mostra como estes Dead Mellotron nos permitem aceder a uma outra dimensão musical com uma assumida pompa sinfónica e inconfundível, sem nunca descurar as mais básicas tentações pop e onde tudo soa utopicamente perfeito, já que, principalmente no último tema, das guitarras que escorrem ao longo do mesmo, passando pelo tal sintetizador e os efeitos e vozes, tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração do tema tivesse um motivo para se posicionar dessa forma.

Winter é como o frio, a chuva, o vento ou a neve que nos apoquentam, enquanto nos recordam da importância dessa estação do ano algo incómoda para o ciclo de renovação da natureza, num EP que nos agarra pelos colarinhos sem dó nem piedade e que nos suga para um universo pop feito com uma sonoridade tão preciosa, bela, silenciosa e estranha como a paisagem vasta, imensa e simultaneamente diversificada que sustenta o universo sonoro recheado de novas experimentações e renovações e que soa poderoso, jovial e inventivo, de onde este projeto norte americano é natural. Espero que aprecies a sugestão... 

No Cover

01. Intro

02. Totaled
03. All Gray
04. Who Else
05. Sleepover


autor stipe07 às 21:57
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Domingo, 11 de Janeiro de 2015

Panda Bear – Panda Bear Meets The Grim Reaper

Quem acompanha cuidadosamente e com particular devoção a carreira a solo de Panda Bear, um músico natural de Baltimore, no Maryland e a residir atualmente em Lisboa, compreende a necessidade que ele sente de propôr em cada novo disco algo que supere os limites da edição anterior. É como se, independente da pluralidade de acertos que caracterizavam a antecessor, o novo compêndio de canções que oferece tenha que transpôr barreiras e como se tudo o que fora antes construído se encaminhasse de alguma forma para o que ainda há-de vir, já que é frequente perceber que, entre tantas mudanças bruscas e nuances, é normal perceber que para Bear o que em outras épocas fora acústico, transformou-se depois em eletrónico, o ruidoso tornou-se melodioso e o que antes era experimental estranhamente aproximou-se da pop.

Panda Bear Meets The Grim Reaper, sucessor do aclamado Tomboy e quinto álbum da carreira deste músico norte americano que reside em Lisboa há oito anos, sabe a essa necessidade de superação e de evolução a cada disco. Nos mais de cinquenta minutos que dura, encontramos uma sequência de primorosas e ainda mais atrativas experimentações, com o nível de desordem sonora a mostrar-se sempre acessível ao ouvinte e o disco a fluir dentro de limites bem definidos. As canções sucedem-se articuladas entre si e de forma homogénea, com cada uma, sem exceção, a contribuir para a criação de um bloco denso e criativo, cheio de marcas sonoras relacionadas com vozes convertidas em sons e letras que praticamente atuam de forma instrumental e onde tudo é dissolvido de forma homogénea, o que faz com que Panda Bear Meets The Grim Reaper esteja longe de revelar todos os seus segredos logo na primeira audição.

Impecavelmente produzido por Peter Kember e pelo próprio Panda Bear e editado através da Domino Recordings, Panda Bear Meets The Grim Reaper começou a ser idealizado na mente criativa do músico durante as gravações de Centipede Hz, o último registo dos Animal Collective. Declaradamente influenciado pelo movimento hip-hop que floresceu na última década do século passado com nomes como Dust Brothers, Q-Tip, A Tribe Called Quest, Pete Rock, DJ Premier, 9th Wonder, e J Dilla, a serem influências assumidas, o álbum plasma essas referências do passado tingidas com novidade, algo que confere a este disco um resultado ao mesmo tempo nostálgico e inovador, com o indie rock, a folk, esse hip-hop e a electrónica, a cruzarem-se constantemente entre si, com noção de equilíbrio e um limbo perfeito, que nos faz descobrir a sua complexidade à medida que o vamos ouvindo de forma viciante.

Assim que Panda Bear começa a preparar o terreno com Sequential Circuits e somos invadidos pelo esplendor do efeito vocal que ecoa nos nossos ouvidos, percebemos que estamos prestes a escutar algo grandioso, plasmado logo no épico festim que parece implodir a qualquer instante em Mr Noah, e no eletropunk blues, enérgico e libertário, que escorre por todos os poros desta canção. Já completamente consumidos pelo arsenal infinito de efeitos, flashes e ruídos que correram impecavelmente atrás da percussão orgânica e bem vincada que sustentou esse tema, desaceleramos e mudamos de direção, como se tivessemos transposto quase instantaneamente uma espécie de portal, para um universo de pendor mais psicadélico, embalados pelo intro Davy Jones’ Locker, que estende graciosamente a passadeira vermelha ao belíssimo instante de folk psicadélica que é Crosswords, uma das canções mais melancólicas e acessíveis da carreira deste músico. O ordenado caos, onde cada fragmento tem um tempo certo e uma localização e tonalidade exatas, seja debitado por um instrumento orgânico ou resultado de uma programação sintetizada, prossegue a sua demanda triunfal na insanidade desconstrutiva e psicadélica em que alicerçam as camadas de sons que dão vida a Butcher Baker Candlestick Maker, na incontestável beleza e coerência dos detalhes orgânicos que nos fazem levitar em Latin Boy e no poderio eloquente do ruído de fundo da monumental Come To Your Senses, um bom tema para desesperar mentes ressacadas.

Mesmo no doce romantismo da trompete e da harpa de Tropic Of Cancer e do piano de Lonely Wanderer, dois lindíssimos instantes pop, que entre o experimental e o atmosférico, seduzem e emocionam, abundam sons que tão depressa surgem como se desvanecem e deixam-nos sempre na dúvida sobre uma possível alteração repentina do rumo dos acontecimentos, exigindo ao ouvinte estar permanentemente alerta e focado no que escuta. 

Até ao final, se Principe Real impressiona pela sintetização da voz omnipresente, em contraste com a batida grave e o baixo pulsante entregue a um espírito desolado e que nos remete para os sons de fundo de uma típica cidade do mundo moderno, que poderá ser a Lisboa que também é de Bear e onde há um jardim com o nome da canção que pode ser um local aprazível para a escuta de Panda Bear Meets The Grim Reaper, já a hipnótica Selfish Gene subjuga momentaneamente qualquer atribulação que nesse instante nos apoquente, enquanto sentados num banco desse espaço verde, isolados por um par de auscultadores de última geração, abosrvemos egoisticamente todo o cruzamento espectral e meditativo de que o disco vive.

O ocaso chega mais depressa do que gostaríamos com Acid Wash, canção que sabe claramente a despedida e onde as batidas sintéticas e repletas de efeitos maquinais, nunca se sobrepôem em demasiado ao restante conteúdo sonoro, assente em elementos minimalistas que vão sendo adicionados a um efeito aquático sintético com um volume crescente.

Panda Bear Meets The Grim Reaper é um álbum extraordinário porque além de não renegar a identidade sonora distinta de Panda Bear, ainda a eleva para um novo patamar de diferentes cenários e experiências instrumentais através de canções que nos fazem querer descobrir a sua complexidade à medida que se escuta o alinhamento de forma viciante. Exatidão e previsibilidade não são palavras que constem do dicionário deste autor e este novo trabalho, naturalmente corajoso e muito complexo e encantador, ao ser desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, plasma mais uma completa reestruturação no seu som, firmada por uma poesia sempre metafórica, o que faz com que Panda Bear se mostre ao mesmo tempo próximo e distante da nossa realidade e capaz de atrair quem se predispõe a tentar entendê-lo para cenários complexos, mas repletos de sensações únicas e que só ele consegue transmitir. Espero que aprecies a sugestão...

Panda Bear - Panda Bear Meets The Grim Reaper

01. Sequential Circuits
02. Mr Noah
03. Davy Jones’ Locker
04. Crosswords
05. Butcher Baker Candlestick Maker
06. Boys Latin
07. Come To Your Senses
08. Tropic Of Cancer
09. Shadow Of The Colossus
10. Lonely Wanderer
11. Príncipe Real
12. Selfish Gene
13. Acid Wash


autor stipe07 às 18:25
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sábado, 23 de Agosto de 2014

Dope Body - Hired Gun

Dope Body

Oriundos de Baltimore, os indie rockers norte americanos Dope Body estão de regresso com um novo álbum intitulado Lifer e que chegará aos escaparates a vinte e um de outubro através da Drag City.

Hired Gun é o primeiro avanço divulgado de Lifer e mostra uns Dope Body em grande forma: Fazem-no através de uma canção assente num indie rock clássico e visceral, pleno de noise, guitarras distorcidas, riffs poderosos e uma percurssão vibrante. Confere...

 


autor stipe07 às 11:50
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Quarta-feira, 30 de Abril de 2014

Wye Oak - Shriek

Já viu a luz do dia o novo disco da dupla de Baltimore Wye Oak formada por Jenn Wasner e Andy Stack. O quarto disco da carreira destes norte-americanos já algo veteranos no universo da folk e do indie rock chama-se Shriek, sucede a Civilian (2011) e foi editado no dia vinte e oito de Abril, por intermédio da Merge Records e da City Slang.

Numa dupla em que os dois maiores trunfos são a belíssima voz de Jenn e o magnífico trabalho instrumental de Andy, principalmente à frente das teclas, ficamos logo agarrados ao disco com Before, o tema de abertura, feito de uma melodia feita com um teclado que recuou no tempo uns trinta anos e ao qual vão sendo adicionados vários detalhes e elementos eletrónicos, incluindo o som da bateria. O tema homónimo segue a mesma toada e depois, ao sermos presenteados com a atmosfera simultaneamente íntima e vibrante do single The Tower, percebe-se o que Shriek tem que facilmente nos fascina, nada mais nada menos que uma coleção irrepreensível de sons inteligentes e solidamente construídos, que nos emergem em ambientes carregados de batidas e ritmos que, tomando como exemplo o potente baixo desta canção, poderão facilmente fazer-nos abanar a anca sem percebermos muito bem como e porquê.

E à medida que o disco avança e se percebe o alargado leque de influências que ditou o seu conteúdo, ficam claras as transições sonoras em que os Wye Oak apostam e nota-se a experimentação de diferentes estilos, onde também cabem ecos bem audíveis de post punksynthpop e dance punk dos anos oitenta e a eletrónica sombria, bem exemplificados, por exemplo, em Glory.

Um teclado em espiral e melodicamente hipnótico, uma percussão minimal e alguns efeitos que nos transportam numa viagem rumo ao revivalismo dos anos oitenta, apimentado por um falsete afundado num colchão de sons eletrónicos e que satirizam essa eletrónica retro, feita com VHS, é outra nuance explícita do universo sonoro abarcado pelos Wye Oak em Shriek, nomeadamente em Sick Talk.

Shriek é um trabalho rico e arrojado, que aponta em diferentes direções sonoras e onde não há um único estilo que possa catalogar o cardápio sonoro apresentado, como é usual acontecer nos Wye Oak. O disco tem um fio condutor óbvio, assente em alguma da melhor synth pop contemporânea, mas uma das suas articularidades é conseguir, sem fugir muito desta bitola, engolabr diferentes aspetos e detalhes de outroas raízes musicais e tem até aquele charme típico do vagaroso e caliente ritmo latino, muito bem replicado quando os sintetizadores ao entrarem em ação compilam com música, história, cultura, saberes e tradições, num pacote sonoro cheio de groove e de paisagens sonoras que contam histórias que a voz de Jenn Wasner sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Espero que aprecies a sugestão...

Wye Oak - Shriek

01. Before
02. Shriek
03. The Tower
04. Glory
05. Sick Talk
06. Schools Of Eyes
07. Despicable Animal
08. Paradise
09. I Know The Law
10. Logic Of Color

 


autor stipe07 às 22:58
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Beach House - Bloom

Desde a estreia dos Beach House que era notório o esforço da dupla Victoria Legrand e Alex Scally, natural de Baltimore, em aperfeiçoar uma fórmula própria dentro dos limites etéreos da dream pop. Entusiastas de várias bandas da década de oitenta, em 2010, com Teen Dream e os contornos pop melódicos que abraçavam nesse disco, fizeram com que o projeto ganhasse amplo destaque e a dupla alcançasse um novo nível lírico e instrumental, além da tão ansiada fórmula de sucesso que andavam à procura. No entanto, parece que a eterna insatisfação reina no seio do grupo já que com Bloom, o novo álbum, editado pela Sub Pop, os Beach House parecem abrir-se para novos rumos e expetativas sonoras.

Este quarto registo da banda evoca sentimentos ainda mais próximos do ouvinte, que nas dez composições do disco irá descobrir uma míriade de referências leves e hipnóticas que musicalmente se desfazem nos ouvidos do espectador, ou seja, longe de repetirem os mesmos acertos do passado, a dupla opta por experimentar, não de forma revolucionária, mas como se estivesse a preparar, como já dei a entender, um novo ciclo musical próprio.

No entanto, durante os cinquenta minutos do disco, a sonoridade é vincada e firme, ao contrário de experiências naturalmente etéreas e oníricas apresentadas por outras bandas do género. Nos Beach House, as guitarras que antes serviam para construir densos planos de fundo musicais, agora ressurgem em formas menos experimentais e mais acessíveis ao público e sente-se no disco a necessidade de dar continuidade ao que fora testado em músicas como Walk In The Park e 10 Mile Stereo, canções que conseguiram puxar Teen Dream para além dos sintetizadores mágicos e vocais enevoados que delimitaram boa parte da estrutura do álbum anterior.

A presença ativa do produtor Chris Coady, responsável por alguns discos que me dizem bastante, nomeadamente  Dear Science dos TV On The Radio, Yellow House de Grizzly Bear e o recente Eye Contact do Gang Gang Dance, deverá ter sido importante para  alcançar essa nova musicalidade dentro do álbum. Coady repete em Bloom todos os acertos gerados no último disco da banda e acaba por ser como que um terceiro membro do projeto, tornando as composições muito mais audíveis e abertas. A voz de Legrand surge límpida e perfeitamente audível e deixou de ser aplicada como mais um instrumento, algo que era uma caraterística básica dos três últimos lançamentos dos Beach House.

Bloom não é um disco apenas destinado ao grande público e deverá ecoar com perfeição nos ouvidos dos mais antigos seguidores da dupla. Diferente dos anteriores discos, quando o duo parecia interessado em se encontrar e produzir um som de força própria, em Bloom o casal deixa-se contagiar por outras referências, algo facilmente observado na aproximação de diversas músicas com elementos típicos dos anos oitenta. Logo em Wild, segunda canção do álbum, esse tipo de som já é visível e a maneira como as guitarras e os teclados (repletos de eco) são alinhados transportam imediatamente o ouvinte para o cenário montado há três décadas. Além disso houve a necessidade de amarrar todas as canções, aplicando pequenos ruídos ou interlúdios que acabam por ligar as canções num imenso bloco sonoro, o que deu ao disco um certo tom conceptual.

Legrand e Scally não poderiam ter escolhido um melhor nome para o novo álbum da banda. O florescer que se manifesta no título do trabalho encontra coerência no conteúdo do disco, um projeto que absorve a luz vinda de diversas referências e as converte em algo novo, permeado por boas guitarras, arranjos instrumentais límpidos e o mesmo conjunto de versos melancólicos e intimistas que o duo desenvolve há já alguns anos para nos enfeitiçar. Se Teen Dream parecia ser o ápice, Bloom demonstra que o casal de Baltimore pode ir ainda mais longe e se existe algum limite ao trabalho da dupla, este ainda parece impossível de ser detectado. Espero que aprecies a sugestão...

 

1. Myth
2. Wild
3. Lazuli
4. Other People
5. The Hours
6. Troublemaker
7. New Year
8. Wishes
9. On The Sea
10. Irene


autor stipe07 às 14:03
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|
Sábado, 19 de Maio de 2012

Lower Dens – Nootropics

Os Lower Dens são uma banda norte americana natural de Baltimore, liderada por Jana Hunter e que em 2010 nos brindou com o emocionante álbum de estreia Twin-Hand Movement. No passado dia um de maio regressaram aos lançamentos discográficos com Nootropics, um disco lançado pela Ribbon Music e que se deve ouvir sem expetativas porque aviso desde já que nos irá sugar para uma rede sonora construída com ritmos repetitivos e um emaranhado de sons e imagens etéreas.

Nootropics é um disco que vale a pena ouvir e destaco logo os mais de sete minutos que unem Brains e Stem no começo do trabalho, que configuram uma verdadeira viagem sonora por mais de cinco décadas de produção musical conduzida apenas pelas guitarras de Will Adams. Um passeio surpreendente que mergulha na vanguarda dos The Velvet Underground, passa pela curta discografia dos Joy Division e absorve Kevin Shields, até desaguar num instrumental que emociona. Intencionalmente denso, o trabalho transparece o resultado de uma banda que já nasceu madura, dotada de um som abrangente e tomado pelos detalhes. É um projeto adulto e no seu interior há ajustes, pequenas reformulações e tiques de originalidade que irão certamente fazer escola e que dão um tom hipnótico a Nootropics, sendo um belo exemplo disso Lion in Winter Pt. 1, uma composição dotada de várias sobreposições sonoras.

Mas no resto do disco a evocação de outras influências não fica pelas já citadas; Neste Nootropics os Lower Dens navegam por vários destinos e influências, que servem para ecoar melancolia e amargura, faltando citar ainda uma aproximação evidente aos Beach House, nomeadamente nos teclados de Nova Anthem, Alphabet Song e Stam. Em Brains, além das influências já citadas, é possível encontrar um fundo de The Walkmen, talvez do disco You & Me de 2008, enquanto o ar nostálgico de Lion in Winter Pt. 2 manifesta novo travo à banda de Ian Curtis e também aos The Smiths. O disco termina com In The End Is The Beginning, uma odisseia de doze minutos que se revela aos poucos em pequenos apontamentos de guitarra e que acaba num tom dramático que nos conquista por completo.

Meticuloso e sombrio, o disco está pois impregnado com um caleidoscópio acinzentado de ritmos, sons e versos que passeiam por recordações do passado e por pequenas frações de pensamentos individuais que musicadas nos soam próximas, como se as canções quisessem conversar connosco. Nele, os Lower Dens conseguem criar ambientes mais sombrios e menos optimistas, mais surreais e menos idílicos, sem perder a levitação transmitida pelas instrumentações arrastadas, sendo muito interessante perceber que todas estas influências e sonoridades já foram testadas milhares de vezes por outros artistas, mas em Nootropics houve a capacidade de executar algo abrangente e detalhado e através de canções que, como já disse,  dialogam com o ouvinte.

Num mundo de constantes lançamentos excessivamente cuidadosos e sempre épicos, produzir um disco sincero e que consiga emocionar ainda é algo raro e fundamental para me impressionar. E esta banda conseguiu-o com plenitude. Espero que aprecies a sugestão...

Lower Dens - Nootropics

01. Alphabet Song
02. Brains
03. Stem
04. Propagation
05. Lamb
06. Candy
07. Lion In Winter Pt. 1
08. Lion In Winter Pt. 2
09. Nova Anthem
10. In The End Is The Beginning


autor stipe07 às 17:03
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
|

eu...

Powered by...

stipe07

Parceria - Portal FB Headliner

Facebook

Man On The Moon - Paivense FM (99.5)

Em escuta...

Twitter

Twitter

Bloglovin

Setembro 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30


posts recentes

Beach House - Depression ...

Lower Dens – Escape From ...

Dan Deacon - Gliss Riffer

Dead Mellotron – Winter E...

Panda Bear – Panda Bear M...

Dope Body - Hired Gun

Wye Oak - Shriek

Beach House - Bloom

Lower Dens – Nootropics

X-Files

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

take a look...

Procura...

 

Visitors (since 31.05.12)

blogs SAPO

subscrever feeds