Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Beach House - Bloom

Desde a estreia dos Beach House que era notório o esforço da dupla Victoria Legrand e Alex Scally, natural de Baltimore, em aperfeiçoar uma fórmula própria dentro dos limites etéreos da dream pop. Entusiastas de várias bandas da década de oitenta, em 2010, com Teen Dream e os contornos pop melódicos que abraçavam nesse disco, fizeram com que o projeto ganhasse amplo destaque e a dupla alcançasse um novo nível lírico e instrumental, além da tão ansiada fórmula de sucesso que andavam à procura. No entanto, parece que a eterna insatisfação reina no seio do grupo já que com Bloom, o novo álbum, editado pela Sub Pop, os Beach House parecem abrir-se para novos rumos e expetativas sonoras.

Este quarto registo da banda evoca sentimentos ainda mais próximos do ouvinte, que nas dez composições do disco irá descobrir uma míriade de referências leves e hipnóticas que musicalmente se desfazem nos ouvidos do espectador, ou seja, longe de repetirem os mesmos acertos do passado, a dupla opta por experimentar, não de forma revolucionária, mas como se estivesse a preparar, como já dei a entender, um novo ciclo musical próprio.

No entanto, durante os cinquenta minutos do disco, a sonoridade é vincada e firme, ao contrário de experiências naturalmente etéreas e oníricas apresentadas por outras bandas do género. Nos Beach House, as guitarras que antes serviam para construir densos planos de fundo musicais, agora ressurgem em formas menos experimentais e mais acessíveis ao público e sente-se no disco a necessidade de dar continuidade ao que fora testado em músicas como Walk In The Park e 10 Mile Stereo, canções que conseguiram puxar Teen Dream para além dos sintetizadores mágicos e vocais enevoados que delimitaram boa parte da estrutura do álbum anterior.

A presença ativa do produtor Chris Coady, responsável por alguns discos que me dizem bastante, nomeadamente  Dear Science dos TV On The Radio, Yellow House de Grizzly Bear e o recente Eye Contact do Gang Gang Dance, deverá ter sido importante para  alcançar essa nova musicalidade dentro do álbum. Coady repete em Bloom todos os acertos gerados no último disco da banda e acaba por ser como que um terceiro membro do projeto, tornando as composições muito mais audíveis e abertas. A voz de Legrand surge límpida e perfeitamente audível e deixou de ser aplicada como mais um instrumento, algo que era uma caraterística básica dos três últimos lançamentos dos Beach House.

Bloom não é um disco apenas destinado ao grande público e deverá ecoar com perfeição nos ouvidos dos mais antigos seguidores da dupla. Diferente dos anteriores discos, quando o duo parecia interessado em se encontrar e produzir um som de força própria, em Bloom o casal deixa-se contagiar por outras referências, algo facilmente observado na aproximação de diversas músicas com elementos típicos dos anos oitenta. Logo em Wild, segunda canção do álbum, esse tipo de som já é visível e a maneira como as guitarras e os teclados (repletos de eco) são alinhados transportam imediatamente o ouvinte para o cenário montado há três décadas. Além disso houve a necessidade de amarrar todas as canções, aplicando pequenos ruídos ou interlúdios que acabam por ligar as canções num imenso bloco sonoro, o que deu ao disco um certo tom conceptual.

Legrand e Scally não poderiam ter escolhido um melhor nome para o novo álbum da banda. O florescer que se manifesta no título do trabalho encontra coerência no conteúdo do disco, um projeto que absorve a luz vinda de diversas referências e as converte em algo novo, permeado por boas guitarras, arranjos instrumentais límpidos e o mesmo conjunto de versos melancólicos e intimistas que o duo desenvolve há já alguns anos para nos enfeitiçar. Se Teen Dream parecia ser o ápice, Bloom demonstra que o casal de Baltimore pode ir ainda mais longe e se existe algum limite ao trabalho da dupla, este ainda parece impossível de ser detectado. Espero que aprecies a sugestão...

 

1. Myth
2. Wild
3. Lazuli
4. Other People
5. The Hours
6. Troublemaker
7. New Year
8. Wishes
9. On The Sea
10. Irene


autor stipe07 às 14:03
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Sábado, 19 de Maio de 2012

Lower Dens – Nootropics

Os Lower Dens são uma banda norte americana natural de Baltimore, liderada por Jana Hunter e que em 2010 nos brindou com o emocionante álbum de estreia Twin-Hand Movement. No passado dia um de maio regressaram aos lançamentos discográficos com Nootropics, um disco lançado pela Ribbon Music e que se deve ouvir sem expetativas porque aviso desde já que nos irá sugar para uma rede sonora construída com ritmos repetitivos e um emaranhado de sons e imagens etéreas.

Nootropics é um disco que vale a pena ouvir e destaco logo os mais de sete minutos que unem Brains e Stem no começo do trabalho, que configuram uma verdadeira viagem sonora por mais de cinco décadas de produção musical conduzida apenas pelas guitarras de Will Adams. Um passeio surpreendente que mergulha na vanguarda dos The Velvet Underground, passa pela curta discografia dos Joy Division e absorve Kevin Shields, até desaguar num instrumental que emociona. Intencionalmente denso, o trabalho transparece o resultado de uma banda que já nasceu madura, dotada de um som abrangente e tomado pelos detalhes. É um projeto adulto e no seu interior há ajustes, pequenas reformulações e tiques de originalidade que irão certamente fazer escola e que dão um tom hipnótico a Nootropics, sendo um belo exemplo disso Lion in Winter Pt. 1, uma composição dotada de várias sobreposições sonoras.

Mas no resto do disco a evocação de outras influências não fica pelas já citadas; Neste Nootropics os Lower Dens navegam por vários destinos e influências, que servem para ecoar melancolia e amargura, faltando citar ainda uma aproximação evidente aos Beach House, nomeadamente nos teclados de Nova Anthem, Alphabet Song e Stam. Em Brains, além das influências já citadas, é possível encontrar um fundo de The Walkmen, talvez do disco You & Me de 2008, enquanto o ar nostálgico de Lion in Winter Pt. 2 manifesta novo travo à banda de Ian Curtis e também aos The Smiths. O disco termina com In The End Is The Beginning, uma odisseia de doze minutos que se revela aos poucos em pequenos apontamentos de guitarra e que acaba num tom dramático que nos conquista por completo.

Meticuloso e sombrio, o disco está pois impregnado com um caleidoscópio acinzentado de ritmos, sons e versos que passeiam por recordações do passado e por pequenas frações de pensamentos individuais que musicadas nos soam próximas, como se as canções quisessem conversar connosco. Nele, os Lower Dens conseguem criar ambientes mais sombrios e menos optimistas, mais surreais e menos idílicos, sem perder a levitação transmitida pelas instrumentações arrastadas, sendo muito interessante perceber que todas estas influências e sonoridades já foram testadas milhares de vezes por outros artistas, mas em Nootropics houve a capacidade de executar algo abrangente e detalhado e através de canções que, como já disse,  dialogam com o ouvinte.

Num mundo de constantes lançamentos excessivamente cuidadosos e sempre épicos, produzir um disco sincero e que consiga emocionar ainda é algo raro e fundamental para me impressionar. E esta banda conseguiu-o com plenitude. Espero que aprecies a sugestão...

Lower Dens - Nootropics

01. Alphabet Song
02. Brains
03. Stem
04. Propagation
05. Lamb
06. Candy
07. Lion In Winter Pt. 1
08. Lion In Winter Pt. 2
09. Nova Anthem
10. In The End Is The Beginning


autor stipe07 às 17:03
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