Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017

King Gizzard and the Lizard Wizard - Sketches Of Brunswick East

Quando no início do ano o projeto australiano King Gizzard and the Lizard Wizard de Stu Mackenzie anunciou que iria lançar cinco álbuns em 2017, foram muitos os cépticos que se apressaram a apontar o dedo à impossibilidade deste grupo de rock psicadélico conseguir levar por diante tal desiderato. Mas a verdade é que Sketches Of Brunswick East, treze canções que viram a luz do dia a vinte e cinco de agosto, através da ATO Records, são já o terceiro capítulo desta imponente saga onde detalhes da soul, do jazz, do rock, essencialmente o setentista e sonoridades africanas e até a folk tradicional inglesa se misturam, para dar vida e cor a um alinhamento onde também teve uma importante palavra a dizer Alexander Brettin, outro músico australiano e natural de Brunswick East, bairro dos subúrbios de Melbourne, tal como Stu e fã de Todd Rundgren e Wire, que tem como carapaça pop o projeto Mild High Club.

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Com os King Gizzard and the Lizard Wizard a contarem já com cerca de uma dezena de discos em carteira, a verdade é que este Sketches Of Brunswick East é já o terceiro trabalho que também conta com a participação dos Mild High Club. E Sketches Of Brunswick East, que também alude ao clássico de Miles Davis, Sketches Of Spainresulta na plenitude, porque é profusamente intensa e feliz esta estreita colaboração entre Stu e Alexander, nomeadamente através da modo como trocam trechos de guitarra acústica, que acabam por servir depois de base a um posterior trabalho de aperfeiçoamento e desenvolvimento por parte dos restantes membros dos King Gizzard and the Lizard Wizard, com o resultado final, mais uma vez, a ser verdadeiramente intenso e contagiante.

O disco inicia com um solo de piano lindíssimo por parte de Brettin, secundado por alguns detalhes percurssivos da autoria do baterista Michael Cavanagh e a partir daí o que se escuta é uma verdadeira espiral entusiasta e multicolorida, que nos colocabem no centro de um tornado que, da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se delicia com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

Se ao longo da audição deste álbum parece evidente que tudo aquilo que se pode escutar, dos arranjos às melodias passando pelos diferentes detalhes e samples, é cuidadosamente pensado. É curioso constatar que a busca do caos também pareceu fazer parte da filosofia dominante no processo de construção do arquétipo das várias canções. O jazz experimental acaba por ser a base, mas é muito redutor uma catalogação tão objetiva já que, obedecendo a uma filosofia firme de controle instrumental, quer a homenagem descarada à melhor bossa nova em You Can Be Your Silhouette, assim como os devaneios dos sopros divagantes de Sketches Of Brunswick East II e o modo como em The Spider And Me as variações rítmicas também sobressaiem devido ao modo como as cordas se entrelaçam com a voz, são apenas alguns exemplos felizes que nos remetem para um espetro muito mais vasto e abrangente, onde diferentes estruturas e influências submergem e se acotovelam, quase em uníssono, para conseguirem destaque entre si. É, em pouco mais de trinta minutos, o espraiar indulgente e sereno de uma prévia colocação numa máquina de lavar, num programa que permitiu uma espécie de rotação e sobreposição constante de tudo aquilo que a herança musical contemporânea, de índole eminentemente psicadélica, foi agregando e assimilando ao longo das últimas cinco décadas.

Mais uma vez os King Gizzard and the Lizard Wizard conseguem facultar-nos um acervo de canções único e peculiar e que resulta, certamente, da consciência que Stu, o grande mentor do projeto, tem das transformações que abastecem a música psicadélica atual, enquanto tenta ligar-nos umbilicalmente aquela que considera ser a melhor lista de referências essenciais na parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que tem inundado os nossos ouvidos ultimamente. Sendo este seu terceiro disco do ano um tratado sonoro de natureza hermética, também não se furta a quebrar algumas regras da pop, nomeadamente na questão da crueza lo fi, e até de desafiar as mais elementares do bom senso, impressionando, assim, pelo arrojo e mostrando-se genial no modo como dá vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Sketches of Brunswick East artwork

01. Sketches Of Brunswick East I
02. Countdown
03. D-Day
04. Tezeta
05. Cranes, Planes, Migraines
06. The Spider And Me
07. Sketches Of Brunswick East II
08. Dusk To Dawn On Lygon Street
09. The Book
10. A Journey To (S)hell
11. Rolling Stoned
12. You Can Be Your Silhouette
13. Sketches Of Brunswick East III


autor stipe07 às 09:27
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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2017

Liars – TFCF

Poucas bandas se transformaram tanto ao longo da última década como o trio de Nova Iorque chamado Liars e formado originalmente por Angus Andrew, Aaron Hemphill e Julian Gross. Deram início à carreira com uma sonoridade muito perto do noise rock, com experimentações semelhantes ao que fora testado pelos Sonic Youth do início de carreira e até com algumas doses de punk dance e aos poucos foram aproximando-se de uma sonoridade mais amena e introspetiva. O que antes era ruído, distorção e gritos desordenados, passou a debitar algo mais brando, com uma proposta de som muito mais voltada para um resultado atmosférico, definição que passou a imperar com evidência desde o disco homónimo lançado em 2007. Este toque experimental acabou por se manter e WIXIW (pronuncia-se wish you), em 2012, foi o culminar de uma tríade que começou no tal Liars de 2007 e prosseguiu em Sisterworld (2010). Dois anos depois, em 2014, os Liars voltam a apostar numa inflexão sonora com Mess, um disco que apresentava uma mistura nada anárquica, mas bastante heterogénea de todos os vetores sonoros que orientaram, até então, a carreira do trio, um álbum carregado de batidas, com uma base sonora bastante peculiar e climática e com propostas ora banhadas por um doce toque de psicadelia a preto e branco, ora consumidas por um teor ambiental denso e complexo.

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Mess acabou por ser o disco da ruptura e da implosão de um trio que se desmoronou no meio da inquietude e do tal caos, feito de três visões bastantes diferentes daquele que deveria ser o rumo sonoro mais consistente dos Liars, um trajeto que após dezassete anos de busca incessante de consensos, acabou por atingir o limite do tolerável. Assim, Angus Andrew vê-se isolado, mas não dá baixa da marca registada Liars, preferindo, com o acordo dos ex colegas, continuar a dar sequência ao universo com esse nome, agora a solo, sendo TFCF, o primeiro lançamento discográfico nesta nova realidade do projeto. 

Os Liars sempre criaram um som muito difícil de definir porque misturam eletrónica com rock alternativo, noise rock, avant garde, post punk e outras sonoridades e a verdade é que não se pode afirmar que tenham produzido dois trabalhos semelhantes em termos de sonoridade. Este conceito de ruptura mantém-se em TFCF, o que talvez prove que Angus acabou por conseguir fazer prevalecer sempre, acima de todos, a sua filosofia, apesar da aparente democraticidade e busca de pontos de equilíbrio, como descrevi.

Composto integralmente por Angus, no seu país de origem, a Austrália, numa ilha ao largo de Sidney, acessível apenas por barco, num clima de auto isolamento claramente imposto, TFCF materializa esta oportunidade de ouro que o músico finalmente teve para explanar livremente  os conceitos artísticos com que mais se identifica, procurando, ao mesmo tempo, revitalizar o som Liars, elevando-o para uma nova escala e paradigma de inedetismo até porque, a primeira impressão que se tem logo após a audição deste álbum é que não há nenhum projeto contemporâneo conhecido que possa ser equiparado estilisticamente ao que é apresentado nestas onze canções. Já agora, é curiosa a explicação de Angus para o artwork do disco. Justifica-o afirmando que durante dezassete anos sentiu-se de certo modo casado com Aaron Hemphill, o seu principal parceiro nesta aventura e o último a abandoná-lo (Depois de Mess os Liars chegaram a ser uma dupla durante algum tempo) e agora que ele o deixou, ficou sozinho, apenas com um vestido de noiva (I felt like I was married to Aaron [Hemphill] creatively, and now that he is gone I am alone in my wedding dress).

TFCF acaba por refletir bastante esta nova conjuntura, até porque Angus não se fez rogado na hora de aproveitar algum material sonoro que estava guardado em bruto para o próximo disco do projeto no formato trio e em que Angus e Aaron tinham chegado a trabalhar em conjunto, apesar de, durante esse brainstorming virtual, um estar em los Angeles e o outro em Berlim. No Help Pamphlet, um dos poucos momentos acústicos do álbum e onde a guitarra é protagonista, é clara nesta realidade, com a letra a referir-se diretamente a Aaron (OK, that’s it. Those are all the songs I really like… I hope that you have a really great break. And I’m thinking of you all the time.)

Olhando um pouco para o restante conteúdo do disco, independentemente da abordagem que é feita em cada canção e que varia imenso, a eletrónica é o fio condutor, quase sempre envolvida numa embalagem minimal, embrulhada com vozes e sintetizadores num registo predominantemente grave e ligeiramente distorcido, que cria uma atmosfera sombria, hipnótica e visceral. O clima algo caótico e lo fi de The Grand Delusional personifica, claramente, uma forma de procurar exorcizar o modo angustiante como Angus olha para a nova realidade com que convive, mas depois, quer nas cordas medievas de Cliché Suite, acompanhadas por arranjos que dão um tema um clima spaghetti curioso, quer na batida pulsante, grave e sensual de Staring At Zero e nos seus detalhes metálicos, assim como nos samples ambientais da climática Face To Face With My Face e no folk punk caliedoscópico de No Tree No Branch, o músico liberta-se um pouco das amarras identitárias e oferece-nos algumas nuances curiosas que deverão projetar um pouco aquele que será futuro sonoro dos Liars. O vigor percurssivo de Coins In My Caged Fist, acompanhado por um sintetizador algo agreste, talvez seja o momento de TFCF que mais nos remeta para o passado, mas de um modo feliz porque é um tema que vai beber à fonte de Drums Not Dead, a obra-prima do grupo.

Disco que personifica, sem rodeios, um estado de (in)consciência muito próprio de um autor que vive num momento crucial da sua existência, quer pessoal quer artística, TFCF é um corpo sonoro cheio de especificidades, que precisa e merece ser apreciado de acordo com as regras que ele próprio define, sem ideias pré-concebidas ou expetativas balizadas, até porque, na minha opinião, poderá vir a ser um marco imprescindível para a descrição futura testamental da marca Liars, pois estou certo que agora, depois de exorcizados os fantasmas e definidas as novas pistas, Angus não vai ficar por aqui e vai finalmente poder mostrar, sem ter que dar explicações ou fazer concessões, aquilo que artisiticamente realmente vale. E parece ser muito! Espero que aprecies a sugestão...

Liars - TFCF

01. The Grand Delusional
02. Cliche Suite
03. Staring At Zero
04. No Help Pamphlet
05. Face To Face With My Face
06. Emblems Of Another Story
07. No Tree No Branch
08. Cred Woes
09. Coins In My Caged Fist
10. Ripe Ripe Rot
11. Crying Fountain


autor stipe07 às 14:51
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Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

The Jungle Giants – Quiet Ferocity

Oriundos de Brisbane e formados por Sam Hales, Cesira Aitken, Andrew Dooris e Keelan Bijker, os The Jungle Giants já têm finalmente nos escaparates o sucessor de Speakerzoid, o segundo disco do projeto, editado há dois anos e que sucedeu ao registo de estreia, um álbum intitulado Learn To Exist, editado em 2013. Quiet Ferocity é o novo álbum deste quarteto australiano, um trabalho que irá certamente continuar a catapultar o grupo para o merecido estrelato.

Escrever sobre o conteúdo de um disco dos The Jungle Giants após uma sardinhada com direito a duas canecas de meio litro de um excelente verde branco fresco de Castelo de Paiva não é uma tarefa fácil, mas como também não é extensa a lista de leitores deste blogue não corro o risco de ver a minha análise colocar em causa de modo permanente a bitola qualitativa quer deste espaço de escrita quer de um grupo que, como se percebe logo em On Your Way Down, assenta a sua permissa sonora numa pop heterógenea que entre o rock experimental e o eletropop,  é feita, geralmente, de um baixo encorpado e pleno de groove, algumas teclas insinuantes, uma guitarra impregnada com aquele fuzz psicadélico hoje tanto em voga e alguns efeitos futuristas, com o resultado global a ser uma ode festiva e inebriante que nos submerge em todos os minutos gastos na sua audição.

Estes The Jungle Giants têm o objetivo claro de fazer os seus ouvintes dançar ou, se não for esse o caso, pelo menos de nos fazer vibrar positivamente ao som das suas canções. E neste terceiro disco conseguem, com maior refinamento, esse propósito, mostrando uma superior clarividência interpretativa e, além disso, um piscar de olhos a territórios sonoros algo inéditos no percurso do grupo. Assim, o indie eletro pop luminoso e festivo de Feel The Way I Do e o clima sintético mas divertido de Bad Dream, assim como a exuberância punk do single Quiet Ferocity e o blues do baixo e da guitarra de Used to Be In Love acentuam ainda mais o cariz infeccioso e contemporâneo de um disco que parece um verdadeiro motim de acordes, arranjos e samples vocais, atributos que abraçam uma quantidade ilimitada de texturas onde sintetizadores e guitarras contagiantes estouram alegria e sedução, como se fossem um par de amantes em permanente troca lasciva de olhares e argumentos.

Se alguns dos principais pilares da pop contemporânea são pedras basilares deste alinhamento, em Quiet Ferocity nem faltam abordagens a um espetro indie mais futurista, repleto de samples curiosos e de efeitos e detalhes bastante criativos. Assim, se Time And Time Again sobrevive devido aos tiques percussivos frenéticos em que se acomoda, tricotados por um baixo dinâmico e fascinante, que depois se entrelaça com uma guitarra que se distorce sem controle, baixo esse que se mostra glorioso em In The Garage, já a soul dos efeitos que acompanham o ritmo da bateria de Waiting For A Sign com uma articulação e um charme incomuns e a vibração excitante do falso minimalismo da eloquente Blinded, constituem um inventivo e luxuriante mosaico que exala uma certa pop negra avançada mas excitante, numa revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto por alguns gigantes que se têm entregue ao flutuar sonoro da lisergia e de cuja listagem os The Jungle Giants também querem fazer parte.

Em suma, cheio de espaço, com texturas e fôlegos diferentes e onde é transversal uma sensação de experimentação nada inócua, Quiet Ferocity cimenta as coordenadas que se apoderaram do departamento de inspiração deste quarteto, sendo o resultado da ambição do mesmo em se rodear com uma áurea resplandecente e inventiva e de mostrar uns The Jungle Giants cada vez mais heterogéneos e abrangentes. Espero que aprecies a sugestão...

The Jungle Giants - Quiet Ferocity

01. On Your Way Down
02. Feel The Way I Do
03. Bad Dream
04. Used To Be In Love
05. Quiet Ferocity
06. Time and Time Again
07. Waiting For A Sign
08. Blinded
09. In The Garage
10. People Always Say


autor stipe07 às 00:34
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Quinta-feira, 8 de Junho de 2017

Underground Lovers – Staring At You Staring At Me

Oriundos de Melbourne, na Austrália, os Underground Lovers são Philippa Nihill, Richard Andrew, Maurice Argiro, Glenn Bennie, Vincent Giarrusso e Emma Bortignon. Apostam no revivalismo do rock progressivo e psicadélico, com uma forte componente experimental, que começou a fazer escola nas décadas de sessenta e de setenta. Pouco conhecidos no resto do mundo, são acompanhados com particular devoção no país de origem e considerados como uma das mais inovadoras bandas australianas, pela forma como conjugam a tradicional tríade baixo, guitarra e bateria com a tecnologia e a eletrónica que hoje prolifera na música e que permite às bandas alargar o seu cardápio instrumental. Editado através da Rubber Records, habitual depositário do catálogo da banda, Staring At You Staring At Me é o trabalho mais recente dos Underground Lovers, um disco que celebra quase três décadas da carreria do grupo e que sucede a Wonderful Things (2011) e ao excelente Weekend (2014).

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A banda iniciou a sua carreria discográfica em mil novecentos e noventa e um com um homónimo e Staring At You Staring At Me é já o décimo segundo álbum da carreira dos Underground Lovers, um grupo que passou por algumas transformações, várias entradas e saídas de elementos e com um historial típico de uma banda com um elevado número de músicos com vidas díspares e conturbadas. 

Staring At You Staring At Me são nove canções que nos permitem aceder a uma outra dimensão musical com uma assumida pompa sinfónica e inconfundível, sem nunca descurar as mais básicas tentações pop e onde tudo soa utopicamente perfeito. Apesar da já extensa carreira, confesso-me cada vez mais impressionado pela beleza utópica das composições dos Underground Lovers, algo que não falta neste álbum, assim como as belas orquestrações, que vivem e respiram, lado a lado, com distorções e arranjos mais agressivos. 

Staring At You Staring At Me denota esmero e paciência por parte de Vincent Giarrusso, o grande mentor e compositor da banda, principalmente na forma como acerta nos mínimos detalhes. Das guitarras que escorrem ao longo de todo o trabalho, passando pelos arranjos de cordas, pianos, efeitos e vozes, tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração do que escutamos tivesse um motivo para se posicionar dessa forma. Ao mesmo tempo em que é possível absorver Staring At You Staring At Me como um todo, entregar-se aos pequenos detalhes que preenchem o trabalho é outro resultado da mais pura satisfação, como se os Underground Lovers projetassem inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção, assentes num misto de psicadelia, rock progressivo, soul e blues.

O som espacial, experimental, psicadélico e melódico que a banda criou ao longo da carreira, encontra aqui o conforto que necessita para se justificar e se cimentar ainda mais, com o disco a acrescentar à bagagem sonora dos Underground Lovers novas e belíssimas texturas, mais serenas, mas que não se desviam do cariz fortemente experimental que faz parte do ADN do grupo. Assim, da luminosidade do efeito metálico da guitarra que conduz Seen It All, passando pela serenidade folk das cordas que abastecem It’s The Way It’s Marketed e Unbearable e pela elevadíssima dose de psicadelia em que assenta St. Kilda Regret, assim como pela majestosidade experimental e intensa de Glamnesia, um tema cantado com uma voz em eco entrelaçada com uma guitarra plena de distorção, dois detalhes que conferem à canção um enigmático e sedutor cariz vintage, são vários e convincentes os exemplos de rejuvenescimento de um projeto essencial para o rock alternativo australiano e não só.

Apesar da longevidade e da erosão que a instabilidade da formação provoca no seio de uma banda, os Underground Lovers parecem não ter perdido o brilho e não demonstram cansaço ou falta de inspiração. Staring At You Staring At Me tem tudo para ser mais um clássico de uma banda que mergulhada num universo sonoro um pouco mais intimista e reflexivo, continua a soar tão jovial e inventiva como soava há duas décadas. Espero que aprecies a sugestão...

Underground Lovers - Staring At You Staring At Me

01. St. Kilda Regret
02. You Let Sunshine Pass You By
03. The Conde Nast Trap
04. The Rerun
05. Seen It All
06. It’s The Way It’s Marketed
07. Glamnesia
08. Every Sign
09. Unbearable


autor stipe07 às 13:09
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Sábado, 6 de Maio de 2017

POND - The Weather

Depois do excelente Man It Feels Like Space Again (2015), os australianos POND de Nick Allbrook, baixista dos Tame Impala, estão de regresso aos discos em 2017 com The Weather, um álbum que viu a luz do dia através da Marathon Artists e idealizado por uma banda obrigatória para todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se deliciam com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um projeto.

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A expressão rock cósmico talvez seja feliz para catalogar o caldeirão sonoro que os POND reservam para nós cada vez que entram em estúdio para compor. E o receituário habitual destes australianos inclui guitarras alimentadas por um combustível eletrificado que inflama raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro do ideário sonoro do grupo, feitas, geralmente, de acordes rápidos, distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez e que desta vez estão mais acompanhadas do que nunca por sintetizadores munidos de um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias. Para compor o ramalhete não falta ainda uma secção rítmica feita com um baixo pulsante e uma bateria com um forte cariz étnico, numa sobreposição instrumental em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa busca de acessibilidade

The Weather inicia com 3000 Megatons, um vendaval de lisergia fortemente sintética apenas equiparável ao que realmente sucederia se o mundo sofresse as consequências da deflagração de tal quantidade de pólvora, mas o clima é logo amainado pela delicada sensibilidade das cordas que suportam a monumentalidade comovente de Sweep Me Off My Feet, canção que resgata e incendeia o mais frio e empedrenido coração que se atravesse. Depois, a leveza contagiante de Paint Me Silver, que proporciona-nos um instante de eletrofolk psicadélica, mais habitual na outra banda de Allbrook, o eletropunk blues enérgico e libertário de Colder Than Ice e, principalmente, a esmagadora monumentalidade da viagem esotérica setentista proporcionada pelas duas metades que compôem Edge Of The World, ampliam a sensação de euforia e de celebração de um alinhamento que tanto ecoa e paralisa, no meio de uma amálgama assente numa programação sintetizada de forte cariz experimental, como nos faz querer que se dançarmos sem pudor acabaremos por embarcar numa demanda triunfal de insanidade desconstrutiva e psicadélica, cientes de que ao som dos POND não há escapatória possível desta ode imensa de celebração do lado mais estratosférico, descomplicado e animado da vida.

Torna-se, pois, indispensável deixar que o nosso corpo absorva todas as sensações inebriantes que este disco oferece gratuitamente e, repetindo o exercício sensorial várias vezes, permitirmos que depois se liberte o imenso potencial de energia que estas composições recheadas de marcas sonoras rudes, suaves, pastosas, imponentes, divertidas e expressivas, às vezes relacionadas com vozes convertidas em sons e letras e que atuam de forma propositadamente instrumental proporcionam. Aqui tudo é dissolvido de forma tão aproximada e apaixonada, que The Weather está longe de revelar todos os seus segredos logo na primeira audição. Por exemplo, a fina ironia, quer melódica quer lírica, do ambiente cósmico de All I Want For Xmas (Is A Tascam 388), permite-nos diferentes interpretações acerca do verdadeiro sentido genuíno do Natal enquanto celebração da fraternidade ou um enorme pretexto puramente comercial. Depois, o frenesim descontrolado inicial de A/B, na forma de um riff melódico assombroso, carregado de distorção e perfeitamente diabólico, é algo enganador já que a canção é subitamente alvo de um intenso downgrade sonoro, fortemente lisérgico, cósmico e imponente, deixando-nos em suspense relativamente ao que resta ouvir da composição, embalados por um piano e uma voz distorcida que clamam por um anjo que nos agita a mente. Finalmente, o tema homónimo parece um simples devaneio sonoro minimalista, mas acaba por constituir-se num imenso instante de rock progressivo, onde os POND gastam todas as fichas e despejam os trunfos que alicerçam a sua estrutura sonora complexa, numa canção que sabe claramente a despedida, num cenário verdadeiramente complexo, vibrante e repleto de efeitos maquinais e orgânicos que proporcionam sensações únicas.

Já com um acervo único e peculiar e que resulta da consciência que os músicos que compôem este coletivo têm das transformações que abastecem a música psicadélica atual, os POND são umbilicalmente responsáveis por praticamente tudo aquilo que move e se move neste género e já se assumiram como referências essenciais para tantos outros. Querendo estar mais perto do grande público e serem comercialmente mais acessíveis, nesta parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que é The Weather, além de não colocarem em causa a sua própria integridade sonora ou descurarem a essência do projeto, propôem mais um tratado de natureza hermética e não se cansando de quebrar todas as regras e até de desafiar as mais elementares do bom senso que, no campo musical, quase exigem que se mantenha intocável a excelência, conseguem conquistar novas plateias com distinção. Os POND sabem como impressionar pelo arrojo e mesmo que incomodem em determinados instantes da audição, mostram-se geniais no modo como dão vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Pond - The Weather

01. 30000 Megatons
02. Sweep Me Off My Feet
03. Paint Me Silver
04. Colder Than Ice
05. Edge Of The World, Pt. 1
06. A / B
07. Zen Automaton
08. All I Want For Xmas (Is A Tascam 388)
09. Edge Of The World, Pt. 2
10. The Weather

 


autor stipe07 às 13:44
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Quinta-feira, 9 de Março de 2017

Holy Holy – Paint

A Austrália é o local de origem dos Holy Holy, uma dupla formada por Tim Carroll e o guitarrista e compositor Oscar Dawson, dois músicos oriundos de Brisbane e Melbourne, respetivamente e, em tempos, professores de inglês no sudoeste da Ásia. Ambos mudaram-se para a Europa em 2011, com Carroll a fixar-se em Estocolmo, na Suécia e Dawson em Berlim, na Alemanha. Depois, num reencontro de ambos na primeira cidade, resolveram fazer música juntos, tendo sido criadas aí as primeiras demos em conjunto, que foram, depois, aprimoradas na Austrália, dando origem a estes Holy Holy. Em 2015 o projeto, já com o baterista Ryan Strathie, estreou-se nos discos com o excelente When The Storms Would Come, que já tem finalmente sucessor. O sempre difícil segundo álbum dos Holy Holy chama-se Paint e nele deambulam dez canções que foram compostas com a dupla quase sempre, durante o processo de incubação, salutarmente incómoda, já que quiseram ir contra o seu próprio instinto e vontade, que costumava divagar em redor de sonoridades eminentemente folk, com o resultado a constituir-se, no seu todo, como algo de mais arriscado, mas também preciso e minimal, do que o disco de estreia.

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Em Paint os Holy Holy ampliam largamente o seu espetro sonoro, num disco onde alguns riscos foram tomados e nem sempre calculados, mas com o resultado final a ser bastante compensador. Acaba por haver uma espécie de osmose de vários detalhes típicos de sonoridades, que da eletrónica à já referida folk, passando pela pop mais radiofónica e o rock alternativo, dão ao disco e à banda este cariz eclético, tão bem plasmado, por exemplo, no funk do baixo e nas batidas de That Message, nos sons sintetizados vintage que abastecem True Lovers, na grandiosidade da guitarra que conduz Willow Tree e na amplitude e luminosidade de Gilded Age. O resultado final acaba por ser uma vista panorâmica para diversas interseções que, curiosamente, não têm nada de caótico, já que percebe-se que a seleção dos arranjos e do arsenal instrumental obedeceu à procura de uma conssonância com a componente lírica, além de ter resultado de um arrojado processo de filtragem fina do que de melhor cada subgénero sonoro teria para oferecer aos dez temas. 

Com artwork da autoria de James Drinkwater, um artista expressionista natural de Newcastle, Paint comprova o modo como estes Holy Holy são exímios em conseguir confundir-nos com um celebração indulgente e inspirada dos melhores sons do passado sem ousarem afastar-se do melhor clima indie do rock atual, além de impressionarem pela alegria e pelo modo poético, corajoso, denso e sofisticado com que controem canções com uma beleza ímpar e até certo ponto onírica. Espero que aprecies a sugestão...

Holy Holy - Paint

01. That Message
02. Willow Tree
03. Elevator
04. Shadow
05. Gilded Age
06. Darwinism
07. True Lovers
08. Amateurs
09. December
10. Send My Regards


autor stipe07 às 18:50
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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2016

The Ocean Party – Restless

Jordan Thompson, Liam Halliwell, Curtis Wakeling, Lachlan Denton, Zac Denton e Crowman, são os The Ocean Party, um projeto australiano de indie pop oriundo de Melbourne e que se move em pardacentas areias sonoras, onde pianos, batidas, sopros e cordas conjuram aventuras e demandas, rumo aquela luz que nunca esmorece e que além de nos aquecer a alma, pode também fazer oferecer sensações físicas que nem sempre conseguimos voluntariamente controlar.

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Restless, um belíssimo tomo de onze canções e que se abre perante nós através do delicioso buliço de um tema homónimo que nos mostra todos os ingredientes de que este projeto se serve, é o mais recente assomo de delicadeza, mas também de desafio, deste sexteto que não se importa nada de nos fazer recuar até aos gloriosos anos oitenta, quer nas asas do baixo e do sintetizador da majestosidade inebriante de Hunters, mas também da subtileza festiva que extravasa da incrível e frenética melodia que conduz Back Bar e, mais adiante, na elegância de West Koast.

Abrigados pela insuspeita Spunk Records!, morada de nomes tão consistentes como Nadia Reid, Ty Segall ou Emma Russack, os The Ocean Party gostam de passear e fazer-nos também passear entre a serenidade e a agitação sem darmos conta, sendo exímios a compôr temas que, frequentemente, contêm um clima simultaneamente misterioso e atraente, algo que Decent Living clarifica com particular bom gosto, balizados por uma indie pop apimentada com uma elevada dose de experimentalismo. Apesar de o clima destas canções ser antagónico ao habitual cinzentismo enigmático do rock de cariz mais sombrio, o baixo é, curiosamente, um instrumento essencial na condução das canções de Restless, com Teachers a ser um excelente exemplo do modo como se servem dele para solidificar o edifício que sustenta o tema e como depois afagam os restantes instrumentos em redor. Logo a seguir, em Better Off, há um timbre de guitarra que vai surgindo e servindo de chamariz para um entra e sai de cordas e sopros, mas o baixo está lá sempre, permanentemente, a guiar toda a trama e a não deixar que toda esta heterogeneidade rítmica e instrumental resvale. Já em Pressure é mesmo o baixo que sobe ao palco em primeiro lugar e o instrumento sobre o qual todos os holofotes se colocam à medida que a canção escorre em arrojo e emoção e transmite o seu ideário.

Em Restless fica clara a capacidade inata dos The Ocean Party em compôr entre a serenidade e a agitação sem perderem sapiência melódica, caraterística que lhes confere uma versatilidade difícil de encontrar na maioria das bandas da atualidade. As canções deste disco não são apenas um simples agregado de efeitos e batidas, entrelaçadas com acordes e sons de cordas, mas algo grandioso, transmitindo um rol de emoções e sensações expressas com intensidade e minúcia, misticismo e argúcia e sempre com uma serenidade melancólica e bastante contemplativa. Reach talvez seja aquela canção que melhor consegue resumir este excelente compêndio de canções que atesta a maturidade o alto nível de excelência, de uma banda que merece chegar ao público ávido de novidades e que procura constantemente algo de novo e refrescante e que alimente o seu gosto pela música alternativa. Espero que aprecies a sugestão...

The Ocean Party - Restless

01. Restless
02. Hunters
03. Back Bar
04. Decent Living
05. Teachers
06. Better Off
07. Pressure
08. Reach
09. Second Guess
10. West Koast
11. Locked Up


autor stipe07 às 18:03
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2016

Jagwar Ma - Every Now & Then

Os Jagwar Ma são Jono Ma, Jack Freeman e Gabriel Winterfield uma banda australiana apaixonada pelas sonoridades alternativas dos anos noventa e que procuram promover na sua música uma espécie de simbiose entre a neopsicadelia desenvolvida, por exemplo, pelos Primal Scream, a brit pop dos Blur no período Parklife e os próprios Stone Roses. Fazem canções cheias de colagens e sobreposições instrumentais, que em Howlin, o disco de estreia do projeto, encarnaram uma espécie de súmula de alguns dos mais interessantes detalhes sonoros dessa época.

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Quase no ocaso de 2016 os Jagwar Ma estão de regresso aos discos com Every Now & Then, o sucessor de Howlin, e através da insuspeita Mom+Pop/Marathon. São onze temas produzidos por Ewan Pearson e gravados aqui, na Europa, em dois locais; Na pitoresca ruralidade de França, numa quinta que tem um estúdio chamada La Brèche e no famoso Le Bunker, no norte de Londres.

Os Beastie Boys foram uma inspiração clara para os Jagwar Ma neste disco e O B 1, canção que conta com a participação especial de Stella Mozgawa das Warpaint e Give Me A Reason, os dois singles divulgados do trabalho, demonstram-no, quer no pendor nostálgico dos tais anos noventa, mas também na contemporaneidade de duas canções, que num misto de pop, eletrónica e pequenas experimentações próximas do rock, exemplificam a massa sonora que sustenta o disco e que, como sabemos, caraterizam uma vasta coleção de propostas musicais que nos dias de hoje nos chegam dos quatro cantos do mundo. E esta simbiose entre uma faceta mais orgânica e outra eminentemente sintética baseou-se, desta vez, numa aproximação mais concerta a uma sonoridade que pudesse ser facilmente transposta para o palco, já que uma das lacunas apontadas ao antecessor era a dificuldade em transportar a riqueza e a heterogeneidade do seu conteúdo para o palco, com apenas três músicos. Assim, canções do calibre da efusiante High Rotations ou da hipnótica e contagiante Slipping, por exemplo, são excelentes temas para serem dançados por grandes multidões e passíveis de verem a sua vibração e entusiasmo serem facilmente reproduzidas ao vivo.

Disco com uma tremenda sensibilidade pop, algures entre Tampe Impala e Animal Collective e com uma epicidade incomum e um fulgor que instiga e faz mover quase de modo instintivo, Every Now & Then assume-se como uma ode ao melhor revivalismo neopsicadélico. É um alinhamento coeso e incisivo, que carrega consigo sobreposições eletrónicas vintage e uma pop algo aventureira, sem descurar, num aparente exercício sonoro experimental, a construção de uma identidade própria que permite aos Jagwar Ma criarem raízes no grande público e, ao mesmo tempo, fazerem-no dançar quase como se não houvesse amanhã. Espero que aprecies a sugestão...

Jagwar Ma - Every Now And Then

01. Falling
02. Say What You Feel
03. Loose Ends
04. Give Me A Reason
05. Ordinary
06. Batter Up
07. O B 1
08. Slipping
09. High Rotations
10. Don’t Make It Right
11. Colours Of Paradise


autor stipe07 às 17:40
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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2016

The Laurels – Sonicology

Os The Laurels são uma banda de Sidney, na Austrália, formada por Luke O’Farrell (voz, guitarra), Piers Cornelius (voz, guitarra), Conor Hannan (baixo)  e Kate Wilson (bateria). Depois de Plains, o disco de estreia do grupo, editado no passado mês de julho pela Rice Is Nice Records e produzido por  Liam Judson, o mesmo que orientou o EP Mesozoic, primeiro registo oficial da banda, lançado em 2011, o coletivo está de regresso com Sonicology, onze canções que confirmam este projeto como um dos grandes expoentes do shoegaze e do cenário psicadélico dos antípodas.

Image for The Laurels Announce 2016 National Tour

Os The Laurels são mais uma banda, como tantas outras que têm passado por cá, a seguir a tendência de redescobrir e reutilizar sonoridades do passado. Algumas fazem-no de forma descaradamente objetiva, copiando estilos e até melodias de forma exaustiva. Outros conseguem utilizar o som de ontem de outra forma, procurando reinventar, fundir referências e, sobretudo, dar personalidade e um cunho identitário próprio (da banda ou artista) ao som.

Considero que os The Laurels encaixam na segunda opção. Sonicology é um misto de várias sonoridades do passado que, por se combinarem, não ficam datadas. Assim, se Reentry apela aquele espírito majestoso da época faustosa da britpop, algures entre o Screamadelica dos Primal Scream, o Definitely Maybe dos Oasis e o Modern Life Is Rubbish dos Blur, já Sonicology, o single homónimo, calcorreia territórios mais relacionados com o punk rock de fino recorte, enquanto Some Other Time, por exemplo, pisca o olho aquela vibe mais etérea e psicadélica setentista, tão do agrado de outros projetos conterrâneos e que são hoje verdadeiros ícones do indie rock de cariz mais lisérgico. E bastam estes três exemplos para percebermos o ambiente geral de um trabalho que nos oferece um som muito plural, criado a partir de elementos retirados das mais diversas épocas e estilos, sem que soem necessariamente presos a esses géneros.

Ouvir este disco é, em suma, como dar um passeio pela história do pop e da psicadelia e também por outros territórios. Acabo por não resistir a finalizar sem deixar de referir que Frequensator traz-nos as guitarras potentes e empoeiradas do shoegaze, também presentes noutras canções e que o baixo de Mecca e a guitarra que sobre ele flutua, contém uma dose de distorção que lembra os Pixies no período aúreo, apesar dos restantes arranjos da composição apelarem para o clima do típico rock psicadélico dos anos setenta, onde também encaixa o edifício sonoro que sustenta Aerodrome.

Em suma, estamos na presença de um típico disco simbiótico, cheio de nuances sónicas que vale a pena descobrir, destrinçar e escutar com particular minúcia, oferecidos por uns The Laurels, conhecidos como uma das melhores bandas ao vivo australianas da atualidade e que continuam a conseguem ultrapassar o sempre difícil teste do segundo disco, com uma postura sonora muito genuína e que exploram positivamente, quase até à exaustão. Espero que aprecies a sugestão...

The Laurels - Sonicology

01. Reentry
02. Sonicology
03. Clear Eyes
04. Some Other Time
05. Trip Sitter
06. Frequensator
07. Aerodrome
08. Hit And Miss
09. Central Premonition Registry
10. Mecca
11. Zodiac K


autor stipe07 às 21:14
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Sábado, 22 de Outubro de 2016

Coloured Clocks – Test Flight

Uma das bandas mais profícuas e fundamentais do universo sonoro indie e alternativo australiano são os Coloured Clocks de James Wallace, um projeto oriundo de Melbourne, com já meia década de existência e seis lançamentos no cardápio e curioso pelo modo como disponibiliza a sua música, sempre com o formato digital disponível gratuitamente no bandcamp da banda. Mas estes Coloured Clocks merecem destaque principalmente pelo modo inteligente e eficaz como compôem canções. Falo de composições sonoras que, se por um lado não defraudam a herança identitária do ideário sonoro que instiga Wallace a compôr, por outro, mostram um autor e um projeto no auge de uma carreira sustentada por um indie progressivo e psicadélico, com fortes reminiscências do rock da década de setenta, mas sem pôr de lado o que de melhor se propôe atualmente, inspirado nesse universo musical.

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Já depois de no início deste ano terem chamado a atenção com Particle, estão de regresso ainda antes do ocaso de 2016, com Test Flight, mais doze excelentes temas, inseridos no espetro sonoro acima descrito, da autoria de uns Coloured Clocks que se estrearam nos lançamentos com o EP Where To Go, em julho de 2011, ao qual se seguiu Zoo, o disco de estreia, lançado em janeiro de 2012. No final de 2012 deram a conhecer mais um novo álbum, intitulado Nectarine e logo depois, em 2014, All Is Round, uma espécie de álbum interativo, que pedia para ser escutado na sequência que entendessemos, já que o início pode ser o fim ou o meio, ou seja, as canções circulavam livremente e isso só não era concreto porque estavam presas à realidade lógica da indispensável sequência numérica do disco.

Test Flight deve ser ouvido na íntegra atentamente e apreciado como um todo, apesar de saltar ao ouvido composições como a contemplativa e cósmica Everything's Right, a inebriante e divertida Lose That Girl, ou a sedutora Building A Star, canção que se aconchega nos nossos ouvidos e cola-se à pele com o amparo certo para que se expresse a melíflua melancolia que Wallace certamente quis que deslizasse dela, já que o mistério é, também, um elemento estruturante da filosofia sonora dos Coloured Clocks. A heterogeneidade rítmica de One Tomorrow Away também merece audição dedicada, devido ao modo almofadado como uma bateria em constante vaivém, a voz ecoante e um agregado de guitarras mágicas se manifestam com uma mestria instrumental vintage única. Depois Never Young também aposta em mudanças de ritmo e sobreposições com elementos sintéticos, numa toada mais diversificada, sendo um dos temas onde eletrónica e psicadelia se juntam de modo a descobrir novos sons, dentro de um espetro eminentemente pop.

Feito à medida de quem gosta de sonoridades cósmicas e psicadélicas mais ligeiras e sempre com um fundo de epicidade e emoção à flor da pele, Test Flight aposta numa receita simples mas tremendamente efica, onde reina uma estrutura melódica tradicional, riffs de guitarra luminosos, bem acompanhados pela bateria e por sintetizadores flutuantes e poderosos que nos conduzem a um universo lisérgico e tortuoso, mas cheio de cor, numa espécie de simbiose entre a pop e o experimentalismo. Escrito, produzido, gravado e misturado pelo próprio James Wallace, Test Flight contém uma aúrea resplandescente e romântica invulgares e espelha uma feliz revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico proposto há mais de quatro décadas por gigantes que se entregaram ao flutuar sonoro da lisergia. Espero que aprecies a sugestão...

Coloured Clocks - Test Flight

01. Everything’s Right
02. You Belong There
03. Never Be
04. Lose That Girl
05. Building A Star
06. What Has Happened
07. One Tomorrow Away
08. Never Young
09. If You’ve Lived Your Life
10. The Special Man
11. Saturday
12. Dreaming At Luna Park


autor stipe07 às 14:31
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