Sexta-feira, 9 de Setembro de 2016

Nick Cave And The Bad Seeds – Skeleton Tree

Décimo sexto registo de originais da carreira de Nick Cave, sempre acompanhado pelos fiéis The Bad Seeds, Skeleton Tree é um impressionante e comovente testemunho de um músico, a oferenda desinteressada de uma pessoa igual a todas as outras, mas que viveu recentemente a maior dor física e emocional que um ser humano pode vivenciar, a perca perda de um filho. No documentário One More Time With Feeling, que estreou há alguns dias em Veneza, Cave já se tinha debruçado sobre esse evento e sobre um luto que o tem obrigado a questionar-se ininterruptamente e sobre tudo, utilizando esse filme para fazer uma espécie de exorcização da dor, que agora continua em Skeleton Tree, chamando, no filme, de tempo elástico ao período da sua existência temporal após esse evento e toda a assimilação que é possível fazer do mesmo. Recordo que em julho de 2015 Arthur Cave, filho de Nick Cave, com quinze anos, morreu na sequência de uma queda acidental de um penhasco de dezoito metros, em Brighton, na Inglaterra.

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Apesar de este alinhamento já ter começado a ser alinhavado antes dessa tragédia, incluindo o esboço de alguns dos poemas, foi inapelável para o âmago de Cave o apelo para que adaptasse esse conteúdo inicial às novas circunstâncias. Assim, num registo que sonoramente acabou por apresentar tonalidades mais atmosféricas, com as cordas e o piano a assumirem o processo de composição melódica, sempre acompanhadas por uma bateria plena de soul, logo em Jesus Alone este autor que não gosta de holofotes e que abordem a sua vida pessoal, mas que neste último ano e meio, compreensivelmente, ofereceu-nos até mais do que o esperado dessas dimensões e sobre o modo como está a lidar com o acontecimento, talvez até para evitar abordagens inconvenientes da imprensa e esclarecê-la desde logo sobre aquilo que sente, expôe a revolta que sente com Deus e, de certo modo, também responsabiliza o divino pela dor, pelo trauma e pelo eco que ainda ressoa na sua existência e que, inevitavelmente, acompanhará o resto da sua vida.

Não é inédita na discografia de Nick Cave a menção a Deus e ao divino, assim como à própria morte. Em Skeleton Treen, não só no tema que abre o disco, mas também, por exemplo, em I Need You e Distant Sky, tema que conta com a participação especial de Else Trop, essa espiritualidade atinge uma dimensão inédita e uma profundidade que comove, instiga, questiona, e quase esclarece, porque contamina e alastra-se,tornando-se quase compreensível por todos aqueles que, felizmente, nunca sentiram tal dor. No entanto, a angustiante nuvem onde flutua Girl In Amber e Magneto, também incorporam todo um sentimento de amargura e mesmo de algum desprezo, mas numa perspetiva mais orgânica, terrena e até racional, sendo aquelas canções que, de algum modo, nos esclarecem que Cave está disposto a olhar em frente e a manter-se fiel à crença no amor como sentimento maior, mesmo sabendo que é inapagável, como já referi, o ideário que abastece Skeleton Tree.

É impossível escutar Skeleton Tree e não comungar as sensações que conduziram a estas oito canções, ampliadas por subtilezas instrumentais de raro requinte e intensidade e pela voz de Cave, mais grave e nasalada do que nunca e que parece não suspirar mas respirar ao nosso ouvido, com cruel nitidez e assombro. É como se ele não quisesse passar por tudo isto sozinho e fosse irresistível em si a necessidade de ter toda uma legião de ouvintes e seguidores não atrás de si, mas de mão dada consigo a ajudá-lo a apaziguar o inapaziguável. Espero que aprecies a sugestão...

Nick Cave And The Bad Seeds - Skeleton Tree

01. Jesus Alone
02. Rings Of Saturn
03. Girl In Amber
04. Magneto
05. Anthrocene
06. I Need You
07. Distant Sky
08. Skeleton Tree


autor stipe07 às 17:41
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2 comentários:
De Anónimo a 9 de Setembro de 2016 às 23:18
Ao menos escreva português como deve ser. Perda e não perca


De stipe07 a 11 de Setembro de 2016 às 22:50
Obrigado pela chamada de atenção e por ter lido a crítica. É um erro que só acontece a quem cá anda e que vou já corrigir. Mas percebo o seu tom algo agressivo; Deve ter sido frustrante ter acordado um dia de manhã e ter percebido que se chamava "Desconhecido". Nem um apelido lhe deram... "Desconhecido Tavares" ou "Desconhecido Silva" talvez atenuassem um pouco essa revolta tão latente. Caso escreva ou tenha um blogue ou outro género de publicação física ou digital apresente-me! Quero retribuir... ;)


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