Quarta-feira, 10 de Maio de 2017

Mark Lanegan Band - Gargoyle

Mark Lanegan regressou aos discos a vinte e oito de abril último com Gargoyle, um disco editado pela Heavenly Recordings e com um naipe de canções atreladas à já habitual atmosfera melancólica e sombria que carateriza a obra de Mark Lanegan, um dos autores mais profícuos do universo indie atual e que chega agora ao terceiro capítulo. Antigo membro dos Screaming Trees e dos Queens Of The Stone Age, Lanegan sempre se evidenciou pelo registo peculiar da sua voz, tendo feito dela um grande trunfo, algo que tem ampliado na carreira a solo, com o seu tom grave a ser uma verdadeira imagem de marca e o garante do teor denso e nostálgico da sua música. Mesmo quando se arriscou nas covers, em Imitations, ou colaborou com nomes tão importantes como Moby ou as Warpaint, Mark nunca abdicou deste selo identitário, procurando sempre criar uma atmosfera de verdadeira comunhão com os seus ouvintes, que já aprenderam também a apreciar a forma incisiva como consegue escrever sobre a tristeza, de forma quase sempre bela e profundamente contemplativa. E em Gargoyle a voz do ex-vocalista dos Screaming Trees volta a ser um importante trunfo de mais um álbum onde o autor procura saciar a sua permanente urgência de exorcizar alguns dos demónios que parecem afligi-lo, ao mesmo tempo que deseja partilhar conosco esse modo de lidar com o lado mais irracional da existência, proporcionando-nos uma banda sonora adequada para os instantes menos claros da nossa vida. Esta demanda será certamente um dos motivos pelos quais Mark Lanegan é um artista tão ativo e que procura na sua música, a salvação e a redenção.

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Beehive, o primeiro single conhecido de Gargoyle, comprovou a forma incisiva como Lanegan consegue escrever sobre essa tristeza, de forma quase sempre bela, neste caso num grandioso tratado de indie rock, mas com o controle necessário para que seja perfeito o equilibrio entre uma abordagem sonora eloquente e a tal típica escuridão do universo Lanegan. E esse acaba por ser o veio essencial da filosofia sonora de Gargoyle, com os sintetizadores de Blue Blue Sea e as cordas de First Day Of Winter, assim como o reverb sujo e orgânico de Goodbye to Beauty e, em oposição, o minimalismo sintético e árido de Sister, a assumirem um papel mais detalhístico e de nuance num registo homogéneo e incisivo e onde houve, ao nível da produção, o controle necessário para que fosse sempre perfeito o equilibrio entre uma abordagem melódica atraente e sedutora e a típica escuridão de Lanegan. Aliás, basta ouvir com atenção e deleite Emperor, um dos temas mais luminosos e otimistas da carreira de Lanegan, para se perceber o sucesso desta opção concetual.

Tendencialmente urbano e sedutoramente notívago, este músico norte americano natural de Ellensburg, em Washington, proporciona-nos, em Gargoyle, um cardápio sonoro bastante lisérgico, uma espécie de clímax invertido, fortemente entorpedecedor, mas simultaneamente hipnótico e anestesiante, ao mesmo tempo que renova a matriz identitária de um projeto apostado, disco após disco, em ecoar com elevada pessoalidade e sentimentalismo, aquela época esplendorosa em que o rock mais sombrio fez escola. Espero que aprecies a sugestão.

Mark Lanegan Band - Gargoyle

1. Death’s Head Tattoo
2. Nocturne
3. Blue Blue Sea
4. Beehive
5. Sister
6. Emperpor
7. Goodbye To Beauty
8. Drunk On Destruction
9. First Day Of Winter
10. Old Swan


autor stipe07 às 19:18
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