Quarta-feira, 5 de Julho de 2017

You Can't Win, Charlie Brown - If I Know You, Like You Know I Do

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Marrow é um vegetal parente da courgette, cultivado nas ilhas britânicas, na Holanda e na Nova Zelândia e também o título do último registo de originais dos extraordinários You Can't Win, Charlie Brown de Afonso Cabral (voz, teclas, guitarra), Salvador Menezes (voz, guitarra, baixo), Tomás Sousa (bateria, voz), David Santos (teclas, voz), João Gil (teclas, baixo, guitarra, voz) e Luís Costa (guitarra). Este Marrow foi um dos discos do ano de 2016 para este blogue e com toda a justiça porque, no seu todo, contém um sentido conjunto de quadros sonoros pintados com belíssimos arranjos de cordas, sintetizadores capazes de fazer espevitar o espírito mais empedernido e imponentes doses eletrificadas de fuzz e distorção, que se saúdam amplamente, tudo adornado por uma secção vocal contagiante, que proporciona ao ouvinte uma assombrosa sensação de conforto e proximidade.

Um dos grandes temas de Marrow é, claramente, If I Know You, Like You Know I Do, quinta canção do alinhamento do álbum e que piscando o olho à eletrónica dos anos oitenta, carateriza-se como uma alegoria pop extravagante e irresistivelmente dancável, que acaba de ter direito a um extraordinário vídeo que mostra os You Can't Win, Charlie Brown de bem perto, com produção dos We Are Plastic Too e realização de Afonso Cabral.

Os You Can't Win, Charlie Brown vão mostrar este e outros temas no palco Nos do Nos Alive, já amanhã, dia seis de julho e por todo o país durante o verão, com passagens marcadas para o Vodafone Paredes de Coura, Douro Rock e Feira de São Mateus, entre outros. Confere...


autor stipe07 às 18:17
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Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Radiohead – OK Computer: OKNOTOK 1997-2017

Os Radiohead são os verdadeiros Fab Five das últimas três décadas, não só porque ainda estão criativamente sempre prontos a derrubar barreiras e a surpreender com o inesperado, como foi evidente em Moon Shaped Pool há pouco mais de um ano, mas também porque, disco após disco, acabam por continuar a estabelecer novos paradigmas e bitolas pelas quais se vão depois reger tantas bandas e projetos contemporâneos que devem o seu valor ao facto de terem este quinteto de Oxford na linha da frente das suas maiores influências.

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E tudo isto começou quando os Radiohead se tornaram, um pouco inconscientemente, no início dos frenéticos anos noventa, a melhor resposta britânica a um período aúreo do rock norte-americano, mesmo com os Blur e os Oasis, no seu país, na fase mais cintilante da carreira e com interessante aceitação nos Estados Unidos. Logo em Pablo Honey (1993), catapultados em grande medida pelo single Creep, colocaram em sentido milhões de olhares pelo mundo fora, em especial desse outro lado do atlântico, num território onde bandas como os R.E.M., os Nirvana, os Metallica, os Smashing Pumpkins, Red Hot Chili Peppers e Guns N'Roses, eram veneradas e ditavam tendências. E dois anos depois, com o excelente The Bends, os Radiohead afirmaram-se numa certeza; Embarcam numa digressão norte-americana bem sucedida e ficam em posição privilegiada de colocar as cartas na mesa junto da editora que os abriga, onde exigindo liberdade criativa, um estúdio só para si com um caderno de encargos por eles definido e a presença de Nigel Goldrich lá dentro, começam a incubar aquele que será para muitos o melhor álbum da história do rock alternativo, o majestoso e sublime OK Computer.

Vinte anos depois, aquele que viria a ser o terceiro disco do grupo acaba de ser reeditado em dose dupla, com o alinhamento integral da edição original e um segundo compêndio de canções onde constam oito lados b e três músicas inéditas; I Promise, Lift e Man Of War. Desse modo, todas as gravações originais de estúdio de OK Computer, nunca antes lançadas, são remasterizadas das fitas analógicas originais e vêem finalmente a luz do dia com uma edição intitulada OK Computer: OKNOTOK 1997-2017.

Disco com uma dimensão sonora particularmente épica e orquestral, guiado por um cardápio instrumental vasto e onde o orgânico e o sintético se cruzam constantemente, não faltando pianos carregados de cândura e cordas acústicas mas também bastante abrasivas, OK Computer destaca-se pelo típico ambiente algo alienígena, soturno e reflexivo que a banda tão bem soube recriar, uma filosofia que fica impressa logo na distorção da guitarra e na clemência da voz de Thom Yorke, em Airbag. Se esta canção impressiona pelo devaneio melódico e pela miríade de detalhes e efeitos sintetizados que contém, a emoção sensorial amplia-se majestosamente em Paranoid Android, a Bohemian Rapsody dos Radiohead, uma colagem sublime de duas canções distintas, com todos os ingredientes e clichés que estruturam o protótipo de uma canção rock perfeita e que liricamente se situa num terreno muito confortável para Thom Yorke, que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nu algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia.

A sociedade contemporânea e, principalmente, a evolução tecnológica que nem sempre respeita o ritmo biológico de um planeta que tem dificuldade em assimilar e adaptar-se ao modo como apenas uma espécie, possuindo o dom único da inteligência, coloca em causa todo um equilíbrio natural, foi, então, já nessa época, um manancial para a escrita de Yorke, na projeção de OK Computer. Assim, além dos temas já referidos, na declamação  do que é uma verdadeira ditadura das massas em Fitter Happier, na nave espacial que se despenha entre os efeitos inebriantes e a guitarra que se insinua em Subterranean Homesick Alien, na soul arrepiante da voz que encoraja um homem perdido nos seus medos e entorpecido na sua dor a partir estrada fora guiado por um espírito maior em Exit Music (For A Film), mas também na distorção bendiana da inquietante guitarra de Lucky ou no passageiro que sai de um comboio num destino ao acaso hipnotizado pela rudeza do piano e pela cândura das cordas que depois se elevam ao alto, à boleia do baixo, em Karma Police, escutamos mais vários exemplos do modo como em OK Computer, metaforicamente, ou indo diretamente ao assunto, este incomparável poeta nos recorda como poderá ser drástico viver em permanentemente desafio com a natureza, sem ter em conta o nosso verdadeiro lugar e posição, no seio da mesma.

Mas o amor é também território fértil para os Radiohead expressarem quer agruras quer instantes de puro deleite e em OK Computer há pelo menos três canções que são particularmente intensas e representativas da beleza desse sentimento máximo. Se no ambiente rugoso e vincadamente corajoso e lutador de Electioneeering transpira um lado mais selvagem do amor e a inevitabilidade do mesmo conseguir sobreviver a todos os desafios se for vivido como a expressão única e definitiva da nossa consciência, já o clima borbulhante e positivamente visceral de Let Down dá ânimo para que finalmente aquele gesto que todos sonhamos um dia conseguir fazer, mas que a timidez ou a insegurança não permitem que se concretize, possa finalmente materializar-se. Depois, No Surprises, mesmo versando metaforicamente sobre o assunto, é aquela canção de amor que tanto embala como derrete o coração mais empedernido e fá-lo sem lágrima gratuita ou qualquer ponta de lamechice.

O segundo disco desta reedição de OK Computer é fundamental para a perceção clara de todo o contexto em que o álbum inicial foi incubado e, pegando nos três temas originais, logo na ternura acústica e contemplativa de I Promise se percebe o potencial das canções que acabaram por ficar de fora do alinhamento inicial do disco, sobras que para outros projetos seriam claramente trunfos maiores. E um dos principais atributos deste segundo alinhamento, é não ter despudor em apresentar uns Radiohead conceptualmente situados, nessa fase da carreira, numa espécie de encruzilhada, devido ao clima tendencialmente orgânico de The Bends e a necessidade da banda em fazer da eletrónica uma realidade cada vez mais presente, sem colocar as cordas e a bateria de lado. Depois, se no piano e no riff de Man Of War, tema que aponta todas as fichas à herança de Pablo Honey, à semelhança, mais adiante, do instintivo rock do lado b Polyethylene (Parts 1 And 2), sentimo-nos mais felizes por podermos contemplar o bucolismo típico radioheadiano, em Lift somos forçados a enfrentar o lado mais melancólico, etéreo e introspetivo dos Radiohead, conduzidos por um faustoso instante sonoro, onde sintetizadores e cordas se cruzam, numa melodia cheia de humanidade e emoção.

No que concerne aos lados b, além da composição já referida, Lull usa de armas muito parecidas com as de Let Down, obtendo um efeito soporífero direito ao âmago muito semelhante e Meeting In The Aisle acaba por ter a curiosidade de, no modo como ritma a batida e abusa de alguns efeitos abrasivos, enquanto é adicionada uma linha de guitarra ligeiramente aguda e uma bateria que parece rodar sobre si própria, mostrar uma outra faceta da apenas aparente dúvida existencial em que viviam à época os Radiohead. O próprio jogo que se estabelece em Melatonin entre a bateria, um teclado sintetizado retro e a voz planante de Yorke, assim como o modo como A Reminder, outro tema que aborda a propensão humana para a perca, cresce de intensidade e mostra-se outra preciosa acha para a fogueira que ilumina a abrangência estilística do adn sonoro dos Radiohead, ampliam esta espécie de dicotomia entre um lado mais orgânico e outro mais sintético, também expressa, com luminosidade, frescura e cor na guitarra e nos efeitos borbulhantes de Palo Alto e, antes, em Pearly, na espiral instrumental quase incontrolada que deste tema se apodera e que acaba por atestar a segurança, o vigor e o modo ponderado e criativamente superior como este grupo britânico entrava há duas décadas em estúdio para compôr e criar um arquétipo sonoro que ainda não tem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual.

Reedição muito desejada por todos os seguidores e não só, OK Computer: OKNOTOK 1997-2017 é um lugar mágico onde pudemos, há vinte anos atrás, no apogeu da nossa juventude, canalizar muitos dos nossos maiores dilemas. E, de facto, o registo ainda se mantém atual no modo como nos faz esse convite, mas agora de modo ainda mais libertador e esotérico. À época foi um compêndio de canções que nos alertou para a urgência de observarmos como é viver num mundo onde somos a espécie dominante e protagonista, mas também observadora de outros eventos e emoções e hoje, trazendo à tona tantas memórias, pode muito bem ser aquele impulso que nos faltava para percebermos que ainda vamos a tempo de colocar em prática algumas das mais belas fantasias que há tantas décadas guardamos na nossa caixa dos desejos e que, vindo a ser revistas e moldadas pela inevitável força do nosso maior vigor e maturidade, ainda mantêm, no fundo, toda aquela inocência genuína que lhes dá a beleza e cor que só cada um de nós conhece. Espero que aprecies a sugestão...

Radiohead - OK Computer OKNOTOK 1997-2017

CD 1
01. Airbag
02. Paranoid Android
03. Subterranean Homesick Alien
04. Exit Music (For A Film)
05. Let Down
06. Karma Police
07. Fitter Happier
08. Fitter Happier
09. Climbing Up The Walls
10. No Surprises
11. Lucky
12. The Tourist

CD 2
01. I Promise
02. Man Of War
03. Lift
04. Lull
05. Meeting In The Aisle
06. Melatonin
07. A Reminder
08. Polyethylene (Parts 1 And 2)
09. Pearly*
10. Palo Alto
11. How I Made My Millions


autor stipe07 às 00:02
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Terça-feira, 13 de Junho de 2017

Cigarettes After Sex – Cigarettes After Sex

Oriundos de El Paso, no Texas, os norte americanos Cigarettes After Sex são uma das novas coqueluches da indie pop de cariz mais ambiental. Passaram por cá há poucos dias pelo Vodafone Primavera Sound, num concerto que apanhou muitos espectadores deprevenidos, mas que deixou logo impressa a marca indistinta de uma banda que se baptizou com felicidade, já que compôe com todos os sentidos apontados à alcova, criando temas que tanto servem para o jogo de sedução, como para (traduzindo à letra) aquele cigarro que muitos gostam de queimar depois do coito.

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Liderados por Greg Gonzalez, ao qual se juntam Jacob Tomsky, Phillip Tubbs e Randy Miller, os Cigarettes After Sex abrigam a sua filosofia estilística numa sonoridade simples e nebulosa, mas bastante melódica e etérea. Os temas arrastam-se com complacência e sem pressas, espraiando-se no tempo certo, envoltos por cordas de forte pendor acústico e orgânico e muitas vezes com uma subtil vibração metálica particularmente charmosa, mas também em redor de sintetizadores assertivos e guitarras com efeitos recheados de eco, nuances que fazem sobressair a aura melancólica e mágica de um projeto que também vive da voz doce e algo andrógena de Greg.

Logo na viola e nas teclas de K., canção que abre o disco homónimo destes Cigarettes After Sex e o motivo desta análise crítica, encontra-se muito presente a marca da tal indie pop contemporânea, mas com traços de shoegaze, que tem vivido suportada pela mestria na simbiose minimal entre alguns detalhes típicos do melancólico rock oitocentista e a sensualidade onírica do melhor r&b e da eletrónica ambiental. Se projetos como os Beach House pendem um pouco a balança para o primeiro lado e os The XX para o segundo, só para citar dois entre tantos outros exemplos, estes Cigarettes After Sex equilibram-se no meio dos dois pratos, muitas vezes com uma fragilidade que chega a ser comovente. Prova disso está no modo como na brisa etérea de Each Time You Fall In Love pretendem ensinar-nos a lidar com o aparecimento desse estranho sentimento chamado amor nos nosssos corações, e como na batida de Sunsetz e nos efeitos sintéticos que rodeiam esse tema colocam em prática essa alternância contínua e quase impercetível entre diferentes estilos e com uma dose de experimentalismo bastante vincada, sendo comum o timbre de uma corda ou o flash de um botão divagarem, de mãos dadas, na mesma direção melódica.

Um dos instantes particularmente encantadores deste álbum acaba por ser Flash, canção onde um efeito de guitarra ecoante e onírico, uma batida sincopada e o timbre doce de Greg que a acompanha, nos esclarecem que se saborearmos condignamente este álbum, só nos resta deixarmos a nossa mente e o nosso espírito irem à boleia desta proposta estética assente num clima abstrato e meditativo, presente em praticamente todo o trabalho, mas com um impacto verdadeiramente colossal e marcante. Depois, em Opera House, no arrastar do ritmo da bateria quase até ao infinito e no esoterismo do efeitos de uma guitarra que marca o traço melódico do tema, contemplamos mais dois aspetos marcantes deste alinhamento e percebemos como, apesar do minimalismo constante, todos os detalhes mais eletrificados que nos vão surgindo, nesta e noutras canções, nunca defraudam o ambiente contemplativo fortemente consistente do trabalho. O efeito da guitarra no single Truly e, paralelamente, o aparecimento da bateria, um pouco mais afoita, além de consolidar essa impressão conceptual, mostra o modo exímio como o quarteto consegue que as texturas e as atmosferas que criam, transitem, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquieta todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual.

Há nos Cigarettes After Sex um assomo de elegância contida, mas que não esconde um consciente exibicionismo de uma banda que é dona e senhora de uma superior sapiência melódica. Os floreados percussivos, os acordes a transbordar de cândura, mas épicos e deslumbrantes, e algumas belíssimas letras entrelaçadas com melodias minuciosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, fazem com que seja atraente e hipnotizadora esta estranha escuridão interestelar mas marcadamente soul que, mesmo no caso de John Wayne, sendo cantada em jeito de lamúria ou desabafo, nunca deixa de encarnar um notório marco de libertação. Espero que aprecies a sugestão...

Cigarettes After Sex - Cigarettes After Sex

01. K.
02. Each Time You Fall In Love
03. Sunsetz
04. Apocalypse
05. Flash
06. Sweet
07. Opera House
08. Truly
09. John Wayne
10. Young And Dumb


autor stipe07 às 14:02
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Sábado, 10 de Junho de 2017

Ulrika Spacek – Modern English Decoration

Lançado no passado dia dois de junho através da Tough Love Records, Modern English Decoration é o mais recente capítulo da saga discográfica dos britânicos Ulrika Spacek de Rhys Edwards e Rhys William, um disco que à semelhança de The Album Paranoia, o registo de estreia editado no início de 2016, foi gravado, produzido e misturado numa galeria de arte chamada KEN e à qual os Ulrika Spacek e os três músicos que os acompanham, Ben White, Callum Brown e Joseph Stone, chamam de sua casa, a bolha onde se refugiam para compôr, idealizar vídeos e expressar-se através de outras formas de arte além da música.

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A filosofia de composição musical destes Ulrika Spacek baliza-se através de um assomo de crueza tingido com uma impressiva frontalidade quer lírica quer sonora. Na complacência enganadora de Mimi Pretend há uma guitarra rugosa e plena de efeitos metálicos, acompanhada por uma bateria falsamente rápida, e esta dupla é a mesma que vai ser depois o grande suporte das canções, em volta da qual gravitarão diferentes arranjos, quer orgânicos, quer sintéticos, geralmente com um teor algo minimal. E se a guitarra nunca perde identidade, a bateria mantém-se precisa no modo como confere alma e robustez ao ritmo de cada composição. Depois, há um baixo implacável na marcação à zona e todo este arsenal instrumental é rematado por uma voz geralmente reverberizada e que se arrasta. É um rock que impressiona pela rebeldia com forte travo nostálgico e por aquela sensação de espiral progressiva de sensações, que tantas vezes ferem porque atingem o âmago, bastanto ouvir Protestant Work Slump para se tomar contacto com esta autenticidade que desmascara quem arrisca entrar no jogo de sedução ímpar que Modern English Decoration proporciona.

Canções do calibre de Dead Museum, quase cinco minutos de um cósmico devaneio soul ou, em oposição, a indulgência acústica intensamente reflexiva do tema homónimo, plasmam também uma das maiores virtudes destes Ulrika Spacek que é a capacidade de conseguirem divagar por diferentes ângulos e espetros dentro de um universo sonoro bastante específico. Isso sucede porque corre-lhes nas veias aquela atitude claramente experimental e enganadoramente despreocupada, expressa numa vontade óbvia de transformar cada composição numa espécie de jam session, através de uma espécie de colagem de vários momentos de improviso. Se nas cordas de Saw A Habit Forming aquela pop sessentista ácida e psicotrópica, encontra o poiso ideal para se espraiar, o modo quase cínico como em Full Of Men os Ulrika Spacek nos levam a sorrir e a abanar a anca ao som de uma canção que se insinua continuamente por causa do modo algo desconexo como se vai desenvolvendo ritmíca e melodicamente, acaba por ser a expressão máxima deste modo bastante textural, orgânico e imediato de criar música e de fazer dela uma forma artística privilegiada na transmissão de sensações que não deixam ninguém indiferente.

Modern English Decoration atesta a segurança, o vigor e o modo criativamente superior como este grupo britânico entra em estúdio para compôr e criar um shoegaze progressivo que se firma com um arquétipo sonoro sem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual. Um dos discos obrigatórios do ano, claramente. Espero que aprecies a sugestão...

Ulrika Spacek - Modern English Decoration

01. Mimi Pretend
02. Silvertonic
03. Dead Museum
04. Ziggy
05. Everything, All The Time
06. Modern English Decoration
07. Full Of Men
08. Saw A Habit Forming
09. Victorian Acid
10. Protestant Work Slump


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Terça-feira, 23 de Maio de 2017

Sleep Party People – The Sun Will Open Its Core

Sleep Party People - The Sun Will Open Its Core

Lingering, o novo registo de originais dos projeto Sleep Party People do dinamarquês Brian Batz, chega aos escaparates a dois de junho, à boleia da Joyful Noise Recordings e não receio arriscar que poderá muito bem ser um dos melhores discos de 2017. O álbum contará com as participações especiais de Peter Silberman dos The Antlers e Beth Hirsch que emprestou a sua voz a alguns dos temas mais emblemáticos de Moon Safari, a obra-prima dos franceses Air.

Construída em redor de um muro sónico de batidas e sons sintetizados plenos de luz e harmonia, The Sun Will Open Its Core é o mais recente single divulgado de Lingering, canção onde mais uma vez Batz olha para o interior da alma e incita os nossos desejos mais profundos, como se cavasse e alfinetasse um sentimento em nós, impulsionado por uma filosofia sonora que explora uma miríade instrumental alargada e onde a vertente experimental assume uma superior preponderância ao nível da exploração do conteúdo melódico. Na canção a letra também é um elemento vital, tantas vezes o veículo privilegiado de transmissão da angústia que frequentemente invade Batz. Confere...


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Domingo, 14 de Maio de 2017

Glass Vaults – The New Happy

Os Glass Vaults  de Richard Larsen, Rowan Pierce e Bevan Smith são uma banda oriunda de Wellington, na Nova Zelândia e em cujo regaço melancolia e lisergia caminham lado a lado, duas asas montadas em canções que nos oferecem paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos e a voz de Larsen que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta. E tudo isto sente-se com profundo detalhe, numa banda que por vir dos antípodas parece carregar nos seus ombros o peso do mundo inteiro e não se importar nada com isso, algo que nos esclareceu com veemência Sojourn, o longa duração de estreia destes Glass Vaults, editado em 2015 à boleia da Flying Out e que sucedeu a Glass (2010) e Into Clear (2011), dois eps que colocaram logo alguma crítica em sobressalto.

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Agora, quase dois anos depois desse auspicioso início de carreira no formato longa duração, o trio está de regresso aos discos com The New Happy, um trabalho que viu a luz do dia ontem, doze de maio, através de Melodic Records, gravado em três dias e que além dos três músicos da banda, contou ainda com as participações especiais de Daniel Whitaker, Ben Bro and Hikurangi Schaverien-Kaa. Este é um álbum com um som esculpido e complexo e com um encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador, até porque estamos em presença de um registo que corre muito bem o risco de ser um dos melhores do ano.

Logo no groove mágico e melancólico que trespassa a guitarra e os efeitos rugosos da lo fi Mindreader e no funk alegre, divertido e requintado de Ms Woolley, percebemos, com clareza, que este é um disco especial, não só no modo como privilegia uma sensibilidade pop inédita, que em alguns momentos é atingida com um forte cariz épico e monumental, mas também no largo espetro de cruzamentos que executa entre a eletrónica ambiental e um rock de cariz mais experimental e alternativo, uma filosofia sonora que poderá resultar para o ouvinte na possibilidade de obter um completo alheamento de tudo aquilo que o preocupa ou o pode afetar em seu redor.

Ao surgir Brooklyn, canção que é um verdadeiro festim de cor e alegoria, uma espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo e onde tudo é filtrado de modo a reproduzir toda a magnificiência deste e de outro mundo de modo fortemente cinematográfico e imersivo, num resultado final que impressiona pela orgânica e pelo forte cariz sensorial, ficamos definitivamente seduzidos por um daqueles registos discográficos onde a personalidade de cada uma das canções do alinhamento demora um pouco a revelar-se nos nossos ouvidos, mas onde é incrivelmente compensador experimentar sucessivas audições para destrinçar os detalhes precisos que contém e a produção impecável e intrincada que sustenta a bitola qualitativa de um catálogo de canções incubado por um grupo a viver no pico da sua produção criativa.

The New Happy prossegue e enquanto Savant nos oferece uma secção percurssiva de metais com uma exuberância vintage enérgica e marcial, em Rewind e, principalmente, no tema homónimo, os efeitos circenses e o efeito em eco de uma guitarra que parece ser capaz de reproduzir toda a magnificiência deste e de outro mundo num qualquer arraial bucólico de aldeia, atestam, mais uma vez, a facilidade com que estes Glass Vaults mudam de cenário com uma naturalidade invulgar, sem colocarem em causa a homogeneidade de um alinhamento rico e muitas vezes surreal. De referir que essas composições foram intercaladas por Sojourn, canção que deu nome ao disco de estreia e onde parece que os Glass Vaults tocam içados no topo monte Aoraki, o ponto mais alto da Nova Zelândia, de onde debitam esta canção arrebatadora através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco da melodia e dão asas às emoções que exalam desde o sopé desse refúgio bucólico e denso, onde certamente se embrenharam, pelo menos na imaginação, para criar quase oito minutos que impressionam pela orgânica e pelo forte cariz sensorial. A mesma receita, mas de modo ainda mais barroco e hipnótico, repete-se em Bleached Blonde, um desfile inebriante que impressiona pela grandiosidade, patente nos samples, nos teclados e nos sintetizadores livres de constrangimentos, não havendo regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos. Depois, no ocaso, o minimalismo contagiante em que se sustenta Halaah Ha!, mais um tema que nos desarma devido ao registo vocal e ao banquete percussivo que contém é outro extraodinário exemplo do modo como esta banda é capaz de ser genuína a manipular o sintético e a tornar tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico.

Disco quase indecifrável e com uma linguagem pouco usual mas merecedora de devoção, The New Happy é capaz de projetar nos nossos ouvidos uma tela cheia de sonhos e sensações, com nuances variadas e harmonias magistrais que muitas vezes apenas pequenos detalhes ou amplos arranjos conseguem proporcionar. Na verdade, estes Glass Vaults oferecem-nos gratuitamente a possibilidade de usarmos a sua música para expor dentro de nós sentimentos de alegria e exaltação, mas também de arrepio e um certo torpor perante a grandiosidade de uma receita sonora cujos fundamentos lhes foram revelados em sonhos, já que só eles conseguem descodificar com notável precisão o seu conteúdo. Espero que aprecies a sugestão...

Glass Vaults - The New Happy

01. Mindreader
02. Ms Woolley
03. Brooklyn
04. Savant
05. Sojourn
06. Rewind
07. The New Happy
08. Bleached Blonde
09. Halaah Ha!


autor stipe07 às 00:20
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Sábado, 13 de Maio de 2017

Sleep Party People – Fainting Spell

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Lingering, o novo registo de originais dos projeto Sleep Party People do dinamarquês Brian Btaz, chega aos escaparates a dois de junho, à boleia da Joyful Noise Recordings e não receio arriscar que poderá muito bem ser um dos melhores discos de 2017. O álbum contará com as participações especiais de Peter Silberman dos The Antlers e Beth Hirsch que emprestou a sua voz a alguns dos temas mais emblemáticos de Moon Safari, a obra-prima dos franceses Air.

Construída em redor de um muro sónico de sons sintetizados plenos de luz e harmonia, ao qual depois se junta uma guitarra pulsante, Fainting Spell é o primeiro single divulgado de Lingering, canção que nos faz sentir um pouco estranhos no meio de nós mesmos, um, ninguém e cem mil. A voz de Batz olha, mais uma vez, para o interior da alma e incita os nossos desejos mais profundos, como se cavasse e alfinetasse um sentimento em nós, impulsionado por uma filosofia sonora que explora uma miríade instrumental alargada e onde a vertente experimental assume uma superior preponderância ao nível da exploração do conteúdo melódico. Na canção a letra também é um elemento vital, tantas vezes o veículo privilegiado de transmissão da angústia que frequentemente invade Batz. Confere...

Sleep Party People - Fainting Spell


autor stipe07 às 00:18
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Sexta-feira, 12 de Maio de 2017

Slowdive - Slowdive

Mestres e pioneiros do shoegaze e uma referência ímpar do indie rock alternativo de final do século passado, os britânicos Slowdive voltam vinte e dois anos depois de Pygmalion (1995) a dar sinais de vida com um disco homónimo que viu a luz do dia a cinco de maio e que contém oito maravilhosas canções e um lindíssimo artwork inspirado na animação Heaven And Heart Magic, datada de 1957 e da autoria de Harry Smith.

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O guitarrista e vocalista dos Slowdive, Neil Halstead, tinha já dito recentemente que a banda depois de se reunir novamente em 2014 para dar alguns concertos estava a trabalhar em novas canções, por isso esta era uma novidade já aguardada, mas que não deixa de causar um certo espanto e uma forte impressão em todos aqueles que certamente ainda se recordam desse objeto de culto que foi Pygmalion, um trabalho que à época não encontrou espaço de afirmação devido à asfixia causada pela britpop, com nomes como os Oasis, Suede ou Blur a viverem em pleno auge e, de certo modo, a secarem tudo em seu redor. Agora, a segunda metade da segunda década deste novo século acaba por ser perfeita para a assimilação deste indie rock mais contemplativo, melancólico e atmosférico, mas mesmo assim incisivo, não só porque é uma sonoridade que vai ao encontro daquilo que são hoje importantes premissas de quem acompanha as novidades deste espetro sonoro, mas também porque, num período de algum marasmo, esta tem sido uma estética que tem encontrado bom acolhimento junto do público.

Mestres da melancolia aconchegante, os Slowdive emergem-nos num universo muito próprio e no qual só penetra verdadeiramente quem se predispuser a se deixar absorver pela sua cartilha. E o arquétipo sonoro de tal ambiente firma-se num falso minimalismo, onde da criteriosa seleção de efeitos da guitarra, à densidade do baixo, passando por uma ímpar subtileza percussiva e um exemplar cariz lo fi na produção, são diversos os elementos que costuram e solidificam um som muito homogéneo e subtil e, também por isso, bastante intenso e catalizador.

Escuta-se o verso Give Me Your Heart em Slomo e chega logo o momento de todas as decisões; Submetemo-nos a este pedido e embarcamos numa demanda doutrinal que sabemos, à partida, que não nos vai deixar indiferentes e iguais, ou a escuta de Slowdive é feita em modo ruído de fundo ou até deixada de lado? Acaba por ser difícil resistir ao encanto de tal convite e depois, impulsionados pela nebulosa pujança de Star Roving, uma daquelas canções cujas diversas camadas de som impelem ao cerrar de punhos, pelo encanto etéreo que a dupla Fraser e Guthrie nos proporcionam em Don't Know Why e pelo doce balanço da guitarra que conduz Sugar For The Pill, ficamos certos que a opção tomada foi, como seria de esperar, a mais certeira.

Até ao ocaso de Slowdive, no cariz mais experimental dos efeitos que adornam Everyone Knows, na deliciosa ode ao amor que justifica a filosofia subjacente a No Longer Making Time, uma canção onde a interação entre o baixo e a bateria fica muito perto de atingir os píncaros, na crueza orgânica e hipnótica de Go Get It e no modo como o piano embeleza toda a subtileza que fica impressa no rasto de Falling Ashes, fica atestada a segurança, o vigor e o modo ponderado e criativamente superior como este grupo britânico entra nesta sua segunda vida em estúdio para compôr e criar um arquétipo sonoro que não tem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual.

Disco muito desejado por todos os seguidores e não só e que quebra um longo hiato, Slowdive é um lugar mágico para onde podemos canalizar muitos dos nossos maiores dilemas, porque tem um toque de lustro de forte pendor introspetivo, livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor, num disco que, no seu todo, contém uma atmosfera densa e pastosa, mas libertadora e esotérica. Acaba por ser um compêndio de canções que nos obriga a observar como é viver num mundo onde o amor é tantas vezes protagonista, mas onde também subsistem outros eventos e emoções capazes de nos transformar positivamente. Espero que aprecies a sugestão...

Slowdive - Sugar For The Pill

01. Slomo
02. Star Roving
03. Don’t Know Why
04. Sugar For The Pill
05. Everyone Knows
06. No Longer Making Time
07. Go Get It
08. Falling Ashes


autor stipe07 às 00:10
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Sábado, 6 de Maio de 2017

POND - The Weather

Depois do excelente Man It Feels Like Space Again (2015), os australianos POND de Nick Allbrook, baixista dos Tame Impala, estão de regresso aos discos em 2017 com The Weather, um álbum que viu a luz do dia através da Marathon Artists e idealizado por uma banda obrigatória para todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se deliciam com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um projeto.

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A expressão rock cósmico talvez seja feliz para catalogar o caldeirão sonoro que os POND reservam para nós cada vez que entram em estúdio para compor. E o receituário habitual destes australianos inclui guitarras alimentadas por um combustível eletrificado que inflama raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro do ideário sonoro do grupo, feitas, geralmente, de acordes rápidos, distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez e que desta vez estão mais acompanhadas do que nunca por sintetizadores munidos de um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias. Para compor o ramalhete não falta ainda uma secção rítmica feita com um baixo pulsante e uma bateria com um forte cariz étnico, numa sobreposição instrumental em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa busca de acessibilidade

The Weather inicia com 3000 Megatons, um vendaval de lisergia fortemente sintética apenas equiparável ao que realmente sucederia se o mundo sofresse as consequências da deflagração de tal quantidade de pólvora, mas o clima é logo amainado pela delicada sensibilidade das cordas que suportam a monumentalidade comovente de Sweep Me Off My Feet, canção que resgata e incendeia o mais frio e empedrenido coração que se atravesse. Depois, a leveza contagiante de Paint Me Silver, que proporciona-nos um instante de eletrofolk psicadélica, mais habitual na outra banda de Allbrook, o eletropunk blues enérgico e libertário de Colder Than Ice e, principalmente, a esmagadora monumentalidade da viagem esotérica setentista proporcionada pelas duas metades que compôem Edge Of The World, ampliam a sensação de euforia e de celebração de um alinhamento que tanto ecoa e paralisa, no meio de uma amálgama assente numa programação sintetizada de forte cariz experimental, como nos faz querer que se dançarmos sem pudor acabaremos por embarcar numa demanda triunfal de insanidade desconstrutiva e psicadélica, cientes de que ao som dos POND não há escapatória possível desta ode imensa de celebração do lado mais estratosférico, descomplicado e animado da vida.

Torna-se, pois, indispensável deixar que o nosso corpo absorva todas as sensações inebriantes que este disco oferece gratuitamente e, repetindo o exercício sensorial várias vezes, permitirmos que depois se liberte o imenso potencial de energia que estas composições recheadas de marcas sonoras rudes, suaves, pastosas, imponentes, divertidas e expressivas, às vezes relacionadas com vozes convertidas em sons e letras e que atuam de forma propositadamente instrumental proporcionam. Aqui tudo é dissolvido de forma tão aproximada e apaixonada, que The Weather está longe de revelar todos os seus segredos logo na primeira audição. Por exemplo, a fina ironia, quer melódica quer lírica, do ambiente cósmico de All I Want For Xmas (Is A Tascam 388), permite-nos diferentes interpretações acerca do verdadeiro sentido genuíno do Natal enquanto celebração da fraternidade ou um enorme pretexto puramente comercial. Depois, o frenesim descontrolado inicial de A/B, na forma de um riff melódico assombroso, carregado de distorção e perfeitamente diabólico, é algo enganador já que a canção é subitamente alvo de um intenso downgrade sonoro, fortemente lisérgico, cósmico e imponente, deixando-nos em suspense relativamente ao que resta ouvir da composição, embalados por um piano e uma voz distorcida que clamam por um anjo que nos agita a mente. Finalmente, o tema homónimo parece um simples devaneio sonoro minimalista, mas acaba por constituir-se num imenso instante de rock progressivo, onde os POND gastam todas as fichas e despejam os trunfos que alicerçam a sua estrutura sonora complexa, numa canção que sabe claramente a despedida, num cenário verdadeiramente complexo, vibrante e repleto de efeitos maquinais e orgânicos que proporcionam sensações únicas.

Já com um acervo único e peculiar e que resulta da consciência que os músicos que compôem este coletivo têm das transformações que abastecem a música psicadélica atual, os POND são umbilicalmente responsáveis por praticamente tudo aquilo que move e se move neste género e já se assumiram como referências essenciais para tantos outros. Querendo estar mais perto do grande público e serem comercialmente mais acessíveis, nesta parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que é The Weather, além de não colocarem em causa a sua própria integridade sonora ou descurarem a essência do projeto, propôem mais um tratado de natureza hermética e não se cansando de quebrar todas as regras e até de desafiar as mais elementares do bom senso que, no campo musical, quase exigem que se mantenha intocável a excelência, conseguem conquistar novas plateias com distinção. Os POND sabem como impressionar pelo arrojo e mesmo que incomodem em determinados instantes da audição, mostram-se geniais no modo como dão vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Pond - The Weather

01. 30000 Megatons
02. Sweep Me Off My Feet
03. Paint Me Silver
04. Colder Than Ice
05. Edge Of The World, Pt. 1
06. A / B
07. Zen Automaton
08. All I Want For Xmas (Is A Tascam 388)
09. Edge Of The World, Pt. 2
10. The Weather

 


autor stipe07 às 13:44
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Quarta-feira, 26 de Abril de 2017

Galo Cant’Às Duas - Os Anjos Também Cantam

Moita, no concelho de Castro Daire, é um ponto geográfico nevrálgico fulcral para o projeto Galo Cant’às Duas, uma dupla natural de Viseu, formada por Hugo Cardoso e Gonçalo Alegre e que tocou pela primeira vez nesse local, de modo espontâneo, durante um encontro de artistas. Nesse primeiro concerto, o improviso foi uma constante, com a bateria, percussões e o contrabaixo a serem os instrumentos escolhidos para uma exploração de sonoridades que, desde logo, firmaram uma enorme química entre os dois músicos.

Resultado de imagem para Galo Cant’Às Duas Os Anjos Também Cantam

Inspirados por esse momento único, Hugo e Gonçalo arregaçaram as mangas e começaram a compor pouco tempo depois, ao mesmo tempo que procuravam dar concertos, sempre com a percussão e o contrabaixo na linha da frente do processo de construção sonora. A guitarra e o baixo elétrico acabam por ser dois ingredientes adicionados a uma receita que tem visado, desde este prometedor arranque, a criação de um elo de ligação firme entre duas mentes disponíveis a utilizar a música como um veículo privilegiado para a construção de histórias, mais do que a impressão de um rótulo objetivo relativamente a um género musical específico.

O desejo de gravar um disco de estreia acabou por ser um passo óbvio para os Galo Cant'às Duas e para isso refugiaram-se, com a ajuda de Miguel Abelaira, durante uma semana nos estúdios HAUS com Makoto Yagyu e Fábio Jevelim para gravar, produzir e misturar Os Anjos Também Cantam, nome desse trabalho lançado pela Blitz Records e distribuído pela prestigiada Sony Music Entertainment.

O disco arranca com Marcha dos que voam, a primeira amostra divulgada, uma canção que plasma a inegável ousadia e mestria instrumental da dupla, que pôe um olho no rock progressivo e outro num salutar experimentalismo psicadélico e depois chega Respira, uma composição que impressona pelo efeito inicial das cordas, livres e expansivas, parceiras ideais da bateria para uma viagem de descoberta de um leque variado de extruturas e emoções que se vão sobrepondo e antecipando diversas quebras e mudanças de ritmo e fulgor. Depois, num curioso efeito agudo, na distorção de uma flauta que amiúde corta e rebarba e no potente riff do baixo que marca o pendor de Processo Entre Viagens e, no ocaso, a aparição da voz que afirma apenas e só, mas de modo convincente, Seremos todos nada, para que te convenças, abraçada por uma melodia sintetizada frenética, em Aparição, encerram pouco mais de trinta minutos de um registo que é um dos mais desafiantes, sensoriais, inusitados e multifacetados do cenário musical indie e alternativo nacional de 2017. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 13:15
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