Domingo, 8 de Outubro de 2017

The Clientele - Music For The Age Of Miracles

Alasdair MacLean e Anthony Harmer conhecem-se e tocaram juntos em meados dos anos noventa mas perderam contacto. Actualmente, vivem a pouca distância e a sugestão duma sessão experimental juntos levou a que Anthony fizesse os arranjos das músicas de MacLean e isso aconteceu até terem músicas suficientes para um disco. MacLean perguntou a James Hornsey (baixo) e Mark Keen (bateria, piano e percussão) se queriam fazer um novo disco de The Clientele e assim nasceu Music For The Age Of Miracles, o primeiro disco em sete anos desta banda mítica do indie rock psicadélico das últimas duas décadas, um alinhamento de doze canções abrigado pela Tapete Records.

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Logo em The Neighbour, no esplendor de uma viola acústica à qual se junta, pouco depois do início do tema, a congénere elétrica, mas também violinos e uma bateria pulsante, ficamos com a certeza que nos aguarda uma sequência eloquente e grandiosa, proporcionada por um projeto com uma linguagem sonora que até já foi influenciada por sonoridades mais cruas e até próximas do punk, mas que hoje subsiste, de modo bastante particular, à sombra de uma folk pop encharcada com melancolia e romance. De facto, em Music for The Age Of Miracles, MacLean e Harmer procuraram um som mais imediato e acessível do que os trabalhos antecessores, mas igualmente profundo, sedutor e comunicativo.

Depois desse início prometedor, no piano enternecedor do instante instrumental Lyra In April percebe-se a busca de um ambiente intimista e poético, com Lunar Days, logo a seguir, a cimentar essa demanda e, consequentemente, o ambiente geral de um disco que instrumentalmente olha para as cordas com amor e até alguma sofreguidão, mas que também pede às teclas e à bateria para darem o melhor de si na criação do tal ambiente sedutor e envolvente.

Music For The Age Of Miracles está, portanto, repleto de momentos elegantes, bonitos e que merecem dedicada audição, no modo como impressionam e cativam. A progressão simples inicial dos acordes da arrebatadora Falling Asleep, os curiosos efeitos percussivos e depois, em opsição, alguns arranjos deslumbrantes no final, praticularmente ricos, numa das canções mais pessoais do registo, são um excelente tónico para quem quiser realmente deixar-se envolver pela riqueza estilística actual destes The Clientele. Na sequência,o requinte percurssivo e o solo de trompete a cargo de Leon Beckenham em Everything You See Tonight Is Different From Itself, assim como a melodia doce e aditiva de Everyone You Meet, também têm a capacidade de mostrar uma faceta dos The Clientele algo inédita, porque residindo num universo algo sombrio e entalhado numa forte teia emocional amargurada, demonstram e ampliam, desta vez, a capacidade para compôrem, em simultâneo, temas com um elevado teor introspetivo, mas também plenos de cor, luminosidade e optimismo. Depois, instantes curiosos como o som do vento captado no exterior da casa do realizador Derek Jarman em North Circular Days, dão um cariz ainda mais abrangente e rico à filosofia criativa que norteou a concepção do trabalho.

Álbum muito bem produzido, sem lacunas, com elevada coerência e sequencialidade, Music for The Age Of Miracles firma uma posição forte dos The Clientele na classe das bandas que atingiram uma posição de relevo no universo sonoro em que se inserem, apostando em canções extremamente simples e outras que soam mais ricas e trabalhadas, sempre com um intenso charme a apoderar-se invariavelmente de todas elas. Espero que aprecies a sugestão...

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1. The Neighbour
2. Lyra in April
3. Lunar Days
4. Falling Asleep
5. Everything You See Tonight Is Different From Itself
6. Lyra in October
7. Everyone You Meet
8. The Circus
9. Constellations Echo Lanes
10. The Museum of Fog
11. North Circular Days
12. The Age of Miracles


autor stipe07 às 21:58
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Sexta-feira, 6 de Outubro de 2017

Liam Gallagher – As You Were

O ideário sonoro dos gloriosos anos noventa está ainda bem presentes entre nós após duas décadas desse período aúreo de movimentos musicais incríveis como a britpop que, do lado de cá do atlântico, fez na altura frente ao grunge e ao indie rock norte americano, num período temporal que massificou definitivamente o acesso global à música. E os Oasis foram um dos nomes fundamentais da arte musical em Terras de Sua Majestade nessa época, liderados pelos irmãos Gallagher que continuam a fazer questão de alimentar uma relação lendariamente conturbada. E agora fazem-no através das suas carreiras a solo, com ambos a editarem discos em nome próprio no ocaso de 2017. O primeiro foi Liam, o mais novo, com o seu registo de estreia; Chama-se As You Were e contém doze canções que devem também parte do seu cunho identitário a Greg Kurstin, produtor que além de ter salvo a carreira dos Foo Fighters à cerca de uma década, também ajudou a impulsionar nomes como Sia ou Adele e assina seis das doze músicas deste disco. O outro produtor de As You Were é Dan Grech-Marguerat, que também transita entre a pop e o rock e tem nomes como Lana Del Rey ou os The Vaccines no seu currículo. Já agora, a vinte e quatro de novembro será a vez de Noel regressar aos lançamentos discográficos com um trabalho intitulado Who Built the Moon?.

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Espontaneidade e risco foram duas permissas que Liam certamente teve em conta quando idealizou o conteúdo de As You Were. Logo no rock que tem tanto de incisivo como nostálgico de Wall Of Glass percebe-se que o mais novo dos manos Gallagher mantém intacto o modo emotivo como replica algumas das marcas identitárias do indie rock que povoa o nosso subconsciente e que forjaram parte importante da história da música dos finais do século passado, numa canção cujas distorções e variações percurssivas  transportam consigo muita dessa herança, mas com um espírito renovado e mais contemporâneo. Depois, no dedilhar da viola que conduz Paper Crown, no muro de guitarras que afaga a acusticidade inicial de Bold e no clima impetuoso de Greedy Soul Liam firma essa ideia de espontaneidade e liberdade, conseguindo, por um lado, o indispensável apelo radiofónico e aquele som de estádio que precisa para sustentar com firmeza a promoção ao vivo do registo e, por outro, uma elevada bitola qualitativa no que concerne à demonstração da sua capacidade intuitiva de criar trechos melódicos quer apelativos quer criativos.

Claramente feliz com a liberdade musical ilimitada que uma carreira a solo lhe permite, Liam Gallagher expôe o habitual modelo de canção assente na primazia das cordas das guitarras, no que concerne ao processo de condução melódica, mas está também reservada à bateria e ao baixo um papel mais que acessório e secundário. Se logo nas cordas da já citada Bold e em Universal Gleam é fácil recordarmos o hino Wonderwall e se When I'm In Need deve muito ao clima pop psicadélico gerado pelos Fab Four já o fulgor de I Get By e o rock sujo e empoeirado de You Better Run têm aquela toada épica e gloriosa que os Oasis tanto gostavam de explorar e que o efeito mais contemporâneo do baixo nos dois temas atualiza com notável precisão, cabendo a estes temas funcionarem como uma espécie de cone sonoro por onde acaba por circular o restante alinhamento que, como se vê, tem impressa uma marca identitária única e facilmente identificável.

As You Were é um disco algo crú mas que não deixa também de estar impecavelmente produzido e pronto para ser cantado por multidões que irão decorar estas letras até à exaustão, pensado e idealizado por um dos melhores compositores e cantores ingleses das últimas duas décadas e ao qual o indie rock britânico tanto deve. Espero que aprecies a sugestão...

Liam Gallagher - As You Were

01. Wall Of Glass
02. Bold
03. Greedy Soul
04. Paper Crown
05. For What It’s Worth
06. When I’m In Need
07. You Better Run
08. I Get By
09. Chinatown
00. Come Back To Me
11. Universal Gleam
12. I’ve All I Need


autor stipe07 às 21:30
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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2017

Time For T - Hoping Something Anything

Gravado ao longo do ano de 2016 nos Spitfire Audio Studios em Londres, produzido pela própria banda e masterizado por JJ Golden (Rodrigo Amarante, Devendra Banhart, Vetiver) em Ventura, California, Hoping Something Anything é o novo registo de originais dos Time for T de Tiago Saga. Refiro-me a um projeto nacional mas com raízes em Inglaterra, mais concretamente em Brighton, por este jovem com genes britânicos, libaneses e espanhóis que cresceu no Algarve. Enquanto estudava composição contemporânea na Universidade de Sussex, Inglaterra, Tiago Saga foi criando a sua própria sonoridade assente na world music e na folk rock anglo-saxónica com outros músicos que foi conhecendo e com quem foi partilhando as mesmas inspirações, nomeadamente Joshua Taylor (baixo), Martyn Lillyman (bateria), Oliver Weder (teclas), os seus parceiros nestes Time For T. Andrew Stuart-Buttle (violino), Harry Haynes (guitarra eléctrica) e Louis Pavlo (teclas) foram outros convidados especiais de um disco que viu a luz do dia a quinze de Setembro último, à boleia da Last Train Records, editora que os Time For T têm em parceria com a banda amiga de Brighton, os Common Tongues.

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Banda eclética no modo como abraça diferentes influências e sonoridades, os Time For T tanto deambulam pela folk como pelo rock psicadélico e nesse balanço, lá pelo meio, tanto piscam o olho à tropicália, como é o caso das batidas e dos arranjos de Ronda, como ao próprio jazz, exuberante nos sopros e nas teclas de Back to School, indo também até ao blues experimental em India, aquele rock mais impulsivo e cru, audível em Rescue Plane e ao mais boémio que procura ser melodicamente acessível, sem deixar de exalar profundidade lírica, um ideário concetual que a divertida Wax plasma na perfeição.

Este é, portanto, um compêndio de catorze canções ecléticas, com metade delas compostas logo desde o lançamento do ep homónimo do grupo em janeiro de 2015 e a outra metade inspiradas pela viagem de Tiago Saga à India no início de 2016. Mas, independentemente deste balizar temporal, cada uma delas tem vincada a sua própria identidade, estando todas de certo modo livres daquelas amarras que uma produção demasiado cuidada e límpida muitas vezes causa. Como o disco foi produzido pelos próprios Time For T, os temas acabam por soar aquele charme genuíno que os registos mais orgânicos quase sempre possuem. Ao vivo as versões dos temas não deverão diferir muito, nomeadamente em termos de arranjos e esse é, claramente, outro grande atributo deste Hoping Something Anything, um disco para ser escutado e saboreado num final de tarde relaxante e, de preferência, solarengo, juntamente com um bom chá,quente ou frio. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:29
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Sábado, 30 de Setembro de 2017

The Horrors - V

Três anos depois do grandioso e extraordinário Luminous, já ganhou vida o novo disco dos The Horrors de Faris Badwan, Joshua Hayward, Tom Cowan, Rhys Webb e Joseph Spurgeon, um trabalho lançado às feras recentemente e o quinto tomo da discografia deste quinteto de rapazes com o típico ar punk de há quarenta anos atrás, mas que têm mostrado que não pretendem apenas ser mais uma banda propagadora do garage rock ou do pós-punk britânico dos anos oitenta, mas donos de uma sonoridade própria e de um som adulto, jovial e tremendamente inovador.

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Ao quinto disco os The Horrors estabilizam numa monumentalidade muito própria e que encontra um equilíbrio da vertente sintética com a orgânica das guitarras. Assim, muita da orientação sonora deste disco encontra o seu principal sustento nas guitarras de Joshua e na bateria de Joseph, mas o sintetizador também é protagonista, instrumentos que se entrelaçam na construção de canções assentes numa faceta eminentemente pop, criadas por uma banda que faz questão de viver permanentemente de braço dado com o experimentalismo em simbiose com a psicadelia.

Logo na densidade profunda e bastente intrincada de Hologram há uma distorção de fundo permanente que acomoda o edifício melódico da canção, uma sujidade potente no modo como expõe riffs e reverbs num descontrole que é apenas aparente e que, de certo modo, rejuvenesce a herança de um projeto que nunca tinha chegado tão longe no modo como mistura orgânico e sintético, algumas vezes estabelecendo ténues fronteiras entre os dois campos. Mesmo quando o piano de Press Enter To Exit parece ir clarificar um pouco a toada e dar-lhe um cariz mais límpido, surgem logo no tema loopings e efeitos cujo charme empoeirado mantêm a toada do álbum no rumo certo. E depois, quer na eloquência sintética do single Machine, quer no espírito pulsante de Point no Reply ou até no cariz algo soturno e contemplativo do efeito da guitarra que dá alma a Ghost, ficam desfeitas as dúvidas de quem pudesse querer colocar em causa o habitual ambiente tremendamente lisérgico dos The Horrors, por causa de uma apenas aparente maior primazia dos sitnetizadores em detrimento das guitarras nesta mais recente filosofia estilística do grupo.

Mais densos, hipnóticos e audaciosos do que nunca, os The Horrors chegam a esta faxe fundamental da carreira no auge das suas capacidades enquanto manipuladores sonoros abrangentes, verdadeiros mestres do indie rock progressivo psicadélico, mas que olham para o ruído como da primeira vez, fazendo-o de forma cada vez mais hipnótica, densa e intrincada. Neste V acabam também por desconstruir um pouco aquela ideia de que o estilo sonoro em que se inserem tem de obedecer sempre a normas muito precisas e bem balizadas, sendo bem pensado e preciso o modo como desbravam novas pontes e caminhos, apostando todas as fichas numa explosão de cores e ritmos que criam um álbum despido de exageros desnecessários, mas apoteótico. Espero que aprecies a sugestão...

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1.Hologram
2. Press Enter to Exit
3. Machine
4. Ghost
5. Two Way Mirror
6. Weighed Down
7. World Below
8. Gathering
9. It’s a Good Life
10. Something to Remember Me By


autor stipe07 às 21:30
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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2017

Deerhoof - Mountain Moves

Os Deerhoof de São Francisco, formados por John Dieterich, Satomi Matsuzaki, Ed Rodriguez e Greg Saunier, estão de regresso aos discos com mais quinze canções, certamente impregandas com um indie rock carregado de distorções e pesadas batidas que chocam com o punk e o hip hopriffs carregados de groove e toda a amálgama desorientada de texturas sonoras que possas imaginar. A rodela é já a décima quarta do grupo, chama-se Mountain Moves e viu  luz do dia através da Joyful Noise Recordings.

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Sempre inventivos e com uma intocável capacidade em proporcionar, disco após disco, canções e alinhamentos que tanto contêm um travo experimentalista indisfarçável como parecem ir ao encontro das regras mais convencionais da pop contemporânea, os Deerhoof mantêm-se convictamente decididos não só a rasgar toda a sua herança e ir apontando novos direções e rumos, mas também a reforçarem o arsenal de canções que têm à disposição para agradar ao mainstream e assim manterem-se na linha da frente dos projetos mais consensuais e escutados dentro do universo sonoro em que se inserem.

É um facto que nos Deerhoof quanto maior for a sensação de caos e confusão nos nossos ouvidos, maior é a vontade que se tem de elogiar a sua música e neste Mountain Moves aquele lixo sonoro, completamente metafórico e sublime que eles apresentaram em discos tão emblemáticos como Breakup Song, ou o antecessor La Isla Bonita, mantém os seus altíssimos padrões qualitativos, com a voz da japonesa Satomi Matsuzaki, uma miúda cheia de energia, com quem dá vontade de rebolar num jardim e acabar com a boca cheia de húmus e pétalas de jasmins e malmequeres, a ser, ainda por cima, aquele detalhe que não nos faz hesitar em qualquer instante relativamente ao desejo de escutar este trabalho com frequência e de o balizar com natural louvor.

Disco que também impressiona pela presença de algumas versões, com destaque para o tema Gracias a La Vida, um original da chilena Violeta Parra, assim como Freedoom Highway, tema do cardápio setentista dos The Staple Singers e ainda, no final do alinhamento, Small Axe, de Bob Marley, Mountain Moves conta também com as participações especiais do rapper Awkwafina em Your Dystopic Creation Doesn't Fear You, uma luminosa e divertida canção conduzida por cordas inebriantes e das cantoras Laetitia Sadier no funk assertivo de Come Down Here & Say That, Juana Molina, na estrutura caótica, barulhenta e tematicamente reinvindicativa de Slow Motion Detonation e Jenn Wasner no rock enérgico de I Will Spite Survive. São artistas que conferem ao disco um clima ainda mais abrangente e onde abundam guitarras, sintetizadores, sinos, tambores, violas, xilofones e uma praga de instrumentos que nos consomem, numa filosofia de montagem de canções em torre, com loopings e riffs até que a tal torre pareça uma canção e dela se liberte uma energia que nos impele ao movimento indiscriminado.

Mountain Moves é um excelente exemplo do poder de diversão que a música pode ter e, numa banda que, imagine-se, vai já no décimo quarto trabalho da carreira e consegue sempre ser, ainda, familiar e surpreendeente, esta vitalidade no modo como constantemente se reinventa, é um dos maiores elogios que se pode fazer a um alinhamento que comprova que dificilmente os Deerhoof têm concorrência á altura, mantendo intacta a sua ideologia e abraçando, simultaneamente, o inedetismo com grande relevância. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 20:57
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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Dear Telephone - Slit

Inspirados pela curta metragem de Peter Greenway intitulada Dear Phone, realizada em 1976, os Dear Telephone vêem de Barcelos e formaram-se há pouco mais de meia década, tendo na sua formação gente que nos tem sempre mostrado, em todos os projectos que se envolvem, uma inegável qualidade enquanto músicos e que prova que na música se pode fazer diferente. Falo de Graciela Coelho, André Simão, Pedro Oliveira e Ricardo Cibrão.

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Em março de 2011 estrearam-se com o EP Birth Of A Robot, um conjunto de canções com uma abordagem sonora algo crua, intimista e minimalista, um EP que foi muito bem recebido pela crítica e apresentado ao vivo em algumas das mais importantes salas de espetáculos do país. Mas também chegaram ecos desse EP ao estrangeiro, com os Dear Telephone a fornecerem um tema para a banda sonora do filme brasileiro Contramão de Fabio Menezes e a representarem Portugal em agosto de 2011 no evento Music Alliance Pact. Dois anos depois, em 2013, estrearam-se no formato longa-duração com Taxi Ballad, um disco onde os Dear Telephone mergulharam sem concessões no assumido fascínio pelo quotidiano e suas contradições, no discurso directo e desconcertante das personagens que as vozes encarnam e numa instrumentação dura e sem artifícios.

Agora, quase no ocaso de 2017, o grupo minhoto irá regressar aos discos com Cut, um compêndio com nove canções que tem em Slit a promeira amostra divulgada, uma canção que pisca o olho ao rock, fazendo-o num formato eminentemente blues, com mestria e com os ingredientes certos, dos quais se destacam uma guitarra que se entranha, de forma sofisticada, inteligente a até corajosa. Confere...


autor stipe07 às 17:56
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Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017

Oh Sees - Orc

Viu a luz do dia a vinte e cinco de agosto último, através da Castle Face, a editora do próprio John Dwyer, Orc, o novo e décimo nono álbum da carreira dos norte americanos Thee Oh Sees, um regresso aos lançamentos discográficos que se saúda desta banda californiana que também acaba de mudar mais uma vez de nome, algo que não é inédito nas cerca de duas décadas que já leva de carreira.

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Querendo ser conhecido a partir de agora simplesmente como Oh Sees (sem o The), este quinteto apresenta em Orc dez canções que mantêm uma elevada bitola qualitativa que sobrevive à custa do modo astuto como o grupo continua a abanar-nos com riffs agressivos e esplendorosos que, quer se prolonguem por músicas completas, ou por instantes das composições, têm sempre uma forte vertente hipnótica e uma ilimitada ousadia visceral, que explode em cordas eletrificadas que clamam por um enorme sentido de urgência e caos, num incómodo sadio que já não nos deixa duvidar acerca do ADN destes agora Oh Sees.

Logo no frenesim impulsivo e até algo inquietante de The Static God Dwier e no fulgor progressivo de Raw Optics Dwyer baliza, nesses que são os temas de abertura e de encerramento do disco, o ambiente geral de Orc, sendo ajudado de modo particular pelos bateristas Dan Rincon e Paul Quattrone nessa demanda. Se nestes dois temas ambos exalam uma deliciosa cumplicidade percurssiva, a mesma atinge o ponto mais alto quando nos instantes instrumentais da majestosa Keys To The Castle, sem serem tão exuberantes, responsabilizam-se por juntar todos os cacos, na forma de efeitos, cordas de guitarra e até de violino que Dwyer atira, conforme lhe apetece, para cima de uma base sonora tremendamente lisérgica e sensorial. Depois, no blues boémio e desmedido de Jettisoned, no arsenal de efeitos que abastece Paranoise e nas teclas setentistas que recriam o experimentalismo psicadélico de Cadaver Dog, Dwyer não disfarça minimamente a predileção que atualmente nutre por misturar de modo aparentemente anárquico alguns dos cânones clássicos do rock alternativo com o heavy metal e o rock progressivo, além de outros subgéneros de um rock que não se coibe de receber de braços abertos tudo aquilo que o músico tiver para testar. E realmente Dwyer testa, experimenta e recria sem ter o mínimo receio de colocar em causa, se tal for necessário, a impossibilidade de confrontar o ouvinte com o melodicamente acessível, já que aquilo que realmente lhe parece importar verdadeiramente é criar e recriar sobrepondo e alternando climas e formatos, de modo a dar vida à sua incasiável alma roqueira.

Edifício sonoro brilhante e cheio de vida e cor, Orc possibilita aos Oh Sees atravessarem novamente as barreiras do tempo e manterem-se, ao mesmo tempo, joviais e coerentes. Para delírio dos fiéis seguidores, o grupo mantém intata a sua insana cartilha de garage folk rock blues com uma capacidade inventiva que se pronuncia instantaneamente, através de um desejo inato de proporcionar o habitual encantamento sem o natural desgaste da contínua replicação do óbvio. A verdade é que o som deste grupo é, cada vez mais, uma espécie de roleta russa e um caldeirão de originalidade, que acaba por transportar o ouvinte para uma espécie de bad trip musical, através de um veículo sonoro que se move através de uma sucessão de loopings bizarros, mas ainda assim dançantes. Espero que aprecies a sugestão... 

Download Oh Sees   Orc (2017) Mp3

01. The Static God
02. Nite Expo
03. Animated Violence
04. Keys to the Castle
05. Jettisoned
06. Cadaver Dog
07. Paranoise
08. Cooling Tower
09. Drowned Beast
10. Raw Optics

 

 


autor stipe07 às 20:51
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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

Alvvays - Antisocialites

Os canadianos Alvvays de estão de regresso aos discos com Antisocialites e a tornarem-se num caso sério de popularidade, essencialmente devido ao modo particularmente genuíno e até algo ingénuo com que replicam aquele indie rock de cariz lo-fi, que parece andar um pouco arredado da linha da frente dos lançamentos discográficos, muitas vezes em detrimento de sonoridades mais sintéticas e supostamente intrincadas, que fazem tantos projetos perderem-se um pouco numa espécie de descontrole sonoro, em que não se sabe muitas vezes quais os pontos de partida e de chegada em termos conceptuais. É uma ânsia desemesurada de abarcar, em simultâneo, vários estilos e géneros, como se a capacidade de agregar o mais possível fosse permissa essencial na hora de avaliar a bitola qualitativa de um disco. Estes Alvvays merecem crédito por fazerem exatamente o contrário; fidelizaram-se num espetro sonoro específico e fazem-no sem despudor e com enorme criatividade.

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Em quase quarenta minutos Antisocialites personifica esta fuga feliz ao mainstream sonoro que descrevi. Mais maduros do que numa estreia que há três anos revelou a quem os quis ouvir um indie rock anguloso e com um certo travo punk salutar, agora oferecem-nos canções com uma luminosidade muito peculiar, um sabor a optimismo que as guitarras frenéticas e o falsete de Plimsoll Punks e a epicidade melódica e nostálgica de In Undertow ilustram na perfeição, mas que também não deixa de estar presente no modo como vários efeitos cósmicos trespassam a bateria sincopada e a guitarra plena de reverb de Hey, no clima surf punk de Your Type e, num outro prisma, na doce ternura complacente do travo acústico de Already Gone e no hipnotismo ique incendeia Forget About Your Life.

Sabendo como não cair na repetição monótoma tendo em conta a especificidade do som que tocam, os Alvvays explicam e mostram neste Antisocialites como ainda é possível olhar para o rock alternativo de outros tempos e trazê-lo novamente à tona de modo brilhante, charmoso e convicto, sem parecer que copiaram uma fórmula já algo desgastada pelo tempo e por uma imensidão de bandas que muitas vezes não conhecem a melhor forma de abordar esta sonoridade carregada de especificidades e ao mesmo tempo tão simples e rica. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:27
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

TIPO - Jugoslávia

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Quando em 2015 Salvador Menezes, consagrado membro fundador dos You Can't Win, Charlie Brown, decidiu tirar uns dias de descanso, nunca imaginaria que iria nesse breve interregno incubar um dos mais curiosos projetos a solo do panorama musical nacional atual. Servindo-se de um casio com mais de três décadas do tio, de uma guitarra com três cordas dos anos noventa da irmã, da bateria do irmão e do seu baixo, computador e voz, criou quatro temas, nascendo, assim, TIPO.

Agora, dois anos depois, com um novo emprego, a viver numa outra casa, com três discos dos You Can't Win, Charlie Brown em carteira e já com a paternidade a fazer parte da sua existência, TIPO tem já temas suficientes para se aventurar no formato longa-duração, sendo Jugoslávia o mais recente single divulgado desse que será o seu álbum de estreia, que foi co-produzido por Afonso Cabral, Luís Nunes e Salvador Menezes e terá o selo da Pataca discos e o apoio da Vodafone FM e da GDA, contando também com alguns convidados, nomeadamente Tomás Sousa, quer no single Acção-Reacção, quer nesta Jugoslávia. Esta canção mostra uma faceta pop bastante exuberante e luminosa deste projeto TIPO, através de uma infecciosa harmonia vocal e uma melodia magistral bastante virtuosa e cheia de cor, arrumada com arranjos meticulosos e lúcidos. Confere...


autor stipe07 às 22:27
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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

Work Drugs – Flaunt The Imperfection

Depois do excelente Louisa, editado em finais de 2015, os Work Drugs, uma dupla de Filadélfia já com um assinalável cardápio e que se mantém bastante ativa e profícua, lançando um disco praticamente todos os anos, além de alguns singles e compilações, desde que se estreou com Blood, em 2010, está de regresso no ocaso deste verão com Flaunt The Imperfection, mais dez canções perfeitas para saborear estes últimos raios de sol mais quentes, enquanto não chega a longa penumbra outunal e o interminável frio e implacável inverno.

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Ainda bem que há determinados projetos que se mantêm, por muito ativos e profícuos que sejam, fiéis a uma determinada permissa sonora e os Work Drugs são um bom exemplo disso porque proporcionam-nos sempre aquilo que exatamente procuramos neles, um acervo de canções impregnado com aquela sonoridade pop, um pouco lo fi e shoegaze, numa espécie de mistura entre surf rock e chillwave. E este Flaunt The Imperfection, que conta com as participações especiais de Maxfield Gast no saxofone, Tim Speece na guitarra e Nero Catalano no baixo, é mais um episódio significativo e bem sucedido num já riquíssimo compêndio proporcionado por um dos projetos mais excitantes da pop contemporânea.

Os Work Drugs servem-se, então, mais uma vez e ainda bem, de guitarras cheias de charme, alguns efeitos sintetizados cheios de luz e uma bateria eletrónica bastante insinuante para criar canções que contêm um encanto vintage, relaxante e atmosférico. são composições que além de proporcionarem instantes de relaxamento,também poderão adequar-se a momentos de sedução e a ambientes que exigem uma banda sonora que conjugue charme com uma elevada bitola qualitativa.

Apesar destas virtudes no campo instrumental, um dos maiores segredos destes Work Drugs parece-me ser a postura vocal, às vezes um pouco lo fi e shoegaze, mas que dá às composições aquele encanto vintage, relaxante e atmosférico. Assim, ouvir Flaunt The Imperfection é acompanhar esta dupla norte americana numa espécie de viagem orbitral, mas a uma altitude ainda não muito considerável, numa espécie de posição limbo, já que a maior parte das canções, apesar da forte componente etérea, são simples, concisas, curtas e diretas. Às vezes pressente-se que os Work Drugs não sabem muito bem se queriam que as músicas avançassem para uma sonoridade futurista, ou se tinham a firme intenção de deixá-las a levitar naquela pop típica dos anos oitenta. É certamente nesta aparente indefinição que reside uma importante virtude destes Work  Drugs, uma dupla que espelha com precisão o manto de transição e incerteza que tem invadido o cenário da pop de cariz mais alternativo e independente.

Quando se torna difícil inventar algo novo, a melhor opção poderá passar por baralhar e voltar a dar, de preferência com as cartas muito bem misturadas e os trunfos divididos, talvez num cenário de gravidade zero. Aqui, o charme libidinoso do saxofone de Cheap Shots, a inconfundível toada nostálgico contemplativa de Magic In The Night, o rock impulsivo de Alternative Facts e o delicioso encanto retro de Midnight Emotion, são apenas alguns dos trunfos com que os Work Drugs jogam com quem os escuta para conquistar o apreço de quem se deixar enredar sem dó nem piedade por esta teia sonoroa tremendamente sensorial e emotiva e, por isso, viciante. Espero que aprecies a sugestão...

Work Drugs - Flaunt The Imperfection

01. For The Year
02. Magic In The Night
03. Cheap Shots
04. Tradewinds
05. Flaunt The Imperfection
06. Midnight Emotion
07. Love Higher
08. Alternative Facts
09. Giving Up The Feeling
10. Final Bow


autor stipe07 às 18:06
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