Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

Arcade Fire - I Give You Power

Arcade Fire - I Give You Power

Três anos depois do excelente Reflektor e de dois discos a solo de Will Butler, os canadianos Arcade Fire aproveitaram a tomada de posse de Donald Trump para apresentarem ao mundo aquele que é também um claro manifesto político e de protesto claro, parece-me, ao novo rumo tomado pelo país vizinho. A canção chama-se I Give You Power e conta com a participação especial vocal de Mavis Staples, importante diva do R&B e do gospel norte-americano.

Tema que deverá fazer parte do novo disco da banda, a editar ainda em 2017, I Give You Power segue um pouco a linha delineada já em Reflektor, ou seja, cada vez mais distantes do rock impetuoso dos primórdios, os Arcade Fire apostam agora na preponderância dos beats, com o formato eminemtemente pop a ser definitivamente relegado para primeiro plano e com o grupo a ter uma nova aúrea, completamente remodelada. Resta acrescentar que esta canção surge após o anúncio da edição do duplo DVD, The Reflektor Tapes + Live at Earls Court, que deverá ver a luz do dia já a vinte e sete de janeiro. Confere...


autor stipe07 às 21:26
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Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

Terrakota - Oxalá

Já chegou aos escaparates Oxalá, o novo registo de originais dos Terrakota, um coletivo sedeado na capital do antigo império, mas de setas apontadas para os quatro cantos de um planeta cada vez mais pequeno e global e culturalmente e etnicamente díspar. E se em pleno arranque do século XXI esta realidade apresenta-se como um facto incontornável, tal deve-se, sem sombra de dúvida, à coragem e à perseverança de um pequeno povo que há alguns séculos sulcou novos mares e descobriu outras culturas, saberes e tradições, que estes Terrakota plasmam, com notável vibração e autenticidade, neste Oxalá.

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Gravado nos estúdios dos próprios Terrakota e nos estúdios GroundZero e TooLate, Oxalá é uma edição completamente independente e conta com as participações de Vitorino, Mahesh Vinayakram, Selma Uamusse, Anastácia Carvalho e Florian Doucet entre outros. Este novo capítulo da discografia dos Terrakota tem como ponto de partida Lisboa, faz um pequeno e curioso desvio pelo coração do Alentejo na introdução do tema homónimo e depois, assume-se como ponto de chegada de muitas porções de um mundo onde é possível sentir, sonoramente, diferentes cheiros e sabores, enquanto se aprecia composições de diferentes cores, intensidades e balanços, que desafiam e apuram todos os nossos sentidos.

Saboreando poemas escritos em português, inglês e francês, Oxalá coloca-nos à prova à medida que diante de nós escorre aquilo que o género humano tem de mais genuíno e seu e disserta sobre o modo como diferentes territórios e porções de um planeta que foi beijado um dia pelo intrépido português, faculta uma heterogeneidade de sensações e obrigou aos nativos a diferentes processos adaptativos, o que resultou numa multiplicidade de raças, experiências e estádios de desenvolvimento que hoje caraterizam a nossa cultura e a nossa essência.

Não é assim tão ousado afirmar que a música dos Terrakota é um exercício antropológico, com tudo aquilo que de interessante e revelador tem, forçosamente, um documento sonoro que permite tal desiderato. Sendo o artwork do disco, da autoria de Alexandre Louza, logo à partida, revelador das reais intenções deste coletivo, é no gira giro do mundo que a humanidade se desvenda, como se pode escutar no tema que abre Oxalá, mas também na distância que separa a vibração do violão da cadência das congas e do treme terra em Entre O Céu E A Terra. E se enquanto passamos dessa Gira Giro a Jah Flow viajamos, num ápice, da Índia à Jamaica, já em Mexe Mexe e Bankster é numa ruela lamacenta mas cheia de cor de Luanda ou da Praia que aterramos, mesmo no ventre daquela África que tanto nos ofereceu ao longo de seis séculos de intercâmbios e histórias nem sempre pacíficas, mas ainda hoje marcantes e impressas num povo que vivendo à beira mar plantado deve ao continente negro, como referi acima, uma elevada quota parte do seu adn atual.

Disco feito demanda e oferenda de diferentes cheiros e emoções e, conforme se percebe em Entre o Céu E A Terra, um trabalho que também serve para nos explicitar como esta evolução tem um lado negro e nefasto, nele os Terrakota, como banda de intervenção que são, assumidamente, querem-nos fazer refletir nesse sofisma, algo audível, por exemplo, nesse tema quando se escuta Já Veio Expulso da Índia! Lá teve falha o seu plano. Depois de ir minar o Brasil, foi pegar o Jamaicano. Oxalá abre, por todas estas e tantas outras boas razões, um novo capítulo da vida de uns Terrakota renovados e com uma abrangência sonora ímpar no panorama musical nacional. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 22:57
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Quarta-feira, 31 de Agosto de 2016

Glass Animals - How To Be A Human Being

Depois de Zaba (2014), o disco de estreia, os britânicos Glass Animals estão de regresso aos discos com How To Be A Human Being, dez canções com uma sonoridade eletrónica algo minimal mas, ao mesmo tempo, rica em detalhes e com um groove muito genuíno e uma atmosfera geral dançante, mas também muito introspetiva e sedutora.

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Life Itself, o primeiro avanço divulgado do álbum e onde encaixa indie popfolkhip-hop e electrónica, com noção de equilíbrio e um limbo perfeito que nos faz descobrir a complexidade do tema à medida que o vamos ouvindo de forma viciante, esclareceu, no imediato, que o novo capítulo discográfico destes Glass Animals seria suportado por sintetizadores inspirados e que parecem ter sempre uma função específica. E a verdade é que à medida que avançamos no seu alinhamento constatamos a salutar complexidade do processo criativo dos Glass Animals, algo viciante e onde também abundam harmonias vocais belíssimas, que se espraiam lentamente pelas canções e que se deixam afagar livremente pleos manto sonoro que as sustenta.

Na relação profícua entre baixo e metais em Youth ou no clima quente da batida R&B e plena de soul de Pork Soda, ampliada por vários samples impressivos, é marcante a sensação que no estúdio dos Glass Animals os temas nascem lentamente, como se tudo fosse escrito e gravado ao longo de vários anos e com particular minúcia. Saborear uma vida plena requer um total desrespeito pela implacável passagem do tempo rotineiro e estes Glass Animals mostram-nos como é possível deixarmo-nos espraiar por canções com prazer, conduzidos por essa tal lentidão. Esta elevada dose de sensualidade de How To Be A Human Being é uma sensação que naturalmente se saúda num alinhamento que, como o título indica, pretende celebrar as sensações únicas e genuínas que são intrínsecas à condição humana e que o teclado minimal oitocentista de Cane Shuga e o efeito sintetizado abrasivo de The Other Side Of Paradise tão bem encarnam, não sendo também de descurar a curiosa amálgama instrumental efusiante de Take A Slice e os metais de Mama's Gun, duas canções que abarcam os melhores detalhes da música eletrónica mais soturna e atmosférica e que, entre o insinuante e o sublime, nos fazem recuar cerca de vinte anos até às nebulosas ruas de Bristol e aos primórdios do trip-hop, mas também à Brooklyn dos anos setenta, em pleno ressurgimento da melhor música negra. E depois, a cereja em cima do bolo acaba por ser a guitarra de Poplar St, canção que sobrevive algures entre a soul, a eletrónica e o blues rock lo fi mais ambiental, uma receita assertiva onde não falta uma prestação vocal intensa.

Sem grandes alaridos ou aspirações, How To Be A Human Being são pouco mais de quarenta minutos assentes num ambiente sonoro intenso e emocionante, sem nunca deixar de lado a delicadeza, uma melancolia digital que enriquece aquele que é um dos grandes discos do ocaso deste verão. Espero que aprecies a sugestão...

Glass Animals - How To Be A Human Being

01. Life Itself
02. Youth
03. Season 2 Episode 3
04. Pork Soda
05. Mama’s Gun
06. Cane Shuga / [Premade Sandwiches]
07. The Other Side Of Paradise
08. Take A Slice
09. Poplar St.
10. Agnes


autor stipe07 às 14:28
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Quarta-feira, 22 de Junho de 2016

The Invisible – Patience

A dez de Junho último e à boleia da Ninja Tune chegou aos escaparates Patience, o terceiro registo de estúdio do trio londrino The Invisible de Dave Okumu, nove canções sustentadas numa eletrónica apurada, construídas em redor de sintetizadores inspiradas na luxuosa pop dos anos oitenta, como se percebe logo no clima melancólico e simultaneamente sedutor de So Well, tema que conta com a participação especial da cantora Jessie Ware e onde quer ela quer Okumu dialogam, teatralizando uma complexa e inebriante relação amorosa.

Os anos oitenta foram marcantes para a história da música contemporânea e serão sempre alvo de inspiração e revisão, principalmente por ter sido o período em que os sintetizadores foram definitivamente chamados para a linha da frente no processo de composição melódica, por parte de bandas e projetos que afirmaram a pop às massas e colocaram o rock num espetro mais alternativo. Essa pop polida dos anos oitenta, feita com sintetizadores carregados de efeitos e com um ar sempre solene, acaba por definir a essência e o dramatismo deste projeto, que nos propôe uma coleção de canções assentes em teclados com a esperada pompa e circunstância aveludada que enfeita as melodias que debitam.

Impecavelmente produzido, Patience arremessa para os nossos ouvidos toda uma herança luxuosa, com vários destaques, ao nivel instrumental, que importa realçar; Além da beleza do tema de abertura já descrito, não posso deixar de destacar o groove efusiante de Save You, canção que contém um forte apelo às pistas de dança e, na sequência, Best Of Me, tema como alguns elementos percurssivos curiosos, entrelaçados com um rugoso teclado, com a voz de Okumu, num registo grave, a mostrar todos os seus atributos e abrangência e um lado humano peculiar, que se mostra como um trunfo maior neste alinhamento. Esta é uma voz impregnada com sensações imponentes e redentoras, como se percebe em Memories, um dos melhores instantes de Patience, canção onde o efeito vocal em eco cristaliza e amplia um fabuloso baixo, que passeia uma dose incontida de egocentrismo, de braço dado com teclados épicos.

Vocalmente, a cereja no topo do bolo de Patience acaba por ser o lote de participações especiais, escolhidas com acerto e de modo a potenciar o ideário sonoro e estilístico pretendido para o álbum. Além de Jessie Ware no tema já referido, em Different, Rosie Lowe é uma peça essencial para dar vida e cor a um refrão marcante, numa canção que é uma ode declarada ao melhor R&B contemporâneo, conduzido por guitarras plenas de groove, cordas dinâmicas e uma percussão bastante festiva, onde não faltam efeitos metálicos e de palmas. Este tema é um monumento de sensualidade, pensado para dançar num ambiente quente e charmoso e, logo depois, em Love Me Again, esse efeito amplia-se numa canção onde é novamente o R&B a ditar as regras e que conta com Anna Calvi. Mais uma vez, a presença dessa voz feminina, neste caso bastante intensa e até algo ternurenta, acaba por ser um extraordinário complemento ao propósito acolhedor e intencional de um alinhamento que quer brincar com a subtileza e o mistério que envolve as relações, daquela maneira alegre, mas também profunda e exótica  que se espera delas, sempre com um bom gosto e uma intensidade sentimental únicas. Espero que aprecies a sugestão...

The Invisible - Patience

01. So Well
02. Save You
03. Best Of Me
04. Life’s Dancers
05. Different (Feat. Rosie Lowe)
06. Love Me Again (Feat. Anna Calvi)
07. Memories
08. Believe In Yourself
09. K Town Sunset (Feat. Connan Mockasin)


autor stipe07 às 22:05
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Segunda-feira, 6 de Junho de 2016

Beck - Wow

Beck - Wow

Depois de mais de meia de solidão, o músico que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold e Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos habituou a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras, regressou em 2014 com dois discos, um deles chamado Morning Phase, o décimo segundo da sua carreira e que viu a luz do dia por intermédio da Capitol Records. Falo, obviamente, de Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, um cantor e compositor que tantas vezes já mudou de vida como de casaco e que agora, com a divulgação de um novo single intitulado Wow, se prepara, com um novo fôlego na sua carreira, para mais um recomeço, depois de no verão passado ter igualmente surpreendido com outro single intitulado Dreams.

Entre o hip-hop e o R&B, Wow deverá fazer parte do alinhamento do próximo disco de Beck e, de acordo com o músico, o sucessor de Morning Phase será um trabalho completamente diferente e misturará garage rock com dance music. Assim, além de ter sido uma enorme surpresa, esta canção merece destaque porque nela Beck colaborou com vários ilustradores, designers gráficos e artistas, nomeadamente o português Bráulio Amado. Este designer gráfico vive em Brooklyn, Nova Iorque e foi, juntamente com o realizador Jimmy Turrell, co-responsável pela direcção de arte do tema. Confere...


autor stipe07 às 23:59
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2016

Unknown Mortal Orchestra - First World Problem

Depois de os neozelandeses Unknown Mortal Orchestra, do músico e compositor Ruban Nielsen e de Jake Portrait e Greg Rogove, terem-nos oferecido Multi-Love, um dos melhores discos do ano passado, eis que voltam a dar sinais de vida com First World Problem, uma extraordinária canção que, estreitando os laços entre a psicadelia e o R&B, contém a impressão firme da sonoridade típica da banda, catupultando-a ainda para uma estética mais abrangente.

Além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, esta canção ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica da década anterior. O volume e a densidade instrumental da canção torna indisfarçável a busca dos Unknown Mortal Orchestra de uma melodia agradável, marcante e rica em detalhes e texturas, com uma grandiosidade controlada e que contém um forte apelo às pistas de dança. Confere...

 


autor stipe07 às 22:06
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Quinta-feira, 31 de Março de 2016

Inca Gold – Rewilder

Existe mais uma banda a merecer a maior atenção possível de quem aprecia escutar canções que contenham uma abrangência pop bastante atual, que da eletrónica ao rock progressivo, impressione pela forma subtil como, ao criar um ambiente muito próprio e único através da forma como se sustenta instrumentalmente, albergue diferentes géneros sonoros. Chamam-se Inca Gold, têm Londres como o seu poiso natural e Rewilder é o nome do disco de estreia, um trabalho disponível na plataforma bandcamp do grupo, com a possibilidade de doares um valor pelo mesmo, ou de o obteres gratuitamente.

Sendo, na sua essência, um álbum mutante, pelo modo como abarca um leque alargado de estilos, Rewilder cria um universo que até parece algo obscuro, mas essa é uma percepção que se vai transformando à medida que avançamos na sua audição, que surpreende a cada instante. Logo no início, os sintetizadores e o falsete impecável de Desert Rats, assim como o groove do baixo e da bateria e os efeitos radiososos e a melodia intensa, abrem-nos portas para um alinhamento de canções que não deixa ninguém indiferente. Logo de seguida, o ritmo e os efeitos da pulsante Dark Skies firmam a primeira impressão positiva e consubstanciam uma verdadeira entrada a matar num registo de forte pendor hipnótico, ora catártico devido à batida, ora em busca de uma psicadelia que, muitas vezes, só um baixo picado a lançar-se sobre o avanço infatigável de todo o corpo eletrónico que sustenta as canções e que também usa a voz como camada sonora, consegue proporcionar.

A partir daí, no groove sedutor da tonalidade étnica de Hollow Shade e Pillars e na linha rugosa mas surpreendentemente delicada da guitarra que conduz Flutar, assim como no experimentalismo algo jazzístico de Ascend, canção que nos arrasta para um oasis de melancolia fortemente contemplativo e sugestivo e no curioso torpor rítmico e solarengo da frenética e exuberante Hologram, assistimos, consumidos e absortos, a uma verdadeira revisão histórica da pop dos últimos vinte anos, uma revisão eufórica que, no geral, está envolvida por um toque de lustro livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor.

Rewilder é um compêndio de canções que, no seu todo, contém uma atmosfera densa e pastosa, mas libertadora e esotérica. Baseado no indie rock, mas misturado com tiques da eletrónica, hip hop, dubstep e reggae e o que mais apetecer a quem agora se dedica a esta mistura de sonoridades do passado com as ilimitadas possibilidades técnicas que o desenvolvimento tecnológico proporciona e disponibiliza aos produtores e compositores, acaba por ser um disco muito experimentalista naquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas. Mas tem também uma estrutura sólida e uma harmonia constante. É estranho mas pode também não o ser. É a música no seu melhor. Espero que aprecies a sugestão...

Inca Gold - Rewilder

01. Desert Rats
02. Dark Skies
03. Hollow Shade
04. Flutar
05. Pillars
06. Ascend
07. Hologram
08. Energise
09. Farewell


autor stipe07 às 22:08
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Terça-feira, 15 de Março de 2016

The 1975 – I like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It

Depois do sucesso de The 1975, o disco homónimo de estreia dos The 1975 de Matt Healy, um trabalho editado em 2013, já está nos escaparates I Like It When You Sleep For You Are So Beautiful Yet So Unaware of It, dezassete canções que viram a luz de fevereiro à boleia da Polydor Records.

O mar, um estranho som de estúdio, um eco que aumenta e termina repentinamente, um teclado vulcanizado, um coro distorcido e metais quase impercetíveis, escancaram-nos as portas, no tema homónimo, para um disco colorido e multifacetado de uns The 1975 que, como se percebe logo na deslumbrante e divertida Love Me, parecem apostados em deixar para trás o ambiente mais sintético e sombrio do disco homónimo de estreia, privilegiando canções feitas em redor de refrões aditivos e melodias de fácil assimilação, com a vertente comercial a ser um fator importante do processo de composição e assim conseguir chegar já às massas depois de um processo de maturação que lhes foi particularmente favorável, tendo em conta o sucesso de The 1975.

A alteração dos tons cinza da capa do primeiro trabalho para um rosa vincado, sendo um detalhe estético, também realça com intensidade esta inflexão sonora dos The 1975 que, neste sempre difícil segundo disco, abastecem-se de algumas das referências pop dos anos oitenta com forte tendência radiofónica e colocam explicitamente as pistas de dança na mira. Além da riqueza de géneros e estilos bem patente no instrumental Lostmyhead e na sofisticação do agregado sonoro que define Somebody Else, o saboroso piscar de olhos ao melhor R&B norte americano na eletrónica futurista de Loving Someone e nos sopros e na batida da insinuante If I Believe You, o groove indisfarçável que alimenta a percussão de UGH!, uma canção que aborda a dependência da cocaína de Healy e que não deixa a nossa anca despercebida e a exuberância eletropop das cordas, além da cadência da bateria de She's American, são outros exemplos que firmam com notável exatidão este novo farol dos The 1975, em canções que abordam temáticas relacionadas com o sexo, dinheiro e as questões fundamentais da adolescência, ideias transversais a todo o alinhamento de I like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It e que reforçam a superior capacidade inventiva e uma imagem de ecletismo e personalidade que estes The 1975 claramente já possuem. Aliás, a componente lírica é mesmo um dos grandes destaques deste disco, principalmente pelo modo como, além dos tópicos acima referidos, a banda procura elucidar todos aqueles que aspiram a um mundo de fama e glamour, mas que nem sempre corresponde às melhores expetativas criadas, com a religão a ser também um foco de atenção de Healy, nomeadamente em If I Believe You Nana e a complexidade do pensamento humano a merecer igualmente abordagem, tão bem expressa nas teclas, na voz emotiva e nos efeitos enleantes de The Ballad of Me and My Brain.

Sólido, vibrante, eclético e efusivo, I like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It é um disco que nos reaviva as memórias relativamente a uma época em que era proporcional o abuso da cópula entre os sintetizadores e o spray para o cabelo, mas também nos serve para fornecer pistas muito concretas sobre as tendências mais atuais de um rock alternativo cada vez mais disposto a alargar fronteiras e a misturar, sem receio, estilos, géneros e tiques, de modo a criar uma sonoridade pop cada vez mais futurista e que prime pela diferença. Espero que aprecies a sugestão...

The 1975 - UGH!

01. The 1975
02. Love Me
03. UGH!
04. A Change Of Heart
05. She’s American
06. If I Believe You
07. Please Be Naked
08. Lostmyhead
09. The Ballad Of Me And My Brain
10. Somebody Else
11. Loving Someone
12. I like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It
13. The Sound
14. This Must Be My Dream
15. Paris
16. Nana
17. She Lays Down


autor stipe07 às 20:36
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Segunda-feira, 29 de Fevereiro de 2016

James Supercave – Better Strange

Joaquin Pastor, Patrick Logothetti e Andrés Villalobos são os James Supercave, uma banda que acaba de se estrear nos discos abrigada pela insuspeita Fairfax Recordings. Better Strange é o nome desse trabalho, doze canções com uma abrangência pop bastante atual, que da eletrónica ao rock progressivo, impressiona pela forma subtil como, ao criar um ambiente muito próprio e único através da forma como se sustenta instrumentalmente, alberga diferentes géneros sonoros e, sendo um disco mutante, cria um universo que até parece algo obscuro, uma percepção que se vai transformando à medida que avançamos na sua audição, que surpreende a cada instante.

Os sintetizadores, o falsete impecável de Pastor, o groove do baixo e da bateria, os efeitos radiososo e a melodia intensa de Better Strange abrem-nos portas para um alinhamento de canções que não deixa ninguém indiferente. Logo de seguida, o ritmo e nos efeitos da pulsante Whatever You Want firmam a primeira impressão positiva e consubstanciam uma verdadeira entrada a matar num registo de forte pendor hipnótico, ora catártico devido à batida, ora em busca de uma psicadelia que, muitas vezes, só um baixo picado a lançar-se sobre o avanço infatigável de todo o corpo eletrónico que sustenta as canções e que também usa a voz como camada sonora, consegue proporcionar.

A partir daí, no groove sedutor de Brun, mais um exemplo que plasma a forte importância do baixo na filosofia sonora dos James Supercave, na linha rugosa mas surpreendentemente delicada da guitarra que conduz Body Monsters, na distorção desse mesmo instrumento no imponente piscar de olhos à brit pop em Get Over Yourself e no curioso pendor acústico e solarengo da frenética e exuberante The Right Thing, assistimos, consumidos e absortos, a uma verdadeira revisão histórica da pop dos últimos vinte anos, uma revisão eufórica que nos desperta para uns Radiohead imaginários e futuristas ao som da visceral Virtually A Girl  e da divertida Chairman Gou, uns Radiohead que certamente não se importariam de ser manipulados digitalmente com tal mestria se for este o resultado final dessa apropriação.

Daqui em diante ainda há tempo para sentir no piano e no falsete de With You, um toque de lustro livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor e no efeito da guitarra de Just Repeating What’s Around Me uma impressiva mescla entre R&B e eletrónica ambiental, num disco que, no seu todo, contém uma atmosfera densa e pastosa mas libertadora e esotérica. Better Strange é um disco muito experimentalista naquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas. Mas tem também uma estrutura sólida e uma harmonia constante. É estranho mas pode também não o ser. É a música no seu melhor. Espero que aprecies a sugestão...

James Supercave - Better Strange

01. Better Strange
02. Whatever You Want
03. Burn
04. Body Monsters
05. How To Start
06. Get Over Yourself
07. The Right Thing
08. Virtually A Girl
09. Chairman Gou
10. With You
11. Just Repeating What’s Around Me
12. Overloaded


autor stipe07 às 21:07
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Sábado, 5 de Dezembro de 2015

Coldplay - A Head Full Of Dreams

Os Coldplay de Chris Martin estão de regresso aos discos com A Head Full Of Dreams, um álbum que, como sempre, viu a luz do dia por intermédio da Parlophone. O sétimo álbum de estúdio desta banda britânica foi produzido pela dupla norueguesa Stargate e nos seus créditos extensos pode-se conferir convidados especiais do calibre da norte americana Beyoncé, mas também Noel Gallagher, Tove Lo e Merry Clayton.

Disco com direito a uma digressão mundial e que poderá muito bem vir a ser o último da carreira do grupo de Chris Martin, A Head Full Of Dreams é substancialmente diferente do antecessor, Ghost Stories, um trabalho mais denso e intimista e que se debruçava imenso sobre a separação de Martin e a atriz Gwynet Paltrow, com quem o músico lider da banda esteve casado vários anos. Logo no tema homónimo fica impressa esta intenção firme de criar um alinhamento mais luminoso e festivo, mas também melodicamente mais amplo e épico, com canções que celebrem o otimismo e a alegria e que possam funcionar ao vivo na próxima digressão dos Coldplay. Aliás, Adventure Of A Lifetime, o primeiro single retirado de A Head Full Of Dreams, foi uma escolha óbvia como tema de apresentação do disco, já que é o expoente máximo desta ode celebratória, assente num riff de guitarra empolgante e numa sonoridade rock expansiva e que faz jus a alguns dos melhores instantes da carreira da banda. E, mantendo-se em Hymn For The Weekend essa amplitude otimista, há, no entanto, na génese dessa canção, o início de um virar de agulhas que me parece ser definitivo, indo ao encontro de uma sonoridade pop, com fortes raízes no R&B e que, na verdade, os Coldplay já exploram com alguma minúcia desde Mylo Xyloto. Nesse dueto entre Martin e Beyoncé, o grupo britânico despe definitivamente todas as máscaras que ainda o poderiam ligar ao indie rock, para se assumir, já sem possibilidade de retorno, como uma banda que não quer mais ser objeto de culto de um nicho de ouvintes que os veneraram à custa de Parachutes e A Rush Of Blood To The Head, mas antes detentores do título máxmo de banda de massas da pop e da cultura musical dos dias de hje. Já agora, curiosamente, um último grande suspiro da anterior herança identitária e que definiu as origens dos Coldplay, pode ser escutada em Up&Up, canção que apesar de contar com alguns detalhes eletrónicos, deve grande parte da sua alma à guitarra de Noel Gallagher e à soul proporcionada não só pela voz crua de Martin, mas também por coros que engrandecem e ampliam a intensidade da canção para um patamar incomum.

As batidas eletrónicas da balada Army Of Me, a açucarada Fun, canção que conta com a voz da sueca Tove Lo, entrelaçada com a de Martin, são mais dois exemplos concretos deste frontal casamento dos Coldplay com o R&B mais contemporâneo, mas o piano lindíssimo de Everglow, quanto a mim o melhor momento melódico do álbum e que conta com a voz de Paltrow nos coros e a sua presença na escrita do poema, o groove da guitarra e do baixo e, principalmente, os sussurros de Martin em Birds, são também exemplos impressivos deste novo paradigma sonoro dos Coldplay, composições que contam com uma produção polida com o máximo de brilho que a tecnologia dos dias de hoje permite e que até é ampliada em dois temas que funcionam como interludios, Kaleidoscope e Colour Spectrum. Nesta última é particlarmente impressivo o contraste entre os sons de pássaros e sinos, com as vozes de fundo de Beyoncé e Barack Obama, num discurso que é também possível ser escutado na primeira canção.

Em suma, A Head Full Of Dreams contém o habitual cariz pop, épico e melancólico dos Coldplay e não deixa de ter como grande atributo possuir canções que falam de sentimentos reais e geralmente felizes e que, por isso, pretendem colocar enormes sorrisos no nosso rosto durante a audição. Mas para quem, como eu, não se sentiu nunca particulamrente confortável e preenchido com as mais recentes obsessões sonoras e conceptuais deste quarteto britânico, este acaba por ser o trabalho que deita por terra, definitivamente, todas as expetativas que ainda poderiam subsistir sobre a possibilidade de um retorno às origens. Por muito que se possam esforçar por referir publicamente o contrário, a verdade é que os Coldplay querem ser uma banda de massas, mas não à custa do indie rock. O trono que pretendem ocupar é o de reis da pop, entrando num mano a mano com os nomes maiores da cultura musical popular que vivem da eletrónica ao R&B, levando as cordas do baixo e das guitarras consigo, mas adaptando-as aos cânones essenciais desses estilos sonoros. Espero que aprecies a sugestão... 

Coldplay - A Head Full Of Dreams

01. A Head Full Of Dreams
02. Bird
03. Hymn For The Weekend
04. Everglow
05. Adventure Of A Lifetime
06. Fun (Feat. Tove Lo)
07. Kaleidoscope
08. Army Of One
09. Amazing Day
10. Colour Spectrum
11. Up&Up
12. Miracles

 

 


autor stipe07 às 21:14
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