Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Father John Misty - Pure Comedy

Father John Misty já foi visto como um reverendo barbudo e cabeludo, que vagueava pela noite americana a pregar o evangelho segundo Neil Young. Encharcado, pegava no violão e cantava sobre cenas bíblicas, Jesus e João Batista e a solidão. Hoje, este ser único não é só um artista, é uma personagem criada e interpretada por Josh Tillman, antigo baterista dos Fleet Foxes, e com uma já respeitável carreira a solo, que acaba de ver um novo capítulo. O mais recente registo discográfico de Joshua Tillman chama-se Pure Comedy, chega aos escaparates hoje, dia sete de abril e assume-se como um portentoso documento sonoro, uma ode aquele lado mais charmoso e clássico da pop que quer ser máquina de transmissão de tudo aquilo que o amor enquanto evidência feliz ou palco dos mais inquietantes e perigosos devaneios oferece, quer sejam realidades empíricas e fisicamente passíveis de provocar reparo ou dano, ou sensações psiquícas que muitas vezes incendeiam, para o bem ou para o mal, até o ser mais empedrenido que habita à face da terra.

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Num disco preenchido então, e como não podia deixar de ser, com canções de amor bonitas e sentidas, as mesmas encontram-se repletas de orquestrações opulentas e com um grau de refinamento classicista incomensurávelmente belo. Chega a ser inquietante o modo impressivo e realista como Joshua Tillman se senta ao piano ou coloca a viola no regaço e toca e canta emotivamente sobre as agruras, anseios, inquietações inerentes à condição humana, mas também as motivações e os desejos de quem usa o coração como veículo privilegiado de condução, orientação e definição de algumas das metas imprescindíveis na sua existência. E, como é do senso comum, somos muitos aqueles que nos deixamos conduzir, quase sempre, pelo coração em vez da razão. E se há momentos em que desconfiamos que seria bem melhor a materialização de opções mais racionais e até, quem talvez não saiba o que diz, conscientes, a música de Father John Misty é aquele tónico que nos deixa acreditar que pode ser possível confiar que o nosso modus operandi também poderá ser válido na obtenção dos melhores caminhos e atalhos principais e secundários para a suprema felicidade ou, em último caso, para a redenção pessoal.

É particularmente arrepiante o modo como no piano do tema homónimo, já com um maravilhoso vídeo realizado por Matthew Daniel Siskin, este verdadeiro sex symbol indie e estrela improvável faz uma sátira feroz e irónica à América atual, numa canção de inegável beleza e melancolia, que se não é a reinvenção da roda contém uma saudável dose de letargia que garante sucessivas audições, por dias a fio. Logo a abrir o disco, acaba por ser um dos mais belos exemplos do modo como Tillman serve-se do piano para expressar sentimentos que podem causar algum desconforto na mente dos mais desconfiados sobre as suas reais intenções, além de afagarem, com notável eficácia, as dores de quem se predispõe a seguir sem concessões a sua doutrina. E mais adiante, em Things That Would Have Been Helpful To Know Before The Revolution, essas mesmas teclas conseguem fazer-nos debruçar, numa fase inicial, de encontro ao nosso âmago, para depois, juntamente com um edifício instrumental heterogéneo e exuberante, fazer-nos desabrochar de novo, mas agora com uma postura final mais firme e confiante.

Mas as cordas também são um veículo imprescindível para o arquétipo sonoro de Tillman e se em Ballad Of The Dying Man entrelaçam-se com o piano para juntos conjurarem juras de amor mútuo e inseparável, já em Total Entertainment Forever constroem, novamente juntos, uma peça sonora vigorosa e pulsante, duas sensações luminosas ampliadas pela presença do trompete, que intercala maravilhosamente com a voz, numa mescla que permite um suave levitar, tal é o rol de emoções que transmite e a intensidade das mesmas. 

Até ao ocaso do disco, Father John Misty não abranda no sermão e na afabilidade com que nos faz espontaneamente refletir sobre a nossa perene existência. E da osmose contemplativa de Birdie, canção que nos faz divagar ao sabor de uma fina corrente de uma enigmática luz que dela exala, ao sentido sabor a despedida de uma cidade que não deixa ninguém indiferente, em Leaving LA, passando pelo profundo sabor a redenção que transborda de When The God OF Love Returns There ll Be Hell To Pay, são vários os momentos altos de um alinhamento que não deixa também de conter um estrondoso frenesim sensual e que aponta novos faróis a um dos artistas mais distintos e criativos da pop atual e que hoje e como nunca o fez antes, instiga, hipnotiza e emociona. 

Sedutor, cativante, profundamente engenhoso e com todos os atributos para ser um verdadeiro diabo vestido de anjo, Tillman aprofunda neste seu novo trabalho, que é já, claramente, um dos melhores discos do ano, o refinado e oportuno sentido de humor que tão bem o carateriza e a sagacidade das suas letras, cada vez mais inteligentes e enigmáticas. E Father John Misty leva a cabo esta demanda com um elevado sentido críptico e desafiante, já que não é óbvia, em alguns instantes, a descodificação célere das suas reais intenções relativamente a todos aqueles que se deixam inebriar pelos seus sermões e fazer parte de um rebanho que se assanha sempre que o pastor investe no seu tema recorrente, o amor. Espero que aprecies a sugestão...

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1. Pure Comedy
2. Total Entertainment Forever
3. Things It Would Have Been Helpful to Know Before the Revolution
4. Ballad of the Dying Man
5. Birdie
6. Leaving LA
7. A Bigger Paper Bag
8. When the God of Love Returns There'll Be Hell to Pay
9. Smoochie
10. Two Wildly Different Perspectives
11. The Memo
12. So I'm Growing Old on Magic Mountain
13. In Twenty Years or So


autor stipe07 às 00:01
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Quinta-feira, 6 de Abril de 2017

Tall Ships – Impressions

Depois de uma longa espera de cinco anos, com a ansiedade ampliada devido ao elevado grau qualitativo de Everything Touching, o registo de estreia, já chegou finalmente aos escaparates, via FatCat Records, Impressions, o segundo álbum dos Tall Ships, um projeto britânico natural de Cornwall e formado por Ric Phethean, Matt Parker, Jamie Bush e Jamie Field. São nove canções e duas extra, sustentadas por letras emotivas e uma máquina sonora épica e bem oleada, dominada por guitarras melodicamente inspiradas, uma bateria intensa e graves potentes, o que faz deste disco uma espécie de hino comercial urbano.

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Nem sempre uma estreia auspiciosa nos discos corresponde a uma entrada direta e firme no estrelato e os Tall Ships são um excelente exemplo de tal permissa. Everything Touching foi incensado com uma manancial de críticas positivas não só no Reino Unido, mas também a nível internacional (este blogue também divulgou e analisou o disco) e esperava-se que a banda obtivesse um elevado reconhecimento e um sucesso ímpar, mas a realidade foi bem diferente. Pouco tempo depois do lançamento desse registo os Tall Ships ficaram sem editora e agente, carregados de dúvidas e hesitações quanto ao futuro, amarrados numa perigosa encruzilhada e acabaram por desaparecer do radar, mas não da memória dos fãs mais devotos, nos quais me incluo. Mas, felizmente, o instinto de sobrevivência e a capacidade de superação do grupo foi mais forte que as hesitações e desconfianças de quem mais os deveria apoiar e, cinco anos depois, estão de volta com um alinhamento que além de não defraudar a bitola qualitativa do antecessor, nos oferece uns Tall Ships mais maduros, conscientes e, principalmente, criativos.

Escrito durante este longo hiato e gravado pelo próprio grupo na casa de Jamie Field, Impressions é um fulgurante renascimento, um trabalho que exala talento e emoção e que tem o firme propósito de constituir-se como uma espécie de exlixir para os corações mais inquietos. Se o piano de Home cerra o punho de quem acha que não existe nenhuma saída para o caos em que vive e se Lucille exorciza deixando à tona o melhor lado de um amor que passou mas deixou marcas, já a epicidade eloquente de Road Not Taken e o andamento frenético de Meditations On Loss, assumem-se como vozes de uma consciência que nos diz que a vida é para ser vivida sem ressentimentos e que o passado não deve exercer influência negativa na busca dos sonhos e na materialização daquela esperança que todos temos numa vida ainda melhor. O grande momento de Impressions acaba por ser Will To Life, tema que não poderia ser uma melhor metáfora de tudo aquilo que os Tall Ships viveram nos anos mais recentes, já que se inspira na teoria de um filósofo alemão que defende que quando demasiada energia negativa se acumula no seio de um coletivo mas mesmo assim ele não se separa, então mais dia menos dia, o melhor deles acaba por vir à tona de novo.

Disco que sobressai pelo ambiente geral fortemente emotivo e, na concretização do mesmo, por alguns detalhes e ideias critivas que aliam, muitas vezes, alguns momentos tranquilos com outros onde a velocidade com que a banda explora e executa, em várias direções dita regras, e Lost & Found é um tema que mostra bem essa antítese, Impressions está cheio de melodias bastante aditivas e merece rasgados elogios. Há uma ferocidade muitas vezes descarada, bastante peso no pedal de amplificação, mas tudo é feito com impacto, com mestria e de modo contagiante. Os Tall Ships sabem fazer canções excitantes e que se entrelaçam até atingirem uma espécie de clímax vertiginoso, o que faz de Impressions um disco forte, com substância, muito orgânico e com um conteúdo excelente para fazer deste projeto britânico novamente referência. Espero que aprecies a sugestão...

Tall Ships - Impressions

01. Road Not Taken
02. Will To Life
03. Petrichor
04. Home
05. Lucille
06. Meditations On Loss
07. Sea Of Blood
08. Lost And Found
09. Day By Day
10. Impressions (Bonus)
11. Purge (Bonus)


autor stipe07 às 11:47
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Terça-feira, 4 de Abril de 2017

oLUDO - Abraço

Estrearam-se em 2009 com Nascituro, disco que incluia o grande sucesso A Minha Grande Culpa, um dos temas mais rodados das rádios nesse ano e que foi escolhido para banda sonora dos separadores do canal Sic Radical. Dois anos depois regressaram aos lançamentos discográficos com Almirante e agora, três anos volvidos, estão de regresso com um álbum intitulado Abraço. Falo dos oLUDO, um coletivo algarvio formado por Davide Anjos, João Baptista, Nuno Campos, Paulo Ferreirim e Luis Leal.

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Álbum que, de acordo com os próprios, procura personificar uma espécie de encruzilhada entre o rock e o indie pop português, Abraço era aguardado por cá com enorme expetativa, ampliada depois de ter chegado à nossa redação o single homónimo. E as expetativas não sairam nada goradas porque ao longo das dez canções do alinhamento de Abraço é possível usufruir de uma verdadeira catarse sonora, porque apesar de transportar a gloriosa e profícua era musical portuguesa do final do século passado, tendo-a, continuamente, em ponto de mira, consegue também, de modo transversal, atingir e plasmar uma marca impressiva de contemporaneidade, fazendo-o com um bom gosto estilístico, quer lírico, quer instrumental, realmente incomum.

O disco arranca e no tema homónimo somos logo sugados para os traços indeléveis que caraterizam o adn pop destes oLUDO, embalados pelas guitarras e por uma postura vocal convincente, dois traços que transbordam ao tal período de exaltação que elevou o rock nacional ao seu período de ouro para, logo depois, na distorção da guitarra que embala o refrão de O Que Não Se Vê e no modo como ela se entrelaça com a percurssão em Sangue E Esperança, sermos confrontados com uma toada ainda mais elétrica e progressiva. Já o andamento profundamente hipnótico de Quero O Que Não Vejo exala uma salutar psicadelia que enriquece significativamente o manancial de estilos, tendências e géneros sonoros de um disco que chega a emocionar de modo profundo, e algo particular até, no dedilhar da viola que conduz aos píncaros a delicada nuvem de emoções que exala da lindíssima canção Alma Que Pensa, um momento sublime deste disco, juntamente com o piano que lacrimeja em Tango para a Ana, duas provas felizes de que a pop não precisa de ser demasiado complicada para ser audível com prazer e para ter a capacidade de fornecer tónicos suficientemente poderosos para mover todas aquelas montanhas que asfixiam o nosso âmago.

Em Abraço percebe-se que no processo de construção das canções houve uma guitarra inspirada que pautou a ordem das mesmas e depois foram surgindo os outros instrumentos e toda a avalanhce de arranjos e trechos melódicos que deram aos temas e à toada geral do registo a roupagem que ele necessitou para ter o brilho, a harmonia e a cor que estes músicos certamente procuraram tentar transmitir, num álbum que cativa e que apela a todos os nossos sentidos, ao mesmo tempo que firma estes oLUDO no lote restrito de projetos ímpares e merecedores de superior devoção no panorama sonoro nacional atual. Confere...


autor stipe07 às 21:55
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Segunda-feira, 3 de Abril de 2017

Glass Vaults - Brooklyn

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Os Glass Vaults são uma banda oriunda de Wellington, na Nova Zelândia e em cujo regaço melancolia e lisergia caminham lado a lado, duas asas montadas em canções que nos oferecem paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos e a voz de Larsen que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta. E tudo isto sente-se com profundo detalhe, numa banda que por vir dos antípodas parece carregar nos seus ombros o peso do mundo inteiro e não se importar nada com isso, algo que nos esclareceu com veemência Sojourn, o longa duração de estreia destes Glass Vaults, editado em 2015 à boleia da Flying Out e que sucedeu a Glass (2010) e Into Clear (2011), dois eps que colocaram logo alguma crítica em sobressalto.

Agora, quase dois anos depois desse auspicioso início de carreira no formato longa duração, o trio está de regresso aos discos com The New Happy, um trabalho que irá ver a luz do dia a doze de maio através de Melodic Records e de cujo alinhamento já se conhece um tema intitulado Brooklyn. Esta canção é um verdadeiro festim de cor e alegoria, uma espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo e onde tudo é filtrado de modo a reproduzir toda a magnificiência deste e de outro mundo de modo fortemente cinematográfico e imersivo, num resultado final que impressiona pela orgânica e pelo forte cariz sensorial. Logo à partida percebe-se que New Happy será um disco com um som esculpido e complexo e com um encadeamento que nos obrigará a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. Confere...


autor stipe07 às 11:45
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Sexta-feira, 31 de Março de 2017

Joana Barra Vaz - Mergulho em Loba

Quando no início do passado mês de setembro foi divulgado o tema Tanto Faz, ficou logo bem patente a enorme emotividade, charme e bom gosto de Mergulho Em Loba, o novo disco de Joana Barra Vaz. Contando com a participação especial vocal de Selma Uamusse na voz, a meias com Joana, uma colaboração que surgiu de uma estreita afinidade entre ambas, essa canção foi, portanto, uma excelente porta de entrada para um alinhamento com mais sete temas e que é mais um capítulo da trilogia f l u m e iniciada com Passeio Pelo Trilho (Ed. Azáfama 2012).

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Na música de Joana Barra Voz tudo é cor, alegria e movimento. O modo como ela se comunica connosco corporalmente, não só através da voz mas também da expressividade com que se embrenha nas diferentes personagens que parecem levitar nas suas canções, fazem desta artista um caso sui generis no panorama musical nacional contemporâneo. Nela, como esse single nos mostra, há muito de uma África que imprimiu no nosso adn traços que nunca se extinguirão, mas basta ouvir as cordas que lacrimejam em Margem de Lá para também se entender como Joana transporta no seu âmago muito daquele melancólico virtuosismo lusitano, decalcado séculos a fios por uma ancestralidade escrita a granito e terra preta. Suite I, a curiosa agregação de composições que abre o disco, acaba por concretizar toda esta mistura que, no fundo, é a síntese identitária deste pequeno retângulo, tão rico em multiculturalidade, luz, alegria e esperança, mas também ainda tão impregnado de tudo aquilo que de bom e menos bom têm a bonomia, o cinzentismo, o desânimo fácil e aquela ideia de fatalismo irracional que tantas vezes nos diz presente.

Personificando um universo bucólico bastante impressivo e sentimentalmente rico, Mergulho em Loba presenteia-nos com uma espécie de súmula de toda uma amálgama de elementos e referências sonoras, como se todo o arsenal instrumental que Joana Barra Vaz utilizou servisse para, no momento certo, assim como uma linha de costura, unir pedaços separados e que precisavam de ser agregados. São oito peças sonoras que nos embalam num casulo de seda, criadas por uma virtuosa que possui uma soul claramente envolvente e uma espiritualidade invulgarmente quente, mas também reflexiva.

Mergulho em Loba foi gravado por Bernardo Barata, que foi assistido por Diogo Rodrigues nos Estudios Iá, Luís Nunes e Joana Barra Vaz na SMUP e conta com a participação dos músicos David Pires (Bateria, Arranjos ritmo e sopros, coro), Ricardo Jacinto (Violoncelo), David Santos (Baixo eléctrico), Ana Nagy (Coros), Mário Amândio (Trombone) e Gabriel Correia (Trompa), tendo sido composto, arranjado, e produzido pela própria Joana Barra Vaz, co-produzido por Luís Nunes e misturado por Tiago Sousa. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:20
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Quinta-feira, 30 de Março de 2017

Alt-J (∆) – In Cold Blood

Alt-J (∆) - In Cold Blood

Gwil Sainsbury, Joe Newman, Gus Unger-Hamilton e Thom Green conheceram-se na Universidade de Leeds em 2007. Gus estudava literatura inglesa e os outros três belas artes. No segundo ano de estudos, Joe tocou para Gwil várias canções que criou, com a ajuda da guitarra do pai e de alguns alucinogéneos; Gwil apreciou aquilo que ouviu e a dupla gravou de forma rudimentar várias canções, nascendo assim esta banda com um nome bastante peculiar. Alt-J (∆) pronuncia-se alt jay e o símbolo do delta é criado quando carregas e seguras a tecla alt do teu teclado e clicas J em seguida, num computador Mac. O símbolo é usado em equações matemáticas para representar mudanças e assenta que nem uma luva à banda que se estreou em junho de 2012 nos discos com An Awesome Wave, e que, pouco mais de dois anos depois e já sem o contributo de Gwil Sainsbury, confirmou a excelente estreia com This Is All Yours, um álbum que além de não renegar a identidade sonora distinta da banda, ainda a elevou para um novo patamar de novos cenários e experiências instrumentais.

Agora, três anos depois desse excelente registo, os Alt-J (∆) vão regressar aos álbuns com Relaxer, oito canções, das quais conheceu-se, em primeiro lugar 3WW, tema que abre o alinhamento e agora In Cold Blood, a canção seguinte, uma composição que alarga um vasto leque de referências e que da pop ambiental contemporânea ao art-rock clássico, passando pelo R&B, é uma epopeia onde se acumula um amplo referencial de elementos típicos desses diversos universos sonoros e que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica e até, diria eu, objetivamente sensual. Confere In Cold Blood e o artwork de Relaxer...


autor stipe07 às 15:49
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Quarta-feira, 29 de Março de 2017

Slowdive – Sugar For The Pill

Slowdive - Sugar For The Pill

Mestres e pioneiros do shoegaze e uma referência ímpar do indie rock alternativo de final do século passado, os britânicos Slowdive voltam vinte e dois anos depois de Pygmalion (1995) a dar sinais de vida com Sugar For The Pill, o primeiro avanço para um homónimo que irá ver a luz do dia a cinco de maio próximo.

O guitarrista e vocalista dos Slowdive, Neil Halstead, tinha já dito recentemente que a banda estava a trabalhar em novas canções, por isso esta era uma novidade já aguardada, mas que não deixa de causar um certo espanto e uma forte impressão, ampliada pelo cariz eminentemente rugoso e contemplativo de Sugar For The Pill, uma lindíssima canção, já com direito a um vídeo inspirado no artwork do anunciado disco dos Slowdive que, por sua vez, é inspirado na animação Heaven And Heart Magic, datada de 1957 e da autoria de Harry Smith. Confere...


autor stipe07 às 12:52
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Terça-feira, 28 de Março de 2017

Mark Kozelek – Night Talks EP

Mark Kozelek, o cérebro por trás do projeto Sun Kil Moon (referência a um boxeur coreano, morto aos vinte e três anos), é um verdadeiro workaholic, um artista que em duas décadas e meia de carreira já gravou mais de quarenta discos, se à banda atual juntarmos os seus trabalhos a solo e o papel fundamental que teve nos míticos Red House Painters. Este músico simplesmente não pára e entra em 2017 a explorar ao máximo algumas das melhores virtudes de Common as Light and Love Are Red Valleys of Bloodo seu último registo de originais. E fá-lo através de Night Talks, um novo ep de cinco canções.

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Este pequeno compêndio de canções conta no seu alinhamento com uma versão acústica de I Love Portugal, um dos pontos altos de Common as Light and Love Are Red Valleys of Blood, além de uma cover de Famous Blue Raincoat, um original de Bob Dylan, outra de Pretty Little Flowers, de Kath Bloom, um original homónimo e um curioso inédito intitulado Astronomy, em que Kozelek disserta sobre Trump e os novos traumas de uma América cada vez mais confusa e dividida (And as the adults talked about colonoscopies and stints and arteries and cholesterol medications, suddenly we looked around and we lost the children off to the rooms in their own little worlds doing whatever it is that children get into, while us old people talk about old boring people things like Trump banning flights into the United States, and we watch it on TV, series like Eugene Levy’s “Schitt’s Creek,” and my God, my dad snores pretty loud when he falls asleep).

Lançado através da Caldo Verde Records, etiqueta do próprio Mark KozelekNight Talks é um belíssimo tratado de folk acústica onde a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave e canções como as já mencionadas Astronomy ou a versão acústica de I Love Portugal, são exemplos extraordinários de temas que transbordam uma majestosa e luminosa melancolia.

Se os Red House Painters eram uma instituição da expressão indie, a solo Mark Kozelek afirma-se como um compositor com uma sonoridade ainda mais frágil e cândida e neste Night Talks, à semelhança do que tem feito nos últimos registos, é a guitarra com cordas de nylon usada com mestria, que logo no tema homónimo consegue enriquecer as harmonias sem complicar, criando um ambiente sonoro descontraído e algo minimal, mas extremamente rico. E à medida que a sua voz se estende pelas melodias desta e das outras canções, sem pressas ou amarras, solidão, melancolia e inadaptação aos cânones sociais estabelecidos desfilam por letras que versam sobre estes e outros temas comuns, algo que até nem é de estranhar já que é normal encontrar Kozelek, a antítese de uma estrela rock, numa loja da esquina, a fazer a sua vida rotineira, como um cidadão comum.

Kozelek tem como virtude maior o facto de compor valendo-se, acima de tudo, das suas próprias experiências. É curioso, intenso e impressivo o modo como escreve assumindo-se como cobaia dos seus próprios pensamentos, além de servir-se da família, dos amigos, das namoradas, de figuras políticas de relevo e ícones da cultura pop também como testemunhas e referências do seu cardápio, quer lírico quer sonoro, sempre com um resultado final avassalador e tremendamente reflexivo. Espero que aprecies a sugestão...

Mark Kozelek - Night Talks

01. Night Talks
02. I Love Portugal (Acoustic Version)
03. Astronomy
04. Pretty Little Flowers (Feat. Kath Bloom)
05. Famous Blue Raincoat


autor stipe07 às 22:12
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Segunda-feira, 27 de Março de 2017

Feist - Pleasure

Feist - Pleasure

Seis anos depois de Metals, o seu último registo de originais, a canadiana Feist regressa em 2017 aos discos com Pleasure, um compêndio de onze canções gravado ao longo de três meses, entre Stinston Beach, Nova Iorque e Paris. Pleasure foi produzido pela própria autora, com a ajuda dos habituais colaboradores Renaud Letang e Mocky e chegará aos escaparates a vinte e oito de abril, à boleia da Interscope Records.

Descrito pela própria autora e compositora como um trabalho em que explorou até aos limites todas as emoções que foi sentindo nos anos mais recentes e onde sensações de solidão, vergonha, rejeição, perca e até falta de auto- estima foram presença assídua, Pleasure tem como single de apresentação o tema homónimo, uma canção que impressiona pela tonalidade rock, simultaneamente agreste e sedutora, confirmando que Feist, além de excelente compositora, é também uma das guitarristas mais versáteis da atualidade. Confere...


autor stipe07 às 13:39
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Sexta-feira, 24 de Março de 2017

The Jesus And Mary Chain - Damage And Joy

Banda icónica do punk rock alternativo de final do século passado, os escoceses The Jesus And Mary Chain acabam de lançar o seu primeiro registo de originais do século XXI. O sucessor de Munki (1998) chama-se Damage And Joy, viu a luz do dia hoje à boleia da ADA/Warner Music e concretiza o regresso às luzes da ribalta de um projeto essencial para o relato da hitória do rock das últimas décadas e que, à semelhança do que acontece no seio de tantas outras bandas, é feito de desavenças, nomeadamente entre os irmãos Jim e William, dois egos que sempre pareceram demasiado grandes para coabitarem pacificamente, mas cujos desencontros, nomeadamente os conceptuais e estilísticos, acabaram por ser a grande força motriz dos The Jesus And Mary Chain.

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Em Damage And Joy desfilam catorze canções de forte índole nostálgica, como se o hiato temporal que separa este registo do antecessor quase não tivesse sucedido. E esta fidelidade aos cânones essenciais do adn da banda, se por um lado plasma a sua integridade e a opção válida por apostar numa forma estilística eminentemente vencedora, poderá ser vista pelos retratores como uma espécie de mais do mesmo ou, pior do que isso, uma ausência de coragem ou inabilidade para colocar nas canções alguns dos detalhes que definem o rock alternativo atual. Pessoalmente considero que os The Jesus And Mary Chain optaram corretamente por não enveredar numa arriscada inflexão sonora e, defeito meu talvez, ainda sou daqueles que apoia a pureza e a firme opção por uma identidade própria, independentemente da longevidade da banda. Assim, este é um trabalho feito com músicos já perto dos sessenta anos mas ainda longe de poderem estar acabados, ou seja, para mim they are not a rock n'roll amputation.

Ao longo do alinhamento de Damage And Joy encontramos excelentes canções, que merecem figurar na listagem futura dos melhores clássicos deste grupo escocês. Logo no fuzz da guitarra de Amputation é evidente o espírito jovial, mas também firme e arrebatador do grupo, em particular de Jim e depois nos efeitos que piscam o olho a territórios mais psicadélicos em War On Peace, na percussão coesa e bastante ritmada de Always Sad, no ambiente mais sombrio, progressivo e sussurrante de Mood Rider, nas exuberância das cordas que elevam aos píncaros Black And Blues, um tema que conta com a participação especial vocal de Sky Ferreira, até aos efeitos siderais que enfeitam a toada mais pop de Get On Home, desfila um esqueleto instrumental e lírico eminentemente melancólico, mas também realista e fortemente impressivo, fazendo com que neste último tema a frase I've got a pistol in my pocket, fique a ecoar dentro de nós com tal ênfase só possível de replicar por quem reside num universo emotivo e, amiúde, fortemente entalhado numa forte teia emocional amargurada, como poderá atestar quem conhece minimamente o percurso atribulado destes irmãos Reid.

Banda consensual e única no panorama indie punk das últimas três décadas, os The Jesus And Mary Chain saíram-se bem neste regresso às luzes da ribalta, ancorados por um disco que além de comprovar o facto de estarem no apogeu da carreira e num grau de maturidade superior, acabam por atestar aquela ideia comum a vários projetos que procuram inteligentemente replicar ao longo da carreira zonas de conforto, porque tal sucede sempre com elevada bitola qualitativa. E a verdade é que com este Damage And Joy os The Jesus And Mary Chain firmam a sua posição na classe dos artistas que basicamente só melhoram com o tempo. Com o grupo escocês a encerrar este alinhamento à boleia do manifesto Can’t Stop The Rockestou certo que com regressos destes acho que isso será impossível.Espero que aprecies a sugestão...

The Jesus And Mary Chain - Damage And Joy

01. Amputation
02. War On Peace
03. All Things Pass
04. Always Sad
05. Songs For A Secret
06. The Two Of Us
07. Los Feliz (Blues And Greens)
08. Mood Rider
09. Presidici (Et Chapaquiditch)
10. Get On Home
11. Facing Up To The Facts
12. Simian Split
13. Black And Blues
14. Can’t Stop The Rock


autor stipe07 às 18:33
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