Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

Belle And Sebastian – We Were Beautiful

Belle And Sebastian - We Were Beautiful

Os escoceses Belle & Sebastian parecem já ter sucessor para o aclamado álbum Girls In Peacetime Want To Dance, um disco editado pela banda no início de 2015 e que tendo sido produzido pelo aclamado  Ben H. Allen (Animal Collective, Washed Out), estava recheado de versos confessionais que falam da infância do vocalista e da necessidade que muitas vezes sentimos de regressar às origens para dar um novo impulso à nossa existência.

Gravado em Glasgow, cidade-natal da banda, e produzido pela própria juntamente com Brian McNeill, We Were Beautiful é o novo tema divulgado pelo quarteto, uma canção que conduz-nos de volta ao indie pop mais orelhudo, com aquele requinte vintage que revive os gloriosos anos oitenta e que, por isso, é uma excelente porta de entrada para um futuro alinhamento que será, certamente, instrumentalmente irrepreensível. Confere...


autor stipe07 às 14:33
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Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

The Jungle Giants – Quiet Ferocity

Oriundos de Brisbane e formados por Sam Hales, Cesira Aitken, Andrew Dooris e Keelan Bijker, os The Jungle Giants já têm finalmente nos escaparates o sucessor de Speakerzoid, o segundo disco do projeto, editado há dois anos e que sucedeu ao registo de estreia, um álbum intitulado Learn To Exist, editado em 2013. Quiet Ferocity é o novo álbum deste quarteto australiano, um trabalho que irá certamente continuar a catapultar o grupo para o merecido estrelato.

Escrever sobre o conteúdo de um disco dos The Jungle Giants após uma sardinhada com direito a duas canecas de meio litro de um excelente verde branco fresco de Castelo de Paiva não é uma tarefa fácil, mas como também não é extensa a lista de leitores deste blogue não corro o risco de ver a minha análise colocar em causa de modo permanente a bitola qualitativa quer deste espaço de escrita quer de um grupo que, como se percebe logo em On Your Way Down, assenta a sua permissa sonora numa pop heterógenea que entre o rock experimental e o eletropop,  é feita, geralmente, de um baixo encorpado e pleno de groove, algumas teclas insinuantes, uma guitarra impregnada com aquele fuzz psicadélico hoje tanto em voga e alguns efeitos futuristas, com o resultado global a ser uma ode festiva e inebriante que nos submerge em todos os minutos gastos na sua audição.

Estes The Jungle Giants têm o objetivo claro de fazer os seus ouvintes dançar ou, se não for esse o caso, pelo menos de nos fazer vibrar positivamente ao som das suas canções. E neste terceiro disco conseguem, com maior refinamento, esse propósito, mostrando uma superior clarividência interpretativa e, além disso, um piscar de olhos a territórios sonoros algo inéditos no percurso do grupo. Assim, o indie eletro pop luminoso e festivo de Feel The Way I Do e o clima sintético mas divertido de Bad Dream, assim como a exuberância punk do single Quiet Ferocity e o blues do baixo e da guitarra de Used to Be In Love acentuam ainda mais o cariz infeccioso e contemporâneo de um disco que parece um verdadeiro motim de acordes, arranjos e samples vocais, atributos que abraçam uma quantidade ilimitada de texturas onde sintetizadores e guitarras contagiantes estouram alegria e sedução, como se fossem um par de amantes em permanente troca lasciva de olhares e argumentos.

Se alguns dos principais pilares da pop contemporânea são pedras basilares deste alinhamento, em Quiet Ferocity nem faltam abordagens a um espetro indie mais futurista, repleto de samples curiosos e de efeitos e detalhes bastante criativos. Assim, se Time And Time Again sobrevive devido aos tiques percussivos frenéticos em que se acomoda, tricotados por um baixo dinâmico e fascinante, que depois se entrelaça com uma guitarra que se distorce sem controle, baixo esse que se mostra glorioso em In The Garage, já a soul dos efeitos que acompanham o ritmo da bateria de Waiting For A Sign com uma articulação e um charme incomuns e a vibração excitante do falso minimalismo da eloquente Blinded, constituem um inventivo e luxuriante mosaico que exala uma certa pop negra avançada mas excitante, numa revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto por alguns gigantes que se têm entregue ao flutuar sonoro da lisergia e de cuja listagem os The Jungle Giants também querem fazer parte.

Em suma, cheio de espaço, com texturas e fôlegos diferentes e onde é transversal uma sensação de experimentação nada inócua, Quiet Ferocity cimenta as coordenadas que se apoderaram do departamento de inspiração deste quarteto, sendo o resultado da ambição do mesmo em se rodear com uma áurea resplandecente e inventiva e de mostrar uns The Jungle Giants cada vez mais heterogéneos e abrangentes. Espero que aprecies a sugestão...

The Jungle Giants - Quiet Ferocity

01. On Your Way Down
02. Feel The Way I Do
03. Bad Dream
04. Used To Be In Love
05. Quiet Ferocity
06. Time and Time Again
07. Waiting For A Sign
08. Blinded
09. In The Garage
10. People Always Say


autor stipe07 às 00:34
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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

Arcade Fire - Everything Now

Quase quatro anos depois do excelente Reflektor e de dois discos a solo de Will Butler, os canadianos Arcade Fire aproveitaram a tomada de posse de Donald Trump e os seus devaneios para apresentarem ao mundo o seu novo álbum, mais uma inflexão sonora no rumo delineado pelo projeto no disco anterior e, tematicamente, também um claro manifesto político e de protesto claro, parece-me, ao novo rumo tomado pelo país vizinho, além da já habitual abordagem sociológica aos novos dilemas da contemporaneidade de cariz mais urbano e tecnológico em que a dita sociedade ocidental mais desenvolvida vive.

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Apesar do groove punk de Infinite Content, a primeira premissa que me parece clara após a audição deste Everything Now é a certeza de que os Arcade Fire estão cada vez mais distantes do rock impetuoso dos primórdios. Se no anterior Reflektor o grupo ofereceu-nos um trabalho mais acessível e direto que os antecessores, conseguindo manter o habitual encanto algo misterioso e místico que sempre marcou os discos desta banda canadiana, mas longe de funerais, da poesia barroca e de histórias de subúrbios, definindo-se pela vontade de fazer algo diferente e pôr-nos a dançar, desta vez, com a pista de dança ainda em ponto de mira e a manutenção da tonalidade da escrita de Butler e Chassagne, acabamos por, em vários momentos, nomeadamente em Peter Pan, darmos por nós naquele limbo onde, há mínima escorregadela, podemos cair para um lado mais obscuro e depressivo. 

Seja como for, os Arcade Fire apostam, definitivamente, na preponderância de sonoridades luminosas, com o formato eminemtemente pop a ser definitivamente relegado para primeiro plano e com o grupo a ter uma nova aúrea, completamente remodelada, mas sem deixar de lado como já referi, o rock, impecavelmente passado a lustro nas guitarras e na tonalidade aguda de Régine que acompanham a batida eletro do discosound setentista de Signs Of Life, mas também no efeito metálico que dá brilho à soul de Electric Blue e, com laivos de epicidade eletrónica extrema, no fuzz oitocentista de Creature Comfort. Depois, esta espécie de revisitação catálogo da história do rock nos últimos trinta anos, no seu formato mais pop, visita a obra de gigantes como David Bowie no toque de distinção dado pela percurssão em God Good Damn ou os U2 no rock de arena de Put Your Money On Me. As cançoes que acabam por suscitar uma aproximação evidente a ambientes mais nativos são, na minha opinião, o tratado de world music chamado Chemistry e Peter Pan, com a primeira a ir beber aos ares do caribe e a segunda a destacar-se pela fantástica percussão e pelos ritmos quentes e africanos.

Everything Now talvez seja a sequência musical mais arriscada da carreira dos Arcade Fire, já que não encontra quase paralelo nos trabalhos anteriores, excepto na tal abordagem a um clima mais pop à semelhança do antecessor e a permanência do típico ambiente quase religioso que a escrita das canções ainda criam, desta vez com a tal vertente política também muito presente. Com períodos introspetivos e outros de plena exaltação, é um disco altamente preciso e controlado, pensado ao mínimo detalhe e que podendo, para muitos fãs, não ir ao encontro das enormes expetativas que sobre ele recaiam, é, no entanto, na minha opinião, mais um salto qualitativo em frente na carreira dos Arcade Fire, principalmente por ter colocado, mais uma vez um enorme ponto de interrogação nos fãs e apreciadores da banda relativamente ao futuro sonoro do grupo. Espero que aprecies a sugestão...

Arcade Fire - Everything Now

01. Everything_Now (Continued)
02. Everything Now
03. Signs Of Life
04. Creature Comfort
05. Peter Pan
06. Chemistry
07. Infinite Content
08. Infinite_Content
09. Electric Blue
10. Good God Damn
11. Put Your Money On Me
12. We Dont Deserve Love
13. Everything Now (Continued)


autor stipe07 às 15:00
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Segunda-feira, 10 de Julho de 2017

Sun Airway – Heraldic Black Cherry

Filadélfia, na Pensilvânia, é a morada dos Sun Airway, uma dupla norte-americana formada por Jon Barthmus e Patrick Marsceill, que editou no início deste ano Heraldic Black Cherry, um compêndio de quinze canções que apostam nos traços mais caraterísticos da indie pop, algo que ficou muito claro, em Landscapes, o antecessor, mas também noutros lançamentos anteriores do projeto. Este Heraldic Black Cherry aprimora a mistura de todo o arsenal instrumental de que a dupla se serve com os sintetizadores, amplificando a vontade da dupla em ser exímia na criação de melodias que transmitam sensações onde a nostalgia do nosso quotidiano se reveja.

Os Sun Airway distinguem-se, logo à partida e conforme se confere em FOAM, a canção que abre este disco, por uma certa aúrea encantatória, um salutar experimentalismo livre de constrangimentos e amarras e onde o reverb e o fuzz se misturam com liberdade plena, originando um clima fortemente lisérgico que os cobre com uma aúrea de sensibilidade e fragilidade romântica indisfarçáveis. E a verdade é que depois, temas como All In, uma canção conduzida por um teclado emotivamente forte e um registo vocal sintetizado convincente, ou Sleeping Sound, uma composição de forte cariz cósmico conduzida por um efeito vincado e um piano cheio de soul, assim como o agregado ternurento que sustenta Small Fires ou a luminosidade melódica algo inebriante de Violent Gray permitem-nos, com uma certa clareza, refletir sobre alguns dos mais nobres sentimentos que nos invadem e tudo aquilo que de bom a vida tem para nos oferecer.

Heraldic Black Cherry torna-se desafiante pela forma como nos convida a tentarmos perceber os diferentes elementos sonoros que vão sendo adicionados e esculpindo as suas canções, melodicamente sempre muito próximas da postura vocal e com os arranjos sintéticos a sobressairem, não porque ficam na primeira fila daquilo que se escuta, mas porque suportam aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que a canção toma e nas sensações que transmite. Assim, neste registo vai-se, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa viagem psicadélica proporcionada por estes Sun Airway, mestres de um estilo sonoro carregado de uma intensa jovialidade e que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um charme ainda maior pela peça em si que este disco representa. Espero que aprecies a sugestão...

Sun Airway - Heraldic Black Cherry

01. FOAM
02. All In
03. Absolut
04. Sleeping Sound
05. Ha Ha
06. Violent Gray
07. Skiff
08. Small Fires
09. Big Ideas
10. Sand
11. Carry Away
12. Debraining
13. Landfall
14. Gob
15. All I Ever


autor stipe07 às 00:50
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Quarta-feira, 5 de Julho de 2017

You Can't Win, Charlie Brown - If I Know You, Like You Know I Do

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Marrow é um vegetal parente da courgette, cultivado nas ilhas britânicas, na Holanda e na Nova Zelândia e também o título do último registo de originais dos extraordinários You Can't Win, Charlie Brown de Afonso Cabral (voz, teclas, guitarra), Salvador Menezes (voz, guitarra, baixo), Tomás Sousa (bateria, voz), David Santos (teclas, voz), João Gil (teclas, baixo, guitarra, voz) e Luís Costa (guitarra). Este Marrow foi um dos discos do ano de 2016 para este blogue e com toda a justiça porque, no seu todo, contém um sentido conjunto de quadros sonoros pintados com belíssimos arranjos de cordas, sintetizadores capazes de fazer espevitar o espírito mais empedernido e imponentes doses eletrificadas de fuzz e distorção, que se saúdam amplamente, tudo adornado por uma secção vocal contagiante, que proporciona ao ouvinte uma assombrosa sensação de conforto e proximidade.

Um dos grandes temas de Marrow é, claramente, If I Know You, Like You Know I Do, quinta canção do alinhamento do álbum e que piscando o olho à eletrónica dos anos oitenta, carateriza-se como uma alegoria pop extravagante e irresistivelmente dancável, que acaba de ter direito a um extraordinário vídeo que mostra os You Can't Win, Charlie Brown de bem perto, com produção dos We Are Plastic Too e realização de Afonso Cabral.

Os You Can't Win, Charlie Brown vão mostrar este e outros temas no palco Nos do Nos Alive, já amanhã, dia seis de julho e por todo o país durante o verão, com passagens marcadas para o Vodafone Paredes de Coura, Douro Rock e Feira de São Mateus, entre outros. Confere...


autor stipe07 às 18:17
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Terça-feira, 4 de Julho de 2017

Abram Shook – Love At Low Speed

Depois dos fantásticos Sun Marquee e Landscape Dream, Abram Shook regressou em 2017 aos discos com Love At Low Speed, dez canções que deverão certamente muito do seu conteúdo e da sua alma a uma estadia recente do músico na Europa, com passagem demorada no nosso país. Penitencio-me desde já publicamente por não ter estado com Shook durante a sua presença por Portugal na última primavera, mas se a vida é feita muitas vezes de encontros fortuítos, também é, infelizmente, assídua em desencontros inevitáveis, porque quer a vida pessoal quer a vida profissional não propiciam, com frequência, a que possamos estar onde queremos e quando desejamos.

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A ideia romântica da busca espiritual do nosso âmago sempre fez parte do imaginário de quem desde muito cedo se habituou a ser sistematicamente auto reflexivo e a exigir mais do que o normal quer de si próprio quer do mundo que o rodeia. E Shook é um indivíduo que tem bastante impressa em si esta filosofia. Este músico e compositor natural de Austin, no Texas e tendo crescido em Santa Cruz, na Califórnia, desde muito novo sentiu alguma dificuldade em perceber qual o seu lugar neste mundo e, tendo a felicidade de ter condições materiais para isso, aventurou-se pelo mundo numa odisseia espiritual que ainda hoje prossegue e que lhe tem permitido absorver várias culturas e perceber outras realidades, algo que se reflete nas canções que cria.

Estas duas facetas, a musical e a de viajante, vão, álbum após álbum, aprimorando a sua particular minúcia relativamente ao modo impressivo como relata acontecimentos reais ou fictícios e de um modo sempre algo romancista. Seja como for, está sempre muito presente o  muitas vezes o cariz autobiográfico, com canções como Lisbon ou The Hours a serem exemplos claros de relatos de instantes de estadia ou de transição entre lugares.

Abram é, nitidamente, um viajante que gosta de explorar o mundo musicalmente e dos sons que cria extrair diferentes sensações. Ele tem a pop de índole mais acústica como guia espiritual, mas acaba por cometer o pecado da gula quando também se serve de um imenso cardápio que, do jazz ao experimentalismo eletrónico e à psicadelia, abarca um vasto espetro referencial, principalmente ao nível dos detalhes e dos arranjos com que adorna os seus temas. Do baixo vibrante de No Return, às guitarras que piscam o olho ao rock setentista em Eventually, passando pela vibe surf de Machinery ou a tropicália de Device e o charme algo inquietante de Quiet Side, são vários os pontos altos de um disco que sendo, claramente, um compêndio intimista, também se mostra expansivo e luminoso e, em determinados instantes, detentor de um açucar muito próprio e um pulsar particularmente emotivo e rico em sentimento.

Love At Low Speeed é mais uma materialização concreta de melodias que vivem à sombra de uma herança natural típica de quem teve o jazz como elemento base da formação musical e quis reforçar, no terceiro capítulo da sua discografia, uma nova abordagem, desta vez mais orgânica, a diferentes géneros musicais, sendo confessadamente influenciado por nomes que são referências de géneros diversos, nomeadamente Shuggie Otis, Serge Gainsbourg ou o brasileiro Chico Buarque. Espero que aprecies a sugestão..

Abram Shook - Love At Low Speed01. The Hours

02. Eventually
03. Lies
04. Divinity
05. Red Lines
06. Machinery
07. No Return
08. Device
09. Lisbon
10. Quiet Side


autor stipe07 às 21:31
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Sábado, 1 de Julho de 2017

Minta & The Brook Trout - Slow

A indie pop indulgente e deliciosa de Francisca Cortesão e o seu projeto Minta & The Brook Trout está de regresso em 2017 com Slow, o terceiro registo de originais deste projeto ímpar no panorama alternativo nacional. Slow é a primeira edição de Minta & The Brook Trout à boleia da Norte Sul/Valentim de Carvalho e teve também uma reedição em vinil, que viu a luz do dia no passado mês de maio, acompanhada por uma série de novidades, entre elas um EP intitulado Row, com três temas, Tropical Resort, So This Has To Do e Mild-Mannered Man, que acabam por deixar já algumas pistas sobre o próximo registo do projeto.

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Disco embelezado por indíssimas ilustrações da autoria de José Feitor, Slow contém onze deliciosas canções adornadas por uma tranquilidade acústica, uma filosofia estilística que logo no baixo e no banjo de Bangles impressiona e fica exemplarmente descrita. Daí em diante, o arquétipo das canções é guiado por guitarras, ora límpidas, ora plenas de efeitos eletrificados algo insinuantes e sempre com uma profunda gentileza sonora.

Slow acaba por impressionar como um todo, mas há uma ou outra canção que merece audição mais cuidada para que se expresse no nosso âmago com toda a ternura que merece. Assim, se em Plaid And Denim quer a soul da guitarra quer a gentileza subtil da bateria ficam a ressoar dentro de nós muito depois da canção terminar, mais adiante, em Sand, contemplamos um belíssimo tratado de folk acústica onde a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave e depois, canções como a cândida e intimista Light Blues Blues ou o minimalismo suave delicioso de I Can't Handle The Summer, são exemplos extraordinários de temas que transbordam uma majestosa e luminosa melancolia.

Acompanhada por Mariana Ricardo, Bruno Pernadas, Margarida Campelo e Nuno Pessoa, entre outros, em Slow Francisca Cortesão afirma-se como uma compositora ímpar no panorama indie nacional e o modo como neste projeto Minta & The Brook Trout a guitarra com cordas de nylon é dedilhada com mestria e consegue enriquecer as harmonias sem complicar, criando um ambiente sonoro descontraído e algo minimal, mas extremamente rico, impressiona e instiga não deixando indiferente quem se oferece ao prazer de escutar com deleite este alinhamento. E à medida que a voz de Francisca se estende pelas melodias das canções, sem pressas ou amarras, solidão, melancolia e inadaptação positiva ao amor e a outros cânones sociais estabelecidos desfilam por letras que versam sobre estes e outros temas comuns, algo que até nem é de estranhar já que é normal encontrar esta autora, a antítese de uma estrela pop, numa loja da esquina, a fazer a sua vida rotineira, como uma cidadã comum.

Francisca tem como virtude maior o facto de compor valendo-se, acima de tudo, das suas próprias experiências. É curioso, intenso e impressivo o modo como escreve assumindo-se como cobaia dos seus próprios pensamentos, além de servir-se de todos aqueles que a rodeiam também como testemunhas e referências do seu cardápio, quer lírico quer sonoro, sempre com um resultado final avassalador e tremendamente reflexivo. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 11:57
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Sexta-feira, 16 de Junho de 2017

Fleet Foxes – Crack-Up

Seis anos depois de Helplessness Blues, o último registo de originais, os norte americanos Fleet Foxes regressam em 2017 aos discos com Crack-Up, título inspirado num ensaio do aclamado escritor F. Scott Fitzgerald. Este novo trabalho da banda atualmente formada por Robin Pecknold, Skyler Skjelset, Casey Wescott, Christian Wargo e Morgan Henderson, vê a luz do dia à boleia da Nonesuch Records e foi produzido por Robin e Skyler, membros do grupo, misturado por Phil Ek e masterizado por Greg Calbi.

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Os Fleet Foxes são fiéis depositários da identidade mais genuína de uma América que sempre viu na folk um veículo privilegiado de transmissão de todo o seu referencial identitário. Escutar as composições deste projeto é vaguear, obrigatoriamente, pelos meandros de uma realidade civilizacional natural e humana alicerçada numa enorme massa migrante que atravessou o atlântico nos séculos XVIII e XIX, mas também nas raízes deixadas por diferentes tribos que coabitaram com a natureza durante centenas de anos sem qualquer intromissão estrangeira. Assim, mesmo que alguns detalhes eletrónicos e uma vasta miríade instrumental suportadas pelas mais recentes inovações tecnológicas aplicadas à produção musical sejam manuseadas na concepção dos seus discos, estes Fleet Foxes fazem sempre questão que as suas canções soem o mais orgânicas e nativas possível, com a mira bastante apontada ao experimentalismo folk que começou a impressionar e a espevitar tantos nomes hoje consagrados na década de setenta do século passado.

Logo na tríade I Am All That I Need / Arroyo Seco / Thumbprint Scar, se um simples acorde acústico de uma guitarra e um sussurro abrem as hostilidades, rapidamente a canção nos desassossega e plasma a típica monumentalidade espiritual deste projeto, com tambores, sopros e cordas a revezarem-se entre si numa complexa teia relacional que muitas vezes faz suster a respiração, tal é a imensidão com que nos submerge. Depois, na exuberância luminosa e optimista da dupla Cassius - – Naiads, Cassadies, uma canção, em duas, que nos impulsiona, com a ajuda dos violinos, a atingir o estrelato, mesmo que não pareça haver nada de motivador ao virar da esquina, mas também na beleza e no charme vibrante de Fool’s Errand, nos quase nove minutos verdadeiramente inspiradores e tocantes de Third of May / Ōdaigahara, uma canção conduzida por uma simples melodia de uma viola em redor da qual o piano e a bateria se insinuam continuamente e na intimista religiosidade a que o amor acaba por saber nas teclas e nas cordas de If You Need To, Keep Time On Me, fica presente uma das marcas mais importantes da identidade destes Fleet Foxes, relacionada com a capacidade que têm em servir-se da simplicidade orgânica para adoçar o nosso coração com inquietude e coragem, deixando-o no ponto para a obtenção de grandes feitos, através de um cerrar de punhos que carece de ruído excessivo ou uma intrincada teia melódica, ritmíca e estilistica para se efetivar. Por outro lado, na sobriedade da guitarra e da batida sintetizada de Mearcstapa, ou no minimalismo inicial de On Another Ocean (January / June), depois quebrado por uma guitarra que não receia distorcer no tempo certo e por uma bateria intensa e encorpada, percebe-se que quer alguns aspetos essenciais da eletrónica atual, mas também do rock de cariz mais indie também são outra marca indelével dos Fleet Foxes, abastecendo e enriquecendo ainda mais o seu cardápio sonoro, com o mesmo efeito fortemente sentimental, interior e imersivo.

Crack-Up é um retrato humanamente doce e profundo, mas também algo inquitetante e por isso revelador, da génese e dos alicerces da realidade civilizacional riquíssima do lado de lá do atlântico, uma realidade que justifica em grande medida o modo de vida fortemente evoluído e tecnológico em que vivemos, mas que tem nos seus pilares aquilo que de mais genuíno podemos experienciar enquanto seres vivos que é a vibração do interior desta terra mãe que nos alimenta e que hoje sofre de modo tão audível como aquele efeito cavernoso que encerra I Should See Memphis. De facto, a música dos Fleet Foxes tem esta espantosa capacidade de nos fazer refletir sobre aquilo que somos hoje e os desafios que nos esperam, ao mesmo tempo que enquanto manifestação artística se torna reveladora por desmascarar sensorialmente toda a pafernália biológica, física e filosófica por um lado e religiosa por outro que descreve a sociedade dos nossos dias, colocando perante nós aquilo que realmente deveria importar e fazer-nos verdadeiramente felizes que é a essência harmoniosa do que de mais virgem e intocável existe em nosso redor. Espero que aprecies a sugestão...

Fleet Foxes - Crack-Up

01. I Am All That I Need / Arroyo Seco / Thumbprint Scar
02. Cassius, –
03. – Naiads, Cassadies
04. Kept Woman
05. Third Of May / Ōdaigahara
06. If You Need To, Keep Time On Me
07. Mearcstapa
08. On Another Ocean (January / June)
09. Fool’s Errand
10. I Should See Memphis
11. Crack-Up


autor stipe07 às 21:33
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Quarta-feira, 31 de Maio de 2017

Benjamim e Barnaby Keen - 1986

Nascido em 1986, Barnaby Keen é um músico britânico, mentor e membro de vários projetos, entre eles os Flying Ibex e os Electric Jalaaba, além de já ter colaborado com nomes como Andreya Triana, Kate Tempest, Kimberly Anne, Hudson Taylor e os Bastille. Também nascido em 1986, Benjamim é já um velho conhecido deste blogue, principalmente por causa de Auto Rádio, disco que lançou em nome próprio em 2015, mas também por ter produzido ou tocado em álbuns de vários nomes consagrados do nosso panorama musical como B Fachada, Lena d'Água, Márcia, Éme, Pista, Golden Slumbers, João Coração, Frankie Chavez, Cassete Pirata ou Flak, entre outros. Reza a lenda que os dois músicos cruzaram-se pela primeira vez em 2012, num cinema de Brixton, no sul de Londres e selaram amizade a partir do gosto comum por um disco de Chico Buarque. Barnaby Keen viveu no Brasil durante seis meses, onde descobriu o amor pela língua portuguesa e pelos mestres do samba e da bossa nova. Agora, em 2017, ambos uniram esforços para incubar 1986, um disco gravado em duas sessões no estúdio 15A, casa da Pataca Discos e que contou com a participação de Sérgio Costa na flauta, Leon de Bretagne no baixo e António Vasconcelos Dias nas vozes.

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Registo discográfico bilingue, 1986 encarna um delicioso exercício de complementaridade e simbiose, audível nos instantes em que Benjamim faz coros em inglês das canções de Barnaby e este empresta a sua voz com um sotaque muito sui generis para fazer vozes em português nas canções de Benjamim. Os dois ocupam-se também da componente instrumental e tocam quase tudo nos temas um do outro, escolhendo o melhor das suas capacidades, seja no saxofone, no piano ou na bateria.

1986 mistura rock, folk, rock e a indie pop de cariz mais experimental e contém ideias expostas com enorme bom gosto, uma ímpar sensibilidade e um intenso charme que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um inconfundivel carimbo de qualidade, ainda maior pela peça em si que este disco representa, principalmente para os autores. Logo no looping da batida plena de groove de Warm Blood e no solo de saxofone desse tema, ficam marcadas as grandes diretrizes de um álbum que explora até à exaustão e sem reservas o modo como os dois músicos se relacionam musicalmente. E depois, na luminosidade das cordas que conduzem o esplendor orgânico e lo fi de Dança Com Os Tubarões e na míriade de efeitos que dão cor à contemplativa All I Want, dois singles entretanto retirados de 1986, assiste-se à assunção plena até às estrelas de uma parceria que deve, a qualquer preço, fazer parte do nosso catálogo pessoal de canções que servirão da banda sonora para o verão que se aproxima.

Um dos maiores impulsos que muitas vezes os músicos enfrentam quando se coligam é, na diversidade de visões, acharem que as parcerias só resultam se houver uma fuga à zona de conforto de cada um. Neste caso, o oposto acabou por ser a opção mais acertada e quem conhece o percurso destes dois músicos, além de não estranhar a sonoridade geral de 1986, delicia-se com o modo simples, mas eficaz e bonito como ela se entranha no âmago e, fazendo sorrir, na forma como deixa uma marca indelével. Os sussurros que acompanham o refrão da enternecedora Terra Firme ou o modo como em Madrugada as teclas rodeiam as cordas e disparam em diferentes direções flashes que acabam por atingir sempre no nosso peito o mesmo alvo, não são mais do que outros exemplos desta pessoalidade comunicativa feita de proximidade, porque é genuína e sentida. Só dois músicos realmente amigos e camaradas de emoções é que conseguem exalar tal majestosidade sentimental de forma tão profunda, através de canções imbuídas de um misto de fulgor e pueril simplicidade. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:58
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Terça-feira, 30 de Maio de 2017

Paper Beat Scissors - All We Know EP

Vocalista, compositor e instrumentista, Tim Crabtree é o lider dos Paper Beat Scissors, um projeto que chega de Halifax, no Canadá e que lançou no passado dia vinte e sete de maio um EP intitulado All We Know, o primeiro sinal de vida criativa deste músico desde o excelente álbum Go On, editado em 2014 através da Forward Music Group/Ferryhouse. All We Know contém seis canções misturadas por Sandro Perri e para a gravação das mesmas Tim contou com a colaboração de Pietro Amato e Sebastian Chow, seus colaboradores de longa data, mas também de Marshall Bureau, Michael Feuerstack, JJ Ipsen, Andy Magoffin e Pemi Paull.

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Com cerca de uma década de carreira e uma fantástica aceitação dos dois lados do atlântico, o projeto Paper Beat Scissors atinge com este EP, gravado na zona rural de Ontario com a ajuda do engenheiro de som Andy Magoffin (longtime engineer for Great Lake Swimmers) e Richard Reed Parry (habitual colaborador dos Arcade Fire), o ponto mais alto de um percurso meritório e que merece ser escutado com alguma devoção.

Logo na soul da guitarra do tema homónimo percebe-se a enorme sensibilidade e o intenso sentido melódico deste extraordinário músico e compositor. Detentor de um registo vocal também ímpar e capaz de reproduzir variados timbres e diferentes níveis de intensidade, Crabtree tem um dom que certamente já terá nascido consigo e que se define pela capacidade de emocionar com canções que carregam quase sempre uma indisfarçável emoção e uma saudável dose de melancolia, onde não falta, como se percebe na guitarra rugosa de Better, uma dose de epicidade que faz todo o sentido quando o universo sonoro replicado procura replicar sentimentos fortes que exigem uma implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica.

Até ao ocaso de All We Know EP, na indulgente percussão e no doce algodão a que sabe a voz de Tim quando nos embala em Gone And Forgotten, ou no contemplativo dedilhar das cordas e no efeito que ciranda por elas em What Am I Going To Do With Everything I Know (The Weather Station), deliciamo-nos com o modo exímio como este músico canadiano utiliza toda uma orgânica instrumental e vocal para dar vida a poemas lindíssimos, através da inserção de diferentes texturas, muitas vezes em várias camadas de sons. Mesmo quando opta por  arriscar em instantes mais eletrificados, alguns deles particularmente rugosos, o autor não coloca em causa a estética delicada do projeto, graças também ao tal registo vocal doce e profundo.

All We Know EP é mais uma excelente rampa de lançamento para acedermos à dimensão superior onde os Paper Beat Scissors nos sentam, através de uma coleção de canções que constituem uma daquelas preciosidades que devemos guardar com carinho num cantinho especial do nosso coração. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 16:50
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