Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017

Grandfather's House - Diving

Braga é o poiso natural do projeto Grandfather’s House, banda que surigu há cerca de meia década pelas mãos do guitarrista Tiago Sampaio, ao qual se juntou, entretanto, a irmã Rita Sampaio na voz, dupla que lançou, em 2014, o seu primeiro registo, o EP Skeleton. Entretanto, João Vitor Costeira juntou-se e pegou na bateria e já na forma de trio editaram o ano passado Slow Move, o disco de estreia. Agora, cerca de um ano depois e já com Nuno Gonçalves nas teclas, irá viu a luz do dia Diving, o segundo lançamento do projeto em formato longa duração, um trabalho gravado e produzido na Mobydick Records (Braga) por Budda Guedes e os próprios Grandfather’s House e misturado e masterizado no HAUS (Lisboa) por Makoto Yagyu.

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Nah Nah Nah começa e enquanto não chega a voz enleante e subversiva de Adolfo Luxúria Canibal, os Grandfather's House parecem tocar submergidos num mundo subterrâneo de onde debitam música através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco da melodia. Depois, já com o vocalista dos Mão Morta na linha da frente da síncope do tema, guitarras distorcidas e um baixo proeminente dão asas às emoções que exalam desde as profundezas desse refúgio bucólico e denso onde se embrenharam e insistem em manter-se em Drunken Tears, desta vez com a guitarra a assumir um cariz mais ambiental, sustentada por várias camadas de sopros sintetizados, uma espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo.

É este o arranque prometedor de um álbum que nos agarra pelos colarinhos e nos embrenha numa orgânica particularmente minimal, mas profunda e crua, um universo fortemente cinematográfico e imersivo, que instiga e provoca sem pedir licença, com aquela arrogância tipíca de quem sabe o que tem para oferecer e não se faz rogado na hora de colocar em cima da mesa todos os trunfos aos dispôr para ser bem sucedido, neste caso numa demanda sonora que pretende desafiar o lado mais reflexivo e introspetivo do ouvinte, mas também, em determinados momentos, a sua faceta mais libidinosa e misteriosa, eloquente e desafiante na guitarra inquietante que sustenta Sorrow. Alías, impregnado com uma densidade peculiar no modo como hipnotiza e seduz e alicercado naquele falso minimalismo que o compasso de umas palmas, efeitos sintetizados encobertos por uma cosmicidade algo nebulosa e o efeito divagante de uma guitarra proporcionam, You Got Nothing Lose, o primeiro single divulgado deste Diving, é um excelente exemplo desta espécie de duplicidade transversal a todo o alinhamento que, de acordo com o press release do mesmo, vai desde o despertar de memórias que pareciam adormecidas pelo tempo, crescendo uma raiva, quase um estado depressivo, transformando-se na sua aceitação e num estado de paz de espírito.

Diving avança e no piscar de olhos que é feito aquela pop vintage e charmosa, carregada de mistério em She's Looking Good e no som esculpido e complexo, onde é forte a dinâmica entre um enorme manancial de efeitos e samples de sons que parecem ser debitados pela própria natureza em In My Black Book, assim como na grandiosa cândura de Nick's Fault, damos de caras com mais um encadeamento de canções que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador.

O ocaso de Diving acontece em grande estilo ao som do frenesim da guitarra e de uma bateria inebriante adornada por diversos efeitos cósmicos, em I Hope I Won't Die Tomorrow, o epílogo de um álbum onde não existiram regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos, um cenário idílico para os amantes de uma pop que olha de frente para a eletrónica e a dispersa em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico, mas também para aqueles apreciadores do rock progressivo mais experimental e por isso tendencialmente mais enérgico e libertário. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:46
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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

Paperhaus – Are These The Questions That We Need To Ask

Oriundos de Washington, os norte americanos Paperhaus são Alex Tebeleff, Matt Dowling, Rick Irby e Danny Bentley, uma banda de indie rock bastante seguida e apreciada no cenário alternativo local. A música que eles nos sugerem é imponente, visionária e empolgante, assentando no típico indie rock atmosférico, que vai-se desenvolvendo e nos envolvendo, com vários elementos típicos do krautrock e do post punk a conferirem ao projeto uma dinâmica e um brilho psicadélico incomum. Depois de um excelente homónimo editado na primavera de 2015, eles estão de regresso com Are These The Questions That We Need To Ask, oito canções produzidas pela própria banda e por Peter Larkin e masterizadas por Sarah Register.

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No universo sonoro indie e alternativo abundam, infelizmente, exemplos de bandas que depois de se estrearem com elevada bitola qualitativa devido ao facto de apresentarem uma sonoridade diferente e inédita daquela que o mainstream nos oferece diariamente, acabam por se perder, no álbum seguinte, numa inexplicável redundância. Talvez inebriados pelo sucesso inicial, buscam, no trabalho posterior, um som mais imediato e radiofónico. Mas, felizmente, os Paperhaus não cairam nessa armadilha e em Are These The Questions That We Need To Ask mantêm e aprimoram o espetro sonoro do antecessor, oferecendo-nos um cardápio de oito canções que, logo no primeiro tema do disco, em Told You What To Say, nos mostram um som corrosivo, hipnótico e contundente, um clarividente exemplar da habitual cartilha sonora que este coletivo da costa leste costuma guardar na sua bagagem.

Neste grupo a guitarra é um instrumento de eleição. Ela assume, sem rodeios e desde logo, um amplo plano de destaque no processo de condução melódica, sempre eficazmente acompanhada por um baixo vigoroso e uma bateria entusiasmante e luminosa. Em Go Cozy as mudanças de ritmo com que a mesma guitarra abastece os diferentes efeitos que se escutam no tema e o modo como nos mesmos as quebras e mudanças de ritmo acompanham as variações que ela produz, ampliam a perceção fortemente experimental típica deste grupo, numa canção que ilustra o quanto certeiros e incisivos os Paperhaus conseguem ser na replicação do ambiente sonoro que escolheram. Depois, no clima eminentemente lisérgico e experimental do single Nanana e na rispidez visceral mas apelativa de Walk Through The Woods, assim como nos devaneios cósmicos que abastecem a imponência incisiva  de It's Not There, ficamos esclarecidos acerca desta filosofia compositória, que alicerça um disco que é, no fundo, uma verdadeira espiral de fuzz rock, rugoso, visceral e psicadélico, uma ordenada onda expressiva, que oscila entre o rock sinfónico e o chamado krautrock.

A voz de Tebeleff é também um trunfo declarado dos Paperhaus, devido ao modo como transmite uma sensação de emotividade muito particular e genuína, mas também como acompanha determinados arranjos que, na maioria das vezes, plasmam com precisão as virtudes técnicas do quarteto e o modo como ele consegue abarcar vários géneros e estilos do universo sonoro indie e alternativo, comprimindo-os em algo genuíno e com uma identidade muito própria.

Há nestes Paperhaus uma aúrea de grandiosidade indisfarçável e um notável nível de excelência no modo como conseguem ser nostálgicos e na forma como mutam a sua música e adaptam-na a um público ávido de novidades refrescantes, mas que também recordem os primórdios das primeiras audições musicais que alimentaram o nosso gosto pela música alternativa. Este projeto caminha sobre um trilho aventureiro calcetado com um experimentalismo ousado, que parece não conhecer tabus ou fronteiras e que nos guia propositadamente para um mundo onde reina uma certa megalomania e uma saudável monstruosidade agressiva, aliada a um curioso sentido de estética. Esta cuidada sujidade ruidosa que os Paperhaus produzem, concebida com justificado propósito e usando a distorção das guitarras como veículo para a catarse, é feita com uma química interessante e num ambiente simultaneamente denso e dançável, despido de exageros desnecessários, mas que busca claramente a celebração e o apoteótico. Espero que aprecies a sugestão...

Paperhaus - Are These The Questions That We Need To Ask

01. Told You What To Say
02. Go Cozy
03. Nanana
04. Walk Through the Woods
05. It’s Not There
06. Needle Song
07. Serentine
08. Bismillah


autor stipe07 às 18:56
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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

Beck - Colors

Depois de mais de meia década de solidão, o músico que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold e Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos habituou a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras, regressou em 2014 com Morning Phase, o décimo segundo trabalho da sua carreira e que viu a luz do dia por intermédio da Capitol Records. Falo, obviamente, de Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, um cantor e compositor que tantas vezes já mudou de vida como de casaco e que agora, três anos depois desse belo disco, está de regresso com Colors, onze canções que proporcionam mais um novo fôlego na sua carreira, uma espécie de recomeço, depois de nos últimos dois verões ter igualmente surpreendido com dois singles intitulados Dreams e Wow.

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Colors viu a luz do dia a treze de outubro, novamente com o selo Capitol e engane-se quem achar que vai encontrar aqui alguma espécie de continuidade relativamente a Morning Phase. Neste seu novo registo Beck regressa ao trilho da pop mais efervescente, sintética e luminosa, com canções a apelarem às pistas e à criatividade dos remisturadores, como é o caso de Colors, o tema homónimo de abertura e, quase no ocaso, a agitada Up All Night, composição cujas palmas e pausas na batida estão mesmo a pedir um mash-up com um daqueles hinos oitocentistas que todos nós decorámos na adolescência. Depois, ainda nessa toada, surge-nos Dear Life, um tema que sobressai pela luminosidade de um piano e pelo fuzz intermitente de uma guitarra que deve muito aquela estética que além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica, sendo indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas. Beck apenas abranda um pouco no registo já quase no final do alinhamento com Fix Me, uma lindíssima balada onde sobressai um piano que acompanha com mestria aquele efeito mais doce com que o músico costuma adornar a sua voz quando quer transmitir algo mais profundo.

Uma das grandes marcas deste disco é, nitidamente, a riqueza que contém ao nível quer dos arranjos, quer do arsenal instrumental que o autor utiliza para colocar em prática um alinhamento bastante luminoso, agitado e comprometido com os conceitos de festa e diversão. Quer os metais e os loopings sintetizados que circundam a batida inebriante de Seventh Heaven, quer a distorção da guitarra que dá corpo e substância ao rock impulsivo e direto de I'm So Free, fornecem-nos tal evidência comum a dois campos apenas aparentemente opostos, o rock e a eletrónica. E com estas duas canções Beck estabelece também o vasto leque de influências que sempre moldou uma carreira livre de constrangimentos ou de obediência direta a uma determinada bitola sonora mais específica.

Este músico californiano gosta, portanto, de jogar em vários campos e posições e fá-lo com enorme à vontade e sempre com brilho e competência, nunca deixando para trás a guitarra, um dos seus instrumentos de eleição, agora quase sempre eletrificada. O timbre anguloso da mesma a conduzir No Distraction e o efeito mais metálico na já referida Up All Night são dois dos melhores instantes de Colors em que Beck se serve desse instrumento para dar alma e cor aos temas, mas sem fazer dele a principal referência quer da melodia quer do arquétipo sonoro.

O Beck que antes brincava com o sexo (Sexx Laws) ou que gozava com o diabo (Devil's Haircut) sem deixar de em em determinados instantes do seu percurso de fazer uma espécie de ode à ideia romântica de uma vida sossegada, realizada e feliz usando a santa triologia da pop, da folk e da country, regressa em Colors a um território sonoro onde também se sente como peixe na água, oferecendo-nos um som intrincado mas cativante e que contém texturas psicadélicas que, simultanemente, nos alegram e nos conduzem à diversão, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Fica claro em Colors que Beck ainda caminha, sofre, ama, decepciona-se, e chora, mas que vive numa fase favorável e animada. Espero que aprecies a sugestão...

Beck - Colors

01. Colors
02. Seventh Heaven
03. I’m So Free
04. Dear Life
05. No Distraction
06. Dreams (Colors Mix)
07. Wow
08. Up All Night
09. Square One
10. Fix Me
11. Dreams


autor stipe07 às 11:32
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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017

Django Django – Tic Tac Toe

Django Django - Tic Tac Toe

 

Chegam de Edimburgo, na Escócia, têm um irlandês lá pelo meio, atualmente assentaram arrais em Dalston, aquele bairro de Londres onde tudo acontece, chamam-se Django Django e são um nome que este blogue tem acompanhado com toda a atenção na última meia década. Depois de se terem estreado nos discos em janeiro de 2012 com um trabalho homónimo muito bem aceite pela crítica e nomeado para um Mercury Prize nesse mesmo ano, a banda, formada por Dave Maclean, Vincent Neff, Tommy Grace e Jimmy Dixon, regressou em 2015 com o excelente Born Under Saturn, e agora, no início de 2018, a vinte e seis de janeiro, via Ribbon Music, irá regressar aos lançamentos discográficos com Marble Skies, um alinhamento de dez canções certamente feitas com uma pop angulosa proposta por quatro músicos que, entre muitas outras coisas, tocam baixo, guitarra, bateria e cantam, sendo isto praticamente a única coisa que têm em comum com qualquer outra banda emergente no cenário alternativo atual.

Tic Tac Toe é o primeiro single extraído de Marble Skies, uma canção assente numa percussão tribal, acompanhada por uma guitarra com um delicioso efeito hipnótico da guitarra e um baixo vigoroso e já com direito a um curioso vídeo realizado por John Maclean, membro dos carismáticos The Beta Band. É um filme que aprentemente podia debruçar-se sobre a era dos jogos de arcada, sobre um tempo que parece nunca chegar para nada, sobre o ódio e o amor, o horror ea felicidade, mas que é simplesmente sobre um homem que precisa de comprar algum leite para fazer juntar à sua chávena de chá. Confere...


autor stipe07 às 15:12
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Sábado, 14 de Outubro de 2017

Courtney Barnett And Kurt Vile – Lotta Sea Lice

Dois nomes  fundamentais da indie folk atual são a australiana Courtney Barnett e o norte-americano Kurt Vile. Recentemente e em boa hora decidiram dar as mãos para comporem e divertirem-se juntos e assim gravarem Lotta Sea Lice, nove canções editadas com o selo da insupeita Matador. Este disco é resultado de oito dias em estúdio, espalhados por quinze longos meses em que ambos foram encontrando umas abertas nas suas respetivas digressões que fizeram de promoção aos últimos registos de originais de ambos, com Lotta Sea Lice, uma expressão retirada de uma obra da escritora Stella Mozgawa, a ser o nome de uma banda imaginária que ambos idealizaram para estas canções, algumas compostas por ambos em conjunto e outras temas antigos em formato demo que levaram para estúdio.

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O blues animado de Over Everything é uma excelente porta de entrada para este disco, uma animada e luminosa canção em que Barnett e Vile dialogam enquanto confessam aquilo que pretendem para este Lotta Sea Lice, que é pegarem cada um na sua guitarra, olharem para a linda manhã que começa e deixarem fluir do modo mais espontâneo possível tudo aquilo que guardam no seu âmago. É um tema onde salta ao ouvido o excelente improviso da guitarra por parte de ambos, mas que não define, logo à partida, todo o clima instrumental do alinhamento, já que, em oposição, no clima mais introvertido de Let It Go, canção onde salta à vista o excelente trabalho percussivo e nos seis minutos experimentais e psicadélicos de Outta The Woodwork, fica expresso, de modo sintomático, um certo paradoxo sonoro, uma constante tensão oscilante entre o tédio e a ansiedade, onde o rock e a folk, o doce e o amargo e, enfim, aquilo que é meramente quotidiano e aquilo que é naturalmente poético se entrelaçam.

E já que falamos da vertente temática de Lotta Sea Lice, uma das maiores qualidades destes dois músicos nas respetivas carreiras foi sempre a habilidade em exporem aqueles pequenos detalhes da vida comum que todos vivenciamos e os transformarem, na sua escrita, em eventos magnificientes e plenos de substância. E aqui fazem-no através do derrame de versos extensos e quase descritivos dos habituais acontecimentos quotidianos, sempre com um olhar para o mundo físico e não apenas para uma exposição das suas emoções intrínsecas. Escuta-se o modo como em Fear Is like a Forest ambos dissertam sobre os sonhos e os medos, encontrando paralelismo entre ambos e comparando-os a uma floresta desconhecida por desbravar ou como na já referida Outta The Woodwork descrevem a solidão como algo tão angustiante como a dificuldade em respirar, para se conferir este impressionismo lírico que, no modo como é musicado, acaba por chegar aos nossos ouvidos romanticamente e com um charme algo displiscente mas feliz, sendo esta, de certa forma, a postura que têm ambos em relação à vida. É um caminho sinuoso, mas que não tem de ser vivido em permanente inquietude e depressão. Daí em diante, na lindíssima e exuberante balada Blue Cheese, mas também no experimentalismo boémio patente em Peepin' Town e nos acordes deambulantes que empoeiram Untogether, manifestam-se instrumentalmente estas experiências de vida sincera, uma jornada espiritual que nos é dada a apreciar e saborear em verdadeira plenitude.

Lotta Sea Lice é, antes de mais, um exercício de aceitação plena por parte dos autores de um estado de consciência sobre uma vida que ambos saboreiam em constante rebuliço, mas constante no modo como lidam com os diferentes sentimentos e emoções estejam em que local do mundo estiverem. É, em suma, um conjunto de canções que mostram dois seres humanos profundamente reflexivos, mas também auto confiantes e que servem-se da viola e da guitarra, seus fiéis companheiros nestas jornadas únicas e sentimentais sobre as vidas de dois músicos transportadas para uma contemporaneidade cheia de encruzilhadas e dilemas. Espero que aprecies a sugestão...

Courtney Barnett  And Kurt Vile - Lotta Sea Lice

01. Over Everything
02. Let It Go
03. Fear Is Like A Forest
04. Outta the Woodwork
05. Continental Breakfast
06. On Script
07. Blue Cheese
08. Peepin’ Tom
09. Untogether


autor stipe07 às 10:47
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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2017

Time For T - Hoping Something Anything

Gravado ao longo do ano de 2016 nos Spitfire Audio Studios em Londres, produzido pela própria banda e masterizado por JJ Golden (Rodrigo Amarante, Devendra Banhart, Vetiver) em Ventura, California, Hoping Something Anything é o novo registo de originais dos Time for T de Tiago Saga. Refiro-me a um projeto nacional mas com raízes em Inglaterra, mais concretamente em Brighton, por este jovem com genes britânicos, libaneses e espanhóis que cresceu no Algarve. Enquanto estudava composição contemporânea na Universidade de Sussex, Inglaterra, Tiago Saga foi criando a sua própria sonoridade assente na world music e na folk rock anglo-saxónica com outros músicos que foi conhecendo e com quem foi partilhando as mesmas inspirações, nomeadamente Joshua Taylor (baixo), Martyn Lillyman (bateria), Oliver Weder (teclas), os seus parceiros nestes Time For T. Andrew Stuart-Buttle (violino), Harry Haynes (guitarra eléctrica) e Louis Pavlo (teclas) foram outros convidados especiais de um disco que viu a luz do dia a quinze de Setembro último, à boleia da Last Train Records, editora que os Time For T têm em parceria com a banda amiga de Brighton, os Common Tongues.

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Banda eclética no modo como abraça diferentes influências e sonoridades, os Time For T tanto deambulam pela folk como pelo rock psicadélico e nesse balanço, lá pelo meio, tanto piscam o olho à tropicália, como é o caso das batidas e dos arranjos de Ronda, como ao próprio jazz, exuberante nos sopros e nas teclas de Back to School, indo também até ao blues experimental em India, aquele rock mais impulsivo e cru, audível em Rescue Plane e ao mais boémio que procura ser melodicamente acessível, sem deixar de exalar profundidade lírica, um ideário concetual que a divertida Wax plasma na perfeição.

Este é, portanto, um compêndio de catorze canções ecléticas, com metade delas compostas logo desde o lançamento do ep homónimo do grupo em janeiro de 2015 e a outra metade inspiradas pela viagem de Tiago Saga à India no início de 2016. Mas, independentemente deste balizar temporal, cada uma delas tem vincada a sua própria identidade, estando todas de certo modo livres daquelas amarras que uma produção demasiado cuidada e límpida muitas vezes causa. Como o disco foi produzido pelos próprios Time For T, os temas acabam por soar aquele charme genuíno que os registos mais orgânicos quase sempre possuem. Ao vivo as versões dos temas não deverão diferir muito, nomeadamente em termos de arranjos e esse é, claramente, outro grande atributo deste Hoping Something Anything, um disco para ser escutado e saboreado num final de tarde relaxante e, de preferência, solarengo, juntamente com um bom chá,quente ou frio. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:29
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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2017

Deerhoof - Mountain Moves

Os Deerhoof de São Francisco, formados por John Dieterich, Satomi Matsuzaki, Ed Rodriguez e Greg Saunier, estão de regresso aos discos com mais quinze canções, certamente impregandas com um indie rock carregado de distorções e pesadas batidas que chocam com o punk e o hip hopriffs carregados de groove e toda a amálgama desorientada de texturas sonoras que possas imaginar. A rodela é já a décima quarta do grupo, chama-se Mountain Moves e viu  luz do dia através da Joyful Noise Recordings.

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Sempre inventivos e com uma intocável capacidade em proporcionar, disco após disco, canções e alinhamentos que tanto contêm um travo experimentalista indisfarçável como parecem ir ao encontro das regras mais convencionais da pop contemporânea, os Deerhoof mantêm-se convictamente decididos não só a rasgar toda a sua herança e ir apontando novos direções e rumos, mas também a reforçarem o arsenal de canções que têm à disposição para agradar ao mainstream e assim manterem-se na linha da frente dos projetos mais consensuais e escutados dentro do universo sonoro em que se inserem.

É um facto que nos Deerhoof quanto maior for a sensação de caos e confusão nos nossos ouvidos, maior é a vontade que se tem de elogiar a sua música e neste Mountain Moves aquele lixo sonoro, completamente metafórico e sublime que eles apresentaram em discos tão emblemáticos como Breakup Song, ou o antecessor La Isla Bonita, mantém os seus altíssimos padrões qualitativos, com a voz da japonesa Satomi Matsuzaki, uma miúda cheia de energia, com quem dá vontade de rebolar num jardim e acabar com a boca cheia de húmus e pétalas de jasmins e malmequeres, a ser, ainda por cima, aquele detalhe que não nos faz hesitar em qualquer instante relativamente ao desejo de escutar este trabalho com frequência e de o balizar com natural louvor.

Disco que também impressiona pela presença de algumas versões, com destaque para o tema Gracias a La Vida, um original da chilena Violeta Parra, assim como Freedoom Highway, tema do cardápio setentista dos The Staple Singers e ainda, no final do alinhamento, Small Axe, de Bob Marley, Mountain Moves conta também com as participações especiais do rapper Awkwafina em Your Dystopic Creation Doesn't Fear You, uma luminosa e divertida canção conduzida por cordas inebriantes e das cantoras Laetitia Sadier no funk assertivo de Come Down Here & Say That, Juana Molina, na estrutura caótica, barulhenta e tematicamente reinvindicativa de Slow Motion Detonation e Jenn Wasner no rock enérgico de I Will Spite Survive. São artistas que conferem ao disco um clima ainda mais abrangente e onde abundam guitarras, sintetizadores, sinos, tambores, violas, xilofones e uma praga de instrumentos que nos consomem, numa filosofia de montagem de canções em torre, com loopings e riffs até que a tal torre pareça uma canção e dela se liberte uma energia que nos impele ao movimento indiscriminado.

Mountain Moves é um excelente exemplo do poder de diversão que a música pode ter e, numa banda que, imagine-se, vai já no décimo quarto trabalho da carreira e consegue sempre ser, ainda, familiar e surpreendeente, esta vitalidade no modo como constantemente se reinventa, é um dos maiores elogios que se pode fazer a um alinhamento que comprova que dificilmente os Deerhoof têm concorrência á altura, mantendo intacta a sua ideologia e abraçando, simultaneamente, o inedetismo com grande relevância. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 20:57
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Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

Tomara - Favourite Ghost

Já chegou aos escaparates Favourite Ghost, o disco de estreia do projeto Tomara da autoria de Filipe Monteiro, um músico que começou por estudar Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes e que trabalhou em vídeos e na parte visual de concertos de nomes como os já extintos Da Weasel, mas também com Paulo Furtado, David Fonseca, Rita Redshoes, António Zambujo e Márcia. São oito canções plenas daquela nostalgia que provoca encantamento e torpor, temas que enquanto suavemente entram pelos nossos ouvidos, inapelavelmente nos arrebatam e conquistam e em definitivo.

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Logo nas cordas de Hollow Filipe Monteiro convida-nos ao exercício de contemplar o mundo que nos rodeia e, emsimultâneo, a acompanhar o modo como ele também observa o mesmo espaço exterior, mas com uma assertividade incomum, referindo que o mesmo se constrói de exercícios filosóficos que se transformam em tratados lançados para o barulho dos nossos dias e que é importante, vestirmo-nos, se de sapiência formos ricos, do que vale a pena. Este convite inicial e a posterior citação do autor acabam por ser o mote para um álbum que faz uma reflexão crítica bastante pessoal de uma contemporaneidade comum a todos nós, mas que pode ser observada e analisada com diferentes olhares e através de diversos ângulos, sendo o de Filipe claramente aquele que privilegia a componente visual e a musicalidade dessa mesma abordagem.

O disco prossegue e o balanço suave das teclas, as guitarras efusivas e a bateria marcante de Coffee And Toast, a primeira amostra divulgada de Favourite Ghost, remete-nos exatamente para esse universo impressivo, em que a música possibilita a formulação de um ideário e uma trama passíveis de desfilar pela nossa mente, neste caso explicada, novamente pelo próprio autor, como uma canção que narra de forma bela e redentora dias em que a felicidade foi, circunstancialmente, mergulhada num qualquer nevoeiro desordenado e difícil, quase penumbroso, mas com a música a voltar a colocar tudo nos eixos, já que devido a ela o amor emerge ressoante.

Daí em diante, qual soberano dos afetos, Filipe tanto nos faz sorrir sem medo do amanhã defronte da luz que exala da folk intuitiva que reina na acusticidade do tema homónimo, como faz balançar suavemente todo aquele caldo de sentimentos e ressentimentos que o nosso coração guarda sem rancor ao som da guitarra eletrificada que sustenta For No Reason, conseguindo também a proeza de, na pop caleidoscópica algo intrincada de Hope for The Beast, nos fazer acreditar piamente que por detrás dos nossos maiores monstros poderá estar aquele às de trunfo que precisamos de levar a jogo para que tudo volte a fazer sentido.

Favourite Ghost é um manual delicioso de exorcização e crença, com o bónus de carregar nos ombros além do rico manancial lírico que permite tal desiderato, conter ainda deliciosas canções adornadas por uma tranquilidade acústica, uma filosofia estilística que impressiona e fica exemplarmente descrita, guiada quase sempre por guitarras, ora límpidas, ora plenas de efeitos eletrificados algo insinuantes, mas sempre com uma profunda gentileza sonora. Muitas vezes, como é o caso de Land At The Bottom Of The Sea, a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave e depois, canções como a cândida e intimista The Road ou o minimalismo suave delicioso de House, são outros exemplos extraordinários de temas que transbordam uma majestosa e luminosa melancolia.

Favourite Ghost conta com algumas participações especiais, nomeadamente Márcia na voz, no tema House e depois o quarteto de cordas de Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano e Ana Claúdia Serrão, que já gravaram, por exemplo, com Old Jerusalem e João Cabrita, João Marques e Jorge Teixeira nos sopros. Confere, já a seguir, a entrevista que o Filipe Monteiro gentilmente me concedeu e espero que aprecies a sugestão...

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Hallow

Coffe And Toast

Favourite Ghost

For No Reason

Hope For The Best

The Road

House (feat. Marcia)

Land At The Bottom Of The Sea

Olá Filipe. Obrigado pelo tempo que disponibilizas para responder ao meu blogue. É um gosto ouvir o teu disco de estreia, que me encantou imenso, confesso. Estudaste Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes e trabalhaste em vídeos e na parte visual de concertos de nomes importantes do nosso panorama musical. Como surgiu a ideia de te tornares também um músico?

Na verdade sempre fui músico ainda antes de ser tudo aquilo que mencionaste. O percurso que fui traçando na área do vídeo e da realização foi sendo construído sempre em paralelo com a musica. Após a “extinção” dos Atomic Bees, banda da qual fiz parte em finais dos 90’s, continuei a tocar com a Rita Redshoes (vocalista dos Atomic) e acompanhei-a em estúdio e no palco durante os dois primeiros discos. E agora toco com a Márcia desde 2011 e produzi o Casulo de 2013. A musica sempre esteve nos meus dias, antes de tudo o resto.

Favourite Ghost é, então, o título do teu álbum de estreia. Um título muito curioso que sustenta, na minha opinião, oito canções ambiciosas, impecavelmente produzidas e com um brilho raro e inédito no panorama nacional. Começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as tuas expetativas para este novo trabalho e como surgiu o título?

A minha grande expectativa, até agora, era terminar o disco porque foi um processo muito longo. Comecei a trabalhar nele em 2011 e só agora é que vai ver a luz do dia. Agora que está prestes a ser editado acho que o máximo que posso desejar é que ele consiga chegar aos ouvidos de quem por ele se afeiçoe. Não muito mais que isso, e já não é pouca coisa nos dias que correm.

O titulo vem de uma das canções que o compõem. Foi uma canção que escrevi para a minha filha que tem agora 5 anos e meio. É uma canção muito especial para mim e sintetiza muito do que é abordado no disco; fala de um amor incondicional, mas também do medo, da esperança e do Futuro. Os favourite ghosts são os medos essenciais que nos podem vir a definir, para o bem e para o mal, se não aprendermos a lidar com eles. Todo o disco é um reconhecimento desses medos ou fantasmas; uma tentativa de os olhar nos olhos e aprender a conviver com eles. E se não são ultrapassáveis, pelo menos para já, então que os mantenhamos à vista e por perto. Aprender a conviver com isso.

Quando é que este álbum começou a nascer na tua mente?

É uma vontade que vem desde sempre, mas que arrumei numa caixa, longe da vista, durante muitos anos. Mas a ideia concreta de fazer o disco, de assumir isso para mim próprio começou algures em 2011. Daí até hoje foi todo um processo demorado, com muitas interrupções pelo caminho. Se o disco hoje existe devo-o à Márcia que me “empurrou” para o fazer. E me amparou durante todo o processo.

Como é o teu processo de composição? Em que te inspiras para criar estas melodias que me pareceram tão próximas e que cativam com tanta intensidade? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea, ou são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?

Não tenho uma regra. E neste disco isso acontece. Há canções que nasceram da forma mais irreflectida que se possa imaginar. E a maioria talvez tenha surgido assim. Depois nos arranjos é que talvez as coisas difiram muito de caso para caso. A Coffee and Toast e a Favourite Ghost, por exemplo, são canções que levaram algum tempo até encontrarem a sua forma final. Mas quando encontro o “sitio” certo para uma canção é-me muito fácil reconhecê-lo. A For no Reason ou a House são canções cujo arranjo eu encontrei muito instintivamente, tal como os temas instrumentais.

Li algures que Favourite Ghost debruça-se sobre a capacidade de fazermos escolhas e filtramos o que mais nos interessa e nos faz feliz neste barulho dos nossos dias. É mesmo esta, no fundo, a grande mensagem que queres transmitir neste disco?

Essa citação é do Ricardo Mariano que escreveu o press release para o disco. Eu acho que estou demasiado próximo para conseguir ter a necessária lucidez. Mas fiquei muito feliz quando li essa frase por perceber que do disco ele teria retirado essa ideia. E gosto de acreditar que o disco transmite isso. Uma ideia de necessidade de auto-preservação daquilo que é mais importante para cada um. Não é fácil manter o tino nos dias que correm.

Favourite Ghost conta com algumas participações especiais, nomeadamente Márcia na voz, no tema House e depois o quarteto de cordas de Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano e Ana Claúdia Serrão, que já gravaram, por exemplo, com Old Jerusalem e João Cabrita, João Marques e Jorge Teixeira nos sopros. Como foi selecionar e agregar nomes tão ilustres à tua volta? Eram pessoas com quem quiseste desde logo, à partida, trabalhar neste disco, ou foram surgindo e sendo convidadas à medida que as canções iam tomando forma no teu âmago?

A Márcia foi uma escolha óbvia. Além de ser a minha grande companheira de Vida foi a pessoa que me levou a assumir que queria fazer um disco, e que tinha de o fazer. Devo-lhe isso e muito mais. E a canção que cantamos só poderia ser cantada por nós, a dois.

As cordas e os metais surgiram já na recta final de produção do disco. Algumas canções pediam para crescer mais um pouco. E procurei, entre amigos, as pessoas certas para me ajudarem a concretizar isso.

Confesso que o que mais me agradou na audição deste álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase imperceptível, conferindo à sonoridade geral de Favourite Ghost uma clara sensação de riqueza e bom gosto. Em termos de ambiente sonoro, o que idealizaste para o álbum inicialmente correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Alterações de fundo não. As canções foram crescendo lentamente. Como o processo foi tão demorado fui tendo tempo e distância para as imaginar com muita calma. Por isso não houve nenhum volte face em nenhuma canção. Simplesmente umas estiveram mais tempo em gestação.

Durante a feitura do disco, houve outros que tivesses ouvido muito e te tenham influenciado?

Nem por isso. Ou pelo menos não directamente ou conscientemente. Aquilo que ouço e me cativa não me faz necessariamente querer estar próximo artisticamente. Um dos discos que mais ouvi nestes últimos tempos foi o do Benjamin Clementine. O disco inspira-me imenso mas se calhar a outros níveis, não propriamente na musica que faço. Acho que só consigo fazer aquilo que sou. E eu não sou o Benjamin Clementine. Mas sinto as influências muitas vezes quando componho. E não fujo delas. São referências que fui acumulando ao longo dos anos e algumas nem são propriamente de artistas que tenha ouvido assim com tanta intensidade. Mas estão próximos do meu DNA.

O teu single Coffee and Toast, teve, na minha opinião, uma excelente e justa aceitação, quer por parte do público, quer por parte da crítica. Surpreendeste-te com a popularidade de uma canção que até não vai muito de encontro aos géneros populares do momento e tal facto também te fez aumentar as expectativas relativamente a este pontapé de saída do projeto Tomara?

Fiquei muito feliz com a recepção ao Coffee and Toast. Tenho perfeita consciência que a minha musica não é talhada para um mainstream e daí as minhas expectativas centrarem-se apenas na vontade de que a musica chegue aos ouvidos de quem dela possa gostar. E sei que esse público existe. Acho que foi um primeiro passo bonito.

Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantares em inglês e a opção será para se manter?

Não existe nenhuma razão especial excepto o facto de me sentir bem a cantar e escrever em inglês. Foi e é uma ambição minha para este projecto ter canções em português porque acho que não há forma mais intensa de comunicar do que na nossa própria língua. Mas neste disco isso acabou por não fazer sentido porque as canções nasceram desta forma e nesta língua. Tentar forçar isso pareceu-me um exercício contra-natura, que iria retirar muita da honestidade que reconheço no disco. No futuro sim, espero conseguir fazer isso e inclusive ter outras vozes a cantar com a minha. Pode parecer estranho dizer isto de um projecto em que gravo os instrumentos todos e canto as canções sozinho, mas a minha ambição para TOMARA é que se torne cada vez mais um projecto colaborativo e não solitário. Este foi apenas o primeiro passo e teve de ser dado desta forma.

O que vai mover Tomara será sempre esta pop folk simultaneamente vibrante e contemplativa, com pitadas de jazz e blues, ou gostarias ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico deste projeto?

Não tenho fronteiras estilísticas para além do meu próprio DNA musical. O processo criativo leva-te sempre (se estiveres aberto a isso) a alargar as tuas próprias fronteiras e acho que isso irá acontecer naturalmente. As minhas “raízes” Folk talvez se mantenham perenes no caminho mas abrem espaços para deixar entrar outras cores. E isso é um processo orgânico e contínuo. Nunca farei um “esforço” para chegar a determinada sonoridade porque isso seria travestir-me artisticamente e não acredito nisso. Pelo menos não para mim.

Obrigado! Um abraço ☺

Obrigado eu pelas perguntas atentas e generosas.


autor stipe07 às 21:52
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Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017

Oh Sees - Orc

Viu a luz do dia a vinte e cinco de agosto último, através da Castle Face, a editora do próprio John Dwyer, Orc, o novo e décimo nono álbum da carreira dos norte americanos Thee Oh Sees, um regresso aos lançamentos discográficos que se saúda desta banda californiana que também acaba de mudar mais uma vez de nome, algo que não é inédito nas cerca de duas décadas que já leva de carreira.

Resultado de imagem para oh sees 2017

Querendo ser conhecido a partir de agora simplesmente como Oh Sees (sem o The), este quinteto apresenta em Orc dez canções que mantêm uma elevada bitola qualitativa que sobrevive à custa do modo astuto como o grupo continua a abanar-nos com riffs agressivos e esplendorosos que, quer se prolonguem por músicas completas, ou por instantes das composições, têm sempre uma forte vertente hipnótica e uma ilimitada ousadia visceral, que explode em cordas eletrificadas que clamam por um enorme sentido de urgência e caos, num incómodo sadio que já não nos deixa duvidar acerca do ADN destes agora Oh Sees.

Logo no frenesim impulsivo e até algo inquietante de The Static God Dwier e no fulgor progressivo de Raw Optics Dwyer baliza, nesses que são os temas de abertura e de encerramento do disco, o ambiente geral de Orc, sendo ajudado de modo particular pelos bateristas Dan Rincon e Paul Quattrone nessa demanda. Se nestes dois temas ambos exalam uma deliciosa cumplicidade percurssiva, a mesma atinge o ponto mais alto quando nos instantes instrumentais da majestosa Keys To The Castle, sem serem tão exuberantes, responsabilizam-se por juntar todos os cacos, na forma de efeitos, cordas de guitarra e até de violino que Dwyer atira, conforme lhe apetece, para cima de uma base sonora tremendamente lisérgica e sensorial. Depois, no blues boémio e desmedido de Jettisoned, no arsenal de efeitos que abastece Paranoise e nas teclas setentistas que recriam o experimentalismo psicadélico de Cadaver Dog, Dwyer não disfarça minimamente a predileção que atualmente nutre por misturar de modo aparentemente anárquico alguns dos cânones clássicos do rock alternativo com o heavy metal e o rock progressivo, além de outros subgéneros de um rock que não se coibe de receber de braços abertos tudo aquilo que o músico tiver para testar. E realmente Dwyer testa, experimenta e recria sem ter o mínimo receio de colocar em causa, se tal for necessário, a impossibilidade de confrontar o ouvinte com o melodicamente acessível, já que aquilo que realmente lhe parece importar verdadeiramente é criar e recriar sobrepondo e alternando climas e formatos, de modo a dar vida à sua incasiável alma roqueira.

Edifício sonoro brilhante e cheio de vida e cor, Orc possibilita aos Oh Sees atravessarem novamente as barreiras do tempo e manterem-se, ao mesmo tempo, joviais e coerentes. Para delírio dos fiéis seguidores, o grupo mantém intata a sua insana cartilha de garage folk rock blues com uma capacidade inventiva que se pronuncia instantaneamente, através de um desejo inato de proporcionar o habitual encantamento sem o natural desgaste da contínua replicação do óbvio. A verdade é que o som deste grupo é, cada vez mais, uma espécie de roleta russa e um caldeirão de originalidade, que acaba por transportar o ouvinte para uma espécie de bad trip musical, através de um veículo sonoro que se move através de uma sucessão de loopings bizarros, mas ainda assim dançantes. Espero que aprecies a sugestão... 

Download Oh Sees   Orc (2017) Mp3

01. The Static God
02. Nite Expo
03. Animated Violence
04. Keys to the Castle
05. Jettisoned
06. Cadaver Dog
07. Paranoise
08. Cooling Tower
09. Drowned Beast
10. Raw Optics

 

 


autor stipe07 às 20:51
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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

Alvvays - Antisocialites

Os canadianos Alvvays de estão de regresso aos discos com Antisocialites e a tornarem-se num caso sério de popularidade, essencialmente devido ao modo particularmente genuíno e até algo ingénuo com que replicam aquele indie rock de cariz lo-fi, que parece andar um pouco arredado da linha da frente dos lançamentos discográficos, muitas vezes em detrimento de sonoridades mais sintéticas e supostamente intrincadas, que fazem tantos projetos perderem-se um pouco numa espécie de descontrole sonoro, em que não se sabe muitas vezes quais os pontos de partida e de chegada em termos conceptuais. É uma ânsia desemesurada de abarcar, em simultâneo, vários estilos e géneros, como se a capacidade de agregar o mais possível fosse permissa essencial na hora de avaliar a bitola qualitativa de um disco. Estes Alvvays merecem crédito por fazerem exatamente o contrário; fidelizaram-se num espetro sonoro específico e fazem-no sem despudor e com enorme criatividade.

Resultado de imagem para alvvays band 2017

Em quase quarenta minutos Antisocialites personifica esta fuga feliz ao mainstream sonoro que descrevi. Mais maduros do que numa estreia que há três anos revelou a quem os quis ouvir um indie rock anguloso e com um certo travo punk salutar, agora oferecem-nos canções com uma luminosidade muito peculiar, um sabor a optimismo que as guitarras frenéticas e o falsete de Plimsoll Punks e a epicidade melódica e nostálgica de In Undertow ilustram na perfeição, mas que também não deixa de estar presente no modo como vários efeitos cósmicos trespassam a bateria sincopada e a guitarra plena de reverb de Hey, no clima surf punk de Your Type e, num outro prisma, na doce ternura complacente do travo acústico de Already Gone e no hipnotismo ique incendeia Forget About Your Life.

Sabendo como não cair na repetição monótoma tendo em conta a especificidade do som que tocam, os Alvvays explicam e mostram neste Antisocialites como ainda é possível olhar para o rock alternativo de outros tempos e trazê-lo novamente à tona de modo brilhante, charmoso e convicto, sem parecer que copiaram uma fórmula já algo desgastada pelo tempo e por uma imensidão de bandas que muitas vezes não conhecem a melhor forma de abordar esta sonoridade carregada de especificidades e ao mesmo tempo tão simples e rica. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:27
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