Quinta-feira, 29 de Junho de 2017

The Drums – Abysmal Thoughts

Oriundos de Brooklin, em Nova Iorque, os The Drums foram formados ainda na década passada por Jonathan Pierce e Jacob Graham e são um dos grandes nomes do movimento saudosista de revitalização do lo-fi, que tem feito escola no século XXI. Na verdade, continuam a ser uma daquelas bandas que pura e simplesmente não custa nada gostar, apesar dos momentos menos felizes que viveram ultimamente e que ditaram praticamente o ocaso do projeto quando, em 2010, o guitarrista Adam Kessler abandonou o projeto. Agora, alguns anos depois, o grupo ainda procura estabilizar-se numa posição de relevo dentro do espetro sonoro que calcorreia, procurando fazê-lo à boleia de Abysmal Thoughts, doze canções que viram recentemente a luz do dia à boleia da ANTI Records. 

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Sucessor do pouco entusiasmente Encyclopedia, este Abysmal Thoughts é um passo firme na reabilitação de uns The Drums que corriam o sério risco de cairem no esquecimento, depois do furor que em tempos provocaram na crítica e no grande público, principalmente devido à obra-prima Portamento. Assim, a audição deste alinhamento oferece-nos uma coleção de boas canções com uma sonoridade bastante alegre e com traços bem delimitados da etiqueta sonora da banda que obedece à velha combinação mágica, assente numa presença forte do baixo, guitarras límpidas, uma bateria cadente e frenética, vibrante e cheia de energia e, a compor o ramalhete, um Jonathan Pierce cada vez mais seguro na voz. Logo em Mirror confere-se um rock algo melancólico e ingénuo, com esta ímpar impressão nostálgica a ampliar-se no modo como o timbre da guitarra que plana sobre o tema é dedilhada em I'll Fight For Your Life e no modo como o mesmo efeito metálico conduz Blood Under My Belt.

Este auspicioso início de Abysmal Thoughts dá-nos a percepção que o antecessor Encyclopedia foi, claramente, um momento menos bom e que este terceiro trabalho é que pode ser encarado como o mais fiel depositário da filosofia estilística firmada pelos The Drums em Portamento. O modo como a percussão mantém o ritmo frenético, tema após tema, o uso exaustivo de um caraterístico timbre da guitarra, geralmente a tocar três notas, a opção pela utilização cada vez mais precisa do sintetizador como veículo privilegiado de condução melódica, exemplar na já referida canção I'll Fight For Your Life e bastante eficaz no modo inventivo como se conjuga com os metais em Your Tenderness e a forma como em temas como a surf pop luminosa de Heart Basel, ou a resilência inquietante de Are U Fucked o baixo acomoda os restantes instrumentos, dando-lhes a rugosidade e a substância que precisam para a obtenção do tal charme lo-fi presente no adn do grupo, são caraterísticas transversais ao disco que reafirmam a certeza de que parece haver uma reentrada desta banda norte-americana numa rota mais certeira.

Abysmal Thoguhts é um trabalho interessante e pensado para ser escutado como um todo, contendo bons exemplos do potencial criativo e da sensibilidade lirica desta banda. Reergue os The Drums para uma segunda vida, que será ainda mais bem sucedida se o grupo não hesitar, no futuro, em colocar o seu enorme potencial criativo na abordagem mais corajosa e extrovertida de outros espetros sonoros, sem haver necessidade de colocarem em causa o habitual ambiente nostálgico que os carateriza. Espero que aprecies a sugestão... 

The Drums - Abysmal Thoughts

01. Mirror
02. I’ll Fight For Your
03. Blood Under My Belt
04. Heart Basel
05. Shoot The Sun Down
06. Head Of The Horse
07. Under The Ice
08. Are U Fucked
09. Your Tenderness
10. Rich Kids
11. If All We Share (Means Nothing)
12. Abysmal Thoughts


autor stipe07 às 14:17
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Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Radiohead – OK Computer: OKNOTOK 1997-2017

Os Radiohead são os verdadeiros Fab Five das últimas três décadas, não só porque ainda estão criativamente sempre prontos a derrubar barreiras e a surpreender com o inesperado, como foi evidente em Moon Shaped Pool há pouco mais de um ano, mas também porque, disco após disco, acabam por continuar a estabelecer novos paradigmas e bitolas pelas quais se vão depois reger tantas bandas e projetos contemporâneos que devem o seu valor ao facto de terem este quinteto de Oxford na linha da frente das suas maiores influências.

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E tudo isto começou quando os Radiohead se tornaram, um pouco inconscientemente, no início dos frenéticos anos noventa, a melhor resposta britânica a um período aúreo do rock norte-americano, mesmo com os Blur e os Oasis, no seu país, na fase mais cintilante da carreira e com interessante aceitação nos Estados Unidos. Logo em Pablo Honey (1993), catapultados em grande medida pelo single Creep, colocaram em sentido milhões de olhares pelo mundo fora, em especial desse outro lado do atlântico, num território onde bandas como os R.E.M., os Nirvana, os Metallica, os Smashing Pumpkins, Red Hot Chili Peppers e Guns N'Roses, eram veneradas e ditavam tendências. E dois anos depois, com o excelente The Bends, os Radiohead afirmaram-se numa certeza; Embarcam numa digressão norte-americana bem sucedida e ficam em posição privilegiada de colocar as cartas na mesa junto da editora que os abriga, onde exigindo liberdade criativa, um estúdio só para si com um caderno de encargos por eles definido e a presença de Nigel Goldrich lá dentro, começam a incubar aquele que será para muitos o melhor álbum da história do rock alternativo, o majestoso e sublime OK Computer.

Vinte anos depois, aquele que viria a ser o terceiro disco do grupo acaba de ser reeditado em dose dupla, com o alinhamento integral da edição original e um segundo compêndio de canções onde constam oito lados b e três músicas inéditas; I Promise, Lift e Man Of War. Desse modo, todas as gravações originais de estúdio de OK Computer, nunca antes lançadas, são remasterizadas das fitas analógicas originais e vêem finalmente a luz do dia com uma edição intitulada OK Computer: OKNOTOK 1997-2017.

Disco com uma dimensão sonora particularmente épica e orquestral, guiado por um cardápio instrumental vasto e onde o orgânico e o sintético se cruzam constantemente, não faltando pianos carregados de cândura e cordas acústicas mas também bastante abrasivas, OK Computer destaca-se pelo típico ambiente algo alienígena, soturno e reflexivo que a banda tão bem soube recriar, uma filosofia que fica impressa logo na distorção da guitarra e na clemência da voz de Thom Yorke, em Airbag. Se esta canção impressiona pelo devaneio melódico e pela miríade de detalhes e efeitos sintetizados que contém, a emoção sensorial amplia-se majestosamente em Paranoid Android, a Bohemian Rapsody dos Radiohead, uma colagem sublime de duas canções distintas, com todos os ingredientes e clichés que estruturam o protótipo de uma canção rock perfeita e que liricamente se situa num terreno muito confortável para Thom Yorke, que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nu algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia.

A sociedade contemporânea e, principalmente, a evolução tecnológica que nem sempre respeita o ritmo biológico de um planeta que tem dificuldade em assimilar e adaptar-se ao modo como apenas uma espécie, possuindo o dom único da inteligência, coloca em causa todo um equilíbrio natural, foi, então, já nessa época, um manancial para a escrita de Yorke, na projeção de OK Computer. Assim, além dos temas já referidos, na declamação  do que é uma verdadeira ditadura das massas em Fitter Happier, na nave espacial que se despenha entre os efeitos inebriantes e a guitarra que se insinua em Subterranean Homesick Alien, na soul arrepiante da voz que encoraja um homem perdido nos seus medos e entorpecido na sua dor a partir estrada fora guiado por um espírito maior em Exit Music (For A Film), mas também na distorção bendiana da inquietante guitarra de Lucky ou no passageiro que sai de um comboio num destino ao acaso hipnotizado pela rudeza do piano e pela cândura das cordas que depois se elevam ao alto, à boleia do baixo, em Karma Police, escutamos mais vários exemplos do modo como em OK Computer, metaforicamente, ou indo diretamente ao assunto, este incomparável poeta nos recorda como poderá ser drástico viver em permanentemente desafio com a natureza, sem ter em conta o nosso verdadeiro lugar e posição, no seio da mesma.

Mas o amor é também território fértil para os Radiohead expressarem quer agruras quer instantes de puro deleite e em OK Computer há pelo menos três canções que são particularmente intensas e representativas da beleza desse sentimento máximo. Se no ambiente rugoso e vincadamente corajoso e lutador de Electioneeering transpira um lado mais selvagem do amor e a inevitabilidade do mesmo conseguir sobreviver a todos os desafios se for vivido como a expressão única e definitiva da nossa consciência, já o clima borbulhante e positivamente visceral de Let Down dá ânimo para que finalmente aquele gesto que todos sonhamos um dia conseguir fazer, mas que a timidez ou a insegurança não permitem que se concretize, possa finalmente materializar-se. Depois, No Surprises, mesmo versando metaforicamente sobre o assunto, é aquela canção de amor que tanto embala como derrete o coração mais empedernido e fá-lo sem lágrima gratuita ou qualquer ponta de lamechice.

O segundo disco desta reedição de OK Computer é fundamental para a perceção clara de todo o contexto em que o álbum inicial foi incubado e, pegando nos três temas originais, logo na ternura acústica e contemplativa de I Promise se percebe o potencial das canções que acabaram por ficar de fora do alinhamento inicial do disco, sobras que para outros projetos seriam claramente trunfos maiores. E um dos principais atributos deste segundo alinhamento, é não ter despudor em apresentar uns Radiohead conceptualmente situados, nessa fase da carreira, numa espécie de encruzilhada, devido ao clima tendencialmente orgânico de The Bends e a necessidade da banda em fazer da eletrónica uma realidade cada vez mais presente, sem colocar as cordas e a bateria de lado. Depois, se no piano e no riff de Man Of War, tema que aponta todas as fichas à herança de Pablo Honey, à semelhança, mais adiante, do instintivo rock do lado b Polyethylene (Parts 1 And 2), sentimo-nos mais felizes por podermos contemplar o bucolismo típico radioheadiano, em Lift somos forçados a enfrentar o lado mais melancólico, etéreo e introspetivo dos Radiohead, conduzidos por um faustoso instante sonoro, onde sintetizadores e cordas se cruzam, numa melodia cheia de humanidade e emoção.

No que concerne aos lados b, além da composição já referida, Lull usa de armas muito parecidas com as de Let Down, obtendo um efeito soporífero direito ao âmago muito semelhante e Meeting In The Aisle acaba por ter a curiosidade de, no modo como ritma a batida e abusa de alguns efeitos abrasivos, enquanto é adicionada uma linha de guitarra ligeiramente aguda e uma bateria que parece rodar sobre si própria, mostrar uma outra faceta da apenas aparente dúvida existencial em que viviam à época os Radiohead. O próprio jogo que se estabelece em Melatonin entre a bateria, um teclado sintetizado retro e a voz planante de Yorke, assim como o modo como A Reminder, outro tema que aborda a propensão humana para a perca, cresce de intensidade e mostra-se outra preciosa acha para a fogueira que ilumina a abrangência estilística do adn sonoro dos Radiohead, ampliam esta espécie de dicotomia entre um lado mais orgânico e outro mais sintético, também expressa, com luminosidade, frescura e cor na guitarra e nos efeitos borbulhantes de Palo Alto e, antes, em Pearly, na espiral instrumental quase incontrolada que deste tema se apodera e que acaba por atestar a segurança, o vigor e o modo ponderado e criativamente superior como este grupo britânico entrava há duas décadas em estúdio para compôr e criar um arquétipo sonoro que ainda não tem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual.

Reedição muito desejada por todos os seguidores e não só, OK Computer: OKNOTOK 1997-2017 é um lugar mágico onde pudemos, há vinte anos atrás, no apogeu da nossa juventude, canalizar muitos dos nossos maiores dilemas. E, de facto, o registo ainda se mantém atual no modo como nos faz esse convite, mas agora de modo ainda mais libertador e esotérico. À época foi um compêndio de canções que nos alertou para a urgência de observarmos como é viver num mundo onde somos a espécie dominante e protagonista, mas também observadora de outros eventos e emoções e hoje, trazendo à tona tantas memórias, pode muito bem ser aquele impulso que nos faltava para percebermos que ainda vamos a tempo de colocar em prática algumas das mais belas fantasias que há tantas décadas guardamos na nossa caixa dos desejos e que, vindo a ser revistas e moldadas pela inevitável força do nosso maior vigor e maturidade, ainda mantêm, no fundo, toda aquela inocência genuína que lhes dá a beleza e cor que só cada um de nós conhece. Espero que aprecies a sugestão...

Radiohead - OK Computer OKNOTOK 1997-2017

CD 1
01. Airbag
02. Paranoid Android
03. Subterranean Homesick Alien
04. Exit Music (For A Film)
05. Let Down
06. Karma Police
07. Fitter Happier
08. Fitter Happier
09. Climbing Up The Walls
10. No Surprises
11. Lucky
12. The Tourist

CD 2
01. I Promise
02. Man Of War
03. Lift
04. Lull
05. Meeting In The Aisle
06. Melatonin
07. A Reminder
08. Polyethylene (Parts 1 And 2)
09. Pearly*
10. Palo Alto
11. How I Made My Millions


autor stipe07 às 00:02
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Sexta-feira, 16 de Junho de 2017

Fleet Foxes – Crack-Up

Seis anos depois de Helplessness Blues, o último registo de originais, os norte americanos Fleet Foxes regressam em 2017 aos discos com Crack-Up, título inspirado num ensaio do aclamado escritor F. Scott Fitzgerald. Este novo trabalho da banda atualmente formada por Robin Pecknold, Skyler Skjelset, Casey Wescott, Christian Wargo e Morgan Henderson, vê a luz do dia à boleia da Nonesuch Records e foi produzido por Robin e Skyler, membros do grupo, misturado por Phil Ek e masterizado por Greg Calbi.

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Os Fleet Foxes são fiéis depositários da identidade mais genuína de uma América que sempre viu na folk um veículo privilegiado de transmissão de todo o seu referencial identitário. Escutar as composições deste projeto é vaguear, obrigatoriamente, pelos meandros de uma realidade civilizacional natural e humana alicerçada numa enorme massa migrante que atravessou o atlântico nos séculos XVIII e XIX, mas também nas raízes deixadas por diferentes tribos que coabitaram com a natureza durante centenas de anos sem qualquer intromissão estrangeira. Assim, mesmo que alguns detalhes eletrónicos e uma vasta miríade instrumental suportadas pelas mais recentes inovações tecnológicas aplicadas à produção musical sejam manuseadas na concepção dos seus discos, estes Fleet Foxes fazem sempre questão que as suas canções soem o mais orgânicas e nativas possível, com a mira bastante apontada ao experimentalismo folk que começou a impressionar e a espevitar tantos nomes hoje consagrados na década de setenta do século passado.

Logo na tríade I Am All That I Need / Arroyo Seco / Thumbprint Scar, se um simples acorde acústico de uma guitarra e um sussurro abrem as hostilidades, rapidamente a canção nos desassossega e plasma a típica monumentalidade espiritual deste projeto, com tambores, sopros e cordas a revezarem-se entre si numa complexa teia relacional que muitas vezes faz suster a respiração, tal é a imensidão com que nos submerge. Depois, na exuberância luminosa e optimista da dupla Cassius - – Naiads, Cassadies, uma canção, em duas, que nos impulsiona, com a ajuda dos violinos, a atingir o estrelato, mesmo que não pareça haver nada de motivador ao virar da esquina, mas também na beleza e no charme vibrante de Fool’s Errand, nos quase nove minutos verdadeiramente inspiradores e tocantes de Third of May / Ōdaigahara, uma canção conduzida por uma simples melodia de uma viola em redor da qual o piano e a bateria se insinuam continuamente e na intimista religiosidade a que o amor acaba por saber nas teclas e nas cordas de If You Need To, Keep Time On Me, fica presente uma das marcas mais importantes da identidade destes Fleet Foxes, relacionada com a capacidade que têm em servir-se da simplicidade orgânica para adoçar o nosso coração com inquietude e coragem, deixando-o no ponto para a obtenção de grandes feitos, através de um cerrar de punhos que carece de ruído excessivo ou uma intrincada teia melódica, ritmíca e estilistica para se efetivar. Por outro lado, na sobriedade da guitarra e da batida sintetizada de Mearcstapa, ou no minimalismo inicial de On Another Ocean (January / June), depois quebrado por uma guitarra que não receia distorcer no tempo certo e por uma bateria intensa e encorpada, percebe-se que quer alguns aspetos essenciais da eletrónica atual, mas também do rock de cariz mais indie também são outra marca indelével dos Fleet Foxes, abastecendo e enriquecendo ainda mais o seu cardápio sonoro, com o mesmo efeito fortemente sentimental, interior e imersivo.

Crack-Up é um retrato humanamente doce e profundo, mas também algo inquitetante e por isso revelador, da génese e dos alicerces da realidade civilizacional riquíssima do lado de lá do atlântico, uma realidade que justifica em grande medida o modo de vida fortemente evoluído e tecnológico em que vivemos, mas que tem nos seus pilares aquilo que de mais genuíno podemos experienciar enquanto seres vivos que é a vibração do interior desta terra mãe que nos alimenta e que hoje sofre de modo tão audível como aquele efeito cavernoso que encerra I Should See Memphis. De facto, a música dos Fleet Foxes tem esta espantosa capacidade de nos fazer refletir sobre aquilo que somos hoje e os desafios que nos esperam, ao mesmo tempo que enquanto manifestação artística se torna reveladora por desmascarar sensorialmente toda a pafernália biológica, física e filosófica por um lado e religiosa por outro que descreve a sociedade dos nossos dias, colocando perante nós aquilo que realmente deveria importar e fazer-nos verdadeiramente felizes que é a essência harmoniosa do que de mais virgem e intocável existe em nosso redor. Espero que aprecies a sugestão...

Fleet Foxes - Crack-Up

01. I Am All That I Need / Arroyo Seco / Thumbprint Scar
02. Cassius, –
03. – Naiads, Cassadies
04. Kept Woman
05. Third Of May / Ōdaigahara
06. If You Need To, Keep Time On Me
07. Mearcstapa
08. On Another Ocean (January / June)
09. Fool’s Errand
10. I Should See Memphis
11. Crack-Up


autor stipe07 às 21:33
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Quarta-feira, 14 de Junho de 2017

Sufjan Stevens, Bryce Dessner, Nico Muhly And James McAlister – Planetarium

Um dos registos discográficos que era aguardado com maior expetativa nas últimas semanas intitula-se Planetarium, um álbum conceptual sobre o sistema solar, que viu a luz do dia a nove de junho através da 4AD, com a assinatura dos músicos norte americanos Sufjan Stevens, Bryce Dessner, Nico Muhly e James McAlister. Com dezassete temas, o disco vinha a ser trabalhado pelo quarteto desde 2013, depois de uma performance no Brooklyn Academy Of Music, em Nova Iorque, mas já em 2011 Sufjan Stevens tinha sido convidado pelo compositor Nico Muhly a participar num projeto na galeria holandesa de arte e teatro Muziekgebouw, em Eindhoven.

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Planetarium assume em todas as suas notas uma gloriosa e cósmica viagem sonora pelos recantos do nosso sistema planetário, à boleia de um conjunto de canções inspiradas em diferentes planetas e corpos celestes, entre eles a nossa estrela, o Sol. É uma jornada que do rock progressivo à pop construída em redor de pianos melancólicos, aglutina também no seu âmago uma forte veia eletroacústica algo suave e adocicada, como se percebe, por exemplo, em Mercury, um dos grandes instantes do registo, já com direito a um vídeo a preto e branco, assinado por Deborah Johnson.

Ao longo destas jornada somos convidados a escutar uma espécie de ópera cósmica, com as diferentes canções a não viverem isoladamente, mas agregadas num todo sustentado por uma míriade instrumental extensa, que entre o orgânico e o sintético, o acústico e o elétrico,  balançam-se entre si e formam um alinhamento harmonioso por onde palpitam letras de forte cariz metafórico, que tanto são cantadas por vozes modificadas e replicadas roboticamente, mas também num registo o mais cru e humano possível.

Jupiter será talvez o tema que melhor condensa a filosofia sonora subjacente a Planetarium, mas quer a teia intrincada de efeitos e arranjos, principalmente os de sopro, em Uranus e o clima enérgico, futurista e monumentalmente percurssivo de Mars, são também composições que nos colocam eficazmente bem no centro deste recanto da nossa galáxia, sem necessidade de escafandro ou de uma veículo mais rápido que a velocidade da luz. Por outro lado, Sun ou Black Energy proporcionam instantes mais serenos e intimistas, bem à medida da imensidão e do silêncio que caraterizam o vazio cósmico.

Planetarium é uma odisseia sonora por onde confluem vários sons da mais diversa estirpe e de diferentes proveniências, mas todos cheios de vida e a criarem verdadeiras telas sonoras de um sistema solar idealizado por Stevens, Dessner, Muhly e McAlister. Apesar da dimensão universal, estes mais de setenta minutos de música foram entalhados no ventre da terra mãe e dela brotaram para se tornarem na banda sonora perfeita de um território tremendamente sensorial, assente numa arrebatadora coleção de trechos sonoros cuja soma resulta numa grande obra linda e inquietante. Espero que aprecies a sugestão...

Sufjan Stevens, Bryce Dessner, Nico Muhly And James McAlister - Planetarium

01. Neptune
02. Jupiter
03. Halley’s Comet
04. Venus
05. Uranus
06. Mars
07. Black Energy
08. Sun
09. Tides
10. Moon
11. Pluto
12. Kuiper Belt
13. Black Hole
14. Saturn
15. In The Beginning
16. Earth
17. Mercury


autor stipe07 às 15:06
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Terça-feira, 13 de Junho de 2017

Cigarettes After Sex – Cigarettes After Sex

Oriundos de El Paso, no Texas, os norte americanos Cigarettes After Sex são uma das novas coqueluches da indie pop de cariz mais ambiental. Passaram por cá há poucos dias pelo Vodafone Primavera Sound, num concerto que apanhou muitos espectadores deprevenidos, mas que deixou logo impressa a marca indistinta de uma banda que se baptizou com felicidade, já que compôe com todos os sentidos apontados à alcova, criando temas que tanto servem para o jogo de sedução, como para (traduzindo à letra) aquele cigarro que muitos gostam de queimar depois do coito.

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Liderados por Greg Gonzalez, ao qual se juntam Jacob Tomsky, Phillip Tubbs e Randy Miller, os Cigarettes After Sex abrigam a sua filosofia estilística numa sonoridade simples e nebulosa, mas bastante melódica e etérea. Os temas arrastam-se com complacência e sem pressas, espraiando-se no tempo certo, envoltos por cordas de forte pendor acústico e orgânico e muitas vezes com uma subtil vibração metálica particularmente charmosa, mas também em redor de sintetizadores assertivos e guitarras com efeitos recheados de eco, nuances que fazem sobressair a aura melancólica e mágica de um projeto que também vive da voz doce e algo andrógena de Greg.

Logo na viola e nas teclas de K., canção que abre o disco homónimo destes Cigarettes After Sex e o motivo desta análise crítica, encontra-se muito presente a marca da tal indie pop contemporânea, mas com traços de shoegaze, que tem vivido suportada pela mestria na simbiose minimal entre alguns detalhes típicos do melancólico rock oitocentista e a sensualidade onírica do melhor r&b e da eletrónica ambiental. Se projetos como os Beach House pendem um pouco a balança para o primeiro lado e os The XX para o segundo, só para citar dois entre tantos outros exemplos, estes Cigarettes After Sex equilibram-se no meio dos dois pratos, muitas vezes com uma fragilidade que chega a ser comovente. Prova disso está no modo como na brisa etérea de Each Time You Fall In Love pretendem ensinar-nos a lidar com o aparecimento desse estranho sentimento chamado amor nos nosssos corações, e como na batida de Sunsetz e nos efeitos sintéticos que rodeiam esse tema colocam em prática essa alternância contínua e quase impercetível entre diferentes estilos e com uma dose de experimentalismo bastante vincada, sendo comum o timbre de uma corda ou o flash de um botão divagarem, de mãos dadas, na mesma direção melódica.

Um dos instantes particularmente encantadores deste álbum acaba por ser Flash, canção onde um efeito de guitarra ecoante e onírico, uma batida sincopada e o timbre doce de Greg que a acompanha, nos esclarecem que se saborearmos condignamente este álbum, só nos resta deixarmos a nossa mente e o nosso espírito irem à boleia desta proposta estética assente num clima abstrato e meditativo, presente em praticamente todo o trabalho, mas com um impacto verdadeiramente colossal e marcante. Depois, em Opera House, no arrastar do ritmo da bateria quase até ao infinito e no esoterismo do efeitos de uma guitarra que marca o traço melódico do tema, contemplamos mais dois aspetos marcantes deste alinhamento e percebemos como, apesar do minimalismo constante, todos os detalhes mais eletrificados que nos vão surgindo, nesta e noutras canções, nunca defraudam o ambiente contemplativo fortemente consistente do trabalho. O efeito da guitarra no single Truly e, paralelamente, o aparecimento da bateria, um pouco mais afoita, além de consolidar essa impressão conceptual, mostra o modo exímio como o quarteto consegue que as texturas e as atmosferas que criam, transitem, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquieta todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual.

Há nos Cigarettes After Sex um assomo de elegância contida, mas que não esconde um consciente exibicionismo de uma banda que é dona e senhora de uma superior sapiência melódica. Os floreados percussivos, os acordes a transbordar de cândura, mas épicos e deslumbrantes, e algumas belíssimas letras entrelaçadas com melodias minuciosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, fazem com que seja atraente e hipnotizadora esta estranha escuridão interestelar mas marcadamente soul que, mesmo no caso de John Wayne, sendo cantada em jeito de lamúria ou desabafo, nunca deixa de encarnar um notório marco de libertação. Espero que aprecies a sugestão...

Cigarettes After Sex - Cigarettes After Sex

01. K.
02. Each Time You Fall In Love
03. Sunsetz
04. Apocalypse
05. Flash
06. Sweet
07. Opera House
08. Truly
09. John Wayne
10. Young And Dumb


autor stipe07 às 14:02
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Segunda-feira, 12 de Junho de 2017

Alt-J (∆) – Relaxer

Joe Newman, Gus Unger-Hamilton e Thom Green são três amigos que se conheceram na Universidade de Leeds em 2007 e juntamente com Gwil Sainsbury, entretanto retirado, formaram os  Alt-J (∆), banda que está de regresso aos lançamentos discográficos com Relaxer, sete originais e uma excelente cover do clássico House Of Rising Sun, dos The Animals. Recordo que este projeto começou a criar raízes quando Joe tocou para Gwil várias canções que criou, com a ajuda da guitarra do pai e de alguns alucinogéneos; Gwil apreciou aquilo que ouviu e a dupla gravou de forma rudimentar várias canções, nascendo assim esta banda com um nome bastante peculiar. Alt-J (∆) pronuncia-se alt jay e o símbolo do delta é criado quando carregas e seguras a tecla alt do teu teclado e clicas J em seguida, num computador Mac. O símbolo é usado em equações matemáticas para representar mudanças e assenta que nem uma luva à banda que se estreou em junho de 2012 nos discos com An Awesome Wave, e que, pouco mais de dois anos depois e já sem o contributo de Gwil Sainsbury, confirmou a excelente estreia com This Is All Yours, um álbum que além de não renegar a identidade sonora distinta da banda, ainda a elevou para um novo patamar de novos cenários e experiências instrumentais.

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Agora, três anos depois desse excelente registo, neste Relaxer o trio de Leeds continua a oferecer-nos canções que só mostram a sua verdadeira identidade e complexidade quando são escutadas forma viciante, com o habitual pendor orgânico de cariz eminentemente acúsatico a revelar-se de modo ainda mais esculpido e complexo, algo que nos obriga a um exercício maior na primeira percepção das novas composições, mas que eu recomendo vivamente e que asseguro ser altamente compensador.

O alinhamento de Relaxer abre com 3WW, um tema que entre a pop ambiental contemporânea e o art-rock clássico, é uma epopeia onde em quase cinco minutos se acumula à volta de um ré constante um amplo referencial de elementos típicos desses dois universos sonoros e que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica e até, diria eu, objetivamente sensual, também muito por causa da performance vocal de Ellie Roswell, vocalista dos Wolf Alice, que também pode ser escutada em Deadcrush, um trecho movido a sintetizador, rasgado por uma melodia profundamente sintética e digital. E depois, no virtuosismo da guitarra que trespassa o funk de Hit Me Like That Snare, no modo como em Pleader os Alt-J selecionaram os riquíssimos arranjos do diverso arsenal instrumental que foi monumental e cuidadosamente executado pela Orquestra Metropolitana de Londres, no trip-hop acústico de Adeline e na leveza tocante e singela de Last Year, rematada pelo modo como a voz de Marika Hackman transborda de melancolia, fica expresso um arregaçar de mangas cada vez mais liberto de uma certa formatação criativa bem balizada, com o trio a mostrar que se tem dedicado de forma mais democrática à expansão do seu cardápio sonoro, sempre com uma dose algo arriscada de experimentalismo, mas bem sucedida, já que é feita de imensos detalhes e com uma elevada subtileza.

O som complexo e profundo dos Alt-J (∆) continua a resistir com solidez e de modo exemplar ao tempo e ao sucesso. Relaxer comprova que um dos predicados que poderemos, pelos vistos, esperar sempre deste coletivo britânico, prende-se com a capacidade em inovar e ser imprevisível em cada novo registo discográfico apresentado. E este novo trabalho, naturalmente corajoso e muito complexo e encantador, ao ser desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, plasma mais uma completa reestruturação no que parecia ser o som já firmado na premissa original da banda. Espero que aprecies a sugestão...

Alt-J (∆) - Relaxer

01. 3WW
02. In Cold Blood
03. House Of The Rising Sun
04. Hit Me Like That Snare
05. Deadcrush
06. Adeline
07. Last Year
08. Pleader


autor stipe07 às 18:46
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Sábado, 10 de Junho de 2017

Ulrika Spacek – Modern English Decoration

Lançado no passado dia dois de junho através da Tough Love Records, Modern English Decoration é o mais recente capítulo da saga discográfica dos britânicos Ulrika Spacek de Rhys Edwards e Rhys William, um disco que à semelhança de The Album Paranoia, o registo de estreia editado no início de 2016, foi gravado, produzido e misturado numa galeria de arte chamada KEN e à qual os Ulrika Spacek e os três músicos que os acompanham, Ben White, Callum Brown e Joseph Stone, chamam de sua casa, a bolha onde se refugiam para compôr, idealizar vídeos e expressar-se através de outras formas de arte além da música.

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A filosofia de composição musical destes Ulrika Spacek baliza-se através de um assomo de crueza tingido com uma impressiva frontalidade quer lírica quer sonora. Na complacência enganadora de Mimi Pretend há uma guitarra rugosa e plena de efeitos metálicos, acompanhada por uma bateria falsamente rápida, e esta dupla é a mesma que vai ser depois o grande suporte das canções, em volta da qual gravitarão diferentes arranjos, quer orgânicos, quer sintéticos, geralmente com um teor algo minimal. E se a guitarra nunca perde identidade, a bateria mantém-se precisa no modo como confere alma e robustez ao ritmo de cada composição. Depois, há um baixo implacável na marcação à zona e todo este arsenal instrumental é rematado por uma voz geralmente reverberizada e que se arrasta. É um rock que impressiona pela rebeldia com forte travo nostálgico e por aquela sensação de espiral progressiva de sensações, que tantas vezes ferem porque atingem o âmago, bastanto ouvir Protestant Work Slump para se tomar contacto com esta autenticidade que desmascara quem arrisca entrar no jogo de sedução ímpar que Modern English Decoration proporciona.

Canções do calibre de Dead Museum, quase cinco minutos de um cósmico devaneio soul ou, em oposição, a indulgência acústica intensamente reflexiva do tema homónimo, plasmam também uma das maiores virtudes destes Ulrika Spacek que é a capacidade de conseguirem divagar por diferentes ângulos e espetros dentro de um universo sonoro bastante específico. Isso sucede porque corre-lhes nas veias aquela atitude claramente experimental e enganadoramente despreocupada, expressa numa vontade óbvia de transformar cada composição numa espécie de jam session, através de uma espécie de colagem de vários momentos de improviso. Se nas cordas de Saw A Habit Forming aquela pop sessentista ácida e psicotrópica, encontra o poiso ideal para se espraiar, o modo quase cínico como em Full Of Men os Ulrika Spacek nos levam a sorrir e a abanar a anca ao som de uma canção que se insinua continuamente por causa do modo algo desconexo como se vai desenvolvendo ritmíca e melodicamente, acaba por ser a expressão máxima deste modo bastante textural, orgânico e imediato de criar música e de fazer dela uma forma artística privilegiada na transmissão de sensações que não deixam ninguém indiferente.

Modern English Decoration atesta a segurança, o vigor e o modo criativamente superior como este grupo britânico entra em estúdio para compôr e criar um shoegaze progressivo que se firma com um arquétipo sonoro sem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual. Um dos discos obrigatórios do ano, claramente. Espero que aprecies a sugestão...

Ulrika Spacek - Modern English Decoration

01. Mimi Pretend
02. Silvertonic
03. Dead Museum
04. Ziggy
05. Everything, All The Time
06. Modern English Decoration
07. Full Of Men
08. Saw A Habit Forming
09. Victorian Acid
10. Protestant Work Slump


autor stipe07 às 00:05
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Quinta-feira, 8 de Junho de 2017

Underground Lovers – Staring At You Staring At Me

Oriundos de Melbourne, na Austrália, os Underground Lovers são Philippa Nihill, Richard Andrew, Maurice Argiro, Glenn Bennie, Vincent Giarrusso e Emma Bortignon. Apostam no revivalismo do rock progressivo e psicadélico, com uma forte componente experimental, que começou a fazer escola nas décadas de sessenta e de setenta. Pouco conhecidos no resto do mundo, são acompanhados com particular devoção no país de origem e considerados como uma das mais inovadoras bandas australianas, pela forma como conjugam a tradicional tríade baixo, guitarra e bateria com a tecnologia e a eletrónica que hoje prolifera na música e que permite às bandas alargar o seu cardápio instrumental. Editado através da Rubber Records, habitual depositário do catálogo da banda, Staring At You Staring At Me é o trabalho mais recente dos Underground Lovers, um disco que celebra quase três décadas da carreria do grupo e que sucede a Wonderful Things (2011) e ao excelente Weekend (2014).

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A banda iniciou a sua carreria discográfica em mil novecentos e noventa e um com um homónimo e Staring At You Staring At Me é já o décimo segundo álbum da carreira dos Underground Lovers, um grupo que passou por algumas transformações, várias entradas e saídas de elementos e com um historial típico de uma banda com um elevado número de músicos com vidas díspares e conturbadas. 

Staring At You Staring At Me são nove canções que nos permitem aceder a uma outra dimensão musical com uma assumida pompa sinfónica e inconfundível, sem nunca descurar as mais básicas tentações pop e onde tudo soa utopicamente perfeito. Apesar da já extensa carreira, confesso-me cada vez mais impressionado pela beleza utópica das composições dos Underground Lovers, algo que não falta neste álbum, assim como as belas orquestrações, que vivem e respiram, lado a lado, com distorções e arranjos mais agressivos. 

Staring At You Staring At Me denota esmero e paciência por parte de Vincent Giarrusso, o grande mentor e compositor da banda, principalmente na forma como acerta nos mínimos detalhes. Das guitarras que escorrem ao longo de todo o trabalho, passando pelos arranjos de cordas, pianos, efeitos e vozes, tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração do que escutamos tivesse um motivo para se posicionar dessa forma. Ao mesmo tempo em que é possível absorver Staring At You Staring At Me como um todo, entregar-se aos pequenos detalhes que preenchem o trabalho é outro resultado da mais pura satisfação, como se os Underground Lovers projetassem inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção, assentes num misto de psicadelia, rock progressivo, soul e blues.

O som espacial, experimental, psicadélico e melódico que a banda criou ao longo da carreira, encontra aqui o conforto que necessita para se justificar e se cimentar ainda mais, com o disco a acrescentar à bagagem sonora dos Underground Lovers novas e belíssimas texturas, mais serenas, mas que não se desviam do cariz fortemente experimental que faz parte do ADN do grupo. Assim, da luminosidade do efeito metálico da guitarra que conduz Seen It All, passando pela serenidade folk das cordas que abastecem It’s The Way It’s Marketed e Unbearable e pela elevadíssima dose de psicadelia em que assenta St. Kilda Regret, assim como pela majestosidade experimental e intensa de Glamnesia, um tema cantado com uma voz em eco entrelaçada com uma guitarra plena de distorção, dois detalhes que conferem à canção um enigmático e sedutor cariz vintage, são vários e convincentes os exemplos de rejuvenescimento de um projeto essencial para o rock alternativo australiano e não só.

Apesar da longevidade e da erosão que a instabilidade da formação provoca no seio de uma banda, os Underground Lovers parecem não ter perdido o brilho e não demonstram cansaço ou falta de inspiração. Staring At You Staring At Me tem tudo para ser mais um clássico de uma banda que mergulhada num universo sonoro um pouco mais intimista e reflexivo, continua a soar tão jovial e inventiva como soava há duas décadas. Espero que aprecies a sugestão...

Underground Lovers - Staring At You Staring At Me

01. St. Kilda Regret
02. You Let Sunshine Pass You By
03. The Conde Nast Trap
04. The Rerun
05. Seen It All
06. It’s The Way It’s Marketed
07. Glamnesia
08. Every Sign
09. Unbearable


autor stipe07 às 13:09
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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

Wavves – You’re Welcome

Pouco mais de dois anos após o lançamento de No Life For Me, um disco que resultou de uma parceria com os Cloud Nothings de Dylan Baldi e de um trabalho intitulado V, lançado pela Warner Records, editora com quem divergiram recentemente, os californianos Wavves de Nathan Williams estão de regresso com You're Welcome, o sexto álbum deste grupo com praticamente dez anos de estrada e que, atingindo este marco temporal importante para bandas contemporâneas, angaria já uma certa maturidade em torno de si.

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Editado pelo selo Ghost Ramp, You're Welcome é um atestado de maior abrangência e ecletismo de uns Wavves que sempre tiveram fortes ligações ao universo punk, mas que piscam com cada vez maior assertividade o olho à pop, apesar do riff vigoroso e frenético de Daisy, o tema que abre o alinhamento do registo. Mas depois, no ocaso, na doçura carente de I Love You, uma canção onde é fácil imaginar os Wavves numa praia perto de casa, de prancha na mão e calções bem justos, a piscar os olhos aos fatos de banho que passam e na batida ritmada e no refrão imponente da solarenga Million Enemies, fica registada esta guinada cada vez mais certeira umo a um universo sonoro menos garageiro e lo fi e mais comercial e, de certo modo, com uma outra abrangência no que concerne ao público alvo.

Seja como for, no baixo e nas quebras de ritmo de Animal, no devaneio punk, intenso e lascivo de Exercise ou no sarcasmo percetível nos samples de Come To The Valley, os Wavves continuam a ser fiéis à sua fórmula identitária que, sem grandes segredos, truques intrincados ou artifícios desnecessários, nos proporciona um som nostálgico que, como seria de esperar, contém aquela mescla entre surf music e punk rock que bandas como os The Replacements, os Green Day e até os Blink-182, cultivaram e semearam aos sete ventos, exaustivamente no final do século passado. E convém também esclarecer que é um indie rock incubado na mente de um músico que, parecendo ter maiores e mais firmes intenções comerciais, continua a não demonstrar uma obsessiva preocupação em vir a fazer parte dos compêndios futuros que compilarão nomes e bandas que serviram de referência essencial ao desenvolvimento da pop e do rock alternativo desta década.

Se a música faz parte da indústria do entretenimento, You're Welcome é uma seta apontada diretamente ao centro do alvo desse conceito de animação, através de canções rápidas e incisivas, de acordes simples e facilmente digeriveis, com refrões orelhudos e intensidade melódica suficiente para divertir uma juventude despreocupada, que vive o imediato e que olha para o amanhã como algo longínquo e que merecerá toda a atenção quando se fizer presente. Espero que aprecies a sugestão...

Wavves - You're Welcome

01. Daisy
02. You’re Welcome
03. No Shade
04. Million Enemies
05. Hollowed Out
06. Come To The Valley
07. Animal
08. Stupid In Love
09. Exercise
10. Under
11. Dreams Of Grandeur
12. I Love You


autor stipe07 às 21:30
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Domingo, 4 de Junho de 2017

Beach Fossils – Somersault

Os Beach Fossils são uma banda de Brooklyn, Nova Iorque e que começou por ser um projeto a solo de Dustin Payseur, ao qual se juntaram, entretanto, Tommy Davidson e Jack Doyle Smith. Estão de regresso aos discos com Somersault, um trabalho lançado pela Bayonet Records e que sucede a um homónimo, datado de 2010 e ao aclamado antecessor, Clash The Truth (2013). Somersault conta com a participação especial de Rachel Goswell no tema Tangerine e de Cities Aviv em Rise e contém onze canções com um têmpero lo fi muito próprio. Refiro-me a um indie rock alternativo, com leves pitadas de surf pop, eletrónica e garage rock, tudo embrulhado com um espírito vintage marcadamente oitocentista e que se escuta de um só trago, enquanto sacia o nosso desejo de ouvir algo descomplicado mas que deixe uma marca impressiva firme e de simples codificação.

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Somersault é um refúgio luminoso e aconchegante, um recanto sonoro sustentado por guitarras melodicamente simples, mas com um charme muito próprio e intenso, principalmente quando a elas se agregam outros arranjos, com a curiosidade de o violino ser uma arma de arremesso bastante utilizada nesses detalhes que adornam as melodias. Logo no enorme esgar de sorriso que comporta This Year e no clima lisérgico de Tangerine os violinos surgem amiúde, a consolidar a vertente vocal e a dar um polimento charmoso de inegável valia às guitarras, que são quem toma conta da condução dos temas. Depois, em redor da toada barroca das cordas que marcam a majestosidade de Closer Everywhere e no dedilhar corpulento e na percussão ritmada de Saint Ivy, assim como na leveza enternecedora do baixo de Sugar, esses violinos continuam a planar e a carimbar com acerto esta espécie de passeio tímido à beira mar numa manhã de sol, mas que também serve de consolo para quem tiver de se contentar com um cenário mais noturno, cinzento e urbano.

Somersault eleva os Beach Fossils a um novo patamar criativo, com as canções a abrigarem-se à sombra de uma filosofia estilística bastante marcada e homogéna, o que faz com que funcionem, individualmente, como vinhetas climáticas que vão servindo para marcar o ambiente e a cadência do mesmo. Mas, um dos maiores atributos do alinhamento é a quase indivisibilidade entre os temas, que podem ser apreciados como um todo, já que, liricamente, debruçando-se sobre as agruras de uma América cada vez mais confusa, garantem a formatação de uma obra de maior alcance e até, do modo como estão alinhados, engrandecem algumas canções menores. É o caso de Be Nothing, composição posicionada no final de Somersault e que, no modo como cresce e progride, além de personificar aquele grito de raiva que muitas vezes é imprescindível soltar no clímax de um instante reflexivo, acaba também por fazer uma súmula de todo o ideário, quer sentimental, quer sonoro, subjacente à intimidade que exala de toda a obra e que nos envolve de um modo muito particular. Espero que aprecies a sugestão...

Beach Fossils - Somersault

01. This Year
02. Tangerine (Feat. Rachel Goswell)
03. Saint Ivy
04. May 1st
05. Rise (Feat. Cities Aviv)
06. Sugar
07. Closer Everywhere
08. Social Jetlag
09. Down The Line
10. Be Nothing
11. That’s All For Now


autor stipe07 às 14:35
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