Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Girlpool - Powerplant

As norte americanas Girlpool são Cleo Tucker e Harmony Tavidad, uma dupla de jovens adolescentes californianas que se juntou em 2013 para fazer música e que se estreou dois anos depois nos discos com o excelente Before The World Was Big. Era um alinhamento de canções com uma forte componente autobiográfica e cuja temática, expetavelmente, se debruçava sobre os típicos dilemas existenciais de duas jovens que partilham um olhar muito próprio acerca da feminilidade e que não se coibem de, além da componente reflexiva, também expor experiências e factos vividos. Era um disco com uma sonoridade algo minimal, já que o baixo e a guitarra eram os dois únicos suportes de canções eminentemente introspetivas e com uma tonalidade bastante suave. Agora, dois anos depois, as Girlpool regressam com Powerplant, um disco que mantendo o mesmo conceito estilístico e sonoro, amplia, no entanto, os horizontes da dupla, que se apresenta mais madura e com novos arranjos e detalhes que vale a pena conferir.

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Powerplant abre com 123, uma canção que começa por impressionar pelo modo como Tucker e Tavidad dialogam vocalmente e que depois se torna vigorosa e até algo visceral, marcando-se, logo aí, uma clara diferença, em termos de ruído, com o conteúdo geral do disco de estreia. E depois, basta escutar atentamente o sereno dedilhar inicial da viola da conflituosa Sleepness e o modo como ela se eletrifica, para se tornar óbvio que houve aqui um propósito inicial de marcar a diferença com o antecessor, através de um som mais rugoso e encorpado. Seja como for, a melancolia sedutora que vagueia pelo efeito metálico da guitarra de Your Heart, canção sobre as habituais peripécias de um casal, ou a angústia latente nas variações rítmicas e na distorção de It Gets More Blue, elucidam-nos que Powerplant segue o objetivo claro desta fase inicial da carreira das Girlpool e que é, numa atitude confessional, aproximarem-se o mais possível daquilo que são as vivências habituais de qualquer um de nós que passou ou está a passar por aquela idade em que o amor é ainda um grande mistério e que para ser bem minimamente entendido opta-se, muitas vezes, pelo mecanismo tentativa vs erro até que este mistério chamado amor fique menos nebuloso. 

Álbum com uma intimidade muito própria e com um ambiente bastante acolhedor, Powerplant impressiona pelo efeito de espelho que poderá ter em quem o escuta de modo dedicado, ao mesmo tempo que reforça um estilo sonoro e uma abordagem ao indie rock com algumas caraterísticas bem marcadas e difíceis de encontrar em outros projetos similares. A simplicidade do baixo e da guitarra, o modo e a rapidez como esta transita do acústico ao elétrico e o recurso constante às vozes em coro são bons exemplos do modo assertivo com que as Girlpool nos incitam à reflexão. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 00:06
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Quarta-feira, 24 de Maio de 2017

Mac Demarco - This Old Dog

O canadiano Mac Demarco está de regresso aos discos com This Old Dog, treze canções abrigadas à sombra da Captured tracks e que mantendo aquela vibe um pouco descontraída e informal e o carisma irónico e bem humorado que carateriza o cardápio sonoro deste autor, transparecem, desta vez, uma faceta um pouco mais humana, séria e melancólica que o habitual.

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O indie rock de cariz eminentemente lo fi e que em Mac Demarco sustenta grande parte do seu adn em acordes de violas simples e solarengos e em algumas distorções inspiradas, continua a ser o sustento fundamental de This Old Dog, uma herança feliz que a profundidade emocional do modo como voz e guitarra se entrelaçam em Sister, canção com um final repentino que incomoda, mas também que a indulgência perene dos acordes de Dreams For Yesterday, o classicismo pop setentista de Baby You’re Out e a harmónica que ciranda por Wolf in Sheep’s Clothes, salvaguardam com notável mestria e, de modo algo inédito neste artista, com uma dimensão introspetiva pouco usual.

Mas os sintetizadores também estão cada vez mais presentes na dinâmica estilística de Demarco, principalmente desde que se tornaram num elemento chave de recriação sonora em Some Other Ones, um dos álbuns mais injustiçados da carreira do músico. E neste seu novo tomo também foram preponderantes em determinados momentos, na recriação da atmosfera conceptual pretendida. Assim, em This Old Dog, o sintetizador ameno com certo travo épico e saudosista de Watching Him Fade Away, o modo como surpreende no devaneio vintage que as teclas incorporam na curiosa On The Level e, em oposição, o posicionamento do mesmo na cândura suave da lindíssima melodia que conduz For The First Time, são três esclarecedores exemplos do modo como as teclas, mesmo parecendo estar um pouco na sombra das guitarras, são, atualmente, uma ferramenta intimamente ligada à maneira como Demarco oferece despojadamente a sua música.

Disco com uma personalidade muito própria e bastante vincada, This Old Dog renova o modo particular como Mac Demarco costuma apresentar-se aos seus seguidores, oferecendo um pouco mais de si, na medida em que expôe com maior clareza sentimentos e opiniões sobre eventos e factos quotidianos que testemunha ou protagoniza, mas também mostrando uma superior dose de maturidade que acaba por deixar a sua carreira numa espécie de encruzilhada, no sentido positivo do termo. Aguarda-se, seneramente, os próximos discos para saber se esta inflexão temática terá continuidade ou foi apenas um ligeiro e bem sucedido desvio. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 00:25
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Quarta-feira, 3 de Maio de 2017

Feist - Pleasure

Seis anos depois de Metals, o seu último registo de originais, a canadiana Feist regressou em 2017 aos discos com Pleasure, um compêndio de onze canções gravado ao longo de três meses, entre Stinston Beach, Nova Iorque e Paris. Pleasure foi produzido pela própria autora, com a ajuda dos habituais colaboradores Renaud Letang e Mocky e chegou aos escaparates a vinte e oito de abril, à boleia da Interscope Records.

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Descrito pela própria autora e compositora como um trabalho em que a mesma explorou até aos limites todas as emoções que foi sentindo nos anos mais recentes e onde sensações de solidão, vergonha, rejeição, perca e até falta de auto-estima foram presença assídua, Pleasure teve como single de apresentação o tema homónimo, uma canção que impressiona pela tonalidade rock, simultaneamente agreste e sedutora, confirmando que Feist, além de excelente compositora, é também uma das guitarristas mais versáteis da atualidade. E através desse chamariz percebemos logo que nos últimos anos muita coisa mudou na carreira desta canadiana ex Broken Social Scene, cada vez mais íntima da típica rugosidade, visceralidade e sujidade do rock e do blues, em detrimento da luminosidade pop e do jogo intrincado e floral que muitas vezes estabeleceu, com algum conforto e elevado acerto, nos primeiros discos, nomeadamente no estreante Monarch (1999), entre diferentes espetros da pop e da folk

Seja como for, aquilo que não mudou em Feist ao longo de todo este tempo foi a beleza da sua voz, irrepreensível na emotividade ao longo de todo o disco e particularmente expressiva e acutilante no já referido single Pleasure, num registo vocal que também serve de eficaz contraponto à simplicidade melódica desse tema. Mas se há canções que me causaram impacto particularmente positivo foram Any Party e, principalmente, A Man Is Not His Song, composições que bem no centro nevrálgico do alinhamento de Pleasure, ao serem triunfalmente exaltadas pelo posicionamento vocal de várias vozes em coro e por sonoramente apostarem todas as fichas numa filosofia estilística de elevado cariz lo fi, não só vão de encontro aquelas que são as minhas mais recentes preferências dentro do universo pop, mas também porque firmam indelevelmente a nova chancela identitária de Feist.

Pleasure relembra-nos com clareza por que razão Feist continua a ser um sopro de frescura no universo pop, mais que não seja pelo modo como se reinventa sem colocar em causa quer os seus desígnios enquanto cantora e compositora quer pela eficácia na preservação do seu exército de seguidores devotos que vão conseguindo moldar-se e aconchegar-se a cada nova inflexão que planeia e executa. Ela já não traz permanentemente debaixo do braço o conforto da guitarra acústica e o seu piano acutilante, mas mantêm-nos sob encantamento, mesmo ligada de modo mais vincado à corrente, ao ponto de ainda ser uma das artistas que maior peso sentimental, paz de espírito e sensação de distância do mundo nos confere, através dos seus álbuns. Espero que aprecies a sugestão...

Feist - Pleasure

01. Pleasure
02. I Wish I Didn’t Miss You
03. Get Not High, Get Not Low
04. Lost Dreams
05. Any Party
06. A Man Is Not His Song
07. The Wind
08. Century (Feat. Jarvis Cocker)
09. Baby Be Simple
10. I’m Not Running Away
11. Young Up


autor stipe07 às 22:19
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Segunda-feira, 27 de Março de 2017

Feist - Pleasure (single)

Feist - Pleasure

Seis anos depois de Metals, o seu último registo de originais, a canadiana Feist regressa em 2017 aos discos com Pleasure, um compêndio de onze canções gravado ao longo de três meses, entre Stinston Beach, Nova Iorque e Paris. Pleasure foi produzido pela própria autora, com a ajuda dos habituais colaboradores Renaud Letang e Mocky e chegará aos escaparates a vinte e oito de abril, à boleia da Interscope Records.

Descrito pela própria autora e compositora como um trabalho em que explorou até aos limites todas as emoções que foi sentindo nos anos mais recentes e onde sensações de solidão, vergonha, rejeição, perca e até falta de auto- estima foram presença assídua, Pleasure tem como single de apresentação o tema homónimo, uma canção que impressiona pela tonalidade rock, simultaneamente agreste e sedutora, confirmando que Feist, além de excelente compositora, é também uma das guitarristas mais versáteis da atualidade. Confere...


autor stipe07 às 13:39
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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017

Heat – Overnight

Montreal, em pleno Quebec, no Canadá, é o habitat natural dos Heat, um trio de post punk formado por Susil Sharma, Matthew Fiorentino e Raphaël Bussières e que acaba de editar Overnight, o longa duração de estreia do projeto, disponivel para audição e aquisição, em formato digital e fisicamente em vinil, na plataforma bandcamp.

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É algures entre uma certa luminosidade épica e um relativo negrume lo fi que estes Heat se sentem confortáveis a dar à luz canções iluminadas por uma fragilidade incrivelmente sedutora, à medida que deixam as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural e assumirem uma faceta bastante saudosista, para criar um cenário musical tipicamente rock, esculpido com cordas ligas à eletricidade, mas com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, numa exibição consciente dequela sapiência melódica que fez escola no período aúreo do rock alternativo, em plenos anos oitenta do século passado.

Este desígnio é logo audível na imponência de City Limits e no frenesim vibrante de Sometimes, mas também no clima mais luxuriante e pomposo de Lush, composição de forte cariz orquestral, feita com deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, que carregam uma sobriedade sentimental esplendorosa, rematada por um curioso charme vocal. Este tema, escolhido para single do disco, acaba por ser um exemplo feliz do modo como nestes Heat é possível conferir leves pitadas de shoegaze e post rock, sem levar o tabuleiro onde as diferentes peças se movimentam para um território demasiado experimental.

Na verdade, todos os temas de Overnight têm esta toada eminentemente retro e que exala algo de grandioso e implicitamente sedutor. É um trabalho cheio de belos instantes sonoros pop, que atingem um elevado pico de magnificiência não só nos temas já referidos, mas também, por exemplo, no clássico rock anguloso que abastece Cold Hard Morning Light e na solidez estilística em que guitarra e bateria se envolvem em Long Time Coming.

Além de imprimir com uma áurea melancólica e mágica um projeto que não se envergonha de homenagear algumas referências óbvias de finais do século passado, Overnight tem a mira bem apontada ao nosso âmago, plasmando sonoramente sensações positivas, provocadas por um processo de criação sonora que, no caso deste grupo, deverá ter sido pleno de momentos reconfortantes de incubação melódica. Estes Heat merecem ser vistos, logo à partida, como uma banda extremamente criativa, atual, inspirada e inspiradora e que sabe como se posicionar em posição de destaque no espetro sonoro em que se movimenta. Espero que aprecies a sugestão...

Heat - Overnight

01. City Limits
02. Sometimes
03. Lush
04. The Unknown
05. Rose De Lima
06. Cold Hard Morning Light
07. Still, Soft
08. Long Time Coming
09. Chains


autor stipe07 às 09:11
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

Arcade Fire - I Give You Power

Arcade Fire - I Give You Power

Três anos depois do excelente Reflektor e de dois discos a solo de Will Butler, os canadianos Arcade Fire aproveitaram a tomada de posse de Donald Trump para apresentarem ao mundo aquele que é também um claro manifesto político e de protesto claro, parece-me, ao novo rumo tomado pelo país vizinho. A canção chama-se I Give You Power e conta com a participação especial vocal de Mavis Staples, importante diva do R&B e do gospel norte-americano.

Tema que deverá fazer parte do novo disco da banda, a editar ainda em 2017, I Give You Power segue um pouco a linha delineada já em Reflektor, ou seja, cada vez mais distantes do rock impetuoso dos primórdios, os Arcade Fire apostam agora na preponderância dos beats, com o formato eminemtemente pop a ser definitivamente relegado para primeiro plano e com o grupo a ter uma nova aúrea, completamente remodelada. Resta acrescentar que esta canção surge após o anúncio da edição do duplo DVD, The Reflektor Tapes + Live at Earls Court, que deverá ver a luz do dia já a vinte e sete de janeiro. Confere...


autor stipe07 às 21:26
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Sábado, 24 de Dezembro de 2016

Cœur De Pirate – Chansons Tristes Pour Noël EP

Cœur De Pirate - Chansons Tristes Pour Noël

Aproxima-se o natal e, como é hábito, algumas bandas aproveitam para gravar alguns temas ou conjuntos de temas relacionados com esta época tão especial, sejam versões de alguns clássicos ou originais. Chansons Tristes Pour Noël é um desses exemplos, um pequeno mas encantador EP de três canções, da autoria dos canadianos Cœur De Pirate de Béatrice Martin e Renaud Bastien.

Com dois temas cantados em francês e uma cover do clássico dos Wham Last Christmas, Chansons Tristes Pour Noël é um pequeno mas aconchegante instante natalício, perfeito para tocar na noite de consoada, naquela pausa entre o levantar das espinhas do bacalhau da mesa e a ascensão do leite creme ao primeiro plano da mesma, com uma elevada toada nostálgica e uma luminosidade muito peculiar. São canções que sobrevivem à custa de arranjos de cordas exuberantes, num cosmos natalício onde se mistura harmoniosamente a exuberância acústica da voz, conseguida através da combinação da guitarra com outros sons e detalhes.

Optimistas por natureza, estes dois músicos mostram-se maduros e conscientes, compondo num estágio superior de sapiência que lhes permite utilizar o habitual espírito acústico para se colocarem à boleia de arranjos de cordas tensos, dramáticos e melódicos e contar histórias que os materializam na forma de conselheiros espirituais sinceros e firmes e que têm a ousadia de nos querer guiar pelo melhor caminho, sem mostrar um superior pretensiosismo ou tiques desnecessários de superioridade. Espero que aprecies a sugestão...

01. Noël Sous Les Tropiques

02. Last Christmas

03. Pour La Première Fois, Noël Sera Gris


autor stipe07 às 15:08
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Segunda-feira, 25 de Julho de 2016

Weaves - Weaves

Jasmyn Burke (voz), Morgan Waters (guitarra), Zach Bines (baixo) e Spencer Cole (bateria), são os Weaves, um quarteto canadiano natural de Toronto, que depois de um excelente ep lançado há dois anos acaba de se estrear nos discos, de modo bastante promissor, com Weaves, onze canções abrigadas pela Kanine Records e que em pouco mais de meia hora cruzam os fundamentos do indie rock com alguns dos aspetos mais contemporâneos desse género sonoro, num resultado final que tem tanto de acessível como de inédito, criativo e agradavelmente refrescante e único.

No fuzz e no curioso efeito abrasivo da guitarra de Tick e, nesse mesmo tema, no baixo que marca a cadência das mudanças de ritmo de uma bateria frenética e numa voz que balança entre o lamento e vigoroso impulso, fica desde logo percetível que estes Weaves são audaciosos e vanguardistas, mas também não descuram uma vertente mais comercial, que melodicamente seja atrativa e possa fazê-los atingir uma apreciável franja de público mais jovem e que goste de sonoridades efusivas, viscerais e festivas. Se Birds & Bees e Candy contêm esse apelo pretensioso de conseguir usar o ruído como algo aditivo e dançável, já Shithole, por exemplo, tem um cariz mais sério e maduro, sem deixar de soar de modo refrescante e simultaneamente vintage, com os Pixies a serem uma referência marcante e óbvia, algo que a mais intimista e subtil Eagle também demonstra, assim como, na mesma toada, o clima mais sensual e desconcertante de Two Oceans.

Estes Weaves são assim, imprevisíveis, salutarmente impulsivos e animados e algo pervertidos até, sem deixarem de exalar uma atraente inocência e até um inusitado experimentalismo, expresso no arrojo de Coo Coo e Sentence e particularente reflexivo em Stress. Conduzidos por guitarras inspiradas, uma sapiência melódica invulgar e um irresistível travo festivo, apresentam-se humildemente ao grande público sem um denecessário glamour ou uma insípida limpidez sonora, mas antes com toda a honestidade que é possível existir no seio de uma banda de indie rock que quer apenas e só, como claramente se percebe, servir-se da música para celebrar um presente colorido, como se não houvesse amanhã. Espero que aprecies a sugestão...

01. Tick
02. Birds & Bees
03. Candy
04. Shithole
05. Eagle
06. Two Oceans
07. Human
08. Coo Coo
09. Sentence
10. One More
11. Stress


autor stipe07 às 12:03
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Quinta-feira, 5 de Maio de 2016

Suuns – Hold/Still

Num momento de enorme e justificada histeria coletiva devido ao novo álbum dos Radiohead, prestes a ver a luz do dia não se sabe bem quando, vindo de onde, como e com o quê, não deve passar em claro e despercebido aquele que poderia ser, para mim, o melhor lançamento discográfico desse grupo de Oxford depois de Kid A. Refiro-me a Hold/Still, um compêndio de onze canções com a chancela da Secretly Canadian e assinado pelo excelente projeto Suuns, um quarteto oriundo de Montreal, no Canadá. Os Suuns apareceram em 2007 pela mão do vocalista e guitarrista Ben Shemie e do baixista Joe Yarmush, aos quais se juntaram, pouco depois, o baterista Liam O'Neill e o teclista Max Henry. Estrearam-se nos álbuns em 2010 com Zeroes QC, três anos depois chegou o extraordinário Images Du Futur, um trabalho que lhes elevou o estatuto grandemente, trendo merecido enormes elogios, não só no Canadá, mas também nos Estados Unidos e na Europa, sendo este Hold/Still, o terceiro disco, a confirmação de estarmos na presença de um grupo especial e distinto no panorama indie e alternativo atual.

Fall, o primeiro tema do alinhamento de Hold/Still, coloca-nos bem no centro de um noise rock que não deixa de nos fazer recordar experimentações semelhantes ao que foi testado pelos Sonic Youth do início de carreira e logo depois, em Instrument, existe uma implícita dose de punk dance que enquanto nos aproxima de uma sonoridade algo amena e introspetiva, mostra-nos a abrangência destes Suuns e o modo quase impercetível como mesclam orgânico e sintético com propósitos bem definidos.

Na verdade, o que parece ser inicialmente apenas ruído, distorção e gritos desordenados, passa a debitar algo mais brando, com uma proposta de som muito mais voltada para um resultado atmosférico, definição que se amplia com evidência em UN-NO, canção onde o dedilhar e a distorção da guitarra oferece aquele toque experimental que nos faz crer, logo ao terceiro tema, que este é um disco colossal, do melhor que já ouvi este ano! E o pendor hipnótico, intenso e efervescente de Resistance e de Translate, assim como a rugosidade intensa e algo caótica de Brainwash, reforçam tal impressão com racionalidade objetiva, sobre um conjunto de canções com uma base sonora bastante peculiar e climática, uma proposta ora banhada por um doce toque de psicadelia a preto e branco, ora consumida por um teor ambiental denso e complexo. 

Com uma estrutura inicialmente lenta no decorrer das primeiras audições, o disco aos poucos revela uma variedade de texturas e transformações que parecem filtradas pelos atmosféricos ensinamentos da banda. É uma espécie de  psicadelia suja, que além da pafernália de sons sintetizados que contém, é banhada, ora por guitarras suaves, ora por loopings de distorção, numa união com uma certa tonalidade minimalista, que costura todas as canções do álbum, evitando excessos e onde tudo é moldado de maneira controlada, com acordes minuciosos e com a voz reduzida ao essencial, com todas as canções a soarem encadeadas, como se todo o disco fosse apenas uma única e extensa canção.

Assertivos e capazes de romper limites, os Suuns oferecem-nos, em Hold/Still, entre belíssimas sonorizações instáveis e pequenas subtilezas, um portento sonoro de invulgar magnificiência, com proporções incrivelmente épicas, um disco bem capaz de proporcionar um verdadeiro orgasmo volumoso e soporífero a quem se deixar enredar nesta armadilha emocionalmente desconcertante, feita com uma química interessante e num ambiente simultaneamente denso e dançável, despido de exageros desnecessários, mas que busca claramente a celebração e o apoteótico. Espero que aprecies a sugestão...

Suuns - Hold-Still

01. Fall
02. Instrument
03. UN-NO
04. Resistance
05. Mortise And Tenon
06. Translate
07. Brainwash
08. Careful
09. Paralyzer
10. Nobody Can Save Me Now
11. Infinity


autor stipe07 às 20:56
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Terça-feira, 5 de Abril de 2016

Scott Orr - Everything

Natural de Hamilton, no Ontário, o canadiano Scott Orr regressou em março último aos lançamentos discográficos com Everything, o quinto registo de originais da sua carreira e, mais uma vez, com a chancela da editora independente Other Songs Music Co.. Gravado num sotão no último meio ano, Everything marca o regresso do autor ao seu universo pessoal, através da habitual folk intimista, nostálgica e contemplativa que carateriza o seu catálogo, já que debruça-se sobre o final de um relacionamento que manteve durante dezasseis anos e, de algum modo, exorciza vários fantasmas que assolaram a sua vida pessoal mais recente.

O modo virtuoso como Orr consegue expôr-se e colocar-nos na primeira fila do exemplar exercício de catarse que é Everything, fica logo plasmado em By The Way, canção agridoce que abre com cândura, inspiração e apurada veia criativa um disco que explora a fundo as diversas possibilidades sonoras das cordas, acústicas e delicadamente eletrificadas, fazendo-o com uma tonalidade única e uma capacidade incomum, possível porque este músico é exímio no seu manuseamento e no modo como dele se serve para transmitir sentimentos e emoções com uma crueza e uma profundidade simultaneamente vigorosas e profundas.

Sempre com a folk na mira, como referi anteriormente, mas com um inconfundível travo pop a incubar da mente incansável de um músico maduro e capaz de nos fazer despertar aquelas recordações que guardamos no canto mais recôndito do nosso íntimo e que em tempos nos proporcionaram momentos reais e concretos de verdadeira e sentida felicidade, ou, no sentido oposto, de angústia e depressão e a necessitarem de urgente exercicío de exorcização para que consigamos seguir em frente, Orr é capaz de nos colocar a olhar o sol de frente com um enorme sorriso nos lábios, com a àspera Kids ou a delicada Soulmating, mas também desafia o nosso lado mais sombrio e os nossos maiores fantasmas no convite que nos endereça à consciência do estado atual do nosso lado mais carnal em Always Everything e no desarme total que torna inerte o lado mais humano do nosso peito na realista e racional Try to Be Good. Mesmo quando Scott Orr comete o pecado da gula e se liga um pouco mais à corrente em The Devil, fá-lo com um açúcar muito próprio e um pulsar particularmente emotivo e rico em sentimento, não deixando assim, em nenhum instante de Everything, de ser eficaz na materialização concreta de melodias que vivem à sombra de uma herança natural claramente definida e que, na minha opinião, atinge um estado superior de consciência e profundidade nos acordes únicos e lindíssimos da confessional Hundred Thousand Times.

Everything é alma e emoção e como documento sonoro ajuda-nos a mapear as nossas memórias e ensina-nos a cruzar os labirintos que sustentam todas as recordações que temos guardadas, para que possamos pegar naquelas que nos fazem bem, sempre que nos apetecer. Basta deixarmo-nos levar pelos ecos vigorosos do falsete do autor, para sermos automaticamente confrontados com a nossa natureza, à boleia de uma sensação curiosa e reconfortante, que transforma-se, em alguns instantes, numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia. Espero que aprecies a sugestão...

Scott Orr - Everything

01. By The Way
02. I’ll Do Anything
03. Soulmating
04. Undeniable
05. Still Waiting
06. Kids
07. The Devil
08. Try To Be Good
09. Hundred Thousand Times
10. Always Everything


autor stipe07 às 22:12
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