Terça-feira, 9 de Maio de 2017

Perfume Genius - No Shape

Cerca de dois anos e meio depois do excelente Too Bright, Mike Hadreas, aka Perfume Genius, está de regresso aos lançamentos discográficos com No Shape, o quarto álbum da carreira de um dos nomes mais excitantes do cenário musical alternativo, um alinhamento de treze canções editado através da conceituada Matador Records, gravado em Los Angeles e produzido por Blake Mills (Fiona Apple, Alabama Shakes, Laura Marling).

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Este músico norte-americano natural de Seattle anda há quase uma década a oferecer-nos momentos sonoros que, sendo essencialmente soturnos e abertamente sofridos, ampliam continuamente, disco após disco, as suas virtudes como cantor e criador de canções impregnadas com uma rara honestidade, já que são profundamente autobiográficas e, ao invés de nos suscitarem a formulação de um julgamento acerca das opções pessoais do artista e da forma vincada como as expõe, optam por nos oferecer esperança enquanto se relacionam connosco com elevada empatia.

No Shape, o novo trabalho de Perfume Genius, não foge de tais permissas, proporcionando-nos mais um emotivo e exigente encontro com o âmago do autor e toda a intrincada teia relacional que ele estabelece com um mundo nem sempre disposto a aceitar abertamente a diferença e a busca de caminhos menos habituais para o encontro da felicidade plena. E, num registo com várias canções que abordam a relação de Hadreas com Alan Wyffels, o seu namorado de sempre e colaborador musical, quando o músico dialoga connosco coloca sempre em cima da mesa emoção e delicadeza em simultâneo, o que acaba por provocar, quase sempre, um misto de tristeza e admiração do lado de cá. Este No Shape segue tal rumo porque sendo devidamente assimilado, espanta pelo seu realismo e provoca aquela lágrima fácil, tal é a profundidade com que relata histórias e eventos de ambos e que suscitam tudo menos indiferença.

Esta trama revela-se logo no início do disco com o registo quase à capella de Otherside, apenas acompanhado pelo dedilhar perene de três teclas do piano, a provocar inquietude e até um certo embaraço e depois Slip Away revela-se uma daquela canções em que se confere um retrato sincero de sentimentos, um tema que pode bem fazer parte de um manual de auto ajuda para quem procura forças para superar os percalços de uma vida que possa estar emocionalmente destruída.

Disco bastante dominado por uma voz que se faz acompanhar, geralmente, por esse ilustre piano, mas também por sintetizadores, que amiúde dão as mãos a  diferentes elementos percussivos e a violinos, errantes na subversão religiosa de Just Like Love e fulgurantes no profundo e intenso muro de lamentações a que sabe Choir, No Shape também não renega a crueza acústica e orgânica das cordas, exuberantes na encantadora Valley e mais rugosas e impulsivas, mas detalhisticamente ricas, em No Wreath, canção onde  a questão da identidade de géneros é abordada de modo explícito, nomeadamente o conflito permanente do artista entre aquela que é a sua dimensão física e a sua identidade enquanto ser humano realizado e feliz (I’m gonna peel off every weight, Until my body gives way, And shuts up). Aliás, esta é uma questão muito em voga no meio artístico norte-americano,com as questões da transsexualidade a serem cada vez mais arma de arremesso contra a opressão da direita mais conservadora.

Nada subtil, confiante, decidido e até, em certos momentos, algo descarado, Hadreas renova em No Shape o seu firme propósito de utilizar a música não apenas como um veículo de manifestação artística, mas, principalmente, como um refúgio explícito para uma narrativa que, sendo feita quase sempre na primeira pessoa, materializa o desejo de alguém que já confessou não conseguir fazer música se ela não falar sobre si próprio e que amiúde admite guardar ainda muitos segredos dentro de si. Os timbres distorcidos e a dinâmica melosa e emotiva e vintage de Die 4 You, são talvez o perfeito exemplo da forma como Mike criou neste trabalho, através de um aparato tecnológico mais ou menos amplo, caminhos de expressão musical inéditos na sua discografia e novas formas de se revelar a quem quiser conhecer a sua personalidade.

Se nos apraz partir nesta viagem de descoberta da mente de um homem cheio de particularidades, devemos estar também imbuídos da consciência de que temos, com igual respeito e apreço, de conhecer o lado mais obscuro da sua personalidade, um verdadeiro manancial que se em alguns provoca um sentimento de repulsa, noutros causa uma atração intensa, como se o uso da dor para transformar a intimidade de alguém em algo universal fosse afinal uma das estratégias mais bem sucedidas de abordar de modo genuíno as relações e a fragilidade humana. No Shape lança os holofotes não só sobre Mike, mas também sobre nós próprios, já que ajuda ao contacto e à tomada de consciência de muito do que guardamos dentro de nós e tantas vezes nos recusamos a aceitar e passamos a vida inteira a renegar. Espero que aprecies a sugestão...

Perfume Genius - No Shape

01. Otherside
02. Slip Away
03. Just Like Love
04. Go Ahead
05. Valley
06. Wreath
07. Every Night
08. Choir
09. Die 4 You
10. Sides
11. Braid
12. Run Me Through
13. Alan


autor stipe07 às 21:39
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