Segunda-feira, 30 de Novembro de 2015

The Pains Of Being Pure At Heart – Hell EP

Mestres do Indie pop, os norte americanos The Pains Of Being Pure At Heart estão de regresso aos lançamentos discográficos com Hell, um Ep com três canções, que além de apresentar uma nova roupagem do original homónimo, mais límpida e luminosa que a demo divulgada anteriormente, também inclui duas versões, Balled Of The Band, um original dos Felt e Laid, inédito dos britânicos James, que conta com a participação vocal de Jen Goma.

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Depois de um início de carreira, no final da década passada, em que esta banda de Brooklyn, Nova Iorque, apostou numa avalanchede ruídos e distorções com forte pendor lo fi, a verdade é que desde Days Of Abandon, o último longa duração da banda, a bitola sonora parece passar por um ambiente musicla, mais polido e acessível. E quer Hell, quer as duas covers mostram-se prodigiosas no modo como se apresentam envolvidas por um embrulho melódico animado pela forma divertida como Berman apresenta um novo conjunto de referências e propôe uma estética sonora livre de complicações e arranjos desnecessários.

Este ep é, portanto, uma espécie de som pop instantâneo, daquele que se coloca no leitor e basta clicar play, sem adicionar mais ingredientes à mente que o possiblitem absorver com detalhe e nitidez. Em suma, escorre pelos nossos ouvidos um alinhamento de três canções que não distorcem em nada a herança que o projeto deixou no disco anterior e que  uma doce exaltação da dream pop que caminha de mãos dadas com a psicadelia e até com um certo experimentalismo. Espero que aprecies a sugestão...

 

The Pains Of Being Pure At Heart - Hell

01. Hell
02. Ballad Of The Band
03. Laid


autor stipe07 às 18:05
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We Trust - We Are The Ones (ft. Diana Martinez)

O projeto We Trust, liderado por André Tentúgal, um realizador portuense que já trabalhou com os X-Wife, Old Jerusalem, FogeFoge Bandido e os Divine Comedy, nasceu há já alguns anos com a ajuda de vários amigos e contém já um interessante reportório musical que, segundo o próprio, é uma epopeia pop sobre a busca de novos lugares.

Com canções que falam de amor, de amizade, união, de tempo, espaço e mudança e de países abstratos sem barreiras físicas ou mentais e das quais todas se recordarão certamente da lindíssima Time (Better Not Stop), uma canção que soava a Primavera e antecipava um bom Verão, We Trust acaba de divulgar uma nova versão de We Are The Ones, um dos seus êxitos mais recentes e composição de lançamento de Everyday Heroes, o novo disco do grupo.

Com a participação especial da portuguesa Daina Martinez, esta é uma versão mais despida e minimalista relativamente ao tema original, que tem como temática o ideal de mudança, personificado não só nas pequenas evoluções que a vida de cada um de nós sofre e que são fator decisivo na nossa evlução pessoal, mas também nos grandes acontecimentos mundiais e que influem na deriva civilizacional.

Escuta-se We Are The Ones e a sensação que nos invade é de inequívoca certeza, já que estamos na presença de algo que nos preenche a alma, apesar de ter sido construído com simplicidade, tendo havido, certamente, um enorme cuidado na escolha dos arranjos. Confere...


autor stipe07 às 18:00
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Sábado, 28 de Novembro de 2015

Guy Garvey – Courting The Squall

Vocalista dos britânicos Elbow, Guy Garvey acaba de se estrear nos registos a solo com Courting The Squall, um trabalho que viu a luz do dia no final do passado mês de outubro e imbuído com um som épico e eloquente, mas particularmente intimista e luminoso e que exige profunda dedicação. Com as participações especiais de Nathan Sudders (The Whip), Pete Jobson (I Am Kloot), Ben Christophers e Alex Reeves, Courting The Squall foi, de acordo com algumas crónicas, etilicamente bem regado durante o período de gravação e a verdade é que o seu conteúdo verbaliza sonoramente uma necessidade quase biológica de se viver a ressaca emocional que as partidas e as chegadas de várias pessoas ao núcleo da nossa existência provocam no equilíbrio emocional de cada um, da autoria de um músico, compositor e enorme poeta que faz questão de ser profundo e conciso na hora de cantar a vida, mesmo que ela tenha menos altos que baixos, como quem precisa de viver um período menos positivo e de quebrar para voltar a unir.

Num disco perfeito para ser escutado num dia sem compromissos e em que sentimos necessidade de pensar em nós mesmos e no que nos rodeia, Guy Garvey mostra-se cada vez mais seguro na sua prestação vocal e fora do casulo sonoro que tipifica o adn sonoro dos Elbow, arrisca novos registos, mais expostos e enaltecidos. Apesar da recente dolorosa separação de Guy da escritora Emma Jane Unsworth, ainda é no amor e nas emoções fortes que esse sentimento exala, embrulhadas em temas simples, adornados com enorme versatilidade e um elevado pendor pop, que este autor sustenta um cosmos sonoro que o distingue dos demais. E isso encontra-se plasmado quer no ambiente clássico e charmoso do irrepreensível tema homónimo, assim como no esplendor da preciosa e inocente Harder Edges e na intensidade das cordas e do acordeão de Juggernaut. Mas é, no entanto, na crueza do blues e do jazz, exemplarmente replicada na graciosa Angelas's Eyes e de modo mais intimista e até algo boémio e lo fi, no dueto sensual que partilha com Jolie Holland na calorosa e aconchegante Electricity, canção que transforma o nosso leitor digital num antigo transistor de bobines, que Garvey se transforma num apurado artista, disposto a sair do nicho indie e alternativo para procurar atingir um universo mais abrangente e onde vão reinando várias referências obrigatórias da história da música da segunda metade do século passado, algures entre Paul Simon, Randy Newman e Sinatra. Seja como for, é no cinzento quase erótico que transpira do baixo de Unwind que, na minha opinião, se confere o momento maior de Courting The Squall, canção onde o minimalismo é apenas sinónimo de aparência, desfilando nela e perante os nossos sentidos uma coleção irrepreensível de sons inteligentes e solidamente construídos, enquanto Garvey nos sussurra ao ouvido tanto daquilo que carateriza a passagem de qualquer comum mortal por este mundo e, acima de tudo, a celebração da vida como uma dádiva que, tantas vezes com uma linha ínfima a separar o gozo supremo da perca mais dolorosa, deve ser aproveitada ao máximo.

Em dez canções onde abunda uma virtuosa complexidade no processo de composição e nos arranjos que as sustentam, Guy Garvey transforma as suas histórias pessoais em canções, numa cruzada sonora intensa, próxima e subtilmente encantadora e que faz deste músico britânico um poeta exímio a entender os mais variados sentimentos e confissões humanas, que sabe, de forma bastante peculiar e única, como converter simples sentimentos em algo grandioso, épico e ainda assim delicadamente confessional. Espero que aprecies a sugestão...

Guy Garvey - Courting the Squall

01. Angela’s Eyes

02. Courting The Squall
03. Harder Edges
04. Unwind
05. Juggernaut
06. Yesterday
07. Electricity
08. Belly Of The Whale
09. Broken Bottles And Chandeliers
10. Three Bells


autor stipe07 às 14:50
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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2015

The High Dials – In The A​.​M. Wilds

Montréal, no Canadá, é o poiso dos The High Dials, banda com uma década de carreira e de regresso aos discos com In The A.M. Wilds, o quinto trabalho do grupo, produzido por Marc Bell e que se inspirou na urbanidade boémia e noturna, que tantas vezes nos oferece o surreal e o inesperado, refletida neste alinhamento com texturas sonoras que privilegiam um punk rock algo sujo e lo fi, mas onde também não faltam texturas eletrónicas particularmente pulsantes e contemporâneas e com um elevado groove e um espírito shoegaze que se saúda.

Neste novo capítulo de uma carreira já com alguns marcos discográficos impressivos, os The High Dials oferecem-nos em canções quase sempre curtas, mas incisivas, um cardápio onde abundam boas letras e arranjos assentes num baixo vibrante, fabuloso em Yestergraves, adornado por uma guitarra jovial e criativa, onde se percebe que há uma forte vertente experimental e uma certa soul e também alguns efeitos e detalhes sintetizados, típicos da pop e do punk dos anos oitenta. A bateria e a secção ritmíca são, quase sempre bastante aceleradas, como se percebe logo na exuberante e luminosa Echoes And Empty Rooms, mas também na festiva e colorida On Again, Off Again. Mas temas como a enigmática Amateur Astronomeur ou a intuitiva Afterparty, canção conduzida por um inédito piano vintage, funcionam como contraponto ao restante conteúdo, graças a um ritmo diferenciado e melodias menos abertas e luminosas, mas claramente profundas e reflexivas. Outro tema com uma tonalidade muito vincada é Evil Twin, composição com uma rugosidade muito própria, onde baixo e sintetizador se cruzam com uma graciosidade incomum, ampliada por algumas cordas que vão deambulando em redor da melodia e que se tornam em excelentes tónicos para  potenciar a capacidade destes The High Dials em soprar na nossa mente e envolvê-la com uma elevada toada emotiva e delicada, fazendo o nosso espírito facilmente levitar e provocando um cocktail delicioso de boas sensações.

Disco com uma atmosfera sonora épica, positiva, sorridente e bastante apelativa, In The A.M. Wilds é um cenario idílico que abarca uma vasta miríade de influências e tiques sonoros, mas que balizam com notável exatidão o farol que ilumina o percurso musical desta banda, que tem sempre algo de novo e refrescante para nos oferecer e que geralmente recordar os primórdios das primeiras audições musicais que alimentaram o nosso gosto pela música alternativa. Espero que aprecies a sugestão....

The High Dials - In The A​.​M. Wilds

01. Echoes And Empty Rooms
02. Desert Tribe
03. Yestergraves
04. Impossible Things
05. The Barroom Fisher King
06. Flower On The Vine
07. Amateur Astronomer
08. D.U.I.
09. On Again, Off Again
10. Afterparty
11. Evil Twin
12. Club Stairs
13. Lake Of Light
14. Blank Spaces On The Map

 


autor stipe07 às 21:04
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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2015

Young Galaxy - Falsework

Os canadianos Young Galaxy de Stephen Ramsay, Catherine McCandless e Matthew Shapiro, regressaram aos discos no final deste mês com Falsework, um álbum produzido por Dan Lissvik e lançado através da conceituada Paper Bag Records e uma autêntica epopeia deste trio na busca de um som cada vez mais dançante, onde não faltam guitarras e sintetizadores posicionados com acerto. Seja como for, também não faltam temas com um clima paticularmente sombrio como é o caso de Factory Flaws, razão pela qual Falsework é um trabalho eclético, multifacetado e cheio de nuances sonoras capazes de cativar qualquer ouvinte.

Definitivamente numa galáxia muito mais distante do que a generalidade das actuais bandas, estes canadianos parecem decididos em voltar a colocar as guitarras na linha da frente e dar-lhes um protagonismo que esteve um pouco afastado de um projeto, mais apostado ultimamente numa faceta eminentemente sintética, nomeadamente depois de Ultramarine (2013), como se percebeu em Body e Factory Flaws, os dois anteriores registos dos Young Galaxy e que precederam esse disco. Ready To Shine, um dos momentos altos do disco, comprova este balanço subtil, mas real, entre diferentes mundos, mas é unânime a presença daquela faceta soul e uma particular alegria e luminosidade, nomeadamente nesta canção, não só patente nas cordas, mas também no próprio registo vocal, um optimismo que se saúda e que enobrece a cartilha sonora do projeto.

Oriundos do continente americano, tal não impede que estes Young Galaxy não olhem com um certo requinte para a pop nórdica dos anos setenta e oitenta e um ambiente de uma certa euforia que teve o auge nos anos oitenta e que muitos de nós recordam com saudade. No entanto, eles convertem a sonoridade dessa época para algo atual, familiar e inovador, ao mesmo tempo, com canções que se prendem aos nossos ouvidos com a mistura lo fi e os sintetizadores que definiam a magia da pop de há trinta anos atrás. Mesmo em momentos mais soturnos e melancólicos, como o acima referido, os Young Galaxy não se entregam por completo à tristeza e também criam canções que apesar de poderem ser fortemente emotivas também servem para dançar.

Falsework navega na luz entre o sintético e o orgânico, em dez canções onde a eletrónica é um elemento preponderante, mas a presença de outros instrumentos serve para ampliar o contraste e acrescentar novas cores a estes temas, que são, quase todos, muito cativantes. É uma eletrónica simples e intrigante, feita de intimismo romântico que integra uma espantosa solidez de estruturas, num misto de euforia e contemplação. Espero que aprecies a sugestão... 

Young Galaxy - Falsework

01. Wear Out The Ground
02. The Night Wants Us To Be Free
03. Factory Flaws
04. Body
05. Ready To Shine
06. Must Be Love
07. We’re No Good
08. Little Wave
09. Lean Into My Love
10. Pressure


autor stipe07 às 20:50
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Terça-feira, 24 de Novembro de 2015

We Are The City – Above Club

Oriundos de Vancouver, os canadianos We Are The City são Cayne McKenzie, David Menzel e Andrew Huculiak, um trio de regresso aos discos com Above Club, depois de já no início deste ano nos ter surpreendido com Violent, um trabalho produzido por Tom Dobrzanski e os próprios We Are The City e que abraçava a indie pop com o rock luxuriante, num ritmo e cadência certas, abraço esse que continha uma certa toada melancólica, alicerçada num salutar experimentalismo que compilava um interessante leque de influências, com uma óbvia filosofia vintage.

Above Club mantém a receita de Violent e neste disco conferimos uma dialética sonora assente numa liberdade de expressão melódica e criativa, que é a pedra de toque de oito canções feitas com guitarras levemente distorcidas e harmoniosas, banhadas pelo sol dos subúrbios e misturadas com arranjos luminosos e com um certo toque psicadélico. Logo na panóplia de efeitos e detalhes de Take Your Picture With Me While You Still Can percebe-se que este trio não está preso e limitado a uma fronteira sonora claramente definida, tateando diferentes espaços e espetros, plasmados em curiosos detalhes que, no caso de Keep On Dancing, tanto podem ser um simples toque num teclado, como uma batida compassada num tambor, à medida que os sintetizadores debitam, sem nexo aparente, variados ruídos que a voz e a guitarra ajudam a acomodar.

Genuínos, ecléticos e criativos, estes We Are The City não se intimidam na hora de compôr e deixam o arsenal instrumental que lhes foi colocado à disposição divagar livremente, compondo temas capazes de nos enredar numa teia de emoções que prendem e desarmam, sem apelo nem agravo, numa parada de cor, festa e alegria, onde terá havido certamente um forte sentimento de comunhão entre os músicos, pelo privilégio de estarem juntos e comporem a músicas que gostam.

Em Heavy As A Brick o trio aponta as agulhas para uma eletrónica algo minimalista, mas acessível, mas mesmo nesse tema a irregularidade da percussão, alguns efeitos metálicos e as variações de ritmo e de intensidade, abastecem uma filosofia sonora bastante aditiva e peculiar, que procura gravitar em torno de diferentes conceitos sonoros e esferas musicais, que transmitem, geralmente, sensações onde a nostalgia do nosso quotidiano facilmente se revê. Aparentemente crua e despida de conteúdo, Cheque Room é uma das canções que melhor condensa este casamento feliz entre dois mundos sonoros que nem sempre coexistem pacificamente, audível no modo como um simples efeito de uma guitarra elétrica, uma percussão estridente e um sintetizador deambulante se cruzam e dão as mãos para nos oferecer uma música perfeita para se ouvir num dia de sol, ali, no exato momento em que começa o nosso fim de semana e ao conduzirmos para casa começamos a sonhar. Mas a amplitude dramática que exala de Kiss Me, Honey também consegue este efeito intenso e algo inebriante.

A sirene estridente, o piano melancólico e o registo vocal sincero e incondicional que abrigam Lovers In All Things e o efeito abrasivo de Sign My Name Like QUEEN são apenas mais dois compêndios de detalhes que colocam a nú o imenso ecletismo destes We Are The City, capazes de nos levar à boleia dos seus pensamentos mais inconfessáveis, enquanto falam emocionadamente sobre o amor, deixando-nos descobrir plenamente a sobriedade sentimental que marca a intensa aúrea vincadamente orgânica e, por isso, fortemente sensual que envolve o trio, já que nestas canções consegues sentir a verdadeira personalidade do agregado sentimental que carateriza este projeto verdadeiramente único.

Ouvimos cada uma das oito músicas de Above Club e conseguimos, com clareza, perceber os diferentes elementos sonoros adicionados e que as esculpiram, com as guitarras a não se situarem sempre na primeira fila daquilo que se escuta, mas a serem o fio condutor que suporta aqueles simples detalhes que fazem toda a diferença no cariz que a canção toma e nas sensações que transmite. Este é um exercício prático claramente bem conseguido de conjugação de diversas camadas de instrumentos, que nos oferecem paisagens grandiosas e significativas, arrebatadores banquetes de sedução, servidas em bandeja de ouro, com um forte entusiasmo lírico que contorna todas as amarras que prendem a nossa alma, apresentando, desse modo, a notável disponibilidade dos We Are The City para nos fazer pensar, mexendo com os nossos sentimentos e tentando dar-nos pistas para uma vida mais feliz. Espero que aprecies a sugestão...

We Are The City - Above Club

01. Take Your Picture With Me While You Still Can
02. Heavy As A Brick
03. Keep on Dancing
04. Sign My Name Like QUEEN
05. Club Music
06. Cheque Room
07. Lovers In All Things
08. Kiss Me, Honey


autor stipe07 às 20:56
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Segunda-feira, 23 de Novembro de 2015

Foreign Diplomats – Princess Flash

Élie Raymond, Antoine Lévesque-Roy, Thomas Bruneau Faubert, Charles Primeau e Emmanuel Vallieres, são os Foreign Diplomats, uma banda canadiana oirunda de Montréal, que acaba de se estrear nos lançamntos discográficos com um compêndio de canções que são já um marco imprescindível e obrigatório neste ano repleto de novidades e registos sonoros qualitativamente incomuns. Gravado nos primeiros meses deste ano, o disco a que me refiro chama-se Princess Flash, foi misturado e produzido por Brian Deck e está disponivel através da Indica Records.

Este quinteto canadiano começa agora a traçar o seu percurso sonoro, mas já tem bem definidas as coordenadas para estilizar canções em cujo regaço festa e lisergia caminham lado a lado. Falo de duas asas que nos fazem levitar ao encontro de paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, um rock e uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos, teclados corrosivos no modo como atentam contra o sossego em que constantemente nos refugiamos e a voz de Élie que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

Se a audição de Princess Flash nos oferece vastas paisagens sonoras, nota-se, rapidamente, num ponto em comum em praticamente todas as suas canções. Começam, geralmente, por uma base instrumental minimal, aquela que vai sustentar o tema até ao seu ocaso, mas depois acontece sempre uma explosão sónica, feita de exuberância e cor, que do território mais negro e encorpado de Lies (Of November), tema que disserta sobre o dia a dia de um serial killer e alguns dos seus pensamentos mais obscuros, ao tribalismo percussivo de Comfort Design, ou o mais animado e até dançável de Queen+King, ocorre sempre num percurso triunfante e seguro, onde abundam guitarras experimentais, uma súmula muitas vezes quase impercetível entre epicidade frenética, crua e impulsiva e sensualidade lasciva, num resultado global borbulhante e colorido.

Bálsamo retemperador perfeito capaz de nos fazer recuperar o fôlego de um dia intenso, Princess Flash ruge nos nossos ouvidos, agita a mente e força-nos a um abanar de ancas intuitivo e capaz de nos libertar de qualquer amarra ou constrangimento que ainda nos domine. E fá-lo conduzido por uma espiral pop onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, através de um som esculpido e complexo, originando um encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. O minimalismo contagiante da guitarra em que se sustenta Lily's Nice Shoes!, mais um tema que nos desarma devido ao registo vocal e ao banquete percussivo que contém e a riqueza sintética que sobressai da tela por onde escorre uma amalgama de efeitos e ruídos, é um extraordinário exemplo do modo como esta banda é capaz de ser genuína a manipular o sintético, de modo a dar-lhe a vida e a retirar aquela faceta algo rígida que a eletrónica muitas vezes intui, convertendo tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico.

Com nuances variadas e harmonias magistrais, em Princess Flash tudo se orienta com o propósito de criar um único bloco de som, fazendo do disco um corpo único e indivisível e com vida própria, com os temas a serem os seus orgãos e membros e a poderem personificar no seu todo um groove e uma ligeireza que fazem estremecer o nosso lado mais libidinoso, servidos em bandeja de ouro por um compêndio aventureiro, mas também comercial, que deve figurar na prateleira daqueles trabalhos que são de escuta essencial para se perceber as novas e mais inspiradas tendências do indie rock contemporâneo, além de ser, claramente, um daqueles discos que exige várias e ponderadas audições, porque cada um dos seus temas esconde texturas, vozes, batidas e mínimas frequências que só são percetíveis seguindo essa premissa. Espero que aprecies a sugestão...

Foreign Diplomats - Princess Flash

01. Lies (Of November)
02. Comfort Design
03. Queen+King
04. Color
05. Flash Sings For Us
06. Lily’s Nice Shoes!
07. Beni Oui Oui
08. Mexico
09. Guns (Of March)
10. Crown
11. Drunk Old Paul (And His Wild Things)


autor stipe07 às 19:13
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Domingo, 22 de Novembro de 2015

City Calm Down - In A Restless House

Jack Bourke, Sam Mullaly, Jeremy Sonnenberg e Lee Armstrong são os City Calm Down, um quarteto australiano oriundo de Melbourne e que estreou nos lançamentos discográficos com A Restless House, um álbum que viu a luz do dia a seis de novembro, através da etiqueta I OH YOU.

Confessor particular regozijo cada vez que dou de caras com uma nova banda que se apresenta ao mundo à boleia de um post rock, com uma elevada toada punk e shoegaze. no caso destes City Calm Down, o deleite aumenta porpeceber que a essa fórmula sempre sedenta de novas renovações, adicionaram eficazmente o chamado krautrock que foi fazendo escola no universo sonoro alternativo desde a década de setenta. Temas como o efusivo, inebriante e inconsolávelmente emotivo Border In Control e a imponente Rabbit Run, o primeiro single de A Restless House, assentam os seus pilares instrumentais e melódicos em algumas das caraterísticas fundamentais do indie rock alternativo de cariz mais sombrio, que fez escola em finais da década de setenta do século passado e que tem atualmente nos nova iorquinos The National um dos expoentes máximos. Mas há que haver algum rigor nesta comparação, já que se a voz dos City Calm Down nos recorda claramente a postura de Matt Berninger, os instrumentos clamam por uma simplicidade incrivelmente sedutora. Seja como for, à medida que a teia sonora se diversifica e se expande, somos confrontados com um conjunto volumoso de versos sofridos, sons acinzentados e um desmoronamento pessoal que nos arrasta sem dó nem piedade para um ambiente épico e nostálgico que se recomenda, mesmo quando em Your Fix os City Calm Down procuram, com uma dança incisiva entre baixo e sintetizador, recriar com inesperada luminosidade aquela pop punk rock sintética e exultante que causou algum caos capilar na penúltima década do século passado.

É claramente recompensador perceber o modo como canções como a intrincada Son ou a mais intimista Wandering crescem em emoção, arrojo e amplitude sonora, sempre de forma progressiva, entoando um apelo sentido aos nossos sentidos para que se mantenham sempre atentos aquilo que a vida e a natureza têm para nos oferecer diariamente e que a pressa, o medo ou o simples desconforto, não deixam que ouçamos. E este alinhamento de In A Restless House é vigoroso no modo como incita o nosso lado mais humano e profundo a clamar por um óbvio sentido de urgência que nos deixe no final nos limites da nossa capacidade de sofreguidão, enquanto nos desafia a dançar ao som de canções quase sempre assentes num baixo vibrante adornado por uma guitarra jovial e pulsante, um sintetizador inspirado e uma bateria que nunca se faz rogada no momento de abanar com o nosso âmago.

Para ser devidamente apreciada e entendida, a música destes City Calm Down exige pulso firme e dedicação extrema, sem sacrifício e com disponibilidade total para se aceitar fazer concessões de modo a deixar que o poderoso edifício sentimental que a sustenta nos possa cobrir de fé e crença num amanhã melhor e diferente. Espero que aprecies a sugestão...

City Calm Down - In A Restless House

01. Intro
02. Border On Control
03. Son
04. Rabbit Run
05. Wandering
06. Your Fix
07. Nowhere To Start
08. If There’s A Light On
09. Falling
10. Until I Get By
11. In A Restless House


autor stipe07 às 19:23
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Terça-feira, 17 de Novembro de 2015

Bússola - Bússola

Conhecido por algumas deambulações pelo rock e pela eletrónica e que chegaram a incluir a composição de temas para jogos de computador, o leiriense Pedro Santo regressou á sua cidade natal em 2013, também cheio de vontade de criar uma banda, tendo assim nascido a Bússola, um quinteto que se serve da voz, guitarras, acordeão, contrabaixo e bateria para criar canções que vivem num certo cruzamento espetral e meditativo, que pode também ser uma receita eficaz para a preservação da integridade sentimental e espiritual de cada um de nós, duas das facetas que, conjugadas com a inteligência, nos distinguem a nós humanos, dos outros animais.

A Pedro Santo juntam-se neste projeto José Carlos Duarte (bateria), Adelino Oliveira (contrabaixo) e Tiago Ferreira (acordeão) e Nuno Rancho (voz e guitarra). Tudo começou com uma simples demo, que foi sendo trabalhada no verão desse ano de 2013, até se chegar ao produto final que é este Bússola, um EP com cinco canções editadas pela Omnichord Records e que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da folk, nomeadamente uma voz sentida, um dedilhar de cordas vibrante, arranjos de acordeão sublimes e a bateria, o contrabaixo e a guitarra elétrica a darem substância e cor às melodias.

Primeiro passo concreto para um longa duração que deverá chegar aos escaparates no próximo ano, Bússola é, na minha opinião, uma estreia particularmente inspirada, já que assenta numa certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgem nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do alinhamento uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Na verdade, o arsenal instrumental da contemplativa Come Home, que inclui um contrabaixo e as teclas de um acordeão, e o modo como se misturam com as cordas de uma viola, assim como a extrema sensibilidade que escorre do lindissimo registo vocal de Nuno, são sintomáticos da enorme fragilidade sedutora que este EP transpira por todos os poros.

Analisar a música destes Bússola e não salientar a voz de Rancho é desprezar um elemento fulcral da sua criação artística, já que ela torna-se num fio condutor das canções, seja através de um registo sussurrante, ou de uma performance vocal mais aberta e luminosa e que muitas vezes, casando com as cordas, contrasta com a natural frieza das teclas e da percussão, porque expondo-se à boleia de uma folk intimista e sedutora, esta não sobrevive isolada e ganha uma dimensão superior ao abrigar-se num arsenal de cordas que incorporam a densidade e a névoa sombria que esta música exige e que em The End Of time, o momento alto deste EP, ganha contornos superiores de magnificiência e majestosidade.

Uma análise justa a este Bússola só fica completa se não for colocada de parte a componente lírica destas cinco composições. De acordo com a banda, na entrevista que concedeu a este blogue e que podes conferir abaixo, as músicas espelham estados de espirito. Se por um lado estas músicas comprometem e se tornam algo incómodas quando temos de falar sobre elas, por outro são honestas e a verdade é que na escrita das canções, parece ter havido uma opção pouco ficcional e quase autobiográfica de escrever sobre aquilo que existe em redor, em vez de serem inventadas, na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais a banda nunca teria à partida de se comprometer

Bússola é de uma subtileza experimental incomum e, mesmo que à primeira audição isso não transpareça claramente, os temas estão carregados de sentimentos melancólicos; Cada música tem sempre algo de pessoal e há agregados sonoros que são já um referencial obrigatório de alguns dos melhores momentos musicais nacionais deste ano e que personificam uma arquitetura sonora que sobrevive num domínio muito próprio e que dificilmente encontra paralelo no cenário musical atual. Espero que aprecies a sugestão...

Bússola

Come Home
Looking For You
Uneasy
One Way Ride
The End Of Time

Antes de nos debruçarmos com algum cuidado no conteúdo de Bússola, o vosso primeiro registo discográfico, começo com uma questão clichê… Como é que nasceu este projeto?

Bússola nasce no verão de 2013 aquando o meu (Pedro) regresso à cidade de Leiria. Trazia comigo um conjunto de canções na guitarra que achei que faziam sentido trabalhar como banda. Assim, gravei uma pequena demo e convidei a malta para montar este projecto. 

Com cinco canções que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da folk, nomeadamente uma voz sentida, um dedilhar de cordas vibrante, arranjos de acordeão sublimes e a bateria, o contrabaixo e a guitarra elétrica a darem substância e cor às melodias, Bússola é, na minha opinião, uma estreia particularmente inspirada. Que tipo de anseios e expetativas criaram, no vosso seio, para este primeiro passo de um percurso que espero que venha a ser longo?

Este é o nosso primeiro trabalho discográfico. Embora seja um EP, depositámos neste disco bastante trabalho. Temos esperança que este disco seja a ponte entre a nossa música e o público, e que seja um teaser para o LP que contamos lançar em 2016.

Olhando um pouco para a escrita das canções, parece-me ter havido uma opção pouco ficcional e quase autobiográfica de escreverem sobre aquilo que vos rodeia, em vez de inventarem, na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais nunca teriam à partida de se comprometer? Acertei na mouche ou o meu tiro foi completamente ao lado?

Sim, acertaste na mouche. Conteúdo, acaba por não ser bem uma opção de escrita mas mais um reflexo expontâneo de momentos de reflexão sobre o passado. É raro haver uma ideia para um tema pre-concebida na composição e estas músicas espelham estados de espirito. Se por um lado estas músicas comprometem e se tornam algo incómodas quando temos de falar sobre elas, por outro são honestas, e não fariam sentido doutra forma. 

Confesso que o que mais me agradou na audição de Bússola foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, aquilo que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final, ou houve alterações de fundo ao longo do processo? Em que se inspiraram para criar as melodias?

A maioria dos temas neste disco nasce de canções na guitarra que são na sua essência  simples. No entanto existe muito trabalho nos arranjos. O processo de compor e trabalhar os arranjos raramente foi  linear ou simples, e houve na grande maioria dos temas deste EP bastante debate e experimentação, inúmeros avanços e recuos. Esta procura e experimentação na sala de ensaios acaba por definir a sonoridade que temos como banda. Se por um lado existe um cunho grande de folk na nossa música, considero que a nossa música não se apresenta de uma forma tão linear, e julgo que esse aspecto nos dá uma sonoridade algo singular.  

Adoro a canção The End Of Time. E o grupo, tem um tema preferido em Bússola?

Sim, também temos uma canção favorita. É o The End Of Time também. :)

Bússola foi produzido por um dos integrantes da banda, nomeadamente o Pedro Santo. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?

Confrontados com os custos e compromissos que evolvem gravar em estúdios acabamos  por optar por tomar essa decisão logo de início. Mais tarde e devido a alguns atrasos recorremos à ajuda da Suse Ribeiro dos estúdios Valentim de Carvalho que, para além da masterização do album, também misturou o tema Uneasy.

A Omnichord Records é a casa de alguns dos nomes fundamentais do universo sonoro musical nacional. É importante para vocês pertencer a essa família que parece apostar convictamente no vosso trabalho?

Estamos muito gratos em pertencer a esta família. A Omnichord têm sido incansável nos seus esforços para promover inúmeras bandas e o seu trabalho.  É com muito orgulho que vemos o nosso disco agora fazer parte do espólio da editora.


autor stipe07 às 22:55
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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2015

Jens Lekman – Ghostwriting EP

Após um breve hiato, o músico e compositor sueco Jens Lekman voltou às luzes da ribalta neste ano de 2015 com um assumido compromisso de todas as semanas compor e gravar um novo tema, através do seu projeto Smalltalk. Ghostwriting, o seu mais recente ep, é uma espécie de complemento desta hercúlea tarefa, um documento sonoro com cinco temas em que o autor e a banda que o tem acompanhado transformam as suas histórias pessoais em canções, assentes numa folk acústica intensa, próxima  e subtilmente encantadora.

Hábil poeta e permanentemente focado e apaixonado pelo processo de escrita e composição, Jens Lekman é exímio a entender os mais variados sentimentos e confissões humanas e fá-lo de forma peculiar, convertendo simples sentimentos em algo grandioso, épico e ainda assim delicadamente confessional.

Neste pequeno compêndio absolutamente obrigatório, Lekman mostra-se particularmente intimista e reflexivo, sobrepondo as palavras destes poemas escritos na sua linguagem materna  a uma menor exaltação instrumental, necessária e preciosa para a materialização de uma clara honestidade poética que, do modo como é plasmada por este ator, transforma-se num mecanismo eficaz de diálogo direto com quem se predispõe a ouvi-lo. Na verdade, Lekman é único e universal a traduzir com simplicidade musical tudo aquilo que gostaríamos de expressar em momentos de maior dor e melancolia e este EP comprova-o com notável bom gosto e exatidão. Espero que aprecies a sugestão...

Jens Lekman - Ghostwriting

01. Träskepp
02. Min Pappa Är Död
03. Det Måste Ha Varit Kärlek
04. Trollkarlen
05. Tekniskt Avregistrerad


autor stipe07 às 16:48
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