Sábado, 31 de Outubro de 2015

The Never Surprise – Winters EP

O projeto canadiano The Never Surprise, natural de Vancouver, nasceu em 2011 e começou por resultar de uma colaboração entre David Gaudet e Nick Eakins, que procurava a amibiciosa simbiose entre a folk e o indie rock com alguns detalhes da eletrónica à mistura. O adeus de Eakins ao projeto em 2013 foi um duro golpe, mas não o fim de The Never Surprise, que agora, iluminado pela mente única de Gaudet, acaba de editar um EP com sete canções, disponíveis para audição e download, com a possibilidade de serem obtidas gratuitamente ou doares um valor pelas mesmas, na plataforma bandcamp.

Contando com as importantes contribuições de nomes tão influentes como Adam Nanji (The Belle Game), Andrew Braun (Rococode), Robbie Driscol, (Hannah Georgas) and Niko Friesen (The Zolas), Gaudet conseguiu oferecer-nos, com Winters, um ambiente bastante relaxante. No Dispute, o tema de abertura, é um veículo precioso para a indução imediata do ouvinte neste inverno genuíno e contemplativo. A gentileza da guitarra elétrica e o eco da voz dessa canção são competentes na forma como abarcam diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos, uma mistura harmoniosa a exuberante, mas suave e confessional, que nos oferece um início de audição de Winters ameno, íntimo, mas também arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Daí em diante, o EP sobrevive à sombra de arranjos bem feitos, que prendem a atenção, alternando entre climas calmos e agitados, conseguidos através da combinação da guitarra com outros sons e detalhes, quase sempre precurssivos, mas que nunca roubam às cordas o merecido protagonismo. Por exemplo, se os sussurros do tema homónimo criam uma sensação curiosa e reconfortante que a introdução da bateria não esbate, já os efeitos rústicos de Limousine e o andamento da guitarra em Ocean, transformam a audição do EP numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia.

Winters emociona, inspira e ilumina, levando-nos para um lugar calmo e pacífico, onde podemos fugir da velocidade, do caos e da ansiedade da vida moderna, um lugar que, independente de géneros ou estilos, definitivamente só existe na música. Espero que aprecies a sugestão...

The Never Surprise - Winters

01. No Dispute
02. Winters
03. No Real Me
04. Limousine
05. Ocean
06. Aurelia
07. Picket Line


autor stipe07 às 22:57
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015

Alpaca Sports – When You Need Me The Most EP

Oriundos de Gotemburgo, na Suécia, os Alpaca Sports têm já um cardápio sonoro interessante e que tem apostado numa sonoridade com aquele espírito tipicamente nórdico, cheio de traços que cruzam pop e psicadelia, com uma tonalidade muito própria e que amplia o espírito claramente juvenil de canções que contêm, quase sempre, um ambiente festivo e uma luminosidade muito própria.

O conceito de intensidade, neste caso nas guitarras e na percussão, mas também nos efeitos e arranjos, é transversal às sete canções de When You Need Me The Most, o novo trabalho deste grupo, um EP que é também um mini álbum e que exalta aquela ligeireza juvenil, fazendo-o à boleia de melodias bastante orelhudas, simples no processo mas eficazes no modo como se entranham e às quais é,por isso, impossível resistir.

Just Like Them, a canção que abre o alinhamento de When You Need Me The Most é um excelente exemplo da capacidade inebriante que os Alpaca Sports têm de nos convidar a darmos as mãos e fazermos uma roda em seu redor, enquanto dançamos ao som de uma canção que brilha no modo como palpita, guiada por uma guitarra que parece ter vida própria e que em determinados instantes até nem receia ousar. Depois, e tomando como exemplo a notável e festiva Need Me The Most, canção que pisca o olho a um certo travo mais melancólico, ficamos impressionados pelo modo harmonioso como os Alpaca Sports conseguem, com particular doçura e convicção, não resvalarem nunca para exageros desnecessários, conseguindo assim manter intato um precioso charme genuíno e provando que estamos na presença de uma banda criadora de belos instantes sonoros, que se estendem pelos nossos ouvidos sem a mínima sensação de desconforto.

O que não falta neste trabalho são canções competentes na forma como abarcam diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e que dão expressão a letras que exaltam o lado mais festivo da existência humana. Além dos exemplos já referidos, quando no efeito curioso e na folk de There's No One Like You, nos metais e nos sopros de Where’d You Go e na inocência que brota de todos os acordes da efusiva I Love You esta banda sueca se serve da combinação da guitarra com outros sons e detalhes, nunca rouba às cordas o merecido protagonismo, plasmado com um romantismo e uma cândura que nos confrontam com a nossa natureza, uma sensação curiosa e reconfortante que transforma-se numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia.

Talvez seja do clima sueco, ou do frio polar que obriga a que mentes que viajam constantemente entre a ressaca e um estado mais ébrio, tenham de se aquecer de qualquer forma, a verdade é que estes Alpaca Sports conseguem esse efeito reconfortante através da sua música, sem dúvida uma excelente porta de entrada para um mundo mais ternurento e acolhedor. Espero que aprecies a sugestão...

01. Just Like Them
02. Need Me The Most
03. There’s No One Like You
04. I Love You
05. Where’d You Go
06. When I Hold You
07. My Favourite Girlfriend


autor stipe07 às 22:21
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Quinta-feira, 29 de Outubro de 2015

Silversun Pickups – Better Nature

Os californianos Silversun Pickups de Brian Aubert, Nikki Monninger, Christopher Guanlao e Joe Lester estão de regresso aos discos com Better Nature, um trabalho que irá ver a luz do dia no final do mês de setembro, através da New Machine Records, a própria editora da banda.

O esplendor do indie rock está de regresso com estes californianos Silversun Pickups, que ao quarto disco se mostram mais adultos, seguros do som que pretendem replicar e particularmente íntimos de uma monumentalidade que Cradle (Better Nature) anuncia sem reservas logo na abertura e as guitarras pesadas de Connection e as distorções de Pins And Needles reforçam. É um alinhamento de dez canções que procuram abordar o conceito de humanidade, explícito na temática de temas como Latchkey Kids e Friendly Fires e o melhor modo de se encaixar as vozes andrógenas de Aubert e Nikki Monninger com um arsenal instrumental que mistura, de modo assertivo, uma certa crueza e simplicidade com uma dose equilibrada de experimentalismo, patente não só nos efeitos selecionados para as guitarras, mas também com a inserção de alguns detalhes sintetizados, exemplarmente emparelhados, por exemplo, entre a percussão na soturna Friendly Fires, mas também nos tambores e no agregado de vozes e guitarras que sustetam o poderoso edifício sonoro que alimenta Tapedeck e qyue em determinado momento parece ter tudo para se desmoronar.

O baixo de Nikki e, acima de tudo, a presença da sua voz, por exemplo, no tema anteriormente referido, é também cada vez mais uma peça chave na condução melódica de temas que não receiam, em nenhum instante, apelar à memória daquela fita magnética mais bem cuidada e onde guardámos os nossos clássicos preferidos que alimentaram os primordios do rock alternativo, sem descurar o compromisso com uma estética muito própria e que, no fundo, não deixando de conter a contemporaneidade e o ideal de inovação que os Silversun Pickups merecem, procura, essencialmente, o louvável intuíto de nos fazer regressar ao passado e entregar-nos canções caseiras e perfumadas por uma herança que nos diz muito, enquanto navegam numa espécie de meio termo entre o rock clássico, o shoegaze e a psicadelia.

Um dos grandes trundos de Better Nature e que amplia esse piscar de olhos fiel a um outro tempo que, pelos vistos, não conhece fronteiras temporais, devido à modernidade deste projeto californiano é o modo como Aubert mistura a sua voz com as letras e os arranjos das melodias, o que faz com que o próprio som da banda ganhe em harmonia e delicadeza o que a distorção pode afetar, apesar de, felizmente, o red line das guitarras fazer cada vez mais parte do cardápio sonoro dos Silversun PickupsNightlight, o primeiro avanço divulgado do álbum, é um tema onde o habitual shoegaze dos Silversun Pickups é dominado por uma guitarra com efeitos que criam uma sonoridade vigorosa e visceral particularmente épica, mas também se destaca pelo modo como aa voz e os coros acompanham as variações de ritmo e intenisdade da canção. E em Circadian Rhythm (Last Dance), a voz, neste caso a de Monninger, é outro trunfo declarado, uma canção com uma toada mais pop, onde não falta a predominância das cordas eletrificadas, com os teclados e a própria bateria, com as suas variações de ritmo, cadência e andamento, a contribuirem decisivamente para o cariz contemplativo e contemporâneo do tema

Neste álbum, os Silversun Pickups mantêm uma sonoridade melódica, séria e apimentada com boas doses de distorção e guitarras ascendentes, bases saturadas de efeitos e as vozes dos dois protagonistas maiores do projeto cada vez melhor encaixadas. É uma coleção de canções de fortes inspirações noventistas, como já foi referido, mas que prova que estes norte americanos já deixaram de ser um promessa e são hoje uma das grandes certeza do rock alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...

Silversun Pickups - Better Nature

01. Cradle (Better Nature)
02. Connection
03. Pins And Needles
04. Friendly Fires
05. Nightlight
06. Circadian Rhythm (Last Dance)
07. Tapedeck
08. Latchkey Kids
09. Ragamuffin
10. The Wild Kind


autor stipe07 às 18:05
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Quarta-feira, 28 de Outubro de 2015

Mild High Club – Timeline

Escorre em pouco menos de meia hora pelos nossos ouvidos Timeline, o portentoso disco de estreia dos Mild High Club, a carapaça pop de Alexander Brettin, músico norte-americano fã de Todd Rundgren e Wire.

O esplendor das cordas de Club Intro e o baixo e o teclado de Windowpane, assim como a voz ecoante de Brettin e a chuva de metais que se espalha por este tema, vestem-nos com umas enormes calças à boca de sino, camisas com golas até ao umbigo, desabotoadas na mesma medida, uma barba farta e um florido colar ao pescoço e coloca-nos em redor de todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se deliciam com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

As guitarras são o combustível que inflama os raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro dos Mild High Club, feitas de acordes lentos, vibrações cruas bem audíveis, por exemplo em Not To Self e algumas distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez, tudo escorrido sem pressas e com um certo ar preguiçoso, como convém à solarenga califórnia que abriga Brettin. Mas a receita também se compôe com alguns teclados munidos de um interessante arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais e uma secção rítmica que vive de uma bateria com a cadência exigida pela dose de lisergia que escorre em cada tema, numa sobreposição instrumental em camadas, onde dentro de uma clara essência pop que tem sempre o experimentalismo em ponto de mira, busca também uma acessibilidade que procura fazer de Timeline uma ode imensa de celebração do lado mais estratosférico, descomplicado e animado da vida.

Com outros destaques além dos já citados, este disco só pode ser saboreado convenientemente se tiver for tida em conta a delicada sensibilidade das cordas que suportam a cândida melodia do belíssimo instante de folk psicadélica chamado You And Me e a monumentalidade comovente de The Chat, tema que conta com a participação de Ariel Pink e Weyes Blood. Estes são dois extraordinários tratados sonoros que resgatam e incendeiam o mais frio e empedrenido coração que se atravesse e plasmam, além do vasto espetro instrumental presente em Timeline, a capacidade que estes Mild High Club também têm para compôr peças sonoras melancólicas e apresentar o melodioso com elevada estética pop.

Felizes no modo como se estreiam nos discos com um acervo de canções único e peculiar e que resulta, certamente, da consciência que Alexander Brettin, o grande mentor do projeto, tem das transformações que abastecem a música psicadélica atual, os Mild High Club querem ficar ligados umbilicalmente e logo à partida à lista de referências essenciais na parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que tem inundado os nossos ouvidos ultimamente. Isso sucede porque Timeline é um tratado sonoro de natureza hermética, mas que não se furta a quebrar algumas regras da pop, nomeadamente na questão da crueza lo fi, e até de desafiar as mais elementares do bom senso que uma estreia quase sempre exige, preferindo impressionar pelo arrojo, mostrando-se assim genial no modo como dá vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Mild High Club - Timeline

01. Club Intro
02. Windowpane
03. Note To Self
04. You And Me
05. Undeniable
06. Timeline
07. Rollercoaster Baby
08. Elegy
09. Weeping Willow
10. The Chat (Feat. Ariel Pink And Weyes Blood)


autor stipe07 às 18:08
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Terça-feira, 27 de Outubro de 2015

Tom Furse - Child Of A Shooting Star EP

Membro dos britânicos The Horrors, Tom Furse também tem um projeto a solo, onde aposta em sonoridades mais etéreas e contemplativas. À boleia da Lo Recordings, o músico editou no ocaso do último verão Child Of A Shooting Star, um compêndio de quatro temas onde a eletrónica downtempo e a chillwave ditam regras, uma eletrónica sofisticada e ambiental, com um cariz quase minimal e cheia de detalhes preciosos, que dão às canções uma toada densa, mas bastante agradável.

Complexo, surpreendente e algo enigmático, Child Of A Shooting Star é um passeio inebriante por um universo alternativo que nos deixa em permanente suspense, tal é a profusão de sons e efeitos, uns facilmente identificáveis e outros mais indecifráveis. Por exemplo, Let your Body Go, um belíssimo instrumental eletrónico, destaca-se pela imensidão de detalhes sintéticos absolutamente deliciosos, mas o tempero tropical de Trans-Universal Express. Para o final ficou reservado o melhor momento do compêndio, com as cordas de Cloud Mountain a serem permanentemente rodeadas de flashes e loopings sintéticos vigorosos, mas que nunca colocam em causa a cândura e o embalo que o tema nos proporciona

Disponível no formato físico vinil e em formato digital, Child Of A Shooting Star é música para ser não só vivida, mas também experienciada, já que desafia o nosso estado psiquíco e nos convida a aceder a uma dimensão superior de letargia. É, no fundo, um extraordinário momento de puro relaxamento e de contemplação sonora que nos permite embarcar numa curta mas profunda viagem a um universo musical que se pode definir como uma espécie de funk cósmico, alicerçado em criações sonoras versáteis e exóticas e que resultam de uma fórmula legítima e louvável de um músico que parece estar particularmente aberto e disponível a encontrar um sopro de renovação. Espero que aprecies a sugestão...

1. Trans-Universal Express
2. The Ocean Is Teacher
3. Let Your Body Go
4. Cloud Mountain


autor stipe07 às 20:22
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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2015

Gui Amabis - Ruivo em Sangue

Depois do sucesso alcançado em 2011 com Memórias Luso/Africanas, o disco de estreia e onde ficaram logo patentes as tuas fortes ligações a Portugal, Gui Amabis regressou aos lançamentos em 2012 com Trabalhos Carnívoros. E agora, pouco mais de três anos depois, está novamente de volta com este lindíssimo Ruivo em Sangue, um trabalho composto e gravado entre São Paulo e Lisboa e que, de acordo com o press release de lançamento, carrega no gene a solidão insólita de caminhar à deriva pelas ruas da capital portuguesa.

Gui Amabis começa a destacar-se no seu percurso discográfico não só pela beleza das suas canções, mas também pela faceta poética e pelo superior dramatismo da sua escrita. Assumindo-se como um letrista que quer passar em cada canção uma mensagem explicitamente e que a mesma seja entendida e decifrada através dos sons que a acompanham, um objetivo que Amabis descreve em mais uma entrevista extraordinária que me concedeu e que podes conferir abaixo, este autor está cada vez mais exímio no modo como retrata o sonho e a realidade, muitas vezes de modo indistinto e com uma carga onírica e fortemente cinematográfica.

Havendo dedicação e gosto na audição da música de Gui Amabis, é fácil criar e imaginar personagens e ações na nossa imaginação à medida que a sua música flui pelos nossos ouvidos, torna-se espontânea a necessidade de recriar interiormente as histórias, muitas vezes autobiográficas, que ele nos conta. De facto, no momento de cruzar as notas com as letras e de modo a exacerbar o ideário das mesmas, o autor olha para este processo como um quebra-cabeças, um jogo, já que quando escreve uma letra, de certo modo ela já traz consigo o cenário melódico que a irá sustentar.

Assim, neste Ruivo Em Sangue, disco em que consta da lista de participações especiais nomes tão ilustres como Dustan Gallas, Regis Damasceno e Marcelo Cabral, escutamos esta faceta única da música de Amabis, que apesar de ter um cariz tão pessoal e íntimo, soa e sabe também a um ato coletivo de partilha de sonhos, ideias e sentimentos.

Se Trabalhos Carnívoros me tinha agradado pela bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, já em Ruivo em Sangue, apesar de o autor não dispensar a habitual exuberância ao nível dos arranjos e as constantes variações rítmicas, dois aspetos que Eles Eram Humanos, por exemplo, plasma claramente, este novo disco é mais direto, cru, visceral e vibrante. É, claramente, um disco mais rock e que prova que Gui continua a ser um mestre da melodia e um génio criativo, onde transpiração e inspiração se dividem em doses iguais para nos oferecer mais uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único. Confere, já a seguir, a entrevista que Gui Amabis concedeu a Man On The Moon e espero que aprecies a sugestão...

Depois do sucesso alcançado em 2011 com Memórias Luso/Africanas, o disco de estreia e onde ficaram logo patentes as tuas fortes ligações a Portugal, regressou aos lançamentos em 2012 com Trabalhos Carnívoros. E agora, pouco mais de um ano depois, com este lindíssimo Ruivo em Sangue. Conforme fiz da última vez que te entrevistei, começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as expetativas para este novo trabalho? Continuas a seguir o conselho do teu pai e a não criar expetativas, ou há algo escondido aí dentro de ti, um desejo ou uma meta muito pessoais que tenhas para este disco?

Começo então agradecendo o lindíssimo. Tenho mais vontades que expectativas. Quero tocar mais, a cada apresentação sinto que eu e meus parceiros ficamos mais perto, musicalmente. Por outro lado, como letrista, a vontade é que meu texto seja compreendido e assimilado. Acredito que todo músico quer ser ouvido, se não, acabaria por não emitir sons.

Pelos vistos, este é mais um capítulo da tua forte ligação a Portugal, país onde encontras as tuas raízes, já que, além de Ruivo em Sangue ter sido gravado entre São Paulo e Lisboa, conta histórias inspiradas em passeios solitários pela nossa capital. Será sempre de certo modo inevitável na tua carreira construir pontes sonoras entre os dois lados do atlântico?

Quero muito poder apresentar esse concerto em Portugal, a banda está muito feliz e dedicada à pesquisa musical. Penso em ir  com esse grupo e poder interagir mais com músicos portugueses, quando aí estive fiquei isolado por estar na fase de composição do disco. Portugal faz parte disso, sendo eu metade lusitano não posso pensar de outra forma que não seja essa. Isso acaba por ser marcante no som e no texto.

Continuas a fazer música de modo a retratar momentos da tua vida e a escrever para tentares entender os teus sentimentos?

Sempre escrevo sobre cenários familiares, não costumo inventar coisas. Não sei se tenho um objetivo ao escrever. Tenho me divertido com o jogo de compor, achar a melodia presente em cada frase, deixar que essa revele suas notas e modulações. Os assuntos chegam sem serem chamados.

Se Trabalhos Carnívoros me tinha agradado pela bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, já em Ruivo em Sangue, apesar de não dispensares a habitual exuberância ao nível dos arranjos e as constantes variações rítmicas, dois aspetos que Eles Eram Humanos, por exemplo, plasma claramente, parece-me que fizeste um disco mais direto, cru, visceral e vibrante. Um disco mais rock, digamos assim… Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, que idealizaste para o álbum inicialmente? E o resultado final correspondeu ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Na resposta acima falo um pouco disso, cada frase tem sua melodia, cada melodia sua harmonia, cada harmonia seu arranjo e cada arranjo sua cor. Tudo está ligado, é um processo mutante e quando vemos está pronto. Geralmente começo sem saber aonde vai dar.

Continuas a ser um mestre da melodia, um génio criativo no momento de cruzar as notas com as letras de modo a exacerbar o ideário das mesmas e na entrevista anterior confessaste que este processo é para ti como um quebra-cabeças, um jogo e que quando escreves uma letra, de certo modo ela já traz consigo o cenário melódico que a irá sustentar. Na hora de te sentares para escrever e de entrares no estúdio para compor, o processo de criação musical continua a ser assim tão fluído e espontâneo, ou com o passar do tempo e o aumento do teu cardápio sonoro, começas a sentir necessidade de ser mais racional e menos espontâneo? Em suma, qual é, neste momento, a percentagem de inspiração e transpiração em tudo isto?

(Risos…) Vejo que já conhece meu processo, pra mim a inspiração vem da transpiração. São muitos testes e erros até soar bem aos meus ouvidos.

Confesso que fiquei particularmente surpreso com a opção de disponibilizares gratuitamente o teu novo álbum em formato digital. Como surgiu a ideia e porque foste em frente?

Isso se tornou uma prática entre os músicos independentes do Brasil. Fica difícil não disponibilizar o disco sendo que todos os outros o fazem. O disco está em quase todas as plataformas digitais, portanto, se a pessoa quiser comprar ela pode. Deixo essa escolha para o ouvinte.

Graxa em Sal teve direito a um excelente vídeo que ilustra uma pintura da autoria de Biel Carpenter. Como surgiu a inspiração para um tão curioso e interessante vídeo?

Estávamos para lançar o disco e queríamos um video para isso. Pensamos em fazer um Video-letra, mas eu queria fazer algo com Biel, então lembrei dos programas que assistia quando criança, animações em stopmotion. Biel gostou e realizou junto com Antonio Wolff.

Mais uma vez, nos créditos de um trabalho teu constam nomes tão ilustres como Dustan Gallas, Regis Damasceno e Marcelo Cabral. Cada vez mais a tua música, apesar de ter um cariz tão pessoal e íntimo, soa e sabe também a um ato coletivo de partilha de sonhos, ideias e sentimentos, não concordas?

Concordo, gosto das ideias deles, me apresentam caminhos melódicos e harmônicos que não me são naturais. Estão se tornando parceiros muito importantes, além de Samuel Fraga e Richard Ribeiro.

Quando é que podemos ouvir estas músicas ao vivo por cá?

Espero que possamos ir em 2016, estamos a conversar com algumas casas de música em Portugal. Ficaria muito feliz em apresentar, em Portugal, as músicas que aí fiz.

Obrigado mais uma vez pela tua música… Sou cada vez mais teu fã! Abraço…

Obrigado, beijos!


autor stipe07 às 18:28
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Domingo, 25 de Outubro de 2015

Reverend And The Makers – Mirrors

Formados por Jon McClure, Ed Cosens, Laura McClure, Joe Carnall e Ryan Jenkinson, os Reverend and The Makers são uma banda natural de Sheffield e começaram a carburar em 2007, considerado por alguma crítica como o ano de ouro do índie, com o disco The State Of Things. Depois veio A French Kiss In The Chaos em 2009, um homónimo em 2012, e agora, pouco mais de três anos, Mirrors, considerado pela crítica como um dos cenários essenciais da indie experimental britânica deste ano.

Projeto que exala uma sonoridade com uma forte componente elétrica, mas sem renunciar às origens indie pop da banda, como se percebe em Makin' Babies ou na mais acústica The Beach And The Sea e muitas vezes encarnadas na voz firme de Jon McClure, líder e vocalista, estes Reverend And The Makers são uma daquelas bandas que caem no goto de quem procura a banda sonora ideal para um estilo de vida regado de excessos e decadência, mas apenas nos seus desejos mais recônditos. Na verdade, canções como Amsterdam ou a animada e festiva Blue transpiram hedonismo e percebe-se que McClure terá controlado, além do microfone, cada centímetro quadrado de um mundo em miniatura onde existe ao centro uma húmida pista que ele pretende personificar e que, à boleia de canções quase sempre curtas e diretas, se torna no palco por excelência de uma espécie de comemoração solitária, mas que exige constantemente que nos juntemos à festa. No entanto, o conteúdo geral de Mirrors não é propriamente interdito a menores, ou algo que se pareça.

Assim, além dos exemplos já referidos, instantes como El Cabrera ou a funky Mr Glassalfempty, canção conduzida por um baixo simplesmente fabuloso, são momentos preciosos onde este cantor assume o papel de reverendo e de forma sagaz, incisiva e eloquente, dita o destino de alguns dos seus demónios que poderão também ser nossos, já que coloca sentimentos próprios de alguém que vive guiado pela voz do coração no papel central das emoções ditadas pelas composições. Todo este altruísmo tem sido injustamente ignorado, mas talvez seja desta vez que Jon McClure se vai tornar, de pleno direito, num porta voz de uma geração que continua a ignorar a sua existência. Espero que aprecies a sugestão...

Reverend And The Makers - Mirrors

01. Amsterdam
02. Black Widow
03. Makin’ Babies
04. Stuck On You
05. The Beach And The Sea
06. The Trip
07. El Cabrera
08. Blue
09. Something To Remember
10. Mr Glassalfempty
11. The Gun
12. My Mirror
13. Last To Know
14. Lay Me Down
15. Mr Glassalfempty (Radio Edit)
16. The Trip (Radio Edit)
17. Makin’ Babies (Radio Edit)
18. Mirrors (Overproof Dub)


autor stipe07 às 21:26
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Sábado, 24 de Outubro de 2015

EL VY – Return To The Moon

Com o ocaso da digressão de promoção de Trouble Will Find Me (2013), o último disco dos norte americanos The National, os membros da banda resolveram virar agulhas para alguns projetos paralelos. Recordo, por exemplo, o projeto Pfarmers que se estreou com o espetacular disco Gunnera, para mim já um dos marcos discográficos deste ano, da autoria de um super grupo do qual fazem parte Danny Seim (Menomena e Lackthereof), mas também Bryan Devendorf, o baterista dos The National e Dave Nelson (David Byrne, St. Vincent, Sufjan Stevens).

Matt Berninger, o vocalista da banda nova iorquina, também resolveu apostar em algo diferente e juntou-se a Brent Knopf (Menomena, Ramona Falls) para produzirem juntos o disco de estreia de um projeto intitulado EL VY. Esse álbum intitula-se Return To The Moon (2015), chegou recentemente às lojas através da 4AD e logo pela amostra do single homónimo, o primeiro tema divulgado, percebeu-se que estes EL VY apostam as fichas todas na voz grave de Berninger, mas os arranjos melódicos, o refrão simples e os versos acessiveis indicam uma explícita toada mais pop e luminosa do que o habitualmente escutado nos The National, ampliada também por boas guitarras e alguma sintetização.

Ainda mal se estrearam, mas a verdade é que estes EL VY carregam já uma aúrea intensa, que faz deles  foco de atenção, devido à carreira longa e qualitativamente elevada dos seus membros com ambos, e em especial Berninger, a serem um dos nomes fundamentais da cultura musical do novo século. Na verdade, este Return to The Moon é uma verdadeira jornada sentimental e realística pelos meandros de uma américa cada vez mais cosmopolita e absorvida pelas suas próprias encruzilhadas, uma odisseia heterogénea e multicultural oferecida por um projeto visionário que encarna atualmente um desejo claro de renovação, explorando habituais referências dentro de um universo sonoro muito peculiar e que aposta na fusão de rock, com a pop, o jazz e a folk, de uma forma direta e luminosa, mas também, em alguns instantes, densa e marcadamente experimental.

É evidente a sensação de prazer que qualquer conhecedor profundo da carreira dos músicos dos EL VY sente ao escutar este trabalho e acaba por ser natural expressarmos aquilo que sentimos acerca de Return To The Moon, exalando uma excitante sensação de alívio, porque se mantém intocável a vontade e a capacidade criativa destes autores para a renovação constante do seu ambiente particular, sem colocar em causa algumas permissas essenciais que identificam e tipificam o som específico dos seus projetos de origens. Se o tema tema homónimo deslumbra pelo esplendor das guitarras e o acerto dos teclados, a rugosidade algo jazzística de I’m The Man To Be e o dedilhar das cordas de Paul Is Alive, conjugado com os arranjos percussivos inéditos e outros recursos sonoros de cariz geralmente sintético, exprimem o modo asseado e inspirado como esta nova banda olha para as tendências atuais mais bem aceites pelo público. Need A Friend e  Happiness, Missouri acabam por ser o auge desta evidencia, pela forma como os EL VY exploram nessas canções uma ligação estreita entre a psicadelia, o rock alternativo e a pop, através de uma certa ironia pouco comum, mas com resultados práticos extraordinários.

Depois, no restante alinhamento de Return to The Moon, são outros os exemplos do modo como os EL VY em vez de se fecharem no seu próprio casulo, parecem estar muito atentos à realidade atual, enquanto se mostram particularmente inspirados e num elevado nível qualitativo na visão caleidoscópica que plasmam nesta estreia. O cariz boémio e nublado que dá vida à alegoria funk pop Silent Ivy Hotel, um tema que não receia abusar dos detalhes eletrónicos e de outros detalhes metálicos é outro sinal claro desse avanço, que a riqueza dos arranjos das cordas da reflexiva It's A Game, o ambiente nostálgico de No Time To Crank The Sun, ou as guitarras e o xilofone de Sleepin’ Light, tema que conta com a participação espeical de Ural Thomas, também evidenciam.

Tentativa bem sucedida de oferecer algo inovador, empolgante e orquestralmente rico, Return To The Moon é um álbum heterógeneo onde se cruzam diversos espetros sonoros com impressionante bom gosto e onde se escuta um certo caos, sempre controlado e claramente ponderado, rico, exuberante e impecavelmente produzido. Nele, estes EL VY oferecem-nos onze canções que borbulham um forte sinal de esperança e de renascimento, sementes que vão provavelmente conquistar para o grupo públicos diferentes daqueles que acompanham os projetos de onde os músicos são originários. Espero que aprecies a sugestão...

EL VY - Return To The Moon

01. Return To The Moon (Political Song For Didi Bloome To Sing, With Crescendo)
02. I’m The Man To Be
03. Paul Is Alive
04. Need A Friend
05. Silent Ivy Hotel
06. No Time To Crank The Sun
07. It’s A Game
08. Sleepin’ Light (Feat. Ural Thomas)
09. Sad Case
10. Happiness, Missouri
11. Careless


autor stipe07 às 21:21
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Zaflon - Blink

Uma das novas apostas da etiqueta londrina Lost In The Manor é o produtor local Zaflon, que começou a ganhar alguma notoriedade graças a parceiras proveitosas com  Jamie Woon and Royce Wood Junior, mas que está decidido a mostrar ao mundo as suas próprias criações sonoras. E foi no passado dia nove de outubro que nos ofereceu a primeira, um tema intitulado Blink e que conta com a participação especial da cantora Mina Fedora.

Com uma sonoridade invulgar devido a modo como mescla detalhes tipicamente urbanos com outros mais exóticos, nomeadamente o uso de um sample de sons naturais capatado por músico oriundo da Papua, Nova Guiné, Blink plasma uma eletrónica inspirada e de forte pendor psicadélico, que irá certamente encher as medidas de quem aprecia algo de verdadeiramente invulgar e inovador e que coloca Zaflon sob os radares mais atentos. Confere...


autor stipe07 às 15:34
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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2015

Telekinesis – Ad Infinitum

Oriundo de Seattle, o baterista e compositor norte americano Michael Lerner é um nome cada vez mais emergente e respeitado no cardápio da Merge Records. Refiro-me ao cerebro por trás do projeto Telekinesis que tem em Ad Infinitum o seu disco mais recente, um álbum que viu a luz do dia a dezoito de setembro e já o quarto do cardápio desta banda que começou o seu trajeto com um homónimo em 2009 e ao qual se seguiram ainda 12 Desperate Straight Lines (2011) e Dormarion (2013).

Embrenhado na cave da sua cidade natal onde tem o seu próprio estúdio de gravação e a passar um momento pessoal feliz já que se casou recentemente, Lerner procura sempre, de disco para disco, ser mais ambicioso e extrovertido no modo como aborda o universo da pop, mas sem descurar uma sonoridade bastante elétrica e próxima do rock n'roll. É uma demanda sonora que, como se percebe logo em Sylvia, olha sem receio para o alto de uma grandiosidade sonora e melódica que não anseia calcorrear os caminhos sempre arriscados e os desafios que o experimentalismo progressivo geralmente coloca. Seja em baladas tranquilas conduzidas pelas teclas sintetizadas, como In A Future World, ou outras composições mais agitadas, como Courtesy Phone ou a inspiradora Farmers Road, esse conceito de amplitude e até alguma magnificiência está sempre presente, normalmente abrigado numa série de camadas eletrónicas e percussões frenéticas, com os timbres de voz a serem frequentemente editados e permeados por uma atmosfera quase espacial, num resultado final com um forte apelo a um saudosismo vintage que se saúda. A sequência final Ad Infinitum part. 1 Ad Infinitum part. 2 acaba por ser o instante sequencial nevrálgico desta demanda quase obsessiva, mas saudável, porque todo o arsenal instrumental utilizado, mas também o acerto e o bom gosto da voz, nomeadamnete no modo como enfatiza o cariz fortemente sensorial da escrita de Lerner, conseguem replicar alguns dos alicerces essenciais do género sonoro em que o disco se quer legitimamente situar.

De facto, Telekinesis está cada vez mais confiante e assertivo no modo como agrega os sintetizadores com as guitarras e fá-lo, em Ad Infinitum, enclausurado numa espécie de máquina do tempo que o levou e depois nos leva até ao período mais aúreo e exuberante da synth pop e a new wave, em plena década de oitenta do século passado. Basta apreciarmos comodamente a batida cadenciada e um tanto sonhadora do single Sleep In e logo se percebe que, felizmente, este músico menos efusivo e mais reflexivo e sonhador não está nada preocupado em agradar às massas e sem intenções comerciais imediatas, mas antes imbuído de ambições e anseios bem maiores e superlativamente recompensadores. Espero que aprecies a sugestão... 

Telekinesis - Ad Infinitum

01. Falling (In Dreams)
02. Sylvia
03. In A Future World
04. Courtesy Phone
05. Sleep In
06. Edgewood
07. It’s Not Yr Fault
08. Farmers Road
09. Ad Infinitum Pt. 1
10. Ad Infinitum Pt. 2


autor stipe07 às 21:19
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